quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Carnivàle - Série da HBO no Dust Bowl

"Depois do início, após a grande guerra entre o céu e o inferno, Deus criou a Terra, e deu domínio sobre tudo ao habilidoso macaco que Ele chamou de homem. Desde então, a cada geração nasce uma criatura da luz, e uma criatura das trevas. Grandes exércitos se enfrentaram nessa antiga guerra entre o bem e o mal. Naquele tempo havia magia, nobreza, e inimaginável crueldade. E assim foi, até o dia em que um sol falso explodiu sobre a Trindade, e o homem para sempre trocou misticismo pela razão."—Samson

Muitas séries vem e vão. Muitas séries prometem apresentar algo novo, algo de qualidade que seja memorável. Poucas conseguem cumprir essa promessa.

Carnivàle, produzida pela HBO foi ao ar pela primeira vez em 2003 e teve apenas duas temporadas totalizando 24 episódios. Mas apesar disso talvez tenha sido a série que mais se aproximou de conseguir criar uma aura de estranheza, bizarrice e beleza em um mesmo programa semanal de uma hora.

Desde sua estréia, Carnivàle gerou reações conflitantes. Alguns espectadores julgavam a série muito estranha e incompreensível remetendo ao sucesso dos anos 90, "Twin Peaks". Alguns se queixavam que pouca coisa acontecia no final de cada episódio e que a trama central intrincada não avançava, apenas criava mais perguntas.

Eu penso de forma diferente: em Twin Peaks os personagens pareciam viver em uma espécie de sonho ou ilusão, Carnivàle parte de uma premissa mais realista embora enverede por temas fantásticos, místicos e enigmáticos. Os mistérios da série se acumulavam prometendo a quem se mantivesse fiel a solução de cada questionamento.

O programa se passa nos Estados Unidos, no auge da Grande Depressão no ano de 1934. Ele foca em dois homens e em seus talentos únicos.

No deserto de Oklahoma, no coração do Dust Bowl assolado pelas tempestades negras, o jovem fugitivo Ben Hawkins (Nick Stahl) deixa para trás sua fazenda arruinada após enterrar a mãe. Ele se une a um circo itinerante, o chamado Carnivàle, composto por estranhos indivíduos e liderado por um misterioso anão chamado Sanson que acaba relutantemente o acolhendo no bando. Logo os membros da trupe descobrem que Ben possui poderes curativos e é atormentado por estranhas visões apocalípticas. Seu pai, um homem que ele jamais conheceu, também parece estar de alguma forma ligado ao passado da trupe.

Paralelamente, na Califórnia, um evangelista chamado Justin Crowe (Clancy Brown) enfrenta uma crise de fé até que começar a ter sonhos e visões da mesma natureza. Em suas visões consideravelmente mais obscuras e fatalistas, Crowe começa a descobrir seu próprio dom, que envolve sentir os pecados e a corrupção alheia. Ele passa a manipular as pessoas à sua volta, à medida que ganha mais e mais influência na sua comunidade.

Estes dois homens tão diferentes, vão desenvolvendo seus poderes e conhecendo suas capacidades ao longo da primeira temporada.

Ben viaja com o circo pelas cidades desoladas do Dust Bowl enfrentando a precariedade e os perigos da estrada. Cidades abandonadas, lugarejos miseráveis, nevascas negras e pessoas sórdidas em uma jornada por um panorama ao mesmo tempo desolado e idílico. Personagens chave do Carnivàle também são apresentados: o anão Sanson que parece conhecer segredos chave do passado de Ben, o vidente cego Lodz que compartilha de visões ao mesmo tempo assustadoras e reveladoras, Sofie que lê cartas de tarô e é a única a se comunicar com sua mãe em perpétuo estado catatônico, Ruthie a mulher que encanta serpentes e as moças do Cootch Show, uma espécie de apresentação de streep tease. Ben e o espectador vão conhecendo o lado místico do bando, representado pelo "Empresário", a figura misteriosa que comanda o circo e que jamais deixa sua carroça.

Enquanto isso, Justin vive na Califórnia com sua irmã mais velha, Iris (Amy Madigan), cuja lealdade e ambição com o futuro do irmão beira a loucura. Sobreviventes de um acidente ferroviário na virada do século, os dois foram criados pelo Reverendo Norman Balthus (Ralph Waite) que se torna o mentor de Justin. As visões negras de Justin começam a alimentar seus instintos e ele vai granjeando o caminho para se converter em um líder messiânico servido por uma multidão de refugiados do Dust Bowl.

A medida que seus poderes afloram, Ben e o Irmão Justin percebem que são figuras chave em um embate de proporções épicas onde cada um representa as forças do bem e do mal. Eles tomam ciência de que um dia o destino fará com que eles se encontrem para travar a luta na qual o balanço cósmico penderá para um dos lados.

Na primeira temporada, Carnivàle acompanha os personagens e seu aprendizado. Cada episódio apresenta um estágio da viagem da companhia e os desafios encontrados por eles em uma das épocas mais duras da história americana. Elementos fantásticos e de caráter sobrenatural estão presentes na narrativa: coisas inexplicáveis parecem acontecer onde quer que a trupe monte acampamento.

Horror e Magia fazem parte da viagem do Circo e do surgimento da Igreja de Justin. A medida que eles encontram fantasmas, espíritos famintos, cidades desertas e indivíduos influenciados pela crueldade e pela bondade da época. Em tempos desesperados, superstições e crenças são trazidas de volta para proporcionar algum conforto em meio à dura realidade. O show itinerante e a missão religiosa são a promessa de algo novo, mágico e diferente em um cotidiano tão áspero quanto a paisagem árida do Dust Bowl.

Embora a série se passe na década de 1930, ele poderia tranquilamente ser relocado para a idade média uma época de igual desespero, incerteza e misticismo. Em Carnivàle também existe um questionamento quanto ao avanço da ciência que ameaça sepultar de uma vez por todas a magia e a crença em ideais como o bem e o mal.

A mais impressionante das realizações de Carnivàle é incorporar o espírito da época em que se passa a estória. Cada episódio revela o modo de vida das pessoas que enfrentavam as tempestades de areia e as agruras da Grande Depressão. A equipe de produção de Carnivàle a cada episódio dá um show de pesquisa e fidelidade histórica. Cada cenário, cada objeto, cada peça de figurino é tratado de forma fiel àquilo que existia e era usado nos anos 30.

Uma cuidadosa pesquisa histórica foi conduzida para que Carnivàle oferecesse aos espectadores um retrato completo da experiência dos anos 30. O resultado final é arrepiante e estupendo em certos momentos, divertido e excitante em outros.

Uma das coisas que fazem de Carnivàle um seriado tão fascinnante é que ele jamais colocava as coisas em termos de preto e branco, o que pode parecer estranho em um programa que se propôe a ser uma parábola sobre o bem e o mal. Os personagens jamais se definem totalmente de um lado ou de outro, eles possuem várias facetas e são capazes de reagir de acordo com a necessidade de modo perverso ou virtuoso. Mesmo Ben e Justin são capazes de alternar esses momentos. Ben reluta entre fazer o bem ou seguir o caminho fácil que seus poderes poderiam conceder, ele poderia ser um messias ou um milagreiro, mas duvida de seu dom e da forma que deve usá-lo. Justin usa seus poderes para manipular as pessoas, em uma cena ele mostra como os pecados de um homem fazem dele um monstro, como efeito o sujeito comete suicídio. Na cena seguinte vemos Justin consumido pela culpa e se martirizando pelas suas escolhas.

Até o fim da primeira temporada não se sabe ao certo qual dos dois personagens principais estão aliads ao bem ou ao mal. Essa incerteza, segundo o criador da série Daniel Knauf deveria seguir ao longo de toda a série.

Outro fator interessante é que o programa mostra a magia de uma forma bastante criativa. Existem muitos truques e enganação na trupe circense. O bando usa de truques clássicos para separar a audiência de seu dinheiro. Entretanto há coisas misteriosas no ar que não podem ser explicadas de um ponto de vista lógico.

As interpretações são impecáveis. Os dois atores centrais na trama são perfeitos: Nick Stahl (de Exterminador do Futuro III) interpreta um rapaz que suporta nos ombros a culpa de ter abandonado a mãe e de ser uma espécie de aberração. A forma como ele começa a compreender a extensão de seus poderes e como eles podem ser usados é fascinante. O carisma e a performance dramática de Clancy Brown (Highlander e Shawshank Redemption) como o hipócrita Irmão Justin é singular. Nada menos que espetacular é o elenco de coadjuvantes. Cada um desses personagens tem uma razão de ser e é construído com muita credibilidade na trama.

Carnivàle foi originalmente concebido para ter seis temporadas, através das quais os segredos seriam lentamente revelados e a ligação de Ben e Justin seria totalmente explicada. A primeira temporada entrega bem pouco, ficamos sabendo de apenas alguns detalhes sobre a mitologia em que os protagonistas estão inseridos, através de visões conhecemos alguns outros personagens que seriam aqueles que antecederam Ben e Justin e que travaram a mesma batalha nas trinheiras da Grande Guerra e a superfície da biografia de alguns dos personagens secundários é levemente arranhada.

Infelizmente, a série não teve o retorno esperado de público. As situações estranhas narradas em Carnivàle criou um público fiel de espectadores, mas o elevado custo de produção, orçado em cerca de 2 milhões de dólares por episódio fez com que a HBO puxasse o freio de mão.

A segunda temporada manteve o ritmo até mais ou menos o quinto episódio quando a notícia de que a série seria cancelada obrigou os autores a criar um final condizente que amarrasse a trama e explicasse o plot central. Infelizmente, isso matou os capítulos finais e fez com que a coisa fosse resolvida de um modo pouco satisfatório com o tão antecipado embate dos personagens centrais acontecendo sem a mesma intensidade que se esperava. Mesmo assim, a série deixou muita saudade e a promessa do criador de que um dia ela poderia retornar.

Os fãs enviaram cerca de 50 mil cartas pedindo que a série retornasse, mas os custos de outros projetos como Roma tornavam a manutenção de Carnivàle uma aposta arriscada.

Pessoalmente eu adorei essa série, Carnivàle tinha algo de diferente em sua composição, algo que a tornava ao seu modo única. Infelizmente quando ela passou na televisão à cabo eu não tinha acesso ao canal HBO de modo que acabei assistindo tudo fora da ordem o que dificultou entender o que se passava. O SBT também passou essa série de madrugada, mas cometia a heresia de transmitir episódios fora da ordem o que tornava tudo ainda mais complicado.

Há cerca de dois anos comprei as duas temporadas completas e finalmente consegui ver o seriado na íntegra em uma semana alucinada em que não fazia outra coisa no tempo livre além de assistir os episódos um depois do outro. Ali me tornei um admirador fiel de Carnivàle ou melhor dizendo um fã furioso.

Cada pacote de DVD contém 6 discos em uma bela embalagem de papelão reforçada e com excelentes extras. Vários episódios trazem comentários dos diretores e da equipe de produção descrevendo as dificuldades de criar os efeitos e os props. Os comentários do criador, Daniel Knauf, fornecem algumas dicas valiosas de como deveria ter sido o seriado se ele tivesse durado as seis temporadas. A impressão é que a série cresceria ainda mais e o fim seria incrível.

Aqui no Brasil a primeira temporada foi lançada, mas até onde sei se encontra fora de catálogo. A segunda temporada sequer saiu por estas bandas, condenando quem viu e gostou a procurá-la de forma "alternativa".

Bem, a pergunta agora é: o que isso tem a ver com uma comunidade dedicada aos Mythos de Cthulhu e aos RPG baseados nele?

Em uma palavra? Nada! Carnivàle não é sobre os horrores lovecraftianos, nem passa perto disso. Ela discute uma mitologia de bem e mal, deus e demônio, livre arbítrio, pecado e consequência.

Contudo, o seriado proporciona um ambiente tão rico e detalhado que é impossível não absorver alguns destes detalhes e empregá-los em seus cenários. Assistir aos episódios de Carnivàle vale como uma verdadeira aula de como criar situações nervosas e de estranheza sem necessariamente recorrer a sustos fáceis e a armadilha de sangue e vísceras.

Altamente recomendado.

Abaixo á excelente entrada da série:

7 comentários:

  1. Só tem um problema de comentar os textos daqui. São sempre excelentes.
    Parabéns cara!!

    A todos os Keepers fica a dica!

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  2. ...Excelente post...mais ou menos nessa linha tematica me recordo do seriado Millenium ( do mesmo autor de Arquivos - X )...e tambem do seriado inspirado no livro de King ( A Hora da Zona Morta - The Dead Zone ) O Vidente...ambos abordam a tematica do Apocalipse, Armageddon, Bem e Mal etc...

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  3. curti a série baixei as duas temporadas, e tava meio perdido com o final, nisso procurei saber pela internet se aquilo era o fim msm da série e vim parar aqui no blog de vcs, sua descrição da série ficou impecavel...
    msm q seja para rpgistas esse blog vale a pena conferir a série msm q não tenha durado as supostas 6 temporadas...

    vlw pelo seu post ele me deixou satisfeito em saber sobre mais coisas da série q me surpriendeu bastante...

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  4. Assisti, ou melhor, devorei a série por meios "alternativos", rs. E sua descrição dela foi mesmo fantástica. No mais, me tornei como vc uma fã furiosa. Não teria o autor escrito livros sobre a série, teria? Se souber de algo, post.

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  5. Oi Pat,

    Pelo que sei Daniel Knauf o autor de Carnivalè não escreveu nada pois pretendia re-lançar a série no futuro.

    Não sei como andam esses planos atualmente.

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  6. Sempre um amigo me indicava e eu nem dava atenção. Vou procurar agora!

    Valeu pela dica!

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  7. UMA PENA TEREM CANCELADO A SÉRIE! CREIO QUE NA ÉPOCA FOI MAIS PELA INVIABILIDADE COMERCIAL, JÁ QUE NÀO DEU AUDIENCIA COMO GAMES OF THRONES. ESPERO QUE FUTURAMENTE ELES RELANCEM A SÉRIE.

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