sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Explorando os Mythos mais obscuros - Nug e Yeb as obscenidades gêmeas


Dentre os Mythos de Cthulhu, essas duas obscuras entidades referidas coletivamente, constituem um mistério profundo envolvido por um enigma indevassável. A verdadeira origem e propósito de Nug e Yeb permanecem insondáveis e nenhum culto, estudioso ou feiticeiro pode se dar ao crédito de afirmar entender sua natureza profana.

Conhecidos como as Obscenidades Gêmeas, eles são citados brevemente no Necronomicon. Os horrores parecem compartilhar da mesma origem sendo tratados como irmãos gêmeos. Acredita-se que eles sejam as crias de Shub-Niggurath e de Yog-Sothoth, gerados nas entranhas do universo quando os dois titânicos Deuses Exteriores se encontraram. Seu nascimento teria se dado através de fissão assexuada. Em outras versões o sêmen de Yog-Sothoth teria fertilizado o útero fecundo de Shub-Niggurath, dando origem aos gêmeos que foram gestados no ventre da Cabra Negra. Eles estariam entre as mais poderosas crias da Cabra Negra, descendentes diretos de duas das mais portentosas forças cósmicas do universo. Outra suposição é que Nug e Yeb seriam a prole de Shub-Niggurath e Hastur, o que parece mais razoável considerando que essas duas entidades são frequentemente mencionadas em conluio. 

Além dessa procedência familiar ilustre, as aberrações, segundo alguns estudiosos, teriam produzido ninguém menos que Cthulhu e Tsathoggua. Essa teoria foi fortemente contestada e resultou em um ponto de atrito entre diferentes cultos. Algumas seitas consideram a mera noção uma heresia, enquanto outras defendem que muitas entidades dos Mythos possuem uma complexa relação de afinidade entre si - uma que não nos cabe ponderar a respeito.


Como acontece com a maioria dos detalhes sobre o Mythos, não há como corroborar essas suposições. Tudo pode não passar de um simples delírio da mente distorcida de Abdul Al-Hazred que escolheu vê-los como irmãos gêmeos. São poucos os tomos que versam a respeito da genealogia do Mythos, em especial os Pergaminhos de Pnom, tratado em sânscrito que oferece um vislumbre da descendência dos Deuses e suas progênie.

O que se sabe é que Nug e Yeb foram venerados em Irem, ainda quando a Cidade dos Mil Pilares era habitada pela raça não-humana que a construiu. Posteriormente, milênios depois da cidade ser abandonada, tribos nômades encontraram o local em que os habitantes originais cultuavam seus deuses. Naquelas câmaras de pedra ainda reverberavam as energias dos antigos e estas despertaram nos homens a vocação para seguir tais divindades. O lendário Santuário dos Ritos localizado nas ruínas de Irem guarda vários entalhes em suas paredes onde Nug e Yeb são representados como forças cósmicas opostas. Um desses entalhes ancestrais teria dado origem ao símbolo místico do yin-yang, representando o equilíbrio entre forças antagônicas. 

Dos desertos da Arábia Saudita onde Irem permanece sepultada sob as areias, os cultistas teriam carregado o saber de Nug e Yeb. Um dos lugares em que esse saber profano teria florescido foi o lendário continente de Mu localizado em algum lugar do Pacífico. Os dois, no entanto jamais foram tão populares quanto os outros horrores abertamente venerados pelo povo do continente. Em parte por ser caráter egoísta e indiferente, permaneceram louvadas por alguns poucos dementes. 


Quando Mu foi destruída, o conhecimento dos Deuses viajou novamente, encontrando caminho até as cavernas profundas de K´N-Yan. Nesse reino subterrâneo, em meio a um abominável povo imortal, os Gêmeos granjearam maior reconhecimento. O povo de K-N-Yan, conhecido pelo seu misticismo e devoção ao Mythos dedicou a Nub e Yeb vários rituais. A maioria dessas cerimônias orgiásticas eram especialmente execráveis, envolvendo sacrifícios, violação e tortura como elementos fundamentais. Durante tais cerimônias, um simulacro humano incorporava a essência das Obscenidades Gêmeas tornando-se um ser andrógeno. Ele então era levado a um templo na forma de arena onde o aguardava um grupo de homens e mulheres escolhidas para a Cerimônia de Acasalamento. O simulacro devorava os homens depois de extrair deles o esperma para ser alterado em seu próprio corpo e o usava para inseminar as mulheres. Estas eram impregnadas para gerar bebês ungidos por Nug e Yeb. As mulheres estavam fadadas a morrer quando dessem à luz aos horrores que cresciam em seu útero. Delas iria emergir uma nova geração de simulacros ainda que apenas o mais forte deles sobrevivesse.  

Para os sacerdotes de K'n-yan, os gêmeos são os criadores do Grande Jardim em que Yig viceja. O Deus Serpente, que nos milênios seguintes se converteria em uma das entidades principais do prolífico Panteão de K'n´yan acabou sendo associado intimamente aos deuses gêmeos. Em várias interpretações teológicas esse Jardim luxuriante, criado por Nug e Yeb, seria o equivalente a um Paraíso que permitiu o surgimento de todos os seres vivos, inclusive o homem. Ele representaria metaforicamente a Terra e sua luxuriante natureza. 

Contudo, esse Jardim está fadado a ser destruído quando o alinhamento cósmico sinalizar com o retorno dos Grandes Antigos. Na filosofia de K´n-yan, os dois serão os responsáveis por abrir os portais através do qual os Antigos se materializarão na Terra. Antes eles irão devastar a superfície do planeta com fogo e água, que consumirá toda vida no globo. Isso irá purificar a Terra e a deixará pronta para o retorno dos Antigos. 


As escrituras sagradas de K'n-yan atestam a existência de dois dispositivos localizados nos polos do planeta que serão usados para extinguir toda vida no globo. Esses misteriosos dispositivos conhecidos como Fornalha de Yeb e Tocha de Nug, supostamente estão enterrados sob o gelo dos polos aguardando o momento de serem acionados pelos gêmeos. Qual a sua forma, como surgiram e quem os construiu são questionamentos jamais explicadas embora alguns teóricos acreditem que os dispositivos sejam na verdade vulcões adormecidos.

Até onde se sabe, não existe nenhum culto puramente humano venerando Nug e Yeb nos últimos milênios. O caráter egoísta e abominável dos rituais talvez tenha contribuído para afastar qualquer culto devotado a esses horrores. Algumas doutrinas esotéricas disseminadas pelos Monges de Leng ensinam que as Obscenidades Gêmeas seriam respectivamente os nomes verdadeiros dos obscuros Grandes Antigos Lloigor e Zhar. Esses dois Deuses são cultuados exclusivamente pelos degenerados Tcho-Tcho que habitam os planaltos da Ásia Central.

A aparência blasfema de Nug e Yeb é bastante similar o que torna difícil saber quem é quem. De fato, há muita controvérsia a respeito da identidade desses horrores. 

A dupla surge como uma enorme massa purulenta que se contorce, reforma e se desfaz a cada instante. As criaturas são compostas simultaneamente por gases de vapor nocivo e matéria sólida alienígena. A substância gasosa os envolve num tipo de envelope miasmático de coloração verde amarelada extremamente densa como um nevoeiro em torvelinos. O gás é tóxico recendendo a um fedor profundo de cloro e enxofre que empesteia o ar e irrita tanto olhos quanto a garganta. Esse gás forma uma espécie de defesa que afugenta qualquer tentativa de aproximação.  


A massa sólida que dá forma aos horrores por sua vez assume a aparência de um aglomerado de carne cinzenta pustulenta e ulcerosa que flutua em meio ao nevoeiro daninho. Essa massa pode medir algo entre dois e dez metros de comprimento, variando de acordo com a intensidade com a qual os deuses escolhem se materializar. Olhos arredondados com íris róseas descoloridas e desprovidos de pálpebras surgem em toda massa brotando, observando e então se desmanchando. Da mesma maneira uma infinidade de bocas largas aparecem rasgando horizontalmente a superfície; elas estalam, mordem e cospem antes de desaparecer ao serem reabsorvidas. Uma infinidade de estruturas similares a esfíncteres também se abrem e fecham em todo canto. O conjunto inteiro goteja e escorre numa farta torrente de saliva, suor, bile, pus e sânie que cobre inteiramente as criaturas numa medonha combinação de excrementos.

Na parte inferior das criaturas destacam-se estruturas coalescentes que pendem soltas no ar, semelhantes a pernas descarnadas dotadas de garras e por vezes cascos. Estas escoiceiam à esmo, aparentemente sem uma utilidade prática visto que não são usadas para deslocamento. Abaixo delas uma floresta de órgãos sexuais, tanto masculinos quanto femininos se formam e reformam, intumescendo e molificando à todo momento.

Os horrores flutuam lentamente parecendo grandes balões de ar que se mantém a alguns centímetros do chão. Eles evitam tocar o solo ou qualquer objeto sólido ao seu redor, embora deixem um rastro pegajoso após sua passagem. Nug e Yeb parecem evitar qualquer tipo de interação com o ambiente que os cerca ou outros seres: não respondem a súplicas, ameaças ou ordens, de fato, não se comunicam e parecem totalmente alheios a presença de seres inferiores. É provável que sequer reconheçam humanos como algo digno de sua atenção. Se por algum motivo eles se sentirem incomodados os dois reagem com certo descaso, a não ser que sejam de alguma forma ameaçados ou feridos. Nesse caso eles formam longos braços fibrosos para agarrar e enormes bocas repletas de presas afiadas para morder e destroçar suas vítimas. Essa reação é totalmente passiva, como o movimento de uma pessoa para afugentar um mosquito.  

Poucas coisas podem ser mais aviltantes e grotescas do que as Obscenidades Gêmeas e a mera visão delas é capaz de despertar um terror primal incontrolável no observador. Felizmente Nug e Yeb raramente se manifestam fisicamente diante de plateias humanas.

4 comentários:

  1. esses monstros que não são mencionados por lovecraft, vem dos RPGs né?

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    1. Vem também do Circulo dos Mitos.

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    2. A maioria vem de histórias e contos escritos por ele e posteriormente pelo seu Círculo de amigos, conhecidos e entusiastas que trataram de expandir as criaturas e sua mitologia própria. O RPG também teve papel importante nessa expansão ao permitir a novos autores criar suas entidades, deuses e monstruosidades.

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  2. Muito boa matéria, adoro o blog acho ele fantástico

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