quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Stranger Things 2 - Resenha da tão aguardada segunda temporada


A espera foi longa, mas a segunda temporada de Stranger Things finalmente está entre nós.

A série do Netflix que ano passado conquistou uma legião de fãs com uma mistura irresistível de suspense, ação e muita nostalgia caiu nas graças de muita gente. E todos se perguntavam se a segunda temporada conseguiria manter ou mesmo superar o elevado nível estabelecido na sua já clássica temporada inaugural. Não é segredo que Stranger Things se tornou uma sensação do dia para noite, um sucesso que nem mesmo a própria Netflix esperava. 

O público respondeu imediatamente aos personagens carismáticos, o charmoso elenco, as tramas bem construídas, o suspense de roer as unhas e é claro ao chamado afetivo dos anos 80, a década perdida, que deixou e continua deixando saudades em quem viveu e em muita gente que gostaria de ter vivido essa época mágica. Mais do que uma novidade empolgante, Stranger Things servia como um agradável túnel do tempo com incontáveis referências a serem caçadas, discutidas e debatidas. Por alguns dias, a pergunta que mais se ouvia por aí era "Você já terminou de assistir Stranger Things?"


Bom, a espera foi longa (quase 15 meses!) mas aí está Stranger Things 2 com todos os seus elementos familiares no devido lugar - o elenco, a trilha sonora, o humor, as imagens de pesadelo, e a nostalgia gritante. Temos uma fartura de referências que vão desde Alien e Exorcista, passando por Warriors, os Selvagens da Noite até as melhores obras de Stephen King reunidas em uma série que aparentemente continuará a atrair fãs e ser debatida por muito tempo.

É claro, a segunda temporada não possui o fator novidade que a primeira oferecia, e assim, um pouco do charme original se perde. Mas isso não chega a ser um defeito, já que a falta de novidade é facilmente compensada pelo aprofundamento dos personagens e do mundo em que eles vivem. Os garotos estão um pouco maiores e esse crescimento se traduz em outras questões e interesses. Óbvio, eles ainda são vidrados em andar de bicicleta, assistir filmes e jogar D&D, mas eles estão amadurecendo. Além disso, a assustadora experiência da primeira aventura, deixou marcas nos meninos, nas suas famílias e amigos mais próximos.

Stranger Things 2 começa pouco mais de um ano depois deles terem enfrentado as ameaças do Mundo Inverno. O Demogorgon, a criatura maligna que escapou de outra dimensão e se instalou em Hawkins foi derrotada em uma eletrizante batalha na qual Eleven desapareceu. As instalações secretas do Centro de Pesquisas continuam existindo, mas os sinistros cientistas que lá trabalhavam deram lugar a outros que fiscalizam a passagem dimensional escondida no porão. Will Byers teve muita sorte e conseguiu retornar para sua mãe e irmão, mas como bem sabemos através do epílogo, ele voltou mudado, trazendo um segredo assustador. Dustin e Lucas tentam levar suas vidas da maneira mais natural possível, enquanto Mike continua remoendo a falta de Eleven com quem ele tenta se comunicar diariamente.


Will ganha muito mais destaque, como o pivô dos acontecimentos estranhos dessa temporada. É ele quem dá os primeiros indícios de que a experiência no Mundo Invertido não está encerrada e que um inimigo muito mais poderoso e terrível que o Demogorgon está à espreita. Apesar de todos tentarem voltar ao curso normal de suas vidas, Will continua sofrendo episódios perturbadores no qual ele se vê deslocado para uma aterrorizante dimensão paralela. E é claro, se ele pode ver o que existe lá, com certeza, o mesmo vale para os habitantes daquela realidade.

A série se esforça em devolver os personagens a um território inexplorado, repleto de mistérios e desafios. Se antes a ameaça estava concentrada em um único monstro aterrorizante, a segunda temporada expande o conceito do Demogorgon e apresenta novas ameaças.  O inimigo da vez é uma ameaça chamada Devorador de Mentes, uma sombra gigantesca com tentáculos que lembra muito um dos horrores inumanos de Lovecraft. O Devorador é capaz de entrar na mente de suas vítimas, controlar e espionar o que ela faz e pensa. O novo adversário traz um senso de revitalização para a série e introduz uma criatura aterrorizante tanto na aparência quanto nas intenções. O pobre Will passa por maus bocados nas garras da criatura que planeja usá-lo para invadir Hawkins e nosso mundo.

Além de Will, outro personagem que ganha mais destaque na segunda temporada é o Xerife Jim Hopper. David Harbor, o ator que vive o personagem, tem a chance de explorar um papel diferente, o de pai adotivo de Eleven que desde os acontecimentos do final da temporada ficou secretamente sob sua responsabilidade. Eleven ainda tenta se ajustar ao mundo fora do porão do laboratório onde foi criada e precisa aprender a confiar em Hopper. Já o xerife não sabe exatamente como lidar com uma pré-adolescente cheia de curiosidade com o mundo exterior e ainda por cima detentora de poderes telecinéticos. As discussões entre os dois dão o tom de vários episódios e fazem com que a tensão continue crescendo até explodir em uma dramática fuga.

   
Também temos a oportunidade de conhecer as famílias de Dustin e de Lucas, com o segundo apresentando sua irmã mais nova, uma mala sem alça que literalmente rouba todas as cenas em que aparece. A amizade de Dustin e Lucas, aliás é posta à prova pela chegada de uma nova aluna vinda de Los Angeles e que desperta o interesse dos meninos. Mad Max, é literalmente o sonho dos dois, uma garota ruiva, cheia de atitude, que anda de skate e que não leva desaforo para casa. No início eles tentam convencê-la a fazer parte do grupo, mas só quando ela acaba se envolvendo na investigação e se arriscando com os perigos, é que Max se torna realmente parte do grupo. A promissora aparição de mais uma garota para o elenco infanto-juvenil sinaliza com algumas mudanças interessantes na dinâmica do grupo, sobretudo por envolver um interesse romântico. Fico na esperança de que a personagem tenha mais importância na próxima temporada, já que depois de seu aparecimento nos primeiros episódios ela perde gradualmente sua importância, tornando-se uma mera espectadora dos acontecimentos na reta final.

Mad Max vem acompanhada de uma família desajustada, onde seu meio-irmão desponta como um problema em potencial. Billy, o típico rebelde sem causa e mau caráter dos filmes anos oitenta é um ótimo acréscimo à trama e cada vez que el está em cena, provocando os outros ou tentando atropelá-los com seu carro, transmite uma aura de ameaça.  

Por sinal, os adolescentes de Hawkins, também estão de volta. O romance de Nancy e Steve continua, embora muitos tenham torcido o nariz para a escolha final dela na conclusão da temporada anterior. Jonathan, o irmão mais velho de Will, continua no páreo e terá uma segunda chance com Nancy em meio a uma investigação paralela dos acontecimentos na cidade. Isso nos leva a outra ponta que ficou solta na primeira temporada, a repercussão quase nula a respeito do desaparecimento de Barb (a amiga de Nancy morta pelo Demogorgon). Finalmente essa lacuna é preenchida e sabemos o que aconteceu e como a família dela foi afetada pelo ocorrido. A maior mudança é justamente em Steve que começa a perder espaço para seu rival, o que o leva a mudar o foco transformando-se numa espécie de babysitter ou irmão mais velho para os garotos. Essa transição funciona perfeitamente na trama e faz com que o personagem ganhe novo fôlego e importância. Se na primeira temporada ele acabou como o namorado mauricinho com cabelo e dentes perfeitos, aqui ele conquista a simpatia de todos como o sujeito que "faz o que é certo" e está disposto a salvar o dia. 

   
Além do Xerife Hopper, o outro protagonista adulto de Stranger Things, Joyce, a mãe de Will também tenta esquecer dos acontecimentos traumáticos do ano passado. Apesar do retorno de Will, são e salvo, Joyce desconfia corretamente que ele está escondendo alguma coisa e continua preocupada com sua segurança. Winona Ryder, talvez o rosto mais famoso do elenco, continua fantástica como Joyce e agora com a vantagem de estar em terreno familiar dá um show. Outro rosto familiar na série é a inclusão de Sean Astin (sim, ele mesmo Samwise Gangee!) que faz o papel do novo namorado de Joyce, Bobby, um sujeito simpático e prestativo que não faz idéia da encrenca em que está se metendo. Um dos melhores diálogos da temporada é dele, quando depois de examinar um mapa pergunta meio sem graça o que está no final dele, "um tesouro pirata"? 

(Para quem não pescou a referência, Sean Astin quando moleque foi o protagonista de Gonnies, filme que serve de inspiração para Stranger Things. E lá, ele caçava um tesouro perdido, escondido por um pirata).

Já Eleven experimenta uma espécie de jornada ao longo da segunda temporada, ao mesmo tempo metafórica e literal. Millie Bobby Brown, a intérprete de Eleven confirma a suspeita de que é um novo talento e que dentro em breve estará brilhando em super-produções no cinema. A menina consegue ir de extremos emocionais em segundos, sempre com uma naturalidade impressionante. Não é nenhum exagero afirmar que, assim como aconteceu na primeira temporada, ela continua sendo um dos personagens mais interessantes do elenco. Um dos enredos centrais de Stranger Things 2 é explorar a origem de Eleven e descobrir quem ela era, quem era sua mãe e como ela se tornou um dos experimentos do maldoso Dr. Brenner. Nós acompanhamos Eleven nessa sua busca por informações e descobrimos detalhes perturbadores a respeito de sua origem. Um dos episódios, no qual que ela finalmente descobre a identidade da mãe e o seu triste destino é um dos melhores da temporada. Ele atesta que maldade e perversidade não são uma característica apenas dos monstros do Mundo Invertido; alguns monstros na série, são muito humanos. 


O Episódio 7, "The Lost Sister" (A Irmã Perdida), talvez seja o único ponto fora da escala em toda temporada que do contrário poderia ser chamada de impecável. Passando-se inteiramente fora do universo suburbano de Hawkins, ele remove os personagens que nós amamos e apresenta uma série de outros protagonistas liderados por "Eight" (Oito), outra vítima dos experimentos do Dr. Brenner e que assim como Eleven tenta sobreviver no mundo real. O episódio em si não é ruim, nem mesmo os personagens que conduzem a narrativa - um grupo de desajustados e marginais, entretanto, fica a impressão de que os produtores estão tentando forçar o surgimento de um spin-off quando o que queremos é mais da trama original. Não vou ficar surpreso se dentro em breve tenhamos uma nova série se passando no mesmo universo de Stranger Things, estrelada por "Eight" e seus amigos. Só não sei dizer se ela terá o mesmo apelo.

Voltando a Eleven, manter ela e Mike a maior parte da temporada afastados também foi uma decisão arriscada dos roteiristas. O público queria que os dois se encontrassem de uma vez, mas isso só ocorre nos últimos episódios... felizmente quando enfim temos a tão esperada reunião, ela vem em um clima perfeito e justifica a espera. Talvez Mike - que é o coração e a alma da primeira temporada, fique um pouco alienado nessa sequência, mas ao menos nos dois últimos episódios ele tem a chance de brilhar intensamente.


O desafio dos Irmãos Duffer (a dupla de diretores e criadores da série) era enorme nessa segunda temporada. Para manter a qualidade e o interesse do público eles teriam de decidir entre introduzir mudanças e novas perspectivas para a trama e personagens ou preservar aquilo que funcionou tão bem, sob o risco de oferecer apenas "mais do mesmo". Felizmente eles conseguiram em um passe de mágica equilibrar as duas coisas e entregar uma série redondinha. Stranger Things 2 consegue reeditar todos os elementos que fizeram a primeira temporada ser uma sensação e se arrisca aqui e ali com bons resultados. Se ela não é tão empolgante e inovadora, o produto final é bem acima da média e vai agradar em cheio todos que estavam saudosos.

Os dois episódios finais tem um ritmo de fazer inveja para qualquer série de suspense, com uma mistura de emoção, ação e reviravoltas. A luta final com o Devorador de Mentes nos subterrâneos de Hawkins e nos porões do Laboratório é eletrizante. O capítulo final oferece ainda um excelente epílogo na forma de um Baile de Formatura, no qual temos a chance de ver o crescimento dos personagens e as ramificações de seus relacionamentos o que já nos deixa muito ansiosos pela terceira temporada.


Stranger Things 3 está mais do que confirmado, ainda mais com a perspectiva da série se tornar uma das mais assistidas do Canal de Streaming. Além disso, o final da temporada deixa no ar a perspectiva de que os horrores do Mundo Invertido não irão descansar e que eles continuam espreitando. A inserção da música "Every Breath you Take" (do The Police) no trecho final tem um sentido bem claro de que algo está do outro lado, vigiando a todo momento.

Por ora, no entanto, é  momento de deixar as crianças, adolescentes e adultos de Hawkins celebrar sua vitória.


Trailers Legendados:


3 comentários:

  1. Boa resenha, acho que para terceira temporada eles devem ter que reunir os demais psionicos do projeto para poderem cessar com ameaça de forma definitiva.

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  2. "fica a impressão de que os produtores estão tentando forçar o surgimento de um spin-off" Cara, essa é a justificativa que mais fez sentido para o episódio 7 kkk. MAS, ainda sim vou tentar defender esse episodio. A série tentou mostrar a verdadeira natureza da Eleven, diferente de nós macacos velhos, existem uma legião de fãs mirins que não conhecem as referências e nem mesmo os clichês, então consigo ver perfeitamente a galera mais jovem ficando em dúvida sobre o carácter da eleven. Veja que no começo da primeira temporada ela mata pessoas e fica até a dúvida, se ela não era o monstro. No episódio 7, tem a cena que ela escolhe não matar e se desentendi com a eigth, isso foi necessário para mostrar que apesar dos poderes e do ódio, ela não foi inclemente com o "vilão", assim mostrando quem realmente ela é. O episódio também serviu para sugerir que o doutor está vivo. Outra teoria é que os produtores tentaram aplacar a ira de muita gente que tava achando que a série tinha pouca representatividade, aí eles inventaram esse episódio como desculpa para inserir algumas minorias. E não sei se isso é tão válido, principalmente quando vc representa as minorias com marginais. Dito tudo isso, ainda acho que poderiam nos mostrar todas essas coisas sem precisar criar novos personagens mal trabalhados e mudar tanto o clima da série.

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