terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Ladrão de Cabelos - Um Invasor em busca de estranhos troféus


Localizada em Jackson County, Mississippi, encontra-se a cidade de Pascagoula. Embora hoje ela seja o centro do distrito de Jackson e conte com uma população de mais de 30 mil pessoas, houve um tempo em que ela não era mais do que uma tranquila vila de pescadores onde nada de importante acontecia. Apenas na Segunda Guerra, Pescagoula experimentou um certo desenvolvimento, quando foi convertida em estaleiro para a Marinha norte-americana desesperada por suprir a demanda por navios de guerra. 

A cidade então inchou, atraindo operários e técnicos especializados que passaram a trabalhar e morar lá. Em apenas dois anos, a população residente triplicou. Infelizmente isso trouxe uma quantidade considerável de pessoas indesejáveis para a sociedade local. A maioria eram simples ladrões, bêbados e bandidos raia-miúda, mas houve um outro criminoso que se instalou na cidade nesse período, um que deu origem a um dos mais bizarros casos de invasor misterioso de que se tem notícia.   

Tudo começou em 5 de junho de 1942, quando duas jovens chamadas Mary Briggs e Edna Hydel estavam dormindo em seus quartos no convento de Nossa Senhora das Vitórias em uma, até então, tranquila noite de verão. As duas acordaram assustadas por um ruído alto que atraiu sua atenção para a janela do aposento. Ali, iluminado pela luz da rua e emoldurado pela janela quebrada, estava a silhueta de um homem pequeno e magro. Ele olhou na direção das moças antes de agilmente escalar o parapeito e escapar para a escuridão da noite. Ao que tudo indica, o sujeito havia acidentalmente quebrado o vidro em sua tentativa de deixar o quarto. 

As moças assustadas gritaram e chamaram por ajuda que logo veio em seu socorro. Acreditavam se tratar de um ladrão, mas no quarto, após uma rápida revista, não deram pela falta de nada de valor. Uma outra moça então chamou a atenção para um fato curioso: cada uma das moças parecia ter perdido uma mecha de cabelo, como se tivesse sido cortado cuidadosamente com uma tesoura. Embora ninguém tenha se ferido, aquilo era estranho, já que alguém havia entrado no quarto de duas moças na calada da noite com o objetivo único de cortar seus cabelos.

Até essa altura, a polícia não se importou muito com o ocorrido, afinal, parecia, quando muito, algum tipo de brincadeira de gosto duvidoso. Entretanto, esse caso foi apenas o início de algo que se desenrolou numa série de estranhos incidentes cada vez mais bizarros.

Uma semana mais tarde, o invasor cortou uma tela e se infiltrou no quarto da casa da família Peattie para roubar um tufo de cabelo de uma menina de seis anos que dormia logo ao lado de seu irmão. Nesse caso ninguém ouviu nada e só perceberam que havia acontecido algo na manhã seguinte. Uma pegada deixada por um pé descalço e um punhado de terra na entrada da casa foram todas as pistas encontradas. O invasor não roubou nada - embora tenha passado pela sala onde havia um relógio caro sobre a mesa - e deixou a residência sem ferir ninguém.


Nessa mesma semana aconteceriam mais três casos similares, com o invasor cortando telas de proteção para entrar em casas no meio da madrugada para reclamar seu troféu de cabelo.

Para muitos, aquilo parecia uma brincadeira inofensiva, ainda que extremamente desagradável. Contudo as coisas iriam mudar e se tornar violentas, quando o Sr e Sra Heidelberg foram acordados no meio da noite e atacados brutalmente por um homem empunhando uma barra de ferro. O sujeito, descrito como um homem baixo com cerca de 30 anos, usou a barra para espancar o casal arrancando-lhes dentes e deixando ferimentos na cabeça. A Sra Heidelberg, atordoada pelo ataque, ainda ouviu o homem se aproximando e repetindo para si mesmo: "Vocês tinham que estar dormindo! Tinham que estar dormindo! Mas tiveram de acordar, tiveram de dificultar as coisas..." ele repetia nervosamente. Então retirou do bolso uma tesoura e cortou cuidadosamente os cabelos da mulher. Ela percebeu que o sujeito guardou os cabelos em um envelope, antes de sumir.

A repentina escalada de violência deixou a população de Pascagoula em pânico. Havia um maníaco na cidade, um que não se importava de espancar as pessoas para obter seu estranho prêmio. Esse estranho caso foi o suficiente para deixar as pessoas em alerta. Os jornais, por sua vez, faziam enorme estardalhaço com o caso, chamando o perpetrador pelo apelido de "O Barbeiro Fantasma de Pascagoula". As pessoas estavam temerosas e agora trancavam portas e janelas, coisa que jamais acontecia na pacífica cidade, sobretudo, nos meses de mais calor.

Três noites depois o Ladrão de Cabelos atacou novamente. Dessa vez, uma moça de 22 anos chamada Mae Anderson foi o a vítima. Ela acordou no meio da noite e percebeu que não estava sozinha no quarto. O homem percebendo que ela estava despertando correu na sua direção colocando a mão sobre sua boca. Ele sentou sobre ela, e a moça percebeu que o sujeito estava nu. Ele sussurrou em seu ouvido: "Fique calada ou vai ser pior. Eu não quero ferir você a não ser que precise". A moça perdeu a consciência com o susto e terror, quando acordou o invasor havia desaparecido assim como parte de seu cabelo cortado com tesoura. Na beirada da cama, o perpetrador havia deixado uma mancha de sêmen, mas não havia machucado a moça ou roubado qualquer coisa.

O medo era palpável em Pascagoula, sobretudo porque muitos acreditavam que o monstro havia violentado a moça e esta se encontrava traumatizada, incapaz de lembrar do horror. As pessoas ficavam acordadas, ouvindo qualquer ruído estranho que pudesse denunciar o ataque do ladrão de cabelos. Dois grupos de vigilância se formaram para proteger a vizinhança, os homens andavam armados com espingardas e tacos de baseball. Não encontraram nada!


Vários outros relatos chegaram nas semanas seguintes, sempre envolvendo casos em que um invasor havia entrado na calada da noite, cortando telas ou destrancando portas para chegar até suas vítimas. Agora ele não se contentava de cortar apenas uma mecha do cabelo, mas produzia enorme estrago cortando tufos inteiros para saciar sua compulsão bizarra. Aos poucos, um padrão começou a se formar: o ladrão de cabelos dava preferência a cabelos loiros, era mais ativo nas segundas e sextas e parecia se satisfazer sexualmente com suas ações. Em mais de uma ocasião, encontrou-se manchas deixadas no colchão ou mesas de cabeceira dos quartos. O maior temor era justamente que o criminoso já havia demonstrado propensão para a violência e não parecia disposto a ser capturado. Ainda que aparentemente não tivesse molestado nenhuma das mulheres, tal coisa parecia ser questão de tempo.

As autoridades estavam desesperadas para pegar o invasor e tomaram medidas para isso. Contrataram seis novos delegados e recrutaram voluntários para montar uma força tarefa que deveria patrulhar as ruas. Dois cães farejadores foram trazidos de Memphis para ajudar na caçada. Até mesmo o Exército, que havia se instalado na cidade ajudou na caçada, reformulando horários de trabalho e auxiliando as autoridades com membros da Polícia Militar destacados para a função. Apesar de todos esses esforços ninguém foi preso e a única pista foi um par de luvas ensanguentadas encontradas em um bosque próximo. Se havia alguma conexão entre as luvas e o Barbeiro Fantasma ninguém sabia ao certo. 

Pior, o Ladrão de Cabelos continuava atacando impunemente apesar da polícia patrulhar as ruas que agora ficavam iluminadas. O Ladrão de Cabelos conseguiu entrar na casa da Sra. Edith Newman de 32 anos, esposa de um militar enviado para lutar. Ela acordou com o homem misterioso em seu quarto e conseguiu descrever o que se passou em termos no mínimo perturbadores. Assim que percebeu que ela estava desperta, ele avançou contra ela e a agrediu com um soco no rosto que a fez perder os sentidos. Edith acordou posteriormente, descobrindo que estava amarrada na guarda da cama com pedaços rasgados de lençol usados para imobilizá-la pelos pulsos e tornozelo. Sua boca foi amordaçada e ela se sentiu obviamente aterrorizada temendo o que viria a seguir.

O invasor ainda estava ali com ela, nu, usando uma máscara na face. Ela viu então que ele se aproximou para afagar sua cabeça: "Você é bonita! Que cabelo bonito!" disse com um sussurro. Em seguida apanhou a tesoura e começou a cortar parte de seu farto cabelo loiro. O mais estranho veio a seguir, o maníaco levantou a máscara o bastante para destampar a boca onde enfiou mechas inteiras do cabelo recém cortado. O sujeito engolia parte do cabelo ajudado por goladas numa garrafa que estava sobre a cômoda. A sra. Newman assistiu aquilo transtornada virando o rosto de um lado para o outro, o que desalojou a mordaça que a impedia de falar. Ela então soltou um grito de desespero aterrorizante. O maníaco saltou sobre ela e socou seu rosto fazendo com que ela perdesse os sentidos. Alertados pelo grito, vizinhos chamaram a polícia, mas quando estes chegaram, encontraram a mulher em choque. Não havia nenhum sinal do Ladrão de Cabelos que escapou novamente.

A essa altura, as pessoas já começavam a se perguntar se não haveria algo sobrenatural nos ataques. Circulava o boato de que o Ladrão de Cabelos não era um homem e sim um fantasma capaz de vagar pela cidade sem ser visto ou detectado pelas autoridades. Uma coisa era certa, depois da perturbadora descrição dada pela mulher, a população estava disposta a acreditar em qualquer coisa. A Sra. Newman não chegou a sofrer ferimentos graves, mas o choque do incidente a deixou profundamente traumatizada. O que poderia significar esse comportamento bizarro? O que pretendia o Ladrão e porque tal coisa parecia ser tão importante para ele?

Após uma ausência, possivelmente motivada pela vigilância cada vez mais rigorosa, o Invasor atacou três semanas depois em uma área isolada nos arredores da cidade. Dessa vez, o maníaco usou de uma estratégia diferente para vitimar a Sra. Elisa Taylor, 24 anos, esposa de um soldador que trabalhava no estaleiro naval nos turnos da madrugada. Taylor contou que sentiu um forte cheiro de produto químico antes de perder os sentidos. Seu marido a encontrou desmaiada com parte do cabelo faltando. A polícia suspeitava que o invasor tivesse usado um agente químico, provavelmente um derivado de clorofórmio para agir sem o risco de ser descoberto. O ataque causou uma histeria jamais vista na cidade, com a população exigindo que o responsável por aquela onda de crimes fosse capturado. Um tumulto, causado por uma suspeita entre funcionários do estaleiro quanto a um dos seus colegas, quase terminou com um inocente sendo linchado. O acusado em questão sequer estava na cidade na época dos primeiros ataques e possuía álibis que o isentavam de qualquer responsabilidade.


Em meio a esse pânico crescente a polícia surpreendeu a todos anunciando que havia encontrado um suspeito que acreditavam ser o Ladrão de Cabelos. O homem era um químico, descendente de alemães chamado William Dolan que trabalhava com compostos químicos e tinha uma longa história de rancor com os Heidelberg. O elemento mais comprometedor, no entanto, foi um envelope de papel contendo cabelo humano achado em uma gaveta trancada em sua casa. O cabelo loiro supostamente pertencia a Sra. Heidelberg e havia sido guardado com enorme cuidado. Dolan se disse totalmente inocente, afirmava que não tinha nada a ver com os crimes cometidos e que havia sido incriminado por ser descendentes de alemães. Dizia que a polícia havia forjado a prova dos cabelos achados em sua casa.

Havia muita discussão a respeito da culpa de Dolan e muitos achavam que realmente ele servia como bode expiatório. Uma teoria é que ele foi incriminado para desviar a verdadeira identidade do Ladrão de Cabelos, que na concepção de alguns seria um oficial militar de carreira, uma pessoa de família importante ou ainda um cidadão acima de qualquer suspeita, o pastor e o prefeito estavam entre os suspeitos. Dolan era um simpatizante do nazismo, em 1938 havia participado de demonstrações favoráveis ao regime alemão pelo seu antissemitismo raivoso. Muitos o viam desde então como um traidor embora ele não tivesse realizado nenhum outro ato de apoio aos nazistas, ao menos desde a entrada da América na Guerra. Alguns especulavam se Dolan não teria sido incriminado pelo próprio Ladrão de Cabelos que tramou tudo para escapar da perseguição. 

Dolan não tinha álibi para todas as noites em que o Barbeiro atacou, vivia sozinho em uma cabana isolada e não tinha muitos amigos. Era um tipo solitário e nem um pouco simpático. Ainda assim, isso seria o bastante para apontá-lo como o criminoso que colocou a cidade de joelhos? Pesava contra a teoria o fato dele ser alto, com quase 1,85 e ter um QI muito baixo, de apenas 100.

Muitos apontavam o fato de que, desde a prisão nenhum outro ataque havia ocorrido. Para todos os efeitos, o sumiço do criminoso apontava que Dolan podia ser o culpado afinal de contas. Dois boatos circularam pela cidade nos dias posteriores à prisão: o primeiro de que um Tenente do Exército havia sido transferido de Pescagoula. Posteriormente muitos acreditavam que ele recebeu baixa por transtorno psicológico e que teria sido mandado para uma unidade militar de tratamento mental. Não s efalava muito à respeito porque as forças armadas cuidavam dos seus, mesmo os problemáticos. O outro boato mencionava o suicídio de um rapaz baixo e atarracado de 20 anos chamado Jerry Hinds. O rapaz havia se enforcado num banheiro público depois de ser dispensado do serviço militar. Ele foi encontrado nu com uma carta de despedida em que admitia sua culpa nos crimes, ainda que tal carta jamais tenha sido vista. Hinds, descrito como uma pessoa introvertida, estranha e com uma passagem pela polícia por exibição indecorosa, era um excelente suspeito.

Uma vez que os crimes cessaram logo em seguida, e a situação de guerra continuou atraindo muito mais atenção, a população começou a deixar de lado o bizarro caso. Aos poucos ele foi se tornando uma estranha lembrança, quase uma nota de rodapé dos tempos da Segunda Guerra.

Restam, no entanto muitas questões. A principal: Por que cabelos?


À Luz da Psiquiatria Forense, o criminoso parecia ser um clássico fetichista compulsivo, um indivíduo que se satisfaz com a obtenção de determinados objetos que, para ele, possuem um significado profundo. Os fetichistas geralmente revivem suas fantasias e precisam estabelecer uma conexão cada vez mais material com suas lembranças exuberantes. Não é raro que quando iniciam uma carreira de crime, sigam adiante com ela, para sustentar sua necessidade patológica. Criam coleções guardadas com enorme devoção e zelo. Estas funcionam como um componente físico para ativar suas lembranças. O risco, a sensação de domínio e principalmente a excitação é rememorada pela manipulação dos objetos - chamados de troféus. 

Cabelos são um tipo de troféu comum entre fetichistas. Eles simbolizam a vaidade feminina e são também elemento associado com a beleza. O fetiche poderia ser por afagar os cabelos da vítima, uma sugestão sexual clara ou ainda cortar os cabelos, um elemento claro de humilhação. Considerando que o criminoso demonstrava alívio sexual após cortar os cabelos, é provável que ele fosse normalmente impotente e que dificilmente conseguisse manter uma relação satisfatória.   

Geralmente o fetichista clássico não incorre em violência, contudo, não é impossível que a patologia mental possa evoluir nesse sentido, sobretudo se eles se sentirem ameaçados. Ao contrário de muitos outros criminosos eles não desejam ser apanhados pois tem vergonha de seus hábitos e do que as pessoas podem pensar deles. Os fetichistas podem recair em violência física, cometendo estupro ou até assassinato em certos casos. O Ladrão de Cabelos parecia estar progredindo nessa direção e seria questão de tempo até ele incorrer em algo mais grave do que mera invasão. É extremamente raro que eles parem de cometer atos criminosos, exceto se capturados ou totalmente impedidos de fazê-lo. A compulsão do fetichista é muito forte, quase um vício.

Isso não explica, entretanto, a medonha descrição dos cabelos sendo consumidos.

Nesse caso, a explicação nos leva a assumir que o criminoso tinha uma compulsão tão exacerbada que o forçava não apenas a coletar os troféus, mas incorporá-los inteiramente a si mesmo. Ele não guardava os prêmios conquistados, mas os absorvia por inteiro acreditando que aquilo era o mais próximo que ele poderia chegar da intimidade almejada. 

A verdadeira identidade do Ladrão de Cabelos ainda hoje é motivo de debate. William Dolan chegou a ser condenado, mas eventualmente foi colocado em liberdade no ano de 1951. Os autos de seu processo atestam que ele foi condenado por associação criminosa e receptação de mercadorias roubadas, não pelas invasões em Pascagoula como muitos supunham. Ele negou até sua morte que fosse o responsável pelas invasões e que foi incriminado para que o verdadeiro perpetrador escapasse ileso. Ele morreu em 1960 de câncer no pulmão.     

Seja lá o que tenha acontecido entre junho e setembro de 1942 em Pascogula, Mississippi, é provável que jamais venhamos a compreender. O caso permanece hoje como uma nota de rodapé na história em meio a um momento de grande comoção.

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