quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Explorando os Mythos mais Obscuros: Yibb-Tstll, o Paciente: Aquele que contempla o tempo

 

Poucos nomes podem ser pronunciados sem que o ar pareça tornar-se mais pesado. Entre eles encontra-se Yibb-Tstll, o Paciente, Aquele que Contempla, cuja presença é conhecida desde os tempos em que os homens ainda não distinguiam o mundo desperto daquele que existe além dos sonhos. Não é correto chamá-lo simplesmente de Divindade, pois semelhante palavra pressupõe uma relação de devoção que ele jamais solicitou. Yibb-Tstll existe antes das nossas religiões e permanecerá quando os últimos templos forem reduzidos a pó. Ele não exige preces, não convoca exércitos e não disputa o domínio de outros poderes. Ele simplesmente observa. E aqueles que foram vistos por Yibb-Tstll raramente tornam a considerar o mundo da mesma maneira.

Os registros mais antigos que fazem referência ao Paciente são fragmentários e contraditórios. Alguns o denominam Yibb, outros Yibb-Tstll, enquanto manuscritos provenientes de escolas ocultistas muito diferentes empregam nomes que aparentemente não guardam qualquer semelhança entre si. Essa multiplicidade não deve causar espanto. Aqueles que contemplaram sua forma dificilmente concordaram sobre o que haviam visto, e aqueles que ouviram sua voz raramente permaneceram suficientemente lúcidos para registrá-la. Há quem sustente que Yibb-Tstll não pertence propriamente às Terras do Sonho, mas que estas constituem apenas uma região de sua vastíssima esfera de influência. Outros afirmam que ele permanece em um lugar que não pode ser alcançado através do espaço, mas somente através de certas combinações de sonho, tempo e vontade.

Sua aparência é uma afronta a qualquer tentativa de estabelecer uma anatomia coerente. 

Yibb-Tstll manifesta-se como uma criatura imensamente grande, um gigante de aspecto humanoide e sombrio. Ele não possui pele, mas camadas necrosadas de cascas de feridas que recobrem cada centímetro de seu corpo colossal. Ele permanece sentado em uma postura imóvel sob a beira de um abismo cercado por montanhas altíssimas. De suas costas erguem-se imensas asas membranosas, semelhantes às de um morcego colossal, embora nenhum naturalista prudente confundisse aquelas estruturas com as de qualquer criatura terrestre. Seu corpo é recoberto por protuberâncias, dobras e vincos cuja função permanece desconhecida. Em algumas representações não possui pernas, mas uma massa de tentáculos serpenteantes. A cabeça, quando pode ser discernida entre a escuridão, apresenta feições que lembram remotamente um rosto humano deformado pela perspectiva de um pesadelo. Os olhos são pequenos e amarelados, há fossas nasais profundas e uma boca que mais parece um fosso vermelho.

Contudo, nenhuma descrição de Yibb-Tstll estará completa sem mencionar aquilo que se agarra ao seu corpo. Milhares de Noitesguios podem ser encontrados tateando suas feridas escuras, agarrados às suas asas, membros e ventre, como uma colônia parasitária que jamais abandona o hospedeiro. Essas criaturas alimentam-se de uma substância escura produzida pelo próprio corpo do Paciente, uma bile negra cuja natureza desafia toda classificação. Não se deve interpretar tal relação segundo os conceitos humanos de maternidade embora muitos ocultistas tenham tentado estreitar o conceito de que Yibb-Tstl amamenta essas criaturas. Não são poucas as representações de Yibb-Tstl que evocam mamas em seu corpo que são avidamente sorvidas pelas criaturas aladas que o acompanham.

Mas os noitesguios não são filhos no sentido que atribuímos à palavra, tampouco são simplesmente servos. São parte da própria ordem de coisas que cerca Yibb-Tstll, como os vermes que habitam um cadáver ou as sombras que acompanham um corpo sob a luz. Os Noitesguios se arrastam, arranham a carne extraindo filetes da substância que é absorvida pelas criaturas. A carne lacerada se torna então ferida exposta que irá se fechar num ciclo interminável.

O Paciente habita uma região remota das Terras dos Sonhos em uma cordilheira perdida, engolida nas profundezas da Selva de Kled. Ali, sob uma vegetação que jamais conheceu o sol de nosso mundo, ele permanece estático e contemplativo. Não dorme. Não come. Não envelhece. Não demonstra qualquer necessidade reconhecível. Há relatos de viajantes que afirmam ter permanecido à sua sombra durante o que julgaram ser algumas horas, somente para descobrir, ao despertar, que décadas haviam transcorrido. Outros juram que a criatura não estava ali quando chegaram e que, ainda assim, sentiram durante toda a viagem a desconfortável certeza de que estavam sendo observados.

É justamente a sua relação com o tempo que tornou Yibb-Tstll objeto de cobiça entre os mais insensatos dos ocultistas. Diz-se que sua posição lhe permite contemplar simultaneamente acontecimentos separados por séculos. Para ele, passado e futuro talvez não sejam categorias distintas, mas regiões de uma mesma paisagem. Aquele que obtivesse sua atenção poderia, em princípio, perguntar sobre acontecimentos ainda não ocorridos ou descobrir verdades enterradas antes mesmo do nascimento de seus antepassados. Mas existe uma diferença fundamental entre conhecer o futuro e compreendê-lo. Mais de um estudioso enlouqueceu ao descobrir que a resposta recebida era perfeitamente clara, enquanto todas as suas consequências permaneciam incompreensíveis.


Não são, portanto, os ignorantes que procuram Yibb-Tstll. São os eruditos, os feiticeiros, os astrólogos e aqueles homens que já aprenderam o suficiente para perceber a extensão de sua própria ignorância. Seus cultistas não formam grandes congregações, tampouco constroem templos que possam ser encontrados em mapas. São indivíduos dispersos, frequentemente separados por continentes e séculos, unidos apenas pelo conhecimento de determinados ritos. Alguns desejam os Noitesguios. Outros procuram o misterioso Escuro, a própria substância repulsiva associada ao sangue do Paciente. Outros ainda desejam aquilo que consideram sua maior dádiva: o Toque de Yibb-Tstll.

Esse último desejo é especialmente perigoso. O Paciente pode tocar um homem e transformá-lo. Não se deve confundir tal transformação com bênção. O corpo humano é uma arquitetura delicada, construída para existir dentro de limites que Yibb-Tstll não reconhece. Um toque seu pode alterar carne, memória, percepção e até a própria relação do indivíduo com o universo material. Há relatos de homens que retornaram de seus encontros com membros adicionais, sentidos que não possuíam anteriormente ou uma percepção do tempo que os condenou à incapacidade de viver entre os demais seres humanos. Alguns chamaram isso de iluminação. Aqueles que conheceram essas pobres almas chamariam de loucura, devaneio ou perdição.

Há ainda o Escuro, uma substância cobiçada que escorre da entidade e que certos manuscritos descrevem como seu sangue repleto de poder. Nas mãos de um iniciado, o Escuro pode ser empregado em ritos de grande poder e em práticas que nenhum médico deveria testemunhar. Alguns tratados afirmam que pequenas quantidades dessa matéria podem permanecer ativas durante décadas, reagindo à presença de determinados símbolos ou palavras. Outros afirmam que o Escuro não é uma substância, mas uma manifestação metafísica de algo que, em condições normais, deveria permanecer fora do nosso universo. Talvez ambas as explicações estejam erradas. Talvez sejam igualmente verdadeiras.

É curioso observar que Yibb-Tstll parece não possuir ambições compreensíveis. 

Não há evidência de que deseje conquistar a Terra, destruir a humanidade ou subjugar os demais poderes do Mythos. Ela não precisa fazê-lo. Enquanto os homens erguem impérios e os derrubam, enquanto civilizações nascem e desaparecem, enquanto estrelas surgem e morrem, o Paciente permanece sentado na sua vigília. Seus olhos vislumbram acontecimentos que para nós constituem eras inteiras. É possível que a vida humana seja, para ele, menos significativa que o movimento de um inseto. É igualmente possível que cada ser humano seja apenas uma pequena peça em alguma sequência de acontecimentos que somente ele consegue perceber.

É por isso que os antigos mestres aconselhavam jamais procurar Yibb-Tstll sem antes perguntar por que se deseja encontrá-lo. O perigo não reside apenas em ser morto, enlouquecido ou transformado na jornada de busca. O verdadeiro perigo é obter exatamente aquilo que se procura. Conhecimento absoluto pode ser uma forma de condenação. Aquele que pergunta ao Paciente quem matou um homem pode descobrir não apenas o assassino, mas também os acontecimentos que conduziram ao crime, aqueles que nascerão dele e os acontecimentos futuros que inevitavelmente resultarão daquela morte. A resposta de Yibb-Tstll pode ser verdadeira; aquilo que o homem fará depois de ouvi-la é que talvez não seja mais humano.

Assim permanece o Paciente em sua beirada, envolto em trevas e cercada por sua silenciosa prole alada. Yibb-Tstll não persegue, não caça e não convoca. Ele espera. Talvez esteja esperando por aqueles que aprenderam seu nome. Talvez esteja observando mundos que ainda não existem. Talvez tenha visto o nascimento e a morte de todos aqueles que algum dia a procurarão. E há uma possibilidade ainda mais inquietante: a de que sua imobilidade não seja passividade, mas concentração. Talvez Yibb-Tstll esteja contemplando um único acontecimento, situado em algum ponto remoto do tempo, pelo qual espera há milhares de anos.

Se assim for, seria prudente perguntar o que ele está aguardando.

E, sobretudo, o que está destinado a chegar.

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