domingo, 26 de agosto de 2018

"Jura é Jura" - Resenha de Wytches, do selo Darkside Graphic Novel


Por Clayton Mamedes

Desde o mais cedo que consigo me recordar, os quadrinhos sempre fizeram parte da minha vida. Quando bem pequeno, eu utiliza as páginas de várias publicações da Disney que meu pai me trazia. Dentre elas, os meus personagens favoritos na época: Mickey e Pateta!

O tempo passou, eu cresci e lá estavam os quadrinhos novamente. Apenas os títulos mudaram, mas a voracidade de leitura e coleção permaneciam afiadas. Era o começo da década de 90 e tramas saídas das páginas de Wolverine, Grandes Heróis Marvel, Batman, A Espada Selvagem de Conan povoavam os meus pensamento. Sem dúvida, uma época dourada.

Atualmente, apesar de ter abandonado os números mensais, possivelmente pela baderna generalizada que as editoras fazem, ainda leio e compro muita coisa, porém dando mais prioridade para títulos mais fechados, como minisséries e outros especiais. 

Desta forma, sempre estou atento a lançamentos, lendo ou pesquisando sobre o universo das HQs de maneira rápida, do jeito que hoje a Internet nos permite. Foi em uma destas consultas que me deparei com o título analisado de hoje, o Wytches, fruto do sempre competente Scott Snyder (de Vampiro Americano, por exemplo). Era o ano de 2015 e cogitei importar a publicação, junto com uma leva de The Walking Dead mas, devido à uma longa viagem a trabalho, acabei não concluindo a compra daquela vez. Infelizmente.

Contudo, para minha sorte, para a sorte e deleite de vocês, a DarkSide Books resolveu, através de seu selo de Graphic Novels, trazer Wytches para o Brasil. Uma decisão acertadíssima.

Wytches não é uma simples HQ adulta ou de terror. Ela não nos tente impressionar com banhos de sangue ou cenas de sexo selvagem. Ela é mais do que isso. Ela evoca sensações e pensamento mais profundos, mais questionadores, mais perturbadores. Se Wytches fosse um filme, ela estaria mais para O Bebê de Rosemary encontrando Pet Cemetary. Até onde pessoas comuns estariam dispostas a descer? Apenas para terem o que tanto desejam? Custe o que custar…


Wytches conta a saga da família Rooks que, por algum acontecimento sombrio do passado, se vê obrigada a mudar de cidade. O pai, Charles, é um autor de livros infantis vivendo com a sua esposa cadeirante, Luce. Completando a família temos a adolescente Sailor que, aparentemente, é a origem de todo o passado sombrio dos Rooks. Assim, a trama se desenrola em eventos em 2014, no presente atual da família e em 2011, o ano do tal evento misterioso. Neste ponto, Snyder usa com maestria os recursos de flashbacks que, de tão bem amarrados, muitas vezes você se pega retornando a leitura uns poucos quadros, apenas para ter certeza da sutileza do ponto de ruptura.

Falando em Snyder, aqui ele repete de forma bastante capaz o seu argumento afiado, como visto em seu Vampiro Americano. As ilustrações surreais e doentias de Jock completam o pesadelo impresso. Desconhecia este artista e fique bem impressionado pelo seu traço. Justiça seja feita ao trabalho de coloração de Matt Hollingsworth. Simplesmente geniais.

Já o tema central de Wytches são as bruxas. Mas esqueça aquelas mulheres de nariz verruguento que vivem em pântanos. Ou aquelas jovens sedutoras dançando nuas pelas clareiras. Aqui, as Brvxas (isso mesmo, com V) são seres de imenso poder, tão antigas quanto o mundo e estão sempre dispostas a barganhar com os humanos para poder saciar a fome. E é sobre essa relação de escambos que o enredo de Wytches se apóia. E essa relação que debilmente pode estar na cabeça do seu vizinho, do seus amigo, de seu parente próximo. Em outras palavras, como lemos muitas vezes durante a obra: “Quem você juraria?”.

Infelizmente, não poderei aprofundar com maiores detalhes a minha análise da trama de Wytches sem comprometer a experiência de leitura. Há vários plot twists, assim como situações obscuras que necessitam de interpretação do leitor. Como eu escrevi logo acima, não é uma HQ rasa.


Contudo, considerando as ressalvas acima, vale a pena comentar um pouco mais sobre Sailor, a filha do casal Rooks. Logo no princípio do volume, é possível entender que a garota sofre de distúrbios psicológicos, como ansiedade e ataques de pânico (os quais são fortemente ligados à narrativa principal de Wytches). O fato que merece destaque aqui vem do próprio roteirista que, através de textos extras ao final do livro, explica em detalhes o processo de criação da obra, sendo que ele mesmo sofria, e muito, com os mesmos problemas de ordem mental que afligem Sailor na HQ. Este material compilado que a DarkSide incorporou ao seu encadernado (originalmente, Wytches foi publicada em 5 edições, sendo que este texto de autoria do Snyder fechava cada uma) é muito rico em detalhes e, além de contar como Snyder lida com suas fobias, relata de maneira bem humorada a recepção de Wytches pelo público. Vale cada palavra.

Ainda comentando sobre o volume da DarkSide, só posso acrescentar que se trata de um belíssimo trabalho de localização: capa dura com detalhes em verniz, papel de alta densidade, lombada quadrada firme e o material extra formam um edição primorosa. Apenas senti falta de um breve currículo dos autores. Nada relevante.

Wytches é uma HQ de respeito, apresentando todas as qualidade que a fará ser lembrada com o passar dos anos. Em suas páginas Snyder conseguiu imprimir os pesadelos que o perseguiam durante a sua adolescência, auxiliado magistralmente pelo artistas envolvidos na obra. Uma trama inquietante, surpreendente e moderna, repleta de segredos e segundas intenções. 

E juramentos não cumpridos...



2 comentários:

  1. Li. O último blurb da contracapa, essa da foto no fim da sua resenha, diz tudo: só as quatro primeiras páginas, e não tem volta. São tipo o primeiro ato do Rei em Amarelo.

    É fantástico, envolve, dá vontade de devorar tudo (parei na metade por que eram 3 da manhã e eu *tinha* que trabalhar no dia seguinte), e deixa um p$&% sentimento de vazio no coração quando termina.

    A arte é sensacional também! Se você prestar atenção, percebe que, à medida em que os protagonistas perdem a razão, também a arte se torna mais colorida e borrada.

    É lindo!

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