domingo, 11 de outubro de 2026

Aqui é o Zodíaco Falando - O Assassino que aterrorizou a Califórnia

Poucos casos criminais do século XX produziram uma combinação tão perturbadora de violência, mistério e espetáculo quanto aqueles perpetrados pelo homem que ficou conhecido como Zodíaco. Entre o final de 1968 e 1969, uma série de ataques no norte da Califórnia deixou cinco pessoas mortas e duas sobreviventes gravemente feridas e traumatizadas ao menos segundo os crimes oficialmente relacionados ao assassino. O próprio criminoso, entretanto, afirmava ter cometido muito mais assassinatos, chegando a reivindicar 37 vítimas. Até hoje, sua verdadeira identidade jamais foi estabelecida de maneira definitiva.

O primeiro dos crimes confirmados ocorreu na noite de 20 de dezembro de 1968, em uma estrada próxima a Benicia conhecida como Lake Herman Road. David Faraday, de 17 anos, e Betty Lou Jensen, de 16, haviam estacionado o carro em uma área frequentada por jovens. O assassino aproximou-se e disparou contra o casal. Jensen tentou fugir do veículo, mas foi atingida várias vezes; Faraday também morreu. Naquele momento, nada indicava que o crime inauguraria uma das investigações criminais mais célebres da história americana.

Sete meses depois, em 4 de julho de 1969, ocorreu o segundo ataque confirmado. Darlene Ferrin, de 22 anos, estava em seu carro com Michael Mageau, de 19, em Blue Rock Springs Park, em Vallejo. Outro automóvel aproximou-se, afastou-se e retornou pouco depois. O motorista então disparou contra o casal através da janela. Mageau sobreviveu, mas Ferrin morreu posteriormente no hospital. Pouco depois do ataque, alguém telefonou para a polícia e assumiu a autoria tanto desse crime quanto do assassinato de Faraday e Jensen. Essa foi uma das primeiras indicações de que os dois episódios estavam relacionados.

O caso assumiria uma dimensão completamente diferente no mês seguinte. Em 1º de agosto de 1969, três jornais da região receberam cartas praticamente idênticas, nas quais o remetente assumia a responsabilidade pelos ataques e exigia que os jornais publicassem sua mensagem. As cartas continham três partes de uma cifra, posteriormente conhecida como Z408. O remetente ainda não havia adotado publicamente o nome pelo qual ficaria famoso, mas a partir dali sua relação com a imprensa se tornaria parte essencial de sua estratégia.

A cifra foi solucionada em aproximadamente uma semana por Donald e Bettye Harden, um casal de cidadãos interessados em criptografia. A mensagem, embora não revelasse a identidade do criminoso, revelou algo importante sobre sua personalidade e suas fantasias. O autor dizia sentir prazer em matar e manifestava uma obsessão pela ideia de que suas vítimas se tornariam seus escravos após a morte. O texto também continha a declaração de que ele não revelaria seu nome porque isso comprometeria seu futuro. A cifra, portanto, não resolveu o mistério: transformou o próprio mistério em parte do espetáculo.

Foi também nesse período que surgiu o nome "Zodíaco", adotado pelo próprio assassino em suas correspondências. O símbolo que acompanhava suas cartas — uma cruz dentro de um círculo, semelhante ao símbolo de mira de uma arma — tornou-se imediatamente associado ao caso. A partir daquele momento, não se tratava apenas de um criminoso desconhecido: havia uma persona. O Zodíaco passou a escrever para os jornais, desafiar investigadores e ameaçar novas vítimas caso suas mensagens não fossem publicadas. A imprensa, involuntariamente, tornou-se o palco no qual o assassino construiu sua identidade pública.

O terceiro ataque confirmado ocorreu em 27 de setembro de 1969, nas proximidades do Lake Berryessa. Bryan Hartnell e Cecelia Shepard estavam às margens do lago quando um homem se aproximou usando um capuz escuro com o símbolo circular e uma cruz associado ao Zodíaco. O homem amarrou os dois e os atacou com uma faca. Hartnell sobreviveu; Shepard morreu dois dias depois em consequência dos ferimentos. O episódio forneceu aos investigadores uma das descrições mais detalhadas do criminoso e, talvez mais perturbadoramente, mostrou que ele havia começado a incorporar uma espécie de teatralidade ritual à sua aparência e comportamento.

Poucas semanas depois, o assassino mudaria novamente de método. Em 11 de outubro de 1969, o taxista Paul Stine foi chamado em San Francisco e transportou um passageiro até o bairro de Presidio Heights. O passageiro atirou na cabeça de Stine e fugiu, levando consigo um pedaço da camisa ensanguentada da vítima. A polícia inicialmente tratou o episódio como um assalto, mas logo recebeu uma carta do Zodíaco reivindicando o assassinato. Dentro do envelope havia justamente um fragmento da camisa de Stine, uma prova deliberadamente enviada para demonstrar que o autor da carta conhecia detalhes que somente o assassino poderia saber.

O assassinato de Stine também produziu um dos episódios mais frustrantes da investigação. Testemunhas forneceram uma descrição do suspeito e a polícia elaborou um retrato falado. Entretanto, uma falha na comunicação pelo rádio fez com que os policiais recebessem inicialmente uma descrição incorreta, indicando que o suspeito seria um homem negro. Policiais que passaram pela região chegaram a avistar um homem que correspondia muito mais à descrição correta, mas não o abordaram. O assassino conseguiu escapar a pé. O episódio se tornaria um dos grandes exemplos das oportunidades perdidas que marcaram a investigação.

Depois de Stine, as cartas tornaram-se quase tão importantes quanto os assassinatos. O Zodíaco enviava mensagens aos jornais para comentar os crimes, ridicularizar a polícia, ameaçar novos ataques e apresentar novos enigmas. Em algumas ocasiões, chegou a afirmar que pretendia atacar crianças em um ônibus escolar. Também entrou em contato com autoridades e pessoas específicas, criando uma relação de perseguição psicológica que transformava a investigação em um jogo público. O assassino parecia compreender que cada carta publicada aumentava sua notoriedade e ampliava a sensação de impotência das autoridades.

Outro elemento que tornou o caso excepcional foram as cifras. O Zodíaco enviou quatro mensagens cifradas principais, mas nem todas tiveram o mesmo destino. A primeira, Z408, foi quebrada rapidamente. Outra cifra, conhecida como Z340, permaneceu sem solução por décadas. Somente em 2020, uma equipe formada por David Oranchak, Sam Blake e Jarl Van Eycke conseguiu decifrá-la. Mesmo assim, a solução não revelou o nome do assassino, demonstrando que nem mesmo um dos mais famosos enigmas criptográficos da história do crime continha necessariamente a resposta definitiva.

A investigação policial, por sua vez, era particularmente difícil porque os crimes ocorreram em diferentes jurisdições. Vallejo, Benicia, Napa County e San Francisco possuíam departamentos policiais próprios, e a necessidade de compartilhar informações entre diferentes órgãos complicava a construção de uma imagem única do criminoso. Ao longo dos anos, investigadores analisaram impressões digitais, testemunhos, manuscritos, evidências balísticas, cartas e possíveis vestígios biológicos. O FBI também esteve envolvido na análise de elementos do caso. Ainda assim, não surgiu evidência suficiente para estabelecer judicialmente quem era o Zodíaco.

Diversos suspeitos surgiram ao longo das décadas, mas nenhum conseguiu reunir evidências suficientes para encerrar o caso. O mais conhecido foi Arthur Leigh Allen, morador de Vallejo, investigado intensamente e posteriormente popularizado como o principal candidato por livros e documentários. Havia uma série de circunstâncias que despertaram suspeitas contera ele, mas as evidências nunca foram suficientes para acusá-lo. Allen morreu em 1992 sem jamais ter sido formalmente responsabilizado pelos crimes. A própria polícia continuou considerando o caso sem solução.

Outros nomes também apareceram ao longo dos anos, incluindo o do criminoso e terrorista Ted Kaczynski, o Unabomber. Em 1996, investigadores chegaram a examinar a possibilidade de uma conexão entre Kaczynski e o Zodíaco, em parte porque ele havia vivido na região da Bay Area durante o período relevante. A hipótese, porém, não produziu resultados. A longa duração do caso fez com que praticamente qualquer homem que apresentasse alguma conexão geográfica, comportamental ou circunstancial com os crimes acabasse sendo considerado por investigadores amadores ou profissionais.

Também é importante separar os assassinatos comprovados das inúmeras vítimas que o próprio Zodíaco dizia ter feito. Cinco mortes e dois sobreviventes permanecem associados oficialmente à série de ataques, enquanto a cifra de 37 vítimas jamais foi confirmada. Outros crimes e desaparecimentos foram relacionados ao assassino ao longo dos anos, mas a ligação permanece incerta. Essa diferença é fundamental, porque parte da própria estratégia do criminoso parece ter sido criar dúvida e ampliar sua imagem. Quanto maior o número de crimes que dizia ter cometido, maior se tornava o mito em torno de sua figura.

A comunicação com a imprensa continuou por vários anos, embora os ataques confirmados tenham terminado em 1969. Algumas cartas posteriores são consideradas autênticas; outras permanecem controversas. O Zodíaco chegou a enviar mensagens em 1974, incluindo uma provocação ao inspetor David Toschi, um dos investigadores mais associados ao caso. Depois disso, as comunicações cessaram. A ausência de novas crimes comprovados e o silêncio do remetente produziram uma das perguntas mais persistentes do caso: o assassino morreu, foi preso por outro crime, abandonou sua atividade ou simplesmente decidiu desaparecer?

Com o passar dos anos, o caso deixou de ser apenas uma investigação policial e transformou-se em um fenômeno cultural. Livros, documentários, programas de televisão, estudos independentes e, posteriormente, a internet mantiveram o Zodíaco permanentemente presente na imaginação popular. O livro Zodiac, de Robert Graysmith, publicado em 1986, teve papel importante na formação da imagem moderna do caso e ajudou a popularizar Arthur Leigh Allen como principal suspeito. O material produzido em torno da investigação também influenciou filmes e outras obras de ficção, consolidando a figura do assassino como um dos grandes enigmas criminais americanos.

Talvez o aspecto mais assustador da história seja justamente a combinação entre violência real e construção deliberada de uma persona. O Zodíaco não se limitou a matar: escreveu para os jornais, criou um símbolo, enviou códigos, ameaçou novas vítimas, ridicularizou investigadores e transformou sua própria identidade desconhecida em parte do crime. Ele compreendeu algo que muitos criminosos anteriores não haviam explorado daquela maneira: o medo podia ser multiplicado pela imprensa. Cada carta publicada levava seu nome e suas ameaças a milhares de pessoas, fazendo com que seus crimes continuassem presentes mesmo quando ele não estava atacando.

Mais de meio século depois, o caso continua sem uma solução definitiva. A investigação já atravessou diferentes gerações de policiais e incorporou técnicas que não existiam em 1969, enquanto investigadores independentes continuam examinando documentos, cartas e evidências preservadas. A quantidade de material acumulado é impressionante, mas a identidade do homem por trás do símbolo continua desconhecida. O Zodíaco conseguiu aquilo que parecia impossível para um assassino em uma sociedade moderna: transformou o próprio anonimato em legado. E talvez seja justamente essa ausência de uma resposta final — mais do que as cartas, as cifras ou mesmo os crimes — que mantém o caso entre os mais perturbadores e fascinantes mistérios criminais do século XX. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário