domingo, 12 de abril de 2015

Algo Cthuliano em Westeros - George R.R. Martin e a inspiração de Lovecraft


Reedição do artigo de 13 de Maio - 2013

Quem lê a saga A Song of Ice and Fire ou acompanha a série da HBO "A Game of Thrones" é apresentado a um mundo fantástico de intriga, aventura, guerra e magia.

Westeros o continente onde se passa boa parte da ação de Game of Thrones é uma terra dividida pela ambição de Famílias Nobres que ambicionam o poder representado pelo Trono de Ferro. No decorrer da intrincada trama, urdida pelo genial autor George R. R. Martin, conhecemos personagens apaixonantes: heroicos, valorosos, repulsivos, amáveis, covardes, determinados, mas acima de tudo humanos.

Um dos grandes méritos da Saga é tratar de personagens perfeitamente reais, ainda que habitem um mundo fictício.

A obra de Martin não por acaso é apontada como um novo clássico que conquista fãs e seguidores a cada dia. O autor já foi chamado até de o novo Tolkien, tamanho o impacto de sua obra na literatura de fantasia mundial. A riqueza de detalhes quando ele descreve os personagens, suas ações, seus objetivos e desejos mais íntimos, é simplesmente fantástica. As guerras, o cotidiano e a vida em Westeros também é tratada em detalhes e o leitor vai aos poucos aprendendo sobre sua conturbada história.

Martin sempre deixou claro que "A Game of Thrones" é uma síntese de tudo aquilo que ele leu e absorveu ao longo de sua vida e que as inspirações para compor sua terra fantástica vieram  de inúmeras fontes desde as mais óbvias como J.R.R. Tolkien, Robert Jordan, Robert Heinlein, passando por Jack Vance, Robert E. Howard e é claro H.P. Lovecraft.

O verdadeiro Lorde de Westeros
"H.P. Lovecraft teve um grande impacto em mim a certa altura da minha vida. Suas estórias e contos me deixavam apavorado". comentou Martin em uma entrevista alguns anos atrás.

Mais recentemente ele respondeu a uma pergunta sobre os autores que mais o inspiraram:

"Eu sempre amei Lovecraft, quando era mais jovem eu era doido por seus contos. Ele era sem dúvida um dos meus escritores favoritos, quando eu estava no segundo grau. Eu lia tudo dele, tudo em que conseguia colocar as mãos. Ocasionalmente eu cheguei a escrever alguma coisa baseada em sua obra. Há um personagem em meu romance Wild Cards, que é assombrado por pesadelos envolvendo as criaturas do Mythos. Eu escrevi uma série de pesadelos, que são a minha melhor imitação de Lovecraft. Não tenho certeza se me sai bem, mas tentei fazer o meu melhor para capturar o tom das estórias dele".


Procurando na obra mais conhecida de Martin, justamente Game of Thrones, não é difícil encontrar certos acenos a obra de Lovecraft, que o próprio autor reconheceu como sendo propositais. Uma espécie de homenagem, assim como ele rende pequenos tributos a outros autores que o influenciaram.

A mais clara dessas homenagens é sem dúvida a mitologia que cerca o "Deus Afogado".

Essa divindade das Ilhas de Ferro é reverenciada em um tipo de religião severa e brutal, adequada ao estilo de vida austero desse povo. Na história de Game of Thrones, os Andalos, o povo que invadiu Westeros, forçou os primeiros homens a adotar as suas tradições, entre elas a crença nos Sete, mas os ândalos que tomaram as Ilhas de Ferro, acabaram ao invés disso sendo convertidos a crença local. De acordo com as crenças do povo das Ilhas, o Deus da Tempestade uma divindade maligna lançou o Deus Afogado nas profundezas e o sepultou abaixo da superfície. Ele vive desde então no fundo do mar e é para lá que migram as almas dos mortos que acreditam nele. Os homens das ilhas não temem morrer afogados em alto mar, seu mantra religioso é "O que está morto não pode morrer, mas volta a erguer-se, mais duro e mais forte." (What is dead can never die, but rises again, harder and stronger.)

Em um dos rituais mais importantes, os seguidores do Deus Afogado tem a sua cabeça imersa em uma bacia de água salgada até quase a morte, e trazidos de volta no último instante como sinal de renascimento. Os devotos acreditam ainda em sacrifícios e costumavam executar seus inimigos lançando-os no mar presos a ferros.    

Um cultista do Deus Afogado
George R. R. Martin revelou que "O Deus Afogado" teve como inspiração direta duas entidades marinhas do Mythos, Dagon e o próprio Cthulhu, que ele claramente homenageou ao criar um pequeno verso que sintetiza toda a crença de seus seguidores (similar ao verso: "Não está morto aquele que eternamente pode jazer, e em estranhas eras mesmo a morte pode morrer" que guia os cultistas de Cthulhu).

Alguns leitores apontam ecos lovecraftianos em outra divindade presente na saga de Martin. R'hllor, o Senhor da Luz e Deus da Chama e da Sombra poderia ser encarado como um tipo de Grande Antigo, venerado por sacerdotes (cultistas?) que aprendem inclusive magias e rituais, alguns deles bastante sinistros.

Mas nesse caso específico, Martin situou a divindade como uma espécie de Zoroastrismo, uma crença que surgiu na Pérsia. O aspecto dualista da crença, onde o deus pode ser tanto bom quanto mal (luz e sombra), foi extraído de discursos escritos pelos Cátaros, uma seita medieval europeia que foi declarada herética e aniquilada pelos cruzados Albigenses.

O nome R'hllor no entanto é puro Lovecraft, como reconhece o autor. Parece algo extraído de um compêndio sobre deuses e criaturas do Mythos. E não é apenas isso... os seguidores do Senhor da Luz são inimigos de uma outra crença, essa sim, totalmente baseada no Mythos, o Black Goat (a Cabra Negra) de Qohor, uma divindade obscura de fecundidade e uma das formas do "Deus de Muitas Faces", uma entidade que assume aspectos diferentes para cada povo. É essa Black Goat a deusa da fecundidade citada pelo eunuco Varys como possuidora de dezesseis tetas que alimentam seus muitos filhotes.

Ora, os fãs de Lovecraft sabem muito bem que a deusa Shub-Niggurath, umas das mais importantes do Mythos, dedicada a fecundidade, é chamada exatamente de Black Goat in the Woods (A Cabra Negra da Floresta) e que ela possui inúmeros "filhos". Da mesma forma, "Deus de Muitas Faces" está bem próximo de definir uma das características centrais de Nyarlathotep (o Deus das Máscaras, cujos avatares se espalham pelo mundo, sendo venerados em cada lugar em uma forma diferente). "Um único deus, sob muitos disfarces".

 Em nenhum dos casos, a semelhança de nome e do conceito, são mera coincidência.

Outro claro aceno a mitologia Lovecraftiana é passagem de Aria Stark pela terra de Braavos em "A Dança dos Dragões" quando ela tem um breve contato e fica sabendo da existência de inúmeras entidades obscuras. A Ilha dos Deuses, segundo o livro é um local onde todos os deuses são honrados pelo povo de Braavos, e muitas dessas divindades tem clara inspiração no Mythos.

E se não bastasse George R. R. Martin ser um senhor tão legal e cordial, que escreveu uma saga incrível, ele ainda é um jogador veterano de RPG há mais de 30 anos... mas essa é outra estória.

16 comentários:

  1. A principal família das Ilhas de Ferro (e seguidora do Deus Afogado), os Greyjoy, possuem como símbolo a lula gigante, que lembra o próprio Cthulhu.

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  2. Apenas um pequeno detalhe: Os Cátaros não foram derrotados pelos cruzados Albigenses, eles foram derrotados nas cruzadas Albigenses pelos franceses, os cátaros eram os Albigenses e por isso no nome da cruzada. Outra coisa que me soa estranho, os Cátaros não acreditavam que deus era bom e mau ao mesmo tempo, mas sim que existe um deus bom e um deus mau, e o próprio R'hollor é declarado como um deus bom pelos seus seguidores que luta pela vida contra o mal. Melissandre invocando sombras pode trazer a impressão de que R'hollor tem um lado maligno, porém esse tipo de feitiçaria não é resultado da crença em R'hollor: Nos livros aparecem sacerdotes vermelhos que são extremamente normais. Os poderes de Melissandre provavelmente vem da sua terra natal, Assha'i.

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  3. Tem um trecho que acho que pode se aplicar ao caso. Salvo engano ele se passa no 4º livro. É um conjunto de 3 ilhas logo acima do Vale de Arryn cujo soberano tem mãos com membranas vestigiais e isso é mencionado como traço relativamente comum da família governante ;-)

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  4. Nunca li os livros mas mas vi parte da série de TV, antes de abandonar porque estava farto da pornografia, sadismo gratuito e história sem rumo, mas também notei logo os paralelos entre o deus afogado, a rima e os mitos de Cthulhu.

    Do ponto de vista técnico e até de muitos desempenhos de vários actores a série de TV é impressionante. É óbvio que ela primeira vez na história alguém decidiu não olhar a custos e meios para adaptar ao ecrã uma saga de fantasia. Só é pena que com tanta coisa boa e melhor e melhor para escolher tivessem enverdado por Westeros. Os Reinos Jovens ou a Era Hiboriana à décadas que clamam por receber um tratamento destes e mereciam-no muito mais. Tanto pela sua qualidade como pelo seu superior significado nos anais da literatura de fantasia.

    O sucesso comercial de Song of Ice and Fire/Game of Thrones (que não é tão grande assim, ninguém aqui no meu país tinha ouvido falar disto antes da série da HBO) é constantemente apontado como "prova" da sua qualidade. Eu contraponho que hoje em dia sucesso monetário repentino e impressionante geralmente indica um produto desenhado para apelar ao denominador comum mais baixo e/ou bom marketing. Se me quisesse armar em profeta seria capaz de apostar que a moda vai passar ainda antes de a série terminar e daqui a uma década ou duas ninguém se vai lembrar de SoIaF/GoT, como aconteceu com Matrix.

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    1. "Farto da pornografia"??!?! Significa, hein?!?!?

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    2. Cara o fato dos livros não terem sido tão famosos antes da série não tira a qualidade dos livros. Uma coisa mais se tu não leu como podes falar da qualidade do mesmo?

      O sucesso dos livros veio graças a qualidade do livro. Tolkien também teve esse boom atualmente devido aos filmes do mesmo.

      Na verdade Martin adicionou a fantasia uma maturidade e seriedade que faltava a fantasia mediaval.

      E realmente a série exagerou no erotismo, nos livros há bem menos cenas sobre sexo.

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    3. Ah, os fanboys acordaram assim que ouviram algo negativo sobre a sua religiãozinha fictícia de escolha. :)

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    4. Olá Vargr.

      Referente a sua critica, discordo em partes, mas você tem o direito de achar ruim ou bom.

      Porém o quero perguntar é outra coisa. Estou procurando me aprofundar na fantasia, desde suas origens. Sobre Era Hiboriana, você se refere ao Conan? E sobre "Os Reinos Jovens", qual saga/livro se trata?

      Valeu!

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  5. Sempre soube que havia algo Lovecraftiano na casa dos Greyjoy, afinal até o símbolo da casa é um polvo, me parecem que eles são Cultistas do Chutlhu

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    1. o simbolo da casa gryjoy é um kraken, muito similar as repreesentações de chtulhu , mas de ponta cabeça. os nascido de ferrro ( ironborn nao sei qual a tradução oficial) são os vikings de westeros.

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    2. Só na parte referente as navegações e saques, pois lhe falta a honra e alguns outros elementos. os ironborn seriam a parte selvagem dos nórdicos e os nortenhos seriam a parte mais civilizadas dos mesmo.

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    3. interessante sua visão dos vikings, internet afora muita gente acha q a inspiração para o norte seja a Rússia.
      o norte é grande e pouco povoado, tem um religião diferente do resto de westeros.
      e eu nao diria q a casa bolton seja honrada. Ned Stark parecia ser a honra em pessoa, mas em westeros honra nao mante sua cabeça no lugar certo.

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    4. a Rússia fui fundada por vinkigs russ logo esta de acordo com o q Jonas Drakon disse.

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  6. O golem e o alquimista.
    O cavaleiro da Guarda Real Sor Robert Strong (Sor Gregor “A Montanha Que Cavalga” Clegane renascido do vale da morte e do fogo do inferno através da ciência, magia e alquimia do louco meistre Qyburn) é uma espécie de supersoldado. Um tipo de golem da mitologia judaica ou um homúnculo da alquimia.
    O louco meistre Qyburn pode ter sido inspirado no médico alemão e criminoso de guerra nazista Josef "O Anjo da Morte" Mengele.
    O ex-meistre Qyburn representa o lado sombrio da Cidadela. A curiosidade científica e o desejo de compreender o funcionamento do universo à sua volta. Para acessar esse conhecimento ele está disposto a dissecar, vivificar e mutilar os espécimes que caem em suas mãos. E por espécimes, eu obviamente me refiro aos animais e seres humanos. Não há nenhum sinal de piedade, apenas o frio desejo de compreender as diferentes formas de vida falha, saber como elas funcionam e como podem aprimorá-las.
    A transição final da "Montanha que Cavalga". Quando uma pessoa começa a perder a sua identidade humana, se transformando lenta, porém gradualmente em algo diferente, incompreensivo e totalmente alienígena para os padrões humanos. A transição final surge em incontáveis estórias de horror gótico, desde os vampiros (a transformação pelo sangue), os licantropos (a transformação pela besta primitiva), os feiticeiros (a transformação pela magia), os alquimistas (a transformação pela alquimia) e passando pelos cientistas com faceta de monstro (a transformação pela ciência). A perda do status de ser humano, a maneira como se manifesta a mudança e o pavor desencadeado pela mutação nas pessoas que a testemunham, são um dos pilares do Horror Lovecraftiano. Na concepção de Lovecraft, nada pode ser pior do que se tornar uma criatura abominável. Nenhuma experiência pode ser mais tenebrosa do que descobrir que em seu corpo existe uma espécie de gatilho que quando deflagrado dará início a transformação. Mas nem todos tem uma escolha. O fatalismo é marcante na obra de Lovecraft. Um personagem pode tentar se esquivar de seu legado, mas não há como abdicar de quem você é ou de sua verdadeira natureza. Para o bem ou para o mal, uma pessoa que nasce com uma pré-disposição para determinado destino está condenado a cumpri-lo. O pior é que durante todo processo, a mente e a alma humana permanece intocada pela mutação. Talvez o mais aterrador seja que Sor Gregor "A Montanha que Cavalga" Clegane abraçar a sua nova existência e a aceitar de bom grado.

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  7. Alguma previsão sobre o sexto livro da série, "The Winds of Winter"? Ele sai ANTES ou DEPOIS da sexta temporada da série de tv da HBO?

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  8. Seria interessante uma matéria sobre jogadores famosos de RPG , aproveitando a informação que George R R Martin é um veterano desse tipo de jogo .

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