quarta-feira, 20 de março de 2024

Explorando os Mythos mais obscuros: Mordiggian - O Deus Cadavérico


Mordiggian é um dos Grandes Antigos mais obscuros, uma divindade cuja filosofia engloba os aspectos mais funestos da existência. É ele quem rege a corrupção da carne, a dissolução do corpo e a putrefação definitiva de tudo que vive e (principalmente) morre. O Deus se manifesta nos restos e nos resquícios, nos ossos e no pó, sendo a encarnação definitiva do princípio da Entropia. Tudo que vive decorre Dele, e a Ele retorna quando a vida o abandona, para ser reabsorvido pelo todo.

Até mesmo para os padrões do Mythos, Mordiggian é obscuro, quase que um estranho. O pouco que se sabe à respeito dele vem das alcovas habitadas pelos carniçais que o louvam nas profundezas de cemitérios. Os carniçais constituem seu povo escolhido, eles imitam seu senhor, dando vazão a seus instintos atrozes de devorar carniça. Alguns sábios entre os carniçais acreditam que foi Mordiggian quem lhes ensinou a Ética da Necrofagia e os fundamentos que lhes permitem sobreviver dessa maneira. Nas moradas mais antigas, habitadas por esses escavadores imundos, podem ser encontradas inscrições que mencionam Mordiggian e suas leis implacáveis. Os Carniçais as seguem sem questionamentos.

Fora das criptas habitadas pelos carniçais, o nome de Mordiggian é sussurrado por degenerados que se entregam as práticas mais aviltantes. Embora humanos possam fazer parte das congregações, eles são consideravelmente mais raros. É possível que projeções mentais do Deus encontrem e contamine a mente destes indivíduos transformando-os em maníacos homicidas e canibais. Pessoas tocadas por Mordiggian geralmente desenvolvem um desejo selvagem por satisfazer apetites sinistros e romper com tabus. Não é raro que prefiram a companhia dos mortos, que sejam atraídos por necrópoles ou que se relacionem (por vezes intimamente) com cadáveres. A corrupção da carne não os choca, pelo contrário, os excita. O toque maléfico de Mordiggian é perverso a ponto de ser percebido como um convite para emoções fortes e inesquecíveis e eles o aceitam de bom grado.

Mordiggian jaz aprisionado nas fundações da vetusta cidadela de Zul-Bha-Sair, na Terra dos Sonhos. Ela é a Capital do continente derradeiro de Zothique, uma nação pálida, manchada pela tristeza e angústia que contamina todos que a tem como lar. Muitos humanos vagam por Zothique, sonhadores aprisionados em um ambiente tétrico de pessimismo cuja existência é justificada apenas pela morte iminente. No momento em que a vida os abandonar, bem sabem, clérigos profanos trajados em mantos púrpura e ocultos por máscaras prateadas, virão reclamar seus restos e carregá-los em carroças até o Templo de Mordiggian. Uma vez levados para dentro desse lugar ermo, não há retorno. Toda carne que adentra os portões escancarados pertence ao Deus e sua inefável congregação.


O todo poderoso Mordiggian habita a catacumba mais profunda, atrás de um majestoso portão de ardósia coberta de símbolos arcanos rabiscados no idioma grotesco dos carniçais. Apenas os alto sacerdotes podem adentrar essa câmara sagrada, extrair o saber das paredes e escrever laboriosamente seus próprios testemunhos com talhadeiras de osso. Além do portão ouvem-se os estálidos e sussurros do Deus Cadavérico, ruídos que os sacerdotes aprenderam a interpretar e discernir. Eles temem e anseiam o dia em que a grande porta se abrirá para que o Deus deixe seu túmulo disposto a ocupar o trono de Zothique como seu Regente de direito. Nesse dia, marcado por um alinhamento fatal de estrelas mortiças, ele viajará até o Mundo Desperto para iniciar a Grande Ceia - quando os carniçais irão devorar a humanidade por inteiro.

É interessante notar, entretanto que Mordiggian não é exatamente uma entidade maligna. Ele parece se interessar apenas pelas suas necessidades prementes, os corpos que deseja consumir e a fome que deseja extinguir. Os vivos não são de seu interesse e ele tende a ignorá-los solenemente a não ser que eles o provoquem - sua ira, então, é lendária.

Qualquer encontro com Mordiggian é dolorosamente incômodo. O fedor de carniça que emana do Deus é tão potente e hediondo que se torna quase impossível ficar na sua presença. Alguns comparam esse odor nauseante com o de mil sepulturas abertas exalando os olores da decomposição. Nem todos conseguem superar a náusea e conter a avassaladora ânsia de vômito. Mas esse é apenas um dos problemas: quando se manifesta fisicamente, Mordiggian drena por inteiro o fogo, o calor e a luz. Temperaturas despencam e a área se torna mortalmente gélida e silenciosa. As pessoas experimentam uma desagradável sensação de dormência se espalhando pelo corpo, dominando os sentidos e nublando a consciência. Alguns, talvez os mais afortunados, simplesmente desmaiam e perecem colhidos pela hipotermia, ignorando que estiveram diante de uma divindade. Aqueles que sobrevivem passam pela terrível provação de se ver à mercê de um Deus vivo.

A entidade se manifesta como uma enorme massa amorfa parcialmente visível que flutua no ar de forma perene. Ele é como uma miragem tremeluzindo no ar quente de um deserto ou como círculos concêntricos se formando na superfície de um lago. Mordiggian pode se fazer mais perceptível coalescendo em uma forma visível semelhante a um redemoinho de partículas de poeira ou um torvelino granuloso semelhante a cinzas de um crematório. Por vezes ele faz brotar apêndices da sua forma central, com longos tentáculos que sondam os arredores e agarram o vazio. O contato com esses tentáculos é nocivo para todas as formas de vida que se corrompem ao mais leve toque. A pele empalidece e a carne se decompõe deixando uma ferida ulcerada pingando icor. Esta marca jamais fecha e cura por inteiro. 

O abraço de Mordiggian tem um efeito similar, ele é grande o bastante para engolfar uma dezena de pessoas ao mesmo tempo, erguendo-as no ar e carregando para seu interior turbulento. A reação em cadeia é rápida e reduz o organismo a poeira em segundos. Ao comer, Mordiggian faz uso de um método semelhante através do qual a carne é desintegrada rapidamente. Embora os cultistas se refiram a isso como a maneira da criatura se alimentar, não há como determinar ao certo se a ação visa obter nutrição. É um fato, no entanto, que o Deus consome inteiramente os cadáveres que lhe são ofertados dessa maneira.

Mordiggian possui vários avatares diferentes cada qual, com uma aparência específica dependendo  de quem o invoca e com qual feitiço. O avatar se manifesta por um curto período de tempo, obedecendo  a circunstâncias especiais e alinhamentos astrais que lhes favorecem. Em geral, um avatar é convocado para receber sacrifícios ou para oficializar rituais diante de uma congregação.

A seguir temos uma relação de alguns avatares de Mordiggian, ainda que possam existir muitos outros:

O Deus Cadáver

Este avatar é mais conhecido no sudeste asiático e talvez seja a mais antropomórfica de suas formas, o que não a torna menos abominável. Ele se assemelha a um gigantesco cadáver humano de pele amarela-esmaecida, que emana uma luz fosforescente. O fedor de seu corpo é repulsivo, rescendendo a carne apodrecida por vários dias. A entidade flutua no ar e permanece imóvel senão pelos olhos mortiços que rolam nas órbitas e por um murmúrio hediondo que gorgoleja de sua boca semiaberta. 

O Deus Cadáver é uma entidade neutra que geralmente não interage com os cultistas, mas que pode ser convocada para oficializar rituais nefastos. Os carniçais raramente o invocam e geralmente são humanos que tiveram acesso a algum feitiço que clamam pela sua presença. Para trazer esse avatar é necessária a oferenda da carcaça podre de uma animal do tamanho de um porco ou maior, cântaros com sangue coagulado e velas de gordura humana acesas no cair da noite. A criatura surge por alguns segundos e parte em seguida desaparecendo no ar. 

Durante o sistemático genocídio ocorrido no Camboja na década de 1970, o Deus Cadáver foi visto por inúmeras testemunhas que garantiam vislumbrar sua forma pairando sobre os Campos da Morte deixados pelo Kmer Rouge. O Delta Green investigou o caso e manteve as conclusões em documentos sigilosos.

O Grande Verme Pálido

Na Idade Média, Mordiggian assumia essa forma asquerosa quando era convocado pelos seus cultistas na Europa, sobretudo, na França. O Grande Verme Pálido é uma criatura de enormes proporções, similar a um ascarídeo inchado e gordo que se arrasta sobre o próprio dorso deixando um rastro limoso. A criatura tem uma carne mole e purulenta de coloração branca e extremidades castanhas. A cabeça é afilada, dotada de olhos róseos estranhamente inteligentes e uma boca anelada guarnecida de cerdas. 

Muitos afirmam que o avatar é o Pai de todos Vermes de Cemitério que devoram a carne dos mortos e se alimentam fartamente da podridão. Não por acaso, esse avatar era convocado para receber sacrifícios e oferendas humanas deixadas em altares nos subterrâneos de necrópoles abandonadas. Os carniçais a reconhecem como uma das formas mais tradicionais de Mordiggian e rendem a ele pedidos para que ele favoreça seus covis e nunca deixe faltar comida.

Alternativamente esse horror pode assumir a forma de uma massa composta por milhares de vermes que se movem como uma única criatura. Nessa encarnação, o Grande Verme Pálido recebe sacrifícios e se alimenta de oferendas consumindo vorazmente cadáveres em poucos minutos. 

Hiina

Possivelmente um dos únicos avatares de Mordiggian conhecidos no continente africano, Hiina é uma monstruosidade venerada pelos carniçais que habitam o Noroeste da África, sobretudo o Mali, Mauritânia e Niger. Ele também foi adorado por cultistas humanos descendentes de franceses que se estabeleceram na Colônia do Senegal no século XIX.

A criatura se assemelha a uma imensa hiena de corpo musculoso, com pelagem castanha esverdeada e manchada por doença. Ela geralmente surge coberta com uma substância gelatinosa semelhante a sangue coagulado. Assim como os demais avatares, ele emana um fedor de corrupção e é associado a prática do canibalismo. Dizem que Hiina (nome do qual deriva a palavra hiena) é invocado para se alimentar de cadáveres oferecidos e para punir os transgressores de suas leis. Hiina é uma divindade severa que se farta com os restos humanos e que supostamente possui algum tipo de controle sobre hienas, abutres e urubus que habitam os desertos africanos. Alguns povos nativos rendiam louvores a Hiina graças a sua proximidade com os carniçais. Estes acreditavam que a saliva da criatura podia acelerar a transformação de um humano em carniçal e possuíam um ritual que envolvia se deixar lamber pela monstruosidade.

Ikuta

Conhecido apenas pelos Yacumã, uma tribo degenerada que habita os limites da fronteira norte do Brasil com a Venezuela, Ikuta é o Deus do Massacre e dos Festivais da Carne. Os Yanumã descendem quase que integralmente de carniçais com quem tiveram contato através da Terra dos Sonhos. De fato, uma parte considerável de membros da tribo passam pela transição e se transformam em carniçais ao longo da vida.

Descobertos nos anos 1950 por antropólogos a serviço da extinta Secretaria de Proteção ao Indígena, os Yacumã eram uma tribo de antropófagos que viviam numa das regiões mais isoladas do estado de Roraima. Cercados de selvas densas e intransponíveis eles eram extremamente territoriais e perigosos, embrenhando-se na mata virgem e usando a vegetação em seu benefício. Uma equipe de filmagem italiana na década de 1970 conseguiu encontrar os Yacumã e ter com eles um breve contato, filmando alguns de seus costumes e rituais. A equipe infelizmente acabou desaparecendo na selva. Há histórias de que a tribo se juntou aos carniçais na Terra dos Sonhos.

Seu Deus, Ikuta é um avatar de Mordiggian que assume a forma de uma coluna rodopiante de cinzas que se ergue do chão até os céus. Ele devora tudo que o toca e se alimenta de cadáveres lançados em uma cova subterrânea onde ele era costumava ser invocado.

O Patriarca

Habitando as profundezas de metrópoles e grandes centros urbanos, o Patriarca é um avatar de Mordiggian venerado por grandes comunidades formadas por Carniçais mais esclarecidos. Estes acreditam ardorosamente que o crescimento, progresso e sobrevivência das cidades depende de sacrifícios feitos em homenagem a Mordiggian quando este assume a forma do Patriarca.

Os carniçais tendem a utilizar contatos entre os humanos cuja função é obter sacrifícios que são coletados em lugares miseráveis, vizinhanças perigosas ou túneis de metrô. Eles são levados até os subterrâneos habitados pelos carniçais e ritualisticamente preparados para serem oferecidos ao Patriarca, Se ele estiver satisfeito com o tributo, o Patriarca aceita poupar as cidades na superfície de sua ira e abençoar sua existência.

O Patriarca é uma abominação amorfa gigantesca de cor perolada, dotado de incontáveis bocas avermelhadas que parecem sempre estalar ansiosas por mastigar e devorar carne humana. Ele é invocado apenas nas profundezas por bandos de carniçais que um dia foram humanos. Acredita-se que existam comunidades de carniçais que veneram esse avatar de Mordiggian em Chicago, Nova York e Boston, mas há rumores que dão conta de que tais grupos também podem ser achados nas entranhas de grandes metrópoles ao redor do mundo: Cidade do México, Rio de Janeiro, Londres, Tóquio e Moscou para citar apenas algumas.

Medonho em cada pequeno detalhe, Mordiggian é uma entidade enigmática cujo entendimento parece escapar às mentes sãs. Talvez a compreensão sobre esse Deus demande transcender a razão e desafiar os tabus mais profundos da humanidade. Só aqueles que se entregam a tal juízo tem um vislumbre do que é realmente Mordiggian.

Um comentário:

  1. Acho muito legal matérias assim sobre os antigos e ou criaturas, será q o cthulhu tem avatares tbm ? Nunca me deparei com nada que afirmasse isso

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