segunda-feira, 13 de julho de 2020

Gremlins - Relatos inexplicáveis durante guerras (2)


Quando a maioria das pessoas ouve a palavra "Gremlin", a primeira imagem que aparece na sua mente são as criaturinhas do filme de 1984 que tem o mesmo nome. Nele, os monstrinhos do título causam caos e destroem uma pequena cidade. No entanto, o que muitas pessoas podem desconhecer é que a origem desses seres é baseada em acontecimentos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial. Gremlins eram os culpados de acontecimentos estranhos, desastres ou falhas técnicas, em especial à bordo de aviões durante o conflito. Em meio aos sangrentos combates nos céus, entre a fumaça, explosões e fogo anti-aéreo, as tripulações de ambos os lados tinham de lidar com um inimigo em comum: bizarros diabretes que pareciam infestar os aviões e que desejavam acima de tudo bagunçar, sabotar e destruir os veículos aéreos.  

A origem do termo "gremlin" é incerta, mas acredita-se que derive da antiga palavra inglesa "greme" que pode ser traduzida como irritante ou incomodo. Ela se refere diretamente a um tipo de gnomo, demônio ou diabrete malicioso, tipicamente de baixa estatura, que provavelmente tem sua origem nos goblins e fadas do folclore britânico. As características originais dessas pequenas criaturas inclui um conhecimento sobrenatural a respeito do funcionamento de máquinas e equipamento de todos os tipos. Segundo as lendas teriam sido eles quem ensinaram aos humanos primitivos a base para o funcionamento dos primeiros engenhos e ferramentas. Eles teriam sido os responsáveis por plantar as noções de como montar motores e explicar como empregar a eletricidade. Mas apesar de sua aparente benevolência, o folclore sempre deixou claro que eles são perversos por natureza, com uma inclinação para brincadeiras de mal gosto e confusão.


A versão moderna dos gremlins como seres maliciosos, encrenqueiros e criadores de situações caóticas tem sua origem entre os mecânicos e aviadores britânicos. Alguns realmente acreditavam que eles eram os responsáveis por provocar falhas de funcionamento e criar defeitos inesperados. Uma das primeiras menções a essas criaturas pode ser traçada até o início do século XX, quando um jornal inglês chamado Spectator escreveu o seguinte:

"O velho Serviço Aéreo Naval criado em 1917 e a nova Força Aérea Real (RAF) parecem ter detectado a existência de um inesperado problema. Segundo mecânicos estes teriam a forma de duendes que buscam trazer todo tipo de defeito e problema inexplicável para os hangares aeronáuticos".  

A existência de tais entidades realmente se popularizou em 1923, quando um piloto britânico sofreu um acidente no mar e mais tarde culpou pequenas criaturas que criaram confusão no equipamento de bordo e cortaram os controles de voo provocando sua inevitável queda. A história se espalhou, e não demorou muito até que pilotos ingleses começaram a reclamar de pequenas criaturas similares a duendes que conheciam o maquinário e equipamento. Tudo, desde panes elétricas a defeitos no trem de pouso, de problemas nos freios a aerodinâmica, eram tratados como diabruras causadas pelos gremlins. 


Segundo engenheiros e mecânicos, Gremlins sugavam o combustível dos tanques usando mangueiras, interferiam nas frequências de rádio, esvaziavam pneus, sujavam os motores e cortavam a fiação delicada, além é claro, de desapertar parafusos e trincar vidros. Em certas ocasiões, os gremlins seriam responsáveis ainda por gritar, rir, sussurrar ou criar sons estranhos para confundir e distrair pilotos e tripulação justamente quando a concentração era mais necessária. Alguns pilotos chegavam a afirmar que as criaturas possuíam poderes telepáticos que criavam ilusões na mente da vítima, fazendo aparecer nuvens, pássaros e até montanhas que na verdade não estavam lá. Também diziam que esses duendes eram vistos caminhando nas asas em pleno voo.

Esses relatos se popularizaram mesmo em meio a oficiais graduados que culpavam gremlins por acontecimentos inesperados. Pilotos da RAF servindo em bases distantes em Malta, no Oriente Médio e na India falavam a respeito das criaturas ao longo dos anos 1920.    

Um dos mais populares relatos a respeito de gremlins foi feito por ninguém menos que o famoso aviador americano, autor, oficial e explorador Charles Lindbergh quando ele realizava seu voo pioneiro sobre o Atlântico, de Nova York até Paris em maio de 1927. Lindbergh pilotava o monomotor Spirit of St. Louis do Campo Roosevelt até o aeródromo de Le Bourget, percorrendo 5,800 quilômetros, em uma viagem de pouco mais de 33 horas. Na nona hora de voo, Lindbergh descreveu uma situação inusitada: a cabine foi preenchida de um estranho vapor esverdeado. Enquanto tentava compreender do que se tratava, ele percebeu o movimento de criaturas pequenas andando nas asas e no bico do avião. Curiosamente, Lindbergh contou que as criaturas ao invés de sabotarem seu voo inaugural mexeram no motor e de alguma forma fizeram um reparo que permitiu seguir em frente.


Lindbergh contava essa estranha experiência apenas para amigos próximos e parentes, afirmando que não se tratava de uma invenção e que de fato aquilo teria acontecido. Por anos ele manteve a história em segredo do grande público, até que em 1953 decidiu contar o ocorrido em sua biografia. O famoso piloto parecia incomodado sempre que alguém tocava no assunto com o intuito de ridicularizar o incidente: "Eu era o único que estava lá, e sei muito bem o que vi", disse em uma entrevista em 1954. Curiosamente essa deve ser uma das únicas narrativas de atividade benevolente de gremlins, já que praticamente todos os outros relatos a respeito deles envolve algum tipo de sabotagem indesejada. Gremlins dificilmente tentavam prevenir desastres ou ajudar pilotos, muito pelo contrário. O interesse deles era fazer com que os aviões despencassem do céu da forma mais espetacular possível.  

Os gremlins eram descritos como tendo aparência diferente um do outro. Em alguns casos eles seriam duendes semelhantes a pessoas, mas com cabelos verdes e orelhas pontudas, vestindo roupas vermelhas ou verdes e chapéus com penas. Em algumas descrições teriam pele dourada ou azulada. Outras testemunhas descrevem uma aparência bem mais sinistra, com características animalescas, corpo cabeludo, orelhas pontudas, nariz comprido e olhos vermelhos brilhantes. Há casos em que os pilotos os descreviam como verdadeiros monstrinhos de aparência demoníaca, com direito a chifres, asas de morcego e dentes afiados.

A estatura também variava consideravelmente, com gremlins medindo entre 20 centímetros até mais de um metro e meio de altura. Em algumas descrições eles teriam pés enormes, garras e rabos preênseis usados para se agarrar na fuselagem dos aviões, o que permitia a eles andar nas asas sem risco de queda. Eles também seriam capazes de suportar temperaturas adversas de calor extremo a frio congelante sem demonstrar qualquer desconforto. Da mesma maneira, não pareciam sujeitos a qualquer dano causado pela altitude ou vento.      


Gremlins ganharam enorme fama nos anos 1920 e 1930, mas foi com o início da Segunda Guerra Mundial que eles se popularizaram de vez. Informes sobre atividade de gremlins eram especialmente prolíficas em relatórios da RAF, especialmente em voos de grande altitude e de reconhecimento. Durante estas missões problemas técnicos eram comumente tratados como sabotagem de gremlins. Alguns pilotos chegavam ao extremo de mandar benzer seus aviões, queimar incenso ou inspecionar cada centímetro do aparelho antes de decolar. Uma solução comum para lidar com a ameaça era trazer cães à bordo para farejar o veículo, o que supostamente ajudava a espantar as criaturas, ou ao menos mantê-las temporariamente afastadas.

A famosa Batalha da Grã-Bretanha, uma enorme campanha aérea envolvendo enfrentamentos da RAF contra aviões da Força Aérea Alemã (Luftwaffe) ocorrida no outono de 1940 contou com vários casos de atividade de gremlin. A situação chegou a tal ponto que o Ministério da Aeronáutica abriu um inquérito oficial para investigar os casos relatados. O Ministério chegou a contratar especialistas para redigir um manual sobre como lidar com situações envolvendo gremlins. O Oficial de Voo Percy Prune, foi incumbido da tarefa e foi tratado como "Gremlorista", uma vez que alegava ter experimentado encontros com gremlins em pelo menos cinco missões. 

O documento oficial formulado por Prune incluía maneiras de lidar com gremlins que listavam formas de se livrar deles usando uma mistura de graxa e gordura, como distrair as criaturas e como prever o tipo de sabotagem realizado por elas. O oficial também afirmava que pilotos podiam se livrar de gremlins usando apitos que produziam um ruído agudo - semelhante ao apito de cães. Muitos oficiais consideravam o manual de Prune um absurdo, mas pilotos e engenheiros de voo o levavam muito à sério e o tinham sempre à mão. Em muitos aeroportos e bases britânicas podiam ser encontrados pôsteres alertando a respeito da presença desses monstrinhos, assim como boletins que incluíam descrições e maneiras de enfrentá-los. Um mecânico de origem jamaicana afirmava que fumaça de certas raízes podiam purificar aviões e afastar naturalmente os gremlins, um padre defendia que uma cruz verde pintada na fuselagem servia como proteção contra as depredações dos duendes. Aparentemente, valia de tudo para repelir as criaturas.


A princípio, o fenômeno parecia restrito a Royal Air Force e muitos militares suspeitavam que os gremlins pudessem ser um tipo de arma secreta empregada pelo inimigo, mas depois se tornou aparente que os aviões alemães também estavam sofrendo com sabotagens. Os alemães não chegaram a reconhecer oficialmente o problema dos gremlins, mas muitos pilotos sobrevoando a Inglaterra informavam problemas técnicos inexplicáveis e falhas inesperadas. O rumor foi duramente censurado pelo Ministério da Guerra como forma de manter o moral, no entanto, pilotos e mecânicos falavam a respeito. 

Quando os americanos se juntaram à guerra, eles também relataram problemas com o mesmo fenômeno. Pilotos descreviam estranhas criaturinhas andando nas asas dos aviões, mexendo no trem de pouso ou arrancando fiações para causar acidentes. Um piloto teria inclusive voado em loops para tentar derrubar criaturas que estavam agarradas na asa de seu P-51. As histórias sobre gremlins se tornaram tão frequentes entre os pilotos americanos que eles chamavam qualquer problema técnico de "gremlin".

Um piloto americano de B-17 durante a guerra descreveu um bizarro incidente durante uma missão de bombardeio sobre Bremen em 1944. O piloto, L.W. Carter contou ter ouvido estranhos sons e obtido leituras incomuns de seus instrumentos desde a decolagem no sul da Inglaterra. Quando o piloto pediu que seu auxiliar verificasse uma estranha fagulha da asa, ele viu uma estranha criaturinha esverdeada mexendo na caixa de fios provocando curto circuito. Vários homens à bordo também viram a criatura que tinha "cabelos pretos compridos e olhos de coruja". Ela "dançava" na asa e arranhava o metal deixando riscos na fuselagem. O piloto à princípio achou que se tratava de algum tipo de alucinação ou desorientação causada pela altitude, mas quando vários homens descreveram a criatura, ficou claro que todos estavam vendo a mesma coisa. Depois de algumas manobras o piloto teria conseguido derrubar o gremlin. Carter estava apreensivo de contar a estranha experiência, mas quando ele se reuniu com a tripulação eles decidiram que era necessário relatar o caso para que as autoridades fizessem algo à respeito. O depoimento do piloto e da tripulação foi analisada e chegou a ser enviada para o Ministério da Guerra, mas não se sabe se alguma medida oficial foi tomada.        


Relatos sobre gremlins e suas sabotagens persistiram após a Segunda Guerra Mundial.  Pilotos civis, sobretudo com experiência de guerra mencionavam casos inexplicáveis de problemas técnicos que não tinham origem aparente. E quando tal coisa acontecia, em geral, gremlins eram os culpados diretos. Contudo, ao longo dos anos 1950 as histórias começaram a diminuir até se tornar um rumor entre velhos pilotos e equipes de manutenção. 

O que poderia existir de verdade a respeito desses relatos? Por que tantas pessoas, pilotos e engenheiros respeitados, inventariam histórias tão absurdas se não existisse um fiapo de verdade em suas narrativas? Muitas pessoas culpam problemas na pressurização das aeronaves como causadores de alucinações que poderiam ser a explicação mais razoável para o avistamento das criaturinhas indesejáveis. Os gremlins também poderiam ser meramente uma forma de transferir a culpa por erros cometidos e deslizes na manutenção - culpar duendes era mais conveniente do que reconhecer uma falha no procedimento.

Ainda assim, é estranho que tantos relatos tenham surgido num período relativamente curto. Veteranos de guerra que viveram para contar suas experiências mencionavam o contato com gremlins e ajudaram a consolidar as criaturas como lendas urbanas ou um tipo de folclore nascido em tempos modernos. 

A verdade? Quem sabe ao certo? Talvez, da próxima vez que você voar, se o avião enfrentar alguma dificuldade técnica ou turbulência incomum, você queira dar uma espiada pela janela e ver algo incomum caminhando nas asas. 

Nunca se sabe...

Um comentário: