quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A Mão de Y'Golonac - A turbulenta estória de um artefato diabólico

Inspirado pelo artigo de Brian M. Sammons (publicado originalmente na revista The Unspeakable Oath 14-15 - pela Pagan Publishing)

No Universo do Mythos há uma triste verdade: Não existem tesouros ou recompensas materiais para os que empreendem buscas nesses tortuosos caminhos.

Os raros artefatos obtidos nestas jornadas e que tem ligação com entidades malignas, seus cultos apocalípticos ou passado profano, na maioria das vezes, são tão poderosos e perigosos que a mera proximidade deles condenaria o mais astuto dos investigadores à insanidade, morte e esquecimento. Mesmo assim, muitos tentam obter esses itens, acreditando serem capazes de controlar e se beneficiar com seus poderes.

Aqui está um enigmático Artefato Arcano, conhecido entre ocultistas e estudiosos do Mythos, que possui uma história igualmente rica em loucura e mistério.

Histórico

Quem esculpiu a estatueta conhecida como "A Mão de Y'Golonac", quando e com que propósito são perguntas que provavelmente jamais serão respondidas. Essas são questões que o tempo tratou de apagar sem deixar pistas. 

A primeira citação a existência desse artefato data do século XV, quando ela é mencionada em um documento escrito por um conselheiro da corte do Czar Ivan IV (conhecido como o Terrível) no ano de 1541. O documento, uma espécie de registro de tesouros pertencentes ao espólio de um nobre, se encontra no Museu do Krenlim, e diz:

"... dentre os tesouros encontra-se um artefato de pedra esculpida na forma da mão do obeso lorde da danação, cuja perversidade transborda e é capaz de preencher os homens que cedem aos seus caprichos".

Alguns pesquisadores acreditam, entretanto, que o artefato seja bem mais antigo. Fontes não confirmadas mencionam que ele já seria usado em cerimônias do infame "Culto das Mãos Famintas" que existiu na Pérsia até o século XI. Se este é o mesmo item, ninguém foi até o momento capaz de oferecer uma explicação sobre como ele teria chegado a Rússia Imperial. 

Sabe-se que posteriormente ele teria sido vendido e passando de mão em mão, transitou pela Europa Oriental, até ser transportado, possivelmente como contrabando para o Norte da Itália. A Mão teria sido comprada por um sacerdote, ludibriado a acreditar que se tratava de uma relíquia sagrada cristã. Incapaz de destruir o item, o sacerdote resolveu escondê-lo em um nicho secreto na sacristia da Catedral de Verona. Lá ele permaneceu por décadas, até ser reencontrado por outro vigário no início do século XVIII. Segundo boatos, esse vigário "manteve o artefato escondido em seu aposento privado fazendo uso de suas propriedades demoníacas". Sabe-se que em meados de 1710, um sacerdote de Verona chamado Ubertino Franco foi acusado de heresia, depravação e práticas demoníacas. O religioso foi excomungado e depois de ser considerado um demente perigoso, conduzido a um calabouço onde morreu anos mais tarde. 

Em 1780, a "Mão" ressurgiu na França. Ele era uma das principais atrações na infame Maison Noir (Casa Negra) um bordel que funcionava em Paris e atraia uma seleta clientela de nobres sibaritas e burgueses abastados. A Mão de Y'Golonac era mantida em um aposento especial chamado "Le Secret Boudouir" onde repousava em almofadas de cetim. Ela só podia ser contemplada por fregueses especiais que pagavam uma soma considerável para desfrutar dos prazeres oferecidos pela casa na distinta presença do item. Alguns acreditava que ele era capaz de realçar as sensações, causar alucinações e invocar uma aura de total perversidade.

Por ocasião da Revolução de 1789, a Maison Noir foi destruída e incendiada por uma turba furiosa que sabia ser aquele um lugar frequentado por cortesãos. A maior parte dos objetos de valor foram saqueados e é provável que o artefato tenha sido carregado em meio ao caos que se seguiu.

Depois disso, a "Mão" desapareceu por algum tempo. Ressurgindo no século XIX nas mãos de ocultistas conceituados que ainda tentavam compreender seus poderes e tirar proveito das suas faculdades. Dizem que o próprio Aleister Crowley teve a posse da mão por um curto tempo e conduziu experimentos com magia tântrica na sua presença. O ocultista inglês acreditava ser capaz de concentrar enorme energia mística usando a Mão como catalizador nos seus experimentos. Infelizmente (ou não!) Crowley não teve tempo de realizar todas as pesquisas que planejava, já que uma de suas inúmeras amantes teria em algum momento fugido da "Grande Besta" carregando consigo o tesouro místico.

Em 1960 a Mão reapareceu na coleção de objetos de arte pertencentes ao "papa" do LSD, o psicólogo americano Timothy Leary que defendia o uso da droga sintética para abrir a mente humana ao seu pleno potencial sensorial. Em 1967, a estatueta foi roubada por membros de uma Seita que profetizava o fim dos tempos nas mãos de deuses e entidades inumanas. A seita foi acusada posteriormente de envolvimento em assassinatos durante rituais conduzidos no deserto da Califórnia. Seus membros foram presos e alguns se encontram ainda cumprindo penas de prisão perpétua.

O paradeiro atual da "Mão de Y'Golonac" é desconhecido.

Aparência

A Mão de Y'golonac é construída a partir de um único pedaço de pedra cinza-esverdeada, cuja composição exata é desconhecida. Sabe-se que se trata de um tipo de rocha maciça: resistente, lisa e polida. Suave ao toque, muitos afirmam que ela é fria e mais leve do que se poderia supor à primeira vista.

A estatueta foi esculpida para parecer com o braço e mão de um homem adulto do cotovelo para baixo. Onde a articulação do cotovelo deveria estar, surge abruptamente a base da estatuetaA mão é inclinada para trás e os dedos afastados, com as pontas ligeiramente curvadas para dentro em forma de garra. É possível que o artista tenha construído a estatueta para servir como suporte de algum objeto não identificado que ficava posicionado na mão.

Há duas características distintivas que identificam a mão. Em primeiro lugar, há uma boca na palma aberta. Os lábios grossos retesados para trás revelando dentes perversamente afiados que aparecem mais com os de um predador selvagem do que com os de um homem.

A segunda característica está na base da estatueta. Trata-se de um retângulo feito do mesmo material com uma polegada de altura e 30 centímetros de comprimento. A porção esculpida parece "brotar" dessa base sólida e ao que tudo indica toda a estatueta deriva originalmente dessa única peça. Na base duas fileiras de estranhos símbolos gravados em toda superfície. Os glifos são pequenos e totalizam 35 caracteres que não se repetem em momento algum. Não se sabe o que eles representam ou mesmo o que significam, embora alguns criptógrafos tenham comentado que alguns símbolos são similares aos que se encontram no Manuscrito Voynich.

A Mão de Y'Golonac é uma peça que projeta uma constante aura de inquietação em todos que a vêem pela primeira vez. É impossível não sentir alguma reação na presença do objeto seja repulsa, fascinação, medo ou desconforto. Sensitivos acreditam que o objeto irradia algum tipo de energia mística capaz de ativar receptores sensoriais na mente humana e fazer com que o indivíduo exposto a ele possa ver além dos meros sentidos. A verdade é muito mais terrível...    

Poderes

A Mão é um artefato de poder considerável, criado por um Alto-Sacerdote do "Culto das Mãos Famintas" que existiu na Pérsia e que atualmente está extinto.

Seu poder principal é permitir o estabelecimento de um elo de comunicação com Y'Golonac, o Impuro. O Grande Antigo habita uma prisão inexpugnável atrás de um enorme muro de tijolos em algum recesso dimensional que priva seus sentidos e nubla sua capacidade de interagir com o nosso mundo. Normalmente é impossível para a entidade estabelecer contato com humanos, exceto quando ele consegue possuir um corpo com sua essência blasfema. Entretanto, um indivíduo exposto repetidas vezes ao artefato começa a desenvolver uma sensibilidade sobrenatural que o torna suscetível à receber projeções mentais vindas diretamente de Y'Golonac. 

Em um primeiro momento, essas emanações psíquicas aumentam as sensações do indivíduo ampliando seus sentidos e a intensidade de tudo que ele experimenta. Todos os prazeres são ampliados a um nível indescritível. Mas essa é a armadilha urdida por de Y'Golonac, criada para causar uma dependência da qual é impossível escapar. As projeções por enfim acabam pervertendo a mente do indivíduo, transformando-o gradualmente em um sátiro degenerado cujo comportamento lascivo se torna irrefreável. A medida que pensamentos cada vez mais pérfidos corrompem cada fibra de sua humanidade, o indivíduo perde totalmente o controle e deixa de ser uma pessoa para se tornar uma fera cheia de desejos e vontades. 

Quanto tempo o artefato demora para agir na mente de um indivíduo depende de quanta exposição a pessoa tem a ele e de sua própria fibra moral. Algumas pessoas, ao longo dos tempos voluntariamente se entregaram a corrupção procurando, na verdade ansiando, por essa "liberdade total".

mão também possui outro propósito, tão sinistro quanto o primeiro e descrito exclusivamente no tomo "Unausprachlichen Kulten". Diz-se que o detentor desse artefato pode, empregando o método adequado, conjurar uma terrível maldição sobre um inimigo de sua escolha. Este horrível ataque místico não pode ser detectado e afeta o alvo escolhido onde quer que ele esteja. 


Segundo o livro, para invocar esse efeito nefasto, o nome da vítima pretendida deve ser escrito com sangue em um papiro. O místico deve, em seguida, oferecer um sacrifício em nome de Y'Golonac. Esse sacrifício envolve a realização de um ato moralmente repugnante; algo que seja tão ofensivo que a mera menção causa profundo asco e consternação. A conotação dessa ato é deixada em aberto, mas por algum motivo, ele tende a ser, na maioria das vezes, de natureza sexual. 

Quando a ação é perpetrada, o autor deve carregar consigo algum pequeno item que representa o ato em si e envolvê-lo com o papiro preparado previamente. Este troféu é então depositado na mão de pedra de Y'Golonac, que se fecha em um punho caso o sacrifício seja aceitável. A estatueta arcana então desencadeia um poder terrível, enigmaticamente referido no tomo como "O Toque de Y'Golonac".

O infeliz cujo nome foi escrito começa a ter estranhos sonhos. Absurdos e enevoados num primeiro momento, os sonhos tornam-se cada vez mais claros até que começam a afetar sua vida. Alucinações insalubres e pensamentos depravados afetam o alvo noite e dia. Logo ele passa a ser acometido de um desejo incontrolável de cometer o mesmo ato praticado pelo místico que ativou a magia. Eventualmente, a força de vontade do indivíduo irá falhar diante do impulso implacável. Uma vez que o desejo é saciado, a mão se abre novamente. O item colocado em sua palma é consumido, e ela estará pronto para ser usado uma vez mais.

Na maioria das vezes, a vítima do uso repetido dessa maldição acaba por cometer suicídio para dar um fim ao seu sofrimento. Em outros casos, o detentor da mão pode parar o ataque ou ser impedido de continua-lo. De qualquer maneira, aqueles afetados pelo Toque de Y'Golonac acabam tendo a vida conspurcada para sempre, uma vez que pensamentos doentios e desejos obscenos, continuam a atormentá-lo para o resto de sua existência. 


TOQUE DE Y'GOLONAC

O feitiço requer que o realizador tenha em seu poder a Mão de Y'Golonac. Para executar a magia, o usuário deve cometer um ato doloroso e malévolo contra outra pessoa e obter um pequeno item relacionado ao evento, talvez um botão de camisa de uma vítima de assassinato, por exemplo. (o custo de Sanidade para a realização do ato é ajustado pelo Guardião.) O realizador escreve o nome do alvo com sangue em um pedaço de papiro que é enrolado no item que simboliza a oferenda. Os itens são depositados na palma da mão de Y'Golonac. O realizador gasta 10 Pontos de Magia, e perde 1D8 Pontos de Sanidade. 

O alvo da magia experimenta um período de sonhos estranhos e impulsos, culminando em uma compulsão poderosa para cometer o mesmo crime que o realizador perpetrou no momento que ativou a magia. O alvo só pode resistir a essa compulsão com um teste na Tabela de Resistência de POW vs POW contra o artefato.

A primeira vez que isso ocorre, o POW do artefato é 15; cada uso bem sucedido contra o mesmo alvo aumenta o POW da mão em um ponto, mas apenas contra o alvo. No momento do Teste de Resistência o alvo perde 1D6 Pontos de sanidade, além de um montante igual ao que o realizador tiver perdido na realização do ato vil escolhido. A vítima escolhida não precisa ser a mesma pessoa que sofreu o atentado da parte do realizador , mas é geralmente alguém do mesmo sexo, idade, raça e classe social. Se a vítima vence a disputa de POW, ele sofre os efeitos dos pesadelos, mas consegue suportar a compulsão.

domingo, 5 de agosto de 2012

Investigando os Mythos mais obscuros - Y´Golonac, o impuro


No vasto universo do Mythos, a maioria das entidades se mostram totalmente inumanas. São criaturas cuja aparência, forma e conteúdo escapam de uma definição, elas são por si só, coisas bizarras que desafiam a interpretação. Impronunciáveis! Inumanas! Inacreditáveis!

Por vezes, entretanto, entidades do Mythos, podem assumir uma forma humana. Existem Grandes Antigos e Deuses Exteriores que possuem avatares mais ou menos humanos. Nyarlathotep, o Caos Rastejante, é conhecido por ter inúmeras faces, ou avatares muitos dos quais humanos. Hastur possui o humanóide Rei Amarelo, entidade coberta de trapos. Mesmo Yog-Sothoth, por vezes assume a forma de Tawul at'Umr uma espécie de avatar de forma humana. Mas não é uma característica única desses deuses assumir a aparência humana fisicamente. Existem outros horrores que buscam no homem inspiração quando optam por se fazer carne e sangue.

Y'Golonac é uma dessas entidades. Embora a forma grotesca de Y'Golonac não possa ser definida como humana, é óbvio que a humanidade serviu de molde para sua aparência, por mais revoltante que seja ela.

O Grande Antigo (Great Old One) se manifesta como um corpulento gigante acéfalo, morbidamente obeso; uma verdadeira montanha de carne flácida e macilenta. O mero vislumbre é suficiente para causar um misto de repulsa e horror. No escuro, sua palidez amarelada assume um brilho tênue quase fosforescente. A criatura não possui cabeça, o tronco termina em uma pavorosa dobra de carne na altura de onde deveria estar o pescoço. Uma das características mais marcantes do monstro é o fato dele possuir um par de bocas localizadas nas palmas das mãos. Essas bocas parecem, à primeira vista, horrendos cortes transversais, mas quando se abrem é possível ver que cada uma é dotada de fileiras de dentes afiados e de uma longa língua negra. Essas bocas vermelhas e úmidas são a principal arma do monstro. Aqueles que são atacados por ele acabam recebendo mordidas vorazes que arrancam pedaços inteiros de carne e provocam ferimentos dantescos que jamais curam por inteiro. A língua que se estica a até meio metro de distância também é capaz de causar graves ferimentos perfurantes.

Y´Golonac se move de forma vacilante, equilibrando seu enorme peso sob pés pequenos e pernas curtas que não parecem adequadas para uma criatura com seu porte avantajado. Apesar disso, ele é rápido e quando necessário empreende perseguição derrubando qualquer obstáculo em seu caminho.

Não se sabe exatamente se a criatura é capaz de ver, uma vez que ele não possui olhos, mas é óbvio que ela é capaz de se guiar e perceber seus arredores. Supõe-se que Y'Golonac possua algum tipo de telepatia, radar ou sentido aprimorado que lhe permite interagir com  que está ao seu redor.

Uma vez que Y'Golonac precisa possuir fisicamente um ser humano quando se manifesta, alguns detalhes de sua anatomia podem variar. Quando a possessão é realizada, a vítima imediatamente sofre uma grotesca transformação, ganhando centenas de quilos de tecido adiposo. Roupas se rasgam, os trajes são reduzidos a trapos e andrajos a medida que suas dimensões aumentam de forma exponencial. A cabeça da vítima encolhe e seca sendo por fim assimilada pelas dobras de pele flácida do pescoço. A palma das mãos se rasgam a medida que em cada uma surge uma longa língua sibilante. Quando Y'Golonac toma um corpo humano feminino os genitais podem formar uma terceira boca, uma espécie de vagina dentada.

Tudo na forma de Y'Gononac sugere que ele seja uma entidade ligada a excessos físicos e decadência. Ele era visto por algumas culturas como uma espécie de Deus dos Exageros dado a rompantes coléricos e dotado de uma fúria irrefreável. Y'Golonac é retratado como uma entidade possuidora de vasta gula e um libidinoso apetite sexual. Uma vez manifestado fisicamente a entidade exige que todas as suas vontades sejam satisfeitas o que pode incluir atos de perversão, canibalismo, tortura e sedição indescritíveis. Nenhum ato é considerado sórdido demais, não há limites quando Y'Golonac deseja satisfazer suas vontades bizarras.

Nos festivais da Grécia antiga, Y'Golonac era invocado no corpo de um homem e adorado por sacerdotisas que se sujeitavam voluntariamente às suas vontades. Para esse culto degenerado, tomar parte nessa orgia era uma honra. Existem rumores que o culto tenha dado origem às celebrações em homenagem ao Deus Baco, embora não se possa saber ao certo.

Em Roma, Y´Golonac também foi reverenciado por seguidores dispostos a testar seus limites. Dizem que conselheiros bastante próximos dos Imperadores Calígula e Nero faziam parte de sectos que invocavam Y'Golonac para seus ritos. Boatos sugerem que o culto também esteve presente na Babilônia e que teria sido proeminente nas lendárias cidades de Sodoma e Gomorra, ambas citadas na Bíblia como lugares pecaminosos. Na Pérsia, onde o secto também ganhou influência antes da fé islâmica se instalar, seus membros se identificavam como os "Filhos das Mãos que se Alimentam". Após esse período na antiguidade,   os seguidores foram combatidos e sua influência diminuiu consideravelmente.

A seita experimentou um tímido ressurgimento na França do século XVII. Dizem que o legendário Marquês de Sade participou de encontros patrocinados por esse grupo e que muitas das suas estórias surgiram a partir do que ele viu e experimentou nessas ocasiões. A Revolução que pôs fim a Monarquia também determinou o fim do Culto. Os autos de um processo movido pela Assembléia Revolucionária contra um grupo de nobres parisienses em 1791, incluía a acusação de depravação e sedição libidinosa. Segundo testemunhas havia ainda consórcio com um ou mais demônios, embora alusões a crenças religiosas fossem suprimidas pelo tribunal. Trechos desse inquérito que sobreviveram, mencionavam que o grupo realizava orgias em que um ser medonhamente obeso era invocado por intermédio de um tomo blasfemo. Todos os acusados foram devidamente guilhotinados, contudo pouco se sabe sobre o destino do livro que pertenceu a eles.

Para muitos estudiosos esse misterioso livro seria um dos volumes do mítico "Revelações de Glaaki", um tomo com conhecimento esotérico versando sobre obscuras entidades que integram o aterrador Mythos de Cthulhu. Muitos estudiosos acreditam que o Revelações é formado por um conjunto de onze volumes, mas alguns creem na existência de um décimo-segundo tomo que versa especificamente sobre a pérfida existência de Y'Golonac. Esse volume incrivelmente raro, a ponto de sua existência ser contestada, contém não apenas informações sobre essa Entidade, mas trechos que quando recitados - ou segundo alguns meramente lidos - fazem com que Y'Golonac se manifeste fisicamente. Se essa informação for verdadeira, o mero ato de folhear as páginas do tomo pode se tornar algo perigoso.

Sendo um dos Grandes Antigos mais obscuros, não é estranho que pouco se saiba à respeito da origem de Y'Golonac. De fato, a maior parte das informações disponíveis são na melhor das hipóteses questionáveis.

Uma monografia descoberta em um biblioteca pública no Vale de Severn em 1968 contém informações sobre Y'Golonac e se apresenta como um dos únicos trabalhos sobre o tema. O autor anônimo, explica na introdução que por muitos anos foi membro de um secto que reverenciava essa entidade e que viveu para se arrepender. Como forma de purgar seus "inúmeros pecados" ele escreveu a monografia para que, em suas próprias palavras: "alguém pudesse um dia compreender o que é essa abominação e pôr fim ao seu culto hediondo".

O manuscrito com aproximadamente 100 páginas dispõe que Y'Golonac habita o centro de uma prisão dimensional cercada por uma colossal muralha de tijolos. Nela, o Grande Antigo permanece paralisado como uma estátua titânica, rodeado por criaturas sem olhos que se arrastam sobre ele. A única maneira de Y'Golonac ser libertado, ainda que temporariamente, desse estado de torpor é através da leitura de trechos de suas parábolas contidas em alguns livros, em especial o décimo-segundo volume do Revelações de Glaaki.

A leitura desses trechos faz com que Y'Golonac desperte tomando o corpo do indivíduo que leu as passagens. Uma vez manifestado, ele busca saciar suas vontades e apetites, submetendo qualquer um que esteja a sua volta, seguidor ou não. Essa possessão pode se manter por várias horas, quando a vítima aceita voluntariamente ou alguns poucos minutos quando ela resiste. Ironicamente, aqueles que são possuídos e não reagem a esmagadora presença psíquica de Y'Golonac acabam por reassumir a forma humana quando o Deus se dá por satisfeito. Essas pessoas simplesmente despertam com uma memória fragmentada do que aconteceu. Aqueles que tentam reagir a possessão e expulsar a presença de seus corpos, recebem como punição um choque mental do qual jamais se recuperam. Ao que tudo indica, Y'Golonac não reage bem a quem tenta conter seus ímpetos.

Apesar de ter sido reverenciado no passado, recentemente o Culto de Y'Golonac chegou perto da completa extinção. Os poucos indivíduos que se sujeitaram a participar de rituais envolvendo o Grande Antigo preferem fazê-lo solitariamente. Estudiosos excêntricos, artistas decadentes e ocultistas desesperados são as típicas almas atraídas por esse Deus de vileza. Indivíduos que se submetem frequentemente a corrupção de Y'Golonac apresentam um comportamento obsessivo no que diz respeito a ponografia, sordidez e degradação moral. Não raramente, esse comportamento acaba levando ao crime e violência. Pelo menos três assassinos em série norte-americanos, que demonstravam comportamento sádico, tinham relação direta com Y'Golonac e costumavam ser voluntariamente possuídos por ele. Há boatos que um exemplar do Volume XII do Revelações de Glaaki foi encontrado no porão usado como câmara de torturas pelo assassino John Wayne Gacy. Um volume semelhante supostamente fazia parte da biblioteca do belga Mark Dutroux. É possível que a Unidade de Crimes Comportamentais do FBI mantenha um rígido controle sobre esse livro.

Nos últimos tempos, Y'Golonac demonstrou pouco ou nenhum interesse em expandir seu culto para poder se manifestar mais frequentemente. Pesquisadores do Mythos, supõem que esse comportamento atesta que o dia em que as estrelas estarão alinhadas, está próximo e que não demorará muito até Y'Golonac e os demais Antigos, caminharem livremente pela Terra.

sábado, 4 de agosto de 2012

Conto Tentacular - "Impressão Fria" por Ransey Campbell

Por Ransey Campbell
Traduzido por Arthur Ferreira Jr, extraído do Blog "Domínio Publicano"


IMPRESSÃO FRIA
…mesmo os servos de Cthulhu não ousam mencionar Y'golonac, pois virá o tempo em que Y'golonac libertar-se-á da solidão das eras para mais uma vez caminhar entre a humanidade... 
—REVELAÇÕES DE GLAAKI, VOLUME 12

Sam Strutt lambeu seus dedos e os limpou no seu lenço; as pontas de seus dedos estavam cinzentas e sujas de neve da barra da plataforma de ônibus. Então puxou seu livro da sacola de politeno ao seu lado, retirou o tíquete de ônibus do meio das páginas, uniu-o à capa para proteger esta de seus dedos, e começou a ler. Como muitas vezes acontecia, o condutor assumia que o tíquete autorizava a jornada atual de Strutt; e este não o corrigia. Lá fora, a neve rodopiava, descendo pelas ruas laterais e escorrendo por entre as rodas dos carros estacionados.

O barro enlameou suas botas quando saiu da Brichester Central e, escondendo a sacola sob seu casaco para melhor protegê-la, arrastou-se até a banca de livros, quase escorregando nos flocos de neve que se assentavam sobre a rua. As vidraças da banca não estavam bem fechados; a neve havia se infiltrado e caído sobre as brochuras lustrosas. “Olha só isso!” reclamou Strutt com um jovem que estava perto dele e ansiosamente esquadrinhava a multidão, colocando seu pescoço por dentro da gola, como se fosse uma tartaruga. “Não é nojento? Essas pessoas não se importam mesmo!” O jovem, ainda observando os rostos úmidos, concordou de maneira abstraída. Strutt foi ao outro lado da banca, onde o assistente distribuía jornais. “Ei!” chamou Strutt. O assistente, separando troco para um cliente, fez gesto de pedir que esperasse. Sobre as brochuras, pelo vidro esfumaçado, Strutt percebeu o jovem correr e abraçar uma garota, e então gentilmente enxugar o rosto dela com um lenço. Strutt notou o jornal segurado pelo homem que aguardava o troco. Lia-se ASSASSINATO BRUTAL EM IGREJA EM RUÍNAS; na noite anterior um corpo fora encontrado dentro das paredes sem teto de uma igreja de Lower Brichester, quando a neve foi retirada de uma imagem de mármore, revelou macabras mutilações sobre o cadáver, mutilações ovais que pareciam – O homem tomou do jornal e seu troco e saiu para a estação. O assistente voltou-se para Strutt, sorridente: “Desculpe fazê-lo esperar.” “Sim,” disse Strutt. “Você percebe que esses livros estão pegando neve? As pessoas podem querer comprá-los, sabe.” “Você quer comprar um?” respondeu o assistente. Strutt apertou os lábios e voltou-se para o vento que trazia a neve. Por trás dele ouviu o retinir de vidraça contra vidraça.

A banca BONS LIVROS PRA LER NA ESTRADA servia de abrigo a quem passasse; ele fechou a vidraça que batia e começou a checar os livros. Nas prateleiras, os títulos atuais mostravam a capa frontal enquanto outros, a contracapa. Garotas riam próximo a cartões de natal engraçados; um homem de barba por fazer foi pego por uma rajada de vento, cheia de flocos de neve incômodos, e parou, olhando ao redor, incerto. Strutt apertou a língua com os dentes; não deveriam permitir que vagabundos ficassem nas livrarias, sujando os livros. Atento com a visão periférica, para ver se o homem dobraria as capas dos livros, ou quebraria as encadernações, Strutt moveu-se entre as prateleiras, mas não conseguiu achar o que procurava. Porém, conversando com o caixa, estava um assistente que havia conversado com ele, elogiando Noites Violentas no Brooklin quando Strutt comprara esse volume, semana passada, e pacientemente ouvira uma lista das leituras recentes do

professor, embora houvesse parecido que ele não reconhecera os títulos. Strutt aproximou-se e inquiriu:



“Olá – tem outros livros empolgantes para esta semana?”



O homem o fitou, confuso. “Outros...?”



“Você sabe, livros como este?” Strutt levantou a sacola de politeno para mostrar a capa cinzenta de O Mestre do Chicote, de Hector Q., da editora Ultimate Press.



“Ah, não. Acho que não temos.” Tamborilou os lábios. “Exceto – Jean Genet?”


“Quem? Ah, você quer dizer, Jennet. Não, não, obrigado, ele é chato feito água parada.”



“Bem, desculpe, senhor, mas acho que não posso ajudá-lo, então.”



“Oh.” Strutt sentiu-se rejeitado. O homem parecia não tê-lo reconhecido, ou talvez estivesse fingindo. Strutt havia conhecido esse tipo de gente antes, sempre reprovando intimamente seu gênero de leitura. Ele buscou pelas prateleiras novamente, mas nenhuma capa chamou sua atenção. Na porta, desabotoou furtivamente a camisa, para proteger seu livro mais ainda, quando sentiu uma mão descer sobre seu braço. Cheia de gordura, a mão deslizou até tocar sua sacola. Strutt a expulsou com raiva e confrontou o vagabundo.



“Espera um pouco!” sibilou o homem. “Você está procurando mais livros como esse? Eu sei onde pode encontrar alguns.”



Esta abordagem ofendeu o senso orgulhoso de leitura de Strutt, que não tinha razão para ser suprimido. Ele puxou a sacola dos dedos que dela se aproximavam. “Então, gosta desse tipo de literatura também, não é?”


“Ah, sim, tenho vários.”
Strutt fisgou a isca para ver se valia a pena. “Tipo quais?”


“Oh, Adão e Evandro, Me Leve Onde Quiser, todas as aventuras do Harrison, você sabe, são várias.”


Strutt admitiu, resmungando por dentro, que a oferta do sujeito parecia genuína. O assistente os observava; Strutt devolveu o olhar. “Muito bem,” disse. “Onde é esse lugar de que você está falando?”


O outro tomou de seu braço e puxou-o com disposição para a neve que soprava. Erguendo sobre os rostos suas golas, os pedestres deslizavam por entre os carros, enquanto esperavam pela remoção de um ônibus que havia derrapado; os flocos de neve esmagavam-se nos cantos dos para-brisas e sobre os limpadores. O homem arrastou Strutt por entre as buzinas que soavam e gritavam, e então por entre duas vitrines de lojas, onde moças fitavam presunçosas enquanto vestiam manequins sem cabeça, e então por um beco. Strutt reconheceu a área como um lugar onde havia procurado em vão por livrarias escondidas; desapontantes alcovas de revistas masculinas, o ocasional hálito quente e pungente de cozinhas, carros cheios de coberturas de neve, bares ruidosos oferecendo calor contra o clima frio. O guia de Strutt esgueirou-se pela porta de um bar público, para espanar o casaco; a camada branca rachou e caiu. Strutt juntou-se ao homem e ajustou o livro em sua sacola, aninhada sob sua camisa. Bateu as botas no chão, para tirar a crosta de neve, parando enquanto o outro seguia; não queria ficar conectado àquele homem, mesmo numa ação tão trivial. Observou com desagrado o companheiro, seu nariz inchado que agora fungava, a barba rala que se mexia nas bochechas que inflavam quando o homem soprava as próprias mãos trêmulas. Strutt tinha horror de tocar qualquer pessoa que não fosse meticulosamente limpa. Além da porta, os flocos de neve já começavam a cobrir suas pegadas, e o homem disse: “Sempre sinto tanta sede, ao caminhar rápido assim.”


“Era esse seu jogo, não era?” Mas a livraria o esperava. Strutt andou pelo bar e pediu duas doses a uma enorme garçonete, de busto arrepiado de frio, que ia e voltava com os copos e girava as torneiras com gosto. Velhos fumavam cachimbo em vagas alcovas, um rádio blaterava marchinhas, os homens segurando canecos alvejavam com jovial imprecisão tanto um jogo de dardos quanto as escarradeiras. Strutt dobrou seu casaco e ficou próximo ao homem; o outro permaneceu como estava e ficou olhando para a própria cerveja. 
Determinado a não falar, Strutt prestou atenção aos espelhos turvos que refletiam grupos gesticulantes ao redor de mesas lotadas, fora de sua linha de visão direta. Mas gradualmente ficou surpreso com a taciturnidade de seu companheiro de mesa; era certo que essas pessoas (assim pensava ele) eram notavelmente loquazes, na verdade, virtualmente impossíveis de calar a boca? Aquilo era intolerável; sentar à toa num boteco de esquina abafado, quando podia estar caminhando, ou lendo – algo devia ser feito. Engoliu a própria cerveja e bateu com o vidro no protetor de mesa. O outro o imitou. E então, visivelmente embaraçado, começou a bebericar, parecendo estranhamente nervoso. Ficou depois óbvio que o sujeito estava brincando com a espuma, e então pôs o copo na mesa e começou a fitá-lo. “Parece que é hora de irmos andando,” disse Strutt.


O homem olhou para cima; o medo arregalou seus olhos. “Jesus Cristo, eu estou todo molhado,” resmungou. “Levo você lá assim que a neve baixar.”


“Era esse seu jogo, não era mesmo?” Gritou Strutt. Nos espelhos, alguns olhos o fitaram. 


“Você não vai tirar esse drinque de mim, a troco de nada! Não vim até aqui pra...!”


O homem andou para lá e para cá, encurralado.


“Tá bom, tá bom, mas pode ser que eu não encontre o lugar nesse tempo feio.”


Strutt achou que essa última frase havia sido idiota demais para merecer resposta. Levantou, e abotoando seu casaco, atravessou as arcadas nevadas, olhando para trás para ter certeza de que estava sendo seguido.


As últimas vitrines de lojas, e por trás delas pirâmides de latas, marcadas com rótulos mal escritos, eram substituídas por linhas de janelas furtivamente acortinadas, postas em panoramas cansativos de tijolo vermelho; por trás das vidraças, decorações de Natal penduradas como coroas de flores fúnebres. Atravessando a rua, enquadrada pela janela de um quarto, uma mulher de meia-idade puxava as cortinas e escondia o rapaz adolescente em seu ombro. Strutt não perguntou exatamente aonde estavam indo; achava que podia controlar a figura à frente sem falar com ele, e de fato não tinha interesse de falar com o homem quando ele parava, trêmulo, sem dúvida devido ao frio, e voltava a andar, apressado, enquanto Strutt, cinco centímetros mais alto que o metro e setenta do outro, e de melhor físico, continuava a segui-lo. Por um instante, quando um pedaço de neve caindo o empurrou para a rua, os flocos superexpondo o ambiente e cortando suas bochechas como navalhas temporárias de gelo, Strutt ansiou por conversar, falar das noites que passara acordado em seu quarto, ouvindo a filha da senhoria ser espancada pelo pai, no quarto um andar acima, tentando pegar os sons abafados que vinham do ranger de camas, talvez do casal abaixo. Mas esse momento passou, levado pela neve; o fim da rua havia se aberto, separado por uma demarcação em duas pistas acarpetadas de neve grossa, uma virando para esconder-se entre as casas, e a outra mais curta, pegada à rotatória. E agora Strutt sabia onde estava. 


De um ônibus que pegara antes, naquela semana, havia notado aquela placa de MANTENHA À ESQUERDA jogada inútil sobre a demarcação, sua face voltada para baixo.



Cruzaram a rotatória, embrenharam-se pelos restos decompostos de relheiras, cheios de poças enganosamente cobertas, acumuladas por trás do rastro de escavadeira de uma obra de restauração do bairro, e adiantaram através do remoinho branco até um trecho de terreno baldio, onde uma fogueira solitária esgotava a força da neve. O guia de Strutt esgueirava-se para dentro de um beco e o professor o seguiu, tencionando manter-se próximo do outro conforme este batia a neve granulada das tampas das latas de lixo e esquivava-se de portões de quintais onde cães arranhavam e grunhiam. O homem virou à esquerda, e então à direita, por entre os paredes próximas e labirínticas, entre casas cujos cantos cruéis das vidraças quebradas e portas oscilantes e tortas, nem mesmo a neve, mais gentil para com prédios do que para com seus ocupantes, pode suavizar. Uma última virada e o homem deslizou para uma calçada sob os restos de uma loja, sua fachada quase vazia, salvo por garrafas de vinho sob um pôster com os dizeres, HEIN 57 VARIET. Uma massa de neve caiu dos frangalhos de toldo, apenas para ser engolida pelo bueiro abaixo. O homem ficou ali tremendo, mas quando Strutt o confrontou, apontou temerosamente para a calçada oposta: “Ali está, já chegamos.”

Rastros de lama da neve derretida molharam as calças de Strutt ao atravessar a rua, enquanto este checava mentalmente que, enquanto o homem tentara desorientá-lo, ele havia deduzido qual avenida principal estava a cerca de quinhentos metros dali, e então leu a inscrição por sobre a loja: LIVROS AMERICANOS: COMPRA E VENDA. Tocou uma cerca que protegia uma janela opaca abaixo do nível da rua, deixando uma ferrugem úmida irritá-lo sob as unhas, e observou a vitrine na janela diante de si: História do Flagelo – um livro que achara monótono – dividindo espaço com romances de ficção científica de Aldiss, Rubb e Harrison, que escondiam-se envergonhados por entre capas lascivas; Le Sadisme au Cinéma; o Voyeur de Robbe-Grillet, parecendo estar perdido; Almoço Nu – nada que valesse sua jornada até ali, refletiu Strutt. “Tudo bem, é hora de entrar,” impeliu o homem para dentro, e com uma olhadela por cima do tijolo vermelho erodido na janela do primeiro andar, notando as costas do espelho de penteadeira encaixado para substituir uma vidraça, Strutt também entrou. O outro pausou mais uma vez e por um segundo desagradável, os dedos do rapaz roçaram o casaco úmido do sujeito. “Vamos lá, onde estão os livros?” exigiu, abrindo alas para entrar na loja.



A amarelada luz solar fazia-se ainda mais sombria pela influência da vitrine e das revistas de pin-up penduradas pelo lado de dentro da janela almofadada; a poeira flutuava preguiçosamente pelos raios de luz dispersos. Strutt parou para ler as capas das brochuras enfiadas em caixas de papelão em uma mesa, mas as caixas continham apenas faroestes, fantasias e erotismo americano, vendidos por metade do preço. Fazendo careta diante dos livros que tinham as pontas esticadas como pétalas em flor, Strutt passou pelos encadernados e espiou atrás do balcão, levemente preocupado; quando havia fechado a porta ao passar pelo sino sem lingueta, havia imaginado ouvir um grito em algum lugar próximo, rapidamente contido. Sem dúvida, seria o tipo de coisa que se ouve o tempo todo por aqui, pensou, e voltou-se para o outro: “Bem, eu não vi ainda a razão para ter vindo aqui. 
Ninguém trabalha nesse lugar?”

De olhos arregalados, o homem fitava para além dos ombros de Strutt; este olhou para trás e viu o painel de vidro fosco de uma porta, um canto do vidro completado com papelão, negro contra uma diáfana luz amarelada, que filtrava-se através do painel. Presumiu ser o escritório do livreiro – será que ele havia ouvido o comentário de Strutt? O professor confrontou a porta, pronto para enfrentar alguma impertinência. Então o homem passou por ele, buscando distraidamente algo por trás do balcão, abrindo descuidadamente uma cristaleira cheia de volumes de sobrecapas de papel marrom, e finalmente extraindo um pacote de papel cinzento de seu esconderijo em um canto da cristaleira. Jogou o pacote para Strutt, resmungando, a pele sob seus olhos pinicando em tiques: “Olha um aí, olha um aí,” e observou Strutt rasgar o pacote.



A Vida Secreta de Wackford Squeers – “Ah, esse é bom,” aprovou Strutt, distraindo-se momentaneamente e metendo a mão no bolso em busca da carteira; mas dedos gordurentos agarraram seu pulso. “Pague na vez seguinte,” implorou o homem. Strutt hesitou; será que dava pra ficar com o livro sem pagar? Naquele exato momento, uma sombra tremulou por sobre o vidro fosco: um homem sem cabeça, arrastando algo pesado. Decapitado pelo vidro fosco e por sua posição agachada, racionalizou Strutt, percebendo então que o livreiro deveria ter contato com a Ultimate Press; e ele não deveria prejudicar este contato, roubando um livro. Empurrou os dedos frenéticos do sujeito para o lado e contou duas libras; mas o outro recuou, esticando os dedos num visível temor, e escolheu-se contra a porta do escritório, de cujo painel a silhueta de antes havia desaparecido, antes de quase aninhar-se contra o peito de Strutt. O professor o empurrou e deixou as notas no espaço deixado na cristaleira, onde estava antes o Wackford Squeers, e então virou-se para o sujeito: “Não vai embalar o livro? Aliás, não, pensando melhor, eu mesmo faço isso.”



O cilindro no balcão soltou de maneira estrondosa uma faixa de papel marrom; Strutt tirou um pedaço descolorido. Ao empacotar o livro, afastando o pé da embalagem anterior, algo caiu no chão. O outro havia recuado até a porta da frente, quando fez um botão solto de seu punho puxou a borda de uma caixa cheia de livros; ficou pasmo diante dos livros espalhados no chão, mãos e boca bem abertas, um pé sobre um romance aberto como se fosse um mariposa pisada, e ao seu redor flutuavam os ciscos de poeira por entre os raios de luz salpicados de neve solta. Em alguma parte, ouviu-se o clique de uma tranca. Strutt respirou fundo, fechou seu pacote com fita adesiva e, rodeando o homem com ar de desagrado, abriu a porta. O frio atacou suas pernas. Começou a subir os degraus e o outro disparou em seguida. O pé do homem estava na soleira da porta, quando passadas fortes aproximaram-se, sentidas no tremer das tábuas. O homem deu meia-volta, e abaixo de Strutt, a porta bateu. Strutt esperou; mas então ocorreu-lhe que poderia se apressar e livrar-se do guia. Alcançou a porta e uma brisa purulenta de neve alfinetou-lhe as bochechas, limpando a poeira velha da loja. Virou o rosto e, chutando a casca de neve que formara-se sobre a manchete de um jornal molhado, dirigiu-se para avenida principal, que ele sabia ser próxima.


Strutt acordou tremendo. O sinal em neon do lado de fora da janela de seu apartamento, algo clichê, mas teimoso como uma dor de dente, definia-se extravagante contra a noite a cada cinco segundos, e baseado nisso e nas rajadas de vento frio, Strutt soube que era manhãzinha. Fechou novamente os olhos, mas embora suas pálpebras estivessem quentes e pesadas, sua mente não se anuviou. Além dos limites de sua memória, espreitava o sonho que o havia acordado; ele movimentava-se temeroso. Por alguma razão, havia pensado numa passagem de sua leitura noturna anterior: “Quando Adão chegou à porta, sentiu a mão de Evandro agarrar a sua, torcendo seu braço para trás, forçando-o a ajoelhar-se no chão...” 
Seus olhos abriram-se e buscaram a estante, em busca de alívio; sim, o livro existia, seguro dentro de sua capa, cuidadosamente alinhado a seus companheiros. Lembrou-se de retornar para casa uma noite, para encontrar Senhorita Whippe, Governanta à Moda Antiga, enfiado dentro de Prefeitos e Bichas, escangalhado dentro de Prefeitos e Bichas; a senhoria explicou que ela deve ter substituído erroneamente após a limpeza, mas Strutt sabia que ela os havia danificado de propósito. Comprou uma estante com tranca, e quando a senhoria pediu a chave, ele respondeu: “Obrigado, acho que posso lidar com os livros eu mesmo.” Você não consegue fazer amizades hoje em dia. Ele fechou os olhos novamente; o quarto e a estante, criados em cinco segundos pelo neon e destruídos em igual regularidade, encheram-no de seu vazio, lembrando-o que ainda restavam semanas até o começo do novo período letivo, quando enfrentaria a primeira aula da manhã e adicionaria o “Vocês já me conhecem” à usual apresentação no estilo “Vocês jogam limpo comigo e eu jogo limpo com vocês,” aviso que algum garoto certamente testaria, e Strutt teria de lidar com ele; ele viu a extensão de cadeiras de ginásio espalhadas, lá onde ele bateria um tênis de ginástica com força revigorante – Strutt relaxou; embalado pelo eco totalizante de pés como pilões sobre o chão de madeira do ginásio, o balançar febril das barras de parede quando os rapazes subiam como enxame na direção do teto, e olhando fixamente para cima, acabou adormecendo.

Ofegando, obrigou-se a fazer os exercícios matutinos, e então bebeu rapidamente o suco de frutas que era sempre sua primeira escolha na bandeja trazido pela filha da senhoria. Maldosamente bateu com o copo ao devolvê-lo à bandeja; o vidro trincou (ele iria dizer que era uma acidente; ele pagava aluguel suficiente para cobrir esse prejuízo, e podia muito bem ter um pouco de satisfação com esse dinheiro). “Imagino que você teve um Natal estupendo,” falou a garota, inspecionando o quarto. Ele pensou em agarrá-la pela cintura e satisfazer aquela feminilidade arrogante – mas ela já havia ido embora, as pregas de sua saia dançando, deixando o estômago de Strutt embrulhado e quente de antecipação.



Depois, arrastou-se até o supermercado. De vários jardins vinha o arranhar de pás limpando a neve, ruído de fazer rangir os dentes; esses sons diminuíam e eram respondidos pelo chiados da neve engolindo as botas que andavam. Quando emergiu do supermercado, abraçado a um monte de latas, uma bola de neve roçou seu rosto para esmagar-se contra a janela, formando uma barba translúcida, que descia pela vidraça como o muco dos narizes daqueles rapazes que mais sentiam a cólera de Strutt, pois ele tinha o propósito de extrair aquela feiura, aquela hediondez, na base dos castigos físicos. Strutt olhou ao redor, buscando quem havia arremessado a bola de neve – um menino de sete anos, que subia em seu triciclo para fugir com rapidez; Strutt moveu-se involuntariamente, como se fosse puxar o garoto para dar-lhe uma surra. Mas a rua não estava deserta; logo a mãe da criança, de bobes saindo por debaixo de um lenço, batia na mão do filho: “Eu te avisei, não faça isso – Desculpe,” dirigiu-se ela a Strutt. “Está bem,” resmungou, e marchou de volta a seu apartamento. Seu coração batia incontrolavelmente. Desejava de maneira febril que pudesse conversar com alguém, como havia conversado com o livreiro dos limites de Goatswood, que compartilhava de seus instintos; quando o homem morrera, no começo daquele ano, Strutt sentira-se abandonado num mundo hostil e de conspiração tácita. Talvez o dono da nova loja pudesse provar-se similarmente simpático? Strutt teve esperanças de que o homem que o havia conduzido até ali não fosse um atendente, mas se ele era, certamente poderia ser alguém de quem se podia livrar – um livreiro com contatos com a Ultimate Press certamente deveria ser alguém similar ao próprio Strutt, que se oporia tanto quanto ele à presença daquele sujeito, enquanto estivessem conversando com franqueza. Além desses devaneios, Strutt precisava de livros para ler naqueles feriados natalinos, e o Squeers não duraria o suficiente; a loja com certeza estaria fechada na Véspera de Natal. Tendo definido seus propósitos, largou as latas na mesa da cozinha e desceu correndo pelas escadas.



Strutt saltou do ônibus em silêncio; a barulhada do motor rapidamente foi sumindo e abafou-se por entre as casas cobertas de neve. A neve empilhada aguardava a vinda de algum som. Ele chapinhou por entre os rastros de carros até a calçada, a camada de neve sobre esta marcada por incontáveis pegadas sobrepostas. A rua serpenteava; tão logo a avenida principal estivesse fora de vista, a rua lateral revelava seu verdadeiro caráter. A neve acumulada sobre as entradas das casas tornava-se gasta; protusões enferrujadas surgiam em meio à brancura. Uma ou duas janelas mostravam árvores de Natal, suas carumas envelhecidas caindo, seus galhos encurvados com as luzes voluptuosamente faiscantes. Contudo Strutt não tinha olhos para esses detalhes, mas mantinha seus olhos na calçada, buscando evitar as manchas circuladas por pegadas de cães. Seu olhar acabou encontrando o de uma velha senhora que fitava um ponto abaixo de sua janela, que talvez fosse o limite de seu mundo exterior. Sentindo um calafrio momentâneo, apressou o passo, seguido por uma mulher que, dado o conteúdo de seu carrinho de bebê, havia parido uma pilha de jornais, e parou diante da loja.



Embora o céu alaranjado mal podia iluminar o interior da loja, nenhum brilho elétrico era visível por entre as revistas, e a placa quebrada pendurada por trás do entulho poderia talvez ter escrito a palavra FECHADO. Lentamente, Strutt desceu pelos degraus. O carrinho de bebê rangeu próximo, os últimos flocos de neve espalhando-se por sobre os jornais em seu interior. 
Strutt fitou sua curiosa proprietária, voltou-se e quase caiu numa súbita escuridão. A porta havia se abrido e uma figura bloqueava o umbral.


“Não estão fechados, imagino?” falou Strutt com a língua enrolada.

“Talvez não. Em que posso ajudá-lo?”

“Estive aqui ontem. Livro da Ultimate Press,” respondeu Strutt ao rosto na mesma altura do seu, desconfortavelmente próximo.



“Claro que esteve, sim, eu lembro.” O outro oscilava sem cessar, como se fosse um atleta fazendo aquecimento, e sua voz variava constantemente de baixo para falsete, o que perturbava Strutt. “Bem, entre antes que a neve te pegue,” disse o outro, e bateu a porta por trás deles, evocando uma nota do fantasma de lingueta do sino.


O livreiro – este deveria ser ele, presumiu Strutt – assomou por detrás dele, uma cabeça mais alto; descendo por entre a meia-luz, entre os vagos e vindicativos cantos das mesas, Strutt sentiu uma obscura compulsão de assegurar-se de alguma forma, e comentou: “Espero que tenha encontrado o dinheiro do livro. Seu homem parecia não querer que eu pagasse. 
Algumas pessoas teriam levado isso ao pé da letra.”


“Ele não está hoje conosco.” O livreiro ligou a luz dentro de seu escritório. Quando seu rosto de dobras e linhas gordas recebeu luz, pareceu crescer; os olhos afundaram-se em estrelas flácidas de rugas; as bochechas e a testa rebentaram com tantas linhas de expressão; a cabeça flutuava como um balão inflado pela metade, por sobre o paletó de lã. Por baixo do bulbo luminoso descoberto, as paredes se apertavam, cercando uma mesa bastante desgastada, da qual fluíam cópias cheias de impressões digitais da revista O Livreiro, jogadas de lado por uma máquina datilográfica negra, cheia de poeira, do lado da qual descansavam um toco de cera de lacre e uma caixa de fósforos aberta. Duas cadeiras opostas em cada lado da mesa, e por trás desta uma porta fechada. Strutt sentou-se diante da mesa, espalhando pó pelo chão. O livreiro caminhou de um lado para o outro ao redor de Strutt e subitamente, como se atingido pela própria pergunta, disparou: “Diga-me, por que você lê esses livros?”


Aquela era uma pergunta muitas vezes dirigida a Strutt por aquele professor de inglês na sala de docentes, até que parasse de ler seus romances durante os intervalos. O súbito retorno da pergunta o pegou desprevenido, e conseguiu apenas soltar seu velho contra-argumento: 
“Como assim, por quê? E por que não?


“Eu não estava te criticando,” apressou-se o outro, movendo-se inquieto atrás da mesa. 


“Estou genuinamente interessado. Eu iria perguntar se você não deseja que o que lê aconteça, de certa forma?”


“Bem, talvez.” Strutt ficou desconfiado com o rumo que a conversa estava tomando, e desejou poder impor seus próprios termos; mas suas palavras pareciam cair naquele silêncio coberto de neve que escondia-se por dentro das paredes empoeiradas, para desaparecerem de imediato, sem deixar rastros. 


“Quero dizer: quando você lê um livro, não o faz acontecer diante de si, dentro de sua mente? Em particular se tentar conscientemente visualizar, mas isto não é o essencial. Você pode afastar-se do livro, é claro. Conheci um livreiro que trabalhava com esta teoria; você não tem muito tempo para ser você mesmo nesse tipo de área, mas quando ele podia, trabalhava na questão, embora nunca a tenha formulado apropriadamente – Espere só um segundo, vou mostrar te uma coisa.”


Pulou da mesa para dentro da loja. Strutt imaginou o que estava além da porta por trás da mesa. Semiergueu-se, espreitando para trás, mas viu o livreiro já retornando pelas sombras esvoaçantes, segurando um volume extraído em meio a Lovecrafts e Derleths.
“Este aqui tem a ver com seus livros da Ultimate Press, sério,” disse o outro, batendo a porta do escritório ao entrar. “Estarão publicando um livro de Johannes Henricus Pott no ano que vem, assim ouvi falar, e que também trata de sabedorias proibidas, como este aqui; você sem dúvida se encantaria em saber que eles acham que podem deixar algo do Pott no latim original. Este aqui deve interessá-lo, contudo; é a única cópia. Provavelmente, você não conhece as Revelações de Glaaki; é uma espécie de Bíblia escrita sob orientação sobrenatural. Existiram apenas onze volumes – mas este é o duodécimo, escrito por um homem no alto de Mercy Hill, guiado por sonhos.” Sua voz ficou menos firme, conforme continuava a falar. “Não sei como foi que foi que ganhou as ruas; suponho que a família do homem possa tê-lo encontrado em algum sótão, após sua morte, e com ele ganho um punhado de cobres, quem sabe? Meu livreiro – bem, ele conhecia as Revelações, e percebeu que este exemplar era sem preço; mas não queria que o fornecedor percebesse que tinha uma descoberta em mãos e talvez a levasse à biblioteca ou à Universidade, de modo que o tomou como parte de um lote maior e disse que iria usá-lo para rascunho. 
Quando leu – Bem, havia uma passagem aqui, que parecia ter sido feita especialmente para testar sua teoria. Olhe só.”


O livreiro mais uma vez deu a volta por Strutt e colocou o livro em seu colo, seus braços descansando nos ombros do professor. Strutt comprimiu os lábios e deu uma olhadela no rosto do outro; mas alguma força diminuiu, recusando-se a apoiar sua desaprovação, e ele abriu o livro. Era um velho livro-razão, de encadernação craqueante, suas páginas amareladas cobertas por linhas irregulares de finas linhas manuscritas. Por todo o monólogo introdutório, Strutt ficara atônito; agora que o livro estava diante de si, lembrou vagamente daqueles pacotes de folhas datilografadas duplicadas, que eram passadas adiante nos banheiros de sua adolescência, pois “Revelações” sugeria algo proibido. Assim intrigado, leu de maneira aleatória. Ali em Baixo Brichester, o bulbo exposto definia cada pedaço de tinta descascada da porta à sua frente, e mãos moviam-se em seus ombros, mas em alguma parte lá no fundo, sentia-se perseguido através da escuridão, por pegadas vastas e sutis; e quando virou-se para olhar o que era aquilo, uma figura inchada e brilhante já estava sobre ele – Mas o que era tudo aquilo? Uma mão apertava seu ombro esquerdo e a mão direita virava as páginas; e finalmente um dedo sublinhou a seguinte sentença:


Além dum abismo na noite subterrânea, uma passagem leva a uma muralha de tijolos massivos, e além da muralha está Y'golonac, esperando para ser servido pelas esfarrapadas figuras sem olhos da escuridão. Há muito ele tem dormido além da muralha, e aqueles que rastejam por sobre os tijolos passam por sobre seu corpo, sem saber que ali está Y'golonac; mas quando seu nome é pronunciado ou lido, ele atende para ser venerado ou para alimentar-se e assumir a forma e alma daqueles de que se alimenta. Pois aqueles que leem sobre o mal e buscam a forma desse mal dentro de suas mentes convocam o mal, e assim poderá Y'golonac retornar para caminhar entre a humanidade e esperar aquele tempo quando a terra será limpa e Cthulhu ascenderá de sua tumba entre as algas, Glaaki arrebentará o alçapão de cristal, a prole de Eihort nascerá para a luz do dia, Shub-Niggurath forçará e esmagará a lente lunar, Byatis destruirá sua prisão, Daoloth rasgará a ilusão para expor a realidade que está oculta por trás dos véus.



As mãos em seus ombros mudavam constantemente a pressão, afrouxando e apertando. A voz flutuava: “O que achou disso?”

Strutt pensou que era um lixo, mas de alguma forma, sua coragem escorregou e se desfez; replicou de maneira bem mais suave: “Bem, não é – não é o tipo de coisa que se vê à venda.”

“Achou o trecho interessante?” A voz se aprofundava; agora era um baixo arrebatador. O outro rodou para trás da mesa; parecia maior – sua cabeça batia no bulbo, lançando sombras que espreitavam pelos cantos, e recuavam, e mais uma vez espreitavam. “Está interessado?” Sua expressão era intensa, se é que aquilo podia-se chamar de expressão; pois a luz movia as trevas nos buracos de seu rosto, como se a estrutura óssea estivesse visivelmente derretendo.



Lá no fundo da mente ofuscada de Strutt, surgiu uma suspeita; ele não ouvira falar de seu querido amigo morto, o livreiro de Goatswood, que um culto de magia negra existia em Brichester, um círculo de jovens dominado por um certo Franklin, ou Franklyn? Será que estava sendo entrevistado para admissão no culto? “Eu não diria isso,” argumentou.



“Ouça. Houve um livreiro que leu este trecho, e eu contei a ele que você podia ser o alto sacerdote de Y'golonac. Você convocará os vultos da noite para venerá-lo, em certas épocas do ano; prostrar-se-á diante dele e em troca, sobreviverá quando a terra for limpa para os Grandes Antigos; irá além dos limiar para aquilo que se separa da luz...”



Antes que pudesse terminar, Strutt interrompeu sem pensar: “Vocês estavam falando de mim?” Acabara de perceber que estava sozinho com um louco, num recinto fechado.



“Não, não, quis dizer o livreiro. Mas a oferta agora é para você.”


“Bem, desculpe, mas tenho outras coisas para fazer.” Strutt preparou-se para levantar.


“Ele também recusou.” O timbre da voz feria os ouvidos de Strutt. “Eu tive de matá-lo.”
Strutt congelou. Como lidar com alguém insano? Pacificando-o. “Espere aí, espere aí, espere só um segundo...”


“Que benefício lhe traria a dúvida? Tenho mais provas à sua disposição do que você seria capaz de suportar. Você será meu alto sacerdote, ou jamais deixará esta sala.”


Pela primeira vez em sua vida, enquanto as sombras entre as paredes opressivas moviam-se mais lentas, como se antecipantes, Strutt batalhava para conter uma emoção; submergiu sua mescla de medo e cólera com calma. “Se não se importar, tenho de encontrar uma pessoa.”


“Não quando seu destino está aqui entre essas paredes.” A voz engrossara. “Você sabe que eu matei o livreiro – estava em seus jornais. Ele fugiu para a igreja em ruínas, mas eu o segurei com minhas mãos... E então deixei que o livro na loja para ser lido, mas o único que o pegou, por engano, foi aquele homem que o trouxe aqui... Um tolo! Enlouqueceu e entrou em posição fetal no canto da sala, quando viu as bocas! Eu o mantive porque pensei que ele poderia trazer alguns de seus amigos que chafurdam nos tabus físicos e perdem as verdadeiras experiências, aqueles lugares proibidos ao espírito. Mas ele acabou por contatá-lo e trazê-lo logo quando eu estava me alimentando. Aparece comida aqui, de vez em quando; jovens rapazes que vêm buscando livros, em segredo; eles têm de ter certeza de que ninguém saiba o que estão lendo! – e podem ser persuadidos a ler as Revelações. Imbecil! Ele não pode mais trair-me com seu desleixo – mas eu sabia que você iria retornar. E agora será meu.”


Os dentes de Strutt rangiam silenciosamente, até que ele pensou que suas mandíbulas iriam estourar; levantou-se, assentindo a cabeça, e passou o volume das Revelações para a figura; estava pronto para, assim que a mão se fechasse sobre o encadernado, sair correndo pela porta do escritório.


“Você não pode sair, sabe disso; está trancado.” O livreiro balançou os pés, mas não fez movimento na direção de Strutt; as sombras agora estavam impiedosamente claras, e a poeira estava suspensa no silêncio. “Você não está sentindo medo – parece ser calculista demais. É possível que ainda não acredite? Tudo bem...” colocou  suas mãos na maçaneta da porta por trás da mesa: “...você quer ver o que restou de minha comida?”


Uma porta abriu-se na mente de Strutt, e ele recuou horrorizado do que poderia estar além dela. “Não! Não!” gritou. A fúria seguiu-se a sua involuntária demonstração de medo; desejou ter uma bengala, com que subjugar a figura que o intimidava. Julgando por seu rosto, pensou, as massas proeminentes no paletó de lã devem ser de gordura; se eles brigassem, Strutt venceria. “Vamos deixar isto claro,” gritou, “já brincamos demais aqui! Ou você me deixa sair ou eu...” mas encontrou-se procurando uma arma qualquer. Subitamente, pensou no livro que estava ainda em sua mão. Roubou a caixa de fósforos da mesa, por trás da qual a figura observava, ominosamente impassiva. Strutt riscou um fósforo, e então segurou as capas por entre o dedo indicador e o polegar, balançando as páginas. “Eu vou queimar o livro!” ameaçou.


A figura ficou tensa, e Strutt ficou frio de medo de seu movimento seguinte. Ele tocou a chama no papel, e as páginas viraram-se, consumindo-se tão rapidamente que Strutt teve a impressão de fogo brilhante e sombras crescendo instavelmente massivas nas paredes, antes do livro tornar-se cinzas no chão. Por um momento, encararam um ao outro, imóveis. 


Depois das chamas, uma escuridão correu até os olhos de Strutt. Através dela, ele enxergou o paletó rasgar-se com estrépito, diante da expansão da figura.


Strutt jogou-se contra a porta do escritório, que resistiu. Girou seu punho, e observou num estranho deslocamento atemporal o punho estilhaçar o vidro fosco; o ato pareceu isolá-lo, como se suspendendo toda ação além de si mesmo. Através das facas de vidro, na qual brilhavam gotas de sangue, viu os flocos de neve dançarem na luz âmbar, infinitamente distante; distante demais para que pudesse chamar por ajuda. Assaltou-o um horror de ser seguro por trás. Do fundo do escritório, veio um som; Strutt virou-se, mas ao fazê-lo fechou os olhos, aterrorizado demais para encarar a fonte daquele som – mas quando os abriu, viu a razão pela qual a sombra no vidro fosco, ontem, parecia sem cabeça, e então gritou. Quando a mesa foi jogada para o lado, pela gigantesca figura nua, e cuja pele ainda prendiam-se trapos do paletó de lã, o último pensamento de Strutt fora uma inacreditável convicção de aquilo só estava acontecendo porque ele lera as Revelações; em algum lugar, alguém havia desejado que aquilo acontecesse com ele. Não era justo, ele não fizera nada para merecer aquilo – mas antes que pudesse gritar em protesto, seu fôlego foi cortado, quando as mãos desceram sobre seu rosto e nas palmas, abriram-se bocas úmidas e vermelhas.




Cold Print originalmente publicado em Tales of the Cthulhu Mythos, 1969.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Mesa Tentacular: Cenário "O Orgulho de Bahktapur" no Dungeon Carioca


Domingo passado tive o prazer de mestrar Call of Cthulhu na terceira edição do Dungeon Carioca, evento que tem atraído um público cada vez maior e mais variado para o Shopping Ion na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

O encontro, como sempre muito animado, contou com cerca de 70 pessoas, entre mestres e jogadores. Tivemos algo em torno de sete mesas (dessa vez não contei) mas o que posso dizer com certeza é que todos os que estiveram presentes se divertiram bastante com aventuras em diversas ambientações e gêneros.

O encontro contou ainda com a presença de organizadores de futuros eventos, sorteio de brindes e descontos especiais para quem quisesse adquirir os títulos da Retropunk. Uma ótima oportunidade para conhecer novos jogadores, formar grupos e passar uma tarde agradável rolando dados.

O Dungeon Carioca tem tudo para continuar crescendo e se tornar uma ótima opção para jogadores sem grupo ou mestres que querem conhecer outros sistemas.

Nessa terceira edição, Call of Cthulhu estava representado não apenas por uma, mas por duas mesas -- tenho certeza que o Grande C, agitou seus tentáculos lá em R'Lyeh, e que com isso adiantamos seu despertar em pelo menos uma semana.

Sobre minha mesa:

O ORGULHO DE BAHKTAPUR

"Não há luz onde vocês estão britânicos. 
Não existe esperança onde vocês se encontram. 
Apenas caos, esquecimento e sofrimento eterno". 

Vou escrever sobre o cenário que mestrei, e esperar que o outro Keeper, por sinal minha esposa Laura, depois escreva um resumo sobre a mesa que ela conduziu ali pertinho.

A estória que escolhi foi "O Orgulho de Bahktapur" (The Pride of Bahktapur), uma adaptação bem perversa da aventura "Along the Indus" que faz parte do livro "Fearfull Passages".

Alguém pode se perguntar porque mudei o nome da aventura. Bem é simples, quando terminei de reescrever o cenário ele ficou tão dramaticamente diferente do original que decidi mudar também o título. Para falar a verdade, mantive apenas a ideia central e uma pequena parte da trama. Até mesmo a época da aventura foi alterada para se encaixar no período Vitoriano, no qual eu estava pilhado para mestrar desde que recebi meu "Cthulhu Gaslight", livro que expande as possibilidades do jogo e abre espaço para cenários que se passam no final do século XIX.

"O Orgulho de Bahktapur" é uma aventura na exótica India e se passa em 1888, época em que o subcontinente estava sob controle do Império Britânico. A aventura se inicia em Karachi (no atual Paquistão, na época parte da India). Os personagens são recrutados pelo Gabinete Colonial para uma delicada investigação na cidade de Bahktapur. O clima é de instabilidade e há indícios que um motim esteja prestes a acontecer envolvendo a população local. A causa de tudo isso parece ser uma figura do folclore indiano, o Padmavari, também chamado de "Homem Negro" visto repetidas vezes por moradores cada vez mais apavorados. Essa figura mítica seria um mensageiro de tragédias e desgraças e suas frequentes aparições, segundo alguns, é sinal inequívoco que os deuses não estão satisfeitos com a maneira como os indianos estão sendo governados por estrangeiros.

O Gabinete Colonial acredita que tudo não passa de uma conspiração engendrada por rebeldes, dispostos a  manipular a população supersticiosa. Contratados para conduzir um inquérito sobre o Padmavari, os personagens iniciam sua jornada fazendo perguntas e conduzindo entrevistas com especialistas no folclore local. Eles conversam com o ilustre escritor Rudyard Kipling, falam com líderes locais, tanto hindus quanto muçulmanos e pessoas que teriam visto o Homem Negro em primeira mão. A medida que revelam a conexão entre a figura e uma extinta Seita de Assassinos Thugees, o grupo começa a suspeitar que está sendo seguido e que forças estranhas estão conspirando para que a missão fracasse.

Dispostos a levar a investigação até as últimas consequências, o grupo decide viajar até um vilarejo isolado além de uma densa selva. Um território selvagem que só pode ser acessado utilizando os serviços do "Orgulho de Bahktapur", uma Companhia de Mahouts (montadores de elefantes). Viajando em uma caravana nas costas dos enormes animais, o grupo enfrenta sérios perigos, incluindo o mortal ataque de tigres de bengala, verdadeiros "devoradores de homens".

Chegando ao seu destino, os investigadores iniciam a exploração de ruínas que pertenceram a uma civilização degenerada que habitou o Vale do Indus milênios atrás. Lá desenterram indícios de que a lenda do Padmavari é mais antiga do que se poderia imaginar e que remonta a entidades de maldade absoluta muito mais terríveis que a própria Deusa Kali.

Ainda sob o choque das revelações, os investigadores acabam capturados por seguidores da Seita do Padmavari e terminam por despertar em um novo e medonho pesadelo. Arrastados por "esferas além do tempo e espaço", o grupo terá, na continuação desse cenário, decidir se concorda com as exigências dos líderes do culto para tentar salvar suas vidas e voltar a ser quem eles eram antes de iniciar sua jornada de terror.

Desculpe se não fui claro nessa descrição, mas como pretendo narrar o cenário em outras oportunidades não posso descrever todos os acontecimentos para não estragar as surpresas da trama.

A seguir algumas fotos da mesa e comentários como de costume:

Os Handouts da aventura. Consegui encontrar esse mapa bem legal e depois de imprimir, pintei com giz de cera para dar esse ar de documento antigo. O recorte de jornal foi feito com uma montagem em background de jornal que achei na internet. Os outros handouts são mais comuns, mas ficaram bacanas com imagens e desenhos de época.

Os jogadores reunidos pouco antes de iniciar a aventura. A mesa contou com seis jogadores dessa vez, personagens prontos entregues na hora para poupar tempo. Na equipe um Professor de Etnologia e Folclore Hindu, um Correspondente Internacional do Northern Star, um aristocrático Engenheiro da British-Indian Railroad Co, um Cartógrafo da Royal Geographic Society, um Médico veterano da guerra do Afeganistão e um Missionário cristão.

Seguindo as notícias nos jornais locais, o grupo fica sabendo dos "Distúrbios em Bahktapur".

Cthulhu não é a mesma coisa se não for jogado à luz de velas. E foi só começar a escurecer para acender umas velas para realçar o clima.

Já na metade da aventura, o grupo começa a ponderar sobre como lidar com atentados de fanáticos Thuggees, serpentes naja, um cadáver recheado de cobras, elefantes nervosos, entidades macabras do folclore indiano, civilizações perdidas e tigres ferozes.

Só para abrir um importante parênteses, essa aventura registrou um dos danos mais bizarros da história de CoC. Um dos elefantes rolou 01% em sua investida contra um dos tigres que atacava o grupo. O dano normal já é um escândalo (4d6 +6d6). O paquiderme literalmente pisoteou o felino que recebeu inacreditáveis 20d6 pontos de dano. Como se tratava de um impale, o dano foi dobrado!!!! Quase uma fireball de D&D! Resultado? Purê de Tigre.

Mas nem tudo foi alegria, um dos devoradores de homens mordeu o missionário causando 11 pontos de dano em um único ataque. Ouch! Que mordida!

Fim da primeira parte da aventura. Entre insanos e feridos o grupo vai ter que esperar um pouco para saber como a aventura vai terminar.

E enquanto não voltamos, um "Olá" de um dos simpáticos vilões da trama... ah esses Thuggees.

Nos vemos em breve!

Namastê!