quarta-feira, 10 de junho de 2020

Resenha: Mansions of Madness: Behind Closed Doors


por Fábio Silva

A Chaosium tem surpreendido com a qualidade de seus produtos em Chamado de Cthulhu 7ª. Cada vez mais, eles têm lançado material inédito, explorando novas ideias e apresentando esse jogo incrível aos novos jogadores e guardiões. Porém, há mimos para os veteranos também. Na caixa do Starter Set eles reformularam o texto do Quick-Start Rules além de incluir cenários clássicos, revisados e ampliados, com uma arte fenomenal. Atualizaram o Cthulhu Dark Ages, que agora conta com mais conteúdo além de uma nova abordagem e uma nova aventura, com regras para a 7ª edição. Até mesmo Dead Light (Leia a respeito aqui) , uma aventura escrita, já há algum tempo, para a 7ª edição, recebeu uma nova edição revisada e com nova arte, acompanhada de uma aventura inédita. E claro, não podemos deixar Masks of Nyarlathotep (Resenha aqui) de fora disso, com um trabalho primoroso em um livro duplo, com conteúdo novo e novas ilustrações.

Nos novos produtos, bem como nos clássicos revistos, a Chaosium tem feito os textos, e as regras, amigáveis para novos guardiões, além de incluir caixas de texto com orientações, dicas e até mesmo resumo de regras (esse volume contém uma explicação sobre como funciona o gasto de sorte, por exemplo). Não foi diferente com Mansions of Madness Volume 1: Behind Closed Doors (Mansões da Loucura: Atrás das Portas Fechadas).

Mansões e Loucura em Chamado de Cthulhu 

Mansions of Madness foi originalmente publicado em 1990 para Chamado de Cthulhu 4ª Edição (apenas em inglês). Ele vinha com cinco aventuras, sendo elas: Mister Corbit por Michael DeWolfe; The Plantation por Wesley Martin; The Crack’d and Crook’d Manse por Mark Morrison; The Sanitorium por Keith Herber; e Mansion of Madness por Fred Behrendt. A arte clássica da capa — criada por Lee Gibbons — está inclusa nessa nova edição como abertura do capítulo de introdução.

O sucesso foi tremendo e hoje muitos dos cenários estão na lista de favoritos de vários guardiões e jogadores de Chamado de Cthulhu. Por isso, em 2007, o livro recebeu uma nova edição para o Chamado de Cthulhu 6ª edição do jogo (publicado no Brasil pela Terra Incógnita). A capa se manteve a mesma, apesar dos tons de cores serem mais vivos, enquanto o livro teve um acréscimo significativo: a Chaosium inclui um sexto cenário. The Old Damned House por Penny Love e Liam Routt entrou para a lista dos cenários que receberam destaque nessa coleção. Novas artes e mapas foram elaborados para a reedição do livro, trazendo uma nova roupagem para os antigos e novos fãs desse compêndio. 

Agora, após o sucesso da segunda edição dessa coleção de aventuras, a Chaosium preparou uma surpresa, dessa vez atualizado para as regras do Chamado de Cthulhu 7ª edição (publicado no Brasil pela New Order), mas com layout e artes completamente novos — incluindo uma nova capa. Também, a coleção de aventuras foi dividida em mais de um volume. O primeiro deles, Mansions of Madness Volume 1: Behind Closed Doors contém apenas 2 dos cenários clássicos, publicados desde a primeira edição. Eles acrescentaram três novos cenários (falo sobre eles abaixo), mantendo a premissa: aventuras que acontecem por trás de portas trancadas, em casas sinistras. 

Uma Reedição Renovada 

A nova edição de Mansions of Madness é, na verdade, parte do plano da Chaosium de criar uma série de suplementos de aventuras que sejam amigáveis para novos jogadores e guardiões. Eles fizeram isso com o recente Gateways to Terror e Portais para as Trevas (Doors to Darkness Resenha aqui) e agora aplicaram o mesmo conceito revisando e criando cenários dentro da premissa do Mansions of Madness. A ideia é que todos os cenários possam ser jogados sem dificuldades usando as regras do Starter Set ou Chamado de Cthulhu: Guia do Guardião  apenas. Para aqueles que desejam ter uma pitada a mais de ação, os cenários são compatíveis com o Pulp Cthulhu também. Os cenários podem ser jogados numa média de uma a três sessões, com apenas um investigador ou mais; ideal para quem procura partidas curtas. 

Eles incluíram os cenários em uma ordem cronológica, o que permite conectá-los, criando uma pequena campanha formada por episódios soltos — ao longo do texto, há dicas sobre como mover as coisas através dos lugares ou do tempo, para que as coisas façam sentido. Porém, as aventuras podem ser jogadas de maneira independente ou como um intervalo em uma campanha em andamento. Também há ideias sobre como o guardião pode desenvolver futuras aventuras baseado nas decisões dos jogadores no decorrer da história.


É possível notar que, diferente de outros cenários escritos diretamente para guardiões inexperientes, nesses há menos orientações profundas sobre como proceder em algumas situações que pode surgir durante a aventura. É como um primeiro passo ao improviso numa aventura de Chamado de Cthulhu. Guardiões experientes não devem encontrar dificuldades em lidar com tais situações. 

A Chaosium disponibiliza seis personagens pré-montados para usar com os cenários, ou como bem entender. Isso é prático para orientar novos jogadores ou para guardiões que desejam iniciar a sessão rapidamente. Se os jogadores preferirem, em cada cenário há uma sessão Como Envolver os Investigadores que fornece orientações sobre como criar personagens que sejam úteis e diretamente ligados aos mistérios de cada cenário — incluindo sugestões de perícias úteis. 

Os Cenários 

Para evitar revelações do enredo, já que alguns jogadores podem estar lendo essa resenha (inclusive os meus jogadores!), vou apresentar a premissa de cada cenário abaixo e falar minhas impressões. Porém, penso em, à medida que eu preparo cada cenário para minhas sessões, preparar também uma resenha profunda de cada um dos cenários (quem sabe eu crio meu próprios handouts). Se vocês tiverem desejam ver isso e saber mais sobre os cenários, deixe o seu comentário, para que eu saiba do interesse e possa escrever novas postagens detalhando cada um deles. 

Mister Corbitt 

Um empresário local aposentado, aparentemente tímido e recluso, esconde um segredo terrível. Conseguirão os investigadores podem resolver o enigma e salvar o dia? 

Eles mantiveram a ideia original aqui, incluindo novos elementos, explicações e dicas de como conduzir o cenário. Várias partes do texto foram retiradas do texto original da segunda edição de Mansions of Madness (2007). Os mapas e artes foram atualizados no estilo do que tem sido feito na produção de arte da linha Chamado de Cthulhu 7ª — a remasterização da arte presente no fim da aventura da segunda edição serve como abertura da aventura. 

The Crack’d and Crook’d Manse 

Há muito considerado um lugar amaldiçoado pelo povo de Gamwell, parece que a Mansão Fitzgerald finalmente se livrou de sua fama de um passado sórdido. Mas ninguém vê o novo proprietário, Arthur Cornthwaite, há algum tempo. A história está se repetindo? 

Esta é a segunda das aventuras clássicas que está sendo republicada. Assim como a anterior, há conteúdo extra, novas ideias e elementos. A arte também foi reformulada. Partes do texto da edição anterior também foram incluídos aqui, o que a deixa muito próximo do que era, mas com um novo sabor.


The Code 

Convocados para a casa do Dr. Kenneth Connolly por um telegrama urgente, os investigadores podem entender os eventos bizarros que afligem Wellington Manor? 

Está é a primeira das três novas aventuras incluídas no livro. Ela tem um tom de mistério, com pitadas de aventura, ficção científica e terror — um sabor suave de Pulp, que pode ser facilmente transportada inteiramente para dentro desse gênero. 

The House of Memphis 

O mágico mundialmente famoso Memphis, o Grande, não é visto há semanas. Ele simplesmente partiu para outra de suas lendárias viagens de caça à magia, ou há uma razão mais sinistra para seu desaparecimento? 

A segunda aventura inédita, e assim como a anterior, bebe um pouco do Pulp das histórias pós-Lovecraft, mas sem exageros da ficção do gênero — os Mitos de Cthulhu sendo usado como banalidade na vida mundana e acarretando consequências por isso. 

The Nineteenth Hole

O trabalho de restauração no Thistledown Golf Club não foi executado de forma adequada. Primeiro, havia histórias de doenças, depois avistamentos fantasmagóricos, e agora ninguém consegue encontrar o dono. A escuridão cai sobre a Escócia e nem tudo é o que parece. 

O terceiro dos novos cenários e talvez o que mais bebe do Pulp. Ficção, física e esoterismo criam o clima de terror clássico dessa aventura, que traz revelações nos Mitos de Cthulhu para surpreender os Investigadores. 

O livro finaliza com um capítulo reunindo todos os handouts e mapas das aventuras e um índice. 

É um livro completo no que ele se propõe: aventuras rápidas para jogadores e guardiões novos ou experientes. Para alguns que gostam de elementos mais Lovecraftianos ou Pulp em seus jogos, alguns ajustes farão você alcançar o que deseja — os cenários são um meio termo entre um e outro (os três últimos em especial). 

A dúvida que não quer calar é: eles farão apenas mais um livro (Volume 2) contendo as quatro aventuras presentes na edição de 2007 com mais uma ou duas aventuras inéditas? Ou teremos três volumes, cada um deles contendo cinco aventuras? 

Estamos no aguardo.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Amityville - A incrível história da mais famosa casa assombrada


Certos casos extraordinários envolvendo assombrações conseguem ao longo dos anos se transformar em algo mais, ganhando proporções que vão muito além do folclore local, tornando-se lendas alimentadas pelas pessoas que as compartilham. Os rumores e narrativas as nutrem com uma espécie de vida própria até se tornarem icônicas.

É possível que nenhuma outra assombração tenha atingido um grau tão elevado de popularidade quanto o Horror de Amytiville, uma macabra história envolvendo fantasmas e demônios reunidos sob um mesmo teto amaldiçoado. A controvérsia, o debate e as opiniões que ela suscitou nesses últimos 40 anos ainda reverberam e são tema de discussão em todo o mundo.

Como muitas outras histórias assustadoras, esta fábula medonha se inicia com um brutal assassinato. A Família Defeo era bem conhecida e respeitada na pequena comunidade de Amityville, no interior do Estado de Nova York. Os membros da família viviam na confortável casa localizada no número 112 da Ocean Drive e tudo indicava que eram pessoas felizes. Compartilhavam o mesmo lar os pais Ronald e Louise Defeo e seus cinco filhos. Os vizinhos os conheciam bem e para todos eles pareciam a típica família vivendo o sonho americano. Mas como diz o ditado, as aparências podem enganar, e de fato, haviam nuvens escuras pairando sobre a aparentemente pacífica família.

A noite de 13 de novembro de 1974, começou como qualquer outra na vizinhança, mas aproximadamente às 3 da manhã a tranquilidade foi rompida pelo som de sirenes de polícia e ambulâncias. Os veículos cruzavam as ruas desertas e paravam bruscamente diante da casa dos Defeo. A cena que aguardava policiais e enfermeiros naquela casa era digna de pesadelos. Lá, com a face afundada em travesseiros, estavam seis membros da família Defeo, cada um deles alvejado por devastadores disparos de espingarda dados à queima roupa. O filho mais velho, Ronald Defeo Jr foi preso e acusado de provocar o massacre. Ele tentou de início culpar um executor à mando da mafia pela chacina de seus pais, irmãos e irmãs, mas as evidências foram claras de que ele tivera participação direta na tragédia. A arma do crime foi achada e ele então admitiu sua culpa.

Ronald Jr culparia então seus pais, alegando que teria agido em legítima defesa contra os pais em face dos abusos que sofria desde criança. Não ajudava muito na sua versão do ocorrido que ele tivesse um perfil antisocial marcado pelo uso de drogas pesadas. Parentes próximos relataram que pai e filho tinham brigas frequentes. Após uma tentativa de alegar insanidade, Ronald Jr foi sentenciado a 25 anos de prisão para cada um dos homicídios cometidos. Ele sequer tentou recorrer.


Haviam no entanto muitos mistérios a respeito do crime. Embora a espingarda usada em cada uma das mortes fosse extremamente barulhenta, os vizinhos não ouviram nenhum som de disparos, apenas os latidos do cachorro que pertencia aos Defeo. De fato, a polícia apenas chegou ao local do crime mediante um telefonema feito pelo próprio assassino, Ronald Jr, que avisou sobre as mortes simulando que havia se escondido e assim escapado do massacre. Também havia o bizarro detalhe de que os membros da família haviam sido mortos enquanto dormiam, mesmo que os estampidos fossem altos o bastante para acordar a todos depois do primeiro disparo ser feito. Finalmente era estranho que os corpos tivessem sido encontrados de bruços em suas camas, enquanto o assassino sustentava não ter mexido neles. Considerando que Defeo constantemente mudava a sua versão dos acontecimentos e que se mostrava pouco cooperativo durante os interrogatórios, detalhes do crime permaneceram sem explicação.

A despeito do horrendo massacre ocorrido no 112 da Ocean Drive, a casa voltou a ser anunciada para o mercado 1975. Ela foi comprada por George e Kathleen Lutz, que se mudaram para o lugar com suas três crianças. Embora a construção fosse uma bela casa em estilo holandês com um ótimo preço, a venda não foi fácil, como seria de se esperar. Longe de esconder os detalhes sobre o que havia acontecido na casa e os motivos para ela estar anunciada com um valor tão baixo a imobiliária expôs toda a situação aos possíveis compradores. Os Lutz sabiam dos detalhes e mesmo assim viram na compra uma excelente oportunidade. O casal decidiu não contar às crianças a verdade e pediu que um padre fizesse uma benção antes deles se mudarem em caráter definitivo. Para todos os efeitos, era a casa dos seus sonhos, uma que eles em circunstâncias normais jamais teriam a chance de comprar. Entretanto, o sonho estava prestes a se transformar em um pesadelo.

As coisas estranhas começaram a acontecer imediatamente tão logo a família concluiu sua mudança. Começou como em geral acontece, com pequenas coisas, como sons misteriosos no porão ou em aposentos vazios. Os ruídos iam de estranhos assovios, passando por batidas e finalmente passos. As crianças reclamavam do constante som de arranhões do lado de fora da janela, como se pássaros tivessem feito ninho do telhado. Em casos mais extremos batidas violentas e uma estranha cacofonia de sons, como pessoas falando ao mesmo tempo podia ser ouvida no andar de cima, onde não havia ninguém. Convidados que visitaram a casa também descreveram esses fenômenos perturbadores, para alívio dos Lutz, que temiam estar enlouquecendo. George Lutz contou a respeito desse início:

 "Eu não queria deixar a casa. Depois da mudança, havíamos empenhado quase tudo na reforma e nossa conta no banco estava quase zerada. Mas ao mesmo tempo, era impossível negar que algo estranho estava acontecendo. Nós convidávamos pessoas para ouvir pessoalmente os ruídos e assim não nos sentíamos tão mal. Por vezes, quando estávamos na sala ou na cozinha, ouvíamos os ruídos vindo dos quartos, onde não havia ninguém. De madrugada, quando estávamos deitados era possível ouvir o som de alguém caminhando nas escadas ou remexendo nas gavetas da cozinha. Nós tentávamos correr para ver se conseguíamos flagrar alguém, mas os aposentos estavam sempre vazios, ainda que por vezes parecessem ter sido revirados às pressas. Nós precisávamos de alguém que nos dissesse que não estávamos imaginando aquelas coisas e que não era nossa imaginação". 


Mas havia muitos outros fenômenos. Os moradores sentiam vários lugares gélidos na casa. Algumas vezes aposentos ficavam tão frios que eles eram obrigados a acender as lareiras mesmo no auge do verão. Ironicamente haviam pontos que misteriosamente ficavam extremamente abafados ao ponto das pessoas se sentirem desconfortáveis. Além disso, as luzes costumavam piscar, objetos se moviam e inexplicáveis odores sem uma origem definida podiam ser sentidos. O cheiro de perfume e de comida recém preparada, além de carne podre e excremento eram os mais frequentes. Acima de tudo, havia uma sensação palpável de angústia que pesava sobre a casa. A medida que a família tentava lidar com a situação a atividade paranormal foi se intensificando.

Portas e janelas batiam sem parar abrindo e fechando espontaneamente, quadros caíam das paredes enquanto espelhos trincavam e pratos rachavam. Era como se forças invisíveis estivessem sempre em ação, atirando coisas de um lado para o outro. Em seguida veio a sensação de que algo encostava ou empurrava os moradores da casa. Kathleen descreveu que certa vez sentiu um abraço em volta de seu corpo, como se alguém estivesse deitado na cama com ela. As crianças começaram a apresentar marcas de arranhões, contusões e até mesmo mordidas. As meninas tinham ferimentos arroxeados de dedos nos braços e pernas, como se alguém as tivesse agarrado com força. Em uma ocasião, George ouviu as crianças gritando em desespero e correu para acudi-las. Ao chegar ao quarto encontrou as camas no chão como se alguém as tivesse arrebentado. Houve vários incidentes em que Kathleen e as crianças chegaram a ser erguidas no ar e lançadas contra a parede ou de encontro a móveis.

Finalmente, tiveram início as aparições na casa: uma gosma esverdeada que escorria pelas paredes, nuvens de moscas que apareciam do nada e causavam verdadeiro horror nas crianças, baratas e gafanhotos enormes. Por algum tempo, incidentes muito estranhos aconteceram, como a ocasião em que George e Kathleen viram a face de uma criatura diabólica aparecer no fogo da lareira e em outra quando George despertou e descobriu que estava deitado ao lado de uma mulher estranha: "uma velha de cabelo branco desgrenhado, com um rosto enrugado e fios de baba escorrendo da boca". Além disso, George também passou a sofrer de sonambulismo, acordando toda noite por volta das 3 da manhã, o horário exato em que os crimes da Família Defeo haviam acontecido. 


Entre os muitos incidentes bizarros descritos pela Família Lutz, um dos mais estranhos ocorreu quando as crianças começaram a se comportar de maneira atípica. A filha mais nova, Missy passava muito tempo sozinha e adquiriu o hábito de falar e até cantar para um amigo imaginário que ela chamava de "Jodie". Ao descrever essa amiga, ela dizia se tratar de uma porquinha de olhos grandes e expressivos que ficava visível apenas quando desejava. A principio os pais assumiriam que não havia nada de mais nisso, e que seria apenas a fértil imaginação dela em ação. Mas certa vez, George estranhou que a filha estivesse muito quieta e entrou no quarto para verificar, se deparando com algo escondido num canto, algo parecido com um porco, dotado de olhos quase humanos. Ao se assustar com a coisa, George puxou a filha de lado e "Jodie" imediatamente investiu contra ele. George conseguiu sair do quarto carregando a filha e batendo a porta. atrás de si Os sons de grunhidos do "animal" foram ouvidos em toda casa pelo restante da família e quando pararam George e Kathleen foram até o quarto investigar. Supostamente encontraram o aposento arruinado e inúmeros rastros deixados por algo com pegadas semelhantes às de um porco.   

Ao longo de toda permanência da família na casa ocorreram outros pequenos fenômenos. George encontrou um quarto secreto no porão todo pintado de vermelho que lhe causou uma terrível sensação de desespero. O aposento não estava na planta da casa e aparentemente havia sido incluído depois da construção. De dentro desse quarto misterioso vinha um fedor nauseante que contaminava toda casa com um fedor que lembrava um abatedouro.

Além desses fenômenos inquietantes, os membros da família se viram de uma hora para outra afetados emocionalmente pela aura maligna da casa. As crianças se tornaram agressivas, Kathleen sofria crises nervosas e tinha episódicos de pânico paralisante, já George dizia que ao se olhar no espalho parecia cada vez mais diferente. Ele começou então a sofrer de pesadelos nos quais matava e sacrificava animais com uma espingarda. Kathleen também experimentava alucinações com os crimes cometidos na casa, chegando ao ponto de sonhar com o massacre dos Defeo, quase como se estivesse testemunhando os acontecimentos em primeira pessoa. 

Era como se a mente de cada membro da Família estivesse sendo de alguma forma invadida por uma memória que não lhes pertencia. No auge do terror, a Família resolveu entrar em contato com o Padre Ray Pecoraro que havia presidido a benção inicial na casa. O sacerdote aceitou retornar e repetir o processo, mas supostamente a experiência o deixou aterrorizado.

Quando Pecararo tentou abençoar a sala de estar foi empurrado por uma força invisível e um sonoro grito se fez ouvir. Suas mãos desenvolveram estranhas bolhas, e sempre que ele fazia o sinal da cruz portas e janelas batiam e a casa era sacudida por um tremor. O religioso entregou aos membros da família crucifixos que deveriam ser usados com proteção, mas cada vez que faziam uso dos amuletos para afastar o mal eram confrontados com objetos voando e vozes furiosas surgidas do nada. Sem saber o que fazer, os Lutz concluíram que não iriam suportar aquela situação por muito tempo e decidiram se mudar. Em 14 de janeiro de 1976, a família decidiu deixar a residência. Naquela mesma noite uma cacofonia de gritos e um turbilhão de fenômenos paranormais eclodiu com tamanha força que a Família achou melhor antecipar seus planos e partir o quanto antes: "Parecia uma espécie de comemoração ou uma horrível demonstração de ódio para conosco".      


Pouco depois da Família Lutz se mudar, a Casa se tornou o foco do famoso casal de investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren, que deram início a uma complexa exploração da casa na companhia do repórter Marvin Scott e uma equipe de médiuns. George e Kathleen Lutz ofereceram sua assistência, embora os dois compreensivamente se recusassem a colocar os pés na propriedade novamente. Assim que os Warren chegaram eles foram saudados pela força acachapante que dominava o lugar. Além de um esmagador sentimento de tristeza e depressão que permeava cada espaço, as coisas se tornaram especialmente perigosas quando Ed desceu até o porão. Lá ele afirmou ter sido fisicamente empurrado escada abaixo por uma presença inumana. Ele descreveu o ataque nos seguintes termos:
"Era como ser atingido por uma cachoeira. E a pressão foi me empurrando para baixo até o chão. Eu chamei pelo nome de Jesus Cristo e ordenei que a coisa revelasse sua identidade... eu compreendi nesse momento que não estava lidando com um fantasma. Aquela não era uma casa comum, com uma presença que um dia tivesse sido humana".

A investigação em Amityville foi especialmente complicada, marcada por visões dos assassinatos ocorridos no lugar, bem como alucinações de Lorraine que via os corpos, bem como uma "presença diabólica", que por vezes a confrontava fisicamente. Outros membros do time experimentaram fenômenos inexplicáveis também, como um cameramen que foi atormentado por palpitações e falta de ar ao descer uma escadaria. No segundo andar, um dos mediums foi paralisado por um frio indescritível. Lorraine Warren descreveu as entidades na casa como de natureza demoníaca ao invés de fantasmas de seres humanos. Ela comentou sobre as entidades dizendo:

"Seja lá o que fosse, na minha estimativa, era algo negativo. Não tinha nada a ver com pessoas que viveram na casa ou que um dia andaram na Terra na forma humana. Era algo vindo das profundezas. Seja o que for, estava lá, e era capaz de se mover. Ela não precisava ficar na casa, mas aquele era o seu covil, seu esconderijo".


Aparições foram vistas pela equipe também, e em certa ocasião eles foram capazes de fotografar a forma espectral do que se acredita ser uma das crianças Defeo assassinadas no segundo andar. Após pesquisar a história da casa e da propriedade em si, os investigadores descobriram que ela pertenceu ao feiticeiro John Ketchum, e que muito antes, a área era usada pelos nativos da tribo Shinicock como um lugar para onde eram exilados os loucos e enfermos. 

À despeito de toda essa investigação e do grande número de testemunhas, a história só começou a atrair a atenção da opinião pública quando o autor Jay Anson publicou o livro intitulado "The Amityville Horror: A True Story" (O Horror de Amityville: Uma história real) no ano de 1977. Não demorou muito até o livro se tornar uma sensação e ganhar o topo das listas dos mais vendidos. Com base nesse primeiro trabalho, a casa recebeu atenção internacional com artigos, romances e estudos, além, é claro, uma adaptação para o cinema chamada "The Amityville Horror" em 1979 que teve várias sequências. A Casa Assombrada é uma das mais conhecidas e um dos  das mais estudadas e documentadas.

Contudo, apesar de toda fama, a casa sempre foi objeto de muito ceticismo.

Um dos principais problemas com sua espetacular história é que as narrativas variam enormemente. Os detalhes mudam dependendo de quem conta, com linhas de cronologia se confundindo à todo momento, discrepâncias gritantes surgindo e descrições que não se sustentam quando examinadas de maneira mais cuidadosa. Muitos dos elementos não podem ser confirmados ou corroborados, como por exemplo o envolvimento do Padre Pecoraro, que dependendo da versão contada é tratado como testemunha e meramente um contato em outros. O Padre sempre se mostrou muito evasivo quanto a sua participação nos acontecimentos, dando poucas informações, permanecendo em silêncio a respeito do assunto. Há também a questão de que se produziu poucas evidências físicas dos acontecimentos. As histórias coletadas sequer se sustentam em alguns pontos, com representantes de tribos nativas negando que a área tenha sido usada no passado para banir indesejados. Até mesmo o envolvimento dos Warrens, que foram considerados farsantes por algum tempo é colocado em dúvida. Segundo algumas fontes a participação deles na "exploração" da casa teria se limitado a uma ou duas visitas de poucas horas, período no qual nada sobrenatural teria ocorrido.


Talvez a evidência mais danos de todas seja algo que o próprio autor sugeriu no livro, de que ao menos parcialmente a história tenha sido inventada, embora ele sempre tenha se mostrado crente a respeito dela. Anson em uma entrevista para a revista People disse: "Eu sou um escritor profissional e não acredito em todos os elementos descritos no livro. Eu deixo no entanto para o leitor decidir por conta própria". Ele jamais admitiu ter publicado trechos com conhecimento de que eram falsos, mas também não negou que algumas partes da história careciam de maiores provas. O advogado de Ronald Defeo Jr veio à público dizer que toda a história era fabricada com ajuda da Família Lutz. De fato, os únicos personagens da história que sustentaram do início ao fim a certeza nos incidentes foram os próprios Lutz, que sempre foram claros na exposição dos fatos. Kathleen Lutz comentou a respeito da controvérsia:

"Algumas pessoas chamaram nosso testemunho a respeito de Amityville uma invenção. Não há nada que eu possa dizer a eles... não há nada que eu possa mostrar que prove o que vimos e experimentamos. Mas é a verdade. Nosso testemunho é real. Não há como essas pessoas julgarem o que vimos, sem ter estado lá, ou sem terem sido tocados por aquilo... eles não tem o direito de nos julgar".

George Lutz também defendeu os eventos descritos por ele no livro e negou qualquer forma de truque ou invenção, se mostrando surpreso com a quantidade de pessoas dispostas a criticar sua narrativa. 

"A história é real, eu e minha família vivemos aquilo... é fácil para alguns chamar de fraude. Quisera Deus, fosse uma invenção da nossa parte. Mas não é! Eu não desejo a ninguém experimentar aquele horror e sofrer por conta das pessoas não acreditarem nas suas palavras. Uma das piores coisas é justamente isso: não ser capaz de provar o que viu e enfrentar os olhares de reprovação das pessoas que o consideram um farsante".

Embora o caso da Assombração de Amityville seja acusado por muitos de ser uma fraude fabricada, ele ainda é muito debatido e discutido e talvez continue sendo por décadas adiante. Trata-se de uma verdadeira peça do folclore e se estabeleceu em nosso inconsciente coletivo de tal maneira que o termo Amityville virou sinônimo de assombração. Parece que não importa quanto ceticismo e crítica é direcionado para o caso, ele continuará sendo um evento de proporções espetaculares no reino do paranormal.

sábado, 6 de junho de 2020

Lovecraft Country - Tudo que sabemos a respeito da nova série da HBO


É surpreendente o timing em que Lovecraft Country, a nova série do canal por assinatura HBO, estará chegando. A série foi confirmada para o mês de Agosto e desde já sinaliza como uma das mais esperadas dessa temporada.

Mas o que é Lovecraft Country, do que ela trata e qual a razão para tanta comoção a respeito dela?

Bem, resolvi fazer uma série de buscas aqui e ali e desenterrar tudo o que se sabe a respeito dessa série que mistura drama, aventura e é claro, como não poderia deixar de ser em se tratando de Lovecraft, doses generosas de Horror. Contudo, Lovecraft Country possui um algo mais que promete tornar a série única em sua proposta. Grande parte do roteiro irá tratar de racismo e preconceito nos Estados Unidos dos anos 1950, misturando o horror cósmico com outro tipo de horror muitíssimo humano.  

Algumas pessoas podem sugerir que Lovecraft Country está se aproveitando do momento propício e dos protestos deflagrados à partir da morte de George Floyd em Minneapolis. Na verdade a série é um projeto que vem sendo trabalhado pela HBO nos últimos 3 anos, assim que os direitos para a adaptação do livro no qual ela é baseada, foram adquiridos. Contudo, é inegável que a comoção deu a Lovecraft Country um novo fôlego e fez com que a curiosidade a respeito dela aumentasse junto com a expectativa do público.

Vejamos então o que sabemos a respeito da série. 

DO QUE ELA TRATA?



Lovecraft Country será dividida em 10 episódios de uma hora de duração cada.

Baseada no romance de mesmo nome escrito por Matt Ruff em 2016, a série se passa na Chicago dos anos 1950, com parte da ação transcorrendo na Nova Inglaterra. Ela envolve Atticus Freeman, um soldado negro, veterano da Guerra da Coréia e fã de ficção científica que retorna para sua casa e descobre que seu pai desapareceu. A única pista encontrada é uma carta que remete a uma cidade fictícia chamada Ardham, que pode ou não ter inspirado a obra de H.P. Lovecraft. Acompanhado de seu tio, George e de uma amiga Letitia, Atticus decide rastrear o paradeiro do pai e descobrir o que aconteceu. Isso os levará a revelações perturbadoras presentes na ficção de Lovecraft e abominações sobrenaturais espreitando no mundo real.

Entretanto, além dos monstros, o trio enfrentará outras ameaças, uma vez que precisam viajar pelo interior dos Estados Unidos numa época em que o Jim Crow (regime segregacionista existente no país) se encontrava no auge. O que se segue é uma luta pela sobrevivência para superar os inúmeros percalços e armadilhas presentes na América Branca.   

A sinopse se refere a primeira e mais longa história do livro de Matt Ruff. O livro em si é composto de várias histórias separadas, semelhantes a contos. Cada história se concentra em um personagem, membro da mesma família que são unidos por uma série de acontecimentos envolvendo esse primeiro contato com o sobrenatural. Ao que tudo indica, a temporada irá se concentrar nesse primeiro conto que envolve a busca pelo pai de Atticus e sua viagem a Ardham, estendendo ela ao longo de 10 episódios. É provável que os demais "contos" que compõem o livro sejam distribuídos em outras temporadas, mas não há como saber ao certo apenas através do trailer. Fato é que eles se concentram exclusivamente no primeiro conto. 

QUEM SÃO OS ATORES PRINCIPAIS?



A série apresenta rostos familiares em produções da HBO.

O elenco é de peso, com artistas bastante conhecidos e consagrados em outras produções do canal por assinatura. 

Michael Kenneth Williams (das séries The Wire e Boardwalk Empire) faz o papel do pai de Atticus, Montrose Freeman enquanto Courtney B. Vance (American Crime Story) interpreta o tio de Atticus, George Freeman. Atticus é vivido por Jonathan Majors (de When We Rise).

Além deles temos Jurnee Smollett (de True Blood, Underground, Friday Night Lights) como Letitia “Leti” Lewis; Wunmi Mosaku (Fantastic Beasts and Where to Find Them) como a meia irmã de Leti Ruby Baptiste; Aunjanue Ellis (When They See Us) como a tia de Atticus e esposa de George, Hippolyta Freeman; Jamie Harris (Kingdom) como o xerife do condado de Eustice Hunt; Abbey Lee (Mad Max: Fury Road) como Christina Braithwhite; Jamie Chung (Once Upon a Time) como Ji-Ah; e Jordan Patrick Smith (Vikings) como William.

O QUE SABEMOS A RESPEITO DOS PERSONAGENS?



Há muitas informações a respeito dos personagens e seu papel na trama. 

Atticus (Majors) é um veterano da guerra da Coréia e fã de pulp novels que se divide entre a paixão por essas histórias e a certeza de que elas não foram escritas para pessoas como ele. Seu pai, Montrose (Williams), tem a cabeça quente e sempre achou que o filho vivia em um mundo de faz de conta e fantasia. Os dois tem um atrito e discutem frequentemente, sendo que a ida de Atticus para a guerra foi a gota que faltava para transbordar o desentendimento entre pai e filho.

O tio de Atticus, George (B. Vance) sempre foi mais próximo. Caloroso, divertido e culto, ele foi responsável por apresentar Atticus à literatura fantástica e o universo de estranheza das histórias pulp. Ele é dono de uma editora que publica um guia de viagem chamado "Guia de Viagem Seguro para o Viajante Negro", que indica onde negros podem se hospedar, comer, beber e conseguir gasolina em segurança durante o período.

Letitia "Leti" Lewis (Smollett) é uma artista atuante no movimento dos direitos civis que agora está tentando criar raízes na comunidade onde nasceu e foi criada. Sua meio-irmã Ruby (Mosaku) também é uma batalhadora, mas ela se ressente de quem é e deseja algo mais em sua vida, o que a levará a decisões perigosas. Hippolyta Freeman (Ellis) a esposa de George é uma dona de casa que ansiava se tornar astrônoma, uma carreira difícil para uma mulher negra no período. Seu desejo por conhecer o além a levará em uma aventura em meio às estrelas, e além.

Eustice Hunt (Harris), é o xerife de uma cidade do interior, famoso por sua atitude racista e preconceituosa. Ji-Ah (Chung) faz o papel de uma estudante de enfermagem que se junta ao exército durante a guerra e tenta descobrir o mistério de soldados que parecem desaparecer.

Christina Braithwhite (Lee) faz o papel da única filha do líder de uma Ordem Secreta mística conhecida como "Os Filhos de Adão". No livro, o personagem é do sexo masculino, mas a série introduziu a personagem como uma mulher. Braithwhite é uma vilã de motivação dúbia que tentará pavimentar seu caminho para o poder usando Atticus e sua família para isso. Willam (Smith) é um dos capangas de Christina, amante e guarda-costas, espião e o que mais ela desejar.

QUEM SÃO OS PRODUTORES?



Vários nomes notáveis estão envolvidos coma  produção de Lovecraft Country.

Jordan Peele, diretor e roteirista do sucesso Corra, agraciado com o Oscar de Melhor Roteiro, é um dos produtores executivos. Peele foi o primeiro nome envolvido no projeto, tendo demonstrado interesse nele desde que o livro de Matt Ruff chegou às suas mãos. 

A conexão com Lovecraft e literatura pulp em geral o atraíram, mas seu interesse principal veio da maneira como o autor relacionou as questões raciais e as misturou com o ambiente de horror característico das histórias lovecraftianas. Os filmes e séries em que Peele se envolve em geral versam sobre questões sociais, como no próprio "Corra!" que possui uma forte crítica em seu contexto. Mais recentemente ele dirigiu Nós (Us) e produziu o revival da popular série Além da Imaginação (Twilight Zone).

JJ Abrams é o segundo nome na produção, fazendo as vezes de produtor executivo. Envolvido em muitos projetos de franquias clássicas extremamente populares, para citar apenas duas de peso, Star Wars e Star Trek. Abrams tem uma carreira com altos e baixos que reúne sucessos como Lost. Enquanto a devoção e interesse dele são reconhecidos, nem sempre o resultado de seu envolvimento direto é elogiado pelos fãs. 

Misha Green roteirista de séries como Sons of Anarch e Underground acumula as tarefas de criadora e produtora de Lovecraft Country. 

A série é produzida pela Monkeypaw Productions, Bad Robot Productions, e Warner Bros. Television, distribuída pela HBO. É provável que ela esteja disponível na plataforma HBO Go, mas dificilmente chegará ao Netflix ou Amazon Prime.

QUANDO A SÉRIE DEVE SER LANÇADA?



Lovecraft Country foi anunciada em maio de 2017; HBO fez o pedido para os dez episódios da primeira temporada, cada um com aproximadamente uma hora de duração. 

As filmagens foram feitas em Chicago e Atlanta entre Agosto e Julho de 2018. 

A série estréia em Agosto de 2020, enquanto que o primeiro trailer foi divulgado em 1 de Maio de 2020. A data exata do lançamento ainda não foi divulgada, mas com após-produção concluída não parece que haverá atrasos. Aqui no Brasil ela irá passar no Canal da HBO nos domingos às 22 horas, o antigo horário de Game of Thrones.

OS TRAILERS

Duas peças de promoção foram lançadas para promover a série até o momento.

O primeiro teaser curto introduz Atticus Freeman (Jonathan Majors), sua amiga Letitia (Jurnee Smollett-Bell), e tio, George (Courtney B. Vance). Ele também nos concede o primeiro olhar do que será Lovecraft Country: os locais, a premissa sobre racismo e estranhas criaturas. 

O teaser legendado está logo abaixo:


O segundo trailer de Lovecraft Country foi disponibilizado semana passada aprofundando ainda mais a curiosidade e expectativa a respeito da série.


Bem, por enquanto é isso...

Aguardamos Lovecraft Country e esperamos seu lançamento para que possamos comentar aqui no Mundo Tentacular. Estamos preparando também uma resneha do livro de Matt Ruff, portanto, fiquem conosco para saber mais a respeito.

E vocês? Estão ansiosos por essa série? Diga o quanto nos comentários.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

"Onde o mal habita" - Três famosos endereços aterrorizantes


Eis aqui três exemplos de Casas Malditas, lugares cuja história e origem foi marcada com sangue, medo e violência. Cada um desses lugares possui seu próprio espectro maligno e é habitada por sombras que parecem muito à vontade na companhia dos vivos.

Vamos conhecer cada uma mais à fundo...

O LAR DESFEITO DE CRAIG JOHNSON
(Baltimore, Maryland)

Nos limites da cidade de Baltimore, existe uma casa antiga abandonada há algumas décadas. O lugar é evitado por todos os vizinhos e aqueles que moram mais próximos dela tem muitas histórias a contar.

O lugar é simplesmente ruim, ou assim dizem.

O pátio tomado de ervas daninhas e mato, esconde parcialmente a fachada dilapidada de uma propriedade antiga de alvenaria. Esse lugar escuro parece lançar tentáculos de pavor na mente das pessoas alimentando rumores sobre maldições e demônios. Aqueles que ficam tempo demais dentro da propriedade sofrem alucinações e surtos de violência motivados por algo maligno que ali habita.

A história da casa mistura boatos e crendices que podem variar de acordo com quem está contando. Contudo muitas dessas versões incluem o mesmo personagem, um homem chamado Stephen Craig Johnson, descrito como uma pessoa equilibrada e um amoroso pai de família, ao menos até se mudar para o endereço maldito.

Os Craig Johnson eram uma típica família de subúrbio, um casal com dois filhos. Pouco depois de se mudarem para o novo endereço, o comportamento do pai, começou a ficar estranho, errático e agressivo. Ele se irritava com as menores coisas, mostrando sinal de nervosismo e paranoia que nunca havia apresentado antes. Era o sinal de que havia algo muito errado em curso, mas até então, ninguém poderia imaginar o tamanho da tragédia que se aproximava.


Em 1983, a família comemorava o nascimento de mais uma criança. Mas as coisas começaram a ficar estranhas quando Stephen se convenceu de que o bebê era diferente. Ele insistia que o filho era a encarnação de Jesus Cristo e que havia nascido para redimir a humanidade. Um psicólogo foi contatado e atestou que o sujeito estava sofrendo de um quadro alarmante de esquizofrenia, embora ele até então não registrasse histórico da doença. Stephen foi levado para uma clínica e medicado, posteriormente recebeu ajuda profissional e ficou sob tratamento por cinco semanas.

Bastou retornar para a casa e sua situação voltou a se deteriorar. Ele afirmava que a casa falava com ele e dizia o que precisava ser feito embora ele tivesse muito medo de fazer aquilo. A esposa contou que Stephen tinha sonhos apavorantes e que despertava aos gritos. Seu comportamento errático culminou com uma noite em que ele foi encontrado num canto da sala com o ouvido colado na parede ouvindo instruções da casa. Ele tinha o bebê nos braços e chorava sem parar.

Temendo um desfecho imprevisível, a esposa pediu uma ordem de afastamento que impedisse o marido de voltar para casa. Ela obteve um mandato para que ele fosse levado de volta a Clínica para dar prosseguimento ao tratamento mental.

Na mesma noite, Stephen escapou da instituição aproveitando uma brecha na segurança.

A polícia foi chamada e imediatamente seguiu para o endereço da família. Lá encontraram o sujeito sentado no alpendre ninando o que julgaram ser o filho recém-nascido. Os policiais perceberam então que o homem tinha as mãos sujas de sangue e falava com um tom monótono como se estivesse dopado. Deram ordem de prisão e advertiram para que ele largasse a criança. Johnson acabou concordando em entregar o pequeno fardo a um dos policiais que se aproximou cautelosamente. Ao apanhar o bebê o policial chocado percebeu que lhe faltava a cabeça.


Stephen contou que as vozes que vinham das paredes da casa ordenaram a ele que matasse o próprio filho daquela forma. Assim ele estaria salvando a humanidade dos pecados. O corpo de sua esposa foi achado na cozinha espancado e agredido até a morte com um pedaço de pau.   

Johnson obviamente foi preso e posteriormente condenado. Ele se encontra em uma ala de segurança máxima de um manicômio judiciário de Maryland, sem perspectivas de ser colocado em liberdade. A casa, batizada de o "Lar de Johnson Craig" nunca foi habitado novamente não apenas por conta da horrível tragédia que ali aconteceu, mas por ter se tornado posteriormente um endereço maldito.

Gritos, pancadas e passos podem ser ouvidos frequentemente, bem como o choro estridente de um bebê recém-nascido. Os vizinhos mais próximos falam ainda de um cheiro ocre que parece brotar da casa e que se espalha pela região como um miasma fétido de morte e corrupção. Há boatos de que a propriedade foi construída sobre um cemitério indígena, mas os rumores jamais foram corroborados. e qualquer forma todos são unânimes em afirmar que o lugar é ruim.

Em 1989, no auge da paranoia a respeito de seitas satânicas agindo nos Estados Unidos a casa se tornou referência como um lugar que atraia cultos diabólicos e onde missas negras eram realizadas. A polícia teria sido chamada em mais de uma ocasião e uma revista no quintal dos fundos descobriu uma dezena de animais mortos, cães, gatos, texugos e pássaros, horrivelmente decapitados. A descoberta jamais foi confirmada ou negada.

Em 1996 os vizinhos perceberam que a porta da frente havia sido aberta. Policiais foram chamados novamente para investigar e encontraram na parede da sala uma pichação misteriosa. Ela dizia: "Eu não sei o que faz essa casa ser maligna, eu só sei que algo nela faz com que o mal seja cometido."

Um explorador urbano e entusiasta de casas mal-assombradas chamado Dan Bell visitou a casa e fez um vídeo caseiro de sua passagem pelo local. Ele estava convencido de que a casa era positivamente maligna. Ele contou ter experimentado uma perturbadora visão na qual um ser demoníaco, semelhante a um abutre abria suas asas ameaçadoramente. Combustível para pesadelos ou mero exagero de uma pessoa querendo aparecer. Entretanto, todos os que visitam o Lar desfeito dos Craig Johnson mencionam uma sensação inquietante, além de uma aura forte de depressão e melancolia latente.

A casa continua existindo: apodrecendo lentamente, condenada a ser um lugar vazio e maldito por todos que conhecem sua macabra história. Suas paredes, testemunhas de uma tragédia indescritível e de um mal que continua a espreitar nas sombras.

A CASA PERVERSA EM RESEDA 
(Los Angeles, California)

Outra casa conhecida por conta de fenômenos inexplicáveis se tornou famosa após seu aparecimento no programa de Investigação Sobrenatural Ghost Adventures, apresentado por Zak Bagans. O episódio quatro da décima terceira temporada, mostra a casa que fica na vizinhança de Los Angeles, Califórnia e que é conhecida simplesmente como "A Casa Maligna em Reseda". O lugar é saturado com um tipo de força diabólica que perverte as mentes daqueles que insistem em residir nesse endereço aterrador.


O programa resume o histórico da casa da seguinte forma:

"Uma casa em Reseda, Califórnia que afeta todos os que entram nela. Seus moradores acabam sendo levados à loucura e muitos ao longo dos anos cometeram suicídio. Histórias sobre consumo de drogas, sadismo, violência e assassinato fazem parte do local. As paredes parecem guardar segredos e coisas invisíveis observam cada movimento."

Se o programa for levado à sério, a casa pode ser um dos endereços mais assombrados da Costa Oeste dos Estados Unidos. Historicamente a propriedade teve vários donos até ser abandonada e se tornar um lugar deserto evitado pelos vizinhos. Palco de pelo menos dois assassinatos envolvendo tráfico de drogas e de várias pessoas que sofreram overdose, o lugar é realmente sinistro. Os vizinhos entrevistados a respeito da fama do local asseguraram que várias histórias a respeito dele são reais, inclusive as mais inacreditáveis que incluem luzes misteriosas, gritos, batidas no meio da madrugada e o som de passos. As assombrações na casa parecem não encontrar paz. 

Os apresentadores do Ghost Adventures relataram que nos 13 anos do programa de televisão, jamais sentiram algo semelhante ao que experimentaram nessa casa em particular. "Desde o momento em que cruzamos a porta de entrada, sentimos um tipo de energia negativa e animosidade no ar. Havia algo que ressentia de nossa presença e não nos queria naquele ambiente", contou Bagans.

Enquanto exploravam os aposentos filmando o lugar, um dos câmeras foi acometido de uma síbita e aguda dor no abdomen. Ao verificar o que havia acontecido, descobriram uma marca semelhante a uma mordida na sua barriga que havia surgido repentinamente. Foi apenas o começo! Uma força invisível tentou empurrar um assistente de cena, outro sentiu algo roçando a sua pele e o co-apresentador do programa, Aaron Goodwin, disse ter ouvido sussurros. Terminado o primeiro dia de filmagens na casa, todos afirmaram ter sentido posteriormente dores de cabeça, náusea e fortes vertigens.    
  
Na filmagem agendada para o dia seguinte o mesmo co-apresentador desistiu de voltar. Goodwin foi tomado por um terror tão grande que desistiu de participar do restante das filmagens. "Não foi uma jogada de marketing, como muitos pensam. Eu realmente me senti intimidado em voltar para aquela casa e tinha certeza de que se o fizesse estaria correndo um risco real", contou em uma entrevista.


A equipe de filmagem registrou estranhos fenômenos captados pelo equipamento de vídeo e os microfones ultra-sensíveis. Estranhos pulsos de luz foram detectados em alguns momentos, bem como movimentos em áreas onde não havia ninguém. Os aparelhos de som captaram várias palavras, a maioria delas de teor obsceno, mas outras como "Eu sou uma pessoa", "Espere um instante", "Não entre aqui", "Vá embora" e "Não". 

Em determinado momento da filmagem, um dos câmeras desligou os aparelhos sem informar ninguém. Pouco depois, uma luz estranha surgiu diante de Billy Tolley, que assustado perguntou se a coisa havia sido filmada. Quando ficou sabendo que a câmera estava desligada, o apresentador reagiu furiosamente. Apesar de não haver imagens o som estava ligado e o audio sugere uma pessoa à beira de um ataque de nervos. Aos gritos, Tolley xinga e ameaça o câmera. Uma análise posterior do áudio mostrou que a voz tinha grande distorção, quase como se fosse de outra pessoa. Mais tarde o apresentador afirmou que não lembrava de ter reagido daquela maneira e pediu desculpas ao cameraman.

Foi uma filmagem incrivelmente intensa e desconfortável, com a equipe demonstrando um stress genuíno, difícil de ser encenado. Para tornar tudo ainda mais sinistro, muitos espectadores e fãs analisaram as filmagens quadro a quadro e apontaram algumas anomalias, como sombras se movendo e até mesmo faces surgindo e desaparecendo no background. É claro, em se tratando de um programa de cunho sensacionalista como Ghost Adventures, é difícil dizer se tal coisa não passa de um truque para aumentar a audiência, mas ainda assim o episódio se destaca como um dos mais estranhos.   

O programa gravado em 2016 ganhou fama como um dos mais realistas da série. A Casa Maligna em Reseda continua existindo, apesar dos insistentes pedidos para sua demolição. Os vizinhos alegam que o lugar continua a atrair usuários de drogas, mas muitos apontam os acontecimentos sinistros em seu interior como a razão para colocar o lugar abaixo o quanto antes.   

CASA DA FAMÍLIA WHALEY
(San Diego, Califórnia)

Construída em 1856 na San Diego Avenue, a Casa Whaley não parece ter nada de especial à primeira vista, mas ela já foi chamada por muitos estudiosos da parapsicologia de "a casa mais assombrada dos Estados Unidos". Mas o que faz dessa aparentemente inocente construção de dois andares com tijolos avermelhados o foco de tanta atividade sobrenatural?


Para começar, a  casa tem uma longa - e na maioria das vezes, trágica história. 

Ao longo dos anos o local serviu como celeiro para estocagem de alimentos no inverno, como o primeiro Teatro Comercial de San Diego e coo Corte de Justiça, bem como domicílio para a rica família Whaley entre 1857 e 1885 e novamente entre 1909 e 1953. A construção foi ordenada pelo patriarca da Família Thomas Whaley que possuía uma olaria e utilizou os tijolos de sua fábrica na obra, "um clássico exemplo de arquitetura revisionista grega" com colunas.

A construção foi marcada por incidentes estranhos. A empresa dos Whaley, dizem, se aproveitava da mão de obra escrava e muitos de seus operários eram negros explorados. Uma lenda jamais confirmada afirmava que os homens que trabalhavam na olaria eram ameaçados pelo capataz local de que poderiam ser jogados nos fornos caso não trabalhassem duro. O grande forno da olaria tinha o apelido de "Cinzeiro", justamente pelo rumor de ter sido usado para incinerar mais de uma dezena de homens. Os tijolos que saíam prontos do forno carregavam parte da alma dessas pessoas, ou assim diziam.

Mas para encontrar a origem das assombrações da Casa Whaley é preciso voltar aoperíodo em que a propriedade sequer existia. Antes dos tijolos supostamente contendo as cinzas de homens serem alinhados, o terreno era usado para a realização de execuções públicas. O Tribunal de Justiça ficava ali perto e quando um enforcamento era marcado, o patíbulo com a forca de madeira era construído naquele local.

Os registros oficiais de San Diego mostram que quase cem pessoas foram executadas no que era então um terreno baldio e que mais tarde seria a Casa Whaley. Muitos desses condenados eram ladrões de cavalo, mas outros eram culpados de crimes mais graves como roubo, estupro e assassinato. Sempre existiu o rumor de que os cadáveres desses indivíduos ao invés de serem sepultados em alguma cova rasa do cemitério, fossem de fato enterrados ali mesmo após serem descidos da corda. Em 1954, escavações na área revelaram as ossadas de ao menos meia dúzia de pessoas, alguns ainda com a corda atada em volta do pescoço.


Um dos célebres mal-feitores executados no local foi James Robinson, mais conhecido como "Yankee Jim" um bandido notório pela violência, sentenciado à morte por roubo e homicídio. Em 1852, uma corda foi passada em volta de seu pescoço e ele obrigado a subir numa carroça que serviria de cadafalso. Quando os cavalos foram colocados em movimento Yankee Jim deveria cair e quebrar o pescoço. Acontece que ele ficou com os pés tempo demais na carroça e quando caiu seu pescoço não quebrou. Segundo os jornais ele "ficou balançando para frente e para trás como um pêndulo enquanto era estrangulado". O incidente foi tão pavoroso que o xerife mandou cortar a corda e tentar uma segunda vez. O sujeito foi colocado aos gritos novamente na carroça e o mesmo espetáculo horrendo se seguiu, mas dessa vez foi levado até o fim com a ajuda de homens que puxaram seus pés até ele parar de se mover.

Uma das pessoas que assistiu a macabra execução foi justamente Thomas Whaley que dizem, foi um dos que puxou as pernas do bandido para que ele morresse. Tão logo a obra foi concluída e a família se mudou coisas estranhas começaram a acontecer. As queixas dos moradores diziam respeito sobretudo ao som de passos, como se pessoas usando botas pesadas andassem pelas escadas tarde da noite. O ruído de rodas de carroça e de cavalos também era ouvido frequentemente. Além disso, havia a desagradável sensação de estar sendo observado que permeava todos os aposentos. As filhas de Thomas Whaley diziam que sentiam presenças em seus quartos de vestir, "olhos invisíveis que cobiçavam e desejavam". A filha mais nova de Whaley certa vez viu uma sombra escura se formar na parede de seu quarto e o toque de dedos gelados em suas costas. O próprio Thomas Whaley, um homem conhecido pela seriedade contaria como sentia as pernas serem puxadas por mãos invisíveis, assim como ele puxou as de Yankee Jim.

As pessoas comentavam a respeito dos incidentes perturbadores na casa e os empregados não paravam no serviço. Relatavam histórias sobre os ruídos e cheiros nauseantes, sobre as correntes de vento e estampidos secos, os sussurros e as sombras desencarnadas. Pior que tudo isso, era a profusão de mortes e tragédias ocorridas dentro da casa.

Thomas Walley Jr filho do patriarca e seu maior orgulho, morreu de Febre Escarlate em 1882 após definhar em um quarto da casa por meses. Um primo morreu em um acidente bizarro enquanto limpava uma pistola que deveria estar descarregada. Uma empregada rolou a escadaria e quebrou o pescoço. Outra filha de Whaley, casou e foi assassinada em plena Lua de Mel. O quarto que ela ocuparia na Casa, pintado e decorado, teve a cor das paredes desbotada antes mesmo da notícia da morte dela ser dada. Quem viu o lugar disse que ele a tinta se tornou vermelha como sangue seco. Além disso, houve ao menos um suicídio sob aquele teto maldito: Violet, filha de Thomas Whaley atirou no próprio estômago com a arma do pai, deixando para trás uma carta de despedida com uma frase do poema de Thomas Hood "Ponte dos Suspiros": "Leve-me rápido/ para qualquer lugar, longe desse mundo".


Ao longo dos anos, visitantes testemunharam fenômenos desconcertantes entre aquelas paredes. A crença geral era de que os espíritos espúrios de condenados executados ainda habitavam o terreno e que eles assombravam o lugar influenciando na derrocada dos que ousavam viver ali. Com a enorme quantidade de tragédias e acontecimentos inexplicáveis ocorridos na morada, é difícil afastar a noção de que algo estranho realmente acontece naquelas dependências.

Após muitos anos vazia, a Whaley House foi comprada e transformada em um Museu que conta a história de San Diego. Isso não interrompeu o ciclo de assombrações que continuam sendo vistos de tempos em tempos.   

*     *     *

Com esses três exemplos de supostas casas amaldiçoadas por presenças malignas a pergunta persiste: "Pode uma casa ser maligna"?

É possível que um lugar físico se torne espontaneamente um depósito de amargura, dor e sofrimento para todos que lá escolhem viver? Há apenas uma maneira de descobrir a verdade e essa é checando pessoalmente. Você teria coragem?

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Casas Malignas - O terror habita esses lugares assustadores


“NENHUM ORGANISMO vivo pode existir com sanidade por longo tempo em condições de realidade absoluta; até as cotovias e os gafanhotos, pelo que alguns dizem, sonham. A Casa da Colina nada sã, erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas; existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais outros oitenta. Por dentro, as paredes continuavam eretas, os tijolos aderiam precisamente a seus vizinhos, os soalhos eram firmes e as portas se mantinham sensatamente fechadas; o silêncio cobria solidamente a madeira e a pedra da Casa da Colina, e o que por lá andasse, andava sozinho.”

A Assombração na Casa da Colina
- Shirley Jackson

Pode um lugar ser completamente maligno? 

Não me refiro no sentido de um lugar ter um passado sinistro ou violento, ou de que o lugar seja meramente tido como assombrado. A questão que se coloca é: "Pode um lugar ser tomado por forças malévolas ao ponto de que a própria estrutura da construção se torna algo perverso"? Mais do que isso: "Pode um lugar ser tão profundamente contaminado pelo mal que ele passa a representar um perigo para as pessoas que nele vivem ou visitam"?

Esse conceito pode parecer estranho, mas existem certas moradas no mundo que parecem ir muito além da noção que temos sobre lugares horripilantes e assombrosos. Não são simplesmente casas e prédios escuros de aparência estranha e pouco convidativa. Eles são algo muito pior, algo que reside no reino das forças famintas do sobrenatural. É como se energias pérfidas habitassem esses lugares e fizessem deles uma espécie de covil aguardando pelos vivos para deles se alimentar. 

Tais lugares tendem a não serem bons para pessoas sensíveis ou com muita imaginação. A própria aura deles afeta aqueles que os visitam causando terror, incitando assassinatos, levando indivíduos até então sãos às raias da loucura, isso, e muito mais. Para alguns, essa noção não passa de tolice, crendice, superstição... mas outros tantos não estão tão certos. E reside nessa incerteza a matéria prima para a confecção de lendas duradouras.

No estudo da Parapsicologia, o sobrenatural (aquilo que por essência é "não-natural") é um fato e ele transborda para a nossa realidade, afetando e causando efeitos inesperados, muitos deles difíceis de serem contextualizados à luz da racionalidade. Por mais que tentemos e busquemos por uma explicação lógica, por vezes, não existe uma para ser fornecida. E ficamos diante do imponderável, embasbacados pelas suas implicações que desafiam nossa sanidade. 

Nessa série de artigos o Mundo Tentacular irá explorar o tema das Casas Malignas que são tidas como depositários do mal. 

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A CASA DA MORTE 
(Cidade de Nova York)


Começamos falando de um lugar com uma reputação para o mal que transcende a simples crendice e que ganhou ao longo dos anos status como uma famosa Lenda Urbana. A propriedade em questão se localiza na famosa comunidade boêmia de Greenwich Village, na cidade de Nova York. A edificação, no típico estilo brownstone fica no número 14 oeste da Rua 10. Ela foi erguida no ano de 1850, como uma mansão, sendo que posteriormente acabou sendo dividida em unidades de apartamentos para locação. Ela é conhecida por ter servido de moradia para o amado escritor norte-americano Mark Twain, que lá viveu entre 1900 e 1901. Contudo o lugar tem uma história muito mais estranha e perturbadora visto que, dizem os vizinhos, ela possui a estranha tendência de levar seus moradores à loucura.

Os rumores afirmam que Twain só suportou viver nesse endereço por um ano e que decidiu partir antes de ser tarde demais. O autor teria se negado a comentar sobre a casa até com os amigos mais íntimos e preferia não mencionar suas experiências na casa. Outros moradores não tiveram a mesma sorte. Um casal de idosos morreu na propriedade, vítimas de um assassino desconhecido, supostamente um ladrão. A seguir, uma jovem artista se mudou e ela também teve um fim trágico. Teria se suicidado na banheira cortando os pulsos com lâminas de barbear. 

Nos anos 1960 a atriz e poetiza Jan Bryant Bartell alugou o mesmo apartamento depois dele ter ficado vago por décadas. Não demorou até ela perceber que havia algo estranho no lugar Ela contava que estranhos eventos ocorriam na propriedade; desde lugares gélidos, a presenças invisíveis que pareciam vigiá-la, até um fedor pútrido que surgia de lugar nenhum. O repertório de estranhezas também incluíam objetos se movendo, estranhas batidas e súbitos princípios de incêndio espontâneo. Mas segundo a inquilina, o pior era uma horrível sombra que espritava nos corredores. Bartell chegou a dizer que seu cão morreu subitamente, sem uma explicação razoável. O animal costumava se comportar de maneira peculiar sempre que estava no apartamento, rosnando e latindo para um canto ou corredor. Bartell relatou ter visto não apenas essa sombra ameaçadora, mas outros fantasmas ocasionalmente. Ela chegou a trazer uma medium para inspecionar a casa e esta afirmou que vários espíritos habitavam o apartamento: uma menina que havia sido morta na sala e enterrada no porão, um gato espectral e uma terrível e poderosa energia negativa que ela não foi capaz de identificar. Outros inquilinos mencionavam ter visto a forma sombria nos corredores e escadas comuns, uma presença que causava verdadeiro terror nos moradores.

Bartell teria realizado pesquisas a respeito da história da propriedade descobrindo que um número alarmante de pessoas haviam morrido na propriedade. É normal que um prédio com 10 unidades independentes tenha um histórico de pessoas morrendo em seu interior, contudo, o número 14 tinha quase três vezes mais casos de mortes que qualquer prédio da vizinhança. Eram casos aparentemente acidentais de overdose de drogas ou pessoas rolando escadas e caindo em poços de elevador, mas havia número elevado de suicídios e assassinatos ocorridos nas premissas.


Jan Bartell chegou a escrever um livro a respeito do assunto, mas o mais macabro é que ela própria teria um fim trágico enquanto ainda vivia no prédio. Ela teria cometido suicídio, lançando-se do alto do prédio para a morte certa, estatelando-se no concreto da rua em frente. Na carta de despedida ela escreveu apenas uma frase: "Não suporto mais..."

Em novembro de 1987, o prédio foi palco de nova tragédia quando o famoso advogado de defesa Joel Steinberg que vivia em um dos apartamentos foi tomado por um surto de violência após consumir drogas. Ele agrediu brutalmente sua filha adotiva de 6 anos e a matou em meio a um frenesi incontrolável. Steinberg argumentou em seu julgamento que não lembrava do que havia acontecido, sentindo que não tinha controle sobre suas ações. Seu depoimento em tribunal foi marcado por lágrimas e desesperados pedidos de desculpas. Muitos acreditavam que sua estratégia era alegar insanidade mediante seu estado de nervos. Ao invés disso ele admitiu a culpa, vindo mais tarde a afirmar que não havia sido realmente ele o real responsável pelo crime, visto que algo havia "possuído seu corpo".

Investigadores paranormais que pesquisaram a história funesta da casa contabilizaram nada menos do que 22 mortes violentas ocorridas na propriedade. ou em seus arredores.

Há boatos de que o terreno sobre o qual a casa foi erguida foi no passado serviu de cemitério clandestino nos tempos nos tempos da escravidão. O local teria sido usado para descartar os cadáveres de negros mortos nas fazendas e plantações próximas. O local seria originalmente uma área pantanosa onde os mortos eram simplesmente lançados nas águas estagnadas para afundar. Em 1830, quando a região começou a ser urbanizada, as águas foram drenadas revelando centenas de ossadas humanas. Ao invés de remover os ossos, os empreiteiros simplesmente ordenaram que os restos fossem cobertos com cascalho e uma camada de concreto.


Moradores descreveram estranhos sons de gemidos e batidas secas no porão do prédio, uma das áreas comuns onde a atividade paranormal é mais frequente. Luzes costumam se apagar misteriosamente nesse lugar. Boa parte dos moradores raramente desce para o porão, apesar de ali funcionar a lavanderia e sistema de calefação do prédio. Não é uma área que inspira segurança e muitos dos que desceram até o porão descreveram uma sensação desagradável, como se alguém estivesse observando. O histórico de quedas nas escadas é longo e bastante conhecido.

Zeladores e porteiros contam muitas histórias sobre o prédio, a maioria dos funcionários não dura muito tempo e acabam pedindo as contas após alguns poucos meses. O 14 tende a cobrar um pesado preço nas pessoas que ali vivem e trabalham.

Não por acaso, o prédio recebeu o infame apelido de "Casa da Morte".