domingo, 16 de junho de 2013

Memento Mori - A Estranha Tradição Vitoriana da Fotografia Post-Mortem


O hábito de homenagear entes queridos que partiram, sempre acompanhou a humanidade. Uma das formas principais de prestar homenagem, era salvaguardar uma imagem de como era o indivíduo em vida.

Na Roma Antiga, era muito comum às famílias de posse contratar um artista para que retratasse o morto em uma tela, painel ou quem sabe até que esculpisse uma estátua. Isso permitia que, de certa forma, o falecido fosse  "imortalizado", oferecendo uma lembrança constante de como o indivíduo era em vida. 

Esse costume não era tão difundido, por uma série de razões. Nem todos tinham meios de pagar a um artista para pintar um retrato. Além disso, o resultado podia demorar semanas e resultar em algo  que não era exatamente aquilo que a família esperava. Alguns artistas podiam ter uma concepção que não se enquadrava no que a família desejava ver retratado. Finalmente, nem todos os artistas desejavam trabalhar em uma atividade que muitos poderiam considerar... tétrica.


Na Renascença a prática foi trazida de volta e realmente, alguns importantes artistas se especializaram em criar imagens de gente morta. Membros do clero eram retratados logo após a morte para que a aparência deles fosse preservada para a posteridade. Na Espanha, na mesma época, oferecia-se a chance de imprimir a silhueta de pessoas mortas em panos de linho, em uma arte semelhante a que criou o Santo Sudário. O hábito evoluiu para as máscaras mortuárias, que surgiram na França e que até hoje são comuns, sobretudo quando o falecido é alguém ilustre cujas feições são preservadas em gesso.

Após a invenção do daguerreótipo (o precursor da fotografia), o hábito de criar imagens duradouras dos entes queridos mudou drasticamente. As pessoas que não tinham acesso a artistas, passaram a usar um método mais barato e cujos resultados eram semelhantes. A partir da Era-Vitoriana, o mundo viu surgir um promissor mercado de fotos post-mortem, obtidas por uma classe de profissionais que se esmerava em conceder uma "aparência de vida" a corpos já inanimados.

A atividade ficou conhecida como "Memento Mori", expressão que pode ser traduzida com "Lembrança dos Mortos" e encontrou grande aceitação na Europa e no Novo-Mundo.   


É provável que em nenhuma outra época da história as pessoas estivessem tão preocupadas com a aparência dos mortos quanto no século XIX. Foi durante esse período que a fotografia post-mortem (também chamada de memorial fotográfico e imagem lamentosa) ganhou fama. De fato, entre 1860 e 1880, esse tipo de fotografia converteu-se na modalidade mais usada para registro de imagens - e tristemente pessoas que jamais foram fotografadas com vida, deixavam instruções para sê-lo após a morte.

Os primeiros memento-mori surgiram logo depois da invenção do processo fotográfico em 1839. Já em 1848 existiam profissionais especializados em oferecer seus serviços para famílias que desejavam ter uma imagem de seu ente querido. A fama destes fotógrafos como verdadeiras "aves negras" em busca de pessoas prestes a morrer a fim de oferecer seus serviços, chegou a conceder uma má-fama aos profissionais da fotografia. Por algum tempo, fotógrafos chegaram a ser comparados a coveiros e agentes funerários.

O memorial era uma peça bastante decorativa. A imagem era captada em uma folha de cobre prateado que por sua vez era transferida para uma película de vidro emoldurada. Era comum que ele fosse colocado sobre lareiras ou na parede. Ainda que fosse mais barato que o trabalho de um artista, uma fotografia ainda custava o equivalente a semanas de salário.


Especialmente comuns eram os memento-mori de crianças e bebês. Os índices de mortalidade infantil extremamente altos, faziam com que muitas famílias encomendassem fotos de seus filhos falecidos, para que a breve passagem delas pelo mundo fosse lembrada.  

Em 1854 a qualidade das fotografias passou por melhorias que permitiam incluir cores e tonalidades às fotos. Incorporando cores, alguns fotógrafos post-mortem começaram a fazer experiências com as fotografias a fim de conceder aos modelos uma "aura de vida". O resultado foram fotografias de aparência que para nós, podem parecer mórbidas e até macabras, mas que para os vitorianos eram louváveis expressões artísticas e de respeito.

As primeiras fotos post-mortem eram tradicionalmente close-ups da face e raramente incluíam caixões. O modelo geralmente era colocado em uma posição que sugerisse estar dormindo ou repousando, mas outras posições também começaram a ser utilizadas. Em alguns casos usava-se estruturas de madeira onde o cadáver era fixado para que ficasse de pé ou na posição desejada. Em certas fotos podem ser vistas pessoas da família posando ao lado de indivíduos mortos suspensos por cabos. Crianças deitadas em sofás ou segurando brinquedos também forneciam um background comum. Adultos sentados em cadeiras ou em poses formais eram uma preferência. Em certos casos, haviam estúdios fotográficos que ofereciam opções para retratar os mortos em alguma atividade em especial.

Em 1859, as chamadas "cartes de visite" se tornaram algo muito comum. Elas eram memento-mori impressos em papel, produzidos em grande quantidade para serem presenteados a parentes próximos ou amigos como uma lembrança do falecido. Por volta de 1870, as "Cabinet Cards" substituíram as "cartes de visite" oferecendo uma imagem cartonada que podia ser enquadrada como uma pintura, colocada em um camafeu, tampa de relógio ou no interior de caixas e penteadeiras.   


A prática da fotografia post-mortem começou a desaparecer no início do século XX. É possível que o horror das fotografias de cadáveres obtidas em guerras e revoluções passou a ofuscar a prática, tornando-a indesejada. Ao invés de abraçar a mortalidade, a sociedade começou a considerar o falecimento como algo pessoal que não devia ser divulgado ou maquiado com uma aparência de vida. 

Por volta de 1915, a atividade já havia desaparecido na maior parte da Europa.

Aqui estão mais alguns Memento Mori de mortos queridos na companhia de seus parentes:






Eu sei que cada época tem seus costumes e eles são reflexos do tempo em que se vivia.

Mas nesse caso específico... fico muito feliz do costume ter sido deixado para trás. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Ciranda de Blogs: Capra Nera - Sobre fungos malignos, experimentos bizarros e... queijo.

Puxa, esse foi difícil!

O CIRANDA DE BLOGS sugeriu como tema para o mês de Junho, QUEIJO.

Queijo e Mythos? Possível? Viável? Veremos...

O resultado depois de eu martelar um bocado foi esse: o tenebroso experimento dos Fungos de Yuggoth com o Formaggio Capra Nera e uma crise sem precedentes. 


Quando ele colocou o queijo na boca, o mundo pareceu parar de girar por um instante. Como se tempo, espaço e percepção tivessem se alterado por completo. Seus olhos se abriram pela primeira vez, ou assim pareceu. E tudo, virtualmente tudo, parecia possível ao alcance de suas ávidas mãos... 

Dois dias depois, ele retomou o controle de suas faculdades mentais. Estava em um quarto branco e vestia uma camisa de força. Os enfermeiros que tomavam conta da cela disseram que chamariam seu advogado para que ele pudesse explicar o que havia acontecido. E quando o sujeito chegou não conseguia esconder a expressão de condenação e a repulsa que sentia.

"O que aconteceu"?

E a medida que o defensor público relatou os fatos, tudo parecia tão incrivelmente surreal...

*   *   *

Os maquiavélicos Fungos de Yuggoth sempre possuíram uma pequena base de operações na Ilha mediterrânea da Sardenha na costa da Itália. O posto avançado, manteve-se esteve ativo, contando com o apoio de camponeses que veneravam Shub-Niggurath, entidade também cultuada pelos temíveis Mi-Go.

Uma das principais atividades da raça alienígena envolvia realizar experimentos biológicos com espécimes humanos. As questões centrais que eles esperavam responder com seus elaborados experimentos buscava determinar como humanos poderiam ser afetados pela exposição à elementos do Mythos.  

No início do século XXI, os Fungos deram início a um novo programa que buscava expor seres humanos a condições anormais mediante alimentos manipulados. Essa manipulação poderia auxiliar os Mi-Go em futuros planos de conquista.      

Sendo alienígenas, as criaturas fúngicas tencionavam compreender melhor a forma de vida aborígene dominante no planeta. Uma das questões que desafia a lógica dos Mi-Go, envolve a maneira como a grande maioria dos humanos era incapaz de racionalizar a existência do Mythos sem desenvolver um comportamento atípico. Em suma, os Fungo queriam saber porque humanos enlouqueciam ao serem confrontados com a verdade do Mythos.  

Para responder a pergunta, os Mi-Go começaram a montar um cenário no qual poderiam conduzir um amplo experimento com um número considerável de espécimes.

Há muito tempo, os cultistas que serviam aos Fungos de Yuggoth na Sardenha utilizavam o lendário Leite Negro de Shub-Niggurath em seus rituais sagrados. A bebida extraída do portentoso úbere da deusa negra proporcionava alucinações, sonhos premonitórios e visões aos cultistas que o consumiam. Para os fanáticos beber o leite era o equivalente a comungar com sua deusa. Muitos experimentavam uma espécie de arrebatamento místico. Os Mi-Go, é claro, conheciam as potentes propriedades dessa rara substância e estavam cientes dos efeitos que ele provocava em seres humanos. 

O plano dos Mi-Go era oferecer o Leite Negro de Shub-Niggurath para uma grande quantidade de humanos não-iniciados sem que eles soubessem o que estavam consumindo. Com isso, tencionavam provocar uma espécie de gestalt, fazendo com que as pessoas tivessem uma espécie de contato com a Mãe Negra.

Auxiliados por membros do culto de Shub-Niggurath, os Mi-Go deram início às suas sinistras maquinações. Em meados dos anos 1970, usando seus contatos, eles incentivaram a aquisição de várias empresas produtoras de alimentos na Sardenha, sobretudo de laticínios.


Inserindo no processo de produção doses do Leite de Shub-Niggurath alguns alimentos foram testados para determinar qual deles permitiria manter a substância ativa sem alterar as características do alimento. Os Mi-Go obtiveram seu melhor resultado, produzindo um tipo de queijo semi-artesanal semelhante ao pecorino sardo, com base no leite de cabra. O produto foi chamado "Formaggio di Capra Nera", embalado e distribuído para venda em toda Sicília, parte da Itália e algumas regiões do sul da França. 

Em Julho de 2013, ele começou a ser comercializado. O resultado foi além do que os Mi-Go esperavam. Uma avalanche de incidentes violentos começaram a ocorrer nos lugares onde o alimento foi consumido. 

Em Nápoles um chefe de família, sem qualquer histórico de violência, invadiu um sex-shop armado com uma faca e fez cinco vítimas. Na cidade de Bari, uma senhora idosa foi presa depois de matar doze de seus gatos, asfixiando, cortando e até assando outros no forno de casa. Um motorista de ônibus atropelou oito pessoas em uma estação em Termi e depois arremessou o veículo contra uma loja. Outros casos de violência também ocorreram causando um cenário de medo e instabilidade.  

Os casos mais graves obviamente ocorreram na Sardenha. Em uma escola pública na pequena cidade de Canale, a 25 quilômetros da capital Cagliari, um surto psicótico tomou de assalto 38 crianças e adolescentes. Totalmente fora de controle, elas mataram (e desmembraram) um professor, incendiaram parte da escola e causaram um tumulto. A polícia agiu com energia e uma tropa de choque teve de intervir para controlar a situação. No desenrolar do caos mais um policial foi morto e outros três gravemente feridos. Em outra pequena cidade, Belisi, na província de Oristano, um grupo de pessoas foi preso por exposição indecorosa e atentado grave ao pudor em uma piscina pública. Caso semelhante tendo ocorrido em Nuoro onde um grupo incontrolável de nudistas causou confusão em uma procissão religiosa em homenagem a padroeira local.

Crimes de natureza sexual; estupros, atentados graves ao pudor e indecência tiveram um aumento exponencial nas semanas seguintes.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) foi chamada para intervir. A suspeita principal era que a crise poderia ter sido deflagrada por uma variante do ácido lisérgico (LSD) disseminado no suprimento de água de algumas cidades. Os investigadores da OMS depois de conduzir pesquisas, fazer testes de sangue e realizar autópsias conseguiram determinar a origem comum da contaminação, provenientes da ingestão do formaggio di capra nera, produzido na Sardenha. O produto foi imediatamente recolhido pelas autoridades e a crise controlada cerca de seis dias depois de se iniciar. Os efeitos alucinógenos cessaram em todas as pessoas expostas ao produto, após um período entre 24 e 48 horas, embora alguns indivíduos precisem de auxílio psicológico de longo prazo. 


O queijo "formaggio di capra negra" foi imediatamente proibido de ser comercializado. O alimento entrou na lista de substâncias controladas internacionalmente. É claro, alguns lotes extraviados começaram a ser negociados criando um mercado negro de milhares de dólares.

Em agosto, o órgão de saúde fechou as indústrias de laticínio na Sardenha e interrompeu a produção.

No mês seguinte, a OMS sacrificou todas as cabras da ilha. Os produtos da Sardenha também foram colocados em quarentena preventiva, bem como os habitantes até final de outubro. A medida causou danos incalculáveis e gerou reflexos na economia do país. A União Européia elaborou um programa de ajuda e incentivos financeiros para a Itália.

Tentativas de analisar o princípio ativo da substância causadora da crise falharam uma vez que a mesma se deteriorou naturalmente sem deixar vestígios. A substância batizada de "Bactéria Cabra Negra" ainda intriga os pesquisadores. 

Rumores afirmam que a indústria de armas químicas/bacteriológicas conduz uma extensiva pesquisa tentando emular os efeitos da substância.

A causa da contaminação permanece desconhecida, mas as investigações prosseguem.

Enquanto isso, os Fungos de Yuggoth coletam dados. A experiência foi um sucesso.

*   *   *

PARA SUA MESA DE JOGO

Os efeitos e uso do Capra Nera são idênticos ao uso do Leite Negro de Shub-Niggurath. Em termos de jogo, o princípio ativo do queijo é potencializado e seus efeitos se iniciam cerca de 30-50 minutos após a ingestão. Uma pequena fatia, de 30 gramas é suficiente para iniciar os efeitos. Para Call of Cthulhu, o  personagem deve fazer um teste na Tabela de Resistência de sua Constituição (CON) contra POT 15. Em Rastro de Cthulhu, o personagem deve fazer um Teste de Vitalidade contra Dificuldade 5.

Uma vez que a substância age rapidamente no organismo, o indivíduo que deseja eliminar o alimento de seu corpo (através de vomitórios ou lavagem intestinal) deve fazê-lo antes que os efeitos comecem a se manifestar. Uma análise superficial não encontrará traços de manipulação no queijo, textura, aparência e sabor não são alterados. Um exame de análise laboratorial profundo é capaz de detectar a presença de uma substância incomum na composição, embora as conclusões sobre sua natureza não possam ser determinadas a não ser que o analista tenha tido experiência prévia com o Leite Negro.   

Os efeitos para os que falham no Teste são os seguintes:

Os primeiros sintomas são tontura, confusão mental, dificuldade de raciocínio e uma leve náusea. Os efeitos seguintes incluem vertigem, desmaio momentâneo, torpor, relaxamento muscular, seguidos de leves alucinações e uma progressiva euforia condizente com intoxicação alcoólica. 

A substância age sobre o sistema límbico, eliminando as restrições comportamentais do indivíduo, tornando-o suscetível a suas paixões e necessidades básicas. O indivíduo é acometido de uma urgência quase primal em satisfazer seus impulsos sejam eles de ordem social ou sexual. Se impedido ele pode reagir de maneira violenta, agredindo qualquer um que tente restringir suas ações. O indivíduo deixa de ter freios morais e éticos: se ele deseja alguma coisa ele pega, se ele sente desejo ele faz de tudo ao seu alcance para satisfazê-lo.

O efeito do queijo se mantém ativo por 72 - CON (em horas para Call of Cthulhu) ou 72 - Vitalidade x1.5 (em horas para Rastro de Cthulhu). Indivíduos sujeitos a essa condição não estão sujeitos a perda de sanidade uma vez que sua mente "apaga" suas ações durante esse período. Se de alguma maneira eles se tornarem cientes de suas ações, o Guardião deve decidir a perda de Sanidade/Estabilidade que julgar correta.

É possível que o princípio ativo do Leite Negro possa ser usado na produção de outros alimentos. Acredita-se que o povo Tcho-tcho que habita o Platô de Leng na Ásia Central conhece um processo similar para produção desse queijo.

*   *   *

Para quem não conhece o Ciranda de Blogs do Pontos de Experiência, aqui está:

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Cinema Tentacular: The Poughkeepsie Tapes - Filmagens mortais


É uma pena que um filme como "The Poughkeepsie Tapes" não tenha sido lançado por aqui nos cinemas e nem mesmo no mercado de DVDs. Mas não é culpa das distribuidoras brasileiras, uma vez que esse filme independente só apareceu num circuito limitado de filmes nos EUA no ano de 2007 e depois sumiu do mapa. Diz a lenda por ter sido considerado demasiadamente perturbador.

Muitas pessoas chegaram a dizer que "The Poughkeepsie Tapes" era baseado em fatos reais ou parcialmente inspirado nos crimes de um assassino em série que aterrorizou o interior do estado de Nova York nos anos 90. Alguns chegaram ao extremo de dizer que algumas cenas apresentadas no filme são reais e que os produtores tiveram acesso a fitas verdadeiras mostrando os crimes de um maníaco. Por essa razão, continuam os rumores, o filme nunca obteve licença para ser distribuído.

É claro, todos esses boatos não podem ser levados à sério. Existe muito exagero e disse me disse, no que diz respeito a filmes obscuros e Poughkeepsie talvez seja o melhor exemplo de um curioso marketing centrado em "lendas urbanas".

Mas qual é a desse filme e porque estamos falando dele?

Vamos por partes...

The Poughkeepsie Tapes é uma espécie de documentário centrado em dezenas de filmagens realizadas por um sádico assassino em série. Calma, calma, calma...

Eu sei o que a maioria vai dizer: "Ah não! De novo, não! Mais um filme de terror baseado em uma fita, video ou filmagem aterrorizante"?  

Sim e não... embora a premissa de Poughkeepsie utilize o chavão da fita de vídeo macabra (objeto que se tornou fetiche de 9 entre 10 filmes de horror na última década, desde o sucesso de "Blair Witch Project") a coisa não segue a cartilha desse estilo explorado à exaustão. Não se trata de um filme em que os personagens principais continuam filmando sem parar, mesmo em situações ameaçadoras ou absurdas, apenas para documentar os acontecimentos. Eu odeio esse tipo de coisa... porque alguém em sã consciência continuaria filmando enquanto uma ameaça está à espreita? Isso para mim sempre acabou com a credibilidade desses filmes.

A estória apresentada em "The Poughkeepsie Tapes" segue os passos de um serial killer misterioso cujo modus operandi se altera constantemente. Esse psicopata comete dezenas (centenas?) de assassinatos ao longo de anos e filma suas ações com uma câmera de mão. Os investigadores do FBI suspeitam da ação de várias pessoas uma vez que o assassino não produz um padrão ou deixa uma marca capaz de ser monitorada e estudada. Tecnicamente seus crimes não fazem soar o alerta de que existe um assassino em série à solta. Sem poder se fixar no seu rastro, o assassino age ao longo de uma década inteira impunemente, matando e filmando cada um de seus horríveis crimes.

O filme começa com o FBI seguindo uma pista sobre um crime que leva os investigadores até uma casa nos subúrbios de Poughkeepsie, interior de Nova York. A casa está vazia, o morador quase que desconhecido pela vizinhança, partiu, mas deixou para trás uma enorme caixa contendo centenas de fitas VHS. Ao assistir essas fitas os investigadores tomam um choque: elas são o registro das ações e sessões de tortura que o maníaco filmou ao longo dos anos.   


Durante o documentário, "especialistas" do FBI, policiais, advogados e criminalistas falam a respeito do conteúdo das fitas e racionalizam seu conteúdo tentando compreender as motivações do assassino e estabelecer um padrão para seu comportamento. O filme também se concentra nos depoimentos de "testemunhas" e "parentes das vítimas" que contam como os seus entes queridos desapareceram. Entrecortado por cenas supostamente retiradas das fitas, o espectador assiste a gênese de um assassino, desde seus primeiros crimes e a forma como ele vai se especializando e refinando suas ações evoluindo em brutalidade e violência.

Nesse ponto, eu vou abrir um parenteses e dizer que Poughkeepsie Tapes não é para todos os gostos.

As cenas no covil do matador, um porão que mais se assemelha a uma masmorra medieval, são bizarras para dizer o mínimo. Eu não sou fã de slasher movies gratuitos que glorificam os atos de maníacos, mas sempre tive muito interesse em filmes sobre Serial Killers que retratam a realidade desses crimes sob o ângulo da Psiquiatria Forense. O que posso dizer é que Poughkeepsie consegue dosar o horror apresentado, com um belo trabalho de pesquisa criminalista. As cenas não são gratuitas ou simplesmente criadas para chocar (elas chocam), mas há uma diferença do tratamento, uma vez que são fundamentadas e analisadas. Comparativamente, esse não é um filme para se divertir com os colegas enquanto um homicida mascarado retalha os adolescentes cheios de hormônio (como acontece nos filmes da série Sexta Feira 13). Ele está mais para a seriedade perturbadora de "O Silêncio dos Inocentes" em que a genialidade homicida do canibal Hannibal Lecter aflorava como uma ameaça real. Um perigo que poderia ser encontrado no mundo real. 

O filme é bem sucedido em criar tensão justamente em função do estilo documental, muito mais do que pelas cenas em si. A maneira como os trechos extraídos das fitas VHS são mostrados, com direito a comentários dos especialistas, contribui para criar um sentimento de apreensão que vai crescendo a medida que o filme se desenvolve. Filmes sobre "filmagens encontradas" na maioria das vezes acabam diluindo o horror através desse mesmo recurso. No caso de Poughkeepsie Tapes, a coisa funciona e é uma surpresa se sentir intimidado por um gênero que aparentemente "já deu o que tinha de dar".


The Poughkeepsie Tapes consegue realizar aquilo que a maioria esmagadora dos filmes de horror falha miseravelmente: a filmagem na qual ele é inspirada, realmente soa real. Sem dúvida, esse senso de "realismo" é que contribui para a fama do filme e fez com que muitos o considerassem genuíno. O fato de não haver nada sobrenatural também ajuda a manter o horror com os pés no chão. As cenas são medonhas, mas em absoluto elas seriam impossíveis ou inviáveis. E isso contribui para fazê-lo soar verdadeiro. Ele não se concentra em sustos fáceis ou em truques baratos. A sensação de incômodo surge mediante os comentários dos especialistas que "preparam o caminho" para o que será mostrado. É um método muito inteligente de deixar o espectador fora de sua "zona de conforto". Sabe-se que algo vai acontecer, algo feio e grotesco, mas você continua assistindo apesar disso.

Eu me considero bastante calejado no que diz respeito a filmes de horror, mas reconheço que em algumas cenas "The Poughkeepsie Tapes" conseguiu me pegar desprevenido. Teve pelo menos duas cenas em que eu dei pausa e disse para mim mesmo: "Mas que parada bizarra"!

Em suma, não chega a ser um novo clássico, mas ele é perturbador o bastante para ficar na sua memória por algum tempo e fazer você querer deixar as luzes de casa acesas.

Recomendado para quem tem estômago forte e é fã do gênero.

Trailer:


 E para quem quer ter uma ideia do tipo de horror desse filme, eis aqui uma amostra:



UPDATE:

Aqui está o filme na íntegra, ele está no You-Tube. Infelizmente sem legendas:

terça-feira, 11 de junho de 2013

Mythos Expeditions - Quando as expedições encontram algo aterrorizante

Notícia quente!

Kenneth Hite, autor de Rastro de Cthulhu falou pela primeira vez a respeito de seu próximo projeto - que já está em desenvolvimento, para a ambientação de horror baseado em Lovecraft da Pellgrane Press.

Trata-se de Mythos Expeditions.

O suplemento PULP promete fazer pelo gênero, o mesmo que o excelente Bookhounds of London fez pelo estilo Purista. Hite disse que Mythos Expeditions trará toda a empolgação e aventura das expedições científicas, antropológicas e arqueológicas que marcaram os anos 1930. Ação, ruínas antigas pertencentes a civilizações desconhecidas, labirintos repletos de armadilhas, tribos hostis, tesouros inestimáveis, e é claro, o Horror do Mythos!

O livro trará regras específicas a respeito da organização de expedições, novas ocupações ligadas a essa atividade, equipamentos, armas, informações sobre as principais expedições na época, personagens ilustres e descobertas que chocaram a comunidade científica. Com base na Universidade Miskatonic e suas famosas Expedições Científicas, os jogadores poderão criar professores, acadêmicos, aventureiros e exploradores que se lançam nos últimos recônditos desconhecidos do mundo em busca de fama, conhecimento e glória.

Mythos Expeditions promete ser um suplemento imperdível para quem gosta desse tipo de história e que se empolga com aventuras com um toque de Indiana Jones.

Além do suplemento - que por si só já parece fantástico, Hite falou um pouco sobre os cenários que vão acompanhar o livro, nada menos do que NOVE aventuras se passando nos quatro cantos do mundo e nos limites da civilização.

“The Gobi Sleepers,” por Steven S. Long

O intrépido palentólogo Roy Chapman Andrews está em sua última viagem pelo interior da Mongólia, para revelar a existência de fósseis primordiais que poderão comprovar suas teorias a respeito da origem da humanidade. Nos limites da civilização, à beira de uma invasão e de uma Guarra Civil, a expedição de Andrews deve avançar pelas areias do implacável  Deserto de Gobi e sobreviver a verdade. A última expedição de Andrews ocorreu em 1930

“Ravenous Silences,” por Anthony Warren

Uma praga assassina e uma sangrenta revolução atormentam a nação soberana da Libéria, na África Ocidental, os bravos membros da Expedição Médica e Humanitária da Miskatonic University terão de ser destemidos. Eles devem se envolver com os terríveis perigos da Rebelião dos Kru (1930-1936) e ainda lidar com coisas desconhecidas que parecem incentivar a carnificina.

“Lost on a Sea of Dreams,” por Adam Gauntlett

O oceanógrafo William Beebe inventou um fantástico aparelho exploratório, a batisfera, que promete revolucionar a exploração de alta profundidade para sempre. Uma equipe da Universidade Miskatonic está levando até ele um modelo melhorado construído em Arkham... mas a caminho, o navio dos investigadores acidentalmente descobre algo inesperado no lendário Triângulo das Bermudas. O que acontecerá quando os investigadores mergulharem nas profundezas desse mistério?


“An Incident at the Border,” por Kenneth Hite

Ambientado no Paraguai, durante a sangrenta Guerra do Chaco (1932-1935) contra a Bolívia. O cenário leva os membros de uma Expedição geológica - e um grupo de engenheiros de uma companhia petrolífera, até o coração de uma região desolada e perigosa. Ataques de artilharia, massacres, morcegos vampiros, tempestades de areia: o Paraguai era um dos lugares mais perigosos do mundo durante esse conflito.

“The Jaguars of El-Thar,” por Tristan J. Tarwater

Um instável antropólogo se perde nas terríveis selvas de Yucatán, pouco depois de alegar ter feito uma grande descoberta envolvendo a civilização Maia. O prestígio da Miskatonic University depende de um grupo de audazes exploradores que terão de se embrenhar em selvas jamais mapeadas e enfrentar perigos nunca antes vistos. Ambientada em 1933, em uma província assolada pela rebelião e por bandos armados, o grupo terá de tomar cuidado a cada passo a medida que descobre horrores ancestrais.

“Tongued With Fire,” por Bill White

As raízes históricas do lendário Cavaleiro Prester John - aquele que deu início a crença cristã na India, leva um grupo de acadêmicos da Universidade Miskatonic às montanhas do Punjab para descobrir o verdadeiro significado de um artefato que pode ter pertencido a São João Batista. Aventure-se no Raj de Kipling em meio a revolução de Ghandi em 1936.

“Whistle and I’ll Come to You,” por Emma Marlow

Um misterioso apito de pedra, criado por uma tribo desconhecida leva uma audaciosa expedição ao interior de uma ilha não mapeada da Nova Guiné. Canibais! Cavernas de calcário jamais vistas por olhos humanos! Aventura e ação! Se você possui um fio de cabelo pulp em seu corpo, você irá adorar esse cenário ambientado em maio de 1937.

“A Load of Blarney,” por Lauren Roy

Uma estranha descoberta em um carregamento de ferro, leva os melhores professores da Universidade Miskatonic a investigar a verdadeira história da Irlanda, e as raízes d eum horror que até então era apenas parte do rico folclore local. A aventura se inicia com o histórico naufrágio do vapor Annagher em dezembro de 1937, e termina... melhor não falar demais para não estragar a surpresa.

“Cerulean Halo,” by Matthew Sanderson

O Presidente Roosevelt planeja retornar a Ilha Clipperton, uma isolada rocha no Pacífico próxima da Costa do México, um verdadeiro paraíso para pescadores e assombrada por seu terrível passado. Uma equipe de Naturalistas da Universidade Miskatonic irá acompanhar o presidente e descobrir seus antigos segredos. O presidente realmente visitou Clipperton em julho de 1938, mas talvez ele não tenha testemunhado as coisas que os investigadores estão prestes a encontrar.

Pode-se perceber que as aventuras foram organizadas em ordem cronológica. Embora Mythos Expeditions não seja uma campanha e sim um apanhado de cenários, é possível de enviar seus investigadores a alguns destes destinos perigosos em mais de uma oportunidade.  A etsrutura básica dos cenários é bastante parecida: investigadores viajam através de regiões inóspitas e perigosas, encontram doses cavalares de horror e aventura, escapam, enfrentam ou morrem/ficam loucos, ou ambas as coisas.

O ideal sobre esses cenários é fragmentar os acontecimentos e deixar passar alguns anos entre uma aventura e outra, o bastante para seus heróis se recuperarem o suficiente de uma jornada até sentir a necessidade de se lançar na próxima.

O que não falta é perigo, intriga, excitação e aventura nessa coleção dedicada ao gênero PULP.

Desde já uma excelente opção para Rastro de Cthulhu!

Alô pessoal da Retropunk! Eu sei que vocês preferem manter um cronograma de lançamentos, mas esse tem tudo para ser um dos melhores livros de Rastro lançados até hoje, possivelmente o melhor! O que achariam de passar ele na frente dos demais?

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A Queda dos Cultistas - As últimas horas de Hitler de um ponto de vista lovecraftiano

Eu já havia colocado no grupo do Facebook, mas não custa reeditar.

Um vídeo inspirado pelo excelente filme "A Queda - As últimas horas de Hitler" ("Der Untergang"/ 2004) e uma cena que já foi legendada de todas as maneiras possíveis.

Aqui, um exemplo de como teria sido a queda do Terceiro Reich se os eventos ocorressem  no universo do Mythos de Cthulhu, com direito a nazistas cultistas reunidos no Bunker de Berlim, aliados investigadores e um certo grande antigo que teima em não aparecer justamente quando seus seguidores mais precisam.


E que sirva de lição: "Quando se sacrifica virgens e faz o ritual, o maldito polvo tem que aparecer..."