sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Criaturas das Profundezas - Usando o Anglerfish como base para monstros


Ah, o Anglerfish. 

Não é à toa que esse bicho feioso atende pelo nome vulgar de Peixe Diabo.

Faz tempo que esse animal me apavora, ainda que ao mesmo tempo, ele seja fascinante.

É inegavelmente uma das coisas mais medonhas da natureza, mas por algum motivo eu sempre estou interessado em matérias sobre ele. Fotos, vídeos... essa coisa é bizarra demais.

Faz uns anos tive um sonho com um bicho desses que não nadava, mas voava (!!!). Foi um daqueles pesadelos que a gente não faz ideia de onde vem, mas que ficou na minha cabeça por alguns dias.

A ideia era tão medonha que eu cheguei a usá-la em parte, numa aventura de Chamado de Cthulhu e outra de Abismo Infinito. 

No cenário de Chamado, a criatura não era exatamente um peixe-diabo, mas uma espécie de monstro alienígena que parecia um: inteligente, astuto e ligado ao Mythos de Cthulhu. Seu nome, segundo um estudioso do Mythos era Aquavorax e ele fazia jus, "água voraz". 

O monstrengo nadava nos mares cinzentos de um outro planeta - um planeta sem terra, tomado por mares infindáveis e um firmamento cor de chumbo. Os pobres investigadores eram inadvertidamente transportados através de um portal dimensional para esse mundo e tinham de lidar com o monstro que espreitava a embarcação por eles usada. Foi tenso, para dizer o mínimo...

Já em uma estória de Abismo Infinito com as regras do BRP, o encontro com as malditas criaturas se dava no interior de uma estrutura em forma de pirâmide em um planeta isolado e escuro, muito distante de um sol capaz de iluminá-lo. Os bicharocos eram a forma de vida dominante nesse planeta, se deslocavam através do ar, flutuando lentamente, mas quando preciso, avançavam velozmente e mordiam arrancando pedaços inteiros de suas vítimas com seus dentes pontiagudos. 

Chamados de Ictiovolantis (peixe voador) pelos cripto-biólogos de uma expedição anterior (que teve um triste fim) as criaturas eram simplesmente tenebrosas. O pior é que eles não eram simples animais, meus "peixes-diabos do espaço" eram dotados de inteligência e dispunham de capacidades psíquicas latentes que lhes permitia manipular a mente humana e explorar seus medos mais profundos.

Aqui estão as estatísticas e detalhes sobre essas criaturas medonhas, caso alguém se anime de usá-la em sua mesa de jogo. Percebam que é possível adaptar esse monstrengo para qualquer sistema, bastando trabalhar a ideia central de um ser marinho especialmente maligno e disposta a tudo para atormentar e devorar suas vítimas.

Aquavorax, Raça Independente Maior

"Era algo imenso! Muito maior do que poderiam imaginar. Irrompeu das águas cinzentas como um leviatã, a mandíbula aberta projetando centenas de dentes incrivelmente finos e aguçados, alguns translúcidos como vidro. Os olhos baços e leitosos eram tenebrosos. O fedor nauseante. A criatura avançou na direção da embarcação, mas no último momento mergulhou fazendo-a balançar de um lado para o outro. Ela poderia destruir o barco facilmente como um graveto, mas parecia preferi atormentar a tripulação, antes de mandá-la para as profundezas". 


O Aquavorax é uma raça alienígena que habita mares e oceanos de planetas onde existe vasta concentração de água. Não se sabe ao certo qual o planeta de origem dessas criaturas. Eles possuem a notável capacidade de criar portais através dos quais se transportam de uma uma esfera para outra. A única condição para esse transporte é que o lugar de origem e o local de destino possuam condições específicas - sendo a mais importante um meio aquoso. Não se sabe ao certo como essas criaturas são capazes de empreender esse deslocamento espacial, mas ao que tudo indica trata-se de uma peculiaridade inerente à espécie, presente em todos Aquavorax. Uma vez aberto o portal, a criatura simplesmente desaparece e ressurge em outro ponto, precisando então de algumas horas, ou mesmo dias de descanso para repetir a façanha. O alcance parece ser infinito, os Aquavorax podem se transportar por distâncias incríveis. Considerando que a Terra possui grande parte de sua superfície coberta por oceanos é razoável supor que ela já foi visitada por membros dessa espécie. O fato deles serem conhecidos por estudiosos dos mitos reforça essa suspeita.

Os Aquavorax são obviamente criaturas aquáticas que se assemelham a formas de vida marinhas da Terra. Embora a aparência seja correlata, eles são por todas definições, alienígenas. As criaturas parecem com enormes peixes, guardando semelhança com animais que habitam grandes profundidades, como os lophiiformes, do qual fazem parte os anglerfish. Podendo atingir até 25 metros de comprimento (ou mais segundo alguns teóricos), o Aquavorax é um predador carnívoro que se alimenta de qualquer forma de vida que cruze seu caminho. Ele prefere se fixar em áreas profundas com correntes frias, mas pode se adaptar bem a praticamente qualquer ambiente, desde que haja alimento. A mera presença de uma dessas criaturas pode rapidamente desequilibrar um ecossistema, felizmente eles não se mantém em um único lugar por muito tempo.

A espécie é altamente desenvolvida e possui um coeficiente de inteligência equivalente ao humano. Extremamente curiosos a respeito de outras formas de vida, eles tendem a concentrar sua atenção em outras criaturas inteligentes, embora quase sempre terminem por devorá-las. Os Aquavorax consideram a si mesmos superiores a outras formas de vida e quando sentem alguma ameaça, não demonstram qualquer pudor em eliminá-la.

Os Aquavorax conhecem os Mythos, em particular as divindades marinhas como o Grande Cthulhu. Sua existência é citada apenas no tomo intitulado Chaat Aquadingen, onde eles são identificados pelo nome Aquavorax.

AQUAVORAX, Leviatãs de outras esferas

FORça                   7d6 +12          38-39
CONstituição        6d6 +6            27-28
TAManho             12d6                42-43
INTeligência         3d6                 10-11
PODer                   4d6                 13-14
DEStreza               2d6                   7-8

Pontos de Vida: 36
Bônus de Dano: +5d6

Ataques: Mordida 30%, dano 5d6
                Engolir 50%, dano especial
                Esmagar 60%, dano 1d6 +bônus de dano

Engolir - Em um ataque bem sucedido um Aquavorax pode engolir um humano adulto por inteiro, desde que este esteja na água quando sofre o ataque. Uma vez engolida, a vítima recebe 2d6 pontos de dano por rodada por esmagamento e sucos ácidos do estômago da criatura.

Armadura: 5 pontos de cartilagem resistente.

Feitiços: Aquavorax com INT igual ou maior que 14, podem conhecer pelo menos 3 feitiços.

Sanidade: 1d4/1d20


*     *     *

Ictiovolantis, Raça Independente Menor

"Os homens já haviam percebido que algo sinuoso parecia se mover além do alcance da luz de nossa fogueira. Mas eles preferiam não dizer nada. Haviam visto de relance a forma das criaturas e um brilho amarelado surgindo e sumindo. Ninguém quis ir até lá para verificar e todos se apegavam a esperança de que a luz da fogueira manteria aquelas coisas à distância. Em dado momento, um dos homens se levantou do círculo do acampamento e correu para a escuridão, atraído pelo brilho fosforescente. Nós tentamos segurá-lo, mas antes que pudéssemos agarrá-lo ele já havia se lançado na escuridão, como se tivesse sido engolido pelo negrume. Nós ouvimos os gritos logo em seguida. Um som que eu jamais esquecerei... o ruído desesperador de um homem sendo devorado vivo".


Os Ictiovolantis são uma forma de vida alienígena, possivelmente de origem dimensional citada pelo feiticeiro hiperbóreo Eibon em seu célebre Liber Ivonis (o Livro de Eibon). Não há registros do avistamento de tais criaturas na Terra, contudo através de portais dimensionais ou por viagens dessa natureza, o contato com tais seres é possível.

Supõe-se que eles sejam nativos de um planeta distante no Sistema Estelar de Balbo, um mundo imerso em perpétua escuridão. Os ictiovolantis são conhecidos por outras raças alienígenas, como os Fungos de Yuggoth, que tentaram usar essas criaturas como armas em seus estratagemas de conquista. Ictiovolantis transportados para outros planetas se mostraram difíceis de ser controlados, o que fez os Mi-Go desistirem de sua utilização. É possível que eles tenham introduzido essas perigosas criaturas em diferentes ambientes com resultados variados.

Os Ictiovalantis se assemelham a peixes terrestres, mais especificamente ao peixe-diabo (anglerfish) que habita os mares profundos da Terra. São animais sinuosos, cobertos de escamas negras ou de coloração castanha, medindo algo entre 45 centímetros e um metro de comprimento. A boca é extremamente larga com enormes dentes, afiados como navalhas. Essas criaturas não enxergam, se guiando exclusivamente através de um radar natural que lhes permite registrar campos eletromagnéticos. Fontes luminosas ou fogo os mantém afastados, mas não demora muito tempo até eles se habituarem e perderem o medo da luz. Os ictiovolantis conseguem criar uma espécie de campo nulo de gravidade através do qual flutuam no ar. Para se mover, usam suas barbatanas dorsais como se estivessem nadando no espaço. Carnívoras, essas criaturas são extremamente vorazes, podendo devorar umas às outras se não houver alimento disponível. Seu comportamento agressivo e territorial se assemelha ao das moreias.

Uma peculiaridade a respeito do Ictiovolantis é que a nadadeira frontal que se projeta em sua face emite um brilho amarelado fosforescente que afeta a mente das suas presas. O brilho pode ser visto à distância e ocasiona uma espécie de hipnose ou torpor mental que força a vítima a se aproximar inconsciente de qualquer perigo. Os Ictiovolantis esperam pacientemente até uma presa chegar perto e então se lançam sobre ela em um frenesi assassino no qual despedaçam a vítima com seus dentes afiados.

ICTIOVOLANTIS, carnívoros insaciáveis

FORça                  1d6+6               10
CONstituição        2d6+3              10
TAManho             1d6+3              7-8
INTeligência         1d6                  3-4
PODer                   2d6                  7-8
DEStreza               2d6+3              10-11

Pontos de Vida: 9
Bônus de Dano: +0

Ataques: Mordida 55%, dano 2d3

Brilho Hipnótico - O Ictiovolantis é capaz de hipnotizar sua presa com o brilho de sua barbatana frontal. Qualquer pessoa que vê esse brilho a uma distância de pelo menos 15 metros precisa realizar um teste na Tabela de Resistência contra o atributo PODER da criatura. Uma falha faz com que a vítima seja compelida a caminhar na direção da luz, sem registrar qualquer ameaça. Passando no teste, a vítima fica imune a essa influência por uma hora. Se alguém afetado for contido e forçado a romper o transe (com um tapa no rosto, por exemplo) ele desperta sem lembrar da influência hipnótica sofrida. Uma vez atacada, o transe se rompe naturalmente, mas a vítima é incapaz de agir na primeira rodada após o ataque, considerado para todos os efeitos, um ataque de surpresa.

Armadura: 1 ponto de cartilagem rígida

Feitiços: Nenhum

Sanidade: 1/1d4+1

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Encontrando o Diabo nas profundezas do Mar - O aterrorizante Anglerfish


Com uma boca larga repleta de dentes pontiagudos e translúcidos como lâminas de vidro, olhos brancos leitosos e uma aparência geral bizarra, o Anglerfish, mais conhecido como Peixe Diabo, talvez seja uma das criaturas mais aterrorizantes que a natureza ousou conceber.

Um animal tão medonho e alienígena, que os antigos habitantes de regiões costeiras da Europa, nas raras ocasiões em que encontravam um deles, consideravam a descoberta um mau agouro. Os habitantes das ilhas do Mediterrâneo sabiam de sua existência, e quando os apanhavam em redes ou os encontravam lançados nas praias, acreditavam que uma tragédia iminente estava para acontecer. Na ocasião em que um espécime foi apresentado em Paris no século XIX, os cientistas da época assumiram que o animal empalhado era uma fraude. Nada tão hediondo poderia existir, afinal de contas.

Apesar de sua existência ter sido comprovada, jamais um deles foi visto com vida. Não é para menos, o anglerfish habita as trincheiras oceânicas mais profundas do nosso planeta. Atingir essa profundidade extrema é muito difícil, quanto mais, realizar uma filmagem e ainda ter a sorte de encontrar especificamente um desses animais.

Mas uma feliz conjunção de fatores, permitiu a inédita filmagem de um Peixe Diabo em seu habitat natural, na costa da Califórnia.

Uma equipe de especialistas em filmagem de alta profundidade, operando um ROR (veículo operado por controle remoto - remotely operated vehicle) conseguiu realizar a proeza. O animal, pequeno é verdade, medindo apenas 9 centímetros, foi filmado a uma profundidade de 580 metros, na Baía de Monterrey. A equipe também conseguiu capturar o animal que foi trazido em segurança para a superfície para ser estudado.


Os especialistas ficaram surpresos com a maneira como o animal se desloca e a forma como ele utiliza suas nadadeiras dorsais. "O peixe diabo parece ter uma forma única de se mover, adaptada para suas necessidades e ao seu ambiente", disse Bob Robinson, chefe da equipe que realizou a filmagem. 

O animal trazido à superfície em perfeitas condições pelo ROV, foi colocado em um aquário especial, semelhante a um freezer que mantém uma temperatura confortável e simula a escuridão em que o peixe diabo vive. Robinson e um grupo de cientistas esperam que o animal se adapte ao novo ambiente para em seguida iniciar os estudos sobre sua fisiologia. Uma das questões principais é compreender como os anglerfish conseguem captar campos eletromagnéticos, de maneira semelhante a alguns tubarões. Os animais são praticamente cegos, uma vez que seu ambiente perpetuamente escuro, torna seus sentidos inúteis. 

Outra questão que eles esperam responder diz respeito ao mecanismo luminoso que essas criaturas possuem na ponta de um apêndice na cabeça. Usando esse apêndice, uma espécie de nadadeira especialmente adaptada, como um tipo de vara de pesca, o peixe diabo atrai suas presas para perto de sua boca e assim as devora.

Os cientistas concordam que ainda se sabe muito pouco a respeito dessa espécie e que estudar um animal em cativeiro será uma oportunidade para conhecer detalhes fundamentais a respeito do animal.


Uma peculiaridade já conhecida a respeito do anglerfish é que os machos da espécie são parasitas. As fêmeas são bem maiores e cabe a elas proteger os machos que não poderiam sobreviver muito tempo no meio hostil das profundezas. Quando jovens, os machos se aproximam de uma parceira e a mordem, fixando-se na lateral delas como uma rêmora. Com o tempo, a pele do macho acaba se fundindo com a da fêmea e ele não pode mais ser removido sem matar o hospedeiro. O nível de dependência é tamanho que os machos fixados perdem os olhos e nadadeiras, e chegam a partilhar da corrente sanguínea da fêmea. Uma vez adaptado, ele se alimenta de restos de comida desperdiçados pela companheira e por vezes aproveita a proximidade para fertiliza-la.  O peixe diabo capturado mês passado, é uma fêmea, mas não possui nenhum macho preso a ela. Outros espécimes encontrados chegavam a ter seis parasitas presos ao seu corpo. 

Com mais de 200 espécies - e provavelmente outras tantas a serem descobertas pelos biólogos marinhos, ainda há muito que não sabemos sobre os peixe-diabo.

domingo, 30 de novembro de 2014

Livros Desaparecidos - O Mistério da Biblioteca Perdida de Ivan, o Grande


Muitas bibliotecas do passado contendo documentos, mapas e livros extremamente valiosos foram destruídas.

Livros com sabedoria e conhecimento antigo, se perderam em meio a guerras, incêndios e outras tragédias inevitáveis. A Biblioteca de Alexandria segundo historiadores chegou a ter 500,000 volumes em sua coleção até ser destruída em um terrível incêndio. A Biblioteca de Cartago contava com 200,000 volumes, isso até arder até o chão como resultado da guerra contra Roma. O Imperador chinês Shi-Hwang-Ti decretou que todos os livros de seu Reino fossem queimados em 214 a.C, e Mao Tse-Tung fez o mesmo em 1966 durante sua Revolução Cultural. Da antiga Pérgamo até a moderna Alemanha governada pelos nazistas, livros e bibliotecas foram vítimas de ataques, pilhagem e destruição sistemática. Isso porque livros são perigosos, uma ideia é mais poderosa que cem canhões, uma filosofia resiste a mares tempestuosos que nenhum navio de guerra ousaria navegar. 

Uma das maiores bibliotecas do mundo, entretanto, foi salva no último minuto da sua iminente destruição, apenas para se perder sem deixar pistas. 

A história começa em meados do século XV, quando o Império Otomano estava se expandindo para o ocidente, conquistando tudo em seu caminho. Era apenas uma questão de tempo até Constantinopla, a mais bela cidade da época, ser conquistada pelas hordas asiáticas. Constantinopla tinha quase dois mil anos de idade quando a ameaça de invasão ocorreu. Fundada pelos gregos como Byzas, no ano de 667 a.C, a cidade havia sobrevivido a catástrofe em 1204 quando os cruzados cristãos decidiram pilhar a cidade como um aquecimento para a conquista de Jerusalém. A lição, aprendida da forma mais dolorosa, não seria esquecida. 

O povo de Constantinopla sabia o que aconteceria se um exército invasor penetrasse seus muros.

O cerco a Constantinopla
O mais valiosos dos tesouros da cidade deviam ser protegidos à todo custo. O Sultão Mohamet II que comandava um exército de 150 mil homens estava a caminho para iniciar o cerco. Constantino XI, o governante de Constantinopla contava com uma força de 15 mil homens, incluindo seus famosos mercenários genoveses. A derrota era questão de tempo. A prima do Imperador, Sophia Palaeologa, foi então rapidamente prometida ao jovem Ivan III que estava para se tornar o Governante da Rússia. Através de um acordo, o Sultão concedeu salvo conduto a comitiva de Sophia para que ela deixasse Constantinopla e seguisse para Moscou via Roma. O Sultão, sentindo-se benevolente permitiu que ela levasse tudo o que seria necessário para iniciar sua vida ao lado do novo marido. A comitiva não pensou duas vezes, começou a ser montada com tudo que podia carregar. Na bagagem estavam todos os ancestrais tesouros bizantinos e as obras mais valiosas da Biblioteca de Constantinopla. Não se tratava de uma Biblioteca qualquer, Constantinopla hospedava o mais vasto acervo de livros do mundo, sendo ultrapassado apenas pela Biblioteca do Vaticano.

O trabalho foi colossal. Os funcionários da biblioteca trabalharam dia e noite para separar o material que deveria ser preservado. Cronistas da época atestam que a caravana que deixou Constantinopla, três meses antes da chegada das tropas do Sultão, era formada por mais de 100 carros puxados por bois, abarrotados de livros, documentos e todo tipo de manuscrito. Livros coletados na Ásia, norte da África e Europa, escritos em hebraico, árabe, latim e egípcio estavam nos carros. Muitos dos livros haviam sobrevivido ao incêndio de Alexandria e outros tantos eram únicos. Edições raras de obras assinadas por Pindaro, Polibius, Tácito e Cícero, além de poemas redigidos por Calvo, os trabalhos completos de Virgílio e "As vidas de Doze Césares" por Suetônio. Muitos deles eram originais, escritos pelos próprios autores, com sua própria caligrafia e com notas de rodapé. Setecentos desses livros eram parte da coleção particular do Imperador, encadernados com couro de cabra e cobertos de jóias.

Os tesouros bizantinos de Constantinopla
O valor da biblioteca era incalculável. Sophia (também chamada de Zoe) e seus tesouros, viajaram através de metade da Europa. Muito embora, o Sultão tenha enviado espiões para interceptar a comitiva e recuperar o tesouro, tão logo soube da fuga, ela chegou em segurança a Moscou. Os diplomatas que assinaram o acordo que permitiu a partida de Sophia, por sinal, foram executados de uma forma nada agradável: cozidos vivos em grandes caldeirões de bronze. A ira do Sultão, quando encontrou a biblioteca vazia, foi tamanha que ele ordenou a morte de todos os bibliotecários e copistas, e fez com que suas cabeças fossem colocadas em estacas ao longo da estrada que conduzia à biblioteca - apelidada a partir de então, Avenida dos Sábios.

Sophia ficou feliz em presentar seu noivo com aquele grandioso presente. Para complementar sua oferta, ela levou de Roma dezenas de arquitetos, artistas e engenheiros italianos que ajudariam a modernizar o Kremlin. A esperança de Sophia era unificar a Igreja Ortodoxa Bizantina, um dos últimos vestígios do Império Romano, com a Igreja Ortodoxa da Rússia, algo que jamais aconteceu. Não haveria união teológica entre as igrejas, e logo ficou claro, não haveria tampouco uma coalizão militar que pudesse ser forjada para ajudar Constantinopla e salvá-la dos Otomanos. Assim, o destino da Cidade, um dos últimos bastiões romanos, estava selado. Como previsto, as tropas turcas devastaram a cidade com o poder de canhões e de sua vantagem numérica. A marinha cercou o porto e impediu a fuga daqueles que não haviam ainda evacuado seus muros. Quando correntes foram colocadas ao longo das docas para impedir a atracagem, Mohamet fez seus navios se afastarem e dispararem sem parar ao longo de semanas contra as torres e defesas, até que o interior da cidade fosse transformada em ruínas.  

Em 29 de maio de 1453, os Otomanos enfim entraram em Constantinopla.

Mehmet II triunfante!
Ao fim de sete semanas de cerco, o líder do Império Otomano, cavalgou como supremo conquistador até Hagia Sofia, a maior catedral do mundo. Destruição e pilhagem se seguiram, a medida que Constantinopla se tornava Istambul, a nova capital do Império Turco. Assim como a catedral, convertida em um mosteiro, outras tantas igrejas foram transformadas em mesquitas onde o símbolo da crescente substituiu a cruz. A Capital do Império Romano do Oriente não mais existia, nem mesmo em nome. No exato momento em que isso aconteceu, Moscou se tornou o Centro da Igreja Ortodoxa. Um monge russo, Philotheos, declarou que Moscou passava a ser "a terceira Roma" e como tal, a cidade precisava se adaptar a esse novo papel de importância.

Os tesouros de Constantinopla tiveram um papel decisivo na transformação de Moscou naquilo que é até hoje em dia. Ivan III deu início a construção do Kremlin, até então um simples forte de madeira e barro, que se tornaria um monumento. A área de 130 acres, cujo nome krem, se traduz como cidadela, se converteu em uma fortaleza inexpugnável. 

A razão principal para a construção do Kremlin, e as melhorias de madeira e barro, para pedra e tijolos foi um pedido de Sophia, esposa de Ivan III, que temia os frequentes incêndios na cidadela. Prédios de madeira podiam queimar a qualquer momento, consumindo os valiosos tesouros que ela havia salvado. Outra preocupação era a cobiça de Roma e do Vaticano. Quando passou pela Itália, o Papa se ofereceu para comprar a coleção inteira da biblioteca, mas Sofia rejeitou a proposta. O Papa enviou negociantes a Moscou repetidas vezes, refazendo a "gentil oferta", oferecendo uma verdadeira fortuna pelos livros, mas a resposta sempre foi negativa. Em uma dessas visitas, um dos enviados chegou a sugerir que "atender à vontade da Santa Sé, não era um pedido, e sim, uma ordem". Por algum tempo, temeu-se que tropas seriam mandadas para recuperar os tesouros em Moscou, mas isso jamais aconteceu, talvez pela distância e o custo elevado de tal campanha. 

As magníficas torres do Kremlin
Mesmo assim, o Kremlin, o local escolhido para proteger a biblioteca foi concebida como uma fortaleza. As câmaras da "Liberia", como a biblioteca passou a ser chamada, foram construídas nos subterrâneos. O arquiteto italiano Ridolfo (Aristotle) di Fioravanti recebeu instruções para proteger a coleção e mantê-la fora do alcance dos inimigos. O arquiteto represou vários rios que corriam por baixo da cidadela e mandou construir paredes expeças de tijolos que formaram um labirinto quilométrico de túneis e caminhos por baixo de todo Kremlin. Mesmo hoje, ninguém sabe ao certo qual a extensão desse complexo subterrâneo.

Quando Ivan III (chamado o Grande) morreu, o poder passou para seu filho Ivan IV, que entrou para a história como Ivan, o Terrível. A palavra "grozny", na verdade tem um significado mais amplo que compreende "espetacular", mas Ivan, para todos os efeitos, era mais terrível do que espetacular. Ele detestava a aristocracia russa, os boiardos, e para limitar sua influência, ordenou a ampliação dos subterrâneos do Kremlin, criando uma masmorra para prender e torturar seus inimigos. A princípio Ivan se concentrou em famílias influentes que haviam supostamente conspirado contra seu governo, entretanto não demorou para que ele ordenasse a prisão de qualquer um que o desagradasse. E como ocorre frequentemente com figuras de poder, ele via inimigos em todos os cantos, fossem reais ou imaginários. A polícia secreta de Ivan IV, a Oprichnick, se tornou cada vez mais brutal a medida que o Czar cedia à paranoia. Ivan foi o primeiro governante a assumir o título de Czar, derivado de "César". 

Ivan, o terrível
Após eliminar os boiardos, ele se voltou contra a população civil. O Massacre de Novgorad vitimou trinta mil russos e devastou a cidade. Ivan ordenou que vilarejos fossem inteiramente esvaziados e fez populações inteiras morrerem de fome e frio nas florestas durante o inverno. Ele mandou açoitar sua filha depois que ela perdeu a criança que estava esperando, e condenou seu genro a morte quando este o criticou. Ivan se divertia assistindo gatos serem lançados em cercados e trucidados pelos seus cães de caça. Mas nos últimos três anos de sua vida, ele sofreu imensamente com uma doença degenerativa que o transformou em um monstro. Bolhas fedorentas surgiam em seu corpo, que se tornou curvo e disforme, sua pele descamava e ele sofria com sangramentos. No fim de sua existência ele foi confinado em uma torre onde gritava enlouquecido dia e noite. É provável que seu sofrimento tenha sido causado por algum veneno cuidadosamente ministrado ao longo de anos.

No período em que Ivan implantou o terror, a  biblioteca ficou fechada. Ninguém tinha permissão de consultar ou visitar as câmaras sob o Kremlin. Até mesmo a existência da Liberia foi quase que inteiramente esquecida pelos habitantes da cidadela e pelos governantes que vieram depois de Ivan IV. As ordens do Czar foram levadas em frente e a biblioteca permaneceu fechada por décadas após a morte do governante. Moscou perdeu sua importância e a biblioteca foi quase que inteiramente esquecida. Séculos depois, quando Pedro, o Grande modernizou o país, introduzindo inovações trazidas do ocidente, uma de suas principais preocupações era localizar a biblioteca de Constantinopla e restaurar sua grandiosidade, mas havia um problema: ninguém sabia onde ela ficava. Os corredores subterrâneos do Kremlin haviam sido expandidos sem controle, criando túneis e uma infinidade de câmaras que desafiavam até o obstinado Imperador Romanov.

A busca pela Biblioteca perdida avançou ao longo dos dias mais gloriosos dos czares até a chegada dos ditadores soviéticos. A biblioteca se tornou uma lenda fascinante, alguns acreditavam que ela jamais existira, mas mesmo estes a buscaram sem aparente sucesso. Na década de 1930, Joseph Stalin decidiu construir o maior e mais eficiente sistema de metrô do mundo, que ligaria Moscou por inteiro. Alguns acreditam que em parte, a obra foi conduzida para procurar a biblioteca. As obras descobriram imensas câmaras lacradas há séculos, mas nenhum sinal dos livros perdidos. Mais de uma centena de estações de metrô foram construídas, um sistema de linhas férreas tão vasto que beira a megalomania e que funciona até hoje. Nem mesmo o "metrô secreto" que Stalin mandou construir na parte mais profunda da cidade - e que serviria para evacuar dignatários em caso de necessidade, revelou a localização da Liberia de Ivan III. A medida que Moscou realizava obras de infraestrutura necessárias para o crescimento de uma metrópole, mais níveis foram construídos. Há estações que alcançam incríveis doze níveis de profundidade abaixo do solo, túneis escavados, sistema de esgoto, aquecimento e passagens desativadas e lacradas, algumas partes jamais mapeadas por inteiro. O tamanho desse complexo subterrâneo permanece desconhecido.

Stalin orgulhoso diante de sua biblioteca
Nos anos 1960, Nikita Krushev realizou inúmeras modificações nos subterrâneos do Kremlin. Ele expandiu os metrôs e ordenou a construção de abrigos onde a população poderia ser enviada no caso de um ataque nuclear. Há boatos de que nesse período, os soviéticos encontraram pistas da biblioteca. A estação Arbatskaya que fica próxima do Ministério da Defesa foi lacrada e passou a ser vigiada pelos militares. A população que vivia nos arredores foi desalojada para a construção de uma base subterrânea que atendia aos interesses do estado, interesses estes que são mantidos em segredo. Mesmo hoje, após a guerra fria, turistas não podem se aproximar das instalações e fotografias são terminantemente proibidas.

Sabe-se que Krushev tinha uma espécie de obsessão por localizar a biblioteca e se esses rumores forem verdadeiros ele teria empreendido uma busca em grande escala. Suas ordens eram para que os arquitetos do metrô tomassem cuidado para não danificar nenhuma passagem e que qualquer túnel lacrado fosse investigado e mapeado. Mesmo assim a tarefa era difícil, visto que o subterrâneo se estendia por quilômetros. Não se sabe se Krushev conseguiu ou não localizar a biblioteca, alguns acreditam que sim e que a base Arbatskaya é a localização mais provável.

Em 1992, o prefeito de Moscou Yuri Luzhkov reiniciou a caçada pela Biblioteca de Ivan III com a ajuda de historiadores e geólogos. Uma de suas esperanças era abrir os subterrâneos de Moscou para visitação de turistas estrangeiros, mas o governo não permitiu que seus planos fossem levados adiante. Apenas uma pequena porção do subterrâneo foi aberta para esse tipo de visita e mesmo assim em caráter temporário. Os visitantes do Kremlin tem que se conformar com o fato de que a permissão para explorar os segredos da cidadela pode ser revogada a qualquer momento, sem maiores explicações. 

O metrô russo, o mais extenso do mundo
Quando em 1994, um grupo de exploradores estrangeiros encontrou um túnel repleto de esqueletos, alguns acreditaram se tratar de uma descoberta que poderia conduzir a biblioteca. O governo evacuou os túneis e mandou prender os exploradores quase provocando um incidente internacional. A câmara provou ser um cemitério clandestino usado pela polícia secreta de Ivan, o terrível. Em 2012, um tabloide popular de Moscou publicou uma notícia sobre a descoberta de uma linha pertencente ao lendário metrô secreto, apelidado Metrô 2, que ligaria Moscou a uma cidadela controlada pelas forças armadas, localizada a seis milhas de profundidade. Embora as manchetes de um jornal sensacionalista dificilmente possam ser levadas à sério, o jornal estava certo a respeito de outra linha de metrô até então desconhecida que conduzia ao aeroporto e que foi revelada oficialmente ano passado. A linha de uso exclusivo para oficiais do governo até então era mantida em sigilo. 

A mídia russa fala frequentemente da Biblioteca de Ivan III e exploradores modernos, chamados "diggers" (escavadores) arriscam sua liberdade e suas vidas vasculhando os subterrâneos da capital russa. A multa por entrar nos túneis sem a devida autorização é pesada e muitos estrangeiros acabaram se tornando hóspedes de prisões russas após serem capturados por policiais. Patrulhas fazem a segurança do perímetro e cartazes avisam das sanções a quem desobedecer as leis de segurança das estações de metrô. Supostamente a segurança reforçada existe para coibir a ação de terroristas, sobretudo chechenos. Algumas estações proíbem até mesmo fotografias e agentes rudemente removem máquinas fotográficas de turistas que desrespeitam as regras. Acredita-se que desde o ano 2000 cerca de 100 diggers desapareceram nos túneis, talvez para sempre.

Linhas férreas conectam toda a cidade
Um dos mais famosos escavadores dos túneis sob o Kremlin, Vadim Mikhailov, foi preso repetidas vezes e até alguns anos atrás, estava cumprindo pena por invasão de propriedade privada. Ele alega ter encontrado inúmeras câmaras e artefatos do passado da cidade, entre suas descobertas uma sala onde estava sendo estocado material radioativo. Outra descoberta notável do grupo liderado por Vadim foi um arquivo com documentos de anos de burocracia soviética, lacrado em um depósito. Muitos dos papéis chegaram a causar constrangimento, uma vez que revelavam assassinatos nos bastidores do poder. Mikhailov acredita que o tesouro da Biblioteca está em algum lugar nos subterrâneos, aguardando ser descoberto. Ele afirma ter conversado com informantes que um dia trabalharam para o governo soviético, entre eles um ex-funcionário do sistema de transporte da cidade, um senhor de 90 anos. Este revelou a localização de várias instalações secretas nos subterrâneos de Moscou.

Vadim teve sua pena de prisão relaxada depois que ele auxiliou agentes especiais da polícia russa a encontrar um sistema de túneis que levava ao subterrâneo do Teatro Dubrovkha onde reféns eram mantidos por um grupo separatista. Após esse incidente, o "digger" auxiliou a polícia a desbaratar uma rede de criminosos que agia nos túneis que ele conhecia como ninguém. Sua ajuda lhe valeu o reconhecimento das autoridades, mas mesmo assim Mikhailov não tem permissão de vasculhar os túneis sem o acompanhamento de autoridades.   

Uma infinidade de túneis abandonados abaixo da cidade
Com tudo isso, onde poderia estar a Biblioteca de Ivan III? Será que as autoridades russas teriam encontrado em algum lugar e mantido sua localização em segredo? Se essa é a verdade sob qual pretexto, eles não revelariam sua descoberta? Mais ainda, se a biblioteca continua perdida, onde ela estaria? E depois de tanto tempo, será que os livros e documentos teriam sobrevivido?

São inúmeras questões e provavelmente levará muitos e muitos anos até que qualquer uma delas seja respondida à contento. Enquanto isso, podemos apenas imaginar que tesouros e que tipo de conhecimento estaria contido na Biblioteca perdida de Constantinopla.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

N. - Animação de Stephen King flerta com o Horror Cósmico


Olá pessoal,

Recentemente falamos a respeito de Stephen King aqui no Mundo Tentacular e os leitores demonstraram grande interesse pelo tema. E porque não? Afinal de contas, King é um dos mais conhecidos e apreciados autores de fantasia e horror no mundo.

Procurando material para escrever a resenha a respeito do clássico "O Cemitério", acabei esbarrando com outro título curioso da bibliografia de King. O título é simplesmente "N.", uma novela curta que faz parte da antologia "Just After Sunset".

Para muitos N. busca inspiração nas obras de H.P. Lovecraft, utilizando de doses cavalares de horror cósmico, revelações capazes de levar as pessoas a loucura e o conceito de dimensões estranhas habitadas por entidades e criaturas que são a própria encarnação do mal. Até o nome de uma das criaturas soa definitivamente lovecraftiano "Cthun". King, em uma entrevista, disse que N. é uma homenagem a um de seus autores favoritos, Arthur Machen, mais especificamente a "The Great God Pan" uma de suas estórias mais conhecidas. Aqueles que apontaram para Lovecraft não estão totalmente errados em fazer a associação, já que o próprio era um fã confesso de Machen.

N. é uma estória estranha sobre compulsão, responsabilidade e obsessão levadas as raias da insanidade. Nela, um psiquiatra que tratava de um paciente com obsessão-compulsiva descobre que os distúrbios sofridos por N. podem ter uma causa muito mais terrível do que se pode imaginar. A medida que ele vai ouvindo as palavras do sujeito nas entrevistas, descobre que ele teve contato com uma força ancestral habitando um lugar isolado no interior do Maine. A medida que o relato vai se tornando cada vez mais estranho, o psiquiatra descobre que ele mesmo foi arrastado para a trama que ameaça levá-lo a loucura.

Eu confesso que não li a estória, mas ela está nos meus planos para breve...

Descobri entretanto que N. possui uma adaptação em capítulos feita com a animação do artista Alex Maleev e com roteiro de Marc Guggenheim, ambos da Marvel. O resultado é bem interessante e aumentou muito a minha curiosidade para ler a estória.

A animação foi lançada em 25 episódios de um minuto cada, aqui condensados de uma vez só, com os créditos apenas no último episódio. 

Ele foi legendado em português pela stephenking_BR

Vale muito a pena assistir...

Então não deixem por menos, apaguem a luz, aumentem o som do computador e se deixar levar pelo clima de Assombro e Horror de N.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Cinema Tentacular: "Sr. Babadook" - O bicho papão bate a porta e quer entrar


Assim como o elaborado livro infantil que invoca o bicho papão do título, “The Babadook” oferece uma boa dose de arrepios em um filme sobre a tempestuosa relação de uma mãe amargurada, seu filho problemático e uma velha casa onde coisas assustadoras acontecem na escuridão.

Eu já tinha ouvido falar desse pequeno filme australiano de orçamento modesto, angariado através de Financiamento Coletivo por apoiadores que depois de assistir um trecho, acreditaram no projeto. Segundo consta, o Financiamento feito pelo Kickstart australiano juntou metade dos 2,3 milhões de dólares necessários para rodar o filme. Um valor irrisório diante dos blockbusters, alimentados por efeitos especiais e sustos meia-boca. "Babadook" é o primeiro trabalho da diretora Jennifer Kent e realmente desponta como algo promissor, feito sem dúvida com muita dedicação e carinho.

O resultado é um filme incomum...

Ele está acima da média dos filmes de horror lançados esse ano, a bem da verdade, é possível que Babadook seja o mais interessante da safra 2014. Por outro lado, não há muito do que se orgulhar, já que o ano foi muito fraco de produções realmente assustadoras. O maior exemplo talvez seja Anabelle, que, lançado no Halloween, tentou ocupar o posto de filme de horror da temporada, mas não chegou a empolgar.


As críticas a Babadook se dividiram enormemente. Nas reviews públicas feitas por usuários do Imdb, muitas pessoas elogiaram a competência narrativa, a iluminação claustrofóbica, a atuação visceral do pequeno elenco e sobretudo o clima obscuro. Alguns chegaram ao ponto de chamá-lo de "novo clássico", de "pequena obra prima" e de "filme mais assustador da década". Não é para tanto! É curioso, pois se as críticas positivas soam enormemente exageradas, o mesmo acontece com as negativas. Comentários como "pior filme de horror que já assisti", "sonolento" e "evite a qualquer custo", estão lá para contrabalancear a opinião de quem gostou. Também não é para tanto!

Mais do que qualquer outro filme, Babadook parece ser um caso flagrante de "ame" ou "odeie". Sem espaço para meio termo, quando o meio termo seria o mais justo.

Buscando referência nos filmes de horror atmosféricos e em contos de fadas góticos, o filme constrói uma estória de maneira meticulosa. Os temas centrais são a perda, a dor diante de uma tragédia familiar e a dificuldade de reconstruir a própria vida após um trauma, assuntos pra lá de espinhosos que nem sempre são fáceis de serem digeridos. Calorosamente recebido no festival de Sundance (que premia filmes independentes), Babadook atraiu a atenção de críticos e aficionados do gênero horror, enchendo as salas onde foi apresentado.   


O filme se passa cerca de sete anos após um acidente fatal que vitimou Oskar  (Ben Winspear) justo quando ele levava sua esposa grávida, Amelia (Essie Davis) para o hospital. Mãe e filho sobrevivem ao acidente, mas à medida que o sétimo aniversário da criança se aproxima, fica claro que as cicatrizes do trauma ainda estão abertas. Emocionalmente devastada e sofrendo de insônia, Amelia tenta reconstruir os pedaços de sua vida. Ela trabalha como enfermeira em um asilo e devota sua existência a cuidar do filho, Samuel (Noah Wiseman). O menino é hiper-ativo e apresenta dificuldades para fazer amigos na escola já que as demais crianças o consideram "estranho". Samuel tem medo de monstros, e a mãe cumpre o ritual de abrir as portas dos armários toda noite para mostrar que não há nada escondido lá dentro. Apesar dos seus terrores, o menino se sente compelido a proteger a mãe e evitar que algo ruim aconteça com ela. O dia a dia de Amelia vai se tornando cada vez mais difícil, a medida que Samuel apresenta um comportamento inquieto e irritante. 

Certa noite, um estranho livro aparece na prateleira do quarto de Samuel - um livro infantil, ou assim parece, grande e com uma capa vermelha e preta. Curioso com o estranho livro, Sam pede para que Amelia o leia. O título do livro é "Mr. Babadook", não há qualquer menção ao nome do autor e Amelia não se recorda de tê-lo comprado. O livro conta a estória de uma curiosa criatura; sombria e atarracada, ela veste um casaco comprido e cartola que oculta quase que inteiramente seu corpo. O estranho ser, chamado Babadook, escolhe uma casa para visitar e bate três vezes a porta, esperando ser convidado a entrar. Quando ele finalmente entra, coisas muito ruins costumam acontecer. Horrorizada pelo conteúdo macabro, Amelia tira o livro de perto de Samuel, mas o dano já está feito, o menino fica apavorado e passa a acreditar que o Babadook mais cedo ou mais tarde virá visitá-los.

Aqui eu abro um parenteses para falar do livro e dos desenhos contidos nele. Criados pelo ilustrador americano Alex Juhasz o visual gótico, monocromático e cheio de pontas é uma das melhores coisas do filme. As páginas se abrem em pop-ups tridimensionais com puxadores que simulam os movimentos das figuras ali representadas. O jogo de câmera, acompanhando as palavras escritas no livro, é nada menos do que enervante.


Como em toda boa estória de horror, não demora até mãe e filho começarem a experimentar visões e ter pesadelos com o Sr. Babadook. Amelia destrói o livro, mas ele acaba voltando, surpreendentemente com mais páginas, cujo conteúdo se torna cada vez mais bizarro e com acréscimos de cenas perturbadoras. Com isso, a situação que já era dramática vai ganhando contornos assustadores a medida que a loucura vai tomando conta de Amelia e ameaçando a família com uma nova tragédia anunciada.

O filme conta com atuações adequadas do elenco. Essie Davis, consegue passar credibilidade como a jovem viúva e mãe amargurada até a raiz da alma que tenta cuidar de seu filho. É impossível não sentir pena de uma personagem com existência tão deprimente. O jovem ator Noah Wiseman por sua vez encarna uma das crianças mais irritantes da história do cinema, e não estou exagerando. O menino é uma peste: inquieto e hiperativo, quando contrariado ele não se limita a chorar, mas grita e pisoteia tudo. A gente fica com vontade de entrar no filme só para colocar ele de castigo num canto ou dar umas boas palmadas (eu sei que estou sendo politicamente incorreto!). Para quem não suporta filmes de crianças impertinentes, talvez a atuação do menino como o auge da criança problemática seja um dos maiores obstáculos para ver o filme até o fim (eu mesmo quase desisti!).

Mas apesar disso, e do ritmo lento no início, o filme consegue prender o interesse. Hoje em dia, é difícil apresentar alguma surpresa em se tratando de horror, mas mesmo que não seja exatamente uma novidade, "Babadook" consegue habilmente trabalhar sons bizarros e sombras para manipular a audiência através do sempre eficiente poder da sugestão. Muito pouco é mostrado às claras, mas os sustos são legítimos, amparados por uma aura de angústia palpável. É o tipo de horror das antigas, acima de tudo psicológico. 


Um dos méritos do filme é jamais deixar claro o que é o Babadook. O monstro parece uma enorme sombra que lembra o medonho vampiro do filme Nosferatu, possivelmente uma homenagem ao gênero gótico. O som da coisa falando é de gelar o sangue. Experimente assistir sozinho no meio da madrugada com as luzes apagadas.

Seria ele uma presença sobrenatural maligna? Um demônio que gosta de assustar crianças? Ou a criatura nunca existiu e não passa de um delírio da mente fraturada da mãe? O roteiro brinca com os delírios da personagem e deixa o espectador em dúvida sobre o que é real e o que existe apenas na imaginação dela. Há vários elementos perturbadores no filme, que só responde a essas questões nos últimos 20 minutos quando o terror toma conta e deixa a gente sem saber o que vai acontecer. O final talvez seja meio bobinho, mas apesar dos pesares, as coisa acabam se encaixando e não comprometem o efeito geral.

Cotação:


Assista ao Trailer: