quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Hierarquia dos Mythos: Deuses Anciões

De todas as entidades dos Mythos de Cthulhu, nenhuma é mais enigmática que a classe de seres coletivamente conhecidos como os Deuses Anciões (Elder Gods).

Para alguns teóricos do Mythos, os Deuses Anciões seriam meramente lendas, para outros eles existiram em um passado incrivelmente remoto do próprio universo e se auto-exilaram em outras realidades ou planos de existência por motivos que não nos compete tentar compreender. A verdade não se sabe e talvez jamais venhamos a saber pois o conhecimento que se dispõe a respeito dos Deuses Anciões é inacurado ou apócrifo. Livros e tratados a respeito deles ainda podem ser encontrados, contudo sua credibilidade não pode ser atestada.

Alguns documentos datados de antes da Queda de Atlântida afirmam que eles seriam naturais de Betelgeuse. Textos escritos no antigo Egito e traduzidos por filósofos gregos clássics dizem que eles vieram de uma dimensão paralela chamada Elysia - que pode ter sevido como base para o paraíso dos gregos antigos, o Elísio. Alguns documentos cuneiformes supostamente de origem assíria contam que eles habitavam um plano chamado de a "morada fora do tempo" o equivalente a Terra dos Sonhos.

A grande maioria das fontes concorda que os Deuses Anciões se opunham de alguma forma aos Grandes Antigos (Great Old Ones). Há relatos de que os Deuses Anciões teriam criado os Grandes Antigos para servir como escravos ou serviçais, e que um dia estes teriam se rebelado dando início a uma guerra de proporções cósmicas.

Um conhecido documento escrito no período grego clássico e encontrado em uma gruta na Macedônia relata uma história diferente: segundo essa fonte, os Grandes Antigos roubaram os Segredos do Universo que eram responsabilidade dos Deuses Anciões e que permaneciam guardados na Grande Biblioteca de Celaeno. De posse desses segredos os Grandes Antigos pretendiam dominar o Cosmos e submeter até os Deuses Exteriores (Outer Gods). Em retribuição a essa afronta, os Deuses Anciões passaram a combater seus inimigos incessantemente. Parte desses segredos teria sobrevivido aos cuidados de Ubbo-Sathla, o Grande Antigo que protege os crípticos tabletes conhecidos nos círculos arcanos como "As Chaves Ancestrais".

As fontes existentes não são precisas a respeito da duração da guerra, mas todas apontam para a mesma conclusão. Os Deuses Anciões teriam usado um poderoso ritual para aprisionar os Grandes Antigos. E nessa condição de aprisionamento os Grandes Antigos permaneceram pelos últimos milhares de anos, aguardando o momento em que a força desse ritual enfraqueça e eles possam escapar do cárcere.

Quanto ao paradeiro dos Deuses Anciões após a guerra, há várias interpetações. Para alguns teóricos após concluir o Ritual de Aprisionamento, eles teriam se enfraquecido de tal forma que decidiram retornar para seu lugar de origem nas estrelas a fim de reaver suas forças para quando os Grandes Antigos despertarem. Nessa concepção, a guerra não teria terminado e as partes meramente teriam atingido uma espécie de trégua sem vencedores.

Algumas teorias afirmam que os Deuses Anciões se exilaram na Terra dos Sonhos onde influenciaram o surgimento de incontáveis lendas sobre deuses, demônios e heróis da antiguidade. De fato, eles teriam sido a fonte para todas as divindades reverenciadas pelo homem. De acordo com esse mito, Nodens o mais conhecido dos Deuses Anciões teria permanecido como Guardião da entrada para a Terra dos Sonhos, zelando para que os demais Deuses retornem quando os Grandes Antigos despertarem.

A concepção de que os Grandes Antigos são seres naturalmente malignos e inimigos da humanidade, gerou uma noção equivocada de que os Deuses Anciões seriam seu oposto, ou seja entidades bondosas e nossas aliadas. Na realidade na melhor das hipóteses os Deuses Anciões assumem uma postura de neutralidade para com a humanidade, muito provavelmente sem levar em consideração nossa existência ou importância. A interpretação de que existem forças morais e amorais em luta no universo é polêmica, visto que a própria noção de moralidade é um juízo de valores intrinsicamente humano. Como estender essa noção a deuses e entidades cósmicas?

Contradizendo a suposição de que os Deuses Anciões podem ser compreendidos como seres benevolentes, existem evidências de que sua interação com a humanidade, nos raros momentos em que isso aconteceu, resultou em tragédias e desgraças.

Um exemplo é o Deus Ancião Hypnos que em tempos antigos foi honrado como Deus do Sono, Senhor dos Sonhos e Lorde dos Pesadelos. Os poucos textos a respeito de Hypnos afirmam que o Deus recebe os viajantes do Mundo Desperto em seu reino onírico, mas que ao seu bel-prazer opera neles mudanças de natureza física e psiquica a fim de que agradem a seus gostos peculiares. Os sonhos enviados por Hypnos originam devaneios e obssessões. Já os seus pesadelos são a própria matéria prima da insanidade.

E o que se pode dizer de Kthanid considerado o mais poderoso Deus Ancião, cuja representação grotesca se assemelha a um horror tentacular tão monstruoso que a mera visão seria capaz de induzir a loucura. Os textos sobre Kthanid atestam que seu ímpeto em destruir seus inimigos é tamanho que ele não se importaria de destruir a Terra - e toda vida que há nela - se isso exterminasse os horrores hibernando em nosso planeta.

Diante desses dois exemplos a ilusão de harmonia com a humanidade se desfaz de imediato.

É provável que a noção de que os Deuses Anciões são "bons" decorra diretamente de Nodens, o Lorde do Grande Abismo. Ele é representado como um homem barbado e vestindo uma toga imaculada, imponente e magnífico, portando um cajado de carvalho em uma mão e as rédeas de uma carruagem puxada por animais fantásticos na outra. Experientes exploradores do Mundo dos Sonhos dizem que Nodens tende a proteger e ajudar sonhadores e visionários. Dizem ainda que ele já instruiu indivíduos com magias e rituais necessários para enfrentar os cultos devotados aos Grandes Antigos. Algumas fontes afirmam que foi ele quem revelou o segredo do Símbolo Ancião (Elder Sign), o lacre místico que atua sobre os Grandes Antigos.

Venerado na Atlântida sob o nome de Chozzar e pelos druidas celtas, ao menos um de seus templos ainda existe em Lydney, na Inglaterra ocupando um território que existe tanto no mundo desperto quanto na Terra dos Sonhos. Outros desses locais de convergência existem ao redor do mundo, sendo o mais notório a construção conhecida como a "Estranha Casa em Meio às Névoas" que se ergue no topo de uma montanha na cidade de Kingsport.

A julgar pela atitude de Nodens podemos supor que ele seria uma entidade benigna, contudo a real agenda dele e de seus semelhantes permanece desconhecida.

O mais correto é supor que as ações dos Deuses Anciões se concentram em seus propósitos particulares. Segundo o notório estudioso Sir Hansen Poplan: "Embora eles (os Deuses Anciões) não se concentrem em nossa destruição, eles tampouco são nossos amigos. Eles desejam apenas seu bem estar como espécie e se consideram - corretamente - imensamente superiores a nós. Eles almejam novas descobertas e tudo o que podemos fazer é ficar fora de seu caminho".

Usando Os Deuses Anciões em suas aventuras:

É difícil utilizar os Deuses Anciões em cenários de RPG seja Call of Cthulhu ou Rastro de Cthulhu.

Essas entidades não são bem conhecidas em nossa realidade e não habitam esse plano faz muito tempo. Supostamente, os Deuses Anciões partiram para um lugar distante que não pode ser acessado por mortais. Não há magias descritas que permitam invocá-los ou contatá-los e o conhecimento a respeito deles é limitado para dizer o mínimo.

Não existem cultos organizados que venerem os Deuses Anciões ou que compreendam suas motivações ou planos. É possível que no passado remoto da Terra esses cultos tenham existido e até prosperado como inimigos naturais dos cultos devotados aos Grandes Antigos, contudo a passagem do tempo desmantelou todos esses grupos e fez com que eles desaparecessem. Hoje o que se sabe a respeito desses cultos vem dos poucos registros deixados em documentos e artefatos de eras passadas.

Muito desse conhecimento, no entanto, se misturou ou foi encoberto pela mitologia e filosofia dos antigos. Por exemplo, a deusa egípcia Bast supostamente seria uma Deusa Anciã, mas ela foi de tal forma absorvida pela mitologia egípcia que não se sabe ao certo se essa presunção é verdadeira ou não.

Outros deuses foram esquecidos de tal forma que poucos pesquisadores dos Mythos seriam capazes de conhecer algo além de seus nomes.

Em cenários que se passam nas Terras dos Sonhos, é mais provável encontrar pistas sobre os Deuses Anciões. Certas fontes atestam que um número considerável deles teria emigrado para essa realidade onírica e estes vão mais além, afirmando que eles seriam os verdadeiros deuses reverenciados pelos habitantes dessa estranha realidade. Alguns exploradores chegaram a afirmar ter encontrado estes seres na Terra dos Sonhos, contudo, este mundo tende a ser tão caótico que não há como saber ao certo qual o papel deles.

Nodens é de longe o Deus Ancião mais acessível e é muito mais provável encontrá-lo do que qualquer outra entidade dessa classe. O Lorde do Abismo como é chamado por uns poucos eruditos habita os locais de convergência entre o Mundo Desperto e a Terra dos Sonhos. Ele detém autoridade e certo grau de poder sobre a misteriosa raça de criaturas sem face conhecida como Nightgaunts. Quando surge, Nodens tende a ser amistoso, embora condescendente, como se fosse um adulto falando com crianças. Tratado com respeito ele pode ser uma fonte inesgotável de informações e um aliado valioso. Não seria totalmente estranho Nodens visitar investigadores em seus sonhos para ensinar alguma magia vital ou completar algum quebra cabeça. Também não é absurdo que ele guie visitantes até a Terra dos Sonhos apresentando suas maravilhas e horrores.

Diante da virulência dos Grandes Antigos, os Deuses Anciões tendem a ser vistos como santos, mas não se engane. Nodens assim como todos os outros de sua raça divina obedece apenas às suas motivações e propósitos. A humanidade nada representa para estes seres e eles pouco se importam com nosso destino final. Se fosse preciso eles nos sacrificariam sem pensar duas vezes, se isso lhes trouxesse alguma vantagem. Para estas divindades nós somos meras ferramentas: úteis para confrontar seus inimigos, para colocar seus planos em curso ou para entreter suas noites tristes.

Eles podem não nos odiar ou desprezar, mas com certeza não são nossos amigos.

4 comentários:

  1. "Eles podem não nos odiar ou desprezar, mas com certeza não são nossos amigos."

    Dizer que uns são são os 'bons' e os outros os 'maus' é tentar humanizar (inutilmente) a existência e ações deles; é um antropocentrismo leviano. Para eles não há este dualismo, o que importa é o que _eles_ querem para si.

    Novamente, meus parabéns por esta seqüência fantástica de artigos.

    No aguardo de uma nova 'série'!

    ResponderExcluir
  2. Agora que tenho o Rastro preciso ler mais matérias como está, ou só as que aparecem aqui mesmo ^^

    E eu acredito que na mitologia que trata este espaço, não tem nenhum grupo de seres extradimensionais, "bons" ou "maus"... seria como nós, "egoístas" afinal pergunta as cobaias dos laboratórios, se eles ficam felizes com tudo que os "humanos bons" fazem....

    ResponderExcluir
  3. Bem e mau é um conceito humano.

    Na minha opinião não tem como aplicar isso a seres que são verdadeiros deuses de poder. A moral e a consciência deles se diverge de tudo o que podemos conceber ou compreender.

    A analógia com cobaias é nesse sentido totalmente válida.

    ResponderExcluir
  4. Amo esse site.

    Yog-sothoth os abençoe.

    ResponderExcluir