segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Algo Lovecraftiano no Peru - A Misteriosa mão de três dedos


Menos de dois meses após a revelação de uma minúscula cabeça humanoide no Peru, surge uma segunda e estranha descoberta que é consideravelmente menos humanoide e mais... er, o que diabos, é isso?

A mão alegadamente descoberta no interior de uma tumba Inca ancestral possui apenas três dedos extremamente longos - sem polegar, mas com estranhas características que tornam o seu reconhecimento difícil. Não há nenhum animal conhecido na natureza cuja anatomia possa ser encaixada nessa peculiar configuração. Nada que seja nem remotamente semelhante. E se ela não pertence a nenhum ser terrestre, bem, por definição ela deveria ser extra-terrestre.

Seria possível que o estranho artefato pertença a algum ser alienígena? Seriam os dedos alongados um indício de que seu crânio também seria alongado como os descobertos no próprio Peru? Quem manteve essa coisa guardada e com qual propósito?


Assim como ocorreu com o crânio encontrado no início de novembro (cuja imagem pode ser vista mais abaixo), os detalhes divulgados a respeito da mão foram escassos. A página Hidden Inca Tours liberou algumas informações e fotografias. O site afirma que a mão foi trazida para eles pela mesma pessoa que lhes forneceu o crânio. O homem que preferiu se manter no anonimato disse apenas que as peças estavam no interior do que ele chamou de um Templo Inca antigo e que até então encontrava-se selado. Ele não deu maiores detalhes a respeito do local, mas disse que ficava nos arredores da cidade de Cuzco, no passado um dos berços da Civilização Inca. É de Cuzco que provém grande parte dos artefatos encontrados, inclusive os mais enigmáticos como os crânios de cristal, peças de artesanato incomuns e crânios alongados.

O homem contou que o Templo contém outros artefatos, mas que esses só seriam entregues mediante pagamentos em espécie. Ainda segundo o sujeito, muitos dos artefatos restantes eram tão incomuns e chocantes que ele mesmo ficou em dúvida sobre removê-los do lugar, temendo a repercussão e a reação das pessoas. Caçadores de Tumbas são relativamente comuns no Peru, um trabalho perigoso e clandestino já que a remoção e venda de artefatos arqueológicos constitui um crime contra o Patrimônio Histórico.

Exames de raios-X na mão mumificada mostraram que os dedos extremamente longos e finos possuem seis ossos e cinco falanges ao invés de duas ou três como ocorre normalmente nos seres humanos. O que deveria ser a palma da mão aparenta ter sido fraturado em pequenos pedaços de osso.


Uma aproximação da extremidade evidencia que ainda há restos de pele e na ponta do dedo existe uma unha bem feita. Infelizmente as unhas dos demais dedos se perderam. Há algo ainda mais curioso e intrigante, pequenos fragmentos de metal foram fixados diretamente no osso.

Seria possível que os fragmentos fossem algum tipo de implante cirúrgico colocado com objetivo ainda ignorados? E se sim, o que eles permitem e quem teria conhecimento suficiente para inserir metal diretamente nos ossos?

Os tais fragmentos metálicos parecem ser de uma liga pura de aço e tem a forma de anéis que se ajustam internamente nas falanges.

Uma vez que o objeto foi obtido ilegalmente, o governo peruano deu início a um processo para reaver a mão e o crânio descobertos recentemente. Essa é uma política procedimental comum em vários países da América Central e do Sul que possuem leis bastante severas contra remoção de artefatos de seus sítios arqueológicos. Até mesmo a análise desses artefatos é proibida pela legislação, tecnicamente para evitar qualquer dano aos artefatos.

Por conta desse inbroglio legal, a mão que se encontra em território Norte-americano não pode ser testada e portanto seu DNA ainda não pode ser realizado.


De um ponto de vista histórico, não se sabe de nenhuma cultura pré-colombiana que praticasse algum tipo de procedimento para alongar os dedos. Sabe-se entretanto de povos que realizavam cirurgias em bebês com o intuito de alongar o crânio usando para isso tornos que modelavam a moleira dos recém nascidos. Os especialistas que tiveram acesso a fotografias determinaram que ainda é cedo para dizer se a mão pertence a um ser humano, ou a algum tipo de mamífero de grande porte.

As primeiras declarações de especialistas sobre a mão não apontam para qualquer direção.

Não há informações suficientes para dizer do que se trata ou de onde a coisa pode ter vindo. Não há nenhum mamífero de três dedos com uma estrutura óssea semelhante, nem mesmo coalas (que possuem três dedos, mas também tem polegares) e preguiças gigantes (que poderiam se assemelhar, mas que não possuem unhas nem remotamente parecidas com as da mão).


Eliminando-se humanos e também mamíferos, restam poucas opções. Se a mão não passa de uma farsa, como é bem provável, ela é extremamente bem engendrada e suficientemente bem realizada a ponto de confundir especialistas. Se o exame de DNA revelar que ela não possui uma estrutura comum, o que podemos supor além de que ela tem origem extra-terrestre? E se o resultado for esse, será que os responsáveis irão divulgá-lo ao público?

*     *     *

Bom, nunca se sabe...

O mais provável é que essa "mão alienígena" seja um hoax, mas ainda assim é bem curioso.

Mas quem sabe a mão possa pertencer a uma das criaturas do Mythos, talvez um Andarilho Dimensional ou um Servo de Glaaki ferido em algum momento do passado remoto. O membro pode ter sido recolhido, mantido por séculos por alguma civilização como um artefato bizarro, um lembrete da visita de deuses... ou demônios!

Algum teórico de conspirações certo dia disse:

"Na ausência de uma explicação razoável, qualquer explicação, não importa quão absurda, é tão válida quanto as demais". 

Vamos ficar atentos para novas informações sobre esse artefato.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Através das Dimensões - Anatomia dos Andarilhos Dimensionais


Nós olhamos para o céu noturno e acreditamos ver inúmeras possibilidades. Horror e beleza entrelaçados entre as distâncias cósmicas e golfos de espaço que separam estrelas. O potencial de exploração é infinito.

Mas existem certos livros, tratados ancestrais que apontam para uma outra verdade aterrorizante. Eles insinuam que o universo é ainda maior do que podemos imaginar, muito mais vasto que nós podemos conceber, apenas uma faceta de uma joia infinita. Entre os espaços do que chamamos de realidade existem mundos paralelos, dimensões dispostas lado a lado em uma infinita miríade de realidades distintas, cada qual com suas próprias leis naturais.

O cabalístico Livro de Eibon talvez seja o mais respeitado tratado a falar das múltiplas dimensões que acercam o tecido da realidade. Como cortinas diáfanas eles se interpõem consecutivamente, tal como paredes que dividem os planos em camadas. Eibon, o ancestral feiticeiro Hiperbóreo que redigiu o livro que leva seu nome, descreveu algumas dessas dimensões: falou de esferas de céu púrpura, chão de vidro moído e infindáveis mares de mercúrio. Mencionou planos inteiros tomados por ar espesso carregado de eletricidade estática e de miasmas que brotam do solo pantanoso. Falou de mundos preenchidos por névoas cinzentas e indevassáveis, onde espreitam raças de predadores insectóides que vivem da caçada e que podem atingir dimensões colossais. 

Aludiu a respeito de mundos líquidos, sólidos, vaporosos, de lodo primal e com desertos de areia revolta, soprada por vendavais capazes de arrancar carne e limpar ossos. A maioria das dimensões planares são absolutamente insalubres, incapazes de sustentar a permanência humana por mais do que alguns instantes. O calor extremo, o frio absoluto, a pressão esmagadora, os ares nocivos, as substâncias presentes na atmosfera, tudo conspira para a morte. Cada elemento é suficiente para matar os homens que altivos avançam através das passagens dimensionais. O próprio Eibon diz em seu tomo que "tolo é aquele que crê poder explorar as infinitas realidades sem tomar as devidas precauções ou conhecer previamente o que irá encontrar além das passagens". Ele bem sabia dos riscos de transpor o arcabouço de tais latitudes. Atingir os potentados do além, afinal, não é tarefa simples ou para os fracos.

O fato de existirem lugares tão daninhos ao ser humano, no entanto, não significa que estes sejam destituídos de criaturas nativas. É preciso compreender, entretanto, que tais planos, por serem em essência dessemelhantes ao nosso, geram formas de vida exóticas, aberrantes para nossas concepções e padrões. Tais seres são o anátema da natureza terrestre, não havendo termos de comparação capazes de exprimir suas formas. Para todos os efeitos, eles são tão estranhos, tão imensamente alienígenas que em muitos casos, o mero vislumbre de suas formas bizarras é suficiente para fraturar nossa sanidade.


Ao longo da história humana, a vacilante exploração das múltiplas dimensões, empreendida por feiticeiros capazes de romper a barreira dimensional , revelou a existência de habitantes nestes rincões distantes. Pode-se dizer sem receio que na maioria das vezes, o contato com esses seres dimensionais resultou em desastre. Tais criaturas não parecem compreender a natureza humana e julgando que esses visitantes são estranhos à sua realidade, tendem a adotar uma postura hostil. Não é de todo estranho esse comportamento beligerante; é preciso compreender que homens reagiram da mesma maneira. Ao se deparar com seres de outras realidades, buscam simplesmente aniquilar ou afugentá-los. O temor é uma constante recorrente na maioria das experiências pioneiras de contato entre espécies.

Os peregrinos planares cunharam vários termos para nomear as criaturas do outro lado. 

Chamaram-nas de Dançarinos do Véu, na antiga Roma, um termo emprestado dos feiticeiros etruscos, usaram o nome Trôpegos Vacilantes na Babilônia para reportar uma de sua características mais marcante, o andar desajeitado. Os Egípcios os chamaram de Rastejadores Dimensionais, enquanto outros preferiram identificá-los como "Os que vivem além", um termo presente na edições grega do Necronomicon de Philletas. Mas foi com o nome Andarilhos Dimensionais que eles se tornaram mais conhecidos entre os estudiosos da Metafísica e pesquisadores dos Mythos de Cthulhu.

De fato, o termo Andarilho Dimensional é reminiscente dos teóricos iluministas que o cunharam provavelmente no século XVII, sendo utilizado até os dias atuais. Paracelsus, o famoso filósofo alquimista os conhecia por este nome, Ludwig Prinn, assim os anunciava no décimo oitavo capítulo do Vermiis Mysteriis, bem como o célebre Dr. John Dee, um dos copistas responsável por traduzir o Necronomicom, os identificava para o idioma bretão - Ye Dimensional Shambler.

As diversas interpretações, os nomes pelos quais são conhecidos, além da farta documentação em tratados esotéricos, podem sugerir ao leitor que a natureza dessas criaturas é compreendida, contudo, nada poderia estar mais distante da realidade. É frustrante constatar que não se sabe praticamente nada a respeito desses seres, salvo o seu nome e breves descrições sobre sua aparência física. E mesmo estas observações são insuficientes para lançar uma luz assertiva sobre o que eles são. Supõe-se que sejam entidades capazes de caminhar por entre os planos e mundos do universo, vagando entre as dimensões sem se fixar permanentemente a uma.

Não há um consenso de como eles engendram essa façanha, mas fato é que os Andarilhos, simplesmente são capazes de se deslocar entre um plano e outro, meramente avançando em seus passos cambaleantes. Ao cruzar os limites de uma dimensão, o Andarilho cria uma descarga de eletricidade estática que recobre seu corpo e se manifesta na forma de faíscas azuladas que lambem seu corpo produzindo um ruído característico de estalidos. Um cheiro de ozônio tende a permear o ar, momentos antes da barreira ser perfurada. O surgimento de um Andarilho é uma apoteose de centelhas e lampejos elétricos que se espalham, por vezes luzindo como fogo-fátuos ou luzes multi-cromáticas. Em outras instâncias, fala-se de um disco de luz, suspenso no próprio ar, como um portal através do qual a criatura emerge, carregando consigo uma substância plasmática e viscosa. Para alguns seria aliás, essa a real natureza do ectoplasma.


Seja como for, os Andarilhos são capazes de se manifestar fisicamente em diferentes dimensões, e se manter nestas indefinidamente. No momento em que se dá por satisfeito, o Andarilho retorna para seu lugar de origem, ou para um outro plano de sua escolha, simplesmente mergulhando em um novo portal ou se deixando envolver pelas faíscas azuladas. Não se sabe de Andarilhos dispostos a adotar dimensões adjacentes como um novo lar. Inexistem casos em que tais criaturas escolheram se estabelecer permanentemente em nossa realidade. Se tal coisa é viável, ou não, também não se sabe. É provável, entretanto, que os Andarilhos Dimensionais não sejam adaptáveis à nossa dimensão e que uma estadia prolongada seja potencialmente letal. Tentativas de aprisionar ou estudar o comportamento destas criaturas jamais tiveram resultado, dada a óbvia impossibilidade de capturá-los ou mantê-los cativos.

Ocasionalmente estas criaturas servem a algum Deus Exterior ou Grande Antigo, mas não se sabe qual a relação estabelecida entre eles e tais divindades. Dada suas faculdades planares, alguns teóricos sugerem que Yog-Sothoth pode ser a divindade mais próxima deles. Embora sejam categorizados como uma Raça Menor Independente, não se pode descartar que eles possam ser uma espécie Serviçal, disposta a auxiliar seus mestres mais poderosos. 

No submundo da magia, ouve-se rumores de Feiticeiros que conseguiram criar poderosos Rituais de Vinculação que permite submeter tais criaturas a vontade e até compeli-los a realizar tarefas simples. Na versão mais conhecida do Ritual de Vinculação, o mago precisa desenhar vários símbolos num círculo designando a Dimensão de onde a criatura será convocada, velas são posicionadas nos limites de um pentagrama invertido e palavras específicas são proferidas. O utilizador precisa ainda de uma adaga de prata pura que ele utiliza para desenhar no ar símbolos de poder. Se todas as formalidades forem cumpridas, o Andarilho surge exatamente sobre o círculo que serve como área limítrofe impedindo a criatura de cruzar seus limites e de se deslocar de volta ao seu plano. Uma nova litania de palavras de poder, entre as quais as Preces de Eibon devem ser entoadas e ao fim destas, se a vontade do Mago prevalecer, o Andarilho ficará sob seu comando por um dia inteiro. Se o feitiço falhar, o Andarilho poderá simplesmente partir, ou se furioso, descontar sua frustração no mago.
  
Uma vez compelido a servir, o Andarilho Dimensional poderá ser enviado em missão de assassinato, para entregar uma mensagem, obter algum objeto ou contatar um aliado. Andarilhos possuem inteligência rudimentar, mas conseguem compreender ordens simples, possivelmente por intermédio de um elo psíquico compartilhado com o mago que o compeliu. A facilidade de se deslocar entre as dimensões permite que eles cumpram suas missões de maneira rápida e plenamente satisfatória.

Magos não acompanham os Andarilhos em viagens planares, embora as criaturas possam carregar pessoas através das dimensões meramente segurando-as em seus braços enquanto fazem a caminhada. Acredita-se que os humanos não estão preparados para essa modalidade de deslocamento planar sendo desintegrados a cada passo do Andarilho entre as dimensões. Inexiste qualquer registro confiável de algum mago que tenha retornado em segurança dessa tentativa. Ainda assim, há lendas sobre Feiticeiros que teriam atingido outros planos nos braços de Andarilhos, embora a maioria dos teóricos julgue tal coisa inviável. Isso conduziu à crença bastante difundida de que aqueles levados pelos Andarilhos Dimensionais jamais retornam, o que torna essas criaturas bastante úteis para quem deseja eliminar um desafeto fazendo-o "desaparecer" permanentemente. O fato de não restar qualquer indício material da vítima, é um enorme bônus. 


Um andarilho dimensional jamais é igual a outro, há diferenças marcantes que tornam cada indivíduo único, horrendo em cada detalhe, medonho em cada particularidade.

Em geral eles são humanoides com dois braços, duas pernas e uma cabeça ainda que possam haver indivíduos com múltiplos membros. Estes são incrivelmente incongruentes, diferenciando-se quando a tamanho e massa, inchados ou estriados. Os braços são especialmente longos, com músculos e tendões esticados até quase o ponto de se rasgarem. As pernas são longas, franzinas e aparentam enorme fragilidade, como se fossem incapazes de sustentar o restante do corpo. O tórax é avantajado e irregular, com manchas que evidenciam diferentes cores e texturas. Não possuem pelos ou cabelos e seus corpos são coberto de tumores e gânglios que lembram cascas de ferida secas. A pele dos Andarilhos tende a ser rugosa e resistente como couro batido, apresentando camadas soltas que parecem retalhos de tecido conjuntivo. A coloração varia entre um amarelo doentio, podendo assumir uma tonalidade alaranjada, marrom ou cor de cobre nas extremidades. Os movimentos do Andarilho são desajeitados, seus passos são vacilantes com um tipo de ginga característico que lembra o andar dos símios terrestres. Em virtude desse movimento peculiar, alguns Andarilhos já foram confundidos com gorilas e outros antropoides de grande porte. Ainda que desajeitados, os Andarilhos são rápidos e quando empreendem perseguição usam os braços para se equilibrar e propelir na direção de seus oponentes.

O comportamento deles tende a ser agressivo, variando para o indiferente em alguns casos. Os andarilhos tem rápidas mudanças de humor, podendo atacar sem qualquer aviso, investindo furiosamente e agredindo repetidas vezes com seus punhos, pés ou com garras. Tanto as mãos quanto os pés dos Andarilhos são dotados de garras compridas e afiadas, no final de três dedos. As garras são feitas de um tecido quitinoso recurvo e somada à força avantajada da criatura, podem causar ferimentos consideráveis. O andarilho não se limita a atacar com os punhos, podendo saltar e rasgar uma presa com as unhas nos pés que mais parecem esporões. Por vezes, eles usam de sua capacidade de deslocamento dimensional para alcançar as presas de forma mais rápida, surgindo diante delas justo quando estas pensam já ter escapado.

Os sentidos do Andarilho são grosseiros, ao menos em nossa dimensão. Sua visão é limitada a alguns poucos metros e seus olhos, pequenos e fundos não parecem adaptados ao nosso espectro luminoso. Eles conseguem ver, mas de forma embaçada e pouco clara. Sua audição e olfato são melhores, e eles se guiam por estes sentidos na maioria das vezes, mantendo-se em total silêncio para captar súbitas mudanças de movimento. Alguns não possuem nem mesmo estes sentidos e é um mistério como as criaturas conseguem perceber seus arredores.

A cabeça dos Andarilhos é um pesadelo que remete a um boneco de barro ou argila semi-derretida. A boca é longa e rasgada de uma extremidade à outra, repleta de dentes grandes, tortos e acavalados. Não possuem língua. Eles possuem lábios grossos e deformados, manchados pela saliva que escorre em profusão. Na cabeça a pele é ainda mais rugosa retorcida com vincos e estrias. A testa é alta e o queixo termina numa papada quase como se não existisse, fundindo-se ao pescoço curto. A cabeça não se move, e ele se limita a inclinar para esquerda e direita ao prestar atenção em algo. Os andarilhos são incapazes de falar, o único som que eles produzem é um tipo de gorgolejar semelhante ao ruído de alguém se afogando. Por todos esses predicados distorcidos, não por acaso, observadores trataram estes seres como os míticos demônios, entidades presentes em várias religiões. É bem possível que muitas estórias sobre criaturas das profundezas e horrores do Hades sejam baseadas no contato com Andarilhos Dimensionais.

Não se sabe praticamente nada a respeito de seu ciclo reprodutivo. Não há uma distinção óbvia de sexos, se é que eles possuem gêneros diferentes, sendo que o mais provável é que eles todos sejam hermafroditas. Nunca foram registradas aparições de jovens ou filhotes. É possível que sejam imortais pela passagem do tempo. Podem, no entanto, cessar de existir. Ferimentos suficientes podem incapacitá-los, ainda que os andarilhos sejam mais vigorosos do que um humano mediano. Ao morrerem em nossa realidade, seus corpos desaparecem, como se puxados de volta para sua dimensão de origem em meio a centelhas elétricas e de um clarão muito forte.

Existem tipos de Andarilhos e o detalhamento de criaturas específicas será matéria de uma futura publicação.

Outras Anatomias do Mythos:






sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

"Tem alguém aí"? - O dia que brinquei com Ouija


A respeito de Tabuleiro Ouija, vou contar um caso que eu testemunhei muitos anos atrás, quando eu era moleque e que pode ser considerado como minha primeira exploração do oculto - ou nem tanto.


Não estou pedindo para que acreditem, para falar a verdade, nem eu lembro de todos os detalhes  e alguns vou suprir com algumas invenções, mas no geral, foi como aconteceu e enquanto escrevia fui lembrando de mais algumas coisas. Na época o acontecimento me deixou uma grande impressão, que é uma forma educada de dizer, "quase me borrei todo".



Eu devia ter uns 12-13 anos, e nessa época foram lançados os livros da Coleção Ciências Proibidas.



Não sei se os mais novos vão saber do que se trata, mas quem está na casa dos 35-40 anos deve se recordar que essa coleção em fascículos quinzenais marcou época. Ela se propunha a ser uma Coleção sobre Ocultismo, uma verdadeira Enciclopédia do Sobrenatural que cobria em cada volume um tema diferente com assuntos espinhosos tais como Bruxaria e Satanismo, misturado a outros mais inofensivos como Interpretação de Sonhos, Civilizações Antigas e até O Fenômeno OVNI. Muito do que estava ali não passava de papo furado, mas, não obstante, esses livros ficaram famosos.



Ter esses volumes de capa dura, encadernados em preto, era o mesmo que ter algo proibido, assustador, quase profano na estante... ou assim parecia aos olhos de um moleque curioso como eu. Francamente, eu nem cogitava a possibilidade de comprar e menos ainda guardar isso em casa. Sério, minha mãe simplesmente iria me matar se descobrisse uma coisa dessas em meu poder.




Contudo, um amigo do colégio era mais "corajoso" que eu, ou ao menos, seus pais não se importavam com onde ele decidia gastar sua mesada. Vou chamar ele de Guilherme. 


Guilherme era o tipo do garoto que a gente sabia, não deveria andar junto: pra começar, ele parecia entender bem demais as piadas sujas que contava, tinha má fama entre os pais ("Não quero você andando com ele"), já tinha sido suspenso duas vezes uma delas por xingar uma professora e epetiu de ano. E agora, suprema transgressão, tinha em seu poder um volume de Ciências Proibidas. 

O primeiro volume da Coleção, tinha o sugestivo título "Iniciação ao Espiritismo" e trazia uma capa absurdamente sinistra na qual despontava a face de um ser demoníaco de olhos brancos, pele amarelada e chifres. Nunca vou saber porque escolheram uma capa dessas, mas provavelmente tinha a ver com chocar e assim atrair público. Como acontece hoje em dia, a primeira edição trazia um chamariz, um brinde para motivar a compra dele e das edições futuras, no caso, o brinde era tentador demais: um Tabuleiro Ouija.

Até aquela época eu acho que nunca tinha ouvido falar dessas coisas. Sem dúvida já conhecia a tal brincadeira do copo, aquela história de colocar um copo sobre a mesa, os dedos pousados sobre ele e espalhar um monte de pedaços de papel com as letras do alfabeto. Movido pela força de vontade dos espíritos - ou por algum engraçadinho que queria manipular a coisa, o copo deveria avançar por conta própria e soletrar palavras que respondessem as perguntas feitas. É claro, jamais funcionou, para frustração e alívio de todos.

Mas o Ouija era diferente!


Primeiro por que ele parecia algo autêntico e não uma brincadeira de algum fulano que queria contar vantagem e que "conhecia um primo que tinha feito a tal brincadeira e o copo havia se mexido de verdade". E segundo, por que ele vinha em um livro como Ciências Proibidas. 

"Ciência" soava como verdade.

Enfim, num belo dia, o Guilherme levou seu tabuleiro Ouija no Colégio e propôs fazer uma experiência (ele chamou de "experiência" e não brincadeira, o que já soava diferente), após a aula. A ideia era reunir uns cinco ou seis moleques, seguir as instruções contidas no livro e assim tentar (insira aqui o som de trovões) falar com os espíritos!

Tan-tan-tan!!!!!!

Não sei o que pensei a respeito, mas tenho certeza de que me digladiei sobre o dilema moral de participar ou não, sobretudo porque naquela época eu tinha medo de toda e qualquer coisa desse tipo. Sobrenatural pra mim era assistir filmes de Jason e Freddy Kruger. Mas na mesma proporção que me apavorava, sentia aquela vontade de participar e ver o que ia acontecer, sem falar que não queria ser chamado de covarde pelos outros, um sentimento que provavelmente era compartilhado pelos demais, e convenientemente mantido em segredo.

Seja como for, lá pelas tantas, topei aparecer na casa desse colega transgressor que morava surpreendentemente pertinho dos meus pais. 

A primeira surpresa é que dos seis que tinham sido convidados para a "experiência" (Tan-tan-tan!) aparecemos só eu e mais um. Por um momento pensei que na ausência de outros, a coisa ia ser cancelada, afinal reconhecer cagaço diante de outros dois não era tão ruim, além do que, sempre era possível fingir que tínhamos feito a brincadeira e acusar os demais de amarelar. 

[Um dia alguém deveria escrever um longo tratado sobre os protocolos de coragem e covardia do que era ser criança nos anos 80. É quase um "Four Feathers" de conduta social].

Para meu desalento, Guilherme simplesmente disse que podíamos seguir adiante, de fato, segundo ele explicou com ares de autoridade, com menos gente podia funcionar melhor. "Que bom", devo ter murmurado, como quem é informado que vão servir brócolis no almoço e você terá de comer um prato cheio.

Enfim, é preciso tirar o chapéu para Guilherme que a essa altura eu já considerava o próprio ocultista. O Aleister Crowley imberbe (se eu soubesse quem era Crowley na época), o próprio mago do primeiro ano do Colégio de Freiras onde estudávamos... o sujeito tinha preparado uma mesa na sala de jantar, toalha branca, com velas, cortina fechada, luz difusa e uma aura que me pareceu incrivelmente sinistra. Complementando o cenário havia uma carranca daquelas que se compra quando se viaja para a Bahia num canto. Era uma daquelas carrancas enormes talhada na madeira, disposta na sala como se fosse um cão de guarda, ao lado de um bufet. Olhei aquele troço e lembro ter pensado com meus botões: "Quem diabos tem um negócio desses em casa?".

Era oficial, a coisa ia acontecer ali, já que os pais do Guiga (ele pediu para chamar ele desse jeito) não estavam em casa. Repousando sobre a mesa, estava o Ciências Proibidas, como se fosse um tomo de magia, o equivalente ao Necronomicon dos pobres - embora a honra de ser chamado assim fosse reservada para o Livro de São Cipriano, outro "proibidaço da época", que eu descobriria anos mais tarde (mas isso é uma outra história).


"Quer dar uma olhada?" ele perguntou quando eu disfarçadamente estiquei os olhos na direção do livro.

Claro que não queria! Aquela capa era sinistra além da conta! Eu não queria tocar naquela coisa, não queria ver de perto, achava que poderia congelar meus dedos meramente tocar nele, o que dizer de folhear as suas malditas páginas e ver o que estava ali dentro. Tudo me dizia para não fazer, toda minha educação católica de missa finais de semana e aula de catecismo me mandava dizer 'Não".

"Claro que quero!" respondi tentando esconder o receio.

Abri o livro, e sabe quando você olha mas tenta não ver? Quem tinha medo de Trem fantasma sabe do que estou falando. Folheei uma ou outra página e me dei por satisfeito, fechei o livro e pousei sobre a mesa.

"Foda!" disse saboreando o teor proibido do palavrão recém descoberto, tinha gosto de bala de menta na boca. Deixava um gosto bom quando terminava.

Demos início então aos preparativos, Guiga pediu que eu e o outro amigo, de quem não lembro o nome, mas vou chamar de Fabiano, tirássemos as cadeiras e deixasse-mos quatro ao redor da mesa. Lembro dele ter comentado: "Uma delas é para o espírito sentar".

Foda! 

Gosto de bala de menta.

Arrumamos tudo conforme sugerido no livro. Para me assegurar do que íamos fazer, achei que valia a pena ler as instruções que explicavam o que era uma Experiência com Tabuleiro Ouija. Elas eram descritas em uma folha que vinha dobrada dentro do tabuleiro. Era simples, talvez simples demais, tinha inclusive alguns desenhos descrevendo como era o procedimento e como a gente deveria fazer. Na falta de uma ponteira - o livro trazia apenas o tabuleiro, podíamos usar um copo de cristal. Guiga produziu de dentro do bufet uma taça de cristal daquelas de servir licor que os pais dele provavelmente tinham surrupiado durante um voo da Varig. No papel dizia que a taça tinha que ser quebrada depois de usar, mas duvidei que ele faria isso - EU não faria!

Sentamos ao redor da mesa, Guiga acendeu as velas, Fabiano respirou fundo, claramente incomodado e eu sentei entre os dois, ainda mais incomodado. Antes de começar, Guiga, o nosso "realizador" disse num tom solene que traia a voz que já começava a se tornar mais grossa, culpa da pré-adolescência: 

"Isso não é brincadeira, pessoal. Vamos ficar sérios! Sem piadas e sem bobagem, a gente vai chamar um espírito".

"Foda-se, vamos logo!" disse Fabiano, com um sorriso de quem se achava fodão.

Guiga disse que era melhor a gente dar as mãos para se concentrar. Na mentalidade de moleque dos anos 80 aquilo parecia "viadagem" (ou viadaji, como a gente gostava de enfatizar), mas ele devia saber o que fazia. Estendi as mãos e instintivamente pensei em rezar uma Ave Maria, dar as mãos a estranhos quando muito lembrava esse tipo de coisa. Fiquei satisfeito que Fabiano estava com as mãos tão geladas quanto as minhas.


Nisso, tocou a campainha!

"Puta que Pariu"! Guiga levantou abriu a porta e voltou uns segundos depois acompanhado por outro o colega que havia chegado atrasado. Junto dele vinha de arrasto a da irmã que tinha uns 11 anos e que queria "brincar" também.

"Porra, Bruno, tu tá de sacanagem, trouxe sua irmã? Não disse que ia ser uma coisa séria?" reclamou o ocultista mirim e nós fizemos coro de indignação.

Bruno se defendeu dizendo que se a irmã não viesse ia contar pra mãe dele e que ia melar a coisa toda. A menina, Giulia - lembro que era com "G", fez uma cara de "tô nem aí" e foi sentando na cadeira vaga:

"Essa aí não sua burra, essa é pro espírito sentar!" disse Fabiano e eu não consegui segurar a risada.

"Puxa outras cadeiras ali, senta e cala a boca se quiser participar. Mas eu não me responsabilizo pelo que venha a acontecer". 

Todos se entreolharam, Guiga mandou que déssemos as mãos de novo e que a gente se concentrasse.  Aí abriu os olhos e comentou:

"Uma coisa importante! A gente não deve perguntar quem vai morrer primeiro ou quando alguém aqui vai morrer!"

Bruno acenou com a cabeça como se concordasse e eu lembrei que quando tinha participado de uma brincadeira do copo com meus primos mais velhos, eles disseram a mesma coisa. Parecia ser um consenso que fazer esse tipo de pergunta atraía as piores coisas, a própria desgraça. Todos de acordo.


Ficamos de olhos fechados nos concentrando, tentando "limpar a mente" (seja lá o que isso significa para quem tem 13 anos). Finalmente, Guiga falou com um tom mais estridente do que desejava:

"Nós estamos tentando entrar em contato com um espírito amigo que queira falar conosco". A frase não era dele, estava nas instruções dizer isso e ele deve ter decorado.


Silêncio.

"Luciano, você, eu e o Fabiano colocamos o dedo em cima do copo, mas de leve! Não pode forçar, não é para empurrar". 

Fizemos conforme ele disse. Pousei o dedo no corpo e senti aquela sensação ao mesmo tempo desagradável e indescritível de prazer proibido.

"Muito bem, quem vai perguntar?" disse Guiga, respirando fundo e olhando para os outros com uma expressão que dizia "eu vim até aqui, agora é a vez de vocês. Façam alguma coisa".

Ninguém disse nada, ficou um silêncio constrangedor, como se ninguém tivesse certeza de que queria perguntar alguma coisa, pois... vai que tivesse resposta, né.

Quem quebrou o silêncio foi a pessoa menos provável ali na sala. Giulia perguntou: "Qual o seu nome"?

Nada! O copo não se moveu.

Eu repeti a pergunta e acrescentei um "tem alguém aqui". Não vou levar os louros pela pergunta, ela também estava entre as perguntas que se poderia fazer para iniciar a comunicação, conforme tinha acabado de ler nas instruções. 



Dois, três minutos se passaram... e aí o copo deslizou lentamente. Eu tenho quase certeza que o Fabiano (que era meio palhaço e cheio de ansiedade) começou a forçar o copo só porque queria que alguma coisa acontecesse de uma vez. A taça deslizou bem devagar até o "J". Guilherme balançou a cabeça e olhou feio para meu colega:

"Para com isso, cara! Você tá empurrando o copo!" Mandou ele tirar o dedo e sinalizou para o Bruno assumir o lugar dele. Bruno fez uma careta, pensou um instante e lembrou que não colocasse o dedo em cima, seria acusado de covardia. Acho que até ali ele achava que ia só observar: "Tá bom!", concordou resignado.


Passou mais uns instantes e repetimos as mesmas perguntas.

E novamente, o copo se moveu lentamente na direção do "J". Dessa vez eu não tinha certeza de quem estava conduzindo o copo, mas com certeza alguém deveria estar empurrando, pois do contrário só podia haver uma explicação e ela não me agradava em absoluto. Apesar de tudo, eu não acreditava que iria acontecer alguma coisa e esperava de coração que não acontecesse. Era o sentimento que corrobora o ditado "chegar pouco importa, o bacana é a viagem", pois bem, o legal era participar, ter resultado era algo completamente diferente, totalmente desnecessário.

Seja como for, o copo parou no "J", e então estacou. Passaram alguns minutos e a gente ficou em dúvida sobre o que fazer. Fabiano rompeu o silêncio e perguntou o que deveríamos fazer, Guiga ficou meio perdido e pensei que ele fosse abrir o livro e procurar alguma explicação, mas aí o copo se moveu mais alguns centímetros e parou ao lado do P.

Não parecia ter ninguém empurrando e a seriedade tomou conta de todos. 

"Vai ver são as iniciais de alguém" sugeri depois de pensar um pouco e me vi revisando na mente quem eu conhecia com as iniciais J.P, excluindo quem estava vivo. Felizmente quando temos 13 anos, não conhecemos tanta gente que tenha morrido e portanto não me veio ninguém à cabeça. Os outros também não conseguiram sugerir nada.

Nisso, o copo andou mais um pouco. 

E percebam, não peço para acreditarem nessa narrativa, mas estou sendo o mais fidedigno possível, com base no que me recordo. O copo deslizou milímetro por milímetro até a base do tabuleiro, passou pelas letras, parou no "6" por alguns instantes, e dali se dirigiu para o "até logo" que ficava na borda inferior.

Eu tinha lido que quando isso acontecia, o espírito simplesmente tinha desistido do contato, ou que ele não queria mais se comunicar. Nesse caso, era preciso parar e esperar um pouco.

Tirar o dedo do copo foi um alívio e todos estavam igualmente nervosos, se acusando de ter ou não empurrado o copo embora nós três tenhamos jurado que não o fizemos - eu sei que não o fiz, mas reconheço que o próprio Guilherme possa ter inconscientemente feito isso, quem sabe para chamar a atenção, quem sabe para justificar a experiência.

Verdade é que nunca vou saber.

Tentamos depois de novo, até a Giulia colocou o dedo no copo e nos revezamos em perguntas e tentativas, mas o copo não andou mais. Não importava quantas vezes tentássemos, nada aconteceu e nos demos por satisfeitos compartilhando do sentimento de alivio diante daquela imobilidade reconfortante.

Antes de nos despedirmos, comentei com o Bruno que a gente não devia comentar nada daquilo com os outros no colégio. Eu tinha a certeza de que se as Freiras do Colégio ficassem sabendo sem dúvida iriam nos expulsar ou pior, contariam aos meus pais o que a gente tinha feito. Os outros concordaram, mas é claro, na hora do recreio no dia seguinte, todo mundo já estava sabendo de nossa experiência sobrenatural.

Não sei quem foi, mas é claro que alguém tinha dado com a língua nos dentes e a história já se tornara uma saga de medo e horror envolvendo espíritos sentados em cadeiras vagas e copos que deslizavam sem parar. Não vou mentir, claro que gostei da fama repentina e dos olhares de admiração, até mesmo quando os outros nos acusavam incrédulos de mentir descaradamente.

Combinamos de fazer de novo, sobretudo por que alguns outros queriam participar da experiência e que seria bom contar com a presença de quem já havia feito. Guiga concordou, disse que segunda seus pais não estariam em casa e que  a gente poderia usar o apartamento dele de novo. Eu não estava especialmente feliz de reprisar aquilo, mas acabei topando torcendo para que até a semana seguinte esquecessem do combinado, coisa que não raramente acontece quando tem essa idade.

O fim de semana passou. 

Na segunda, Guilherme chegou no Colégio e estava com uma cara meio séria. Só consegui falar com ele no recreio e percebi que ele parecia evitar os demais que haviam planejado fazer a experiência naquela tarde. Finalmente quando estava com ele perguntei o que era e ele pareceu meio preocupado como se não quisesse contar uma coisa por temer que eu gozasse da sua cara ou contasse aos demais que ele estava sendo bundão. Tive que esperar até o final da aula para que ele muito sem jeito dissesse que não ia ter experiência na tarde. Ele pediu que eu avisasse os outros. Não disse nada, apenas aceitei aquilo com certa satisfação por não ter de passar pela coisa novamente.

Levou uns dias para que eu conseguisse falar com o Guilherme de novo e ele enfim topasse contar o que o estava incomodando. Na época a gente não era exatamente amigo, estávamos muito mais para colegas de classe que se veem obrigatoriamente cinco dias por semana e que nem mesmo conheciam a casa um do outro - o dia da experiência tinha sido a primeira vez que eu fui na casa dele e até então ele nem sabia onde eu morava.

Mas enfim, quando o Guiga resolveu me contar o que tinha acontecido eu acreditei de imediato não porque eu era um moleque crédulo e impressionável, mas porque algo no jeito que ele contou pareceu real. Era o tipo da coisa que não se inventava e o tipo da coisa que a gente não mente a respeito. Seja o que for, eu acreditei naquele momento, e ainda hoje, passados tantos anos, ainda acredito.

O Guilherme contou que no dia seguinte a experiência a mãe dele o chamou na sala e perguntou se ele havia chamado gente de fora e se haviam feito bagunça na sala. Até aí, nada de mais, mães tem um sexto sentido para pequenas coisas, a minha sabia exatamente quando entravamos na sala e mexíamos nos vasos de cristal e cinzeiros proibidos. O Guilherme é claro, com o mecanismo de defesa no máximo, mentiu e disse que ninguém tinha ido lá. Aí a mãe dele perguntou algo que o deixou pasmo:

"Se ninguém veio aqui, quem foi então que rachou a carranca da sala?"

Na hora eu não entendi o que tinha a ver. Eu não sabia, mas o Guilherme fez o favor de explicar que a carranca era um tipo de objeto de proteção, para quem acreditava nessas coisas, que servia para afugentar os maus espíritos e proteger uma casa da presença de coisas que pudessem fazer mal aos seus donos. Era por isso que marinheiros pintavam carrancas na proa de seus barcos, pois no entender deles não havia nada mais perigoso do que singrar mares desconhecidos que podiam estar repletos de espíritos malignos. A carranca representava um tipo de proteção, afugentando aquilo que não se queria ter em casa.


Eu fiquei sem palavras e a única coisa que consegui dizer, recorrendo ao manto protetor do ceticismo foi repetir: "Vai se foder! Que mentira!". 

Nada de bala de menta dessa vez. Gosto de cinza e zimbro.

Eu não queria acreditar! O problema é que a cara do Guilherme e a maneira como ele contou a história pareciam perfeitamente verdadeiras, como quando você é criança e conta como um parente morreu em um acidente rodoviário. É algo sobre, nessa idade, não se mente por achar absurdo inventar sobre algo tão sério. Guilherme tinha a cara de alguém que perdeu metade da família numa colisão frontal!

Ele pediu para que eu não contasse a ninguém, e até onde lembro mantive minha promessa por muitos anos. Só fui comentar isso muito depois com colegas do Ginásio, quando já tinha perdido o contato com todos.  

Eu gosto de pensar que sei guardar segredos e que levo a sério quando alguém pede sigilo sobre alguma coisa. Mas acho que nesse caso, meu silêncio se devia a outra coisa...

Ainda desconfiado, ou desejosamente cético da história, aceitei o convite do Guilherme de ir até sua casa e ver a carranca que estava na mesma sala onde tínhamos feito a Experiência com o Ouija naquela tarde. 

Gostaria de dizer que era brincadeira dele ou exagero, mas não.

A carranca de madeira estava rachada de lado a lado, bem na face medonha pintada de branco e vermelho. Era como se ela tivesse caído ou recebido um belo de um golpe com uma lâmina, um machado ou uma faca quem sabe. A rachadura não era funda, outrossim, longa, tinha talvez uns 25-30 centímetros e se estendia verticalmente de forma que era impossível não perceber só de olhar para ela. Começava no topo e ia deslizando até a abertura da bocarra cheia de dentes.

Guilherme disse que a mãe tinha ficado chateada, mas que não se importou muito no fim das contas. A coisa pertencia ao pai dele que a comprou numa viagem a Ilhéus ou algo assim, a mãe achava que era de mau gosto, mas acabou aceitando a presença dela ali dando de ombros quando o pai insistiu. Alguns compram berimbaus, outros compram carrancas quando visitam a Bahia. Ainda bem que a família do Guiga era fã de carrancas.

O que eu posso dizer dessa história que se estendeu por mais linhas do que eu planejava?

Que as vezes, coisas estranhas acontecem e que nem sempre a gente sabe explicar ou mesmo, precisa explicar. As vezes é melhor deixar pra lá e somente contar de vez em quando, apenas para não esquecer. Eu sei no entanto, e lembro bem que quando olhei para aquela carranca feiosa na sala ("quem tem um negócio desses") a coisa não estava rachada.

Dizer que ela nos protegeu de um "espirito maligno" é meio demais, mesmo porque eu não acredito nessas coisas faz tempo, mas naquela ocasião parecia perfeitamente aceitável. E tenho certeza o Guilherme também acreditava. 

Se a carranca não estivesse na sala, alguma coisa diferente aconteceria? Se sim, quem seria o tal J.P. se é que não passava de alguém empurrando o copinho de vidro forçando seu deslize pelo tabuleiro?
Eu me perguntei essas coisas por algum tempo até perderem importância e não me incomodarem mais.

Da minha parte continuei interessado em histórias desse tipo, não por acreditar nelas, mas por me considerar um Cético com um forte Senso de Curiosidade. Em algum momento, até cheguei a comprar volumes do Ciências Proibidas em sebos pela cidade. Descobri depois de ler que os livros não eram nem de longe tão macabros quanto imaginava naquela época. Tenho inclusive a primeira edição, aquela com a capa demoníaca que a despeito de minhas descrenças continua, aos meus olhos, extremamente assustadora. Entretanto, nunca achei uma edição que viesse com o Tabuleiro Ouija, acho que quem tem não vende. Talvez, ninguém mais tenha hoje em dia.

Eu me pergunto se achasse uma edição completa, tabuleiro e tudo, se faria uso dele. Talvez em nome dos velhos tempos. Quem sabe J.P. decidisse dizer um olá e até logo...

É com esse espírito (trocadilho intencional) que estou abrindo uma janela de busca no site Estante Virtual aqui na aba do computador. 

Quem sabe o que encontro aqui.

Desejem-me boa sorte.

Hangout sobre o Financiamento de Rastro de Cthulhu - Ainda há tempo


Pessoal,

O Financiamento Coletivo do RPG Rastro de Cthulhu está chegando na sua reta final.

Ontem participamos de um Hangout no qual falamos de alguns elementos do jogo, sobre as diferenças entre Rastro e Chamado, sobre como conciliar os jogos, a respeito de regras, ambientação e mais uma série de coisas.

Para quem ainda está em dúvida, segue abaixo o vídeo da nossa conversa informal:


Participaram dessa conversa animada Eder Costa Marques e Fernando Del Angeles da Retropunk, Max Moraes tradutor de vários livros de Rastro, meu parceiro de Culto e uma das cabeças do Velho Crânio, Thiago Queiroz, e este que vos escreve.

Bem, deem uma olhada... ficou bem legal!

Ah sim, aos interessados, o Financiamento vai até o dia 10 de janeiro, informações podem ser encontradas no link abaixo. 

Mas não deixe para última hora!

RASTRO DE CTHULHU - Financiamento Coletivo

Go, go, go!








terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Tabuleiro Ouija - A Famosa Comunicação com o Mundo espiritual


Desde o início, os homens se perguntam o que existe depois da morte física. Haveria um outro mundo? Haveria um além? Seria possível que as almas de pessoas ficassem presas no mundo dos vivos? Essas questões levaram a tentativas de se comunicar com o mundo espiritual e obter as respostas.

Foi apenas com o surgimento do movimento espiritualista que pessoas começaram a afirmar ser possível não apenas se comunicar com os mortos, mas obter deles informações relevantes sobre como é o mundo além. No século XIX, duas jovens meninas americanas, as irmãs Kate e Maggie Fox, afirmaram ter estabelecido uma maneira simples de se comunicar com um fantasma. Elas usavam uma série de batidas para simbolizar respostas afirmativas e negativas, até que eventualmente criaram um código de letras do alfabeto. Dessa forma, eram capazes de decifrar palavras e mensagens inteiras enviadas pelos espíritos.

A medida que o espiritualismo cresceu em popularidade, aqueles com interesse no tema começaram a criar "círculos caseiros", pequenos grupos de amigos e familiares que se reuniam para tentar a comunicação com os espíritos de seus entes queridos. Eles experimentaram com o sistema de batidas usado pelas irmãs Fox e mais tarde com a mesa móvel, métodos que eram acessíveis a qualquer um e que não careciam da intermediação de um médium. O método das batidas, chamado originalmente "knockings and rappings", criado no início do movimento, permaneceu popular e continuou a se espalhar pelo mundo, a medida que pessoas comuns o experimentavam e acreditavam obter resultados.

O método, no entanto, começou a cair em desuso quando médiuns adotaram uma nova forma de contato, a chamada "Escrita Automática". Embora fosse praticada exclusivamente por pessoas com um elo com o mundo espiritual, essa forma de contato ganhou enorme fama e se tornou muito popular no início do século XX. A escrita automática é uma modalidade de contato, na qual o medium em transe, permite que o espírito guie sua mão para escrever mensagens. Acreditava-se que o fantasma movia a mão, respondendo perguntas feitas pelas pessoas presentes. No início, os adeptos desse método diziam que os espíritos podiam responder com apenas algumas palavras, mas à medida que a escrita automática foi ganhando adeptos, cartas inteiras - por vezes com a letra semelhante do morto, começaram a ser escritas.

Obviamente, muitos questionamentos a respeito da autenticidade da escrita automática vieram à tona, não obstante, em alguns casos as mensagens recebidas fossem incrivelmente precisas. Contudo, incontáveis casos de fraude perpetradas por charlatães e exploradores acabaram por colocar em xeque o uso desse método.


Em 1853, um espiritualista francês chamado M. Planchette (um sobrenome que poderia ser traduzido como"pequena tábua") desenvolveu uma ferramenta que poderia fazer muito mais do que simples batidas numa mesa. A "planchette" criada por ele era uma pequena tábua de madeira em formato de coração, com lápis presos servindo como pernas. O objetivo era usar esse curioso objeto para estabelecer contato com fantasmas e espíritos, permitindo a estes escreverem mensagens diretamente do além. A invenção passou a ser usada por médiuns como uma forma mais elaborada de escrita automática, mas sua real contribuição foi permitir a qualquer um tentar esse contato.

Não demorou muito até que a invenção fosse aprimorada. Nenhuma experiência era requerida e nenhuma habilidade psíquica se fazia necessária. Esta nova ferramenta revolucionou o Movimento Espiritualista e teve um impacto que ressoa ainda hoje.

Era o nascimento da famosa Tábua Ouija.

Pouco depois da planchette chegar aos Estados Unidos, um fazedor de armários e caixões de Maryland, chamado E. C. Reiche criou o novo método de comunicação. Ele idealizou um tipo de bandeja de madeira com as letras do alfabeto dispostas em duas linhas no centro do tabuleiro. Abaixo dessas letras colocou números de 1 a 10 e as palavras SIM e NÃO em cada extremidade do tabuleiro. Ele criou ainda uma prancha deslizante como ponteira, mas removeu os lápis que davam sustentação, substituindo-os por pequenas pernas. Dessa maneira, a prancha podia se mover pelo tabuleiro de madeira lisa.

Sempre se acreditou que Reiche chamou sua invenção de "Tabuleiro Ouija" porque o nome representava as palavras "sim", respectivamente em Francês (oui) e alemão (ja), mas não foi exatamente por isso. Na verdade, ele acreditava que a palavra "Ouija" significava Sorte em Egípcio. É claro, não é, mas uma vez que Reiche recebeu esse nome alegadamente de um espírito através de seu tabuleiro, o nome ficou.

Mas Reiche estava mais interessado em se comunicar com os espíritos do além do que fazer dinheiro, portanto, ele vendeu sua invenção para um amigo, um tal Charles Kennard, que possuía um pequeno negócio de Curiosidades. Kennard pegou um empréstimo e fez a primeira produção comercial de Tábuas Ouija em 1886. A patente datada de 28 de maio de 1890, identificava o objeto como uma Tábua de Comunicação com os Mortos.


Pouco depois, um vendedor chamado William Fuld se interessou pelo objeto e começou a comercializar com o nome "Tábua de Ouija de Fuld". Ele produzia tábuas em massa e teve muito sucesso vendendo-as em Feiras e distribuindo por todo país e ficando rico. Fuld dizia usar a tábua para consultar os espíritos e assim decidir o rumo de seus negócios. Em 1927, ele se suicidou saltando da cobertura de seu prédio, supostamente depois de receber a notícia de que os dias vindouros seriam muito ruins para os negócios - alguns acreditam que foi uma visão da Grande Depressão que arruinaria não apenas ele, mas muitos empresários. Verdade ou mentira, Fuld mergulhou para a morte, o que ajudou a sedimentar a estranha aura do Tabuleiro Ouija.

Ironicamente, o Tabuleiro Ouija continuou muito popular, mesmo nos anos da Depressão, sem ser afetado pela crise econômica. A empresa de Fuld continuou muito bem sucedida, vendendo milhões de tabuleiros, além de outros jogos e brinquedos. Fuld afirmava ser o inventor do tabuleiro Ouija e que havia aberto a porta para a comunhão entre vivos e mortos. Segundo ele, o segredo de seu sucesso era a consulta regular com os espíritos que lhe davam sugestões. Para alguns era apenas marketing, mas quem o conheceu afirmava que Fuld fazia consultas diariamente e não tomava nenhuma decisão sem antes usar sua tábua de estimação, um dos protótipos que ele orgulhosamente guardava em seu escritório.

Os herdeiros de Fuld mantiveram a propriedade intelectual da tábua até 1966, quando venderam a marca para a Parker Brothers. Essa gigantesca companhia, famosa por produzir jogos e brinquedos, tratou de lançar diferentes versões do tabuleiro em madeira e compensado, popularizando ainda mais a tábua. Ainda hoje, eles detêm todas as marcas e patentes, além de direitos mundiais de comercialização. Mesmo que hoje ela seja vendida comumente em lojas de brinquedo, a tábua tem em essência o mesmo design de quando ela foi criada para ser uma ferramenta do Movimento Espiritualista.

USANDO A TÁBUA OUIJA



A Tábua Ouija é considerada ainda hoje como um dos métodos de comunicação espiritual mais controversos, sobretudo por dispensar qualquer faculdade mediúnica para ser usada. A pessoa não precisa ser sensitiva ou conhecer qualquer tipo de procedimento místico, basta sentar-se diante dela e trabalhar com a ponteira. É por isso que muitos psíquicos profissionais desencorajam seu uso. Segundo alguns, o uso da tábua pode ser na melhor das hipóteses uma bobagem e na pior, um procedimento perigoso.

A despeito disso, as tábuas continuaram sendo extremamente populares como um método de comunicação ao alcance de qualquer um interessado (ou disposto) a acreditar nelas. Para alguns, elas constituem um risco, pois abrem as portas para "forças obscuras" e "entidades malignas". A controvérsia a respeito das tábuas sempre existiu a aponto de haver tentativas de proibir sua comercialização. Muitos médiuns profissionais afirmam que as pessoas deveriam evitar a experimentação com as tábuas e recorrer a especialistas se tem interesse em estabelecer contato com o Mundo Espiritual. Alguns dizem ainda que o "perigo" reside em não compreender os métodos empregados e na ignorância de que forças temerárias podem agir através da tábua, influindo ou dando maus conselhos às pessoas.

Esse artigo não busca direcionar o leitor a usar ou não esses instrumentos. Francamente, nas vezes em que eu usei a tábua, os resultados foram incertos. Na maioria das vezes, insatisfatório seria a palavra correta já que não percebi nenhum efeito seja ele negativo ou positivo. No final das contas, foi o que muitos chamam de "brincadeira inocente", as tais brincadeiras do copo que a gente faz quando é criança ou adolescente. Em uma esfera pessoal, não aconselho as pessoas a tomar parte nessas brincadeiras, sobretudo se forem sugestionáveis ou impressionáveis. Por vezes, a imaginação pode se mostrar algo demasiado forte e causar um efeito negativo. Cada um sabe o que é melhor para si, e embora eu não acredite em poderes mediúnicos, quem sabe...

Aqui está, a título de curiosidade, como funciona a tábua:

O Tabuleiro deve ser idealmente usado por duas pessoas - ainda que mais indivíduos possam participar. Ele é posicionado no centro de uma mesa com os utilizadores dispostos em cada extremidade, sentados de frente um para o outro. O dedo indicador deve ser colocado sobre a ponteira levemente de forma que ela não seja empurrada ou conduzida. Se você participou de uma dessas sessões e viu a ponteira se mover rapidamente, raspando a madeira e produzindo algum ruído, pode ter certeza de que alguém está empurrando ou conduzindo. Segundo os especialistas, o movimento, se existir, deverá ser extremamente lento.

Um dos utilizadores, fazendo as vezes de Condutor do Experimento deve dizer em voz alta que pretender se comunicar com um espírito disposto a participar. este espírito pode ser nomeado, embora essa formalidade não precise ser cumprida. Alguns afirmam que espíritos malignos podem tentar se comunicar, fazendo-se passar por espíritos inocentes, com o intuito de confundir ou perverter a natureza da comunicação. Sendo assim, alguns defendem que a melhor maneira de lidar com isso é dizer em alto e bom tom que a experiência visa apenas uma comunicação breve e que ao término todo e qualquer acesso será cortado.

Dito isso, após estabelecer uma concentração, o Condutor faz uma pergunta clara em voz alta. Apenas uma pergunta deve ser feita por vez para que não haja confusão na resposta, se houver. As respostas, em teoria serão dadas à medida que a ponteira deslizar - supostamente movida pelo espírito, através da prancha. Cada letra obtida forma palavras ou respostas simples de sim ou não. Se não houver movimento, os envolvidos devem se concentrar novamente e reiniciar a comunicação.

Se a comunicação for estabelecida, ela pode durar alguns minutos ou mesmo algumas horas, dependendo exclusivamente do espírito contatado. Quando o este se der por satisfeito, simplesmente irá partir apontando a ponteira para fora do tabuleiro.

O ESTIGMA DO OUIJA



Mas o método funciona? 


Muitos acreditam que as respostas dadas pelo tabuleiro são simplesmente o resultado dos movimentos, ainda que inconscientes, das pessoas tocando a ponteira. Se isso é verdade, então o tabuleiro é operado por nada além do poder da sugestão dos envolvidos. Mas como é possível então explicar os muitos casos de tabuleiros fornecendo informações que nenhum dos envolvidos poderia dispor? 

No que diz respeito a isso, alguns parapsicólogos defendem que a Tábua Ouija é abastecida pela energia psíquica projetada pela mente humana, soletrando as respostas para as questões através de um tipo de precognição, telepatia ou mesmo clarividência. Os movimentos da ponteira seriam atribuídos a capacidade inerente de psicocinese das pessoas participando da experiência. Há no entanto os que defendem a real comunicação com o mundo espiritual. Estes creem que os envolvidos servem apenas de condutor e que a tábua faz as vezes de uma ferramenta mística, manipulada pela mão invisível dos espíritos. Muitos espiritualistas acreditam nisso, assim como os caçadores de fantasmas da atualidade, que veem a Tábua Ouija como uma das mais importantes ferramentas para o contato espiritual. 

Nos últimos anos, a reputação da Tábua Ouija foi profundamente arranhada, especialmente pela ação de grupos religiosos que condenam sua utilização. Eles costumam citar casos de assim chamados espíritos possessores que costumam se manifestar sobretudo quando jovens "brincam" com a tábua. Aparentemente, forças maléficas, disfarçadas como espíritos inocentes, seriam capazes de possuir os corpos de jovens e adultos impressionáveis, causando danos emocionais (até mesmo suicídio) entre aqueles que ousam usar a tábua.


Nesse caso, existe realmente um risco associado ao uso da Tábua Ouija? Há casos documentados de possessão ou de atividade maléfica permeando a comunicação espiritual? A maioria dos pesquisadores sérios afirmam categoricamente que essas alegações não passam de exagero ou de rumores infundados. Entretanto, é preciso dizer que algumas pessoas sugestionáveis podem se tornar obsessivas a respeito da Tábua Ouija e seus resultados. Podem acreditar de tal forma nos resultados obtidos e se sentir compelidos a aguardar a realização dos mesmos a ponto de se prejudicar.  

Há estudiosos que acreditam que a Tábua Ouija pode sim atrair espíritos que não são necessariamente benignos, ainda que a interação com estes não represente um perigo real. A Tábua Ouija oferece uma forma de comunicação, mas não é uma porta ou janela através da qual espíritos podem atravessar. Dito isso, muitos parapsicólogos sérios não aconselham que a Tábua seja usada por adolescentes, por indivíduos que se deixam levar pelas emoções ou qualquer um que não tenha discernimento para entender o que está sendo tentado. O experimento não deve ser compreendido como uma "brincadeira".  

Muito se comenta a respeito do surgimento de fenômenos inexplicáveis após o uso de Tábua Ouija, na forma de objetos se movendo ou de vozes desencarnadas. É possível que o Ouija possa despertar faculdades telecinéticas nas pessoas, atividades estas que acabam sendo interpretadas como presença fantasmagórica. É possível ainda que o Tabuleiro Ouija funcione como uma espécie de para-raios para atividade paranormal. A concentração dos envolvidos estimula o efeito psicocinético canalizando e dirigindo uma grande quantidade de energia psíquica que provoca os tais fenômenos. 

Desse modo, sim o Tabuleiro Ouija pode ser encarado como uma ferramenta para o paranormal, ainda que não seja capaz de invocar espíritos e fazer com que eles interajam diretamente com os vivos. Há mais a se temer da mente humana do que qualquer coisa invocada pelo Tabuleiro de Comunicação.

HISTÓRIAS E RUMORES SOBRE TABULEIROS OUIJA




Como mencionado acima, muitas pessoas desaconselham o uso de Tabuleiros Ouija e os associam a conjuração de espíritos malignos. De fato, o que não faltam são histórias - a maioria delas apócrifas, dando conta de resultados desagradáveis e de ocorrências alarmantes envolvendo fantasmas e atividade paranormal. Tais histórias fizeram com que em certas partes dos Estados Unidos, Tábuas Ouija não pudessem ser comercializadas, enquanto que em outras elas são vistas como ferramentas associadas a bruxos e satanistas. 

A seguir, estão relacionadas algumas histórias envolvendo o uso de Tábuas Ouija, muitas delas creditadas como "verídicas". Contudo, a veracidade delas é no mínimo questionável e caberá ao leitor decidir no que acreditar!

- Um dos mais misteriosos lugares da cidade de Los Angeles é o famoso Edifício Bradbury. Ao longo dos anos, muitos cineastas usaram o lugar como cenário para filmagens que incluem sucessos como Blade Runner, Seven e Morto ao Chegar. O prédio tem uma aura imponente e ao mesmo tempo opressiva, ainda que seja uma construção magnífica. Diz a lenda que George Wyman, o arquiteto responsável pela construção do Bradbury estava incerto sobre aceitar a tarefa. Ele decidiu consultar seu irmão, recém falecido, usando um tabuleiro Ouija, antes de assinar o contrato de construção. Wyman, na época era um empreiteiro de menor expressão e com pouca experiência nesse tipo de trabalho. Seu irmão o convenceu, através do tabuleiro, que o prédio seria lembrado como uma obra prima e o deixaria famoso. De fato, o sucesso com o Bradbury transformou Wyman em um dos mais respeitados arquitetos de sua época.  

- Arthur Henry Ward (também conhecido como Sax Rohmer), o autor das famosas novelas a respeito do personagem "Fu Manchu", foi membro da famosa Ordem Esotérica Vitoriana chamada Golden Dawn. Ele escreveu várias histórias sobre o mundo sobrenatural e a respeito do ocultismo. De acordo com sua biografia, ele deu início a sua lucrativa carreira como escritor seguindo o aconselhamento de uma Tábua Ouija. Ele perguntou qual seria a melhor maneira de obter sucesso na carreira literária e a ponteira soletrou "c-h-i-n-a-m-a-n". As novelas de Sax Rohmer envolvendo conspirações e mestres criminosos orientais se tornaram um sucesso estrondoso de venda e são populares até os dias atuais.

- Uma dona de casa de Saint Louis chamada Pearl Curran chocou o mundo literário em meados de 1900 afirmando ser capaz de canalizar através de um tabuleiro Ouija o espírito da escritora norte americana Patience Worth. Curran escreveu milhares de páginas de novelas e poesias que tinham o mesmo estilo de Worth. A prosa e o estilo eram tão similares que especialistas não conseguiam distinguir os trabalhos, escritos com 200 anos de diferença.  

- A partir de 1919, o ocultista Stewart Edward White e sua esposa Betty, estudaram por 17 anos a mediunidade de Betty e sua relação com um grupo de entidades espirituais chamados de "Invisíveis". Usando um Tabuleiro Ouija, White escreveu dois livros com profecias e previsões para os anos vindouros no qual ela teria previsto a Segunda Guerra, a Guerra Fria, o surgimento de Bombas Atômicas e uma série de acontecimentos futuros que realmente se confirmaram. As Crônicas dos Invisíveis chamou a atenção de vários estudiosos do Oculto e foram muito populares entre os líderes nazistas. Em 1937 elas foram usadas como parte de sua propaganda, uma vez que as previsões mencionavam as vitórias alemãs na Europa e Norte da África, Convenientemente, a propaganda nazista ignorou as previsões sobre a derrota do Eixo.

- Em 1933, Dorothea Turley e sua filha Mattie, de 15 anos de idade foram acusadas do assassinato de seu marido e pai. Durante o julgamento, Mattie confessou que a consulta de um Tabuleiro Ouija fez com que ela e a mãe decidissem dar cabo da vida de seu pai para que a mãe pudesse casar novamente com um homem rico. Mattie afirmou ainda que consultou um espírito e esse a aconselhou a executar o pai usando uma espingarda. O juri ficou impressionado com o testemunho, mas o advogado de defesa tentou demonstrar que o Tabuleiro Ouija poderia ser usado novamente, dessa vez para determinar a inocência das acusadas. Para isso, ele realizou uma sessão de comunicação, na qual dois voluntários do Juri usaram o tabuleiro para falar com o falecido. O resultado, altamente questionado, absolvia as acusadas de qualquer culpa: quando perguntado sobre quem o matou, o espírito teria inocentado as duas mulheres. O Juri determinou então que elas eram inocentes. Posteriormente, em um novo julgamento, motivado por pedidos de anulação da sentença, as duas foram consideradas culpadas e condenadas por homicídio.

- Em 1972, a poeta Jane Roberts fundou o movimento de "Canalização Espiritual" após uma experiência paranormal usando um Tabuleiro Ouija. Ela e seu marido estabeleceram contato com um espírito identificado pelo nome de "Seth" que lhes ditou vários livros de auto-ajuda extremamente populares na época, inclusive o bestseller Seth Speaks (Seth Fala). Em 1980, um conceituado pastor teria apontado o livro como uma obra ditada por uma entidade diabólica. Como resultado, Jane Roberts sofreu um atentado e quase foi assassinada por um fanático religioso.

- De acordo com uma Lenda do Mundo do Rock, o músico Alice Cooper alegadamente assumiu esse nome artístico com base nos conselhos de um espírito contatado através de um Tabuleiro Ouija. O tal espírito, pertencente a uma bruxa executada no vilarejo de Salem, no século XVII disse que a troca de nome seria decisivo para ele obter sucesso e se consolidar como um artista famoso. Cooper e seus colegas de banda afirmam até hoje que a brincadeira deu um excelente resultado! Historiadores confirmaram anos mais tarde a descoberta de um diário dos tempos da Caça às Bruxas no qual o nome de uma jovem chamada Alice Cooper era relacionado entre os suspeitos de bruxaria. Até então, o nome não havia sido mencionado de forma oficial em lugar algum.

- Em 1990 estudantes da Universidade Beneditina de Chicago decidiram usar um Tabuleiro Ouija durante uma visita a um pequeno Cemitério nos arredores do campus. Seu objetivo era entrar em contato com os espíritos que habitavam o lugar, considerado por muitos como assombrado. Um dos rapazes que participava da experiência acabou sendo "possuído" por um espírito maligno. Ele começou a gritar e uivar incontrolavelmente enquanto os seus colegas tentavam contê-lo. A polícia do campus foi chamada e o rapaz acabou sendo conduzido a uma delegacia e posteriormente a um hospital onde foi sedado e tratado. O incidente ganhou repercussão, sendo contado e recontado no campus com elementos sendo acrescentados para tornar a história ainda mais horripilante. Uma das versões afirma que o rapaz jamais se recuperou, tendo sido transferido para um manicômio onde acabou cometendo suicídio. O fantasma desse rapaz passou então a assombrar o campus como um espectro em busca de vingança. Durante o Halloween ele é frequentemente invocado como uma forma de desafio importo pelos veteranos aos calouros. Uma das formas de atraí-lo é usando um Tabuleiro Ouija e perguntando "Onde está o fantasma do Campus?", pergunta que faz com que ele se manifeste. Aparentemente, o fantasma é o responsável por vários suicídios e incidentes paranormais ocorridos no lugar.

- Um dos moradores originais da famosa casa assombrada de Amityville teria usado um Tabuleiro Ouija poucos dias antes do massacre que vitimou a Família DeFeo. O tabuleiro teria permitido o acesso de um espírito maligno pertencente a um assassino que possuiu o pai da família e o fez cometer a chacina. Durante uma exploração conduzida por um ocultista, um tabuleiro Ouija queimado teria sido descoberto no porão da casa. O objeto foi usado para estabelecer contato com os muitos espíritos habitando a casa, mas os resultados foram no mínimo inconclusivos. Alguns afirmaram que a pergunta "Por que essas pessoas morreram?" se referindo aos mortos no massacre, resultou na macabra resposta; "Para saciar o fogo do Inferno!".

Tabuleiros Ouija ainda hoje fascinam e causam grande polêmica.

Seriam eles uma forma segura de estabelecer contato ou uma arriscada ponte entre o mundo espiritual e os vivos? A resposta, talvez nunca saibamos ao certo.