domingo, 19 de maio de 2013

As Estrelas estão certas! - Finalmente é tempo de Cthulhu no Brasil


Senhores e Senhoras,

Desde o dia em que criei o Blog MUNDO TENTACULAR espero poder dar essa notícia, e finalmente aconteceu, então preparem-se pois...


CALL OF CTHULHU 
ENFIM SERÁ 
PUBLICADO NO BRASIL!


Pedro Ziviani, um dos responsáveis pela EDITORA TERRA INCÓNITA  acabou de enviar um release sobre a publicação do Livro Básico de Chamado de Cthulhu no Brasil. Segundo ele, o livro, será lançado ainda esse ano, através de Financiamento Coletivo. 

Aqui está o texto do release:


As estrelas estão finalmente alinhadas para a chegada do RPG Chamado de Cthulhu no Brasil!

A Terra Incognita Editora traz ao público brasileiro a sexta edição deste jogo clássico, baseado nas obras do grande mestre do horror cósmico, H.P. Lovecraft. Um pioneiro do horror em RPGs, Chamado de Cthulhu vendeu mais de 300 mil cópias desde seu lançamento em uma tempestuosa sexta-feira 13 de 1981 e ganhou inúmeros prêmios durante seus mais de 30 anos. O jogo utiliza o sistema de regras Basic Roleplaying System, que é fácil de aprender e rápido em jogo.

Arrisque a própria sanidade ao desvelar horrores além do espaço e tempo. Investigue ruínas esquecidas pelo homem, antigas florestas, montanhas e mansões assombradas por horrores inomináveis. Se você já se arrepiou com uma história de fantasma, perdeu o fôlego com um filme de terror e quer enlouquecer um grupo de amigos em um fantástico jogo, Chamado de Cthulhu é pra você!


Em breve iniciaremos a companha de financiamento coletivo para publicação do livro.

Terra Incognita Editora são: Pedro Ziviani, Kairam Hamdan, Mauro Lucio Amado.

Mais informações à respeito do lançamento poderão ser obtidas ao longo das próximas semanas na página do Chamado de Cthulhu no Facebook.

facebook.com/chamadodecthulhu



Logo teremos aqui no blog uma entrevista com o pessoal da Terra Incógnita com mais informações sobre esse grande lançamento.

Iä! Iä! Cthulhu Fhtagn 

Vingança Viking - A Temida Águia de Sangue


Com base no texto da Smithsonian Magazine

Desde a década de 1960, os Vikings e muito de sua cultura passaram por uma espécie de filtro revisionista que suavizou a sua violenta fama.

Até então, as estórias mais frequentes a respeito dos povos da Dinamarca e Noruega no curso da Idade das Trevas, os apresentava como guerreiros sanguinários, que matavam, destruíam e pilhavam outros povos. Se eles não estavam cultuando seus deuses pagãos, estavam navegando em seus navios de batalha para saquear monastérios, estuprar virgens e conquistar um lugar de destaque na história, como homens ferozes e obstinados.

Mas as coisas começaram a mudar a partir da publicação do influente livro "The Age of Vikings" de Peter Sawyer em 1962 que redimiu, ao menos em parte, os vikings. Atualmente, muitos historiadores continuam afirmando que a fama desses povos como guerreiros ferozes, dados a estuprar e assassinar, é um exagero que encobre o fato deles serem na verdade comerciantes e exploradores. As realizações dos povos escandinavos são muito laureadas - eles navegaram até a América e alguns acadêmicos chegaram ao ponto de apontá-los como agentes que estimularam a economia, que foram "vítimas de inimigos em maior quantidade", e até (como um estudo da Universidade de Cambridge sugeriu) "homens que preferiam se embelezar, a pilhar", que chegavam a carregar instrumentos para remover a cera dos ouvidos. Para citar o arqueólogo Francis Pryor, eles "se integravam em comunidade" e "aceitavam o sistema de propriedade" nas nações que invadiram.

Ivar Boneless, um dos mais temidos guerreiros 
Os Vikings realmente construíram uma civilização, eles possuíam fazendas e trabalhavam metal com habilidade. Mas, como aponta o medievalista Jonathan Jarrett, as evidências históricas também demonstram que eles capturavam milhares de escravos e mereciam sua reputação como temíveis guerreiros e mercenários. Eles podiam ser  inimigos implacáveis e gananciosos, e ao longo dos séculos levaram vários reinos fortes e ricos (como, por exemplo, a Inglaterra Anglo-Saxã) a beira do colapso. Na maior parte do tempo, os mesmos homens que trabalhavam nas fazendas e na metalurgia eram também responsáveis por estuprar e matar - afinal era um imperativo que eles tivessem de buscar outras fontes de sustento, no caso pilhando, sobretudo quando o solo pobre de sua terra não rendia bons resultados. Finalmente, como Jarrett destaca, se embelezar e ainda assim continuar sendo um soldado brutal, não é uma contradição. Um dos guerreiros vikings morto na Batalha de Stamford Bridge em 1066 por exemplo, atendia pelo nome de Olaf, the Flashy (Olaf, o Espalhafatoso).

Sempre foi um problema para os historiadores, que defendem terem os vikings sido um povo "incompreendido", explicar a inclinação deles - pelo menos da forma como eles são retratados em sagas e crônicas - para sangrentos Rituais de Morte. Entre as muitas vítimas iminentes dessas práticas, nós podemos citar o Rei Saxão Edmund, o Mártir - que morreu em 869, amarrado a uma árvore, após ser cruelmente açoitado e servir de alvo para arqueiros dinamarqueses que "o cobriram com tantas flechas, que ele teria ficado parecido com um porco-espinho". Outro que sofreu nas mãos dos vikings foi Aella, Rei da Northumbria, que em 867 passou pela mais terrível das provações impostas pelos povos Vikings aos seus inimigos, o ritual conhecido como "Águia de Sangue".

Não é preciso procurar muito para encontrar descrições explícitas sobre que tipo de execução medonha era a águia sangrenta. Em sua versão mais elaborada, ilustrada por Sharon Turner em History of the Anglo-Saxons (1799) ou por J.M. Lappenberg em seu History of England Under the Anglo-Saxon Kings (1834), o ritual envolvia vários estágios distintos:

A temível Águia Sangrenta
Primeiro a vítima era amarrada e imobilizada, com a face para baixo e as costas esticadas; em seguida, a forma de uma águia com as asas abertas era desenhada nas suas costas com carvão ou com a lâmina de uma faca. Depois disso, as costelas eram quebradas com um machado, uma por uma, os ossos e a carne puxados para trás a fim de criar a imagem do que parecia ser um par de asas brotando nas costas do sujeito. A vítima, segundo relatos, poderia muito bem sobreviver a essa tortura, experimentando uma agonia, nos termos de Turner, "ampliada pelo sal", - uma vez que sal grosso era esfregado dentro da enorme ferida. Depois disso, os pulmões expostos eram puxados para fora do corpo e esticados sobre as "asas", oferecendo às testemunhas uma ilusão de que elas estariam batendo, a medida que os pulmões se enchiam de ar e se esvaziavam, até finalmente a vítima expirar.

No século XIX, muitos historiadores aceitavam que a águia sangrenta além de ser profundamente desagradável, era muito real. De acordo com o eminente medievalista J.M. Wallace-Hadrill, é possível que não apenas Aella da Northumbria mas também Halfdán, o filho de Harald Finehair, Rei da Noruega, e o Rei irlandês Maelgualai de Munster; e em algumas interpretações até mesmo Edmund, o Mártir possam ter sofrido esse mesmo destino.

Para colocar essas alegações em um contexto, é necessário salientar que todos esses nobres morreram no final do século IX e início do século X, e que pelo menos dois deles Aella e Edmund - foram mortos por Ivarr the Boneless (Ivar, sem Ossos), o mais temido Viking de sua época. Ivarr, era filho do igualmente notório Ragnarr Loðbrók, cujo nome pode ser traduzido como "Ragnar Calças Peludas". Ragnarr foi supostamente o viking que saqueou Paris em 845, e - ao menos de acordo com o documento medieval islandês Þáttr af Ragnars sonum (Tale of Ragnar’s Sons - A História dos Filhos de Ragnar) ele morreu após seu barco naufragar na costa do reino Anglo-Saxão da  Northumbria. Capturado pelo monarca local, ele teria sido executado de forma incomum: lançado em uma cova repleta de víboras venenosas.

Analisando esse background compreende-se que a horrível morte de Aella parece ter sido motivada por vingança, uma vez que era ele o governante que capturou Ragnarr Loðbrók. Talhando a águia de sangue nas costas de Aella, Ivarr estava vingando a morte de seu pai. Mais que isso, os Vikings demonstraram a sua fúria com a morte de Ragnarr aparecendo na Inglaterra com um enorme exército nessa mesma época. Uma vez que esse exército e a depredação que ele causou no país foram o motor de alguns dos episódios vitais na história Anglo-Saxã - nada menos que a ascensão do Rei Alfred, o Grande, não é de surpreender que muitos respeitados acadêmicos aceitaram a realidade histórica, como o eminente Patrick Wormald, que chamou essa forma de execução de "ritual feroz de sacrifício".

O trágico destino de Ragnarr
Talvez, o mais proeminente defensor da "Águia de Sangue" como um ritual verdadeiro tenha sido Alfred Smyth, o controverso especialista irlandês sobre a história dos Reis da Escandinávia nas Ilhas Britânicas no século IX. Para Smyth, a cova das víboras preparada pelo Rei Aella da Northumbria soa como um exagero (uma conclusão sensata, dada a escassez de serpentes venenosas na Inglaterra), enquanto a águia de sangue soa perfeitamente plausível:  

É difícil acreditar que os detalhes sobre essa carnificina tenham sido inventados por copistas medievais noruegueses... os detalhes explicam precisamente do que trata a águia de sangue... [e] de fato o termo bloðorn existe como um conceito no idioma nórdico antigo, indicando uma forma de justiça pelas próprias mãos. 


Para amparar a sua tese, Smyth cita a Saga de Orkneyinga - um relato islandês do final do século XII escrito pelos Condes de Orkney, no qual outro famoso líder Viking, Earl Torf-Einar, entalha a Águia de Sangue nas costas de seu inimigo Halfdán Long-legs (Halfdán Pernas Longas) “usando sua espada nas costas e na coluna, destroçando suas costelas e virando-as em seu lombo, e arrancando para fora seus pulmões.” Smyth vai mais longe ao sugerir que ambos Halfdán e Aella foram sacrificados para os Deuses Nórdicos: “Um sacrifício pela vitória,” ele explica, “era um traço característico do Culto de Oðinn [Odin].”

A existência de alguns problemas nessas reivindicações não surpreende nenhum estudioso desse período histórico, fontes do século IX e X na Escandinávia são poucas, muitas tardias e abertas a interpretações. A identificação de Smyth de várias vítimas sujeitas a águia de sangue sem dúvida é passível de objeções. Alex Woolf, o autor de um registro completo sobre a história da Escócia durante esse período, conclui que a Saga Orkneyinga é um trabalho fictício, não verdadeira história, enquanto o destino de Maelgualai de Munster foi contado apenas séculos mais tarde later. Segundo o Cogadh Gaedhel re Gallaibh (The Wars of the Irish with the Foreigners - As Guerras dos Irlandeses contra os Estrangeiros,  escrito no final do século XII), Maelgualai teria morrido em 859 quando “sua coluna foi partida por um pedregulho” - um ato que  Smyth insiste implica em alguma modalidade de ritual de execução que “remete a águia de sangue no que diz respeito ao procedimento.” Mas a narrativa fornecida por outro cronista irlandês, no Annals of the Four Masters (Anais dos Quatro Mestres) - relata que Maelgualai foi meramente “atingido por uma pedra lançada pelos nórdicos – o que é igualmente verossímil.

De fato, os relatos sobre a águia de sangue geralmente foram escritos no séculos XII e XIII, com base nas sagas nórdicas e islandesas, que por sua vez decorrem de poesias do período. As Sagas são contadas na forma de grandes estórias, que soam sedutoras aos historiadores, que dispõem apenas evidências fragmentadas sobre o período. Mas como é difícil reconcilia-las a crônicas, elas se tornaram bem menos criveis do que registros históricos. Além disso, se Halfdán Long-legs e  Maelgualai não estão na lista daqueles que sofreram a morte pela águia de sangue - e se nós aceitarmos as sugestões de que Edmund tenha sido morto com flechadas (ou, conforme The Anglo-Saxon Chronicle, tenha simplesmente morrido em combate) - resta apenas a morte do Rei Aella como vítima dessa forma de execução ritualística.


Nesse ponto é importante citar a publicação de Roberta Frank no English Historical Review. Frank - uma acadêmica de língua inglesa e literatura escandinava, não apenas debate a fonte original da morte do Rei Aella, como salienta que “o procedimento da águia de sangue varia de texto para texto, tornando-se mais lúgubre, pagã e ritualizada com o passar do tempo.” Ela aponta que as únicas fontes a respeito da águia de sangue são trechos de poesia, aberta a várias interpretações. 

Para vários acadêmicos, o ponto central é que o ritual da águia de sangue é, e para sempre será, passível de dúvida quanto a sua existência de fato. Isso ao menos até que alguma prova documental possa ser encontrada, o que é pouco provável.

Visto dessa perspectiva, não causa surpresa - ao menos enquanto tantos acadêmicos continuarem  a tratar os vikings como fazendeiros, que ocasionalmente lutavam - que nós sejamos encorajados a duvidar da realidade da águia de sangue. É provável, entretanto, que quando a roda da história girar, como provavelmente ela o fará, não nos surpreenderemos ao ouvir historiadores mais uma vez argumentando que os guerreiros da Escandinávia sacrificavam suas vítimas aos seus deuses pagãos.

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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Terror from the Skies - Resenha da última campanha lançada pela Chaosium


Com base nas resenhas de PoC e Alex Lucard

Após um período meio parado, a editora Chaosioum surpreendeu seus leitores publicando não apenas um, mas dois títulos ano passado para sua principal linha de RPG, Call of Cthulhu. O primeiro foi o elogiado Cthulhu by Gaslight, que marcou o retorno de CoC a Era Victoriana (e que recebeu uma resenha aqui no Blog). 

O segundo foi meio que inesperado: 

Terror from the Skies: A Race to Save Humanity from a Dark Future ("Terror das Estrelas: Uma corrida para salvar a humanidade de um Futuro Negro") apresenta uma nova campanha para CoC, a primeira da Chaosium desde Tatters of the King, publicado em 2006. Da mesma forma que seu antecessor, Terror from the Skies tem lugar durante o período clássico da ambientação, a década de 1920, e se passa na Inglaterra, embora os eventos irão conduzir os investigadores a lugares muito distantes.


Como manda a tradição das campanhas, Terror from the Skies se propõe a ser uma missão desesperada  para salvar o mundo de uma terrível ameaça do Mythos. Tudo começa com uma investigação aparentemente corriqueira no Sudeste da Inglaterra onde os investigadores são convidados para uma cerimônia de casamento. A caminho da recepção, o grupo entra em contato com estranhos rumores e superstições locais, que afirmam que o casamento não terminará bem. Será que há algo verdadeiro nos rumores a respeito de uma maldição repousando sobre uma antiga igreja? Ou eles não passam de crendices tolas? 


O começo da campanha pode soar meio morno, mas as coisas gradualmente vão esquentando. O primeiro cenário serve de justificativa para apresentar os personagens mais importantes da campanha, aqueles que irão conduzir os passos dos investigadores no restante da estória. Ao meu ver, as coisas poderiam ser um pouco mais bem amarradas e a ligação entre os PCs e esses NPCs poderiam ser estabelecidas de forma mais profunda, mas não é nada que o mestre não possa melhorar. 


A partir dessa introdução, a campanha segue para o Norte das Ilhas Britânicas. Atraídos por uma correspondência de um aliado apresentado no primeiro cenário, o grupo fica sabendo de uma força sobrenatural que está agindo em Whitby. Os investigadores terão de descobrir se há algum fundamento nas estranhas estórias a respeito de um lendário morto-vivo. Apesar de se arriscar em alguns clichés sobre vampirismo, o autor consegue desviar o foco e retomar o clima dentro dos domínios do Horror Cósmico. Essa aventura é bem divertida! Aos poucos, os personagens irão desvendar indícios de um plano macabro e uma conspiração que os lançará contra poderosos inimigos.

Como antagonista principal, Terror from the Skies, consegue inovar e além dos habituais cultistas maníacos, o grupo terá de lidar com uma raça de criaturas que aparece apenas ocasionalmente em cenários e suplementos do jogo. Não vou ser estraga prazeres e contar qual o monstro e quem está por trás da ameaça, mas o que posso adiantar é que os antagonistas em questão são bastante perigosos e implacáveis. Sem dúvida, os jogadores vão sofrer um bocado para conseguir frustrar os planos de seus oponentes e eles não lhes darão folga. Um dos aspectos interessantes da trama é justamente esse. A medida que os investigadores começam a descobrir os fatos e pistas, seus inimigos não ficam simplesmente observando seu progresso, eles tentam de toda forma eliminar o risco. E isso transforma Terror from the Skies em uma série de cenários especialmente perigosos para os jogadores. Acreditem em mim: essa é uma daquelas campanhas perfeita para causar paranoia e deixar os personagens (e é claro, os jogadores!) constantemente preocupados, se perguntando em quem podem ou não confiar.

Para aumentar o desafio, a campanha segue um cronograma extremamente apertado. Se os personagens não conseguirem descobrir o que está acontecendo e traçar um plano para impedir seus oponentes no prazo estipulado, as chances da campanha ter um final nada agradável são grandes. Eu gosto dessa abordagem, ela faz com que os personagens sejam obrigados a "ir à luta" sem que possam desperdiçar seu tempo em bobagens ou investigações paralelas. E dessa forma o grupo terá de viajar pelo interior da Inglaterra de trem, carro, carruagem e barco, para reunir as pistas necessárias. A campanha é composta de dez cenários, mas alguns deles são bastante sucintos, permitindo ao Guardião juntar dois em uma mesma sessão.

Embora a campanha tenha um início bastante "purista", a medida que progride, Terror from the Skies vai se tornando cada vez mais aventuresco, com uma pegada Pulp, sobretudo nos últimos cenários. Na minha opinião, o autor abusa um pouco dos combates e das oportunidades para que os investigadores saquem armas e abram caminho à bala, o que pode ser um tanto problemático em se tratando de uma campanha na Inglaterra dos anos 1920 (um lugar extremamente civilizado e tranquilo). Há algumas sequências um bocado focadas para o estilo "pé na porta e armas na mão" e forçam os jogadores a buscar soluções na base do poder de fogo ao invés da diplomacia ou das habilidades investigativas. Isso pode ser um tanto decepcionante, mas na minha opinião o Guardião pode fazer algumas modificações para sanar a questão. Se é que tal coisa o incomode.

Algumas resenhas de Terror from the Skies criticam a ausência de detalhes e motivações de alguns personagens. De fato, em alguns momentos, os personagens são mencionados de forma muito rápida e o guardião tem que preencher uma série de lacunas e inventar algo que justifique as ações dos NPCs. O que parece faltar à campanha é uma execução mais caprichada e uma conexão mais clara entre os cenários. Em alguns momentos, as pistas não parecem suficientes para enviar os investigadores rumo ao cenário seguinte, o que pode causar alguns problemas de encadeamento para o Guardião resolver.

Outro elemento muito criticado em Terror from the Skies é a ausência de detalhes sobre os lugares onde se passam as aventuras. No decorrer da campanha, os investigadores visitam pelo menos oito cidades, mas a descrição delas é muito simplificada, o que atrapalha bastante na hora de narrar a estória. Por exemplo, ao chegar a York, onde os personagens irão se hospedar? Há alguma boa biblioteca ou universidade em Cardington, onde o grupo possa fazer suas pesquisas? Ou ainda, como são as ruas e que tipo de pessoas vivem em Whitby? Eu entendo que o Narrador pode simplesmente inventar as informações com base em seu senso comum, mas em Call of Cthulhu estamos acostumados a encontrar detalhes sobre os lugares visitados o que permite uma maior familiaridade do narrador com o ambiente onde as estórias transcorrem. Na ausência dessas informações, ao guardião restam duas opções: pesquisar por conta própria ou deixar que as cidades da campanha sejam todas mais ou menos parecidas e "sem sal".
     

A falta de mapas também é um problema irritante nesse livro. Terror from the Skies é extremamente econômico no que diz respeito a mapas situando as localidades e distâncias entre elas. Pessoalmente eu conheço muito pouco do norte da Inglaterra e não faço ideia de onde fica Manchester em relação a New Castle por exemplo. Também não tenho ideia onde diabos fica Whitby... Até acho que o guardião pode encontrar um bom mapa da Inglaterra na internet, mas francamente, o livro poderia trazer esse material para facilitar as coisas.

Mas o maior defeito da Campanha, entretanto, é a ausência de estatísticas de alguns NPCs que os jogadores irão encontrar e interagir no decorrer da campanha. Essa é uma falha grave uma vez que deixa nas mãos do Guardião a responsabilidade de, mais uma vez, ter que preencher as lacunas. Os livros da Chaosium geralmente trazem as estatísticas dos personagens principais no final de cada cenário e essas estatísticas são uteis para o narrador conduzir a estória, mas em Terror from the Skies aparentemente esqueceram esse "pequeno" detalhe.

Com todos esses fatores em aberto, Terror from the Skies acaba sendo uma campanha indicada para narradores mais experientes que tenham uma certa milhagem no que diz respeito a consertar problemas de cenários e complementar trechos que obviamente não vão funcionar na prática.  

A campanha vem acompanhada de vários handouts. Muitos deles foram bem produzidos e receberam um tratamento para parecer autênticos (folhas de diário, páginas de jornais, documentos etc.) de modo que a maioria pode ser simplesmente copiado e entregue diretamente aos jogadores. Não há muitas novidades no que diz respeito a aparência dos handouts, mas a maior parte deles tem um efeito satisfatório.

A arte é mediana, há alguns bons desenhos no interior, mas a maioria se não compromete a qualidade do produto também não empolga. Infelizmente, a arte interna também fica um pouco subvalorizada e não aparece com a frequência que se espera em um livro de RPG. São várias páginas de texto e pequenas ilustrações em geral de um NPC. A título de curiosidade, a arte interna foi assinada por Marco Morte e Pedro de Castro Araújo, ambos artistas brasileiros. A capa no entanto é de Kenneth Solis e ao meu ver substituiu bem a primeira capa que havia sido anunciada e que entregava muito sobre o desfecho da campanha. O link para a capa que não foi utilizada está aqui .   

O veredito final é o seguinte:

Terror from the Skies tem uma boa estória central, mas os cenários individualmente deixam a desejar. As ideias são boas, mas as situações poderiam render algo mais interessante se tivesse havido um pouco mais de cuidado e principalmente detalhes. A impressão que tenho é que esse suplemento poderia vir a se tornar uma ótima campanha, se tivesse um número um pouco maior de páginas e consequentemente informações importantes para o mestre conduzir a narrativa a contento.

Do jeito que é apresentada, Terror from the Skies até pode resultar em uma campanha divertida, mas antes de encarar o desafio, o narrador tem que se perguntar se vai valer a pena o trabalho e esforço para sanar os defeitos do livro. E acreditem, vai dar trabalho colocar a casa em ordem...

Trata-se de um material novo e original que pode ser interessante nas mãos de um narrador experiente e de um grupo motivado, mas está a anos luz das campanhas clássicas de Call of Cthulhu.

TERROR FROM THE SKIES: A Race to Save Humanity From a Dark Future
Escrito por Colin Hart
Ilustrações: Marco Morte e Pedro de Castro Araújo
Capa: Kenneth Solis
144 páginas
Preço de Capa: US$20.95
Link para Amazon: Terror from Skies

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quarta-feira, 15 de maio de 2013

A Face Pálida - Uma narrativa sinistra envolvendo um objeto maldito


Em geral, eu não sou muito fã de creepypastas ou narrativas de horror. Para cada uma que é bem escrita, existem mais 10 que são uma total perda de tempo...

Essa eu achei mais interessante. Sobretudo, porque enquanto lia, o telefone aqui de casa tocou e quando atendi alguém do outro lado da linha não falava coisa com coisa. O telefone tocou mais duas vezes enquanto eu lia o conto e cada vez eu tomava um bruta susto... e sempre do outro lado alguém falava com uma voz abafada e gutural. 

Então, melhor não contrariar... melhor traduzir a tal narrativa e colocar no Blog.


Aconteceu em um inverno.

Eu estava andando pelo parque próximo do meu apartamento quando vi quatro meninos  batendo em alguma coisa com um martelo. Dizem que em Chicago as crianças são mais violentas do que no resto do país, mas eu nunca tinha visto algo assim na minha vizinhança. Corri até eles, mais por curiosidade do que qualquer outra coisa, pensando que eles poderiam estar torturando algum pobre esquilo ou pombo. Se eu soubesse o tipo de coisa com que eu teria contato, provavelmente teria voltado para minha casa e trancado a porta.

Um dos meninos (de não mais do que 12 anos) estava segurando um tipo de estatueta, que parecia bem antiga e pesada. Ela tinha talvez uns 45 centímetros. À primeira vista, parecia a figura de um homem, mas ao olhar com mais cuidado percebi que era algo diferente: tinha asas, uma face simiesca, pés de pássaro e estava nu. Parecia algo que se vê em museus ou coleções de arte. De imediato não me passou uma boa impressão, e pensando bem, cheguei a ter um arrepio. O menino segurava a estatueta no chão com o rosto virado para o lado, e gritava para um segundo garoto (chamado por seus amigos de Paul ou Peter) para continuar batendo com o martelo. Os outros dois meninos, mais jovens, apenas observavam em silêncio.

Usando meu tom mais adulto mandei que ele parasse de martelar a coisa e dissesse o que diabos estava tentando fazer. O garoto com o martelo olhou para mim e disse, "nós vamos quebrar o diabo em seis partes e enterrar ele na floresta".

Eu fiquei surpreso com a resposta. Não é o tipo de coisa que você espera ouvir de crianças e deixei escapar uma risada. "Então... vocês acham que essa coisa é o diabo?"

Peter ou Paul obviamente não gostou da minha pergunta e disse algo como: "Você é estúpido? Essa coisa pertence ao diabo!"

Quando olhei novamente para a estatueta, a aparência dela me agradou ainda menos. Os meninos haviam conseguido arrancar a base de madeira dela com os golpes de martelo, havia um tipo de escrita nesse pedestal, mas nada que eu fosse capaz de decifrar. Parecia asiático ou algo do Oriente Médio. Na parte de baixo havia um sol e uma lua com rostos de expressão vazia. Não sei porque, mas não gostei daquela coisa...

Peter ou Paul explicou que seu avô era dono de uma Loja de Antiguidades e estava internado em um hospital - "com câncer" disse o garoto com uma expressão muito séria. O velho moribundo pediu que sua filha (a mãe do garoto) fosse até a loja e abrisse o cofre que ficava no escritório. Ele mandou que ela apanhasse uma estatueta que estava guardada lá dentro. Deveria então pegar um martelo e quebrar a coisa em seis partes e esterrar cada uma delas na floresta. Elas deveriam ser enterradas a uma distância de pelo menos uma milha uma da outra. Ele não revelou seus motivos, mas se referia ao objeto como "a estatueta do diabo".

Quando a mulher se recusou, achando que o pai estava delirando por conta da medicação, o velho chamou o neto e disse a ele o que deveria ser feito. Ele contou onde havia uma chave reserva para a loja e sussurrou em seu ouvido a combinação do cofre. O avô disse que o menino poderia ficar com qualquer coisa do cofre, desde que fizesse o que ele mandou com a "estatueta do diabo".

O garoto aceitou e chamou seus amigos para ajudar na tarefa. Eles encontraram a estatueta onde o velho havia dito que estaria e a levaram até o parque, onde se depararam com dois problemas. Primeiro, a coisa era muito resistente e apesar deles usarem o martelo para arrebentá-la, tudo o que haviam conseguido até então era produzir alguns arranhões e arrancar sua base. Segundo, havia o problema de encontrar uma floresta para enterrar os pedaços. Florestas em Chicago são algo raro, ainda mais se você tem que enterrar cada pedaço a uma milha de distância. Percebendo que não era uma boa ideia deixar um grupo de garotos discutindo com um martelo na mão, eu supus que o melhor era ajudá-los a cumprir o desejo de seu avô, antes que eles acabassem se machucando.

Mas falar era mais fácil do que fazer. A estatueta era muito mais dura que eu pensava e cheguei a imaginar se ela não era de alguma forma reforçada por dentro. Eu bati na maldita coisa várias vezes e tudo o que consegui foi arranhar a superfície lisa cor de bronze. Pensei um pouco e lembrei que na minha garagem eu tinha algumas ferramentas que poderiam ser úteis. Mandei os meninos esperarem e corri até lá e voltei com uma marreta mais pesada. Os meninos ficaram sentados em um banco aguardando minha volta. Quando cheguei estavam brincando com a neve que havia começado a cair, lembro que estava bem frio. Os quatro pararam e observaram com interesse enquanto eu marretava a maldita coisa. Depois de três boas pancadas um pedaço da asa finalmente quebrou. Examinei o fragmento e os garotos também olharam curiosos enquanto eu segurava ele na palma da minha mão. Juro por Deus, era gelado! Peter ou Paul, então me lembrou "ela tem que estar em seis partes".

Eu dei um sorriso sem graça e voltei ao trabalho. Depois de meia hora consegui secionar a coisa em seis pedaços irregulares. Os meninos comemoraram quando o último pedaço rachou no meio depois de uma boa pancada. Eles enterraram uma das partes ali mesmo e disseram que iam até o outro lado do parque onde pretendiam enterrar outros pedaços, respeitando a distância. Peter ou Paul disse que no dia seguinte apanharia o trem elevado para enterrar as partes restantes do outro lado da cidade.

Como tudo aconteceu numa quinta à tarde, eu pretendia ir ver uns clientes na manhã seguinte, e uma vez que teria de ir para aqueles lados, disse a eles que poderia fazê-lo. Parecia melhor do que deixar os meninos pegar um trem aquela hora. Além do mais, eu estava curioso em examinar aquela coisa, quem sabe até descobrir sua origem. Os meninos me agradeceram, Paul ou Peter fez com que eu prometesse que ia cumprir a tarefa. E realmente era essa a minha intensão. Nãos ei dizer porque, simplesmente queria ver aquela porcaria enterrada. Os meninos se despediram, desceram a rua e eu nunca mais os vi.

Mais tarde pensei se no fim das contas eu não havia agido errado. Quer dizer, aquilo era absurdo e ao invés de agir como adulto eu estava incentivando crianças a acreditar naquela bobagem. Além do mais, me arrependi de ter deixado eles irem sozinhos até o parque para enterrar os pedaços da estatueta. Ainda mais perto de escurecer! Por outro lado, um adulto andando pelo parque, com quatro garotos, podia passar a mensagem errada.

O pedaço que ficou comigo era o maior fragmento, com a cabeça e o peito da figura. Eu cheguei em casa por volta das 18 horas e arrumei alguma coisa para comer. Por alguma razão, não queria olhar para aquela coisa, por isso guardei ela dentro de uma gaveta no móvel da sala.

É curioso, mas logo que cheguei em casa, comecei a sentir uma sensação estranha, como se eu não estivesse sozinho dentro do apartamento. Trabalhei no computador por algumas horas e várias vezes olhei por cima do meu ombro apreensivo, como se esperasse me deparar com alguém atrás de mim. Era uma sensação esquisita, de estar sendo observado. Quem já sentiu isso, sabe do que estou falando. Não é possível explicar exatamente como é, mas a sensação o impede de relaxar. Felizmente aquilo passou, e resolvi ir dormir por volta das 23:00.

Peguei no sono rapidamente, mas por volta das 02:00 da manhã acordei com um ruído estranho, um tipo de zumbido baixo que eu imaginei vinha do aquecedor. Levantei e chequei o aparelho que estava funcionando perfeitamente. Aquela sensação de não estar sozinho havia retornado com força total e eu sentia cada pelo do meu corpo se levantar. Eu podia sentir que haviam olhos me observando. Revistei o apartamento de cima até embaixo, procurando por algum invasor, sabendo o quão absurdo era aquela situação, afinal na época eu morava sozinho e as portas estavam trancadas.

Voltei para o meu quarto, liguei a televisão e tentei me distrair, mas a apreensão continuava... e de vez em quando, eu podia ouvir claramente aquele ruído de estática variando em intensidade. Finalmente, por volta das 04:00 da manhã, quando estava cochilando levemente, ouvi um estrondo dentro de casa, e fui ver o que podia ser. Não me entenda mal, eu não sou corajoso! Corri sem pensar, foi uma reação espontânea e impensada.

Encontrei a sala toda bagunçada, com objetos jogados em todo canto como se tivesse passado um furacão por ali. O armário tinha sido arrastado cerca de meio metro, o sofá e uma poltrona estavam de cabeça para baixo, um quadro tinha caído da parede e as cadeiras da mesa estavam tombadas. As janelas estavam abertas e a cortina voava sem parar. A luz piscava acendendo e apagando. O som de estática estava ali na sala. Apesar do termostato estar regulado para 24 graus, eu sentia suor frio brotar na minha testa.

Imediatamente fui até a gaveta da cômoda para ver se o pedaço da estátua ainda estava lá. Não sei porque fiz isso, mas algo dentro de mim conectou aquele fenômeno bizarro ao fragmento do objeto. Ao constatar que estava onde tinha deixado, coloquei a peça no bolso da calça, e imediatamente tive a sensação de que não estava sozinho. Era como se alguém ou alguma coisa, estivesse me observando furiosamente. Girei o mais rápido possível a tempo de me deparar com uma forma horrível. Era uma silhueta gasosa, sem um corpo definida, ela flutuava no ar como um balão diáfano. Lembrava uma sombra delgada e esticada, mas a única coisa que eu conseguia discernir era uma face muito pálida longa que parecia brotar no ar. Tinha uma boca larga e vermelha como se os lábios estivessem pintados com sangue e uma expressão grave, transbordando ódio. Mas o pior eram os olhos esbugalhados injetados, tomados de incontrolável raiva. Eu quase fiquei paralisado por aquele olhar maligno.


A face pálida avançou na minha direção com a boca aberta e os dentes arreganhados. Eu me desequilibrei e essa foi a sorte, pois a coisa passou apenas do meu lado. A medida que eu caía, senti um cheiro de podridão preencher o ar. Era como uma cova aberta! Não sei como consegui reagir tão rápido, talvez tenha sido o profundo pavor que senti ou a descarga de adrenalina, misturada a auto-preservação. Não ousei olhar para trás novamente, pois eu sabia que se tivesse me deparado com aquela face medonha uma vez mais, acabaria desmaiando. Saltei através da porta tão rápido que em poucos segundos eu já estava no pátio e dali disparei para a rua.

A vizinhança estava deserta, mas tive e pude acenar para um táxi. Entrei no veículo e disse ao motorista para seguir até o outro lado da cidade. No caminho tremia sem parar. Ao chegar no Parque Lincoln me ajoelhei e comecei a cavar um buraco com as minhas próprias mãos no solo meio congelado. Quebrei unhas e arranhei os dedos produzindo cortes nas pedras afiadas do piso, mas não me importei. Depositei o pedaço da estátua na cova que tinha uns 20 centímetros de profundidade. Resolvi então dormir na casa da minha irmã e só na tarde seguinte tive coragem para voltar ao meu apartamento. 

Logo na entrada, encontrei meu senhorio que informou ter más notícias. Aparentemente alguém havia invadido o meu apartamento. Os vizinhos assustados com a algazarra haviam chamado a polícia. Eles ouviram gritos e urros aterradores, além do som de coisas se quebrando. Acharam que devia ser algum lunático ou drogado. Quando a polícia chegou, a comoção já havia terminado, o "invasor" devia ter fugido.  Eu acredito que o barulho só parou quando coloquei o último fragmento da estátua no chão e o cobri com terra. 

A polícia foi gentil em lacrar o apartamento e deixei que eles fizessem um levantamento dos danos, mas abri mão de prestar queixa. Meu apartamento foi bastante danificado e eu perdi algumas coisas, móveis e eletro-domésticos, mas imagino que poderia ter sido muito pior. Depois disso, não tive mais ânimo para continuar ali e resolvi me mudar.

Isso aconteceu há 3 anos. 

Nunca soube o que houve com aqueles meninos ou com seu avô. Também nunca soube de onde veio a estatueta ou o que ela representava.

Eu realmente prefiro não quero saber.


O relato não tinha fotos, mas intencionalmente ou não, a descrição da estatueta me lembrou muito Pazuzu, um demônio babilônico - a mesma entidade maligna que aparece no filme "O Exorcista".

A menção ao horrível rosto de face pálida, também me lembraram o filme, e usei ele como referencial para essa imagens da face pálida em fundo escuro. De longe a coisa que mais me assusta no filme.

sábado, 11 de maio de 2013

Under the Sign of the Black Goat - When Shub-Niggurath comes to Earth


Shub-Niggurath represents life. 

It is the spark that leads to the creation and origin of everything. But the "Black Goat with a Thousand children" is not merely life, it is the fury of existence, the need to propagate, the desire to fertilize, to reproduce, to expand at all costs ... 

The ancient cults claims that all carnal conjunction is carried out in their name, and that the sexual act fulfills the desire of the Magna Matter. It is the antithesis of Azathoth, the Universal Entropy, but forms with the Daemon Sultan a delicate cosmic balance: it is Life while its counterpart is Death. It is from the goddess that life flows in all aspects, forms and senses. 

But is deceived who assumes that this entity is an allied force of humanity. The Black Goat is above all a principle of mutation that does not tolerate stagnation and operates changes in everything around it. When Shub-Niggurath is summoned to Earth, it manifests itself in all its glorious blasphemous majesty. 

Its form is gigantic, a colossal mass, ascending to the heavens, just like a grotesque pillar of pulsing flesh seething on and on. On the surface of its bright brownish-green body, a multitude of tentacles-like filaments are swaying without stopping. In the mass, you can see vaginal canals, genitals and huge mouths full of teeth and tongues that bite and suck, clicking loudly. Saliva mixes with black bile and semen, dripping and running from these cavities, which open, close and stir, expeling or ejaculating a torrent of viscous substances. 

Large bubbles of organic matter spontaneously form, like huge tumors the size of gas balloons while structures like ganglia grow until they explode. Parts of her body have different textures and patterns, as if it were formed from a patchwork of tissue and muscles sewn one over the other. There are eyes everywhere, purulent and yellowish, tearing. None of them remain for a long time, since its entire surface bubbles and rebuilds after a few seconds. 

At the lower end, among thousands of testicles, are dozens of muscular but emaciated legs that end in hooves that support its titanic corpulence. As it moves, the ground shakes in front of its several tons. Despite being able to move, the goddess prefers to simply levitate in the air, a few feet off the ground. Her legs fluttering in the air, the tentacles whipping and the mouths snapping. There is a mixed sound of moaning and bleating in the midst of the general cacophony. The smell of the thing is incredibly pungent and offensive, and can be detected for miles. 

When she wishes to bless her cultists, the goddess forms a massive udder at the bottom of the mass and makes appear a set of immense tits. These swell until begin to pour a dark substance, which their followers usually refer to as the black milk of Shub-Niggurath. Those who drink from this substance are affected by hallucinations and premonitions, and often end up manifesting deep mutations. 

One of Shub-Niggurath's most striking features is her ability to spawn other creatures. Her form absurdly swollen to the point of bursting, evidences the fact that she is always pregnant. Taken with spasms, sometimes an overt volume squirms under the layers of pustular flesh and a mouth or orifice opens to give birth or vomit a smaller protoplasmic mass that creeps alive until it is absorbed once more. 

Shub-Niggurath is an unprecedented abomination. Few who glimpse their absurd form retain their sanity, still less are those who survive after approaching. 

The very environment in which it manifests itself is altered and its presence has the effect of corrupting nature in such a way that it perverts and transforms everything around it. The ancient cults that dared to invoke their physical presence on Earth call this effect the "Rapture of the Goat". 

Wherever the goddess manifests, a wave of life spreads from ground zero and overflows so quickly that nothing is able to contain its action. The vegetation grows wild, fields open in bloom, fruits swell and burst, throwing juice and seeds in the air that grow immediately, trees are laden with leaves and fruits until their branches break with the weight. Animals lose control and their instincts. Insects sing wildly, birds fly in the wrong direction and plunge into the soil, fish defy the flow of rivers, and finally, all animals indulge in uncontrollable heat for reproduction alone 

Humans are not immune to this frenzy. The ancient cults said that "blood boiled in the veins of those under the influence of Shub-Niggurath." Affected by this collective ecstasy, individuals of both sexes surrender uncontrollably to the breeding of mating in savage and primal orgies. Perhaps this manifestation is the basis for the legend of the Maenads, the cultists of classical Greece who served the God Dionysus. The Bacchae, as they were called, indulged in a sexual breakout of size, which were "shredded" physically and spiritually in a whirlwind of often violent lasciviousness in which they wounded and flogged their own flesh. 

Likewise, the pressing lovers, influenced by Shub-Niggurath act ferociously, and the term "animalistic" can be used to describe their actions. The dispute over the right of copulation turns into a hallucinatory fight as occurs with many species in nature. Males face each other violently and may even kill their competitors for the attention of females of the species. During the frenzy there is no civilization, reason gives rise to reproductive disorientation. Even hallucinating females are capable of shattering male bodies if they are not impregnated immediately. 

Fortunately, after the episode, the human mind tends to erase from memory all that occurred during the rapture in order to protect the sanity of such a revelation. Exposure to fertile energy discharge, which accompanies the arrival of Shub-Niggurath, lasts a few hours, but its effects are much longer. After the rapture, nature is hopelessly defiled 

The vegetation that has grown uncontrolled gradually assumes a sickly color and appearance. The bushes and twigs seem to move by themselves, despite the wind and external factors. Flowers bloom in horrible shapes and dramatically altered appearance, their scent is sour and musky. Fruits continue to grow swollen and beautiful, but with a taste so sweet and concentrated that makes consumption unviable. The roots break the ground and scatter like a rugged carpet over the ruffled soil, exuding an omnipresent humus scent. Thick sap looks like dark blood from the top of moss-lined trunks. The bushes are everywhere, weeds cover the landscape. The seasons cease to influence the course of nature. The flowers grow in winter, while in the height of spring the leaves fade and fall. 

The animals also experiment changes. Many sense something strange and avoid the area that is quiet and deserted. The offspring affected by the goddess begin to change and grow. They present congenital deformities: insects of bizarre coloration and constituted by a brilliant chitin exoskeleton. Animals are born with extra or atrophied limbs and females have several uterus. Their proles are plentiful, with dozens of hatch at each mating. Many of these forms of life are so altered that in the end they stand out from the species that gave rise to them. 

And once again humans are not spared the same effects. The children conceived during the Shub-Niggurath Rapture have distinct traits. They are said to be born under the sign of the black goat since they were "blessed" by it. They are strong and robust children, but somehow strange. Sensitive individuals feel disconfort near them, even if most of the time they can not say for what reason. In some cases, these children have unusual features: distinctly colored eyes, straight and white hairs, a fair ammount of hair on their bodies... in some cases the mutation is even more pronounced and it is undeniable that some of these children have a haunting goatish look, something that refers to the legends of fauns and satyrs. 

Many people say that these children behave in an unusual way and they are not wrong in their observations. Children are born with a distinct perception of the world. In the words of cultists "they are able to see beyond appearances and see what exists between the recesses of the real world and the imaginary." To the casual observer, they seem to suffer from autism, but a professional would not be so sure of that diagnosis. 

For all intents and purposes these children are different and, of course, preserved by worship, predestined to become leaders or candidates for important rituals. 

In Goatswood, for example, where the cult of the black goat is very strong, once every five years a child conceived during the Rapture of the Goat is ritually sacrificed. After tearing the victim's throat, her own mother removes the viscera and throws them on a stone altar so that the priestess can make a precise reading of the future, consulting the Haruspices. In Sköpk, an isolated village in the interior of Serbia, when a child conceived in the night of the Rapture becomes adult, there is a great festivity. At the end of the celebration, he is taken to the center of the village and forced to impregnate a woman specially chosen by the cult. According to tradition this will give birth to a Gof'nn Hupadgh - a special baby, born with a man's body, head and goat's feet. 

Finally, in the dark forests of Chiloe, in the extreme south of the Chilean Patagonia, Brujeria, a sect of powerful sorcerers, is infamous for conducting a sinister ritual in which a baby is tied up and laid up inside a dead tree. While suffering a slow, agonizing death, the spirit of the sacrificed victim passes to the tree trunk that becomes one of Dark Young of Shub-Niggurath, the abominable Black Children. 

Shub-Niggurath is one of the most powerful forces of the cosmos and its manifestation in no way should be treated as something petty. The consequences of Her invocation are serious and almost always dire.