domingo, 19 de novembro de 2017

Dança com os Cadáveres - Costume no Madagascar pode causar o retorno da Peste



Dança com os Cadáveres.

Parece o nome de uma banda ou de uma brincadeira de Halloween, mas se alguém nessa festa típica do Madagascar convidar você para participar, talvez seja melhor arranjar uma desculpa qualquer ou entender bem do que se trata.

No Madagascar, essa ilha pitoresca na Costa Oriental da África, existe um festival religioso conhecido como "Famadihana". O nome pode ser traduzido como "revirar os ossos" e envolve abrir os mausoléus e tumbas, apanhar os ossos de entes queridos, amarrá-los montando uma estrutura corporal, vestir o cadáver resultante e honrá-lo com um tipo de Dança Ritual.

Por mais estranho que possa parecer, a tradição incomum não é antiga, mas um costume surgido há poucos anos e que tem causado desconforto e polêmica. Existem várias culturas mundo a fora que honram os cadáveres dessa maneira, mas na maioria dos casos, tratam-se de costumes tribais muito antigos, praticados na África, por tribos na India, Sudeste Asiático e Indonésia. Até então, tal coisa não existia em Madagascar.

Um dos princípios centrais dessa tradição é que o cadáver precisa ter a oportunidade de ser honrado pelos seus amigos e parentes em uma espécie de "bota fora" no qual os mortos são os convidados principais. Certos povos acreditam que o espírito não é capaz de entrar no outro mundo enquanto seus restos não tiverem se decomposto por inteiro. 


Em Madagascar, o costume parece ter surgido com o pedido incomum de uma pessoa desenganada, que implorou aos amigos e parentes que na iminência de sua morte, seu cadáver fosse recuperado e levado em uma festividade que aconteceria no ano seguinte. O pedido foi cumprido e aparentemente, a cada ano, mais e mais pessoas se unem ao festival, desenterrando seus mortos e levando a macabra celebração. O Famadihana está se tornando rapidamente um acontecimento no país.

Durante a véspera do Famadihana, não é estranho ver cemitérios sendo escavados e cadáveres sendo exumados. As pessoas envolvidas usam cordas tecidas com cabelos humano para juntar os restos mortais fazendo com que eles ganhem certa integridade. A seguir, os cadáveres são vestidos com trajes festivos coloridos e montados em estruturas para que pareçam estar de pé. Cadáveres reduzidos a pouco mais do que ossos podem ser colocados em caixões ou montados em cadeiras, concedendo à procissão um caráter ainda mais mórbido.

A comitiva então desce as ruas próximas dos cemitérios em completo silêncio. As pessoas vestem trajes bonitos e sóbrios e muitas carregam velas. Entretanto, ao se afastar dos portões e muros que marcam a morada dos mortos, bandas de música típica dão o tom da festa e as celebrações se iniciam com danças, risadas e muitos festejos. As músicas são marcadas por um ritmo típico do Madagascar e um dos costumes é fazer com que os Cadáveres participem ativamente de cada momento da festa, afinal eles são os "convidados de honra" e são tratados como tal.


A "Dança com Cadáveres", um dos momentos mais esperados do festejo ocorre quando um espaço é aberto e pessoas carregando os corpos evoluem ao som da música fazendo com que os restos pareçam estar dançando. Em alguns lugares, outros costumes macabros são observados, entre os quais o de "alimentar" os cadáveres com comida e bebida que é colocada na boca escancarada das caveiras. Em alguns lugares, mulheres são convidadas a beijar as caveiras e até simular situações de sexo com elas (!!!)

Quando começa a escurecer, é chegado o momento de terminar as celebrações. Os cadáveres são cuidadosamente desmontados das estruturas em que foram amarrados e levados silenciosamente de volta ao cemitério para serem enterrados. O féretro é realizado em total silêncio, com grupos de carpideiras simulando o pranto e lamentando-se. A ideia é que a simulação de que se trata de um enterro afasta os fantasmas que podem querer se vingar dos espíritos festeiros.

Por mais estranho e bizarro que pareça o costume da Famadihana continua sendo realizado nos últimos doze anos. Mas existe uma Grave Ameaça em sua realização.


Segundo alguns jornais de Madagascar e Organizações Internacionais de Saúde, tem havido um dramático aumento no que já vem sendo chamado de Epidemia de Praga (nesse caso, trata-se de Praga Pneumológica - uma severa infecção dos pulmões causada pela bactéria Yersinia pestis que alguns especialistas acreditam seja uma variação da Peste Bubônica). Há alguns anos uma epidemia dessa doença causou mais de 500 mortes em Madagascar e se tornou uma preocupação para váriso observadores de doenças. 

"Se uma pessoa morre em decorrência de Praga Pneumológica e é enterrada numa tumba que subsequentemente é aberta para a famadihana, existe uma boa chance da bactéria ainda estar ativa. Ela pode então ser transmitida e contaminar todos que se aproximarem ou manipularem o cadáver", explicou um membro da Organização Médicos sem Fronteiras.

O Ministro da Saúde de Madagascar Willy Randriamarotia disse que o país registrou mais de 1,100 casos da praga desde Agosto de 2017, resultando em pelo menos 124 óbitos. A doença até alguns anos atrás havia sido debelada e se encontrava sob controle. Em uma tentativa de combater a praga, a famadihana vem sendo proibida, mas isso não impede que ela aconteça de maneira clandestina em várias partes do país. Onde a polícia tentou conter os participantes houve inclusive violência e para evitar impopularidade, alguns prefeitos são coniventes com a realização da celebração.


Muitas pessoas que participam da Famadihana afirmam que essa é uma maneira legítima de honrar os seus entes queridos e lembrar deles como indivíduos importantes:

"Os mortos estão sempre ao nosso redor, eles não são meros objetos. Eles não devem ser esquecidos, precisam ser celebrados! Eu sempre irei participar da celebração e quando eu morrer, também espero que meus parentes façam isso por mim!" contou uma participante das celebrações esse ano.

Provando que teorias conspiratórias são um fenômeno mundial, Josephine Ralisiarisoa participante de ativa da festa, culpa o governo de Madagascar pela epidemia:

"O Governo é corrupto! Ele inventa coisas como essa epidemia de Peste. Não existe nenhuma peste! Eu participei de mais de quinze famadihana e estou em perfeita saúde. Eu nunca peguei a praga".

Seja como for, a discussão parece estar longe de uma solução. No ano que vem, Madagascar terá uma Eleição Presidencial e um dos assuntos que tem movimentado a corrida eleitoral no país é justamente a marginalização da Famadihana. Dos quatro pré-candidatos, dois são contrários a celebração, mas dois afirmaram categoricamente que são favoráveis a um estudo profundo que possa liberar o festival da Dança dos Cadáveres. De fato, ele parece estar cada vez mais popular, chegando a outras nações vizinhas que também estão imitando o perigoso costume.


Um dos grandes perigos é que a Praga Pneumológica é bastante propensa a sofrer mutação. No caso de uma epidemia em larga escala, a moléstia pode adquirir maior resistência e se disseminar ainda mais rapidamente, criando condições ideais para epidemias que varreriam cidades inteiras.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) tem cobrado do Governo de Madagascar medidas enérgicas para conter a Famadihana, tratando-a como um problema de saúde que vai além das fronteiras. Seria esse o início de uma nova e devastadora epidemia de Peste Bubônica? É preciso recordar que a ignorância e a superstição foram um dos catalizadores da Grande Peste que varreu a Europa no século XIII e decretou a morte de quase 60% da população urbana. 

A Famadihana é uma celebração que visa honrar os mortos e fazer com que eles sejam eternamente lembrados, a maior ironia, entretanto, é que as pessoas que dela participam podem muito bem ser aqueles cujos cadáveres serão carregados em breve. 

E o ciclo tende a se repetir..

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