sexta-feira, 3 de julho de 2020

O Árabe Louco - A Conturbada biografia de Abdul Al-Hazred


Introdução:

A seguinte biografia é um trabalho extenso concebido para o material idealizado pelos Professores Leonard J. Otis e Frederick Caldwel Owen. Pesquisando fontes na biblioteca Zohavat Fseh em Damasco, eles redigiram essa notável compilação. De acordo com seus registros tiveram acesso a diferentes cópias de fragmentos gregos traduzidos por Theodorus Philetas, além de textos originais em árabe sobre a genealogia de Al-Hazred. A pesquisa envolveu ainda o Livro de Eibon, o Sauthenerom, o Livro de Enoch entre outros documentos que são parte do valioso acervo da biblioteca. Infelizmente nenhum fragmento do documento original, o célebre Kitab al-Azif sobreviveu aos muitos expurgos e aos censores que o perseguiram através dos séculos. 

As várias fontes pesquisadas resultaram nessa extensa biografia sobre Abdallah al-Hazraj (mais conhecido pelo nome Abdul Al-Hazred, embora esse nome seja claramente uma corruptela). O leitor iniciado nos estudos ocultos possivelmente estará familiarizado com outras versões sobre a vida do "árabe louco" entre as quais a monografia do professor Henry Armitage "Uma Breve Biografia de Abdul Alhazred" (1931); a introdução de Theodorus Philetas para a edição grega do Necronomicon, estudada criteriosamente por Donald Tyson (1987), o tratado de Al Burux "Els Que Vigilen" (1998) e o livro de Rafael Lopes "El Novísimo Algazife" (2014), que contribuíram sobremaneira para expor trechos da vida de Al-Hazred

As conclusões de Otis & Owen aqui contidas são realmente controversas, mas elas são parte de um cuidadoso trabalho de pesquisa realizado em arquivos até então inacessíveis. Eles refletem um novo painel sobre a vida e as realizações, façanhas e perfídias cometidas por esse obscuro personagem da história. Não resta dúvidas que o trabalho oferece um fantástico panorama que nos força a reconsiderar e interpretar sob um novo ângulo certos aspectos da extraordinária vida daquele que foi considerado o primeiro Profeta dos Antigos.

Luis G. Abbadie
Reitor da Universidade de Salamanca 

"O texto à seguir, em parte ou na íntegra, não tem sua reprodução vedada, mas sua divulgação não é encorajada pelos autores"

1 - As Conquistas Árabes na véspera do nascimento de Al-Hazraj


A conquista árabe teve início ainda durante a vida de Maomé.

Em 630, pouco antes da adoção da fé islâmica por Abu Sufyan e pelo povo de Meca e dois anos após a morte do Profeta, os muçulmanos iniciaram a Conquista do Oriente Médio. Em 631, o calendário islâmico foi reformado: o ano passou a ser formado por 12 meses (e dali em diante, 11 dias mais curto que o ano solar), e a Hégira tornou-se data de referência para a Nova Era - a fuga de Maomé de Meca para Medina, que aconteceu no ano de 622 de acordo com o calendário Juliano.

Em 632, ano da morte de Maomé e nomeação de Abu Bakr, companheiro do Profeta como seu sucessor, Yezdigerd III, membro do Clã Sassanida, converteu-se e assim se tornou o primeiro "Califa dos Fiéis". No mesmo ano, seu exército invadiu a Síria Bizantina e a Palestina, bem como a Mesopotamia, declarando guerra contra os infiéis e dando início a um período de grande agitação. Em 634 eles tomaram territórios na Pérsia e da Asia Menor, sendo que em 635 conquistaram Damasco e em 636 as terras da Fenícia. As tropas do Califa foram divididas então em três partes: uma seguiu para o Egito, outra ficou na Síria, e uma terceira reserva permaneceu na Persia. No mesmo ano, boa parte da Mesopotamia caiu e os bizantinos cederam Jerusalem e Antioquia ao controle árabe.

Entretanto, algumas partes da Persia ainda permaneciam sob o controle dos clãs Hasanidas que professavam a crença Nestoriana, bem como tribos cristãs que não desejavam se converter à fé islâmica. Estas ofereceram resistência por quase três anos até serem cercadas em Nusaybin, capital de Beth Arabaye (Arabia). A cidade era um verdadeiro "paraíso na terra" e segundo consta, possuía uma das maiores academias de seu tempo (famosa nas áreas da matemática, astronomia e medicina). Entre seus habitantes estavam cientistas vindos de todas as partes do mundo antigo, que convergiam até aquele ponto para aprender com filósofos e doutores que dominavam raras modalidades de arte e ciência.

Não é difícil compreender porque os habitantes educados e tolerantes dessa terra se recusaram a voluntariamente se entregar diante de uma crescente horda de fanáticos quase em sua maioria iletrados. Os primeiros islâmicos tinham pouco a oferecer aos residentes de Nusaybin e estes se ressentiam do destino que os aguardava. Entretanto em 639, após um cerco, a capital enfim caiu, o que levou a uma gradual conquista de todo território de Beth Arabaya nos anos que se seguiram. Logo, a Arabia estaria totalmente sob o controle dos defensores da nova fé e dali em diante a bandeira da lua crescente iria tremular sobre toda Península. 

2. O pai: Jabir al-Hazraj


Foi nesse local e precisamente no período mais conturbado, nos três anos que se seguiram à queda de Nusaybin, no ano 21 da Hégira (correspondendo ao ano 642 do calendário gregoriano) que  Abdullah ibn Jabir al-Hazraj nasceu. 

Algumas fontes modernas apontam para algo completamente diferente. Afirmam que o local de nascimento de Al-Hazred seria Samma no atual Reino no Iemem, contudo pelo nome da família, a localização soa equivocada. O nome Al-Hazred é uma aliteração de al-Hazraj. Ele parece inviável como elemento designativo para indivíduos naturais do Iemen. O local mais adequado seria Nusaybin, onde inclusive constam extensos registros do clã al-Hazraj. O menino teria nascido com a pele clara e olhos verdes, o que fez com que os supersticiosos árabes o olhassem com desconfiança. Eles o chamavam de "filho de gênios", embora feições como as dele não fossem necessariamente algo incomum naquela cidade cosmopolita.

O pai, Jabir al-Hazraj (607-697), era um muçulmano de Yasrib (atual Medina), conhecido como um dos primeiros Colecionadores de Hadith - lendas a respeito do profeta Maomé. Sua erudição fez com que ele fosse despachado numa missão para catequizar o povo de Nusaybin. Lá ele se fixou na qualidade de intérprete religioso. 

Antes de se converter à nova fé, o clã al-Hazraj era devotado a um antigo  panteão, seguindo as deusas Manat e Uzza que mais tarde foram tratadas como entidades pagãs e declaradas como "Servas de Shaytan" (por definição, demoníacas aos olhos do Corão). É impossível dizer se Jabir era sincero em sua nova crença, mas é provável que sim. No entanto, existem suposições de que ele não abandonou por completo suas raízes pagãs, mantendo secretamente algumas de suas convicções originais.

Uma das fábulas escritas pelo pai de Al-Hazred parece especialmente marcante:

"Quando a noite chegar, proteja suas crianças, pois é esse o momento em que os demônios se aproximam para bater à porta. Tranquem essas portas com o sagrado nome de Alá. Só assim elas ficarão protegidas de Shaitan".

Não se sabe qual a opinião de Jabir à respeito do caminho profano que o filho decidiu seguir, mas é provável que, tendo vivido até uma idade avançada, ele estivesse ciente da obra de Al-Hazred. Só podemos imaginar que ao reler a fábula que ele próprio escreveu, Jabir tenha pensado consigo mesmo se trancou à tempo as portas para evitar a proximidade dos demônios que fascinaram sua criança.   

3. A mãe de Abdallah


A história não permitiu que o verdadeiro nome da mãe de Al-Hazred fosse conhecido.

Tudo que se sabe é que ela tinha origem armênia-persa e que era seguidora do Sabeísmo, um tipo de dogma cristão que venerava as estrelas. Em tempos antigos, o Sabeísmo foi popular na Babilônia e Assíria, tendo se espalhado pelo Oriente Médio. Os templos serviam como observatórios primitivos onde os fiéis contemplavam os céus. Cometas eram vistos como sinais dos deuses e o sistema de crenças incluía astrologia e vários rituais mágicos. Al-Hazred incluiu no Al Azif várias noções sobre astronomia que podem ter sido influenciadas pelas crenças pessoais de sua mãe.  

É difícil dizer se o casamento com Jabir foi consensual ou forçado. A esposa tinha apenas 15 anos de idade, enquanto o marido 35. Mas apesar de jovem, ela era letrada e continuou tendo acesso a boa educação após o matrimônio. De uma forma ou de outra, ela não era a única esposa de Jabir, e provavelmente ficou relegada a uma posição pouco favorável, ao menos até engravidar e dar ao marido um herdeiro. É provável que ela tenha engravidado de outras crianças, mas Al-Hazred foi com certeza seu primogênito.

O menino recebeu educação esmerada por parte do avô materno que tomou para si o papel de tutor. Segundo trechos de cartas, Al-Hazred aprendeu a escrever aos 8 anos e se tornou um ávido leitor, capaz de interpretar textos em árabe, persa e armênio. Ele se interessava em história e filosofia, e em menor grau por textos religiosos. 

Quando o menino ficou um pouco mais velho, ele se dedicou a pastorear cabras nos arredores de Nusaybin, empreendendo viagens a cidades próximas. Ele escreveu que dormia ao relento e quando o fazia, observava as estrelas imaginando quantos deuses misteriosos habitavam além do firmamento. Seus pensamentos convergiam para lugares remotos e em seus sonhos ele almejava revelar a face dos deuses.  

4. Fuga para a Armênia


O Califado seguiu em sua Guerra Santa para converter o maior número possível de terras e povos ao que julgavam ser a Fé Verdadeira. O exército islâmico invadiu a Líbia e a Argélia, conquistando ainda boa parte do Egito após uma sangrenta campanha militar. Em Alexandria, o Califa Osman subiu ao trono e tomou para si o comando da Expansão Árabe pelo Norte da África.

No entanto, em diferentes partes do Império, inclusive em Nusaybin, emergiram movimentos religiosos de resistência que foram brutalmente reprimidos. Inocentes ou não, alguns parentes maternos do menino Al-Hazred foram perseguidos por manter ligações com crenças religiosas banidas, inclusive o Sabeísmo. A mãe de al-Hazred teria aproveitado o fato do marido estar acompanhando a campanha no Egito para fugir. Ela se refugiou na Armênia na casa de parentes, levando consigo o filho, então com 13 anos. 

Esse evento seria um momento de grande mudança na vida do menino.

A Armênia estava passando por um período conturbado. Mas apesar de também estar sob o controle dos árabes Sassanidas, as leis no território eram significativamente menos rigorosas quanto a questões religiosas. Povos de diferentes crenças viviam em relativa tranquilidade sem se preocupar com expurgos e perseguições como acontecia em outras terras. Mesmo os Sabeístas eram tolerados e podiam se reunir para suas celebrações nos templos observatórios.

O adolescente Al-Hazred gozava de plena liberdade para vagar pela região. Foi nessa altura de sua vida que ele visitou as primeiras bibliotecas onde teve acesso a textos esotéricos. É possível que seus primeiros instrutores tenham sido religiosos sabeístas que lhe apresentaram documentos tidos como profanos e que relacionavam as estrelas à divindades que viviam além delas. Al-Hazred com 14 anos teve acesso a estes textos e apesar da pouca idade os compreendeu imediatamente. Isso o levou a buscar outros instrutores - indivíduos com fama de serem adivinhos, videntes e obviamente feiticeiros.

O rapaz teria ouvido atentamente as palavras de sábios considerados insanos e tidos como dementes que haviam sido arrebatados por visões de seres poderosos e criaturas não-humanas. Ele esteve em contato com exorcistas e demonologistas que os expulsaram ou cortejaram, magos e bruxos que conheciam seus nomes secretos. Supõe-se ainda que ele tenha entrado em contato com cultistas que veneravam os antigos e se curvavam diante deles, para deles receber benesses. Percebendo sua inusitada sensibilidade, transmitiram ao rapaz os primeiros fragmentos sobre o impronunciável saber apocalíptico do Mythos de Cthulhu.

Com a mente preenchida por esses conceitos absurdos, Al-Hazred sofreu um colapso. Enquanto convalescia em sua cama, experimentou sonhos terríveis, potencializados pelo uso de drogas poderosas e substâncias alucinógenas obtidas com feiticeiros. Em seus devaneios teria sentido as emanações psíquicas de Cthulhu pela primeira vez e a esmagadora presença dos Antigos à sua volta. Teria experimentado ainda uma alucinação na qual antevia seu fatídico destino, dilacerado décadas mais tarde por aqueles mesmos horrores. Tomado pela loucura, ele saiu de casa e passou a viver nas montanhas como um solitário eremita que uivava para a lua e mal dizia as estrelas.

5. O Início das Peregrinações


De acordo com registros do próprio Al-Hazred, ele viveu até os 19 anos como um eremita e um pária. Para a maioria, inclusive a mãe e o resto da família, ele havia simplesmente enlouquecido ou sido tomado por motivação diabólica.

Habitava uma caverna nas montanhas onde se aninhava na escuridão e só saía de lá após o cair da noite. Passava a maior parte de seu tempo em contemplação, meditando e interpretando as visões que atormentavam sua mente fraturada com revelações cada vez mais medonhas. Vivia em condições degradantes, comendo gafanhotos e bebendo água da chuva. Andava nu, em estado selvagem, com uma barba espessa, balbuciando palavras sem sentido que causavam terror em quem as ouvia. Chegou a ser capturado certa vez ao se aproximar demasiadamente de um vilarejo. Foi agarrado nos arredores de um cemitério, escavando a terra como um animal em busca de carniça. Ao se explicar disse que ouvia os sons dos recém mortos enterrados sob a terra e desejava compartilhar seus segredos. Recebeu como punição chibatadas e teria gargalhado a cada açoite. Assustados os aldeões resolveram soltá-lo, pois temiam que o rapaz pudesse lançar maldições sobre eles.

Passou a ser procurado por outros eremitas que ouviam suas palavras absortos pelo horror das suas narrativas. Al-Hazred revelava seus sonhos e portentos, adivinhando quando cada um morreria e em quais circunstâncias. Ganhou fama de vidente e em menor grau de curandeiro, já que ministrava raízes e substâncias a quem assim desejava.     

De acordo com o Al-Azif certo dia recebeu a notícia da morte de seu avô e que este havia legado uma pequena herança em seu nome. Não se sabe em que circunstâncias ele cobrou essa herança, mas sabe-se que quando entrou no vilarejo da família sua presença causou grande comoção. Crianças choravam e cães latiam, quando ele passava. A mãe lhe deu o que lhe havia sido prometido, mas implorou para que ele jamais voltasse, pois temia o que o filho havia se tornado.

A herança serviu para que Al-Hazred desse início a suas primeiras peregrinações. Com dinheiro suficiente ele podia realizar sua jornada em busca de sabedoria e conhecimento. Antes de ganhar estrada, ele teria realizado um ritual blasfemo nas montanhas no qual dançou ao redor de uma fogueira e cantou para os Outros Deuses, implorando que eles abençoassem sua peregrinação e abrissem os caminhos. Para muitos ele teria ali pactuado com as forças negras para que fosse protegido por elas. Como sacrifício teria perfurado um olho com um fragmento de obsidiana o mesmo que usou para mutilar os genitais como oferta de sua castidade.

O Al-Azif diz que ele chegou a Masis (aos pés do Monte Ararat) em fevereiro de 662. Não é de se surpreender que ele tenha passado quase um ano explorando essa região de grande significado religioso. Eventualmente ele encontrou um antigo santuário encravado no monte que era habitado por monges que se dedicavam ao serviço dos Antigos. Conheciam rituais devotados a Cthulhu, Tsathoggua e Yog-Sothoth que apresentaram ao recém chegado.

Al-Hazred recebeu permissão para estudar manuscritos contidos na biblioteca do Culto, muitos dos quais escritos em idiomas desconhecidos e línguas mortas que ele, de alguma forma era capaz de decifrar. Lia de modo febril cada pequena informação e transmitia aos monges que se surpreendiam com sua sabedoria profana. Alguns teriam se assustado de tal forma que se lançaram do alto de uma ravina após ouvirem suas traduções. Compilou nesse período um pequeno diário onde relatava descobertas, usando os mesmos caracteres talhados nos monólitos da macabra R'Lyeh.

Acordado certa noite pelo que julgou ser "um zumbido de mil moscas", ele se pôs de pé e abandonou intempestivamente o monastério que serviu de lar por pouco mais de um ano. Não se despediu de ninguém e não levou consigo nada mais do que alguns trapos e seu confuso diário coberto de glifos.

6. Aprendiz dos Grandes


Dali, a história salta alguns anos. O que ele fez nesse tempo é aberto a interpretações, mas é provável que ele tenha vagado pela região da atual Turquia sobrevivendo de bem pouco e captando o conhecimento que os Deuses decidiam lhe enviar. Seus sonhos eram conturbados e segundo suas memórias, não havia uma noite sequer em que não experimentava uma revelação. 

Seja como for, ele aparece posteriormente como discípulo de Pasagnates, um sábio bizantino conhecido por estudar o passado da Babilônia. Para muitos, o homem havia sido tocado pela mente dos lendários Yithianos que viviam, controlavam e falavam através dele. Segundo boatos, a mente de Al-Hazred quase foi cooptada por estes mesmos seres que habitam os remotos recessos do tempo, mas de alguma forma ele se provou mais forte e os repeliu.

Há um novo período de vácuo em suas memórias. Supostamente os anos que se seguiram até ele completar três décadas foram preenchidos com a exploração de ruínas, lugares perdidos e esquecidos. Ele esteve nas terras da Babilônia, Ur, Nippur e nos antigos sítios desabitados da Mesopotamia. Não se sabe de que forma, racional ou não, ele era capaz de ler os textos que tinha capacidade sobrenatural de encontrar. Ele afirmava ser guiado por forças superiores para encontrar os esconderijos desses tesouros de conhecimento atávico. Escavava a entrada de túmulos de pedra, mergulhava nas profundezas das câmaras mortuárias, vasculhava bibliotecas lacradas e emergia dessa escuridão trazendo consigo algum pedaço de informação ou texto milenar esquecido. Teria obtido assim páginas repletas de sabedoria perdida e pergaminhos com conhecimento do Mythos, relatado pelas mãos de escribas que há muitos séculos haviam virado pó.

Há menções de que ele teria conhecido o lendário mago Yak-Thoob explorando essas ruínas. Dele se tornou aprendiz, embora afirme-se que o célebre feiticeiro tenha morrido séculos antes. Seja como for, com ele aprendeu outros idiomas, inclusive a língua das serpentes, dos anjos e dos demônios. Idiomas que causavam repulsa, faziam o chão tremer e transformava água em sangue quando proferidos em voz alta. Traduziu para o árabe os Tabletes de Maklu e as Escrituras de Magan que anos depois serviriam como anexo para seu blasfemo Al-Azif.  

Quando concluiu esse aprendizado estava diferente: maduro, testado e sábio. Não era mais o mesmo homem ávido de conhecimento e com sede de experiência, mas ele próprio um feiticeiro íntimo dos poderes secretos, capaz de inscrever os símbolos arcanos no ar, na terra e no metal. Sua mão firme segurava a adaga para corar a garganta de sacrifícios humanos ou não, sem vacilar e sem conhecer remorso. Podia presidir rituais milenares, canalizava energias místicas que corriam pelo seu corpo, recitava os mais poderosos feitiços e controlava a vida e a morte com uma única palavra. Era rico, mas não se importava com os prazeres mundanos que o ouro podia lhe proporcionar. O verdadeiro Poder estava no mundo invisível, que apenas seus olhos mordazes eram capazes de enxergar. Invocava para seu círculo de magia criaturas não-humanas nativas de outras esferas e as compelia a obedecer. Da mesma forma, conjurava divindades além do tempo e espaço, para responder suas perguntas e partilhar seus mistérios.  

Ele se estabeleceu na cidade de Mosul (a ancestral Nineve) num enorme casarão que era evitado pelos residentes locais. Ainda assim, nenhum Qadi ousava desafiá-lo e o deixavam em paz ruminando seus devaneios. Certo dia decidiu visitar a Armênia de onde havia partido ainda jovem. Lá soube através de testemunhas que toda família (mãe, irmãos, primos) havia cometido suicídio após destruir suas posses, queimar as terras e envenenar os animais. Ninguém foi capaz de explicar que loucura havia acometido a família e as razões que levaram aquelas pessoas à tragédia. Al-Hazraj estava convencido de que a culpa pesava sobre seus ombros e que uma maldição se abateu naqueles que compartilhavam de seu sangue.

A história de Al-Hazred ainda não se concluiu, seu caminho ainda continua... 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Legião de Dados - Podcast da New Order sobre Chamado de Cthulhu


Opa pessoal, já está no ar o segundo episódio do Legião de Dados dedicado a Chamado de Cthulhu. 

Pra quem não conhece, esse é o podcast oficial da Editora New Order que toda semana faz um revesamento com uma ambientação diferente (Pathfinder, 7o Mar, Alien, Belregard, Chamado) ou trata de temas relacionados ao universo do RPG.

Capitaneado pelo Pedro Borges, cada episódio é um bate-papo descontraído e cheio de informação.

Nesse segundo sobre Cthulhu a gente conversou a respeito dos Mythos propriamente ditos e mergulhamos nos horrores das CINCO entidades mais poderosas e aterrorizantes criadas por Lovecraft e que figuram no jogo.

Quer saber mais a respeito desse e dos episódios anteriores? 

Então, é só clicar no link abaixo que ele vai te levar até o SPOTIFY.

LEGIÃO DE DADOS - Episdódio 7 - Deuses e Entidades mais poderosas dos Mythos de Cthulhu

E para quem perdeu o primeiro episódio no qual falamos sobre a "Estranha vida de H.P. Lovecraft", é só vir aqui para ter acesso.

EPISÓDIO 2: A estranha vida de H.P. Lovecraft

terça-feira, 30 de junho de 2020

Lovecraft contra o mundo, contra a vida - Um extrato do estudo de Houellebecq sobre o autor


Traduzido por Jorge Pereira

O escritor francês Michael de Houellebecq escreveu um longo artigo sobre a personalidade e obra de HP Lovecraft chamado "Lovecraft, contra a vida". Essa é a tradução do resumo que foi publicado no jornal inglês "The Guardian" que segue transcrito abaixo. Todos os direitos são do autor citado e sua tradutora para o inglês.  

"Talvez seja preciso ter sofrido muito para se apreciar Lovecraft ... " 

Jacques Bergier

A vida é dolorosa e decepcionante. É inútil, portanto, escrever romances novos e realistas. Geralmente sabemos em que ponto estamos em relação à realidade e não nos importamos em saber mais. A humanidade, tal como ela é, inspira em nós apenas uma curiosidade atenuada. Todas aquelas notações, situações, anedotas prodigiosamente refinadas... Tudo o que fazem, uma vez posto de lado um livro, é reforçar a leve repulsa que já é adequadamente nutrida por qualquer um dos nossos dias de "vida real".

Agora, aqui está Howard Phillips Lovecraft (1890-1937): "Estou tão cansado da humanidade e do mundo que nada me pode interessar a não ser que contenha um par de assassinatos em cada página ou lide com os horrores inomináveis e inexplicáveis que se afastam dos universos externos." Precisamos de um antídoto supremo contra todas as formas de realismo.

*      *     *

Aqueles que amam a vida não leem.

Nem vão ao cinema, na verdade.

Não importa o que possa ser dito, o acesso ao universo artístico é mais ou menos inteiramente da alçada daqueles que estão um pouco fartos do mundo.

Quanto ao Lovecraft, ele estava mais do que um pouco farto. Em 1908, aos 18 anos de idade, ele sofreu o que foi descrito como um "colapso nervoso" e caiu em uma letargia que durou cerca de 10 anos. Na idade em que seus antigos colegas de classe estavam apressadamente virando as costas à infância e mergulhando na vida como em alguma aventura maravilhosa e sem censura, ele se enclausurou em casa, falando apenas com sua mãe, recusando-se a se levantar o dia todo, vagueando com um roupão a noite toda.

E mais, ele nem sequer estava escrevendo.

O que é que ele estava fazendo? Lendo um pouco, talvez. Não podemos sequer ter a certeza disto. Na verdade, os seus biógrafos tiveram de admitir que não sabiam muito e que, a julgar pelas aparências - pelo menos entre os 18 e os 23 anos, ele não fez absolutamente nada.

Então, entre 1913 e 1918, muito lentamente, a situação melhorou. Gradualmente, ele restabeleceu o contato com a raça humana. Não foi fácil. Em maio de 1918 ele escreveu a Alfred Galpin: "Estou apenas meio vivo - uma grande parte da minha força é consumida em sentar ou caminhar. O meu sistema nervoso está um farrapo e estou absolutamente entediado e indiferente, salvo quando me deparo com algo que me interessa peculiarmente".

É definitivamente inútil embarcar em uma reconstrução dramática ou psicológica. Porque o Lovecraft é um homem lúcido, inteligente e sincero. Uma espécie de terror letárgico desceu sobre ele ao completar 18 anos e ele sabia perfeitamente a razão disso. Numa carta de 1920, ele revisita a sua infância. O pequeno conjunto ferroviário cujos vagões eram feitos de caixas de embalagem, a casa de ônibus onde ele tinha montado seu teatro de fantoches. E, mais tarde, o jardim que ele tinha desenhado, traçando cada um dos seus caminhos. Era irrigado por um sistema de canais que eram o seu próprio trabalho manual, os seus rebordos encerravam um pequeno relvado, no centro do qual se encontrava um relógio de sol. Era, disse ele, "o paraíso da minha adolescência".


Depois vem esta passagem que conclui a carta: "Então eu percebi com horror que estava envelhecendo demais para o prazer. O tempo impiedoso tinha colocado a sua garra caída sobre mim, e eu tinha 17 anos. Os meninos grandes não brincam em casas de brinquedos e zombam dos jardins, então fui obrigado a entregar o meu mundo em tristeza a outro menino mais novo que morava do outro lado do lote. E desde esse tempo eu não tenho mergulhado na terra ou traçado caminhos e estradas. Há demasiada memória triste em tal procedimento, pois a alegria fugaz da infância pode nunca mais ser reconquistada. A idade adulta é um inferno".

A vida adulta é um inferno. Diante de uma posição tão trincheira, os "moralistas", hoje em dia, irão proferir vagos resmungos ousados enquanto esperam por uma chance de atacar com suas intimidades obscenas. Talvez Lovecraft realmente não pudesse se tornar um adulto; o que é certo é que ele não queria. E dados os valores que governam o mundo adulto, como você pode discutir com ele? O princípio da realidade, o princípio do prazer, a competitividade, os desafios permanentes, o sexo e o estatuto - dificilmente razões para se regozijar.

Lovecraft, por sua vez, sabia que não tinha nada a ver com este mundo. E em cada curva, ele jogava uma mão perdedora. Em teoria e na prática. Ele perdeu a sua infância; ele também perdeu a sua fé. O mundo o adoeceu e ele não via razão para acreditar que, olhando melhor para as coisas, elas pudessem parecer diferentes. Ele via as religiões como tantas ilusões revestidas de açúcar, tornadas obsoletas pelo progresso da ciência. Às vezes, quando de bom humor, ele falava do círculo encantado da crença religiosa, mas era um círculo do qual ele se sentia banido, de qualquer forma.

Poucos seres jamais foram tão impregnados, trespassados até o núcleo, pela convicção da absoluta futilidade da aspiração humana. O universo não é mais que um arranjo furtivo de partículas elementares. Uma figura em transição para o caos. Isso é o que finalmente prevalecerá. A raça humana irá desaparecer. Outras raças, por sua vez, aparecerão e desaparecerão. Os céus serão glaciais e vazios, atravessados pela luz fraca das estrelas semi-mortas. Estes também desaparecerão. Tudo desaparecerá. E as ações humanas são tão livres e desprovidas de sentido quanto o movimento irrestrito das partículas elementares. O bem, o mal, a moralidade, os sentimentos? Puras "ficções vitorianas". Tudo o que existe é egoísmo. Frio, intacto e radiante.

Lovecraft estava bem ciente da natureza distintamente deprimente das suas conclusões. Como ele escreveu em 1918, "todo racionalismo tende a minimizar o valor e a importância da vida, e a diminuir a soma total da felicidade humana". Em alguns casos, a verdade pode causar uma depressão suicida ou quase suicida".

Ele permaneceu firme no seu materialismo e ateísmo. Em carta após carta, ele voltou às suas convicções com um distinta masoquismo.

É claro, a vida não tem sentido. Mas a morte também não. E isto é outra coisa que coalha o sangue quando se descobre o universo de Lovecraft. As mortes dos seus heróis não têm significado. A morte não traz nenhum apaziguamento. Não permite de forma alguma que a história se conclua. Implacavelmente, o HPL destrói os seus personagens, evocando apenas o desmembramento das marionetes. Indiferente a estas adversidades lamentáveis, o medo cósmico continua a expandir-se. Ele incha e toma forma. O grande Cthulhu emerge do seu sono.

O que é o Grande Cthulhu? Um arranjo de elétrons, como nós. O terror do Lovecraft é rigorosamente material. Mas, é bem possível, dada a livre interação de forças cósmicas, que o Grande Cthulhu possua habilidades e poderes para agir que excedem em muito os nossos. O que, a priori, não é particularmente reconfortante.

De suas viagens aos mundos penumbrais do indizível, Lovecraft não voltou para nos trazer boas notícias. Talvez, confirmou ele, algo esteja escondido atrás da cortina da realidade que às vezes se permite ser percebido. Algo verdadeiramente vil, de fato.

É possível, de facto, que para além do âmbito restrito da nossa percepção, existam outras entidades. Outras criaturas, outras raças, outros conceitos e outras mentes. Entre estas entidades algumas são provavelmente muito superiores a nós em inteligência e em conhecimento. Mas isto não é necessariamente uma boa notícia. O que nos faz pensar que estas criaturas, por muito diferentes que sejam de nós, exibirão qualquer tipo de natureza espiritual? Não há nada que sugira uma transgressão das leis universais do egoísmo e da malícia. É ridículo imaginar que, à beira do cosmos, outros seres bem-intencionados e sábios aguardam para nos guiar em direção a algum tipo de harmonia. Para imaginar como eles poderiam nos tratar se entrássemos em contato com eles, talvez seja melhor recordar como tratamos as "inteligências inferiores", como coelhos e sapos. No melhor dos casos eles nos servem de alimento; às vezes também, muitas vezes, de fato, nós os matamos pelo puro prazer de matar. Este, advertiu Lovecraft, seria o verdadeiro quadro da nossa relação futura com esses outros seres inteligentes. Talvez alguns dos espécimes humanos mais bonitos fossem homenageados e acabassem em uma mesa de dissecação - isso é tudo.

E mais uma vez, nada disso fará qualquer sentido.


Este cosmos desolado é absolutamente nosso. Este universo abjeto onde o medo se acumula em círculos concêntricos, camada sobre camada, até que o inominável seja revelado, este universo onde o nosso único destino concebível é ser pulverizado e devorado, devemos reconhecê-lo absolutamente como sendo o nosso próprio universo mental. E para quem quiser conhecer esse estado de espírito coletivo através de uma pesquisa rápida e precisa, o sucesso de Lovecraft é, em si mesmo, um sintoma. Hoje, mais do que nunca, podemos proferir a declaração de princípios que começa por Arthur Jermyn como a nossa: "A vida é uma coisa hedionda, e do fundo por detrás do que sabemos dela parece-nos pistas demoníacas de verdade que a tornam por vezes mil vezes mais hedionda."

O paradoxo, no entanto, é que preferimos este universo, horrendo como ele é, à nossa própria realidade. Nisto, somos precisamente os leitores que Lovecraft antecipou. Lemos os seus contos com a mesma disposição exata que o levou a escrevê-los. Satanás ou Nyarlathotep, qualquer um deles o fará, mas não toleraremos outro momento de realismo. E, verdade seja dita, dado o seu prolongado conhecimento das vergonhosas voltas dos nossos pecados comuns, o valor da moeda de Satanás caiu um pouco. Melhor Nyarlathotep, gelado, maligno e desumano.

É claro porque a leitura de Lovecraft é paradoxalmente reconfortante para aquelas almas que estão cansadas da vida. Na verdade, talvez devesse ser prescrito a todos aqueles que, por uma razão ou outra, passaram a sentir uma verdadeira aversão à vida em todas as suas formas. Em alguns casos, o abalo para os nervos em uma primeira leitura é imenso. Pode-se encontrar sorrindo sozinho, ou cantarolando uma melodia de um musical. A perspectiva da existência é, em uma palavra, modificada.

Desde que o vírus foi introduzido pela primeira vez na França por Jacques Bergier, o aumento do número de leitores tem sido substancial. Como a maioria das pessoas contaminadas, eu mesmo descobri HPL aos 16 anos, através de um "amigo". Chamar-lhe um choque seria um eufemismo. Eu não sabia que a literatura era capaz disso. E, além do mais, ainda não tenho certeza se é. Há algo não muito literário no trabalho do Lovecraft.

Para fazer este caso, vamos primeiro considerar o fato de que cerca de 15 escritores (Belknap Long, Robert Bloch, Lin Carter, Fred Chappell, August Derleth, Donald Wandrei, para citar alguns) consagraram toda ou parte de suas carreiras ao desenvolvimento e enriquecimento dos mitos criados pelo HPL. E não furtivamente, nem em esconder-se, mas sim, a maioria declaradamente. A linhagem filial é ainda mais sistematicamente reforçada pelo uso das mesmas palavras. Estas assumem o valor dos encantamentos (as colinas selvagens a oeste de Arkham, a Universidade Miskatonic, a cidade de Irem com os seus mil pilares ... R'lyeh, Sarnath, Dagon, Nyarlathotep ... e sobretudo o inominável, o blasfemo Necronomicon cujo nome só pode ser pronunciado em um sussurro) ...

Numa época que exalta a originalidade como um valor supremo nas artes, este fenômeno é certamente motivo de surpresa. De fato, como oportunamente aponta Francis Lacassin, nada como isso foi registrado desde Homero e a poesia épica medieval. Devemos reconhecer humildemente que se trata do que é conhecido como uma "mitologia fundadora".

* * *


Criar um grande mito popular é criar um ritual que o leitor espera impacientemente e ao qual pode voltar com prazer crescente, seduzido cada vez por uma repetição diferente de termos, sempre tão imperceptivelmente alterados para lhe permitir alcançar uma nova profundidade de experiência.

Apresentado assim, as coisas parecem quase simples. E no entanto, raros são os sucessos na história da literatura. Na realidade, não é mais fácil do que criar uma nova religião.

Para compreender claramente o que está em jogo, seria necessário experimentar pessoalmente a sensação de frustração que invadiu a Inglaterra com a morte de Sherlock Holmes. Conan Doyle não teve escolha: ele teve de ressuscitar o seu herói. Lovecraft, que admirava Conan Doyle, conseguiu criar um mito tão popular, tão animado e irresistível.

As histórias de Sherlock Holmes estão centradas num personagem, enquanto que em Lovecraft não se encontra nenhum espécime verdadeiramente humano. É claro que esta é uma distinção importante; muito importante, mas não verdadeiramente essencial. Pode ser comparado com o que separa as religiões teístas das ateístas. O caráter fundamental que os une, o chamado caráter religioso, é de outra forma difícil de definir e de abordar diretamente.

Outra pequena diferença que pode ser notada - mínima para a história literária, trágica para o indivíduo - é que Conan Doyle teve ampla ocasião de perceber que estava criando uma mitologia essencial. O Lovecraft não o fez. No momento de sua morte, ele tinha a clara impressão de que seu trabalho criativo mergulharia na obscuridade junto com ele.

No entanto, ele já tinha discípulos. Não que ele os considerasse como tal. De fato, ele se correspondia com jovens escritores (Bloch, Belknap Long, e outros), mas não os aconselhava necessariamente a seguir o mesmo caminho que ele.

Ele não se apresentava como um mestre ou um modelo. Ele cumprimentou seus primeiros empreendimentos com delicadeza e modéstia exemplares. Ele era cortês, atencioso e bondoso, um verdadeiro amigo para eles, nunca um professor. Absolutamente incapaz de deixar uma carta sem resposta, negligenciando o pedido de pagamento quando o seu trabalho literário-revisão ficou por pagar, subestimando sistematicamente a sua contribuição para histórias que sem ele nunca teria visto a luz do dia, Lovecraft conduziu-se como um autêntico cavalheiro ao longo da sua vida.

Claro, ele gostou da ideia de se tornar escritor. Mas ele não estava apegado a isso acima de tudo. Em 1925, num momento de desânimo, ele escreve: "Estou quase decidido a não escrever mais contos, mas apenas sonhar quando tenho a mente para, não parando para fazer qualquer coisa tão vulgar a ponto de estabelecer o sonho para um público javali". Concluí que a literatura não é uma busca apropriada para um cavalheiro; e que a escrita nunca deve ser considerada senão como uma elegante realização a ser feita com infrequência e Discriminação".

Felizmente, ele continuou, e suas maiores histórias foram escritas posteriormente a esta carta. Mas até o final, ele permaneceu, acima de tudo, como gostava de se descrever, um gentil cavalheiro idoso da Providência. E nunca, nunca um escritor profissional.

Paradoxalmente, o caráter de Lovecraft é fascinante em parte porque seus valores eram tão completamente opostos aos nossos. Ele era fundamentalmente racista, abertamente reacionário, glorificava as inibições puritanas, e evidentemente achava repulsivas todas as "manifestações eróticas diretas". Resolutamente anticomercial, ele desprezava o dinheiro, considerava a democracia uma idiotice e o progresso uma ilusão. A palavra "liberdade", tão acarinhada pelos americanos, só provocou uma triste e gargalhada. Ao longo de sua vida, ele manteve uma atitude tipicamente aristocrática e desdenhosa para com a humanidade em geral, aliada a uma extrema bondade para com os indivíduos em particular.


Seja como for, todos aqueles que lidavam com Lovecraft como indivíduo sentiram uma imensa tristeza quando souberam de sua morte. Robert Bloch disse que se soubesse a verdade sobre o estado de sua saúde, teria se arrastado de joelhos até a Providência para vê-lo. August Derleth consagrou o resto de sua existência à coleta, compilação e publicação dos fragmentos póstumos de seu amigo falecido.

E, é graças a Derleth e a alguns outros (mas principalmente Derleth) que o corpo de trabalho de Lovecraft chegou ao mundo. Hoje, ele está diante de nós, uma imponente estrutura barroca, seus estratos imponentes se elevando em tantos círculos concêntricos em camadas, um amplo e suntuoso pouso ao redor de cada um - o conjunto que envolve um vórtice de puro horror e absoluta maravilha.

- O primeiro, o círculo mais externos: a correspondência e os poemas. Estes são apenas parcialmente publicados, e ainda mais parcialmente traduzidos. A correspondência é bastante espantosa: quase 100.000 cartas, algumas das quais com 30 ou 40 páginas. Quanto aos poemas, não existe atualmente uma contagem precisa.

- Um segundo círculo conteria as histórias das quais Lovecraft participou, quer as concebidas como uma colaboração para começar (como as histórias que ele escreveu com Kenneth Sterling ou Robert Barlow, por exemplo), quer outras, cujos autores podem ter beneficiado com as revisões do Lovecraft (há exemplos extremamente numerosos; a substância das colaborações do Lovecraft variou e, por vezes, chegou ao ponto de uma reescrita completa do texto). A estes podemos também acrescentar as histórias escritas por Derleth com base em notas e fragmentos deixados pela Lovecraft.

- Com o terceiro círculo chegamos às histórias que foram realmente escritas por Howard Phillips Lovecraft. Aqui, obviamente, cada palavra conta; todas elas foram publicadas em francês e não podemos esperar que seu número aumente jamais.

- Finalmente, podemos desenhar um quarto círculo definitivo, no coração absoluto do mito do HPL, que contém o que a maioria dos Lovecraftianos raivosos continuam a chamar, quase apesar de si mesmos, os "grandes textos". Vou citá-los aqui apenas para o prazer de o citar, juntamente com a data da sua composição:

O Chamado de Cthulhu (1926)

A Cor Fora do Espaço (1927)

O Terror de Dunwich (1928)

O Sussurrante na Escuridão (1930)

Nas Montanhas da Loucura (1931)

Os Sonhos na Casa das Bruxas (1932)

The Shadow Over Innsmouth (1932)

A Sombra fora do Tempo (1934)

Além disso, suspenso acima de todo o edifício do HPL, como um denso nevoeiro instável, está a estranha sombra da sua própria personalidade. Pode-se encontrar a atmosfera de culto que envolve seu caráter, suas ações e movimentos, e até mesmo suas peças mais insignificantes de escrita, um tanto exageradas ou até mórbidas. Mas garanto que a opinião deve ser revista rapidamente após um mergulho nos "grandes textos". É natural que se inicie um culto a quem oferece tais benefícios.

Sucessivas gerações de Lovecraftianos têm feito exatamente isso. Como sempre, o "recluso da Providência" tornou-se agora uma figura quase tão mítica quanto uma de suas próprias criações. E o que é mais surpreendente é que todas as tentativas de desmistificação falharam. Nenhum grau de detalhe biográfico conseguiu dissipar a aura de estranho pathos que rodeia o personagem.

O corpo de trabalho de Lovecraft pode ser comparado a uma gigantesca máquina de sonho, de espantosa amplitude e eficácia. Não há nada tranquilo ou discreto em sua literatura. O seu impacto na mente do leitor é selvagem, assustadoramente brutal e perigosamente lento a dissipar-se. A releitura não produz nenhuma modificação notável a não ser que, eventualmente, acaba-se perguntando: como é que ele o faz?

No caso específico do HPL, não há nada de ridículo ou ofensivo em tal pergunta. Na verdade, o que caracteriza seu trabalho em relação a uma obra "normal" da literatura, é que seus discípulos sentem que podem, pelo menos teoricamente, através do uso criterioso dos mesmos ingredientes indicados pelo mestre, obter resultados de qualidade igual ou superior.

Ninguém jamais imaginou seriamente a continuação de Proust. O Lovecraft, eles têm. E não se trata de trabalhos secundários apresentados como homenagem, nem de paródias, mas de uma verdadeira continuação. O que é único na história da literatura moderna.

E mais, o papel do HPL como gerador de sonhos não se limita apenas à literatura. A sua obra, pelo menos na mesma medida que a de RE Howard, embora muitas vezes menos óbvia, tem sido um fator profundo no renascimento da ilustração da fantasia. Até a música rock, geralmente tão desconfiada de todas as coisas literárias, fez questão de lhe prestar uma homenagem - uma homenagem, pode-se dizer, paga por um grande poder a outro, por uma mitologia a outro. Quanto às implicações da escrita de Lovecraft nos domínios da arquitetura ou do cinema, elas serão imediatamente visíveis para o leitor sensível. Esta é a construção de um novo mundo.

Daí a importância dos blocos de construção e das técnicas de construção. Para prolongar o impacto.

- Tradução original para o inglês © 2005 por Dorna Khazeni.
Extrato e editado da obra “HP Lovecraft: Contra o Mundo, Contra a Vida”, do escritor francês Michel Houellebecq.

O trabalho de Houllebecq na íntegra pode ser encontrado no interessante livro editado pela Nova Fronteira.

sábado, 27 de junho de 2020

Casas Fantasma - Misteriosas construções que existem além do limiar


Há incontáveis narrativas sobre casas mal-assombradas no mundo que variam entre casos simplesmente estranhos até aqueles incrivelmente bizarro. Algumas moradas amaldiçoadas no entanto, vão muito além da noção clássica de serem o lar de fantasmas e espectros: elas próprias parecem ser entidades fantasmagóricas. Tais narrativas envolvem casas inteiras que parecem surgir do nada e que se dissipam num piscar de olhos, como se jamais tivessem existido. São para todos efeitos o que poderíamos chamar de Casas Fantasma.

O fenômeno é estudado pela Parapsicologia que o reconhece como sendo algo presente em várias culturas ao redor do mundo. Lugares espectrais capazes de surgir e de desaparecer sem deixar sinal de sua passagem. Uma das teorias é que tais lugares um dia existiram e podem se manifestar mediante a energia acumulada por memórias ali represadas. São casas marcadas por tragédias e acontecimentos dramáticos que mancharam aquele local para sempre e que está fadado a se repetir indefinidamente.

Uma das mais conhecidas histórias envolvendo Casas Fantasma teve lugar no início do século XX em Versailles, França. Duas turistas chamadas Charlotte Anne Moberly e Eleanor Jourdain foram visitar o Petit Trianon, uma famosa atração situada nos famosos Jardins que integram o majestoso Palácio de Versailles. Durante a visita a essa parte do jardim, elas experimentaram um tipo de alucinação inexplicável. Os jardins mudaram e tudo que era moderno e contemporâneo simplesmente desapareceu. Mais ainda, uma pequena casa do início do século XVIII surgiu diante delas, junto com presenças fantasmagóricas vestindo roupas do período e interagindo entre si e sem percebê-las. Era como se as duas tivessem retornado no tempo e fossem capaz de ver um momento cristalizado do passado.

Após essa estranha experiência as duas mulheres começaram a pesquisar a história da área e buscaram informações sobre aquela construção e as pessoas que nela residiam. Descobriram que certa vez houve realmente uma casa naquele exato local, usada por um zelador e sua família, mas que esta havia sido destruída em um terrível incêndio em 1796. Todos os sinais da construção haviam sido removidos após a tragédia e poucas pessoas sabiam que ela havia estado lá um dia. 

Charlotte e Eleanor escreveram um livro a respeito dessa estranha experiência com o título "Uma Aventura", que se tornou um inesperado sucesso editorial, ainda que tenha sido esquecido posteriormente.

Outra narrativa sobre Casa Fantasma vem de Suffolk, na Inglaterra. Em um final de tarde em 1860, um fazendeiro chamado Robert Palfrey estava trabalhando em sua propriedade quando de repente foi envolvido por um frio congelante apesar de até então aquele ser um dia agradável de verão. Quando olhou para cima, sua fazenda havia sumido, substituída por uma casa de tijolos vermelhos cercada por jardins diferente de tudo que ele havia visto até então. A casa ficou ali diante do fazendeiro perplexo até começar a desaparecer tão subitamente quanto havia surgido diante dos seus olhos.

A casa foi vista em diferentes oportunidades ao longo dos anos. Em 1912, o neto de Palfrey, James Cobbold, estava na mesma área quando o ar se tornou gélido e o cenário ao seu redor mudou dramaticamente. Quando Cobbold e um amigo que estava ao seu lado olharam para cima se depararam com a mesma casa georgiana de três pavimentos, tijolos vermelhos envolta por um jardim impressionante. Eles ficaram estarrecidos, observando a construção por vários minutos, decidindo o que fazer. Então uma densa neblina envolveu a casa e ela começou a desaparecer diante de seus olhos.


Novamente em 1926, um jovem professor e um estudante estavam cruzando uma estrada que margeava essa propriedade quando se depararam com um nevoeiro surgido do nada. E de dentro dele surgiu uma magnífica casa de alvenaria envolta por magníficos jardins. A casa ficou ali por alguns instantes e então desapareceu no próprio ar, como se jamais tivesse existido.  


Esse notável fenômeno foi mencionado pelo autor Edward Bennett em seu livro "Aparições e Casas Assombradas", publicado em 1934. Bennett cogitou duas possibilidades: que  casa tivesse existido em um momento no passado e que tivesse sido destruída ou que ela existisse em outra dimensão ou realidade, sendo capaz de se manifestar brevemente em nossa realidade por razões desconhecidas.

Em 1946, outra testemunha, um rapaz chamado Edward Bentley se deparou com a mesma casa quando descia a estrada por onde costumava transitar com frequência. Ele chegou a se aproximar dela, adentrando o pátio e os jardins para bater numa sólida porta de carvalho, mas ninguém respondeu. Ele então deixou o lugar indo buscar um amigo para mostrar a ele a descoberta. Quando os dois retornaram, a casa havia sumido como se jamais tivesse estado lá.

Estranhamente essa mansão não é a única morada fantasmagórica nos arredores de Suffolk. No distrito de Rougham, existe uma lenda local conhecida como "A Miragem de Rougham" que ganhou fama ao longo dos anos. O fenômeno começou a ser relatado na década de 1920 e chegou aos dias atuais. Em 2007, ele ganhou novo destaque quando Jean Bartran e seu marido Jacques estavam dirigindo pela Kingshall Street e se depararam com uma enorme casa em estilo georgiano surgida do nada. O casal conhecia a área e jamais havia reparado na construção. Pararam o automóvel para admirá-la com mais cuidado e então perceberam outro detalhe curioso: a estrada de asfalto havia desaparecido, dando lugar a uma estrada de terra batida. 

O casal ficou aturdido pela descoberta e permaneceu ali observando os detalhes da magnífica casa, reparando inclusive que havia uma luminosidade tênue numa das janelas do segundo andar. Chamaram por algum morador, mas quando decidiram retornar para o carro a miragem se esvaeceu e eles se viram de volta na estrada.

A Casa Espectral de Suffolk foi descrita em várias publicações sobre o paranormal e é considerada como uma visão recorrente na região. Uma das teorias é que a casa tenha existido no início de 1800 e que tenha sido destruída em alguma tragédia que a consumiu por inteiro, mais provavelmente um incêndio. Por algum motivo desconhecido, a casa continuaria surgindo de tempos em tempos, aparecendo diante de testemunhas por breves instantes apenas para desaparecer novamente. 


Casos semelhantes são conhecidos também nos Estados Unidos.

Um dos relatos mais famosos foi descrito no livro Virginia Ghost Stories (Histórias de Fantasmas na Virginia), de L. B. Taylor. O autor relata a história contada por uma testemunha chamada Kathleen Luisa, de Falls Church. Ela alegava que estava transitando de carro pela Estrada Sudley quando de repente se deparou com uma visão inacreditável. No meio da estrada surgia uma mansão que impedia seu progresso. A casa estava simplesmente atravessada no caminho como se tivesse brotado ali. Luisa viajava por aquela região frequentemente e nem é preciso dizer que jamais havia visto tal construção.

Ela buzinou repetidas vezes esperando que alguém respondesse. E então, para sua surpresa, a porta se abriu e três pessoas apareceram com uma expressão tão surpresa e confusa quanto a dela. Um homem e duas mulheres, vestindo roupas que claramente pertenciam a outra época. Os três permaneceram ali por alguns instantes tão chocados quanto Luisa, e então assim que retornaram para o interior, desapareceram junto com a casa.  

Uma pesquisa da região apurou que na época da Guerra Civil muitas casas ocupavam aquela região, mas que elas foram destruídas em meio ao confronto entre as forças da União e dos Confederados. A área foi o palco de pelo menos dois grandes combates e as propriedades que ali existiam acabaram colhidas em meio ao conflito, sendo totalmente arrasadas. Tudo que restava dessas construções eram os alicerces e alguns muros baixos de pedra. 

Visões da mesma casa e de seus três confusos ocupantes foram relatadas por outras testemunhas. Em um relato particularmente estranho, uma testemunha chegou a afirmar ter mantido um breve diálogo com as personagens, ocasião na qual ficou claro que eles falavam de forma pitoresca e que não tinham noção do que estava acontecendo. Quando perguntou quem eram e o que faziam lá, o homem, descrito como um sujeito de 50 e poucos anos, disse que havia visto movimento de tropas do norte e que temiam pela segurança de sua esposa e cunhada.

Seria possível que a área que a casa ocupou estivesse sujeita a algum tipo de zona de estabilidade temporal? E se essa é a explicação, como ela se manifestaria e por qual razão? O que teria acontecido com seus moradores? Qual teria sido o seu destino? 

Um outro relato envolvendo a mesma casa foi feito por várias pessoas que viajavam à bordo de um ônibus em 2010. Nessa ocasião, as testemunhas descreveram a casa como praticamente uma ruína, parcialmente destruída por fogo de artilharia que reduziu paredes a escombros. Mais notável é que diante da casa duas figuras femininas pareciam chorar e se lamentar apontando para a construção chamuscada pelas chamas. Os ocupantes do ônibus descreveram que a casa destruída ficou visível por cerca de dois minutos e que então começou a desaparecer até sumir de vez em meio a um nevoeiro que a envolveu inesperadamente.


Também nos Estados Unidos existe um conhecido fenômeno de casa fantasmagórica que se manifesta nos arredores de Lake Zurich no estado de Illinois. Segundo os habitantes locais, a casa costuma aparecer na estrada que liga as cidades de Lake Zurich e Barrington, justamente na altura do Cemitério White, que também é famoso pelas histórias de espectros e fantasmas. 

Diferente dos demais fenômenos, não resta dúvida de que a casa em questão existiu. Registros locais atestam que a propriedade foi construída ali e que serviu de lar a uma família até meados de 1830. A família que lá vivia, os White, tiveram um fim trágico. Segundo registros a casa foi fechada por Evan White, único membro restante da família que resistiu à tuberculose que dizimou o restante do clã. Evan e uma prima se mudaram para uma região de clima mais ameno, depois deles terem enterrado pai, mãe e três irmãos no terreno adjacente à casa. Não por acaso o local ganharia o nome de Cemitério White nos anos vindouros.

Quanto a casa, ela foi colocada abaixo após uma forte nevasca fazer com que o telhado sem manutenção desabasse em 1838. Com a construção arruinada, a comunidade achou por bem desmantelar o local para que não se convertesse em uma ruína. Nessa época o lugar já atraía rumores com relatos de fantasmas pertencentes ao clã vitimado pela doença. Testemunhas não cansavam de mencionar espectros vagando por ali emitindo um sofrego ruído de respiração ofegante.


Os relatos sobre a Casa dos White surgindo e desaparecendo nas imediações do cemitério tiveram início na década de 1870. Conta-se que a casa surgia em meio a um véu de denso nevoeiro que então a envolvia subitamente, fazendo com que desaparecesse depois de alguns segundos. Alguns, no entanto, tinham tempo de perceber nas janelas o rosto pálido de pessoas de expressão pesarosa e moribunda observando os vivos através do vidro opaco. Todos aqueles que se aproximam da casa sentiam um frio insuportável e eram repelidos por essa aura gélida. A maioria, entretanto, se sentia compelida a olhar na outra direção e se afastar da Casa dos White, tomados por uma sensação de insuportável depressão. Segundo os boatos a Casa White surge de tempos em tempos para viajantes e visitantes do cemitério, em especial nas datas de aniversário de seus habitantes originais.  

Qual seria a melhor explicação para o fenômeno de Casas Fantasmagóricas?

Estariam essas estruturas de alguma forma ligadas a localização que ocuparam originalmente? Será possível que um lugar guarde uma memória residual persistente? Ou por algum motivo essas construções estariam sujeitas a leis de deslocamento temporal que permitiriam que pessoas em diferentes épocas as vissem? Poderiam também ser construções de dimensões paralelas, onde o véu que as separa de nossa realidade seria mais tênue? Talvez elas não passem de ilusões causadas por memórias dolorosas e eventos traumáticos.

Todas essas questões suscitam inúmeras dúvidas, mas as resposta para elas não passam de especulação. É provável que a verdade sobre as Casas Fantasma jamais seja conhecida e permaneça restrita para sempre no reino insondável do sobrenatural.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

"Você é aquilo que come" - Alimentos realmente bizarros ao redor do mundo


ATENÇÃO: Recomendo cautela ao ler esse artigo. Pessoas sensíveis podem preferir se abster dessa leitura pois alguns detalhes a respeito dos alimentos aqui tratados podem ser considerados incômodos.

A alimentação é algo vital para o ser humano. 

Não é exagero dizer que nossas necessidades alimentícias ditaram boa parte da construção social do ser humano. Ela envolve não somente as necessidades físicas do indivíduo, mas também aspectos mentais, culturais e sociais. O homem primitivo desenvolveu inúmeras habilidades para caçar de modo mais eficiente, produziu ferramentas que permitissem abater animais ou cultivar o solo, se estabeleceu em caráter definitivo onde a comida era farta, explorou os mares em busca de peixes, domesticou animais para garantir uma fonte de alimento próxima, e assim por diante...

Muita história está por trás das necessidade por obter alimento.

As mais diversas etnias que habitam nosso mundo apresentam uma alimentação igualmente diversificada. O que constitui hábitos naturais para alguns povos, pode, entretanto, ser exótico ou simplesmente inconcebível para outros. A reação muitas vezes é de surpresa, confusão e repulsa. O nosso paladar é muito influenciado pelos fatores tradicionais e culturais, um alimento tido como iguaria valorizada, pode ser entendido como refugo pelos povos vizinhos.

Para que um alimento seja "aprovado", não basta ele ter um bom aspecto ou ser nutritivo, mas sim ter sido aceito tradicionalmente pelos critérios estabelecidos pela cultura local. Muitos países possuem certas iguarias, que podem variar de básicas e indispensáveis à exóticas, nocivas e nauseantes. O consumo dos alimentos listados a seguir pode não ser comum aos nossos olhos, mas eles fazem parte da mesa desses povos há séculos.

Larva do Bambu (Oriente e Peru)


Vamos começar com algo light?

Como muitos viajantes que chegam ao Continente Asiático podem constatar, insetos não são estranhos à mesa desses povos. De fato, gafanhotos, grilos, besouros e outros insetos tidos como pestes em outros canos do mundo podem ser encontrados à venda em mercados e feiras nas grandes capitais. São parte da alimentação diária de milhões de pessoas que sequer cogitam que comê-los constitui um tabu estranho ou inusitado.

Todo tipo de inseto pode ser encontrado no comércio local, então vamos considerar o que chamou mais a atenção pela sua aparência... exótica.

Thais é o nome usado na Tailândia para o verme do bambu, um tipo de larva de besouro que é depositada no interior oco dos troncos. Durante a estação das chuvas, eles podem ser encontrados em enorme quantidade, bastando cortar o bambu e retirá-los de seu interior. A larva de coloração pálida ou castanha, atinge até 5 centímetros de comprimento e fica inchada depois de se alimentar da seiva do bambu por vários dias. Ela se contorce quando removida do interior e é vendida ainda viva e se contorcendo nas bacias para mostrar como estão frescas. Cheia de proteína a larva é preparada lançando-a diretamente no óleo quente e misturada a um tipo de farofa de amendoim.

Mas não é necessário ir até a Asia para apreciar uma iguaria bastante semelhante. No coração da Floresta Amazônica, nas selvas do Peru, nativos recolhem uma larva bastante parecida que vive no tronco dos coqueiros. As larvas são tão grandes que podem ser atravessadas em espetinhos e colocadas direto na brasa do carvão para fazer um tipo de churrasco. Se cozinhado corretamente, o gosto é similar ao de pele de frango bem frita. Se não, eles parecem com pequenas bolsas de pus com gosto amadeirado.  

Ovo Secular (China e Sudeste Asiático)


Pouca coisa é pior do que encontrar um ovo podre na geladeira. Mas você comeria um ovo apodrecido há semanas? 

O Dodgang é uma iguaria da culinária chinesa difícil de ser compreendida e menos ainda aceita por aqueles que não estão habituados à ela. Tudo nesse alimento é peculiar, para não dizer detestável. A preparação envolve encontrar um ovo que pode ser de pato, ganso ou mesmo de galinha que é enterrado numa vasilha com uma mistura de argila, cinzas, sal, cal e amido de milho. O ovo fica ali por um tempo de maturação que pode levar de uma a cinco semanas, dependendo do método de preparo.    

Nesse meio tempo, a casca endurece e fica escura, exalando um cheiro muito forte de enxofre. Quando aberto, o interior revela uma gema de coloração verde escura, enquanto a clara varia entre o marrom e amarelo. Com uma consistência cremosa e aroma acentuado, a iguaria possui um sabor que se assemelha ao de queijo fermentado, ou assim dizem os corajosos que a experimentaram. O prato é servido com uma combinação de chá, limão, sal grosso e ovos frescos.

Segundo a tradição chinesa a comida foi criada 500 anos atrás, quando um fazendeiro encontrou ovos de pato que haviam passado pelo processo naturalmente em uma piscina de água estagnada. Após experimentar e aprovar o gosto, ele replicou o método e criou uma iguaria famosa na China, Sudeste Asiático e Hong Kong. 

Queijo Pecorino (Itália)


A culinária italiana é elogiada em todo o mundo.

Mas pode ser que nem todos os aspectos da gastronomia italiana te agradem. Um prato que chama a atenção é chamado Cazu Marzu que é típico da Sardenha onde até alguns anos era muito apreciado como iguaria. O bom senso, no entanto parece ter prevalecido e a vigilância sanitária proibiu a produção do queijo pecorino por considerá-lo um grave risco a saúde pública. "O motivo?" Você pode se perguntar, mas a resposta não é muito fácil, ou melhor é bem indigesta...

Um dos ingredientes centrais na produção do Pecorino são larvas de moscas. Milhares de pequenas larvas brancas são responsáveis por realizar a  fermentação do queijo já que o ponto ideal dele é o de "quase-decomposição". Para que ele seja apreciado as moscas tem livre acesso para infestar o leite de cabra que fica propositalmente exposto por vários dias. O cheiro ocre do leite talhado atrai os insetos que fazem nichos na massa onde depositam seus ovos. Uma vez eclodidos após alguns dias, as larvas começam a comer, escavar e defecar o que ativa o processo de fermentação responsável por dar ao queijo o sabor peculiar levemente apimentado.

Mas a desgraça não termina aí... o Pecorino precisa ser consumido enquanto as larvas estão vivas realizando a fermentação, caso contrário o alimento começa a se deteriorar tornando-se extremamente tóxico. Aliás, esse é um dos motivos pelo qual a saúde pública interditou a produção, já que várias pessoas morreram depois de comprar o pecorino de comerciantes que limpavam as larvas para torná-lo menos intimidados ao público. 

Sopa de Morcego (Palau)


Recentemente essa "maravilhosa iguaria" se tornou centro de um acirrado debate a respeito da responsabilidade das pessoas em cozinhar alimentos potencialmente insalubres. No início da epidemia de Covid levantou-se a hipótese de que muitos casos ocorridos na Província de Hurran teriam se iniciado com o consumo da Sopa de Morcego. Aparentemente a Organização Mundial de Saúde (OMS) desqualificou as acusações, embora o prato tenha sido riscado do cardápio de muitos restaurantes chineses que trabalhavam esse estranho acepipe importado de Palau, uma das ilhas do Pacífico.

O grande problema do prato é sua matéria prima principal: morcego. Esses animais são conhecidos por desenvolver bactérias e são considerados vetores de várias doenças transmitidas pela mordida. Em Palau o morcego usado na culinária é um animal típico da ilha, que se alimenta exclusivamente de frutas e que não está sujeito a doenças. Quando o prato foi adaptado na China, os morcegos usados eram de outros tipos, muitos já conhecidos por transmitir doenças.

O segundo problema é a receita. O morcego é colocado inteiro na sopa acompanhado de leite de coco, ervas, temperos e óleo de gengibre. Isso mesmo! O bicho não é sequer limpo ou cortado: seus órgãos, patas, cabeça, asas e até o pelos está intacto quando servido. A carne se torna macia após a fervura, mas nem sempre ela é suficiente para eliminar os patógenos presentes no animal.

Ainda que proibida na China, a Sopa, que se tornou extremamente popular nos últimos 3 anos ainda pode ser encontrada em restaurantes, servida clandestinamente para um público à procura de iguarias incomuns. Pior de tudo, a receita relativamente fácil, é preparada por pessoas no interior que usam qualquer morcego que tenha sido apanhado.

Ah o horror, o horror...

Kiviak (Alasca e Groenlândia)


O kiviak é uma comida tradicional do povo Inuit que vive no extremo do hemisfério norte, consumida sobretudo no inverno. O nome pode ser traduzido como "coisas mortas dentro de coisa morta". Não parece muito agradável, né?

Bem, não é...

O kiviak é preparado com os auks, pequenas aves migratórias da família Alcidae. Eles medem entre 15 e 45 cm e podem pesar entre 85 gramas a 1 quilo. Elas são pegos por uma malha fina presa a um arco formado por longas varas. Os inuites ficam semanas do verão escondido entre rochedos para capturar uma grande quantidade de auks que serão usadas na confecção do prato. 

Depois de capturados e abatidos, os pássaros são enfiados dentro do corpo de uma foca sem a cabeça e que teve as vísceras removidas, restando só a pele e a gordura. O corpo da foca vira uma espécie de saco, onde são colocados em torno de 500 auks inteiros, com penas, bico e pés. Depois de cheio, retira-se o máximo do ar possível e a carcaça de foca é costurada com um cordão. Quando possível é adicionado banha de porco no meio das aves.

Mas não termina aí! O saco de foca é coberto por uma segunda camada de banha e enterrado em meio às pedras, para ficar em conserva por cerca de seis meses. Nesse período as aves e a banha irão fermentar e “cozinhar” naturalmente. Terminado o prazo de maturação, o kiviak está pronto e é consumido cru (que surpresa!), sem nenhum tipo de cozimento ou adicional. São retiradas apenas as penas, e consumidos a carne, as vísceras das aves e até mesmo os ossos que ficaram macios e tenros.

Nos dias atuais, a iguaria tradicional é consumida particularmente em aniversários e casamentos, e vendida aos turistas mais corajosos. Quem já experimentou, diz que o sabor do kiviak lembra um queijo envelhecido. Para os turistas, pacotes que mostram as etapas de preparação do kiviak são oferecidos por 60 euros, com direito a degustação.

O kiviak é um alimento de sabor e aroma forte, destinado a pessoas de hábitos rústicos, podendo causar danos aos de paladar mais sensível. Em agosto 2013 várias pessoas morreram em Siorapaluk após comerem kiviak que não fermentou bem e causou um surto de botulismo.

Durian (Malásia)


Ah, o lendário Durian. 

Que outra fruta é enquadrada em leis que advertem contra seu consumo em áreas movimentadas?

O Durian é uma estranha fruta asiática semelhante a uma inesperada mistura de quiabo, manga e jaca. Sua aparência é rústica, com vários espinhos e protuberâncias despontando em sua casca grossa e coreácea que tornam difícil descascar e encontrar as partes comestíveis. O Durian não é plantado, surgindo na natureza em áreas isoladas no topo de árvores que podem atingir mais de 50 metros de altura. Um fruto pode demorar até cinco anos para estar maduro para o consumo, se é que você realmente deseja comer essa coisa maldita.

O grande problema do Durian não é o gosto, descrito como agradável, adocicado e até certo ponto palatável. O senão que torna seu consumo quase impossível é o indescritível fedor exalado por ele. Muitos já tentaram explicar o cheiro nauseante, e a colorida quantidade de descrições dá uma ideia do que estamos lidando: meias sujas e ensopadas esquecidas no fundo de uma gaveta, lixo de feira que secou ao sol por muito tempo, cascas de batatas e cebolas apodrecidas, um curtume em uma tarde de verão, um animal enterrado em um quintal... são muitas as interpretações, mas a verdade é que não há como categorizar o fedor do Durian. 

O fato que persiste é que na Malásia a fruta foi proibida de ser consumida em hotéis, aeroportos, estações de trens, rodoviárias e estádios esportivos. Tudo porque quando aberta, o fedor pode dar início a uma reação em cadeia desastrosa. Pessoas sensíveis expostas a fragrância brutal do Durian acabam passando mal, vomitando ou mesmo experimentando convulsões no que parece ser um tipo de reação alérgica bastante severa.

O Durian é para os fortes e seu cheiro pode persistir por dias sendo especialmente difícil de remover. Em todo caso não se recomenda testar essa coisa, nunca!     

Hákarl (Islândia)


De fato, as piores comidas parecem ser aquelas que de alguma forma fermentaram no curso de um certo tempo. Junte a isso, um alimento que basicamente está apodrecido e você tem uma combinação difícil de categorizar como palatável. Realmente, é um enigma que forças da natureza poderiam fazer com que um ser humano considerasse comer tal coisa. Ainda assim, algumas pessoas consideram tal horror gastronômico algo digno de seus apetites.

Da fria Islândia vem o Hákarl, um dos alimentos mais detestáveis dessa lista. Algo tão nauseante que é até difícil descrever em termos gerais, mas ainda assim, vou tentar...

O Hakárl é feito com a carne do Tubarão da Groenlândia que é normalmente venenoso devido à concentração elevada de ácido úrico no organismo do peixe. O cheiro dele é extremamente poderoso, lembrando amônia em estado puro. Algumas pessoas consomem pequenos pedaços marinados em um aguardente local que neutraliza parcialmente o cheiro. Não por acaso, comer isso é uma demonstração de robustez e força de vontade.

Mas sempre existem aqueles capazes de ir além e um brinde a esses incríveis idiotas!

Para produzir o Hakarl (que significa Tubarão podre), a carne é cortada em postas e colocada em meio a rochedos para secar por 6 a 12 semanas, período em que ela apodrece e vai se tornando cada vez mais putrefata. No fim do período de maturação ela está seca, com uma casca externa escura que é removida para encontrar o interior de consistência cerosa e um gosto pronunciado que mistura o pior de uma porção de amoníaco com peixe podre. Aqueles capazes de provar sem cuspir ou vomitar, descrevem o sabor como adocicado e delicado embora eu duvide muito disso.

Com fome?