quarta-feira, 13 de maio de 2020

Explorando os Mythos mais Obscuros: Saaitii, o Senhor do Covil Diabólico


"Eu o vi, pálido e enorme através do funil enevoado e ondulante - 
um focinho igualmente pálido e monstruoso se ergueu daquele abismo insondável... 
Ele se levantou, como um enorme morro. 
Através da camada tênue da parede de névoas eu vi um único olho... 
um olho de porco brilhando com uma compreensão vil."

William Hope Hodgson - 
"The Hog"

O que existe além das muralhas da compreensão e da razão? O que habita além dos limites de nossa compreensão mundana? Que forças esmagadoras espreitam nos umbrais de nossa percepção, buscando pequenas fissuras na nossa psique para invadir nossa mente? Que seres são esses que aguardam pacientes por nossas defesas apresentarem falhas e assim se insinuar em nossa mente e predar as nossas almas?

Saaitii, o Observador na Escuridão, a Besta Guinchante, o Horror que Espreita no Labirinto é um desses horrores que coloca em cheque a noção de que habitamos um universo benigno e bondoso. Uma força perversa, Saaitii é guiado unicamente por seus instintos cruéis e necessidades prementes. O Grande Antigo existe apenas para satisfazer seus desejos primais com extrema voracidade e apetite insaciável. Ele é uma entidade de paixões exacerbadas e com uma vontade volátil que enxerga somente sua própria gratificação

No passado remoto, Saaitii tomou conhecimento da existência da humanidade e se sentiu imediatamente atraído, guiado por seus desejos de sujeitar uma nova espécie aos seus caprichos bestiais. A criatura encontra suas presas, farejando indivíduos cuja consciência vaga inadvertidamente nos limites de seus domínios. Teóricos dos Mythos Cthulhianos acreditam que Saaitii habita uma realidade ou dimensão que de alguma forma está conectada com o mundo dos sonhos. Também há conjecturas que essa dimensão se encontra numa fronteira com o domínio de outro Grande Antigo, Y'Golonac


Saaitii consegue captar emanações psíquicas de pessoas sonhando e escolhe os candidatos mais adequados às suas necessidades - em geral indivíduos sofrendo de depressão, frustrações e desilusões profundas. Uma vez atraído, o ser se conecta ao inconsciente da vítima, arrastando-a para seu covil. A dimensão de Saaitii é descrita como um lugar de total escuridão, um labirinto de túneis cavernosos que se estendem indefinidamente. Esses recessos trevosos são vazios, destituídos de qualquer adorno ou conteúdo. Contudo, através das câmaras ecoam guinchos dissonantes descritos pelos visitantes como algo semelhante ao ruído de milhares de porcos. A cacofonia aterrorizante, verdadeiro coral de grunhidos, roncos e fanfarras reverbera sendo em determinados momentos ensurdecedor. Mas o pior está reservado para o momento em que o Senhor desse Covil Diabólico se manifesta através de um grunhido muito mais forte e pavoroso que todos os outros juntos. Quando Saaitii produz seu urro abominável, todas as outras vozes se silenciam restando um silêncio opressor.

A dimensão só pode ser acessada quando o indivíduo está em sono profundo. Depois da primeira experiência no labirinto, estas vão se tornando cada vez mais frequentes. Saaitii pode trazer uma vítima regularmente, minando suas resistências e deixando seus nervos em frangalhos. Indivíduos sujeitos a essas condições são lentamente exauridos física e mentalmente à medida que seu sono é atormentado por pesadelos cada vez mais vívidos. Testemunhas que acompanharam a ruína das vítimas de Saatii descreveram a situação como um verdadeiro suplício. Uma peculiaridade a respeito dessas pobres almas é que elas são acometidas por uma espécie de transe no qual produzem grunhidos roufenhos semelhantes aos de porcos. São incapazes de despertar, até que a criatura os liberte.

O destino final das vítimas de Saaitii tende a ser terrível. Quando o Deus se cansa de seus jogos, ele simplesmente se manifesta em todo seu esplendor blasfemo em um derradeiro pesadelo, ocasião em que devora a vítima a consumindo por completo. Esta está fadada a jamais despertar. Seu corpo continuará vegetando, mas sua mente se perde para sempre em um estado de coma profundo. Aqueles que conhecem a mitologia de Saaitii se referem a esses pobres infelizes como "Devorados".  

Num passado ancestral, alguns cultos tentaram ganhar o favor de Saaitii, venerando-o através de festivais onde excessos de todo tipo eram praticados. Os cultistas acreditavam que o Deus incentivava perversos bacanais, suntuosos banquetes e outros espetáculos ultrajantes que exploravam prazeres mundanos. Uma seita apócrifa formada na Judeia no século segundo, acreditava que Saaitii era a antítese ao ideal de virtude cristã e que através de seus excessos a divindade poderia ser alcançada. O secto teve curta existência, supostamente tendo sido liquidado pelo próprio Deus. Há sugestões de que o Culto de Saaitii possa ter sido carregado até Roma, encontrando seguidores na corte depravada do Imperador Calígula, mas esses rumores jamais foram comprovados.

Posteriormente, confrarias se formaram em torno do Grande Antigo, abraçando o ideal de transcender limitações morais e éticas. Pequenos grupos de cultistas se concentraram na Paris pré-Revolução e na Londres Victoriana, mas nenhum desses prosperou por muito tempo. O último culto devotado a Saaitii surgiu nos anos 1960 na cidade de San Francisco, formado por entusiastas de drogas que as usavam como forma de transcender limites.

Existe controvérsia entre estudiosos dos Mythos sobre Saaitii poder ou não assumir uma forma física no mundo real. Sabe-se que ele prefere se manifestar em sonhos na segurança de seu Covil, mas tudo indica que ele possa também surgir fisicamente, ainda que por pouco tempo e sob circunstâncias específicas - mediante sacrifícios, rituais e alinhamentos estelares. Tanto na forma física quanto na astral, ele surge como uma visão nefanda.


Saaitii assume a aparência de um horror porcino, decorrendo daí a alcunha "o Porco" pela qual ele é conhecido. Para um observador atento, no entanto, fica claro que a medonha aparência de Saaitii meramente lembra um suíno, sendo bastante diferente na prática. Trata-se de um ser grotesco e imenso, com o corpo inchado e os flancos cobertos por uma couraça grossa acinzentada. Nas costas desce um emaranhado de pelos escuros sebosos, enquanto o restante do corpanzil de coloração rósea perolada se mostra consideravelmente mais flácido. A criatura possui uma dezena ou mais de pernas terminando em cascos pretos fendidos que servem para sustentá-lo, ainda que ele seja capaz de flutuar livremente no ar. Quando o faz, as pernas ficam pendendo livremente. Saaitii pode ficar de pé, em uma forma mais ou menos humanoide ou com as patas plantadas no solo.

A face da criatura chama a atenção pelo horror que conjura. Ele possui um único olho negro no centro da testa, um par de orelhas cartilaginosas que abanam constantemente e um focinho chato, bastante similar ao de um porco. Dele escorre uma caudalosa secreção mucosa. Saaitii conta com um conjunto de três bocas de onde despontam presas similares às de javalis e dentes quadrados sem ponta. Suas mandíbulas são fortes o suficiente para mastigar os ossos de um homem adulto. Seu hálito quente exala um fedor ocre de putrefação decorrente dos restos que apodrecem nas suas presas. 

Saaitii não é capaz de falar, mas "o Porco" domina faculdades telepáticas e as usa para incutir na mente de seu interlocutor imagens vívidas do que deseja. Apesar de sua aparência bestial, ele é dotado de aguda inteligência, podendo barganhar se compelido a fazê-lo. A criatura tem um profundo desprezo por humanos e normalmente vê nossa espécie como fonte de alimento ou diversão. Como está constantemente faminto, Saaitii raramente negocia, preferindo devorar quem encontra pela frente para então retornar à sua dimensão - aliás, é por essa razão que a maioria dos Cultos devotados a ele falharam em prosperar.


Tomos de conhecimento esotérico versando a respeito dos Mythos de Cthulhu raramente mencionam Saaitii, concedendo a ele o status de uma divindade de menor importância. A exceção é o Manuscrito Sigsand, um tratado escrito no século XIV por membros de uma ordem religiosa monástica. O livro trata de diferentes tipos de assombrações e monstruosidades, dedicando-se a esmiuçar a origem de tais seres e estabelecendo métodos para se defender deles. É sabido que uma cópia do Manuscrito pode ser achada na Biblioteca de Bodleia no Reino Unido. 

Uma segunda cópia desse volume se encontra na posse do lendário caçador de fantasmas britânico Thomas Carnacki. Segundo rumores, Carnacki teria encontrado Saaitii em sua própria dimensão em um épico confronto metafísico no qual emergiu vitorioso. Na ocasião, ele livrou uma vítima da influência da criatura evitando que fosse devorada. Se levado à sério, tal confronto pode ter sido o ponto alto da carreira do renomado ocultista.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Médico da Peste - Aqueles que lidavam com a Morte Negra


É interessante questionar o fascínio que a Idade Média exerce sobre nós hoje em dia. 

Não foi, nem de longe, o momento mais iluminado da humanidade, muito pelo contrário. O que marcou esse período, não por acaso chamado de Idade das Trevas foi violência, ignorância, superstição, privações e é claro, doenças. 

Em meio a todo o horror da Idade Média, poucas coisas poderiam ser mais aterrorizantes do que a Peste Negra. A doença, que viríamos a conhecer como Peste Bubônica (a bactéria Yersina pestis), era transmitida pelas pulgas que infestavam os ratos pretos comuns. Viajando nos porões de navios mercantes, ela se espalhou velozmente graças às condições degradantes na qual boa as pessoas viviam. Sozinha a peste foi responsável por dizimar boa parte da população da Europa no século XIII e XIV.

A terrível doença era capaz de esvaziar cidades inteiras, matando indiscriminadamente ricos e pobres, os que acreditavam em Deus e os que o renegavam, homens e mulheres, jovens e velhos. Em sua sanha assassina, a doença não ignorava ninguém. Ela não escolhia um alvo em particular, mirava em uma região e nela todos morriam. A Peste não obedecia aos limites traçados pelo homem: cruzava territórios invadindo feudos e atravessava as fronteiras penetrando nos reinos. Sua passagem pelo mundo ocidental deixou sinais vívidos na arte, na escrita e na memória coletiva das gerações que se seguiram. 

Por muito tempo acreditou-se que era o Apocalipse. E por pouco não foi!

A Peste devasta a Cidade francesa de Marselha
A peste surgia, e devastava rapidamente a população, e tão rápido quanto aparecia, cessava inexplicavelmente de um momento para outro. Mas não demorava a ser sucedida por outra onda devastadora. Para a maioria das pessoas era uma provação. O auge da pandemia ocorreu entre 1347 e 1351. Estima-se que ela matou algo entre 75 e 200 milhões de pessoas na Europa, Oriente Médio e Norte da África. Apenas na Europa as mortes atingiram entre 40% e 60% da população.

Dentre os personagens que viveram nesse período dramático, os Médicos da Peste permanecem como um estranho símbolo de tempos sombrios onde a vida podia ser abreviada pela foice invisível da morte.   

A figura do Médico da Peste era singular sobretudo pelas suas vestimentas. Sua imagem é universalmente conhecida e documentada em gravuras e descrições de época. A representação mais famosa, sem dúvida é Der Doctor Schnabel Von Rom de Paul Furst, mas existem centenas de outras imagens dessas figuras de aparência sinistras. Uma rápida busca no Google por "plague doctor" resulta em inúmeras fotos de fantasias e máscaras, além de fontes históricas. 

A indumentária foi provavelmente o primeiro traje primitivo de proteção contra contaminação na história. Naquela época, ninguém, nem mesmo os médicos, tinham ideia de como se dava a transmissão da doença. Tudo era um grande mistério! A teoria mais popular era que a praga seria transmitida através do ar contaminado ou por algum tipo de veneno que os doutos chamavam de Miasma.

A famosa representação de Paul Furst dos Médicos da Peste
O origem do miasma variava de acordo com cada estudioso ou sua escola de pensamento. Alguns supunham que ele provinha das profundezas da terra, exalando através de fissuras no solo que chegavam até as profundezas do inferno. Respirar o ar contaminado da corte satânica causava a doença e significava a morte. Outros supunham que o miasma era proveniente dos cadáveres insepultos e moribundos que se agarravam à vida na vã tentativa de superar a doença. Era popular a teoria de que o miasma surgia em áreas pantanosas com grande concentração de água parada. Mas existiam teorias ainda mais estapafúrdias que atribuíam a geração do miasma à flatulência de bodes e cabras negras, a maresia formada após uma forte ressaca e até a ingredientes usados nas cozinhas medievais.

De qualquer forma, os estudiosos e acadêmicos medievais concordavam que o problema deveria estar no ar.

Com isso em mente, os médicos do século XIV começaram a vestir os famosos trajes de proteção para evitar contaminação. Sua criação foi atribuída a Charles de Lorne, médico particular de Luis XIII de França. Ao longo dos anos, as roupas usadas pelos médicos da peste mudaram bem pouco. 

O chapéu preto de aba curta era tipicamente usado pelos praticantes da medicina. Quando um médico saía à campo ou para realizar um exame, o chapéu era uma espécie de identificação para que fosse reconhecido por guardas e vigias noturnos que poderiam interpelá-lo em um momento de urgência. O corpo era protegido por um grande manto geralmente preto para que as manchas de sangue não ficassem evidentes. Sobre o manto vestiam um avental coberto de cera ou parafina que o tornava à prova d'água. O colarinho do traje era suspenso e amarrado por um cordão que servia também para proteger a cabeça. Sapatos com solas reforçadas eram usadas nos pés, junto com caneleiras de couro reforçado quando não haviam botas disponíveis. As mãos eram protegidas por luvas grossas que se estendiam até o antebraço e eram amarradas às mangas do manto.

O médico carregava uma mochila trespassada no peito por cima do avental. Ali levava seus instrumentos, que incluíam vidros para coleta, bandagens, facas afiadas e vários ingredientes na forma de poções e unguentos. Fora essa mochila levavam a mão um tipo de bengala de madeira indispensável para realizar os exames de uma distância segura. A bengala era usada para apontar, tocar e manipular os doentes de uma distância segura. À elas podia ser acoplada uma faca para furar e perfurar cadáveres quando o médico buscava sinais da doença nos mortos (marcas escuras e feridas no pescoço, axilas e virilha). A bengala além disso, podia ser usada como uma arma eficaz para golpear pessoas enlouquecidas pela doença. 


Entretanto, era o rosto do Médico da Praga que mais chamava a atenção. Sobre a face eles usavam uma grotesca máscara confeccionada de tecido ou couro, dotada de uma longa protuberância similar a um bico. No interior deste eram depositadas ervas aromáticas (menta, mirra, sândalo, láudano) e temperos fortes (pimenta limão, canela e junípero) que supostamente filtravam e diminuíam a potência dos miasmas. No melhor dos casos, essa medida servia para reduzir o fedor, mas na prática era pouco eficaz contra a doença. 

Os olhos eram protegidos por aros de vidro grosso, associados a saber e aprendizado. Alguns médicos defendiam que vidro vermelho era o ideal para essa proteção, uma vez que ele permitiria enxergar com mais clareza as emanações miasmáticas no ar. A máscara era amarrada ou costurada no manto para evitar que se desprendesse da face. O pescoço era considerada uma área sensível, por isso ele era envolvido por um cachecol de tecido embebido em cânfora. Nenhuma parte do corpo ficava à mostra, mas toda essa proteção era extremamente desconfortável.

O Médico da Peste geralmente contava com um assistente de confiança que o acompanhava em seus trabalhos de campo. Este em geral era um aprendiz que tencionava também exercer o ofício de seu mestre. Muitas vezes eram jovens, não raramente crianças. Eles não contavam com um traje igual ao do médico, por isso, muitas vezes a carreira era abreviada pelas circunstâncias. A função do assistente era conduzir o praticante, já que a visão deste ficava comprometida pelas lentes que acabavam embaçando. Outra atribuição era falar com as pessoas já que muitas vezes estes não conseguiam ouvir o que o médico dizia por trás da máscara. Era comum que Médicos e ajudantes desenvolvessem uma forma de comunicação através de sinais para facilitar sua interação.    

O conjunto era impressionante e transmitia à população uma aura de austeridade e seriedade. Há relatos de que a mera visão de um médico era suficiente para conjurar pânico e fazer com que as pessoas fugissem assustadas. Em algumas partes da Europa eles eram chamados de Corvos, Gralhas e Aves Negras e sua aparição representava a certeza de que o pior estava à caminho.

Não por acaso, o traje logo foi incorporado pelas companhias itinerantes de artistas mambembes, em especial a Commedia dell'Arte que criou um personagem chamado Medico della Peste. A máscara é uma peça até hoje popular no Carnaval de Veneza.


Curiosamente quando os Médicos da Peste apareceram, sua função não era tratar dos doentes ou mesmo reduzir o grau de contaminação. Ninguém esperava que eles pudessem fazer tal coisa. A função dos médicos era basicamente observar a ação da doença, verificar como ela se espalhava e principalmente contabilizar os mortos. Acreditava-se que a observação poderia de alguma forma resultar em uma maior compreensão do desenvolvimento e progressão da epidemia.

De fato, bem poucos Médicos da Peste podiam ser realmente chamados de médicos pois sequer exerciam esse ofício. Em geral, os homens que vestiam a máscara e entravam em lugares devastados pela Peste, não possuíam educação formal. Quando se metiam a tratar a população afligida, o faziam através de métodos torpes como a realização de sangrias e o uso de remédios caseiros. Era comum o uso de sanguessugas e sapos que supostamente tinham a faculdade de sorver os miasmas responsáveis pelas moléstias. 

Eram quando muito médicos de segunda categoria ou recém formados em busca de um trabalho estável. Na França e Países Baixos atendiam pelo nome de Empíricos que auxiliavam aos médicos oficiais que jamais iriam se arriscar em um trabalho tão perigoso.

Isso não significava que os Médicos da Peste não conseguissem obter resultados graças ao seu trabalho. Foi através da observação deles que muitos progressos foram feitos, sobretudo no que diz respeito a transmissão e proliferação da doença. Foram Médicos da Peste os primeiros a fazer uma relação direta entre condições de alimentação e higiene com a taxa de mortalidade. Com o tempo, eles ganharam respeito e admiração, chegando a obter inclusive a permissão clerical para realizar autópsias e conduzir cremações, dois fortes tabus religiosos. Graças ao aconselhamento de Médicos da Peste, partes de cidades foram colocadas em quarentena como medida de segurança. Eles também instruíam a população sobre como se comportar durante a epidemia.  

No século XV, os Médicos da Peste já eram contratados por governantes que pagavam a eles salários consideráveis. Praticantes famosos eram especialmente requisitados e certas cidades consideravam uma questão de prestígio contar com mais de um desses profissionais quando havia uma peste à caminho. Veneza, com seu rico comércio chegou a contar com um plantel de dezoito Médicos da Peste em 1348. O Papa Clemente VI contratou uma equipe de 10 desses profissionais para auxiliar em uma epidemia que atingiu Avignon.


Em 1650, dois importantes Médicos da Peste de Barcelona foram sequestrados por bandidos de estrada quando estavam a caminho de Tortosa onde havia eclodido uma epidemia. Um resgate foi exigido e após grande pressão popular, a cidade acabou pagando o que era demandado pelos criminosos garantindo assim o regresso de seus médicos. Com efeito, muitos Médicos da Peste se tornaram exclusivos das cidades que os contratavam, como o respeitado Matteo Angelo que em 1348 ganhava quatro vezes mais do que qualquer médico convencional.

Com o passar dos séculos, a medicina progrediu e a ciência foi capaz de compreender as causas das epidemias e como lidar com elas para diminuir as fatalidades. Mas à despeito disso, Médicos da Peste ainda podiam ser encontrados ao longo do século XVIII, XIX e até o início do XX, acompanhando o rastro das grandes epidemias modernas. Em plena década de 1920, Médicos da Peste ressurgiram (com direito a máscara e manto) tentando auxiliar o combate da Gripe Espanhola (Influenza) que se alastrou pelo Mundo logo após a Grande Guerra.

Hoje vivemos a realidade de uma nova pandemia, exatamente 100 anos depois da última grande tragédia mundial de saúde. O Covid-19 já escreveu seu nome no rol das doenças que colocaram a humanidade em cheque e que nos desafiam a encontrar maneiras de enfrentar um inimigo invisível. 

Não é a primeira vez, não será a última, mas nós vamos prevalecer.

terça-feira, 5 de maio de 2020

A Vingança do Porco - Delocher o espírito assassino que aterrorizou Dublin


Os frequentadores do movimentado bairro de Cornmarket, na cidade de Dublin, Irlanda, sequer imaginam que esse lugar, famoso por atrair turistas e visitantes, possui uma história incomum e absurdamente bizarra. No passado, todo o quarteirão era conhecido pelo ameaçador nome de Prisão do Cachorro Preto (Black Dog Prision).

Ali havia uma temida Casa de Detenção, construída no século XVII e cuja existência se tornou sinônimo de corrupção, má administração e abuso. O propósito da prisão era receber criminosos que aguardavam julgamento no tribunal de justiça no outro lado da rua. A cadeia funcionava como um empreendimento de negócio, onde tudo nela era pago. O prisioneiro tinha que pagar pelo seu espaço, pela sua comida e pelo tempo que ficaria aguardando o julgamento no local. Aqueles que podiam dispensar algumas moedas eram levados para uma das celas e ficavam lá à espera de seu julgamento. A proposta da Cadeia era desafogar o sistema prisional da cidade e garantir que os acusados que não tivessem ainda sido condenados ficassem em um local adequado até sua sentença ser proferida. Mas é claro, a proposta justa acabou sendo desvirtuada pela ganância humana.

O diretor e os guardas logo viram na Prisão uma oportunidade para explorar os prisioneiros e extorquir deles até o último centavo. As condições de vida na Black Dog eram deploráveis, para dizer o mínimo. Os prisioneiros pagavam por acomodações infestadas de pulgas, piolhos e carrapatos, recebiam comida estragada e ficavam longos períodos trancafiados em solitárias. Quanto mais tempo os presos passassem na cadeia, mais teriam de pagar pelas acomodações. Aqueles que não possuíam dinheiro ou que não podiam pedir a parentes, eram enviados para uma área subterrânea abaixo do complexo. No passado, o lugar havia funcionado como masmorra medieval, e acabou sendo convertido uma vez mais em prisão. A masmorra era úmida, suja, repleta de ratos e com um ar estagnado difícil de respirar.

Os prisioneiros enviados para esse lugar o chamavam de Inferno, enquanto que as celas pagas eram apelidadas de Purgatório. E realmente, essa parecia ser a melhor comparação. Um homem podia resistir alguns dias nas celas, mas nas condições insalubres da masmorra mal iluminada, era questão de tempo até o acusado definhar ou contrair alguma doença que se provava fatal.

Em 1788 um interno conhecido apenas como Olocher foi enviado para a Prisão para aguardar julgamento. Ele era acusado de estupro e assassinato de uma jovem mulher, mas havia a suspeita de muitos outros crimes semelhantes. Ele aguardava que o juiz lhe desse a sentença e todos esperavam que ele fosse mandado para a forca pelos seus horríveis crimes. Olocher tinha algum dinheiro guardado e assim pagou para ficar em uma cela e receber comida ao longo de pelo menos duas semanas como hóspede da Black Dog. Os carcereiros o detestavam e o tratavam com desprezo, mas aceitavam suas moedas que eram entregues diariamente por um primo que vinha trazer o pagamento.

Alguns dias depois, um Juiz ordenou que Olocher fosse levado à sua presença para receber a pena. Conforme esperado, ele foi condenado a ser conduzido ao patíbulo de Gallows Green onde deveria ser enforcado até a morte. Como já estava tarde para transportar o preso, ele foi colocado novamente em sua cela na Black Dog para aguardar transferência.


Na manhã seguinte, um dos carcereiros, um homem que atendia pelo nome de Charles Hard foi inspecionar a cela de Olocher e o encontrou morto. Hard já havia tido desentendimentos com Olocher e em uma ocasião o agrediu com um porrete, de modo que ele não se importou em absoluto com o destino do prisioneiro. No entanto, as pessoas ficaram indignadas já que o homem escaparia à sua justa punição. Se os presos pudessem cometer suicídio antes da execução, esta acabaria perdendo o seu sentido punitivo. Para resolver a situação e dar alguma satisfação à família da jovem assassinada por Olocher, um juiz decidiu levar à cargo a sentença.

O corpo sem vida de Olocher foi carregado até o Patíbulo em uma maca improvisada, recebendo cusparadas, xingamentos e uma chuva de frutas podres. Ao chegar lá, foi acomodado em uma cadeira e a corda posicionada em torno de seu pescoço, como se ele estivesse vivo. Quando o cadafalso se abriu, a cadeira despencou no buraco, mas o cadáver ficou pendurado conforme o desejado. Ele balançou na ponta da corda por alguns instantes, sem qualquer reação e conforme o protocolo foi deixado ali por mais alguns instantes. Um médico verificou a pulsação e declarou que ele estava morto. A seguir, o cadáver foi mandado para ser enterrado no cemitério próximo.

Esse poderia ser o final da história, mas ainda havia muitas coisas estranhas para acontecer.

Na noite seguinte, o carcereiro Charles Hard saiu de um pub próximo de Cork Street após beber algumas cervejas. Momentos depois seus gritos foram ouvidos ecoando pelas ruas desertas. Ele foi encontrado inconsciente, estirado em uma poça de seu próprio sangue e para todos os efeitos parecia ter sido atacado por um algum animal grande e selvagem. Quando retomou a consciência, insistiu que havia sido vítima da investida de um enorme porco, com a face deformada de um homem. Hard continuou jurando que seu agressor tinha essa forma medonha e quando fechava os olhos era acometido por delírios nos quais via a criatura. Ele resistiu por dois dias, mas morreu em um quarto de hospital, febril e aterrorizado demais para se recuperar dos ferimentos impingidos por seu misterioso assassino.

Nas noites que se seguiram, guardas escalados para patrulhar as ruas se recusaram a cumprir sua tarefa. Vários deles disseram ter visto um imenso porco correndo pelas ruas em um tropel barulhento de cascos batendo contra as pedras do calçamento. Nos arredores da Casa de Detenção, o ruído foi tão alto e apavorante que presos e guardas tamparam os ouvidos para se proteger da algazarra.     

A histeria se espalhou entre a população que logo relacionou a aparição da besta com o suicídio de Olocher. Afirmavam que a sepultura do homem, havia sido escavada e de dentro dela seu corpo sumira. Na concepção das pessoas do distrito, o inferno havia recusado o homem e o devolvido ao mundo dos vivos na forma de uma entidade demoníaca. Eles começaram a chamá-lo de "Delocher" e temiam sua vingança.


Os arredores da prisão pareciam ser o território de caça da alegada criatura diabólica. Com os guardas se negando a patrulhar Cork Street, um homem se voluntariou para fazê-lo, ganhando aplausos e incentivo de todos os demais. Entretanto, na manhã seguinte o bravo guarda havia sumido do posto, seu rifle e roupas foram achados caídos no chão. Todos imediatamente assumiram que ele teria sido morto pelo Delocher, que o teria carregado para algum covil onde o devorou, corpo e alma.

Seguiu-se nova noite de terror, e na manhã seguinte uma mulher da vizinhança disse ter sido atacada pelo Porco Delocher. O animal lhe deixou duas feridas feias ao mordê-la, mas ela conseguiu escapar aos trancos e barrancos, gritando em desespero.

Isso foi apenas o começo - noite após noite, essa área importante de Dublin era assolada pela criatura e por gritos de mulheres que pareciam ser as vítimas preferenciais do Dolocher que desaparecia na noite. "Mulheres", alguém inferiu, "como aquelas que o criminoso estuprou quando estava vivo".

As autoridades e residentes viviam aterrorizados, com o inverno as ruas ficavam desertas após o anoitecer. A medida que os dias se tornavam mais longos e a Primavera deu lugar ao Verão, os ataques cessaram e Dublin respirou aliviada. Mas o retorno das noites mais escuras e enevoadas, marcou a volta do Delocher uma vez mais. Como havia acontecido um ano antes, as pessoas se trancaram em suas casa, sem ousar sair até o raiar do sol. Mesmo assim, a besta continuava à solta espreitando em busca de vítimas. Uma, duas, quatro, dez... o número variava de acordo com a pessoa a quem se perguntava. Mas com certeza, todos sabiam de um ataque especialmente selvagem que teve como alvo uma mulher grávida que perdeu seu bebê.

Um grupo de vigilantes se organizou após essa tragédia. Depois de beberem num bar, desceram a Cork Street em bandos, matando e mutilando todos os porcos que encontravam pelo caminho. Com machado e facão, cutelo e porrete deixaram um rastro rubro de suínos massacrados nas ruas tortuosas da cidade. Havia a suposição de que o demônio procurava porcos para possuir, como fizera a Legião de demônios na passagem bíblica do Milagre de Gadareno. Um pastor havia afirmado tal coisa no púlpito e os fiéis tomaram como verdade. Os pobres porcos pagaram.

Uma semana mais tarde, numa noite desagradável, marcada por chuva torrencial, um ferreiro muito querido na cidade terminou sua caneca habitual de cerveja e começou a andar para casa. Um amigo lhe emprestou um manto com capuz para que ele chegasse em casa o mais seco possível. O homem cortava caminho pela área da Prisão do Cachorro Negro quando ouviu passos e um grunhido medonho vindo de uma viela. Virou-se a tempo de ver uma figura se esgueirando para atacá-lo - um homem com a cara de porco.


O ferreiro se engalfinhou com o agressor, os dois rolaram no chão. Os gritos atraíram algumas pessoas na vizinhança que vieram ver do que se tratava e estes se depararam com a cena. Assustados ajudaram o ferreiro, batendo na criatura meio-homem-meio-porco até ela parar de se mover. Logo a notícia se espalhou pelo distrito, o Dolocher havia sido subjugado pelo ferreiro e meia dúzia de corajosos.

Descobriram então que a criatura não era monstro e menos ainda demônio, mas um homem que vestia uma máscara feita com o couro curtido da face de um porco. Levaram o sujeito, com múltiplos ossos partidos para o hospital mais próximo onde ele começou a relatar sua história. Lá ele foi reconhecido como o guarda que havia desaparecido na estação anterior e que sozinho havia se oferecido para vigiar as ruas. 

Ele confessou ter planejado cada passo de seu ardil, tendo ajudado Olocher a se suicidar, ocasião em que decidiu se valer das histórias sobre o porco demoníaco para atacar mulheres inocentes e colocar Dublin num estado de pânico jamais visto. O guarda assumiu cada um dos ataques, afirmando que a máscara de porco lhe dava a segurança para praticar os crimes impunemente, sobretudo porque ninguém o reconheceria. Após seu "desaparecimento" ele viveu por meses numa fazenda próxima, indo a Dublin apenas depois do anoitecer para fazer seus ataques e depois se esconder novamente. Valendo-se do pânico que sua imagem conjurava, ele vitimou ao menos uma dúzia de mulheres e planejava fazer o mesmo na noite em que foi pego. O manto fechado do ferreiro fez com que ele o confundisse com uma mulher. 

O motivo para a onda de mortes e ataques? Loucura pura e simples! Vestir a máscara e se fazer passar pela criatura lhe dava um prazer macabro.

O criminoso morreu em decorrência dos múltiplos ferimentos recebidos quando foi capturado. Alguns disseram que a justiça havia sido feita, mas outros exigiram que a sentença fosse cumprida como mandava a lei. Dois dias depois do homem ser enterrado num jazigo, uma multidão desenterrou o corpo e carregou até o patíbulo da Cadeia onde pediram que ele fosse pendurado na ponta da corda e enforcado como cabia a um criminoso vil. Em seguida, o corpo foi descido e massacrado pela turba feroz que o despedaçou e ateou fogo até que nada mais restasse além de más memórias.

Com isso, o reinado de terror do Dolocher, o Porco Diabo, chegou ao fim na velha Dublin.

sábado, 2 de maio de 2020

A Besta dos Esgotos - A fera que aterrorizou os subterrâneos de Londres


Nos séculos XVIII e XIX existia um mundo estranho e proibido abaixo das ruas movimentadas de Londres. Os habitantes da grande metrópole caminhavam sobre esse mundo, ignorando sua complexa vastidão. Mas nas profundezas da terra, milhas de túneis de esgoto, criados ao longo dos tempos se estendiam até distâncias inimagináveis. Túneis que foram construídos sem grande planejamento, com o propósito de despejar a maré de detritos e sujeira o mais longe possível da cidade. Uma teia infindável de caminhos e corredores, verdadeiro labirinto subterrâneo, esquecido e inexplorado. 

Em meio a essas misteriosas profundezas, dominadas pela escuridão perpétua e tomadas por um fedor atroz, surgiram lendas, mitos e histórias selvagens, incluindo a medonha fábula de uma espécie de sanguinários e ferozes suínos gigantes. As Bestas do Esgoto de Londres alimentaram rumores e tiraram o sono de muita gente.

Esses rumores vieram à superfície, ou melhor foram trazidos à luz da civilização por exploradores dos esgotos conhecidos como "toshers". Os Toshers eram caçadores dos túneis, chamados dessa forma por conta do apelido dos tesouros que eles buscavam nas profundezas, o "tosh". Eram homens e mulheres desesperados, que vasculhavam os caminhos escuros caminhando em meio aos restos da civilização, desviando-se de ratazanas e perigos inimagináveis, resgatando qualquer coisa valiosa que tivesse sido perdida do mundo acima: o Tosh. Artefatos antigos, pedaços de metal, cobre, prata, moedas, jóias, praticamente qualquer coisa que pudesse ter escoado pelos bueiros e fossas da cidade na superfície e que tivesse se alojado nos refugos. Tiravam desse perigoso ofício seu sustento, empilhando sucata e restos em feiras clandestinas onde o Tosh, era apresentado a compradores em potencial. Em uma cidade antiga como Londres, marcada por antas transformações e períodos, era surpreendente o que os Toshers encontravam nas profundezas - de artefatos romanos a jóias saxãs, de moedas estrangeiras a talheres de prata. 

Era um trabalho extremamente perigoso e nem sempre recompensador. Um Tosher podia passar meses sem encontrar nada de valor, tendo de sobreviver com sucata e restos de metal, mas aqueles que tinham sorte, podiam encontrar algo valioso que alimentaria suas famílias por um bom tempo. Com uma população cada vez maior, o trabalho de Tosher atraia mais e mais pessoas e por conta do grave risco que essa ocupação impunha, o governo a tornou ilegal em 1840. A proibição, no entanto, serviu apenas para tornar ainda mais desejados os artefatos resgatados pelos Toshers.

Na metade do século XIX, o jornalista Henry Mayhew, que documentou a degradação e miséria da Londres Victoriana num livro intitulado "Trabalhadores de Londres", dedicou algumas linhas a respeito desses exploradores que mais pareciam criaturas dos subterrâneos do que homens. 

Ele escreveu sobre os toshers:

"Eles são conhecidos e vistos ao longo do curso do Tâmisa, especialmente na margem escuras do Surrey. Vestem longos mantos ensebados de lona reforçada, com bolsos profundos costurados ao longo de toda extensão. Os membros são protegidos por tiras de couro, luvas e botas grossas, enquanto o rosto fica atrás de máscaras de tecido e a cabeça coberta por chapéus ou capacetes improvisados de couro ou metal... vestem por cima do conjunto um imundo avental pesado de couro cru e carregam lanternas semelhante à dos policiais. Estas podem ser presas em cinturões ou fixadas no topo dos capacetes para iluminar o caminho, deixando as mãos livres afim de manipular e esquadrinhar os arredores. Caminham arquejados pelo peso desse traje, olhando para o chão em busca de algo de valor em meio à água cinzenta e refugo decomposto que os cerca. São conhecidos com trazer uma grande bolsa nas costas para reunir sua coleta e por carregar uma longa vara ou cano de metal que serve tanto para sondar o caminho quanto para golpear os ratos".        


Os Tosher corriam riscos imensos em seu ofício. A morte podia se apresentar na forma de desabamentos, fumaça tóxica, explosões de metano ou buracos escondidos pela água. Havia ainda a possibilidade de se perder nos labirintos e não encontrar o caminho de volta. A perspectiva de vagar à esmo pelos túneis sem jamais ver a luz do sol novamente. Por vezes, os tosher seguiam um túnel e penetravam em uma área infestada por imensos ratos de esgoto dispostos a lutar pelo seu território. Tinham então que esmagar os animais, enfrentando garras e presas afiadas para escapar. Esses roedores não temiam invasores e suas mordidas conseguiam atravessar até a lona reforçada dos trajes. 

Mas pior que tudo isso, se sujeitavam às inúmeras doenças boiando na água pútrida e nos restos descartados por homens e animais. De fato, entre os requisitos essenciais para a ocupação de Tosher, estavam ter estômago para suportar esse ambiente nauseante e uma resistência fora do normal às doenças que ali proliferavam. Era frequente, entretanto, que um Tosher carregasse no corpo as marcas de seu horrendo trabalho, na forma de incontáveis moléstias. Muitos tinham a face marcada por doenças, a pele descamada, mãos e pés com feridas que jamais fechavam, dificuldades respiratórias e alergias das mais variadas. Anos e anos na cloaca da civilização tornava alguns deles especialmente resistentes, mas o abuso do corpo cobrava seu preço. O fedor acabava com seu paladar e olfato, o tempo na escuridão os deixava sensíveis à luz, carregavam um fedor indescritível e aos olhos das pessoas civilizadas pareciam apenas semi-humanos.

Para os que se dispunham a ouvir, compartilhavam toda sorte de relato fantástico das suas jornadas pelos túneis. Uma dessas fábulas obscuras mencionava um horror que habitava as profundezas e disputava aquele território insalubre conectado por infindáveis corredores limosos. Eram monstros de grande porte, criaturas selvagens habituadas a viver na escuridão perpétua, se alimentando do lixo e resíduos levados pela maré. Segundo rumores, a área da cidade conhecida como Hampstead era seu domínio e os Tosher que entravam lá se arriscavam a cruzar com essas grandes bestas - Porcos do Esgoto.          

A maioria das pessoas desconhece a ameaça que esses animais representam. Um suíno selvagem possui muita força e esta, combinada à voracidade, o torna uma máquina de matar e comer. Porcos podem comer virtualmente qualquer coisa e quando sujeitos a condições adversas se adaptam facilmente. Um porco perdido no esgoto pode disputar o espaço com ratos se alimentando deles e tornando-se instintivamente carnívoro. Dali a se converter em um caçador é um passo.


Toshers afirmavam que nenhum perigo nas profundezas era maior que os Porcos do Esgoto. Os olhos dessas feras reluziam na escuridão, instantes antes deles avançarem ferozmente. Qualquer pessoa derrubada por um desses suínos demoníacos podia ser mordida ou esmagada. Os toshers estavam sempre vigilantes da presença desse inimigo natural. Alguns desciam às profundezas carregando cutelos, machadinhas e lanças para enfrentá-los. Uma luta contra esses porcos era sempre sangrenta e desesperadora já que as feras eram incrivelmente tenazes.

Mas como esses porcos teriam ido parar nos esgotos em primeiro lugar? A ideia mais frequente é que os porcos teriam entrado por algum túnel em busca de comida e se perdido. No século XIX, porcos ainda podiam ser encontrados andando livremente pelas ruas de distritos mais pobres e se alimentando do que escorria pelas sarjetas. Havia ainda fazendas nos arredores da metrópole, de onde porcos podiam se desgarrar e seguir o curso do Tâmisa até alguma fossa e dali para a boca de um cano de despejo. Se uma quantidade de porcos se perdeu nos túneis, não seria de se espantar que eles pudessem ter se reproduzido, gerando espécimes naturalmente adaptados a esse ambiente. A mistura desses espécimes daria ensejo a defeitos genéticos e anormalidades. Isso poderia explicar as descrições de bizarros porcos albinos, com a pele branca como leite e olhos vermelhos que jamais haviam visto a luz do dia. Além de animais horrivelmente deformados, verdadeiras monstruosidades.

O mesmo jornalista Henry Mayhew ouviu esses relatos fantásticos quando entrevistou alguns Toshers: 

"Alguns deles (toshers) acreditam que esses animais surgiram por acidente, acabaram descendo aos esgotos em busca de comida e lá se perderam. Os rumores envolvem ainda a história de uma imensa porca grávida que teve sua ninhada nos esgotos e estes se espalharam pelos túneis alimentando-se do lixo abundante. Lá, eles teriam se multiplicado, tornando-se ferozes". 

Segundo Mayhews que alegadamente conversou com Toshers, o número de porcos de Esgotos era superior a duas dúzias, mas poderiam haver mais nas partes mais profundas, onde apenas alguns poucos exploradores ousavam ir. A história, trazida aos jornais acabou se tornando popular entre os londrinos do período. A ideia de enormes e brutais suínos vagando pelos subterrâneos parecia algo tirado de uma história de horror, e isso manteve o interesse do público. Outros jornais sensacionalistas se alimentaram dessa história e um artigo apareceu no Daily Telegraph em 10 de outubro de 1859 mencionando os Porcos de Esgoto num editorial.  

"Londres é uma amálgama de mundos dentro de mundos, e as ocorrências do dia a dia nos convencem de que existem as mais diferentes na cidade, muitas das quais absolutamente desconhecidas. Há muito exagero e superstição, mas há também desconhecimento do que vaga sob nossos pés. Alguns afirmam que bestas espreitam nos túneis subterrâneos responsáveis por escoar os restos da civilização para longe. Nos esgotos de Hampstead, enormes suínos habitam em meio a feculência, prosperando nesse ambiente com seus horríveis grunhidos abaixo de Highgate".


Histórias a respeito de Porcos de Esgoto em Hampstead circularam por muitos anos, tornando-se de certa forma bastante similares a alegada existência de jacarés nos esgotos de Nova York. As histórias apenas começaram a desaparecer quando em 1858, os esgotos de Londres passaram por uma extensiva reforma estrutural. É preciso dizer que embora existissem várias narrativas sobre porcos de esgoto, jamais um deles foi apresentado para validar as histórias sobre sua existência. É possível, até provável, que os Porcos de Esgoto tenham sido uma manchete sensacionalista explorada até a exaustão pelos jornalistas da época, interessados em espalhar um rumor. O próprio Mayhew terminava o capítulo de seu livro dizendo que "a história era apócrifa e havia sido ouvida da boca de toshers que muitas vezes tendem ao exagero".

É bem possível que porcos tenham de fato entrado pelos esgotos abertos e que tenham vivido nos subterrâneos, é possível que alguns espécimes também tenham se tornado selvagens e que estes se eram perigosos, mas não há como dar crédito aos rumores sobre dúzias deles. Por outro lado, quem pode afirmar com certeza? Os Toshers que trouxeram essa história fantástica à superfície eram as únicas testemunhas do que existia e do que vagava pelos túneis.

Seja lá qual for o caso, a história continua sendo fascinante e macabra. Uma narrativa quase perdida de uma época sinistra e especialmente dura, na qual homens se sujeitavam aos trabalhos mais perigosos para sobreviver. Quando existia de fato uma cidade secreta repleta de mistérios por baixo da maior Metrópole do mundo.  

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Tripulação Desaparecida - O fatídico encontro marítimo do Ellen Austin


O mar sempre guardou grandes mistérios que se tornariam, com o tempo, lendas. Boa parte destas jamais foram resolvidas demonstrando o quão vasto e inexplorado é o reino oceânico. Desde que nossa espécie se lançou além das ondas, em direção ao horizonte, encontramos situações que não fomos capazes de explicar. A lista de mistérios envolvendo os mares parece inesgotável. 

Um caso em especial merece reconhecimento, como o grande enigma que é. Ocorrido nos anos 1800, envolvia uma embarcação que cruzou o infame Triângulo das Bermudas e desapareceu sob circunstâncias jamais explicadas até hoje.   

A escuna de três mastros com 68 metros e pesando 1,812 toneladas tinha o nome Ellen Austin. Sua carreira marinha se iniciou em 1854, quando ela foi construída nos estaleiros de Damariscotta, no Maine. Durante sua carreira, a embarcação serviu à vários propósitos, sendo que o mais frequente foi o de cargueiro, operando na rota marítima entre Liverpool e Nova York.

O Ellen Austin parecia uma embarcação como qualquer outra, mas ela tinha uma fama desagradável entre os homens do mar. Vários marinheiros que serviram à bordo relataram um tratamento abusivo por parte dos oficiais. De fato, o Capitão Henry Garrick era especialmente temido, tendo sido acusado de tortura e brutalidade repetidas vezes. Ele era descrito como um tipo violento que apoiava o uso indiscriminado da chibata para disciplinar seus comandados. Apesar de ter sido acusado de cometer maus tratos, as acusações foram arquivadas e nenhum processo foi levado adiante. Apesar disso Garrick permanecia no comando do Ellen Austin.


Em 1859, o Ellen Austin se converteu num Navio de Passageiros, transportando imigrantes da Europa para a América. Sádico e cruel, Garrick costumava sujeitar os passageiros a humilhações, reduzindo provisões e ordenando o confinamento nos alojamentos inferiores. Dizia odiar o fedor que vinha dos imigrantes e instruía seus homens a espancar aqueles que o desafiavam. Uma segunda infração poderia ser punida com o transgressor sendo atirado no mar. Os boatos eram de que a cada viagem, no porto de destino desembarcavam menos passageiros do que haviam embarcado.

À época, o jornal New York Times proclamou o seguinte a respeito da embarcação:

"Os oficiais do Ellen Austin possuem grande notoriedade. Muitos mencionam a crueldade dos homens que servem à bordo dessa embarcação, destacando agressões, surras e conduta imprópria (uma forma delicada de dizer abuso sexual, à bordo). O Ellen Austin tem por costume ignorar inspeções das autoridades portuárias. Seus passageiros reclamam frequentemente de tratamento desumano e cruel nas viagens empreendidas".   

Henry Garrick continuou sendo Capitão do Ellen Austin até se aposentar, e apesar das repercussões negativas de seu comando, ele jamais sofreu qualquer sanção. O novo Comandante, o Capitão A.J. Griffin assumiu em 1874. A embarcação continuou fazendo a linha entre a Inglaterra e os Estados Unidos e mais tarde o longo percurso entre Nova York e San Francisco. Segundo rumores o navio se envolveu em uma série de situações que incluíam colisões com outras embarcações e incêndios à bordo, estando à ponto de naufragar em certa ocasião, após ser colhido por uma terrível tempestade. 

Alguns diziam que a embarcação tinha algo de estranho... Mencionavam que parecia pesar uma aura negativa sobre o navio e as pessoas mais sensíveis se sentiam oprimidas em seu interior. A maioria destas era incapaz de descrever a sensação, se limitavam a dizer que ele simplesmente parecia ruim.


Verdade ou mentira, no ano de 1880, o navio daria início a sua mais estranha jornada, que escreveria o nome Ellen Austin no hall dos mistérios marinhos mais debatidos.

Em 5 de Dezembro de 1880, o Ellen Austin partiu de Liverpool com destino a Nova York no que deveria ser sua última viagem nessa rota, já que a embarcação havia sido vendida para um consórcio alemão. A jornada transcorreu sem nenhum evento estranho até a chegada do navio ao Mar de Sargaço no início de janeiro de 1881. Nas primeiras horas de uma manhã enevoada, dois marinheiros que estavam de vigília avistaram uma embarcação sem nome flutuando à deriva diante deles. Não parecia haver ninguém no comando e nenhum tripulante foi visto. Ao invés de ordenar a aproximação, o Capitão, suspeitando que poderia se tratar de uma armadilha de piratas, instruiu o imediato a manter distância e observar o misterioso navio pelos próximos dois dias. Este continuou em seu movimento errático, sob a vigilância cuidadosa dos oficiais do Ellen Austin.      

Como parecia não apresentar perigo, o capitão Griffin se aproximou do navio imerso em uma densa névoa que parecia acompanhá-lo. Todas as tentativas de comunicação falharam e o estranho navio à deriva parecia abandonado. Mais estranho ainda era o fato do nome ter sido raspado. Um grupo subiu à bordo tomando o cuidado de carregar consigo armas para se defender de qualquer surpresa inesperada. Descobriram que o navio à deriva estava em excelentes condições de navegação, sem avarias ou danos que justificassem seu abandono. Não havia qualquer sinal de luta que pudesse indicar um ataque pirata ou motim. Contudo, não encontraram viva alma nele.

A equipe de abordagem localizou a cabine do capitão, mas estranhamente o diário de bordo havia sumido. Objetos pessoais da tripulação e passageiros foram deixados nas cabines - inclusive dinheiro e objetos de valor. As rações estavam em ordem, suprimentos intocados, até mesmo a carga permanecia intacta, um precioso carregamento de madeira de alta qualidade avaliado em uma pequena fortuna. Por que a tripulação abandonaria essa carga valiosa? Por que deixariam a segurança do navio para se lançar ao mar? E por que tão repentinamente? Ninguém era capaz de dizer.


Considerando que nada foi roubado e que o navio se encontrava em boas condições, perfeitamente funcional, a conclusão mais razoável é que a tripulação foi forçada a evacuar, ainda que o motivo fosse incerto. A valiosa carga e o navio abandonado pareciam uma oportunidade de ouro para o Capitão do Ellen Austin, uma que poderia fazer de todos à bordo homens muito ricos. As leis do mar dizem que um navio à deriva levado até um porto pode ser reclamado por quem o resgata. O Capitão enviou seu Imediato e uma pequena equipe à bordo do navio misterioso com o intuito de conduzi-lo até o Porto de Nova York, onde poderiam reclamar sua posse.

A ideia era boa e tudo parecia correr conforme o planejado, mas então uma violenta tempestade se formou subitamente. Nuvens escuras cercaram as duas embarcações e ventos fortes agitaram as águas até então tranquilas. A tempestade despencou furiosamente e por dois dias as tripulações simplesmente perderam o contato uma com a outra. Quando finalmente os céus clarearam e o mar se tornou plácido, o navio misterioso havia simplesmente desaparecido. Ninguém conseguia entender o que podia ter acontecido. Não era normal que uma tempestade, não importando o quão forte fosse, fizesse uma embarcação sumir daquela maneira.

Apenas no dia seguinte os vigias de serviço avistaram o navio perdido no horizonte. Quando o Ellen Austin se aproximou, a tripulação esperava ver seus colegas, ms não havia ninguém à vista. Novamente os homens que estavam à bordo pareciam ter sumido sem deixar rastro. Estranhamente o diário do Capitão não estava presente, assim como havia acontecido anteriormente. 

Seguiu-se uma acalorada discussão entre os oficiais e o Capitão com os marinheiros à bordo do Ellen Austin a respeito de como proceder. É preciso compreender que os marinheiros eram em sua maioria supersticiosos e que os incidentes transcorridos passavam a impressão de que o misterioso navio era amaldiçoado. Se um segundo grupo fosse enviado até ele, era bem possível que este tivesse o meso destino do primeiro. O capitão pesou todas as possibilidades, mas no fim das contas, a carga era tão valiosa que a ganância acabou falando mais alto e ele decidiu enviar outro grupo para comandar o navio.


Os homens estavam aterrorizados de colocar os pés lá, mas os oficiais foram persuasivos. Eles receberam armas e a promessa de que as duas embarcações navegariam o mais perto possível uma da outra de modo que se surgisse algum imprevisto poderiam oferecer ajuda. O argumento do Capitão era que a mesma coisa não poderia acontecer novamente. Os navios ficaram perigosamente próximos e seguiram viagem esperando que as surpresas terminassem. Mas é claro, não foi isso que aconteceu...

De acordo com a história contada, embora o mar estivesse calmo, um denso nevoeiro surgiu do nada envolvendo as embarcações e prejudicando a visibilidade. À despeito da proximidade entre os navios, logo tornou-se impossível ver alguns poucos metros adiante. Eventualmente, o Ellen Austin conseguiu deixar a área mais densa do nevoeiro, mas quando o fez, emergiu do outro lado sozinho. O Capitão ordenou que entrassem novamente no nevoeiro, que disparassem foguetes de sinalização e soassem buzinas, mas de nada adiantou.

Quando finalmente o nevoeiro começou a se dissipar o navio misterioso não estava em lugar nenhum. Ele havia desaparecido mais uma vez levando consigo a equipe à bordo. Dessa vez, o Capitão concordou com a tripulação que o melhor seria seguir para Nova York como planejado. 

O estranho relato do alegado encontro com o navio fantasma e sua tripulação ausente vieram à público em um artigo publicado no Daily Deadwood Pioneer em 1906, mais de duas décadas depois do ocorrido. A história teria sido ouvida em uma audiência pelas autoridades navais, mas estas consideraram o acontecimento inexplicável e decidiram censurar a história e o testemunho de quem estava à bordo do Ellen Austin. Mas como censurar uma história como essa?

De fato, as narrativas sobre o estranho encontro marítimo se tornaram um rumor recorrente entre marinheiros que faziam esse mesmo trajeto. Muitos temiam sequer tentar oferecer uma explicação para o incidente. Ninguém sabia realmente o que pensar, mas a história continuava a ser contada. Considerando a localização onde os fatos transcorreram e os mistérios à cerca do célebre Triângulo das Bermudas, logo surgiram muitas teorias sobre o que poderia ter acontecido. Algumas delas realmente fantásticas.


Ao longo dos anos a narrativa cresceu, sendo contada e recontada inúmeras vezes, com trechos acrescidos ou omitidos. Com tantas versões é difícil afirmar qual a versão mais fiel e até dizer ao certo se o incidente não passa de um fato exagerado ou uma história inteiramente fabricada. Sem testemunhas e dados oficiais é bem possível que tudo não passe de fantasia, mas quem pode dizer com certeza absoluta?

Em casos espetaculares como esse, torna-se virtualmente impossível separar fato de ficção. Mas há alguns poucos registros oficiais presentes nos arquivos do Lloyds de Londres. Através destes, é possível confirmar a existência de um navio chamado Ellen Austin que fazia a rota New York e Liverpool na época em que o incidente foi relatado. O nome do capitão A.J. Griffin também está correto nos registros existentes. Também há menções de uma viagem realizada em dezembro de 1880. Mais impressionante, nos registros consta a descoberta de um navio abandonado, encontrado nessa viagem, carregando uma carga valiosa de madeira. Mas isso é tudo. Estranhamente, não há mais nenhuma informação sobre o que a tripulação fez após o encontro e se o Capitão Griffin ordenou a abordagem do navio à deriva. Todo o restante da narrativa foi omitido, como se algo importante como a descoberta de um navio à deriva, não fosse digno de nota.

O que teria acontecido nessa misteriosa viagem? Como tal historia poderia ter sido censurada à ponto da verdade se perder dessa maneira? O que poderiam as autoridades querer ocultar obrigando as testemunhas a omitir os detalhes do incidente? 

Há tantas perguntas não respondidas nesse incidente que chega a ser uma tarefa frustrante tentar responder as questões. É provável que jamais venhamos a saber e o mistério do Ellen Austin esteja fadado a ser um dos casos mais estranhos da longa lista de incidentes inexplicáveis ocorridos no Triângulo das Bermudas.