quinta-feira, 16 de maio de 2024

Infestação Voluntária - A bizarra Dieta da Solitária na Era Vitoriana


Da medonha prática de amarrar os pés em bandagens na China Imperial, passando pelos complexos rituais de escarificação nas tribos da África, até as radicais cirurgias plásticas da atualidade, a humanidade sempre esteve engajada em uma busca pela beleza. Não raramente isso envolveu alguma modificação extrema na anatomia.

Torcendo, invertendo, cortando ou alterando, a procura incessante da forma ideal é uma história de dor, sofrimento e angústia. Até que ponto as pessoas estão dispostas a ir para atingir a aparência almejada?

A Era Victoriana, não foi exceção.

O período que cobre o intervalo entre 1830 até 1900, é infame por ter estabelecido bizarras metas de beleza, e ainda mais bizarros métodos para alcançá-los, muitas vezes causando danos permanentes e até a morte.

O ideal da época era que as mulheres tivessem predicados específicos: a pele bem pálida, olhos dilatados, lábios vermelhos, bochechas coradas e a cintura, quanto mais fina melhor. Chegar a essa combinação não era nada fácil. Do consumo de amônia até banhos de arsênico- que eles sabiam ser venenoso, até o uso de espartilhos capazes de bloquear a circulação e causar falta de ar, a meta de 35 centímetros de cintura era uma fixação. Assim como aventureiros da época desejavam explorar cada centímetro do planeta, as mulheres vitorianas estavam dispostas a tudo para atingir o quase inalcançável ideal de beleza ditado pela moda.

Tudo mesmo!



Uma ilustração vitoriana que mostra como deveria ser a anatomia interna das mulheres. 

Muitas dessas praticas felizmente saíram de moda e foram abandonadas por uma questão de saúde e bom senso. Dentre os medonhos métodos de emagrecimento empregado pelos vitorianos, um é especialmente aterrorizante, asqueroso e impensável. Tirem as crianças da sala pois vamos falar da Dieta da Solitária (tapeworm diet).

O conceito era simples, e repulsivo. A pessoa engolia uma pílula contendo um ovo de solitária. Uma vez no intestino, o parasita podia crescer em seu hospedeiro, consumindo parte do alimento do qual ele se alimentava. Em teoria, isso permitia que a pessoa perdesse peso podendo continuar comendo sem medo de exagerar nas calorias. 

A ideia se encaixa a perfeitamente na mentalidade vitoriana que tinha uma visão prática a respeito do uso do mundo natural na solução de problemas do cotidiano. Uma das mais populares revistas para senhoritas da época dizia claramente em um de seus artigos: "Constitui uma obrigação de cada jovem buscar a beleza". Tal busca era um esforço contínuo que carecia de uma disciplina constante, mas apenas isso lhe permitiria encontrar um bom partido. Ninguém queria, afinal de contas, ser uma solteirona de 18 anos.

A Dieta da Solitária era portanto uma maneira válida (e natural) de encontrar a solução perfeita. Supostamente a mulher não sentiria mais fome, poderia comer uma quantidade maior e mesmo assim continuaria perdendo peso. 

Parecia bom demais para ser verdade, certo? E de fato era.

Uma propaganda da época garante que é fácil de seguir e fácil de engolir.

Nem é preciso dizer que parasitas como as solitárias podem ser um risco para a saúde, ainda mais quando você ao invés de querer se livrar delas decide mantê-las no seu organismo como seu bichinho de estimação. Claro, de um ponto de vista prático a coisa parecia funcionar as pessoas perdiam peso, mas o custo logo se provava alto demais.

Entre os sintomas mais brandos da presença do parasita estavam dores intestinais, vômito, diarreia, fadiga permanente, insônia, etc... mas em casos graves a coisa podia ser muito mais séria. A tênia solus, nome científico do verme que era a espécie favorita prescrita pelos médicos que apoiavam essa insanidade, podia se tornar um grande problema. Um problema capaz de atingir quatro metros de comprimento. 

Além disso, ovos ingeridos podiam ir parar em lugares indesejados, viajando pela corrente sanguínea eles podiam se alojar no cérebro causando algo de nome complicado chamado neurocisticercose o que desencadeava danos severos no sistema nervoso central e ocasionava convulsão, epilepsia cegueira, meningite e até hidrocefalia.

Mas hei, a pessoa ao menos ficava magrinha.

Quando os muitos problemas relacionados à Dieta da Solitária começaram a vir à tona, os médicos passaram a empregar métodos experimentais para remover os vermes do trato intestinal. Na Inglaterra Vitoriana isso podia envolver uma série de fórmulas, misturas e gororobas recebidas por meio oral. Algumas até podiam dar resultado, mas no geral era uma questão de tentativa e erro. 

Era isso que as pessoas colocavam conscientemente para dentro de seus corpos

É claro, alguns métodos pouco ortodoxos também foram desenvolvidos com o intuito de se livrar do inconveniente parasita. Um destes métodos foi criado pelo Doutor Meyers de Sheffield, que utilizava uma espécie de anzol preso a uma corda para tentar fisgar a solitária no estômago da vítima. Para isso ela tinha de engolir a coisa toda e esta era arrastada de um lado para o outro afim de pescar o bicho. Não causa surpresa alguma que pacientes simplesmente se engasgaram ou tiveram o estômago perfurado pela engenhoca. Outras curas populares envolviam segurar um copo perto da boca ou sentar numa bacia com leite e aguardar que a tênia fosse atraída pelo cheiro do leite e saísse por conta própria. Se isto realmente tem alguma validade permanece uma questão de debate, mas era uma crença bastante popular.

Há relatos bizarros de intervenções cirúrgicas desastrosas em uma época em que anestesia e desinfeção eram palavras pouco compreendidas. Um número considerável de mulheres (e também de homens, pois a estupidez não reconhece gênero) morreu nesse procedimento que visava a remoção da tênia de qualquer maneira. Em alguns casos, espécimes de até três metros foram removidos, ainda que em geral, o hospedeiro tenha sucumbido ao procedimento sanguinário ou ao pós-operatório. 

A situação foi tão traumatizante para a sociedade inglesa que entre 1870 e 1890 um dos principais terrores entre as mulheres era o de se ver infestada por vermes. A simples possibilidade de se ver contaminado causava terror, tanto que a Scolecephobia se tornou extremamente comum no período. Finalmente a adoção de substâncias eficazes ajudou a combater as infecções e salvar os pacientes.  

O que é mais assustador nesta dieta bizarra é que ela costuma ressurgir em vários momentos ao longo da história e continua a existir. Há rumores de que a cantora lírica Maria Callas fez uso dessa dieta. A sua existência é evidenciada mesmo hoje em dia em fóruns online dedicados à questão da eficiência da dieta e pelos relatórios (bastante duvidosos) de clínicas modernas que conduzem o tratamento que custa alguns milhares de dólares.

Houve um tempo em que pessoas estavam dispostas a engolir parasitas e deixar que vermes gigantes crescessem dentro de si. Tudo para ficar magra e esbelta... esse tipo de coisa diz muito sobre a humanidade e sua incrível capacidade de fazer besteira.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

O Velho Ruim - O Terrível Ancião de Kinsgport

A cidade costeira de Kingsport é conhecida como o lar de muitos indivíduos peculiares. São pessoas que escolheram viver nesse pequeno e aprazível balneário da Nova Inglaterra, cujo cenário litorâneo e belas paisagens atrai visitantes ávidos por sua tranquilidade pastoral.

Dentre os habitantes mais ilustres (ou seria notórios?) da pequena cidade, encontramos um que suscita um sentimento de dúvida mesmo entre os residentes mais antigos. São poucos os que conhecem detalhes sobre ele, e menos ainda os interessados em saber. Sua existência sempre foi marcada por rumores, muitos dos quais, os forasteiros mais esclarecidos, considerariam na melhor das hipóteses infundados e na pior, absurdos. "Coisa de cidade pequena", diriam os céticos. Mas não o bom povo de Kingsport, essa lavra de taciturnos yankees acostumou-se com certas coisas a ponto de tê-las como fatos indiscutíveis. Assim é sobre os insondáveis mistérios do mar, o encanto das ondas e a presença do mais antigo morador da cidade, que alguns chamam de o Terrível Ancião.

Não se sabe quem foi o responsável por cunhar esse apelido ou quando ele passou a ser usado para identificar o velho barbudo e grisalho que vive na parte mais isolada da Rua da Água perto do mar. Verdade seja dita, aqueles que se referem a ele dessa maneira se certificam de que ele não está por perto, temendo que o velho ruim (outra alcunha usada para ele) possa estar ouvindo. Ninguém nunca gostou muito dele e é corriqueiro que as pessoas prefiram manter certo distanciamento dele e de sua propriedade. Muitos passam longe dela ou fazer a volta quando o veem claudicando pelas vielas da cidade.

O Terrível Ancião habita uma casa igualmente antiga com muro alto e aparência desleixada. Para o transeunte desavisado o lugar pode passar facilmente a ideia de ser uma morada abandonada. Contudo, o Velho Ruim reside lá desde que os mais antigos habitantes são capazes de recordar.

A casa é imponente e soturna, com um pátio ajardinado com árvores retorcidas e onde o mato cresce selvagem, salpicado por erva daninha e arbustos de espinheiro. Dada a proximidade do mar há ainda algas sopradas pelo vento que ali se depositam em novelos. Coberto por essa mesma vegetação bolorenta podem ser vistas agrupadas estranhas estátuas esculpidas em pedra. São carrancas e representações bizarras de monstros marinhos que felizmente se encontram tão dilapidadas que os detalhes não são mais perceptíveis. Alguns sugerem que o próprio ancião foi o artista responsável por essas imagens, mas outros atestam que ele as trouxe de terras exóticas, onde povos pagãos talharam essas formas ímpias para adornar seus templos. 

O jardim insalubre, ainda que pujante, conduz até o alpendre de madeira carcomida, onde uma cadeira de balanço permanece disposta, ainda que o velho raramente a utilize. Houve tempo que ele observava os andarilhos que desciam a rua apressando o passo ao desfilar diante de sua calçada rachada. Mas hoje em dia, raramente ele é visto ali.

Todos que tem a curiosidade de observar a fachada venerável da casa de alvenaria, percebem que ela possui estranhos símbolos arranhados nas pedras gastas e madeira maciça. Alguns sugerem se tratar de grifos náuticos, mas outros reputam a eles origem cabalística. Os vidros nas janelas são grossos e amarelados, cobertos por uma camada de poeira que aderiu a maresia. Alguns deles foram rachados por pedras atiradas por algum menino mais valente. O telhado claramente necessita de reparos, mas ninguém iria se voluntariar para esse serviço. 

É motivo de debate entre o povo de Kingsport a razão pela qual a vivenda do Terrível Ancião parece estar sempre imersa numa densa névoa cinzenta. O fog oceânico não é, de modo algum, raro na cidade, contudo ele parece assomar nesse endereço, ganhando corpo e se avolumando em espessas nuvens pairando sobre o quintal. Quem observa esse fenômeno se surpreende ao constatar que o nevoeiro repousa ali, estático como se estivesse à vontade naquela localidade. Isso cria um efeito incomum que contribui sobremaneira para a aura enigmática da morada.

Se por fora a propriedade levanta dúvidas, seu interior constitui um mistério ainda maior. Até onde se sabe, o Terrível Ancião é o único residente e são raríssimos os visitantes que ele admite além de seus umbrais. Aqueles que lá estiveram, ou que se esgueiraram para espiar o interior, comentam que há um salão de visita com assoalho de madeira, uma lareira sempre crepitando e um ambiente rústico repleto de velhos artefatos náuticos. Não se trata de decoração, já que essa miscelânea de objetos empoeirados se encontram dispersos sem ordem definida junto das paredes, sobre alguma mesa de canto, prateleira ou na bancada da lareira. 

O ocupante da casa tudo indica cedeu ao hábito que muitos velhos adquirem com o tempo, o de guardar coisas sem serventia pela simples razão deles serem lembretes de sua vivência. Digno de nota, e mencionado pelos que visitaram a casa, é uma coleção de estranhas garrafas de vidro azulado de forma e aspecto singular que repousam sobre uma sólida mesa de mogno castanho ao lado da lareira. Há algo de sinistro nessa coleção, ou assim dizem os que a viram brevemente.

As tais garrafas são antigas, isso é certo, mas nada explica o estranho brilho que elas emitem. Todos e cada um desses vasilhames se encontram cuidadosamente lacrados com rolhas de cortiça cobertas por cera de vela. É consenso que as garrafas estão vazias, exceto por um fino fio prateado preso a parte interna da rolha. Na ponta desse pendulo, curiosos pingentes de chumbo rodopiam no interior das garrafas. Alguns sugerem que o velho, provavelmente senil, tem por costume engajar em animadas conversas com essas garrafas e que elas costumam emitir estranhos ruídos e vibrações nessas ocasiões. Superstições sem sombra de dúvida, mas ao menos um indivíduo que esteve na casa sentado diante da mesa relatou ter visto silhuetas fugazes surgirem na superfície do vidro apenas para sumir em seguida.

Não se sabe muito sobre os demais cômodos da propriedade. Contudo é certo que o quarto do Ancião fica no segundo pavimento acessado por uma escadaria empoeirada que range e reclama a cada degrau. 

Muitos dizem que a casa é reflexo de quem nela reside, e isso é verdade no que tange ao seu habitante único. Ele é indubitavelmente um indivíduo de idade avançada, mas não é fácil determinar quantos anos ele tem. Isso porque, embora pareça velho, e velho seja, reside nesse vetusto ancião uma centelha admirável de energia. Algo em seus olhos atentos de um azul pálido contradiz o molde de um velho encarquilhado. Embora se mova amparado numa bengala de madeira nodosa, ele parece fingir o manquitolar débil que exibe, falseando propositalmente para que o tomem por alguém frágil.

Sua aparência geral pode ser descrita como desgrenhada. Sua face enrugada e empalidecida conserva uma perpétua expressão sisuda de desagrado. Os cabelos grisalhos e a barba crescem como uma única coisa, formando um emaranhado grosso que escorre pelos ombros e pelo queixo. As sobrancelhas são grossas e os tufos que brotam de suas orelhas e nariz lhe conferem uma imagem lupina. As roupas que veste são puídas, datadas de duas ou mais gerações atrás.   

O excêntrico morador transita pelos cantos da casa, preparando as próprias refeições e fazendo suas tarefas sem requisitar a ajuda de ninguém. Até algum tempo atrás ele era visto rachando lenha no pátio enquanto conversava com algum interlocutor invisível. Esse hábito frequente suscitou a suspeita de que ele estivesse finalmente ficando senil. Alguns anos atrás, um médico de Arkham que passava férias na cidade se compadeceu e foi até a casa tencionando avaliar se o velho precisava ser interditado. O gentil profissional foi expulso e por pouco não recebeu uma bengalada quando mencionou que poderia indicar um acompanhante ou uma criada para cuidar do Ancião.

Para o povo de Kingsport, o velho tem algo entre 80 e 120 anos, mas alguns vão mais longe. Dizem que ele seria contemporâneo de seus bisavós, ou até trisavós, que eram jovens quando ele já era adulto. Alguns brincam afirmando que o Terrível Ancião em momento algum de sua existência terrena foi jovem. De tão taciturno, muitos sequer supunham seu nome, ainda que alguns acreditem que ele na mocidade havia sido um capitão de clipper engajado com o comércio das Índias Orientais.

Um rumor persistente é que o ancião teria reunido uma considerável fortuna e que mantinha essa riqueza escondida em algum lugar de sua casa. O boatos eram alimentados pelos relatos de que ele pagava suas contas com dobrões de ouro espanhóis. Essas histórias eram muito especuladas pelo povo de Kingsport que se perguntava qual a origem de tesouro tão fabuloso. 

Mas quem realmente é o Terrível Ancião da Rua da Água? 

Acompanhe-nos na continuação desse artigo que apresentará as terríveis verdades sobre sua origem, sua identidade e o que ele oculta sob a fachada de um pacífico eremita.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Resenha de "Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft"


Atualmente H.P. Lovecraft pode ser encontrado em todos os cantos.

Suas histórias são constantemente editadas e lançadas em edições tanto simples quanto de luxo, comentadas ou repletas de análises. Lovecraft vende bem, e vende como jamais vendeu... suas antologias de contos e novelas figuram num lugar importante das prateleiras e são cada vez mais populares.

Mas esse fenômeno não está apenas na literatura! Suas criações figuram em inúmeras mídias, seja em filmes, séries de televisão, quadrinhos, jogos de computador e tabuleiro, RPG, música e até bichos de pelúcia! Lovecraft e suas criaturas indescritíveis conquistaram um lugar no imaginário e na cultura pop que o autor jamais poderia imaginar. Se o seu maior sonho era estar ao lado de Edgar Allan Poe, com uma obra enaltecida e admirada, hoje, ele conseguiu mais do que isso.



Não deixa de ser curioso como um autor obscuro como Lovecraft, que em vida vendeu alguns poucos contos e foi recusado várias vezes, jamais conquistando reconhecimento, tenha chegado onde chegou. De fato, considerando sua curta carreira, tudo levava a crer que ele seria esquecido ou lembrado apenas por um inexpressivo grupo de fãs. Mas numa reviravolta notável do destino, ele continua ganhando público e atraindo a atenção dos críticos.

Entretanto não apenas a obra de Lovecraft é muito debatida; sua vida também é alvo de constante escrutínio. Nesse aspecto, biografias são essenciais para lançar uma luz sobre a existência de pessoas tão interessantes. Biografias abordam a origem, como pensavam, qual a postura na época em que viveram, sua contribuição e finalmente o legado deixado para a posteridade.  

Nesse pormenor, "Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft" não é apenas um biografia historicamente bem fundamentada e um exame criterioso da existência do autor, mas uma ponte que permite conectar o legado de Lovecraft às tendências atuais do mundo do entretenimento. O responsável por esse trabalho, W. Scott Poole é historiador e um pesquisador dedicado ao gênero horror e a cultura popular. Com uma habilidade notável ele cumpre seu objetivo reunindo informações e dados sem jamais ser repetitivo ou chato. 



Muita gente pode dizer que não resta muito sobre a vida de Lovecraft que vale a pena ser debatido. Mas se enganam! Poole produz uma obra vibrante que disseca tanto os aspectos mais conhecidos quanto os mais obscuros da vida do Cavalheiro de Providence, mostrando que ainda há muito sobre ele que precisa ser discutido.

Certamente Poole não é o primeiro pesquisador à se debruçar sobre a vida peculiar do Sr. Lovecraft. O diferencial é que sua narrativa se concentra nos fatos, em detrimento dos mitos e dos preconceitos. A maioria dos livros sobre Lovecraft servem a um desses dois propósitos: glorificar seu legado ou fornecer uma crítica ferina quanto a sua mentalidade retrógrada. Autores como S.T. Joshi e August Derleth dedicaram suas vidas (e muitas linhas) para promover o papel de H.P. Lovecraft como expoente do terror e pioneiro no Horror Cósmico, enquanto encobriam suas características menos desejáveis. Na mesma medida que é indiscutível a importância do autor, também é impossível esconder seu preconceito latente e suas crenças raciais.

O mérito de Poole é caminhar na linha tênue entre esses dois campos. Ao longo de Necronomicon, ele mostra consistentemente aspectos positivos e negativos de Lovecraft como pessoa. Ele consegue atingir essa meta devido a precisão histórica. Ele admite que S.T. Joshi provavelmente é o mais dedicado pesquisador de Lovecraft, mas a sua análise é comparativamente mais isenta e rica. De fato, reside nas qualidades e defeito do indivíduo o grande trunfo desse trabalho. O resultado é uma biografia deliciosa de ler.



Na mesma medida que Poole enaltece a criatividade e o estilo do autor, tecendo comentários elogiosos, mantém um distanciamento sadio que permite criticar as partes desagradáveis que permeiam sua obra. Como não poderia deixar de ser, a polêmica do preconceito de Lovecraft é visitada frequentemente em Necronomicon. Poole argumenta contra a teoria de que Lovecraft seria um produto de seu tempo, mostrando que alguns de seus colegas escritores tentavam se dissociar das teorias raciais por ele alardeadas. No entanto, chama atenção para o fato de que Lovecraft tinha amigos muito próximos que sustentavam opiniões contrárias às dele, ou, que até mesmo eram membros desses grupos que ele detestava. Como Lovecraft equilibrava isso, demonstra sua dualidade de ideias. 
   
Poole também detalha o papel marcante das mulheres na vida de Lovecraft, desde sua mãe e tias até sua esposa. Falando de sua esposa, Sonia Greene, vemos um exemplo perfeito da especificidade de suas tendências racistas. Ao mesmo tempo que ele era venenoso contra imigrantes, Lovecraft respeitava enormemente sua mulher. E embora o matrimônio estivesse fadado a não durar, eles mantiveram uma longa amizade e respeito mútuo. O fato dele ter desposado uma mulher de descendência judia também ressalta como seu pensamento era contraditório. O livro também aborda de forma convincente que a mãe de Lovecraft não desempenhou um papel negativo em sua vida, ao contrário do que sustentam muitos biógrafos. Apontando para numerosos eventos documentados, Poole mostra como a mãe de Lovecraft, ao permitir que seu filho satisfizesse todos os seus interesses incomuns, deu-lhe a base perfeita para se tornar um autor revolucionário.

À medida que o livro avança para suas conclusões, Poole mapeia um vasto panorama do legado do autor e de como ele influenciou gerações futuras. Sua análise expõe como a obra do Cavalheiro de Providence conquistou seu espaço adaptando-se aos mais variados meios de entretenimento. Esse capítulo inteiro ajuda a entender a influência de Lovecraft (e por tabela de Cthulhu) na cultura pop atual.   



Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft foi lançado recentemente pela Editora Darkside em uma edição extremamente caprichada com o Selo Macabra. Para quem conhece a qualidade das publicações da Darkside nem é preciso mencionar o belíssimo acabamento, mas não tem como passar batido sem falar desse livro em especial. Tudo nele, da capa às ilustrações, da diagramação à tradução de Ramon Mapa, está perfeito! É um prazer folhear as páginas e se deixar absorver por um trabalho gráfico simplesmente irretocável.

Necronomicon vem com um excelente Prefácio do próprio Ramon Mapa e conta com alguns acréscimos exclusivos para a edição nacional. Temos notas, uma cronologia dos contos escritos por H.P. Lovecraft, um artigo sobre o fictício Necronomicon (com ilustrações raras de Robert Bloch) e a versão do próprio Lovecraft para a história do tomo profano.

A Darkside já conta com dois volumes de contos de H.P. Lovecraft em seu catálogo e essa biografia é o complemento perfeito para aprofundar o leitor (tanto o neófito quanto o fã já experimentado) nos pormenores da complexa vida desse gênio do Horror moderno.

Eu não poderia recomendar mais um lançamento sobre o autor!

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Um Monstro Marinho do mundo real - O terrível Mosassauro Thalassotitan


Entusiastas de histórias de monstros marinhos nem sempre são levados à serio. Nem todas pessoas aceitam as teorias, por vezes inusitadas, sobre a existência factual dessas criaturas. De fato, muitos acham que tais seres habitam apenas o Reino do Imaginário.

Entretanto, recentes descobertas feitas por paleontólogos no Marrocos apontam para a existência de uma criatura monstruosa bem similar aos monstros das lendas. As ossadas sugerem se tratar de uma criatura que viveu nos rios que floresceram há centenas de milhões de anos atrás no que hoje é o norte da África. Muitos fósseis de plesiossauro - um réptil marinho de pescoço longo, já haviam sido encontrados nesse mesmo sítio. No passado remoto a paisagem hoje desértica era formada por uma bacia pantanosa, quente e com vegetação exuberante.

Curiosamente os ossos datam de um período posterior à grande extinção dos dinossauros ocorrida 66 milhões de anos atrás. Os plesiossauros parecem ter encontrado um refúgio lá apesar das mudanças climáticas devastadoras para as demais espécies.

Entretanto, antes dos plesiosauros também serem extintos, eles encontraram um adversário para sua sobrevivência tão grande quanto o clima. Este era um réptil marinho maior, mais feroz e mais implacável do que qualquer plesiosauro. Estas feras caçavam e comiam qualquer coisa que estivesse ao seu alcance. Nada nos oceanos pré-históricos estava à salvo desses enormes predadores. 

Um novo estudo feito por pesquisadores no Marrocos descobriu aquele que pode ser a maior e mais terrível espécie de Mosassauro - um verdadeiro monstro que pode ser o predador definitivo... ameaçando até mesmo outros Mosassauros. 


Batizado Thalassotitan, essa criatura era o equivalente a um pesadelo no mundo real, capaz de andar, correr, nadar e matar com enorme facilidade. Acredite, era algo que você positivamente não iria querer encontrar.

"O Thalassotitan era um animal terrível. Imagine um Dragão de Komodo misturado com um Tubarão Branco, com a ferocidade de um Tiranossauro e o vigor de uma baleia assassina. Todos esses elementos faziam dele o incontestável Rei dos pântanos e águas pré-históricas".

Nick Longrich, um paleontólogo e biólogo evolutivo da Universidade de Bath liderou o grupo de pesquisa que encontrou os fósseis do Thalassotitan atrox – o maior mosasauro que já nadou nos mares da Terra. Como ele explicou em uma publicação recente no Journal of Cretaceous Research, o Marrocos foi um ambiente rico em seres marinhos a cerca de 55 milhões de anos, oferecendo um habitat seguro para todo tipo de monstruosidade.

Os Mosassauros, como sabemos, estavam no topo da cadeia alimentar. Embora fossem classificados como lagartos marinhos, não há nenhuma criatura atualmente na natureza que seja semelhante a ele. É surpreendente que o parente mais próximo deles não sejam os crocodilos modernos, mas iguanas e anacondas. 

O solo rico em fosfato do Marrocos ajudou a preservar os fósseis de muitas espécies de Mosasauros com mandíbulas titânicas repletas de dentes capazes de rasgar e dilacerar peixes e lulas, além de esmagar animais com escamas. Os Mosasauros comiam de tudo - peixes, cefalópodes, tartarugas, pássaros, megalodons e até mesmo outros mosassauros. Eles eram bestas sempre famintas que caçavam solitariamente. O Thalassotitan era uma máquina de matar que não parava diante de nada, o predador definitivo. 


"O Thalassotitan, tinha um crânio enorme medindo 1.80 metros e seu corpo podia crescer até atingir 16 metros de comprimento, maior que qualquer crocodilo moderno. Ainda que muitos mosassauros tivessem uma mandíbula longa e dentes finos para agarrar peixes, o Thalassotitan tinha um focinho mais curto e dentes cônicos como das baleias orca. Isso permitia a ele uma força de mordedura ainda maior capaz de dilacerar os ossos de suas presas com uma única bocada".

Os dentes desses monstros eram adaptáveis, eles rachavam e cresciam novamente mais fortes que antes, capazes de atravessar a couraça de répteis marinhos, inclusive outros mosassauros. Nada que caía na bocarra do Thalassotitan sobrevivia à sua voracidade. A mordida era tão potente que superava a do atual crocodilo de água salgada em aproximadamente 18 vezes. Fragmentos de fósseis encontrados perto de ossadas de Thalassotitan incluem os restos de peixes predadores, cascos de tartaruga Marinha partidos e até a cabeça de um plesiosauro - arrancada com uma única mordida e semi-digerida antes de ser regurgitada.

Os fósseis de presas também incluíam as mandíbulas e dentes de outras espécies de Mosassauro o que demonstra o espírito competitivo da espécie. Marcas deixadas em ossos revelam que os Thalassotitan lutavam frequentemente entre si, disputando comida ou parceiras para a procriação.

"Nos 25 milhões de anos antes do meteoro se chocar com a Terra, os Mosassauros estavam se tornando mais e mais diversos. Adaptados e especializados em dominar o meio em que viviam. Sem falar que seu tamanho continuava aumentando. Se não tivessem sido extintos, quem sabe até que tamanho poderiam chegar".

Embora a descoberta desse predador alfa do Período Cretácio constitua uma descoberta fascinante, a verdadeira revelação vinda dessa câmara de tesouros de fósseis é a constatação de que esses animais não estavam em declínio como acreditavam alguns estudiosos. Longrich discorda de que os Mosassauros estavam em decadência mesmo depois das mudanças climáticas deflagradas pelo choque do meteoro na Península de Yucatan que decretou o fim de seu reinado. 


"Os fósseis de Mosassauros mostram que o ambiente não estava se deteriorando, pelo contrário, estava em expansão".

Até onde sabemos, a região que hoje compreende o Marrocos possuía vida marinha em abundância. Os mosassauros que lá viviam, inclusive o Thalassotitan tinham muita comida, muito espaço e perspectivas de sobrevivência. O que aconteceu é que as outras espécies não conseguiram se adaptar tão bem quanto eles e começaram a desaparecer.

Longrich supõe que os Mosassauros em um determinado momento de seu reinado ficaram sem presas que pudessem satisfazer seu apetite voraz. "Eles literalmente comeram todos animais que estavam à sua volta e tiveram que lutar uns contra os outros por comida. Era comer ou ser comido!"

No fim, o que colocou fim ao domínio desses monstros marinhos foi a sua própria incapacidade de conter seu apetite voraz. Eles esgotaram o seu ambiente paradisíaco e quando não encontraram mais nada capaz de lhes satisfazer disputaram uma arena na qual restaria apenas um deles. E este inevitavelmente também acabaria perecendo sem comida.

É divertido pensar em criaturas como o Thalassotitan vivendo nos dias atuais ou despertando para reivindicar os sete mares, mas para o bem ou para o mal tais monstros marinhos estão extintos há muito tempo. Ainda assim, nos faz pensar o que aconteceria se tal criatura nadasse em nossos mares.  

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Segredos de Kingsport: O Culto de Tulzcha, o Fogo Esmeralda


Nos meandros de Kingsport, sonhos e realidade se misturam.

A Cidade das Brumas esconde um sem número de segredos e mistérios. Ocultos sob as névoas cinzentas permeiam horrores e maravilhas impronunciáveis que escolheram se abrigar nesses recantos lúgubres e cenários idílicos. Este é o lar de pescadores e de artistas, marinheiros e empreendedores. De pessoas atraídas por sonhos e de outras prisioneiras de pesadelos. Alguns encontram consolo nos sonhos, outros acham neles tão somente terror e morte.

Em Kingsport convivem cultos ancestrais de feiticeiros, coisas profanas que habitam a fronteira dos sonhos e personagens peculiares de um passado remoto, cuja existência se estende de modo não natural por décadas à fio.

Os membros mais antigos daquilo que muitos chamam de Culto de Kingsport chegaram a essa terra por volta de 1640, acompanhando os primeiros colonos que se estabeleceram na região. Essas famílias originalmente habitavam as Ilhas do Canal Britânico, mas eram provenientes do sul da Europa. Sem que os vizinhos soubessem, eles haviam sido expulsos de sua terra natal após sofrer perseguições pelas suas crenças nefastas. Eles cultuavam uma divindade obscura e maligna: um Deus de chamas esmeralda que habitava um grande complexo de cavernas abaixo da Lombardia e do Languedoc (respectivamente na Itália e na França).

Esses devotos haviam aprendido rituais e práticas que os levaram a uma trilha de completa corrupção, não apenas da alma, mas da própria humanidade. Tal corrupção promovia a liberdade das limitações do corpo e da mente, além de sedutoras promessas de vida eterna. Eles honravam os poderes negros da Chama Esmeralda com celebrações tão blasfemas quanto nauseantes. Haviam aprendido com seus ancestrais a arte da necromancia e dos augúrios da morte. Eram feiticeiros poderosos detendo em suas mãos ambiciosas o poder de perverter a natureza para operar milagres de magia.


O Deus Exterior a quem rendiam devoção era chamado de Tulzcha. Ele se manifestava na Terra como um imenso pilar de fogo vivo com uma coloração verdejante doentia. Nas chamas rodopiantes surgiam faces cadavéricas e formas dantescas. Auxiliado por uma congregação fanática disposta a honrar seu Senhor com sacrifícios e rituais pérfidos, Tulzcha obtinha sustento, drenando energias necróticas que lhe eram ofertadas. Para isso usava vermes que se alimentavam da carne dos mortos que apodreciam em suas tumbas. Onde quer que o Deus se manifestasse, esses vermes pálidos e inchados o seguiam em quantidade absurda brotando do solo como uma infestação apocalíptica.

Em troca de sua nutrição, Tulzcha recompensava os seguidores com uma existência longa e sobrenatural. Quando um cultista finalmente morria e era considerado valoroso pela divindade, seu corpo era levado a um dos fossos onde pululavam seus Vermes. Após passar por um extenso ritual de preparação, o corpo era mergulhado nesse fosso para que as criaturas cobrissem e devorassem inteiramente a carcaça. No processo simbolicamente também se alimentavam de sua alma e espírito. Em seguida, esses vermes que haviam digerido o cadáver por inteiro eram misticamente conectados desenvolvendo autoconsciência e conservando as memórias do morto. Eles se arrastavam para fora do fosso como uma horrenda nova forma de vida composta de milhares de pequenas criaturas, cada uma carregando uma parcela de sua vivência. Assumindo uma forma mais ou menos humanoide, esses horrores genericamente conhecidos como "Aqueles que Rastejam" podiam se passar por humanos vestindo mantos para esconder suas feições hediondas.

Não por acaso essas práticas repulsivas inspiravam revolta e faziam com que o culto fosse expulso mesmo da terra dos etruscos onde uma infinidade de seitas, cada uma mais medonha que a anterior, floresciam. Tornaram-se párias sem uma terra e por isso acabaram se estabelecendo nas Ilhas do Canal Britânico. Quando a notícia de que uma vastidão territorial havia sido descoberta, os cultistas da Chama Esmeralda se misturaram ao fluxo de colonos que desejavam tentar a sorte no Novo Mundo. Ao menos três famílias de devotos empreenderam a viagem e ajudaram a fundar a Vila pesqueira batizada como Kingsport.


Não demorou para que estes cultistas encontrassem as cavernas existentes abaixo do Monte Central. É possível até que eles tenham sido levados até elas por sonhos ou projeções mentais de Tulzcha que ansiava por firmar raízes nessas terras inexploradas. O interior oco, repleto de passagens estreitas que levavam às entranhas da terra, era ideal para seus propósitos. Nesse antro subterrâneo os cultistas renovaram suas práticas e invocaram a Chama Esmeralda uma vez mais. Tudo isso acontecia enquanto posavam de respeitáveis cidadãos, comparecendo às missas e reuniões sociais da cidade, jamais fornecendo aos seus vizinhos motivos para suspeitas. A medida que as gerações passavam, membros da seita casavam e se misturavam com as demais famílias de Kingsport permitindo ao culto se expandir. Por volta de 1692, aproximadamente um em cada dez pessoas vivendo na cidade, tinha envolvimento com o Culto.

Mas nem sempre as coisas funcionavam conforme eles desejavam.

Um cultista que virou as costas para a seita foi um navegador e explorador chamado William Haines, descendente das famílias fundadoras de Kingsport. Durante uma viagem às Índias Orientais ele descobriu a existência de Seitas similares à que operava em sua cidade natal e se sentiu enojado por algumas práticas extremas. Em 1690, Haines retornou de viagem, vendeu suas terras e denunciou os cultistas para autoridades religiosas no povoado vizinho de Salem. A reação foi imediata, os pastores se sentiram ultrajados com as denúncias e exigiram uma investigação. Oito mulheres foram presas, acusadas de conluio demoníaco, contudo provas só foram encontradas contra quatro. Metade delas foram sentenciadas à morte e as demais libertadas.

Embora a população estivesse assustada, ela era bem mais tolerante que seus vizinhos de Salem. Após as execuções, a comunidade não tinha estômago para novas mortes. Declarou-se que o mal havia sido extirpado do seio da comunidade e que não havia mais razão para perseguições de qualquer tipo. Mal sabiam que os cultistas ainda estavam vivendo secretamente entre eles, dando margem a planos que começavam a frutificar.


Ainda que a maior parte da população ignorasse as práticas que ocorriam no povoado, era inegável que havia algo sinistro na cidade. Temiam o cemitério do Monte Central considerando um lugar maldito. Passaram a enterrar seus mortos mais além, num terreno a oeste, permitindo que o complexo de cavernas ficasse totalmente à mercê dos cultistas. Havia suspeitas de encontros sinistros ocorrendo nesse lugar e para dissimular as atividades, os cultistas ordenaram a construção de um templo - a Igreja Congregacional cuja fachada era de um tabernáculo convencional de inclinação protestante. Contudo, abaixo da Igreja haviam túneis e caminhos tortuosos que se conectavam ao Monte Central e às câmaras onde ardia a Chama Esmeralda. Dezenas de cultistas se reuniam ali sem chamar a atenção e sem serem perturbados.

Apenas em meados de 1720, rumores sobre uma Seita Secreta vieram à superfície novamente. Uma das acusações era que pessoas que participavam do culto tinham uma existência incrivelmente longa, com muitos sendo octogenários ou nonagenários sem no entanto aparentarem ter mais de 50 anos. Outra suspeita surgiu quando uma epidemia de estranhos vermes eclodiu do solo escuro ao redor do Monte Central chocando a população.

No inverno de 1722, durante uma celebração com as portas fechadas na Igreja Congregacional, algo maligno foi testemunhado por vários cidadãos. Eles descreveram o surgimento de uma nuvem verde pestilenta que se manifestou nos céus de Kingsport como uma presença diabólica. Dela emanava uma luz verdejante que se derramava pelo firmamento com um brilho espectral. Esse fenômeno foi acompanhado de sons guturais e tremores vindos das profundezas do Monte Central. Um contingente de bravos voluntários - membros da milícia, marinheiros e pescadores - foi reunido pelo prefeito Eben Hall e estes cercaram a Igreja armados com mosquetes. Na manhã seguinte, quando os cultistas abriram as portas receberam ordem de prisão. Levados sob custódia, três dúzias de pessoas - muitas delas, cidadãos acima de qualquer suspeita, foram acusados de práticas anticristãs, roubo de sepulturas e outras práticas perniciosas. Multas, prisão e banimento foram as penas impostas, uma punição leve, mas que serviu para quebrar a espinha dorsal do culto.

Certos livros estranhos e outros itens suspeitos foram confiscados e destruídos em fogueiras após analisados, enquanto outros foram encaminhados à autoridades acadêmicas em Arkham para serem avaliados. A estrutura da Igreja Congregacional foi cuidadosamente explorada e os túneis subterrâneos de onde emanava um fedor nauseabundo foram selados com paredes de tijolos. As criptas, apinhadas daqueles horrendos vermes inchados também foram lacradas para que ninguém tivesse acesso a elas. A despeito das acusações nenhum acusado chegou a enfrentar a pena capital e um número surpreendente deles continuou a viver em Kingsport, ainda que fossem vistos com desconfiança. A influência de Tulzcha diminuiu, mas não desapareceu por completo. Embora apenas um pequeno grupo de cultistas ainda atendesse às reuniões secretas no Monte Central, eles conseguiram preservar sua religião profana agindo de forma muito discreta.


Por volta do século XIX, a história sobre a existência do culto se converteu em uma espécie de rumor quase que inteiramente apagado da memória dos habitantes. A Igreja Congregacional foi convertida em uma Igreja anglicana tradicional que assumiu o controle do local, ainda que boatos sobre sons estranhos e o surgimento de vermes pálidos fossem reportados de tempos em tempos.

Traços do velho culto ainda se fazem presentes em Kingsport para quem quiser ver.

Reuniões clandestinas na calada da noite continuaram acontecendo nos túneis e por vezes a comunidade se mostrava chocada com a descoberta de sepulturas violadas. O rumor de que algumas famílias antigas descendem de idólatras e satanistas é uma espécie de tabu local. Fala-se que alguns clãs importantes possuem bruxas e feiticeiros entre seus antepassados, mas a maioria desconsidera essas lendas como mera fofoca. A sétima casa à esquerda da Green Lane, uma construção da época colonial supostamente foi o lar de um poderoso membro do Culto - considerado um feiticeiro. Os supersticiosos de Kingsport afirmavam que a casa é assombrada e que algo não humano vive no porão espreitando na escuridão. Em 1890 houve uma tentativa de desmanchar a casa, mas a ordem de demolição não foi cumprida.

As frequentes inundações de atormentam Kingsport revelaram coisas estranhas enterradas no solo escuro, abundantes ossadas de crianças e até bebês infestam aterros. Alguns suspeitam da existência de um velho cemitério que recebia ossadas de bebês abortados e crianças não batizadas, mas alguns suspeitam de coisas mais sinistras. Os marinheiros falam sobre luzes esverdeadas vistas de longe, como auroras boreais que iluminam o céu noturna e pintam as névoas com um tom venenoso. Em 1905, agentes de saúde que estavam na cidade para combater a epidemia de febre tifóide notaram a presença de vermes de aspecto bizarro brotando nos arredores da Igreja Congregacional. Quando uma sepultura coletiva foi escavada para dispor dezenas de vítimas da Gripe Espanhola de 1922, esses mesmos vermes, alguns de tamanho surpreendente foram achados no solo e outro local foi escolhido para a realização do enterro.

O Culto existe ao longo dos anos 1920-30, ainda que em um nível bem mais discreto.


Apenas alguns membros do Culto do Fogo Esmeralda residem em Kingsport, talvez menos de duas dúzias de indivíduos. Muitos deles viajam pelo mundo buscando obsessivamente satisfazer suas vontades e servir seu senhor. Os membros do Culto raramente se reúnem, reservando esses raros momentos para ocasiões em que algum Ritual vital precisa ser cumprido. O Festival de Solstício, uma as datas mais solenes para o Culto, tende a atrair centenas de cultistas até Kingsport para um enorme ritual que ocorre bem abaixo do Monte Central. Nele, necromancia e necrofilia do pior tipo tem lugar em câmaras subterrâneas iluminadas por luz verde e cobertas por um tapete de vermes de cemitério se contorcendo.

Dois tipos de cultistas existem em Kingsport. A maioria deles são humanos comuns que descendem de uma longa linhagem de seguidores fiéis. Eles seguem as crenças de seus ancestrais, pois foram criados com esse intuito. Alguns forasteiros que descobriram o Culto acidentalmente ou pesquisando a história da cidade também já foram convidados a se juntar ao grupo e aceitaram. Esses indivíduos auxiliam o culto reunindo informações, viajando ou lidando com ameaças menores. São membros que ainda estão estabelecendo seu papel no culto e conhecem seus segredos mais superficialmente. Eles precisam ganhar a confiança dos membros mais antigos para escalar na hierarquia da seita. Conhecimento arcano, a promessa de benefícios e vida eterna podem ser oferecidos para mantê-los motivados a servir seus mestres.

Os membros mais influentes do Culto do Fogo Esmeralda provaram seu valor perante Tulzcha e receberam uma ou mais de suas recompensas. Muitos deles morreram há séculos e foram trazidos de volta à existência física como uma massa coalescente de vermes. Estas abominações renascem com um conhecimento profundo dos segredos mais funestos da vida e da morte, também recebem poderes místicos e são capazes de viver eternamente. É claro, eles não podem transitar livremente pela cidade sem chamar a atenção e por isso ficam ocultos comandando seus asseclas. Nas raras vezes que deixam seus covis subterrâneos, eles usam pesados mantos sobre seus corpos convolutos e máscaras de cera que disfarçam feições humanas. Estes feiticeiros tem uma existência guiada pelo desejo de poder e de controlar quem está à sua volta. Eles servem o Fogo Esmeralda com uma dedicação inquebrantável e são implacáveis em todos os seus atos. Desafiá-los constitui, portanto, imenso perigo.