sexta-feira, 17 de maio de 2013

Terror from the Skies - Resenha da última campanha lançada pela Chaosium


Com base nas resenhas de PoC e Alex Lucard

Após um período meio parado, a editora Chaosioum surpreendeu seus leitores publicando não apenas um, mas dois títulos ano passado para sua principal linha de RPG, Call of Cthulhu. O primeiro foi o elogiado Cthulhu by Gaslight, que marcou o retorno de CoC a Era Victoriana (e que recebeu uma resenha aqui no Blog). 

O segundo foi meio que inesperado: 

Terror from the Skies: A Race to Save Humanity from a Dark Future ("Terror das Estrelas: Uma corrida para salvar a humanidade de um Futuro Negro") apresenta uma nova campanha para CoC, a primeira da Chaosium desde Tatters of the King, publicado em 2006. Da mesma forma que seu antecessor, Terror from the Skies tem lugar durante o período clássico da ambientação, a década de 1920, e se passa na Inglaterra, embora os eventos irão conduzir os investigadores a lugares muito distantes.


Como manda a tradição das campanhas, Terror from the Skies se propõe a ser uma missão desesperada  para salvar o mundo de uma terrível ameaça do Mythos. Tudo começa com uma investigação aparentemente corriqueira no Sudeste da Inglaterra onde os investigadores são convidados para uma cerimônia de casamento. A caminho da recepção, o grupo entra em contato com estranhos rumores e superstições locais, que afirmam que o casamento não terminará bem. Será que há algo verdadeiro nos rumores a respeito de uma maldição repousando sobre uma antiga igreja? Ou eles não passam de crendices tolas? 


O começo da campanha pode soar meio morno, mas as coisas gradualmente vão esquentando. O primeiro cenário serve de justificativa para apresentar os personagens mais importantes da campanha, aqueles que irão conduzir os passos dos investigadores no restante da estória. Ao meu ver, as coisas poderiam ser um pouco mais bem amarradas e a ligação entre os PCs e esses NPCs poderiam ser estabelecidas de forma mais profunda, mas não é nada que o mestre não possa melhorar. 


A partir dessa introdução, a campanha segue para o Norte das Ilhas Britânicas. Atraídos por uma correspondência de um aliado apresentado no primeiro cenário, o grupo fica sabendo de uma força sobrenatural que está agindo em Whitby. Os investigadores terão de descobrir se há algum fundamento nas estranhas estórias a respeito de um lendário morto-vivo. Apesar de se arriscar em alguns clichés sobre vampirismo, o autor consegue desviar o foco e retomar o clima dentro dos domínios do Horror Cósmico. Essa aventura é bem divertida! Aos poucos, os personagens irão desvendar indícios de um plano macabro e uma conspiração que os lançará contra poderosos inimigos.

Como antagonista principal, Terror from the Skies, consegue inovar e além dos habituais cultistas maníacos, o grupo terá de lidar com uma raça de criaturas que aparece apenas ocasionalmente em cenários e suplementos do jogo. Não vou ser estraga prazeres e contar qual o monstro e quem está por trás da ameaça, mas o que posso adiantar é que os antagonistas em questão são bastante perigosos e implacáveis. Sem dúvida, os jogadores vão sofrer um bocado para conseguir frustrar os planos de seus oponentes e eles não lhes darão folga. Um dos aspectos interessantes da trama é justamente esse. A medida que os investigadores começam a descobrir os fatos e pistas, seus inimigos não ficam simplesmente observando seu progresso, eles tentam de toda forma eliminar o risco. E isso transforma Terror from the Skies em uma série de cenários especialmente perigosos para os jogadores. Acreditem em mim: essa é uma daquelas campanhas perfeita para causar paranoia e deixar os personagens (e é claro, os jogadores!) constantemente preocupados, se perguntando em quem podem ou não confiar.

Para aumentar o desafio, a campanha segue um cronograma extremamente apertado. Se os personagens não conseguirem descobrir o que está acontecendo e traçar um plano para impedir seus oponentes no prazo estipulado, as chances da campanha ter um final nada agradável são grandes. Eu gosto dessa abordagem, ela faz com que os personagens sejam obrigados a "ir à luta" sem que possam desperdiçar seu tempo em bobagens ou investigações paralelas. E dessa forma o grupo terá de viajar pelo interior da Inglaterra de trem, carro, carruagem e barco, para reunir as pistas necessárias. A campanha é composta de dez cenários, mas alguns deles são bastante sucintos, permitindo ao Guardião juntar dois em uma mesma sessão.

Embora a campanha tenha um início bastante "purista", a medida que progride, Terror from the Skies vai se tornando cada vez mais aventuresco, com uma pegada Pulp, sobretudo nos últimos cenários. Na minha opinião, o autor abusa um pouco dos combates e das oportunidades para que os investigadores saquem armas e abram caminho à bala, o que pode ser um tanto problemático em se tratando de uma campanha na Inglaterra dos anos 1920 (um lugar extremamente civilizado e tranquilo). Há algumas sequências um bocado focadas para o estilo "pé na porta e armas na mão" e forçam os jogadores a buscar soluções na base do poder de fogo ao invés da diplomacia ou das habilidades investigativas. Isso pode ser um tanto decepcionante, mas na minha opinião o Guardião pode fazer algumas modificações para sanar a questão. Se é que tal coisa o incomode.

Algumas resenhas de Terror from the Skies criticam a ausência de detalhes e motivações de alguns personagens. De fato, em alguns momentos, os personagens são mencionados de forma muito rápida e o guardião tem que preencher uma série de lacunas e inventar algo que justifique as ações dos NPCs. O que parece faltar à campanha é uma execução mais caprichada e uma conexão mais clara entre os cenários. Em alguns momentos, as pistas não parecem suficientes para enviar os investigadores rumo ao cenário seguinte, o que pode causar alguns problemas de encadeamento para o Guardião resolver.

Outro elemento muito criticado em Terror from the Skies é a ausência de detalhes sobre os lugares onde se passam as aventuras. No decorrer da campanha, os investigadores visitam pelo menos oito cidades, mas a descrição delas é muito simplificada, o que atrapalha bastante na hora de narrar a estória. Por exemplo, ao chegar a York, onde os personagens irão se hospedar? Há alguma boa biblioteca ou universidade em Cardington, onde o grupo possa fazer suas pesquisas? Ou ainda, como são as ruas e que tipo de pessoas vivem em Whitby? Eu entendo que o Narrador pode simplesmente inventar as informações com base em seu senso comum, mas em Call of Cthulhu estamos acostumados a encontrar detalhes sobre os lugares visitados o que permite uma maior familiaridade do narrador com o ambiente onde as estórias transcorrem. Na ausência dessas informações, ao guardião restam duas opções: pesquisar por conta própria ou deixar que as cidades da campanha sejam todas mais ou menos parecidas e "sem sal".
     

A falta de mapas também é um problema irritante nesse livro. Terror from the Skies é extremamente econômico no que diz respeito a mapas situando as localidades e distâncias entre elas. Pessoalmente eu conheço muito pouco do norte da Inglaterra e não faço ideia de onde fica Manchester em relação a New Castle por exemplo. Também não tenho ideia onde diabos fica Whitby... Até acho que o guardião pode encontrar um bom mapa da Inglaterra na internet, mas francamente, o livro poderia trazer esse material para facilitar as coisas.

Mas o maior defeito da Campanha, entretanto, é a ausência de estatísticas de alguns NPCs que os jogadores irão encontrar e interagir no decorrer da campanha. Essa é uma falha grave uma vez que deixa nas mãos do Guardião a responsabilidade de, mais uma vez, ter que preencher as lacunas. Os livros da Chaosium geralmente trazem as estatísticas dos personagens principais no final de cada cenário e essas estatísticas são uteis para o narrador conduzir a estória, mas em Terror from the Skies aparentemente esqueceram esse "pequeno" detalhe.

Com todos esses fatores em aberto, Terror from the Skies acaba sendo uma campanha indicada para narradores mais experientes que tenham uma certa milhagem no que diz respeito a consertar problemas de cenários e complementar trechos que obviamente não vão funcionar na prática.  

A campanha vem acompanhada de vários handouts. Muitos deles foram bem produzidos e receberam um tratamento para parecer autênticos (folhas de diário, páginas de jornais, documentos etc.) de modo que a maioria pode ser simplesmente copiado e entregue diretamente aos jogadores. Não há muitas novidades no que diz respeito a aparência dos handouts, mas a maior parte deles tem um efeito satisfatório.

A arte é mediana, há alguns bons desenhos no interior, mas a maioria se não compromete a qualidade do produto também não empolga. Infelizmente, a arte interna também fica um pouco subvalorizada e não aparece com a frequência que se espera em um livro de RPG. São várias páginas de texto e pequenas ilustrações em geral de um NPC. A título de curiosidade, a arte interna foi assinada por Marco Morte e Pedro de Castro Araújo, ambos artistas brasileiros. A capa no entanto é de Kenneth Solis e ao meu ver substituiu bem a primeira capa que havia sido anunciada e que entregava muito sobre o desfecho da campanha. O link para a capa que não foi utilizada está aqui .   

O veredito final é o seguinte:

Terror from the Skies tem uma boa estória central, mas os cenários individualmente deixam a desejar. As ideias são boas, mas as situações poderiam render algo mais interessante se tivesse havido um pouco mais de cuidado e principalmente detalhes. A impressão que tenho é que esse suplemento poderia vir a se tornar uma ótima campanha, se tivesse um número um pouco maior de páginas e consequentemente informações importantes para o mestre conduzir a narrativa a contento.

Do jeito que é apresentada, Terror from the Skies até pode resultar em uma campanha divertida, mas antes de encarar o desafio, o narrador tem que se perguntar se vai valer a pena o trabalho e esforço para sanar os defeitos do livro. E acreditem, vai dar trabalho colocar a casa em ordem...

Trata-se de um material novo e original que pode ser interessante nas mãos de um narrador experiente e de um grupo motivado, mas está a anos luz das campanhas clássicas de Call of Cthulhu.

TERROR FROM THE SKIES: A Race to Save Humanity From a Dark Future
Escrito por Colin Hart
Ilustrações: Marco Morte e Pedro de Castro Araújo
Capa: Kenneth Solis
144 páginas
Preço de Capa: US$20.95
Link para Amazon: Terror from Skies

Achou interessante? Aqui estão algumas outras resenhas:

3 comentários:

  1. Caro Blogueiro Tentacular

    Faz tempo que eu ia comentar nesse post, mas como eu tenho no hábito de ler seu blog pelo celular, e ninguém merece escrever um texto na telinha touch, deixei pra escrever em casa, aí sabe como é né... Mas bem, procrastinação NÃO MAIS!

    Descobri esse blog a mais ou menos um ano, acho que já comentei umas duas vezes por aqui. Seu material é muito bom, me amarro nessas loucuras culturais e lendas urbanas que você acha por aí e encaixa no universo Lovecraftiano de modo bastante adequado.

    Quanto ao motivo do comentário, lhe informo que (pelo menos) um dos ilustradores desse livro é seu leitor. Isso mesmo, eu sou o Pedro de Castro, um dos brazucas que trabalhou na edição. Inclusive, fiquei muito surpreso ao receber minha edição, e ver outro nome brasileiro ao lado do meu (se você tá lendo aí também, camarada, apareça! Gostaria de conhecer quem trabalhou comigo nessa), assim como fiquei surpreso ao ver uma resenha em um blog compatriota que eu leio!

    Devo confessar que li muito pouco do livro. Não possuo nenhum livro de regras do sistema, nenhum amigo meu nunca jogou Cthulhu, e nossa mesa prefere campanhas de criação própria do que publicadas. Só dei mesmo uma folheada para ver como ficaram as ilustrações, mostrei para alguns amigos, e foi para a gaveta (talvez eu jogue ainda algum dia, quem sabe?). No final das contas, fiquei um pouco decepcionado com a impressão, achei meus desenhos pequenos e demasiado escuros. As melhores impressões foram os desenhos de personagem, dos quais eu me orgulhei, mas que sinceramente não são a minha praia (meu apelido é Monstrinho por que eu desenho MONSTROS, bolas!). Quanto às criaturas, muitos desenhos saíram quase ilegíveis. Uma ilustração de Shantak foi pedida para largura da página, e na impressão saiu com uns cinco centímetros; outro Shantak, se alimentando de um cavalo e montado por um quase-humano, saiu como plano de fundo de um quadro lateral. O Hob teve duas aparições, uma impressa também como thumbnail e outra na metade do tamanho que me pediram, ambas BEM escuras, nem dá pra ver que ele está peladão; e minha ilustração favorita nem sequer estava incluída no livro!

    Bem, pelo menos essa última parte não é bem verdade; eu a vi no seu blog! É o Shan dissecado, como se fosse ilustração de livro de anatomia (devo ter recebido uma impressão beta, talvez a que foi para as lojas tenha uma qualidade um pouco melhor). As outras duas ilustrações nesse post são do outro artista.

    No todo foi uma experiência difícil. O prazo foi apertado, eu cobrei pouco (estava mais interessado em ver meu nome publicado do que em receber bem), demoraram bem mais do que o combinado para me pagarem, eu reagi menos graciosamente do que deveria (mas me desculpei depois; eles me chamaram pra um outro trabalho recentemente mas minha agenda não permitiu...), e eu ainda não posso publicar as imagens originais durante alguns meses. Mas foi legal também. Nunca havia feito um trabalho desse tipo (já ganhei pouco dinheiro com ilustrações na minha vida, em eventos de pouca visibilidade), ter meu nome publicado no mundo do RPG é um grande orgulho (embora eu poderia ter mostrado trabalhos melhores na minha estreia), e além disso eu descobri que a Chaosium é uma empresa BEM MENOR do que a gente imagina; acabei me identificando com eles depois de terminado o trabalho. Recebi até um cartão de natal engraçadinho, com uma arte meio feinha (um Cthulhu vestido de Papai Noel), mas com uns trocadilhos bem legais (Merry Yithmas, e coisas assim).

    E é isso. Achei muito legal ler sobre algo que eu fiz em um blog de alguém que não me conhece, e achei que poderia compartilhar minha experiência. Se algum dia você mestrar esta aventura, me conte como foi!

    Carinhosamente,

    Pedro de Castro Araújo, o Monstrinho.

    Iä, Shub-Niggurath!

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  2. Opa Pedro,

    Obrigado pelo contato e pela mensagem. É ótimo ver artistas, autores e escritores brasileiros ligados ao RPG "desbravando a fronteira" e trabalhando no mercado exterior.

    Que isso continue acontecendo e que os pioneiros sejam lembrados. Uma pena terem surgido esses empecilhos, mas são coisas de trabalho suponho. Espero que se num futuro próximo surgir a oportunidade de trabalhar uma vez mais com a Chaosium as coisas corram mais tranquilas.

    No mais, parabéns! E um Grande Abraço!

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