terça-feira, 10 de novembro de 2020

Cinema Tentacular: O que Ficou para Trás: Resenha do Filme da Netflix


O que fazer quando você acredita que deixou inferno para trás, mas ele insiste em acompanhá-lo? 
Esse é o drama dos protagonistas de "O que Ficou para Trás" (His House/ 2020), filme de horror britânico que acaba de estrear no Netflix e que vem chamando a atenção dos espectadores da plataforma de streaming.

Com uma direção segura e francamente bastante assustadora Remi Weekes construiu um filme que foge do lugar comum das casas assombradas e situações familiares que frequentam o gênero. De certa maneira, ele revitaliza esse subgênero do horror, investindo em um roteiro que combina elementos de drama familiar e denúncia a respeito da dramática situação dos refugiados das guerras genocidas da África.    

Nos primeiros 20 minutos, Aquilo que Ficou para Trás, parece mais um drama do que um horror sobrenatural. O pesadelo humanitário é apresentado de forma nua e crua, com a via crucis de um casal sudanês buscando asilo numa fria Grã-Bretanha. 


Bol (Sope Dirisu) e Rial (Wunmi Mosaku) arriscam tudo em uma perigosa travessia num barco superlotado tentando deixar seu país natal partido pela guerra e encontrar a segurança longe da área de conflito. Mas um trágico acidente em alto mar faz com que eles questionem seus motivos depois que a filha morre afogada na travessia. Após essa tragédia e um tempo de luto encontramos os dois vivendo num centro de detenção onde eles aguardam pela regularização de sua situação. Logo no início eles conseguem sua própria casa nos arrabaldes de Londres. O lugar, em terrível estado de conservação, com a parte elétrica caindo aos pedaços e com móveis desgrenhados, parece um barraco mal ajambrado, mas para quem perdeu tudo é um verdadeiro palácio.

O alívio inicial e o sentimento de felicidade, entretanto, são lentamente substituídos pelo medo a medida que eles percebem que não estão sozinhos na casa e uma força maligna está à espreita.


Tendo como cenário uma parte não especificada da Inglaterra, extremamente cinzenta e úmida, o roteiro segue os passos do casal lutando para se ajustar em uma terra cujo exterior é quase tão assustador quanto o interior de sua casa assombrada. Seus encontros com vizinhos e demais habitantes são ásperos e desagradáveis, o que demonstra claramente que ser tolerado, é algo muito diferente de ser bem vindo. Nesse panorama, adaptação parece difícil, para não dizer impossível.

Obrigados a seguir uma lista estrita de regulamentos comunicada por um aparentemente indiferente funcionário da imigração (Matt Smith), o casal precisa demonstrar que está se adaptando, sob o risco de ser mandado de volta para seu país natal. 

Aí é que começa o terror. 


De início as coisas parecem discretas, mas a escalada de horror é vertiginosa. Logo o casal passa a entender que trouxe consigo da África algo perverso e interessado em destruir sua chance de felicidade. O peso da culpa e o devastador efeito de uma existência vazia torna a narrativa ainda mais claustrofóbica. É claro, existe um terrível segredo compartilhado pelo casal, algo que eles preferiam esquecer, mas que é constantemente jogado em sua face pela força diabólica que os atormenta. Eles não são, no final das contas, vítimas do acaso, existe uma razão para um espírito maligno estar habitando atrás de suas paredes, explorando suas emoções e tentando levá-los a loucura. 

Enquanto Bol tenta se tornar parte da cultura que o recebeu, sua esposa, Rial, entende que de nada adianta fingir que tudo está bem. Ela é a primeira a compreender a natureza da coisa que está atrás deles e o que a entidade pretende.

Em meio a intimidação do ambiente e das pessoas, os dois acabam se fechando na casa que se torna uma espécie de prisão da qual não existe escapatória. A medida que a relação dos dois vai se deteriorando, a casa em que vivem também parece cada vez mais dilapidada. 


O casal de protagonistas Mosaku e Dirisu são perfeitos e concedem uma carga emocional devastadora que acompanha o ritmo do filme. Trilha sonora e efeitos simples, mas extremamente convincentes completam a produção extremamente bem cuidada. As cenas em que o espírito manipula a percepção dos personagens para atacá-los são nada menos do que sinistras, ainda mais quando intercalam flashbacks da fuga e imagens surreais do acidente em alto mar.

Ao longo de apenas 93 minutos de duração, O que Ficou para Trás consegue transmitir uma experiência de horror turbulento e incômodo que vale a pena ser conferida.

domingo, 8 de novembro de 2020

Mausoléu Imperial - A Gigantesca Tumba do Primeiro Imperador da China


Existem certos lugares no mundo que são antigos, misteriosos e proibidos. Eles ficam fechados para os olhos da maioria dos homens e por séculos, às vezes até milênios, permanecem intocados, guardando em seu interior enigmas ancestrais. 

Muitos desses lugares foram projetados para serem tumbas, perdidas e seladas há muito tempo, frequentemente mantidas dessa maneira para jamais serem encontradas e abertas. Ao redor do mundo, há muitos lugares assim: isolados, desconhecidos e estranhos. Os povos da antiguidade e as civilizações que um dia foram poderosas, ergueram essas tumbas para honrar indivíduos importantes e conceder a estes uma morada especial para seu descanso eterno. Há no entanto, mausoléus impressionantes que chamam a atenção pela sua grandiosidade e acabam diminuindo até as maiores façanhas dos outros povos. Uma das mais incríveis tumbas construídas pela humanidade está localizada na China, uma antiga cidade subterrânea com vastas câmaras conectadas por corredores, ligando mausoléus ocultos que podem guardar enorme riqueza, incríveis artefatos, armadilhas mortais e talvez, até mesmo uma maldição milenar.

A história de uma das maiores e mais importantes tumbas de todos os tempos, começa em 260 a.C, quando a China era uma nação dividida, rasgada por uma sangrenta Guerra Civil disputada por seis reinos, cada qual com um líder ambicioso desejando se impor diante dos demais. A guerra havia se espalhado por todos os cantos do país, naquele tempo uma colcha de retalhos de pequenos feudos que disputavam um arriscado jogo, cultivando aliados e oponentes. Erguendo-se sobre as facções beligerantes rivais estava a poderosa Dinastia Qin, que pr algum tempo foi comandada pelo Rei      Zhuangxiang, que morreu depois de apenas três anos mo trono, deixando o reino para seu primogênito, Ying Zheng, que ascendeu ao poder em 246 a.C com apenas 13 anos de idade.


A despeito de sua juventude, Ying Zheng se mostrou um líder ousado e destemido, combatendo ferozmente seus oponentes e vencendo cada um deles, campanha após campanha para dominar os vizinhos e sujeitá-los. As vitórias foram se multiplicando de tal maneira que muitos achavam que o jovem rei havia sido ungido por poderes divinos. Suas conquistas foram tão significativas que em alguns anos ele conseguiu alcançar algo que até então parecia impossível, unificar todos os territórios que compunham a nação. Sob sua tutela, o Primeiro Grande Império da China foi fundado em 221 a.C tornando Ying Zheng o primeiro Imperador.

Uma vez consolidado no poder, o Império passou por profundas transformações e deu passos largos no campo do progresso social, econômico e científico. Os engenheiros imperiais desenvolveram programas que permitiram a abertura de estradas que conectaram todas as províncias e impulsionaram um comércio vibrante e a circulação de mercadorias e moeda. Ouro e riquezas fluíram para os cofres públicos com a adoção de impostos e o uso de arrecadação para modernizar cidades e construir incríveis obras de infraestrutura. Represas e o redirecionamento de rios acabaram com os períodos de seca que eram um problema para a agricultura e essa conseguiu se desenvolver com o uso de canais, muitos dos quais navegáveis. A mais notável das obras, a grandiosa Muralha da China cortava a fronteira com as perigosas estepes dos mongóis impedindo invasões. Apesar das várias tentativas de assassinato sofridas e dos golpes arquitetados por inimigos, o Imperador se manteve no poder, sendo amado e respeitado pela maioria de seu povo. Em determinado momento, ele se sentiu tão à vontade no trono que proclamou que ele estava destinado a reinar, renomeando a si mesmo "Qin Shi Huang", que pode ser traduzido como "Filho dos Céus". Com isso, o Imperador se convertia em uma espécie de Deus, imbuído com poderes divinos que deveria governar para sempre como o senhor de toda a terra e de tudo que nela existe.               

Essa era uma reinvindicação ousada a se fazer, mas Qin Shi Huand era alguém que desconhecia os temores que afligiam os homens comuns, De fato, para comprovar sua grandiosidade ele se tornou obcecado pela noção de imortalidade e desejava viver para todo sempre. Qin buscou incessantemente o segredo da vida eterna, ordenando que alquimistas e magos destilassem o lendário elixir da vida eterna. O Imperador se sujeitou a todo tipo de tratamento e consumiu inúmeras poções misteriosas que lhe trouxeram pouco benefício e que, de fato, acabaram piorando sua saúde.


Percebendo que sua busca pela imortalidade estava fadada a não trazer qualquer resultado, Qin Shi Huang decidiu que se tivesse realmente de morrer que partiria para o pós vida de uma maneira especial. Ele não seria simplesmente sepultado e pranteado por algum tempo. Não! Ele ansiava por ser lembrado para sempre. Para tanto, seus restos mortais seriam depositados em um opulento mausoléu dedicado a hospedá-lo após a morte, um lugar tão impressionante quanto seu palácio em vida. O Mausoléu deveria parecer a capital da Dinastia Qin, a cidade de Xianyang, para que ele encontrasse conforto e conservasse o poder imperial no além vida.

Ele contemplava uma extensa tumba que irradiava de seu ponto central, onde o Imperador seria sepultado, formando ramificações como uma cidade. Esta contaria com inúmeras câmaras subterrâneas, salões grandiosos, compartimentos secretos e quilômetros de corredores com escadas e rampas. O Imperador tinha pressa em ver sua obra concluída o quanto antes. Para erguer seu magnífico mausoléu, ele mandou organizar uma força de trabalho estimada em 700 mil operários e um número desconhecido de prisioneiros que deveriam trabalhar dia e noite na vasta estrutura. O projeto era tão megalomaníaco e ambicioso que se converteu em um microcosmo do Império. Os cofres públicos foram esvaziados para patrocinar a obra, estradas e obras importantes ficaram em segundo plano, bem como orçamento com o exército e defesa. Nada era mais importante que o Mausoléu!

Quando ele enfim foi concluído, o que demorou 38 anos, a construção era a maior e mais cara tumba erguida com o propósito de receber um único ocupante. O Imperador não viveu para contemplar seu sonho totalmente completo, ele morreu antes que o projeto fosse terminado. Mesmo assim, seus restos mortais foram transportados para o centro da estrutura labiríntica, enquanto as obras ao seu redor prosseguiam para dar forma final ao monumento. Quase uma década depois da morte de Qin, os operários assentaram os últimos detalhes da tumba e a lacraram.


De acordo com os registros feitos pelo historiador Sima Qian, da Dinastia Han, a tumba contava com enormes painéis de madeira e pedra finamente entalhados retratando paisagens, cenas de batalha e palácios. Incontáveis murais e telas também adornavam as paredes trazendo retratos do Imperador ao longo de sua vida. Salões abarrotados com relíquias e artefatos se multiplicavam pelas instalações, com cada aposento destinado a receber um tipo de tesouro diferente, dessa forma havia uma câmara apenas para os trajes cerimoniais com fio de ouro e joias cravejadas, outro para peças de jade e outro ainda para armas e armaduras. Os corredores que conectavam as câmaras eram largos, como estradas com tetos pintados representando estrelas e constelações. Mais bizarro de tudo, dois riachos que vertiam mercúrio prateado foram construídos na tumba, para simbolizar os grandes Yangtze e o Rio Amarelo. O fluxo do metal em estado líquido era mantido por uma série de engenhosos dispositivos mecânicos que faziam ele circular indefinidamente. 

Sima Qian escreveu em seus registros históricos:

"Quando o Primeiro Imperador acsendeu ao trono, as obras de escavação e preparação do terreno se iniciaram aos pés do Monte Li. Mais tarde, quando ele unificou o Império, 700 mil homens foram enviados de todos os cantos do reino para trabalhar. Eles cavaram através do solo, encontraram um rio subterrâneo que foi desviado e ergueram escoras de bronze para guarnecer as paredes. O acampamento dos operários era tamanho que parecia uma cidade. Artesãos foram chamados para decorar o interior com luxo e riqueza incomparável. Para proteger essas muitas e vastas riquezas, ordenou-se a colocação de bestas em lugares estratégicos para disparar em qualquer invasor que ousasse colocar os pés no complexo. Armadilhas de pedra, pêndulos e cadafalsos foram distribuídos ao longo das câmaras que uma vez seladas jamais poderiam ser abertas. Velas feitas com a cera extraída de certos peixes foram dispostas para queimar por anos para garantir que o espírito do Imperador tivesse luz. 

Havia ainda garças, pavões e patos feitos de bronze, grupos de músicos, cavalos e carruagens, acróbatas e demais artistas esculpidos detalhadamente em ferro e latão para adornar os corredores como habitantes perpétuos que fariam companhia ao Imperador. Os estábulos imitavam em detalhes os verdadeiros estábulos reais, com direito a reproduções dos garanhões preferidos do Imperador esculpidos em terracota, assim como seus cuidadores e adestradores. Uma multidão de servos, empregados, cozinheiros, aias e concubinas também estavam à disposição do Imperador para cuidar de suas menores vontades.   

Uma das peculiaridades mais famosas e talvez a mais impressionante de todas, diz respeito ao exército imperial alinhado para defender o Mausoléu e seu Imperador. Nada menos do que 8000 guerreiros em tamanho natural, cuidadosamente esculpidos em terracota possuindo incríveis detalhes intrincados que os tornavam únicos diante dos demais. Tamanho era a minúcia artística que cada guerreiro possuía um formato diferente da face, bigode, cabelo, barba e postura, o que leva a especulação de que eles poderiam ser baseado em pessoas reais imortalizadas naquela maneira. Cada soldado trazia em suas mãos uma arma e escudo e vestia uma armadura completa de batalha, demonstrando estarem prontos para o combate. Segundo a lenda, eles lutariam até o último homem para defender a tumba. O exército não era composto apenas por uma infantaria disciplinada alinhada como se aguardando a ordem de ataque; contava ainda com cavaleiros montados e carruagens feitas de terracota. Uma divisão de arqueiros e besteiros fechava a tropa de fieis combatentes.

Além de tudo isso, o complexo inteiro consistia de uma cidade interna e externa divididas por paredes, formando um total de 18 cortes com um majestoso palácio no centro. Os portões que garantiam acesso de uma corte a outra estavam selados e trancados de modo que era impossível penetrar a não ser com aríete. A tumba inteira media 98 quilômetros quadrados em área total construída. Cada aposento repleto de tesouros era protegido ainda por sofisticadas armadilhas desenhadas para neutralizar invasores e punir os transgressores tornando o complexo inexpugnável".    


No fim das contas, Qin Shi Huang não conseguiu enganar a morte. Ele morreu em 210 aC, com apenas 49 anos de idade, ironicamente envenenado com as beberagens concatenadas pelos seus alquimistas, muitas delas à base de mercúrio. Um funeral como jamais visto se seguiu à sua morte. O corpo do Imperador foi levado para o centro do complexo e depositado num caixão de cobre encerrado em um monte. Várias de suas concubinas foram executadas, bem como seus criados e escravos de confiança para que estes lhe fizessem companhia. Muitos dos artesãos e artistas também foram encerrados nas câmaras, com material para seu ofício, comida e água, afim de que fizessem reparos ou expandissem seus desenhos ao longo dos anos vindouros. Os arquitetos principais, que conheciam a planta da mega-construção e que sabiam das passagens secretas e corredores ocultos foram mortos para jamais revelar sua localização.

Pode parecer estranho que algo tão grandioso e que demandou tamanha força de trabalho tenha simplesmente desaparecido nos séculos que se seguiram, mas foi justamente o que aconteceu. A tumba do primeiro Imperador da Dinastia Qin deveria permanecer secreta e acredita-se que um grandioso aparato de acobertamento tenha sido levado à cabo para que ela assim continuasse. Supõe-se que grupos específicos devotados a manter o sigilo sobre a localização e propósito da tumba tenham sido formados nos moldes de sociedades secretas, Seu único propósito: preservar a tumba e protegê-la contra invasores. Em sua dedicação beirando o fanatismo, os membros dessa Sociedade teriam criado todo tipo de rumor para esconder a localização do mausoléu. Espalhando boatos e plantando histórias, eles construíram um status lendário a respeito da tumba, para que as pessoas a vissem tão comente como um mito. Além disso, usavam de força e persuasão para afastar possíveis exploradores. Dizem as lendas que eles assassinaram muitos que buscavam a verdade e que cobiçavam os tesouros do Imperador.

O mito da Sociedade do Imperador vigorou por milênios, sendo um segredo oculto até dos Imperadores que sucederam o Trono de Jade. Com a história real transformada em lenda, os acessos devidamente selados e a localização incerta os membros da Sociedade puderam descansar, A Tumba de Qin ficaria oculta nas névoas do tempo, parcialmente esquecida.

Apenas em março de 1974, os primeiros sinais de existência de um vasto complexo subterrâneo seriam descobertos, quando um homem chamado Yang Zhifa estava cavando um poço na companhia de cinco irmãos na Província de Lintong, arredores da vila de Xiyang. A medida que escavavam eles se depararam com fragmentos de terracota e tijolos a quase dois metros de profundidade. Curiosos com a descoberta eles continuaram cavando e localizaram pedaços de bronze e cabeças de flecha.


Quando arqueólogos que trabalhavam para o governo comunista chegaram ao local meses depois para estudar as descobertas, ficou claro que havia algo mais escondido ali. Sensores de solo descobriram as primeiras câmaras e a primeira parede derrubada revelou uma câmara tomada por figuras de terracota pertencente aos soldados. A medida que os arqueólogos se surpreendiam com as descobertas, rumores milenares a respeito do complexo foram surgindo. Eles se encaixavam perfeitamente nas relíquias encontradas e que remontavam ao período histórico da consolidação. Logo o nome de Qin começou a aparecer em toda parte e os estudiosos confirmaram estupefatos que estavam diante do até então, lendário mausoléu do Primeiro Imperador.

As escavações e o processo de catalogação das peças e artefatos permanece ininterrupto desde a sua grande descoberta, mais de 40 anos atrás. Autoridades do governo chinês prosseguem realizando estudos com frequentes descobertas e surpresas sendo trazidas à tona. Contudo, o trabalho é lento e gradual. Grande parte do complexo permanece inexplorado e virtualmente desconhecido. Não se sabe ainda o que a maioria das câmaras guarda e o que será encontrado amanhã, daqui um ano ou daqui a décadas. O mais provável é que as escavações prossigam por tempo indeterminado. De fato, nada sequer semelhante foi encontrado e a fantástica necrópole do Primeiro Imperador Qin Shi Huang se converteu em uma das maiores descobertas arqueológicas de todos os tempos. 

Recentemente em 2012, uma das mais incríveis e excitantes descobertas foi feita. A descoberta do Palácio Imperial Subterrâneo medindo 76 metros e cobrindo uma área de 170.000 metros cúbicos foi feita entre 30-50 metros abaixo da superfície. Uma espécie de monte artificial posicionado exatamente no centro desse palácio supostamente guarda o corpo do Imperador em pessoa e de suas concubinas. Essa  mega tumba só foi explorada através de imagens tridimensionais com a ajuda de um radar de penetração, mas ela permanece selada nas entranhas da terra, incitando debate sobre quais tesouros ela guarda. Até onde sabemos, olhos humanos não vislumbram os segredos contidos nesse mausoléu há milênios. O que ele irá revelar quando enfim for aberto, deve constituir uma das maiores e mais importantes descobertas do século.


Há muitas razões para que ninguém tenha tentado penetrar na imensa tumba em forma de palácio. A principal delas é que ainda não temos tecnologia suficientemente avançada para conduzir esse tipo de feito sem danificar irreparavelmente o que existe em seu interior. Uma vez que a tumba é tão funda, escavar está fora de questão e não há como acessá-la sem causar danos no que existe lá embaixo. O risco de um desabamento em potencial também poderia causar um desastre e acabar com tudo. 

Também há o problema de que não dispomos de tecnologia para preservar alguns artefatos que podem estar dentro do palácio. Após milênios mantidos em um ambiente com pouco oxigênio, a remoção deles pode acabar por arruiná-los por completo em poucos minutos. Algo parecido aconteceu com várias estátuas de terracota que uma vez expostas ao ar e luz acabaram se desfazendo. Também é preciso considerar que o tamanho do complexo impõe um fator complicador, afinal, sem saber exatamente onde concentrar os esforços poderia levar anos para achar um lugar importante. Finalmente há o custo envolvido nessa tarefa, um trabalho de perfuração e escavação desse tamanho atingiria cifras milionárias. Estima-se que um trabalho dessa magnitude custaria algo em torno de 500 milhões de dólares por ano.

Outro fator inibidor é que não sabemos exatamente quais os perigos que aguardam nas trevas. Os documentos a respeito da construção mencionam rios de mercúrio, e de fato, radares subterrâneos detectaram uma enorme concentração de mercúrio no solo. Se esses "rios" forem desviados de seu curso por uma escavação, é possível que eles acabassem transbordando e poluindo lençóis freáticos que se espalham pelo território. Em termos de ecologia seria um desastre ambiental sem precedente. Também há o risco de exposição a bactérias mortais que poderiam estar no subterrâneo e para a qual não temos nenhuma defesa. Também muito se fala a respeito de armadilhas intrincadas sobre as quais nada se sabe. Não é possível determinar se essas armadilhas ainda estariam ativadas depois de milênios, mas vagar pelos subterrâneos sem um plano pré-definido, literalmente na escuridão não parece muito prudente.     

Indivíduos mais inclinados para o lado sobrenatural sugerem ainda que o Imperador lançou uma maldição sobre o seu Mausoléu. Aqueles que adentram essa tumba estariam se expondo a todo tipo de maldição e perigo formulado por magos que serviam ao Imperador como seus conselheiros. A mitologia chinesa é rica em vários seres sobrenaturais e demônios, fantasmas e monstros que teriam sido, segundo os crentes, invocados para defender os corredores dessa masmorra e impedir que invasores encontrem seus tesouros.

Outros acreditam que os alquimistas que auxiliaram o Imperador em sua busca pelo elixir da imortalidade tenham encontrado fórmulas mortais de venenos e substâncias tóxicas desconhecidas. Estas teriam sido usadas para proteger os corredores que na presença de invasores seriam inundados com gases letais. Há rumores de que arqueólogos chineses tentaram acessar clandestinamente as câmaras, mas nenhum deles chegou longe o bastante para revelar seus segredos. 

O mistério permanece!


A única certeza que se tem é que a tumba possui potencial de guardar incríveis artefatos históricos, vastos tesouros e relíquias culturais sem preço. Arqueólogos de todo o mundo pediram permissão ao governo chinês para auxiliar nas explorações, mas o país tem se mantido cauteloso diante de qualquer incursão. Uma expedição pode se mostrar a mais importante descoberta de nosso tempo ou ela pode simplesmente revelar câmaras cheias de ossos, poeira e detritos.

Pode haver qualquer coisa lá dentro, não se sabe e é provável que não venhamos a saber por um bom tempo. Há aqueles que pensam que seria melhor jamais sabermos. Talvez os avisos sejam claros, e nossa teimosia em ignorá-los possa vir a custar muito caro. Violar a ameaça dos antigos pode constituir um grande erro.

O acirrado debate continua, por hora, a tumba e seu interior continuam fechados. Turistas convergem para o local aos milhares para admirar as câmaras que já foram abertas e que revelaram o exército de terracota. Além de determinado ponto a visitação é proibida e apenas pessoas autorizadas podem entrar e sair, contudo, mais adiante ninguém imagina o que poderá ser encontrado. A promessa de tesouros e descobertas é tentadora, mas será que estamos dispostos a pagar o preço de nossa ousadia? Em algum lugar, nas profundezas insondáveis, os restos do Imperador aguardam, cercados por armadilhas mortais, veneno, mercúrio e maldições. Se o desejo do Imperador Qin era ser mantido em paz, lembrado pela eternidade, parece que ele foi atendido.

Por hora ele parece estar levando a melhor...

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Cropsey - A Lenda Urbana de um assassino sem rosto


Quem ou o que é Cropsey?

Cropsey é o sujeito que sua mãe dizia que ia te pegar se você não se comportasse. Cropsey é o bicho papão que assusta crianças e faz com que elas tenham medo de ir ao banheiro de madrugada. Cropsey é o nome sussurrado pelos amantes que invadem uma casa abandonada para namorar. Cropsey é o maníaco armado com um gancho, que mata sem motivo aparente.

Cropsey é um mito, um terror que não se apaga e parece se alimentar do pavor que provoca. 

Ele é a figura central em uma série de Lendas Urbanas da região de Staten Island, interior de Nova York. De acordo com a narrativa mais difundida, Cropsey seria o fugitivo de um manicômio judiciário, um demente extremamente perigoso, isolado do mundo e mantido em uma cela de onde jamais deveria escapar.

O Manicômio de onde ele teria fugido é o Seaview Hospital, em Staten Island, uma enorme instituição para doentes mentais fechada em 1974 depois de sucessivas denúncias de super-lotação e maus tratos. Os internos do Seaview eram mantidos em condições degradantes, com pouca comida, sem roupa e em estado de completo abandono. Muitos deles ficavam confinados em celas dia e noite, mantidos no escuro em cubículos de três metros quadrados.

Mas será que Cropsey realmente existiu ou tudo não passa de história?


É provável que Cropsey não passasse de uma lenda urbana fabricada, o tipo da história criada para assustar as crianças. Ao menos até que ela se cristalizou no mundo real na forma de um homem chamado Andre Rand.

Rand, nasceu como Frank Rushan e pouco se sabia de sua vida além de que era zelador da Escola Estadual Willowbrook, uma instituição para crianças problemáticas a pouco mais de seis quilômetros do Manicômio Seaview. 

Durante os 40 anos em que funcionou, o Willowbrook colecionou histórias desagradáveis envolvendo abuso de menores em suas instalações. Havia rumores sobre surras, agressões e estupros, mas não existiam provas concretas ou pessoas interessadas em investigar as denúncias. É importante diferenciar a Escola Willowbrook do Manicômio Seaview. Muitos acreditavam que os dois eram a mesma coisa, contudo, apesar de estarem próximas e ambas serem famosas pelo tratamento inadequado, eram duas instituições diferentes. As crianças no colégio eram oriundas de programas que as afastava das escolas tradicionais por considerá-las um risco para os outros estudantes. 

Em 1972 o apresentador de televisão Geraldo Rivera se infiltrou em Willowbrook e realizou filmagens que mostravam as condições para o público. A pressão popular foi imensa, sobretudo depois que as filmagens mostraram rapazes sendo algemados e espancados por funcionários. A escola foi fechada, os alunos mandados para outras instituições e dezenas de funcionários afastados ou presos.

Andre Rand, que na época era o zelador pediu permissão para ficar em Willowbrook mesmo depois deste ser desativado. Ele foi admitido como vigia, incumbido de cuidar das instalações, realizar sua manutenção regular e manter as pessoas afastadas. Uma cerca foi erguida ao redor do terreno e Andre passou a cuidar do pátio e do prédio principal que rapidamente caiu em estado de deterioração tornando-se em poucos anos uma ruína.


Alguns acreditam que Rand era um dos funcionários responsáveis pelos maus tratos ocorridos em Willowbrook e que seu lugar era na prisão. Ex-alunos reconheceram o zelador e atribuíam a ele várias ocorrências de violência e crueldade. Até mesmo casos de tortura foram mencionados, ocorridos no barracão em que o zelador vivia.

Verdade ou mentira, Rand jamais foi formalmente acusado pela sua conduta na escola. Ele continuou vivendo no mesmo barracão; sozinho e isolado de todos. Era um homem estranho que não tinha amigos ou parentes próximos. Seu único passatempo era vagar pelos arredores da Escola desativada, recolhendo objetos abandonados. Ele também era visto acampando na densa floresta que cercava a instalação, um lugar ermo chamado Greenbelt. Testemunhas diziam que ele falava sozinho e conversava com pessoas que só ele enxergava. Gargalhava e xingava seus amigos imaginários. Todos preferiam evitar aquele sujeito grande e mau encarado.

A primeira criança a desaparecer nos arredores da Floresta Greenbelt foi Alice Pereira de 5 anos, que sumiu em 1972 enquanto estava brincando com seu irmão. Alice teria se escondido em um antigo túnel que pertencia ao Willowsbrook e sumiu sem deixar vestígio. A população local se reuniu para procurar a criança, mas nada foi encontrado. A polícia chegou a interrogar Rand, mas não o consideraram um suspeito na época.

Em 1981, uma menina de 7 anos chamada Holly Ann Hughes não voltou para casa depois de visitar um mercado para comprar uma barra de sabão. Andre Rand foi visto naquele mesmo dia andando pela cidade, coisa que ele raramente fazia. Ele foi visto no mesmo mercado onde a menina esteve, aproximadamente 20 minutos antes dela ser vista pela última vez. Após uma busca que se mostrou infrutífera, os pais de Holy Ann espalharam cartazes com a foto da menina e de Rand perguntando se alguém havia visto os dois juntos. Três testemunhas afirmaram ter visto um homem parecido com Rand acompanhado de uma criança, mas dois deles não foram capazes de apontar o zelador em uma linha de reconhecimento. A floresta e as ruínas da Escola abandonada foram revistadas por policiais, mas nada foi encontrado.


Dois anos passaram e Tiahese Jackson de 11 anos foi a próxima a desaparecer enquanto voltava de uma lanchonete. Ela foi vista próxima ao Mariners Harbor Motel em Staten Island em 14 de agosto, apenas 12 dias depois de Rand ter sido liberado da cadeia. O zelador havia sido detido sob suspeita de ser procurado em outro estado, uma acusação que se mostrou errônea. Rand foi questionado, mas não havia nada que apontasse para sua culpa.

Em 1984, Hank Gafforio de 22 anos sumiu nas proximidades do Greenbelt de Staten Island. Hank era descrito como um rapaz "lento" e tinha um QI de 70. Algumas pessoas afirmaram ter visto Hank na companhia de um homem mau encarado que lhe deu carona em um carro preto. Rand, na época havia comprado um automóvel velho azul escuro e costumava andar com ele pelas estradas marginais. Na ocasião, alguns habitantes foram até Willowbrook exigir que Rand contasse o que sabia. A polícia o protegeu e levou até a delegacia onde ele foi interrogado. No barracão foram encontradas roupas de criança escondidas no fundo de um armário, alguns afirmaram que pertenciam a algumas das meninas desaparecidas, nenhuma delas foi reconhecida pelos pais.

A essa altura a má fama de Rand crescia, acompanhando as muitas histórias a respeito de um maníaco chamado Cropsey. Pais e adultos usavam a lenda do maníaco para desencorajar as crianças a sair de casa sozinhas. Cartazes foram espalhados pela área de Staten Island alertando a todos para evitar a floresta de Greenbelt. Em um deles se lia: "CROPSEY ESTÁ À SOLTA! EVITE SAIR SOZINHO!"


Em 1987, Jennifer Schwiger de 12 anos que tinha Síndrome de Down, desapareceu. Um casal contou ter visto uma menina vestindo um agasalho vermelho conversando no acostamento com um homem num carro azul escuro. Jennifer usava um agasalho vermelho na ocasião em que sumiu e o casal reconheceu uma foto do carro e de Rand mostrada pela polícia. Uma busca foi conduzida em toda Floresta Greenbelt com ajuda da Guarda Nacional que enviou mais de 300 homens para auxiliar nos trabalhos.

No terceiro dia de busca, um bombeiro aposentado localizou um acesso a um túnel oculto que pertencia ao sistema de drenagem e esgoto da Escola Willowbrook. Investigando esses túneis, os homens encontraram vários acessos cuidadosamente escondidos e uma série de grafites grotescos desenhados nas paredes internas. Os rabiscos mostravam uma figura ameaçadora armada com facas e ganchos perseguindo e matando crianças. O nome Cropsey havia sido rabiscado nas paredes em garranchos junto com ameaças e palavrões. 

"Cropsey vai matar os moleques", "Cropsey vai estripar os pequenos filhos da p...", "Cropsey vai arrancar os olhos e coração".

As buscas se concentraram nesses túneis que compunham um longo sistema de passagens subterrâneas escuras, muitas delas bloqueadas por detritos. No interior de uma dessas passagens, policiais encontraram uma sacola com objetos pessoais que depois foram reconhecidos como pertencentes a Andre Rand. O suspeito a essa altura havia sido dispensado de seu trabalho como zelador e estava vivendo como indigente num camping. Próximo da sacola o grupo de busca localizou o corpo de Jennifer Schwiger; a menina havia sido estuprada e sufocada até a morte com cadarços. 

Uma caçada humana foi realizada em Staten Island em busca de Andre Rand. Ele foi encontrado vagando por uma estrada e levado para a delegacia que imediatamente foi cercada por populares que queriam linchar o Monstro de Staten Island.
    

Durante o longo interrogatório conduzido, Rand foi confrontado com as acusações e com a informação de que ele havia sido processado em 1969 como suspeito do estupro de uma jovem. Rand negou sua culpa durante toda entrevista, mas reconheceu que era o autor dos rabiscos que cobriam as paredes dos túneis. Ele, no entanto, negava ser Cropsey! Depois de algumas horas de interrogatório insistente, ele começou a contar uma história no mínimo bizarra. Afirmava que Cropsey era um ex-interno do Hospital Seaview, um homem que ele conhecia há mais de 15 anos e que vivia escondido nos túneis. E mais, Cropsey havia sofrido um acidente ainda quando era interno do Seaview e seu rosto havia sido horrivelmente queimado. Andre contava que levava comida para o sujeito por sentir pena dele e que suspeitava que o homem era o responsável pelos crimes, mas que não o denunciava por temer que ninguém acreditasse em seu relato.

Buscas foram realizadas no interior dos túneis, várias câmaras ocultas foram descobertas contendo objetos aparentemente retirados das ruínas do Manicômio Seaview e da Escola Willowbrook. Entre os objetos estavam muitas roupas, sapatos, bandejas de alumínio e até camisas de força. Um aposento havia sido revestido com bandejas presas na parede como uma grande sala metálica. Em outro aposento, correntes haviam sido rebitadas nas paredes, lá havia um colchão imundo removido das ruínas e desenhos pornográficos. Não havia, no entanto, sinal de um habitante clandestino como Rand havia relatado. 

As paredes do túnel eram um mosaico de desenhos horripilantes mostrando um personagem recorrente, um homem grande e assustador perseguindo e matando crianças. As cenas eram tão medonhas que alguns detetives chegaram a passar mal apenas em vê-las. Infelizmente nenhum sinal das crianças desaparecidas foi encontrado, como muitos esperavam.

Apesar dos fortes indícios, a promotoria sabia que não tinha um caso forte contra Rand. Eles optaram por processá-lo apenas pelo assassinato de Jennifer Schweiger. Durante o julgamento, o advogado de Rand afirmou que havia uma figura que atendia pelo nome de Cropsey à solta em Staten Island e que ele era de fato o responsável pelos crimes, não o seu cliente. A defesa mandou fazer um cartaz com o retrato falado de Cropsey conforme uma descrição de Rand e esta imagem se tornou famosa em toda nação. Cropsey era descrito como um homem com quase dois metros de altura, pálido, calvo e com o rosto marcado por queimaduras. Ele andava arrastando uma perna e tinha dificuldade ao falar. Cropsey, nas palavras de Rand, odiava as crianças pois quando era jovem havia sofrido nas mãos delas que caçoavam de seu jeito de falar. Ele não sentia remorsos em matá-las, para isso, usava as próprias mãos, as estrangulava e depois enterrava em covas na Floresta Greenbelt próximas das saídas dos túneis.

Rand passou por detectores de mentira com resultados inconclusivos. A perícia do corpo da menina Schweiger não resultou em evidências que apontassem para o suspeito. Ele aceitou também ser hipnotizado e segundo especialistas durante o transe relatou detalhes sobre suas conversas com Cropsey. Alguns sugeriram que o maníaco seria uma personalidade criada por Rand e que o advogado cogitava declarar insanidade. 


Em 1988, o julgamento enfim se encerrou. Rand foi condenado por sequestro em primeiro grau e sentenciado a 25 anos de prisão. O juri foi incapaz de determinar se ele era o responsável pelo assassinato da menina. Na cadeia, Rand se tornou um prisioneiro de comportamento exemplar que jurava inocência e pedia anulação de seu caso por ausência de provas. Seus pedidos foram sistematicamente negados.

Em 2004, a apenas quatro anos dele se torna apto para condicional, Rand foi levado a julgamento uma vez mais, dessa vez pelo assassinato de Holly Ann Hughes, a segunda vítima desaparecida 23 anos antes. A promotoria apresentou novas provas no processo e o juri se convenceu de que Rand era o responsável por sequestrar a menina. Ele foi sentenciado a mais 25 anos de cadeia e poderá pedir condicional em 2037, quando terá 93 anos de idade.

Os casos de Tiahease Jackson, Alice Pereira, e Hank Gafforio permanecem sem solução. Em todos eles, Rand permanece como o principal suspeito, mas não há provas contra ele. Os corpos continuam desaparecidos, eles permanecem como jovens que se tornaram para sempre, vítimas da Lenda de Cropsey.

Ainda hoje, Staten Island é considerada assombrada por uma presença invisível que impõe um véu de paranoia e terror sobre seus habitantes. Essa é a zona de caça de Cropsey e seu nome ainda causa muito medo em todos que vivem na região.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Comercial Maldito - A estranha história de uma propaganda alucinante


Se você estivesse no Japão em 1985 e ligasse a televisão em qualquer horário, poderia ser exposto a um dos mais estranhos comerciais da história. Produzida para a marca de lenços faciais Kleenex, a propaganda, que passou por alguns dias na televisão aberta antes de ser cancelada, permanece incrivelmente bizarra. Assistindo a ela repetidas vezes, os elementos estranhos apenas vão se acentuando, deixando uma sensação difícil de ser definida em palavras. A propaganda é simplesmente muito, muito esquisita.
 
Ela apresenta uma mulher trajando um vestido branco imaculado, tendo ao seu lado o que à princípio parece ser uma criança, mas que se mostra ser um tipo de diabinho de pele vermelha com apenas um chifre na cabeça. O background é igualmente estranho: eles estão em uma tablado coberto de palha com uma caixa de lenços faciais entre os dois. A pequena criatura observa a mulher com uma expressão inescrutável e cruza os braços, a medida que a mulher se inclina e apanha um lenço. Em seguida, ela mostra o lenço para o ser antes de soltá-lo, deixando-o flutuar no ar para longe. Nenhuma palavra é dita durante os 30 segundos de duração, mas as imagens são acompanhadas pela melancólica música "It's a Fine Day" de Edward Barton and Jane. 

Você pode assistir o comercial no seguinte link: AQUI

O comercial não é especialmente longo, mas a primeira coisa que se percebe a respeito dele é uma aura surreal e o fato de ter muito pouco a ver com o produto vendido. Muitas pessoas não se incomodam com as imagens, mas outros o apontam como algo sinistro que os atinge em um grau subconsciente provocando reações que se dividem entre angústia e apreensão, embora não saibam explicar o motivo. Talvez seja por essa razão que esse comercial deu início a uma assustadora lenda urbana no Japão, uma que é cercada de todo tipo de rumores e narrativas. Os comerciais na televisão japonesa são famosos por serem estranhos, mas este em especial causou enorme controvérsia ao longo dos anos. 

O comercial teria outra versão lançada simultaneamente, nele a criatura de pele vermelha arranca lenços de papel e os rasga jogando-os no ar. Essa era tão estranha quanto a original, mas o comercial acabou não sendo aproveitado e a filmagem acabou se perdendo.   

De acordo com as histórias relatadas desde sua primeira apresentação a propaganda causou incômodo nos espectadores. Na primeira noite em que ele foi ao ar, várias pessoas telefonaram para o canal comunicando que não estavam satisfeitas com o comercial e que ele tinha "algo de negativo". A maioria das reclamações não sabiam explicar qual era o problema, mas elas continuaram aparecendo cada vez que o comercial era veiculado. Algumas pessoas especialmente incomodadas se concentravam na música escolhida "It's a Fine Day", afirmando que a música lembrava uma outra estranha melodia , cuja letra em alemão dizia: "Morra, morra, todos devem ser amaldiçoados e assassinados". Algumas pessoas, de fato, diziam que ao assistir a propaganda ouviam claramente essa letra e não a original.

Outro grupo de queixosos dizia que a figura da criança pintada de vermelho causava reações adversas. Alguns afirmavam que tinham arrepios apenas em vê-la, ao ponto de trocar de canal imediatamente nos comerciais para não correr o risco de vê-la. Outras diziam que a exposição ao comercial havia lhes provocado pesadelos, sempre com o monstrinho surgindo para persegui-los. Após uma série de reclamações e cartas, as emissoras entraram em contato com o escritório de marketing que criou a propaganda que achou melhor retirá-la do ar. Na história dos comerciais, essa foi a única vez que uma campanha foi encerrada graças ao público pedindo para ela ser tirada do ar. 


Mas ao contrário do que se imaginava, retirar o comercial do ar não parou a incessante maté de histórias macabras e relatos que gravitava ao seu redor.

As primeiras histórias surgidas envolvendo o comercial dizia respeito ao elenco e equipe que participou das filmagem. Segundo rumores dois membros da equipe morreram em circunstâncias peculiares, um deles em um acidente fatal de motocicleta no qual a vítima foi esmagada por um carro forte e a outra em um trágico acidente numa sauna - na qual a pessoa ficou presa e morreu de exposição prolongada ao calor extremo. Outras três pessoas teriam se acidentado no curso de um ano e mais alguns teriam contraído doenças debilitantes e súbitas.

A criança que participou da propaganda no papel do diabrete também sofreu um súbito problema de saúde agravado por uma falência renal. Ele teria falecido cerca de 6 meses depois da primeira apresnetação do comercial. O Diretor do comercial, chamado Satoro Musaki teria sofrido uma overdose pelo uso de drogas e embora tenha sobrevivido, sustentava sequelas. O que nos leva à atriz principal, uma jovem atriz chamada Keiko Matzukaki de 21 anos que segundo vários boatos, teria sofrido um tipo de colapso nervoso, perdeu seu bebê e posteriormente cometeu suicídio. As informações a respeito foram pouco divulgadas, mas embora não se tenha os detalhes, Harada realmente não fez mais nenhum trabalho e muitos supõem que ela tenha morrido em face de uma maldição presente no comercial. 

Da mesma maneira, segundo a Lenda Urbana, várias pessoas que assistiram o comercial teriam se suicidado, influenciados pelas suas energias negativas.  Em pelo menos um caso, o suicida teria deixado uma mensagem de despedida no qual dizia que estava sendo levado à loucura pela Propaganda do Kleenex e pelo pequeno demônio que nela aparecia. 

Décadas mais tarde, a Propaganda ressurgiu entre os jovens japoneses que a essa altura já conheciam os rumores que cercavam o estranho comercial. Em 2006, o comercial japonês da Kleenex foi apresentado a uma nova geração que o assistia através do You-Tube. 


Tão logo o comercial voltou a aparecer, toda sorte de relato estranho começou a pipocar. 

As histórias mais frequentes envolviam pessoas que afirmavam serem afetadas por ele, sentiam dores de cabeça, incômodo, náuseas e em casos mais graves, tinham pesadelos e alucinações com a criança pintada de vermelho. Uma história particularmente estranha envolvia alguns que pareciam "viciados" em assistir o comercial em um loop contínuo. Rumores davam conta de pessoas que assistiam 100, 200 vezes a propaganda e que não conseguiam parar de ver. Aqueles expostos a tal coisa começavam a perceber detalhes ocultos no comercial, distorções nas imagens, cores misteriosas e mensagens que pareciam dirigidas exclusivamente a elas. As faces dos protagonistas se distorciam e a aparência deles se tornava bizarra. Outros afirmavam que depois de ouvir a música repetidas vezes percebiam estranhos ruídos ocultos na melodia ordenando-os a cometer crimes e atos de violência.     

As lendas sobre o comercial deram vazão a vários rumores intrigantes que levantavam teorias sobre ele ser o resultado de uma experiência da televisão com manipulação do inconsciente coletivo.

Tudo isso parece muito assustador, saído do roteiro de algum filme de terror, contudo, você está certo se interpretar todos esses boatos como sinais de uma simples lenda urbana da internet. Algo inventado para causar medo é dúvida nas pessoas. Muitos dos rumores não se sustentam e uma verificação mais cuidadosa das fontes demonstra que a maioria soa incompleta. Por exemplo, não há nenhuma músicas alemão com a letra ou melodia. Os nomes da maioria das vítimas também parece variar a cada fonte consultada, ou simplesmente não estar disponível. Desse modo, não há como verificar se realmente essas pessoas morreram, sofreram acidentes ou foram afligidos com doenças. Nem mesmo a informação tragica sobre a atriz é a criança parecem inteiramente confiáveis, soando como algo inventado.

Não obstante todos esses argumentos, o estranho comercial japonês da Kleenex continua sendo uma das Lendas Urbanas mais populares do país com inúmeras histórias e grupos de discussão dispostos a mantê-la viva não importa quanto tempo passar.





segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Em busca da Imortalidade - O Imperador que queria viver para sempre


No ano de 221 a.C, o homem chamado Qin Shi Huang conseguiu atingir aquilo que ninguém havia sido capaz até então. Sua poderosa Dinastia, que não por acaso levava seu nome, conquistou vários estados inimigos que lutavam entre si há séculos. Das cinzas e destruição deixadas por essas batalhas, Qin conseguiu unificar a nação sob um mesmo governo e assim surgiu aquilo que hoje conhecemos como China.

Ao invés de assumir o título de "Rei", ele seria o primeiro a se autoproclamar Imperador. Qin foi o primeiro a se valer desse título, que dali em diante, e ao longo dos próximos 2000 anos seria o nome pelo qual governantes da China chamariam a si mesmos. Sob sua tutela, a China viu uma rápida e imensa expansão, enormes reformas econômicas e políticas, um ambicioso projeto de construção de estradas, bem como o surgimento de grandiosas obras arquitetônicas como o Canal de Lingu e a mundialmente famosa Grande Muralha da China.

Qin se tornou sinônimo de conquista, vitória e consolidação. Um dos maiores governantes de todos os tempos, lembrado e honrado pelos seus grandes feitos.

Ainda assim, apesar de todas suas vitórias, havia um inimigo que o próprio Qin sabia, jamais poderia derrotar: a morte. Dizem as lendas que ele observava com crescente aflição o passar dos anos e em seu âmago temia o fato de estar envelhecendo e caminhando para o inevitável fim. O Imperador observava os cabelos ficarem brancos, as marcas de expressão surgirem e o corpo perder o vigor que sempre o caracterizou. 

Ele via tudo isso, e se desesperava... pois de nada importava ser o homem mais poderoso de seu tempo, se mesmo ele, estava fadado a se tornar poeira.


O Imperador então começou a travar a mais difícil de suas guerras. Seu plano contra o mais implacável dos inimigos do homem envolvia três metas: vencer o tempo, evitar a morte e governar a China para sempre como um Imperador Imortal.

A obsessão de Qin pela Imortalidade é bastante conhecida e um fato largamente documentado por seus assessores e conselheiros. A busca pelo segredo da imortalidade consumia os dias e noites do Imperador que demandava daqueles à sua volta resultados rápidos, pois o tempo estava passando e ele não estava ficando mais jovem. Em um determinado momento o Imperador não comia, não dormia e não conseguia mais governar, tamanha sua preocupação com a morte iminente.

Mas nem tudo estava perdido! Qin Shi Huang estava convencido de que a imortalidade poderia ser alcançada mediante uma mistura de diferentes ervas, plantas e estranhos ingredientes raros que deveriam ser obtidos à todo custo. Qin mandou trazer até seu palácio imperial os melhores médicos, herbalistas, estudiosos, magos, sábios e alquimistas da China. Especialistas eram recrutados à peso de ouro. O Imperador prometia riquezas inimagináveis para quem conseguisse obter a concatenação definitiva que garantisse vida eterna.

Aquela não era a primeira vez que um líder chinês buscava o lendário elixir da imortalidade, mas Qin realmente levava essa busca a um outro patamar.

A busca fez com que Qin drenasse os cofres públicos, patrocinando a criação de hospitais, laboratórios e herbários onde os estudos eram conduzidos por equipes cada vez maiores de especialistas nos intrincados segredos da medicina tradicional chinesa. Mas isso não era o suficiente para o Imperador. Ele não queria apenas ser saudável e continuar jovem, ele desejava jamais ficar doente e jamais envelhecer.      

Para encontrar o que estava buscando tão avidamente, o Imperador enviou seus homens para todos os cantos de seu vasto reino, vasculhando as terras selvagens e vilarejos remotos à procura da chave para a imortalidade. Registros oficiais transcritos em casca de bambu relatam que o governante emitiu inclusive um Decreto Oficial aludindo à sua busca. De fato, esse decreto deixava claro que a busca era prioridade máxima e que se alguém tivesse o conhecimento desejado seria regiamente recompensado, ao passo que, se alguém o ocultasse seria tratado com todo o rigor da lei. 

Pessoas em toda China, dos mais influentes e ricos nobres, até o mais simples curandeiro, se envolveram na corrida para achar a fórmula desejada. Expedições foram organizadas e partiram rumo a terras distantes em busca de ingredientes raros. Alquimistas se trancaram em seus laboratórios dispostos a tentar todas as suas fórmulas. Bibliotecas foram inspecionadas em busca de livros que pudessem fornecer alguma pista. Há inúmeros registros em que médicos e alquimistas pedem humildes desculpas ao Imperador por não terem sido capazes de promover uma solução para sua aflição. Até mesmo algumas vilas suplicavam perdão por não terem conseguido cumprir o desejo imperial. 

Haviam alguns que se esforçavam mais. De tempos em tempos alguém sinalizava com uma esperança, na forma de uma erva, planta ou fungo milagroso extremamente raro, que misturado corretamente traria o efeito almejado. Entretanto, a mais promissora das respostas veio de um mago recluso que vivia na distante e isolada Ilha de Zhifu. 

Esse mago atendia pelo nome de Xu Fu, e ele tinha uma incrível história a contar. Segundo ele, existia um cabal secreto composto por oito grandes feiticeiros que vivia distante da civilização em uma lendária ilha perdida chamada Penglai. Eles haviam descoberto o segredo da imortalidade  e compartilhavam apenas entre si tal segredo que lhes permitia viver para sempre. De fato, Xu Fu, dizia que esses magos viviam em Penglai há séculos, liderados por um feiticeiro chamado Anqi Sheng, que tinha mais de mil anos de idade. A melhor parte é que Xu Fu sabia como chegar até o santuário secreto.

Qin Shi Huang ouviu a narrativa com enorme interesse e ficou convencido de que Xu Fu sabia do que estava falando. Ele ordenou então que fossem feitos os preparativos para uma viagem até a Ilha de Zhifu. Para convencer os magos a partilhar de seu saber, o imperador estava disposto a oferecer um harém de 6000 concubinas, seus mais belos garanhões, títulos vitalícios e é claro uma parte de seu incrível tesouro.

Xu Fu disse ao Imperador que os magos só aceitariam falar com ele. Assim sendo, ele se juntou a Expedição rumo à misteriosa ilha para que retornasse com o elixir. O Imperador observou a partida de sua orgulhosa Frota e do Mago Xu Fu e os viu sumir no horizonte distante. Tudo o que ele podia fazer agora, era esperar. E ele esperou, e esperou, e esperou mais ainda...


Anos se passaram!

Contam as lendas que Xu Fu e a Frota Imperial jamais retornaram. As hipóteses dizem que eles teriam se perdido em alto mar, que uma tempestade causou um trágico naufrágio ou ainda, que monstros marinhos teriam sido responsáveis pela sua destruição. Há, no entanto, outras possibilidades. Dizem que ao menos um dos navios, justamente a nau capitânia da frota, aquele que levava Xu Fu atingiu seu destino. Mas uma vez na Ilha, os magos não se interessaram pela proposta e simplesmente mandaram o grupo embora de mãos vazias. A resposta foi tratada como uma grave afronta, afinal eles representavam o Imperador. Furiosos demandaram que fossem atendidos, ao que os magos simplesmente se negaram novamente. Ao fim, os homens do Imperador teriam forçado sua entrada na Ilha, sendo repelidos por magias portentosas e criaturas sobrenaturais que os afugentaram. Vencidos e envergonhados, os homens decidiram que não poderiam retornar para casa após seu fracasso e preferiram partir para terras distantes e jamais retornar.

Outra hipótese especulada é que Xu Fu se encontrou com os Magos e que estes ofereceram a ele uma escolha: levar o segredo para o Imperador ou se juntar ao cabal como o nono membro. Diante disso, ele acabou aceitando a proposta de, ele próprio, viver para sempre. O cabal então teria partido da Ilha em que viviam e se refugiado no atual Japão onde deram início a civilização nipônica. 

Seja lá qual for a verdade, os anos passaram e a expedição não retornou, deixando o poderoso Imperador Qin Shi Huang sem o seu precioso elixir da vida eterna.

Amargurado e cada vez mais atormentado pela perspectiva da sua própria mortalidade, o Imperador se tornou especialmente amargo e cruel. Ele suspeitava que o segredo estava sendo escondido dele por seus inimigos e opositores. Qin mandou incendiar vilarejos e matar milhares de pessoas. É claro, tudo isso atraiu ainda mais descontentamento que se refletiu em uma conspiração para assassiná-lo. Depois disso, sua paranoia atingiu um novo patamar e ele se tornou um recluso, raramente deixando seu palácio, desconfiando de todos à sua volta e usando provadores de comida em cada refeição.

O Imperador chegou a despachar duas outras expedições em busca da Ilha de Penglai, mas como apenas Xu Fu sabia sua localização, eles estavam em busca de uma agulha no palheiro. Nenhuma expedição encontrou o lugar e ninguém teve coragem de retornar trazendo as más notícias ao governante. 


À medida que os anos avançavam Qin Shi Huang passou a aceitar tratamentos alternativos. Que não trouxessem imortalidade, ao menos eles deveriam prolongar sua existência. Um desses remédios era uma mistura conhecida como cinabar, basicamente sulfito de mercúrio, que inalado na forma de gás, teoricamente lhe daria muitos anos de vida. No entanto, ele fazia justamente o contrário. Mercúrio é uma substância extremamente prejudicial à saúde e que não deveria jamais ser ingerida ou aspirada. O Imperador começou a ficar cada vez mais fraco e doente, possivelmente insano com a exposição ao mercúrio.

Na mesma época, um vidente fez uma previsão aterrorizante, disse: "Quando uma estrela cadente riscar o céu e se precipitar sobre o reino, o Primeiro Imperador morrerá e sua terra será dividida pela guerra". Qin ficou tão furioso com essa previsão que mandou decapitar o vidente e todos os que ouviram suas palavras. Contudo, o rumor já havia se espalhado pelo reino e todos observavam preocupados os céus. 

Nesse meio tempo, percebendo que sua passagem nesse mundo estava chegando ao inevitável fim, o Imperador decidiu construir um imenso mausoléu subterrâneo, tão grande que poderia servir como sua residência oficial no além. O projeto era grandioso e drenou ainda mais os cofres reais. A obra levou anos, mas quando foi concluída, o Imperador ficou plenamente satisfeito. Se não podia viver para sempre em um corpo físico, ao menos, ele existiria como um espírito numa morada à sua altura. Para proteger sua magnífica obra, ele encomendou a criação de nada menos do que 8000 guerreiros de terracota cada qual diferente entre si, armados e paramentados, eles formariam sua guarda pessoal. Até hoje, o complexo não foi inteiramente explorado.    

Diz a lenda que um meteoro caiu nas proximidades do Rio Amarelo pouco depois da conclusão do mausoléu, e que o Imperador ficou tão aterrorizado que morreu dias mais tarde. Na realidade, sua morte aconteceu em face dos estranhos tratamentos aos quais ele se sujeitou, sobretudo ao uso contínuo de vapor de mercúrio que gradualmente o envenenou. 

Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador da China, não tinha mais do que 49 anos quando morreu.

No vácuo deixado pela morte do "Imperador Imortal" houve uma sangrenta Guerra Civil e facções disputaram entre si o que havia restado do Império consolidado. A Guerra dividiu o reino e por muito tempo ele voltou a ficar partido. No fim, o Império Chinês assistiu a formação da Dinastia Han que governaria então o país.

É irônico que a busca pela imortalidade tenha sido um dos fatores que mais contribuiu para a morte do Imperador relativamente jovem. Essa narrativa permanece como uma curiosidade histórica que mais parece uma fábula fantasiosa, contudo, a quantidade de documentos comprovam que tudo, de fato, aconteceu. 

A busca pela imortalidade continua até hoje. Afinal, que homem não gostaria de viver para sempre com saúde plena e perpétuo bem estar? Entretanto, ninguém procurou tanto por isso, nem de maneira tão apaixonada, quanto o Primeiro Imperador da China. Podemos nos perguntar se ele, em algum momento dessa ou da outra vida, se arrependeu de sua busca, mas estas são coisas das quais jamais saberemos. 

Essa permanece como uma história imortal de obsessão e loucura e assim ela será lembrada... 

Pela eternidade!