domingo, 6 de dezembro de 2020

CTHULHU - O mais importante dos Grandes Antigos


As informações sobre a entidade conhecida como Grande Cthulhu são fragmentadas e incompletas. É pouco provável que a compreensão plena à respeito de Cthulhu seja um dia alcançada pela humanidade. E talvez, isso seja melhor, pois compreender Cthulhu é de extrema periculosidade. Afinal, como compreender os pormenores de uma criatura que para nossos padrões é um Deus?

Podemos entretanto tentar traçar sua origem e determinar de onde surgiu tão possante entidade.

Alguns estudiosos do Mythos, em especial o matemático Kathulhn, supõem que Cthulhu seja nativo de um mundo chamado Vhorl localizado na trigésima terceira nebulosa. Vhorl seria tão distante e inacessível que sua própria existência é contestada. Para os que defendem sua existência, o mundo é descrito como uma esfera gigantesca que teria gerado muitos dos antigos. 

A informação no entanto é bastante criticada. Muitos acreditam que Vhorl seja na verdade uma outra dimensão que faz fronteira com a nossa realidade. Uma passagem dimensional ligando Vhorl ao nosso universo se abriria a cada ciclo de milhões de anos, marcado por um alinhamento cósmico. Este portal seria centrado no coração da estrela binária de Xoth (pronuncia-se Zof). Através dessa singularidade cósmica, Cthulhu e sua prole de crias espaciais -- as conhecidas Crias Estelares, teriam penetrado em nossa realidade clamando domínio imediato sobre Xoth.

Para outros estudiosos, Cthulhu sempre foi nativo de Xoth, e por essa razão os de sua raça são chamados Xothianos (Zofianos). Ele seria o consorte de Idn-Yaa uma entidade ainda mais obscura com quem acredita-se ele teria gerado outros Grandes Antigos, como Ghatanathoa, Ythogtha e Zoth-Ommog. 


Em algum momento, por razões que não nos compete compreender, Cthulhu e seu imenso séquito teria abandonado Xoth e viajado para Saturno em uma espécie de migração concluída na Terra.

"Por qual razão a Terra?" muitos perguntam. Por que o insignificante terceiro planeta de um ordinário Sistema Solar, na vastidão cósmica, teria sido escolhido por esse titã? Não há uma explicação razoável. Alguns ponderam que a Terra na aurora dos tempos teria condições semelhantes a Vhorl, mas essas suposições são tão boas quanto qualquer outra hipótese aventada.

Ao chegar em nosso planeta no Período Permiano, Cthulhu se estabeleceu em uma vasta ilha (ou continente) localizado no Oceano Pacífico. Seus servos construíram uma gigantesca cidade de pedra verde chamada R´Lyeh que se converteu na sede e trono do seu Império. A Terra, no entanto já vinha recebendo a atenção de outros conquistadores espaciais. A Raça Ancestral (Elder Things) havia estabelecido bases no planeta  há alguns milhares de anos e dominava grande parte da esfera.

Duas forças tão poderosas não poderiam coabitar um planeta tão pequeno sem resultar em um inevitável atrito. Uma guerra sem precedentes pela primazia global eclodiu entre as duas facções. A ciência incrivelmente avançada da Raça Ancestral, detentora de uma primazia sobre a genética, foi empregada contra o poder maciço das Crias de Cthulhu. Ao longo de milênios a disputa se manteve equilibrada com perdas pesadas em ambos os lados.

Quando a disputa começou a pender para as forças de Cthulhu, sobreveio um evento inesperado. Um novo alinhamento cósmico de estrelas em algum momento há 550 milhões de anos, forçou os Grandes Antigos a hibernar. Com efeito, a gigantesca cidade continente submergiu nas profundezas do Pacífico Sul causando tsunamis que remodelaram as massas continentais. As Crias de Cthulhu e o próprio Senhor de R´Lyeh buscaram refúgio nesse último baluarte, convertido a partir de então em um gigantesco mausoléu. Nasceu assim, a célebre cidade cemitério de R'Lyeh nas profundezas lodosas.


Nessas ruínas, Cthulhu aguarda pacientemente o dia em que uma nova conjunção irá se formar permitindo que ele e suas crias retornem triunfantes. O tempo, pouco importa. A passagem de Eras nada mais é do que um piscar de olhos para aquele cuja existência é ilimitada.

Na atual conjuntura, nenhuma força existente no planeta pode fazer frente ao colossal poder de Cthulhu. Seu despertar, quando ocorrer (e é uma questão de tempo) terá repercussões catastróficas para a humanidade e o mais provável é que nada sobreviva ao evento.

O que é Cthulhu?

A melhor maneira de compreender Cthulhu é buscar a resposta em tomos proibidos que compilam extenso saber sobre o Mythos. Seus autores tentaram determinar qual o papel de Cthulhu no Universo e seu significado.

Em certos tratados esotéricos Cthulhu é creditado como o Sumo Sacerdote de R´Lyeh, mas não há consenso a respeito de qual seria a entidade que ele venera, se é que isso é cabível. Certos textos dizem que Cthulhu serve aos intentos de Yog-Sothoth, o que seria razoável se consideramos verdadeira sua suposta migração transdimensional. A ausência de símbolos devotados a Yog-Sothoth nas ruínas de R'Lyeh faz com que essa teoria seja polêmica. Da mesma forma, os Abissais (Deep Ones) que veneram Cthulhu, evitam qualquer menção a Yog-Sothoth nos seus ritos religiosos o que não faria sentido se Cthulhu fosse seu sacerdote.

O nome de Cthulhu é mencionado muito mais frequentemente do que o de qualquer outro Grande Antigo. Seu culto é e sempre foi o mais difundido e atuante no planeta. Não há como traduzir em números, mas e plausível supor que cultos devotados a Cthulhu sempre estiveram presentes na história humana, desde a Atlântida, passando pela primitiva Idade da Pedra, pelas civilizações da Babilônia e Egito, por Roma, até a Idade das Trevas e nos dias atuais. Cthulhu -- ou alguma manifestação dele por outro nome, é citado na filosofia chinesa, nos vhedas hindus, em trechos dos Manuscritos do Mar Morto, no Talmud e alegoricamente na Bíblia e no Alcorão.

Algumas passagens no Texto de R´Lyeh, sugerem que Cthulhu será o primeiro dos Grandes Antigos a despertar e que caberá a ele a tarefa de acordar os demais. Os Tabletes de Zanthu afirmam algo semelhante ao chamá-lo de Arauto do Despertar, "aquele que irá anteceder todos os outros, e que por suas mãos despertará os que dormem desde a aurora dos tempos". 


Isso sugere que Cthulhu goza de certa importância diante dos demais Antigos, embora nem todas as divindades possam ser compreendidas como seus aliados. Na verdade, existe algum tipo de inimizade entre Cthulhu e seu "meio-irmão" Hastur, o Impronunciável. Novamente, as raízes desse conflito são desconhecidas, embora os cultistas de Cthulhu e Hastur se enfrentem até os dias atuais honrando essa antiga rusga.

Ao longo das eras, alguns escritos apócrifos tentam lidar com o enigma de Cthulhu. Em alguns textos, Cthulhu é apontado como um Elemental da Água, mas essa teoria é no mínimo controversa uma vez que o oceano parece bloquear seus sinais telepáticos para a humanidade. Como um ser que representa um elemento poderia ser contido por este próprio elemento?

O Manuscrito de Sussex, afirma que Cthulhu seria uma manifestação extremamente poderosa de Nyarlathotep, embora nenhum outro tratado o veja dessa forma. Outra interpretação controversa defende que Cthulhu é mais do que um Grande Antigo, na verdade ele seria um Deus Exterior que representa o poder integral da Gravidade e a Coesão gravitacional que permite o funcionamento das engrenagens cósmicas. Mas se isso é verdade, como Cthulhu poderia ser contido pelo próprio balé cósmico das estrelas? A maioria dos acadêmicos do Mythos refutam essas duas teorias, mas como saber ao certo?

Quando se trata de Cthulhu, nada é conclusivo ou absoluto.

Sua própria existência física é colocada em xeque por estudiosos que o interpretam apenas na esfera conceitual. Cthulhu para esses teóricos é uma entidade interdimensional que reverbera na mente humana desde o início dos tempos. Por isso, dizem eles, os sonhos são a base de sua comunicação. O famoso Despertar de Cthulhu seria uma metáfora à descoberta da humanidade dessa herança ancestral ainda ativa no inconsciente coletivo humano. Por mais insana que fossem essas noções, elas encontraram defensores, sobretudo nos anos 1960-70 quando drogas eram usadas para ampliar os sentidos na esperança de acessar a mente de Cthulhu e forçar um despertar.


A Forma de Cthulhu

A representação clássica de Cthulhu condiz com aquela presente nas bizarras estatuetas usadas pelos seus cultistas como objeto doentio de adoração. A maioria dessas estatuetas foram construídas por indivíduos que receberam as emanações telepáticas de Cthulhu e que talharam pedra ou moldaram argila na forma daquilo que viam nos seus devaneios oníricos.

Muitos comentam que as estatuetas de Cthulhu produzem uma violenta reação emocional nos que as vêem pela primeira vez. É possível que o subconsciente humano, de alguma forma, esteja condicionado a reconhecer Cthulhu como uma suprema ameaça. Em resumo, algo na figura grotesca de Cthulhu traz à tona uma sensação de medo primitivo irracional implantada na mente do homem desde o início dos tempos.

[Nota: Essa é uma das melhores explicações sobre porque o Mythos causa insanidade na mente humana. É a explicação a qual eu costumo recorrer quando algum jogador afirma que nem todas as criaturas do Mythos ou seu conhecimento deveria ter um custo em sanidade. A loucura nesse caso não é causada pela informação em si, mas pela maneira que a mente humana registra essa informação e a interpreta por um viés de horror primitivo. Mas voltando ao texto...]

As estatuetas por mais tenebrosas que sejam, não são capazes de fazer frente ao verdadeiro horror que é contemplar o Grande Cthulhu. Nenhum artista humano, por mais inspirado ou degenerado, seria capaz de dar forma ao terror supremo. O Grande Cthulhu é a própria essência dos mais negros pesadelos.

Medindo mais de 40 metros de altura, ele é uma montanha antropomorfizada. Sua cabeça se assemelha a de um imenso polvo ou lula, dotada de milhares de longos tentáculos que se agitam sem parar e escorrem pela face como uma barba viva. Esses tentáculos são delicados, mas capazes de agarrar e apertar com enorme poder de constrição. Um tentáculo pode dobrar um vergalhão de ferro ou esmagar cada osso no corpo de uma vítima. 


A multidão de tentáculos ululantes oculta uma boca dotada de fileiras e mais fileiras de dentes afiados que rasgam e dilaceram qualquer coisa lançada na garganta cavernosa. Uma substância escorregadia semelhante a saliva goteja do orifício em longos fios de nauseante muco. A boca é dotada de uma língua que raramente é vista, e embora a criatura provavelmente seja capaz de articular palavras, telepatia é sua primeira opção para estabelecer comunicação.

Mesmo que no decorrer de sua longa hibernação Cthulhu não precisasse de alimento, quando desperto ele carece de nutrição. Inúmeras referências a fome de Cthulhu atestam que ele deve ser um carnívoro com predileção pela carne de criaturas conscientes. Seus cultistas oferecem a ele sacrifícios, como forma de saciar a sua fome. 

Os olhos de Cthulhu irradiam um brilho esverdeado com a mais pura maldade e resplandecem com inteligência e propósito inumano. Toda a enorme cabeça esponjosa se assemelha a uma medonha massa fungóide, recoberta por uma película de óleo brilhante. Ela é bulbosa e flácida com carne rugosa que remete a borracha vulcanizada. Não há fossas nasais ou auriculares, ainda que Cthulhu provavelmente possua olfato e audição.

O corpo de Cthulhu é titânico e colossal, representado na iconografia como algo geralmente humanoide. Ele se curva horrivelmente ante o peso da cabeça desproporcional, acocorado sobre as pernas curtas em uma posição quase obscena. Seus braços muito longos e delgados terminam em dedos dotados de garras recurvas semelhantes a imensas cimitarras, afiadíssimas. Os membros inferiores possuem garras semelhantes. Embora flácidas, elas são capazes de rasgar chapas de aço e de cortar um humano em pedaços sangrentos.

Para sustentar a imensa massa corporal, Cthulhu é dotado de um par de asas que muitos comparam a asas de morcego. Na verdade, essas estruturas aladas são formadas por uma membrana cartilaginosa similar às nadadeiras de peixes. Ao mover-se, o Grande Cthulhu usa as asas para manter seu equilíbrio batendo-as repetidas vezes. As asas embora sejam pequenas em comparação ao corpanzil são possantes o bastante para permitir alçar voo e impulsioná-lo pelo ar. Elas são mais eficientes no espaço  exterior, concedendo a ele, na ausência de gravidade, maior capacidade de manobra.


Há fortes indícios de que a carne, ossos e a musculatura geral que compõe o corpo de Cthulhu não seja inteiramente material. Cthulhu seria portanto capaz de controlar a própria densidade corporal, tornando-se mais ou menos denso conforme sua vontade. Por essa razão ele conseguiria passar a ilusão de andar sobre a água ou manter parte de seu corpo na superfície como se estivesse de pé. 

É possível entretanto, que o controle pleno dessa faculdade só se manifeste quando ele estiver definitivamente liberto dos efeitos das estrelas. Isso explicaria ainda porque o corpo de Cthulhu é desfeito por um choque direto, ao ser abalroado pelo navio Alert. O choque fez seu corpo se desfazer ee o obrigou a retornar a R'Lyeh. Mesmo com essa restrição, Cthulhu foi capaz de se reintegrar por completo, voltando a assumir sua forma original. 

Muitos se perguntam esperançosos se Cthulhu poderia ser destruído por alguma arma ou engenho humano na iminência de seu despertar. Contudo, mesmo a arma mais poderosa que conhecemos, um artefato nuclear, meramente conseguiria desfazer sua forma por algum tempo. Eventualmente ele iria rearranjar sua estrutura até se reintegrar por inteiro. E então, seria radioativo.

Cthulhu é uma entidade de poder quase infinito e que parece fadado a um dia devastar com a civilização no processo de retomar o domínio sobre o planeta. Nesse dia, o de seu despertar, a humanidade será varrida da superfície e nada restará em seu rastro de destruição.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

O Chifre do Unicórnio - As lendas sobre um inestimável tesouro medieval



Na Idade Média e no Renascimento, as pessoas na Europa não tinham dúvida de que os Unicórnios eram reais.

Afinal de contas, não havia porque duvidar da existência de um animal que era tão popularmente retratado em histórias, narrativas e nas artes em geral. Não que alguém tenha visto um desses curiosos "cavalos com chifre", mas até aí, a maioria dos europeus do período jamais havia visto um camelo ou um leão, mas quando histórias a respeito deles foram compartilhadas, ninguém duvidava de sua existência. A natureza era um mistério e ninguém podia realmente duvidar de maravilhas ocultas nos recantos mais distantes do mundo.

No caso do Unicórnio, havia ainda outro sinal que apontava para sua existência factual. 

Os chifres desse animal estavam presentes entre os tesouros mais estimados de reis e nobres da mais alta estirpe. Até mesmo sacerdotes tinham seus chifres de unicórnio guardados cuidadosamente. Carlos I da França se orgulhava de ter um na sua sala do tesouro, ofertado por um viajante que explorou o norte da África e trouxe a peça que se tornou lendária entre os convivas do governante. Lorenzo de Medici também mostrava uma magnífica peça aos visitantes de sua propriedade na Itália. Os Reis da Dinamarca ostentavam não apenas um, mas dois chifres de Unicórnio em sua sala do trono em Copenhague. A Rainha Elizabeth I foi presenteada com um chifre de unicórnio em perfeito estado que ela mandou moldar na forma de um cetro cravejado de jóias que custou 10 mil libras - o valor de um castelo nos dias de hoje. De fato, os chifres de unicórnio eram algo tão valioso e desejado entre os nobres da Idade Média que o dramaturgo britânico John Dekker escreveu que eles poderiam valer o mesmo que uma cidade. 


Os nobres que possuíam um legítimo Chifre de Unicórnio eram vistos como pessoas poderosas e que detinham algo lendário, inestimável e extremamente desejado. Eram tão almejados pelas Casas Dinásticas da Europa que pelo menos uma guerra foi motivada por um desses objetos, um confronto entre França e um Reino da Baviera começou pelo desejo de um nobre querer o chifre em poder de outro. No fim das contas, os chifres eram um símbolo inequívoco de riqueza e o símbolo de um poder superior.

Mas havia algo mais do que mero símbolo de extrema riqueza, beleza e raridade. Os povos antigos acreditavam que o Chifre de um Unicórnio guardava propriedades mágicas e que constituía uma poderosa defesa contra doenças e sobretudo, venenos.

Para um animal que jamais existiu, os Unicórnios faziam parte do dia a dia das pessoas. Os mitos mais antigos da China e da Índia mencionam animais semelhantes ao unicórnio, bem como viajantes gregos que visitaram terras distantes. Um dos mais antigos exploradores gregos, o historiador Ctesias, que viajou para a Ásia em 400 a.C, descrevia um grande e ágil animal com o corpo branco de um alazão e um chifre dourado se projetando de sua testa. Cerca de 100 anos mais tarde, estudiosos traduzindo o Velho Testamento interpretaram um animal dotado de chifres conhecido pelo nome hebreu de re'em como unicórnio. No século primeiro d.C, Plínio, o velho descreveu o unicórnio como "um bravo animal, impossível de ser capturado vivo". Indo mais além em sua descrição do magnífico animal ele dizia: "Tem o corpo de um cavalo e a cabeça de um gamo, os pés de um elefante e a cauda de um javali, além de um único chifre adornando o centro de sua testa".  

Apesar das diferentes descrições, todos os cronistas dom período enfatizavam que o Unicórnio possuía capacidades curativas e purificadoras. 


Ctesias escreveu:

"Aqueles que bebem desses chifres, transformados em taças, ficam livres de convulsões e da doença dos Reis (epilepsia). Eles também ficam imunizados contra a ação vilipendiosa de venenos se, antes ou depois da ingestão dos mesmos, beberem vinho, água ou qualquer líquido nessas taças".

Relatos semelhantes surgiram ao longo das eras. Por volta do século III da Era Cristã, o médico e intelectual grego Philostratus escreveu que no oriente distante os povos faziam taças de chifres de unicórnio para dele beber. Estes tinham a virtude de promover uma vida saudável e longa, afastando as doenças do corpo e das mente contanto que seu uso fosse contínuo. A virtude de tais taças feitas de chifre de unicórnio eram tão difundidas que chegavam a creditar a ele faculdades cicatrizantes, sendo eles alegadamente capazes de sarar queimaduras, ajudar na remoção de flechas, aliviar os efeitos danosos de órgãos supurados e para combater moléstias físicas. Até mesmo a Lepra, a doença mais temida da antiguidade, seria revertida pelo uso do cálice mágico de chifre de unicórnio. 

Não demorou para que outras propriedades especiais dos unicórnios fossem descobertas. Por volta do século XII, uma freira alemã chamada Hilderbrand de Bingen, conhecida pelas suas visões santificadas, recomendou uma pasta de fígado de unicórnio e gema de ovo como a cura definitiva para a lepra. A religiosa no entanto fazia uma ressalva de que o remédio seria ineficiente se o doente fosse alguém amaldiçoado por Deus com a temida moléstia. Os pelos extraídos da crina de um unicórnio, por sua vez seriam uma cura para ferimentos produzidos por lâminas. Se aplicados sobre a ferida produzida por uma faca ou espada, as propriedades curativas agiriam rapidamente fechando a ferida e permitindo a sobrevivência da pessoa acometida, "mesmo que desenganada". O couro de um unicórnio era recomendado para a confecção de cinturões e de botas, uma vez que seu uso servia como forma de prevenção de outro dos grandes flagelos da Idade Média: A Praga.  

A crença nos poderes mágicos do unicórnio, no entanto, focavam em seu chifre.


A substância da qual o chifre era feito, por vezes chamada de alicórnio, estava associada a pureza bem como a cura, ganhando em algumas versões tons sagrados. O Unicórnio estaria associado a Jesus Cristo, enquanto o chifre era análogo à santa cruz. Para atrair a besta mágica, os caçadores empregavam uma mulher virgem, em especial dotada de uma beleza especial, com pele, cabelos e olhos claros, símbolos do padrão de beleza medieval. Quanto mais imaculada a jovem, maior a chance de atrair a criatura, visto que estas se sentiam compelidas por tudo que fosse tão puro quanto eles mesmos. 

Uma jovem virginal também era a única que podia tocar no chifre sem o risco de conspurcar suas propriedades curativas. Embora o golpe final tivesse de ser dado pelo caçador, era a jovem quem precisava extrair o chifre usando para isso uma lâmina com fio de prata. Se ela chorasse durante a tarefa, tanto melhor, pois suas lágrimas de culpa por se prestar ao abate de tão nobre besta, preservavam sua aura mágica.

É claro, caçadores podiam alegar ter obtido o chifre de unicórnio em lendárias buscas, mas obviamente estas não passavam de invenção. Mas então, como explicar a aparição de chifres entre os nobres europeus?

Os chifres encontrados entre os tesouros mais valiosos da Europa, e creditados a unicórnios, vinham de rinocerontes, fósseis de mamutes, e mais frequentemente de narvais, caçados por Vikings no Mar do Norte. Os povos nórdicos caçavam o Narval (um cetáceo de águas geladas) em busca do valioso dente em forma de chifre espiralado. Essas peças eram então trabalhadas e vendidas a mercadores com os quais eles tinham contato.


Uma vez obtido, o alicórnio podia ser comercializado de várias maneiras. Triturado, ele era vendido na forma de poeira e consumido como remédio contra a praga, a gota e várias outras doenças. As raspas do chifre podiam ser usadas para aliviar dores de dente, para prevenir doenças de pele e para combater o escorbuto segundo alguns alquimistas. Uma infusão da poeira de alicórnio, bebida com leite era um remédio confiável contra o reumatismo e doenças pulmonares. O influente médico alemão Johann Schroeder recomendava a poeira para remediar a epilepsia. E é claro, a poeira também tinha propriedades incríveis contra a impotência e ajudava a gerar filhos homens.

Embora alguns médicos do período falassem com ceticismo a respeito das propriedades mágicas, muitos apotecários usavam chifres de unicórnio como ingrediente principal em suas poções. O termo francês Eau de licorn se referia a água purificada pela passagem do líquido através de um chifre, como nossos purificadores atuais. Beber dessa água filtrada pelo chifre era garantia de vida longa e saúde.

Embora o preço exorbitante de chifres intactos fizessem deles artigos destinados aos ricos e ilustres, logo começaram a surgir chifres com preços mais acessíveis para o plebeu em geral. Isso acontecia porque não faltavam aproveitadores na Idade Média e as pessoas acreditavam naquilo que lhes diziam. Substâncias como casco de cavalo, fósseis e outros tipos de chifre, eram usados como substitutivos. No fim das contas, foi justamente o problema das fraudes que levou a ruína do rentável negócio dos chifres de unicórnio e do seu derivado direto, o alicórnio. As pessoas passaram a se sentir enganadas quando um tratamento não funcionava, evidenciando que o chifre vendido não era realmente de unicórnio, mas uma fraude.

Ainda assim, Chifres de Unicórnio continuaram a ser populares, sobretudo entre os mais ricos que podiam se dar ao luxo de colecionar tais objetos, já que estes lhes garantiam fama.

A outra razão para esse desejo dizia respeito ao temor de venenos. Na Idade Média, venenos eram a arma predileta de assassinos contratados por casas rivais para remover seus inimigos de forma discreta. Os europeus sempre confiaram na criação de detectores de venenos que pudessem afastar o risco que essas substâncias nocivas representavam. Utilizavam rubis, bezoares, gemas, garras de grifo e outros itens para isso, contudo o mais confiável para negar os efeitos de venefícios seria o Chifre de Unicórnio.


Alegados Chifres de Unicórnio eram dispostos sobre a mesa de jantar como detectores de veneno, enquanto fragmentos destes, chamados de touchés, pelos franceses, eram usados para limpar pratos e taças nas quais a comida e bebida seriam consumidas. Um touché podia ser usado em torno do pescoço como um amuleto. A ideia é que, se alguém sentisse algo diferente no sabor da comida, colocaria o amuleto na boca para neutralizar os efeitos danosos A realeza da França se orgulhava de ter utensílios feitos de alicórnio que eram usados sobretudo em tempos de guerra ou inimizade. 

Esperava-se que o chifre pudesse alertar a presença de veneno mudando de cor, criando bolhas em sua superfície ou ainda se tornando repentinamente quente. Alicórnio também estava presente em broches, camafeus, guardanapos e talheres. Taças feitas de Chifre de Unicórnio eram de uso privativo de Reis e rainhas e pessoas que tocassem tais utensílios podiam ser executadas. Na Inglaterra acreditava-se que uma substância venenosa servida numa taça de alicórnio fervia ou ainda sublimava rapidamente.

Embora alguns pesquisadores da medicina medieval, como o cirurgião francês Ambroise Paré, fossem céticos a respeito desses poderes, muitos defendiam seus méritos. O estudioso italiano Andrea Bacci escreveu uma dissertação em defesa dos chifres de unicórnio em 1573. Nela relatava a história de um homem que foi envenenado, mas que sobreviveu consumindo vinho destilado através de um chifre. Ele também descreveu um experimento no qual dois pombos foram alimentados com arsênico. Um deles recebeu uma dose de água filtrada por um chifre e sobreviveu, o outro não.  

No século XVII, o mito dos Chifres de Unicórnio começou a perder espaço em face dos avanços da medicina. Os médicos testavam as alegadas propriedades curativas do alicórnio e não encontravam nada a seu favor. Além disso, europeus que exploravam o ártico pela primeira vez se depararam com espécimes de Narvais, cujos chifres eram muito semelhantes aos alegados Chifres de Unicórnio encontrados nos tesouros reais. Finalmente, expedições que buscavam provar a existência de lendas a respeito de unicórnios, falharam em localizar tais seres. 


Em 1661, a recém formada Royal Society determinou que Unicórnios não passavam de uma lenda e que jamais havia existido tal animal na natureza. Os homens sepultavam de uma vez por todas séculos de crenças em propriedades ditas mágicas.

A perda do valor resultou em um progressivo desaparecimento e destruição de itens até então extremamente valioso. Itens que um dia representavam riqueza e status se tornaram da noite para o dia símbolos de ignorância e vergonha. Alguns deles foram relegados a museus e coleções particulares, outros foram simplesmente desmontados ou refeitos, como é o caso do cetro cravejado que pertenceu a Elizabeth I cujas jóias foram removidas e vendidas separadamente.

A crença no poder milagroso de Chifres de Unicórnio e outras de substâncias faz parte de nossos temores com a morte e com as doenças que limitam nossa existência. Se há uma verdade universal é que nós procuramos de todas as formas, desesperadamente, por qualquer coisa que nos permita viver mais e melhor.

Seja ela qual for...

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O Povo Pálido - A lenda dos Orang Bunian seres da floresta e bosques


Florestas sempre despertaram um certo encantamento sobre as pessoas, desde o início dos tempos. E florestas, bosques e lugares arborizados sempre tiveram um importante papel em incontáveis mitos, lendas e fábulas em todos os cantos do mundo. Elas são palco para muitos mistérios e segredos. Estes são lugares imersos em magia, no qual os mitos costumam vir à superfície, por vezes acompanhados de monstros. Em países cobertos por densas florestas como é o caso das nações asiáticas da Malásia, Tailândia e Indonésia, estes bolsões verdejantes são o lar de um raça de entidades estranhas que podem não estar confinadas apenas ao Reino das Fábulas. Pelo contrário, elas podem ser muito reais.

Nas profundezas das selvas da Península Malaia e na Ilha de Borneo, encontramos uma antiga lenda sobre um clã de seres sobrenaturais que atendem por diferentes nomes, sendo mais conhecidos como "O Povo Oculto", "O Povo da Luz" e "O Povo Sussurrante". Os malaios costumam usar também o termo Orang Bunian como forma de se dirigir a eles, o que envolve a palavra bunyi, que significa "som". O nome deriva de sua mais impressionante peculiaridade, o fato deles geralmente serem ouvidos, mas raramente vistos. Sua presença também pode ser sentida, como a sensação de estar sendo observado. Ela também pode ser ouvida através de sons de silvos, assovios ou murmúrios que ecoam pela mata fechada. 

No folclore de Brunei eles são descritos como as "Crianças da Floresta", seres pequenos e com disposição para brincadeiras e um senso de humor um tanto perverso. Na Indonésia, são tratados como "O Povo Pálido" e descritos pelos poucos que tiveram a chance de encontrá-los como uma raça de baixa estatura, magros, graciosos e com a pele muito branca. Vestidos com trajes tradicionalmente esvoaçantes feitos de seda, eles se movem pela vegetação como sombras, sem deixar rastro ou fazer barulho. Parecem verdadeiros fantasmas com suas roupas compridas e imaculadas. Para muitos eles são a contraparte oriental dos elfos, presentes nas tradições europeia.    

Segundo as lendas, os Orang Bunian possuiriam uma miríade de poderes sobrenaturais, tais como teleporte, capacidade de voar, ler a mente e comandar animais. Eles também poderiam ficar invisíveis para todas as pessoas, exceto aquelas que por algum motivo são dotadas de uma sensibilidade para o paranormal. Seu habitat é o interior de árvores no coração das selvas não mapeadas ou no topo de montanhas, dormindo sob plataformas feitas de madeira e acessadas através de cordas e rampas habilmente construídas. Sua sociedade teria uma hierarquia bem definida com Reis e Rainhas, Príncipes e Princesas, mas é claro camponeses e servos. Conforme a tradição, eles vem de um outro mundo ou dimensão, da qual podem emergir mediante determinadas condições, sendo a mais comum a Lua cheia.  


Na maioria das vezes, essa raça se mantém indiferente diante dos humanos, mas eles podem se mostrar bastante hostis se o seu território for invadido com intenções de agressão. Seu desgosto para com lenhadores e exploradores é notório, e eles lançam campanhas violentas contra a presença de tais pessoas bulindo nos seus domínios. Donos de uma lendária ira, eles atacam arremessando dardos venenosos e setas disparadas por pequenos arcos recurvos. Mestres em emboscadas, eles podem atacar e sumir rapidamente na mata.  

No caso de alguma rivalidade, rituais e oferendas são a única maneira de acalmá-los e restabelecer a paz. Em tempos remotos, aldeias próximas de grandes florestas ou bosques costumavam fazer todo ano uma oferta de comida para os Orang Bunian, como forma de estabelecer uma política de boa vizinhança. Isso lhes garantia também o direito de entrar na floresta e extrair uma pequena quantidade de lenha ou caçar alguns animais. Mas qualquer coisa além do tolerado podia trazer graves repercussões. 

Ainda assim, pessoas entrando na floresta podiam simplesmente desaparecer e nesses casos, as criaturas que lá viviam eram apontadas como as responsáveis. Os Orang Bunian tinham uma inclinação para o ressentimento e podiam ser extremamente vingativos se desgostassem de algo que essas pessoas fizessem em seus domínios. Transgressões comuns envolviam a predação de animais, a derrubada injustificada de árvores ou mesmo cantar ou falar alto no interior das florestas. Em uma fábula muito difundida, um lenhador é punido por tentar imitar o canto de um pássaro de forma desafinada e desagradável.


Mas nem sempre os Orang Bunian agem de forma arbitrária. Por vezes, eles ajudam pessoas perdidas na floresta a encontrar o caminho de volta para suas casas, oferecem comida e bebida a quem precisa ou mesmo concedem presentes na forma de objetos mágicos ou tesouros. Há casos em que eles se apaixonam por humanos e estabelecem romances que resultam em bebês nascidos com capacidades mágicas. Em Brunei, albinos eram tidos como pessoas com o sangue dos Orang Bunian correndo em suas veias. Embora raro, eles podiam conceder a alguns escolhidos um vislumbre de sua terra natal, um lugar cheio de riquezas e belezas naturais. Outros podiam até ser recebidos nesse mundo e aceitos para viver entre eles, para sempre.

Tudo isso soa como mero folclore e lenda, mas para os povos nativos dessas regiões, as criaturas eram reais e sua existência fazia parte do cotidiano. Além disso, narrativas sobre o avistamento de Orang Bunian eram extremamente comuns. Cm o tempo, eles foram se tornando meras lendas e parte do folclore, mas ainda hoje muitas pessoas acreditam na existência destes seres mágicos.

Pesquisas realizadas na Indonésia atestam que boa parte da população, algo em torno de 50%, ainda acreditam que estes seres realmente existem. Nas zonas rurais ou margeando florestas, o número cresce para 70%. Muitos vilarejos mantém vivo o costume de oferecer presentes em determinadas épocas do ano ou de evitar visitar as florestas em dias de lua cheia. Da mesma forma, grandes indústrias madeireiras ou que promovem desmatamento, são frequentemente tratadas com desdém, consideradas inimigas do povo das matas. 


Não faltam lendas e histórias sobre a interação com os Orang Bunian. 

Uma pessoa relatou para um jornal da Indonésia um incidente envolvendo seu avô e criaturas na floresta, ocorrido em meados dos anos 1970. O homem que atendia pelo nome de Muamar, era um fazendeiro que havia adquirido uma propriedade próxima de uma densa floresta às margens do Lago Toba, na Ilha de Sumatra. Tudo começou quando Muamar ouviu repetidas vezes um estranho som de sussurro vindo de algum lugar na floresta.           

Ele havia percebido que esses ruídos eram mais fortes nas quartas feiras, sempre que anoitecia e que continuavam do anoitecer até o início da madrugada. Prestando atenção, Muamar conseguia discernir pelo menos uma dúzia de vozes diferentes que se erguiam e pareciam acompanhar um canto. Embora não visse ninguém, ele concluiu que aquilo parecia uma espécie de celebração, com mantras sendo repetidos e respondidos por um tipo de congregação. Quando mencionou o fato com vizinhos, todos deram de ombros e disseram que aquilo sempre acontecia. Era algo muito comum naquela floresta, ouvido há séculos. 

A medida que o tempo passava, sua curiosidade se aprofundava. Ele sabia que não existiam casas ou fazendas dentro da floresta e que o lugar era bastante isolado, sem mapas precisos que garantissem uma exploração segura. Entretanto, toda quarta-feira, aquele mesmo som tirava seu sono e fazia com que ele prestasse atenção, chegando ao ponto de ser capaz de repetir alguns trechos.

Finalmente, Muamar decidiu que precisava investigar o ruído e descobrir sua fonte. Ele procurou algumas pessoas que pudessem acompanhá-lo, mas todos apenas sorriram e diziam que se tratava dos Orang Bunyan rezando para seus espíritos, uma vez que na floresta havia uma porta para seu mundo. Ninguém manifestou interesse de ir até eles, pois esses seres podiam se ressentir da presença de forasteiros em seus domínios. Muamar achava tudo aquilo uma bobagem, mas a maneira como as pessoas acerditavam nas lendas fez com que ele apenas se tornasse mais curioso a respeito.


Entre os funcionários da fazenda, havia um sujeito chamado Jamal que muitos apontaram como alguém que sabia muito a respeito dos Orang Bunyan. Jamal era neto de uma feiticeira que havia tido contato com a raça pálida e que conhecia muitos dos seus segredos. Ele cotou que esses seres viviam nas florestas e nunca saiam de seus limites, que podiam ser amigáveis da mesma maneira que agressivos e que tinham seu próprio reino. Os humanos raramente os viam, pois eram capazes de ficar invisíveis. Havia formas de atraí-los e fazer com que eles se tornassem visíveis. Se uma pessoa oferecesse a eles uma ceia satisfatória, eles viriam e como agradecimento poderiam deixar algum presente.

Muamar planejou então fazer algo nesse sentido. Mandou preparar uma ceia completa com pratos típicos locais e os deixou em uma clareira numa quarta feira, conforme instruído por Jamal. Ele e o assistente se posicionaram num lugar especial de onde poderiam vigiar a clareira e esperar que os seres da floresta viessem buscar o alimento. Em dado momento, eles ouviram um ruído e perceberam que silhuetas humanas vestindo mantos esvoaçantes se aproximaram da comida e começaram a examinar o que havia sido deixado. Muamar ficou tão impressionado pela visão que saiu de seu esconderijo para saudar as criaturas embora Jamal dissesse que ele não deveria fazê-lo. Os Orang Bunian assustados fugiram para a mata. O fazendeiro decidiu segui-las gritando para que elas não fossem corressem e garantindo que não queria lhes fazer nenhum mal. Na escuridão, não demorou até que ele se perdesse na floresta, incapaz de encontrar o caminho de volta ou de manter a perseguição.

O fazendeiro vagou por algum tempo, quando de repente começou a ouvir o som de sussurros à sua volta. Ele sentia que algo o observava e que estava sendo cercado. Enfim, ele chegou ao que parecia ser uma grande pedra no meio da floresta, coberta de símbolos e glifos estranhos que escapavam a qualquer conceito tribal que ele já tivesse encontrado. Embora não compreendesse a natureza daquele lugar, ele entendeu que era dali que ecoava o som que ouvia. Muamar se aproximou e tocou a pedra para se certificar de que não estava vendo coisas, mas nesse momento eclodiu da mata uma algazarra frenética que fez com que ele corresse em disparada de volta para a mata em fuga desabalada. Algo o perseguia e ele sentia que era questão de tempo até ser alcançado. Sem saber o que fazer, o fazendeiro se ajoelhou, fechou os olhos e começou a repetir em voz alta as palavras que ouvia regularmente. Ele sentiu que seja lá o que fosse ficou bem perto por alguns instantes, e então, talvez julgando que ele não fosse uma ameaça decidiu poupá-lo.  

Jamal encontrou seu patrão pouco antes de amanhecer, ainda em choque pela experiência. Felizmente ele não sofreu nenhum ferimento e o fato de ter repetido aquelas palavras parece ter sido justamente o que o salvou de um destino que podemos apenas imaginar.


Outra famosa narrativa envolvendo o Povo Pálido ganhou a atenção de jornais da Indonésia na década de 1990 e se tornou uma das histórias mais populares entre os entusiastas de lendas urbanas. A testemunha relata que sua experiência teria ocorrido quando ele era apenas um bebê, ocasião em que ele supostamente desapareceu de seu quarto. Para terror dos pais, certa manhã, seu filho Sanjay, de apenas 3 meses, sumiu do berço. A roupa que ele estava usando foi achada cuidadosamente dobrada sobre um travesseiro. Os pais procuraram pela criança em todo canto e quando ficou claro que ela havia sumido do ar, chamaram as autoridades. A casa ficava próxima de um grande bosque no interior da Ilha de Raja Ampat.

Sanjay contou o que seus pais relataram então: 

"Minha mãe chorava sem parar. Ela havia perdido seu único filho. Meu pai havia ido até a delegacia para fornecer mais detalhes sobre o ocorrido e minha mãe ficou sozinha em casa. Então perto do anoitecer, quando minha mãe rezava e pedia pelo meu retorno, ela ouviu algo. Era como se alguém estivesse arranhando a porta dos fundos. Ela foi até lá e quando abriu se deparou com duas figuras cobertas com mantos esvoaçantes que lhes cobria dos pés à cabeça. Estes trajes eram de uma brancura imaculada. Ela se assustou com a visão, mas uma das criaturas ergueu a mão como se pedisse que ela tivesse calma. Ela então sinalizou para a outra que carregava um pequeno fardo em seus braços. Disse com uma voz sussurrante: "Aqui está sua criança. Ela não é útil para nós... ela tem agora uma marca de nascença. Não vamos mais incomodá-la". A figura me devolveu aos braços de minha mãe, e enquanto ela agradecida me afagava, os dois simplesmente desapareceram. 

De acordo com minha mãe, o mesmo teria acontecido com o irmão do meu avô, muito tempo atrás. Ele também desapareceu certa noite, levado pelos Orang Bunian, mas foi devolvido, no caso dele, três semanas depois. Como também era apenas um bebê, não se recordava de nada, assim como eu não me recordo do que aconteceu no período em que estive em seu mundo. Uma das coisas que chamou a atenção é que quando retornei tinha uma marca de nascença na coxa esquerda, uma que tenho até hoje. Ela não existia até esse incidente. Segundo meu pai, o irmão do meu avô, tinha essa mesma marca, mas no ombro direito. Não é uma tatuagem ou uma cicatriz, ela realmente parece uma marca de nascença que até então, não existia. Disso meus pais tem certeza absoluta".

O que os Orang Bunian poderiam querer com um bebê e porque o teriam devolvido com uma marca na coxa? Seria essa uma espécie de marca de reconhecimento? Ou tudo não teria passado d euma invenção?

O folclore da Indonésia inclui vários desaparecimentos supostamente atribuídos aos Orang Bunian, com essas criaturas interessadas em subtrair crianças, sobretudo as bem jovens. Alguns acreditam que esses bebês são levados por fêmeas da espécie que por vezes adotam bebês humanos como se fossem suas crianças. Assim como ocorre no folclore ocidental, na difundida lenda dos Changelings, alguns supõem que esses seres trocam os bebês, devolvendo suas próprias crianças para que estas sejam criadas por pais humanos. Um observador cuidadoso é capaz de perceber pequenas mudanças nas crianças sendo a mais comum, o fato de crianças destras se tornarem canhotas.


Mas nem todos os casos se referem a bebês. Um caso muito conhecido envolveu o adolescente de 15 anos Mohd Khairi Abdul Ghani, que desapareceu quando fazia uma caminhada por um lugar chamado Gunung Tebu, na Malasia. Por cinco dias, grupos de resgate com cães farejadores vasculharam a região recoberta por densa vegetação em busca do rapaz. Até mesmo um helicóptero foi usado como apoio aéreo para determinar seu paradeiro, mas nada foi achado. 

Finalmente, um grupo de campistas encontrou Mohd desmaiado na beira de um lago cerca de 40 quilômetros da área em que ele supostamente teria sumido. O rapaz vestia apenas uma toalha de linho em volta da cintura e parecia extremamente. Não tinha qualquer sinal de ferimento e embora confuso seu estado físico era perfeito. Quando interrogado, o rapaz se mostrou incapaz de responder as perguntas e permanecia olhando para o vazio com uma expressão perdida. Ele não se recordava do que havia transcorrido nos cinco dias em que esteve ausente.

Na época em que ocorreu o caso, no ano de 1996, o incidente foi creditado por locais como um sequestro promovido pelos Orang Bunian. Outros sustentavam que ele tivesse sido levado por extraterrestres e submetido a experiências. Mohd sustentou não ter qualquer recordação dos fatos, mesmo depois de passar por uma sessão de hipnose na qual um psicólogo tentou fazer uma regressão. Tudo que o rapaz se recordou foi que em momento algum sentiu que estava sob ameaça ou perigo. Seu caso foi muito estudado, mas não se chegou a nenhuma conclusão.

Há incontáveis histórias envolvendo a lenda do Orang Bunian em vários países asiáticos, dando a estes estranhos seres o status de lenda urbana muito difundida. Mas resta a questão central: o que são eles?

As teorias são variadas, com pesquisadores acreditando que os Orang Bunian seriam uma espécie nativa de uma outra realidade, ou dimensão que de alguma forma conseguem acessar o "nosso lado". Eles teriam um conhecimento a nosso respeito maior do que aquele que temos deles e por alguma razão eles demonstram interesse em interagir com a humanidade, seja através de seus "presentes" ou através de "sequestros". Essa hipótese é contestada pelo fato de que se tem conhecimento de ninguém que tenha acessado a realidade deles e retornado para contar o que viu.


Há relatos de pessoas que desapareceram e surgiram dias, semanas ou mesmo meses depois, sem ter memórias de onde estiveram e do que experimentaram. Alguns desaparecimentos, entretanto, jamais foram solucionados e algumas pessoas que supostamente tiveram contato com essa espécie sumiram no ar, sem deixar vestígios. Os estudiosos do folclore e tradições orais afirmam que as lendas sobre o Povo Pálido são muitíssimo antigas, remontando há séculos atrás. Estariam todas essas lendas erradas? Ou haveria algum fundo de verdade nos relatos colecionados? 

Para outros, o fenômeno do Orang Bunian estaria de alguma forma conectado a mistérios mais recentes, como o fenômeno dos Discos Voadores. A Indonésia está entre os países com maior incidência de atividade ufológica no mundo, com enorme quantidade de videos e fotografias mostrando estranhos objetos voadores sobrevoando áreas isoladas e florestas quase intocadas. Seriam estes seres alienígenas na definição exata do termo? Uma raça nativa de um outro planeta, interessados em realizar experimentos com seres humanos? Isso sem dúvida, explicaria o desaparecimento de várias pessoas, os poderes dessas entidades e muitas de suas misteriosas ações. Muito parece se encaixar perfeitamente naquilo que compreendemos como alienígenas. Talvez eles tenham sido interpretados como seres do folclore, criaturas mágicas e encantadas pelos antigos que não compreendiam sua origem.

Seja como for, o fenômeno do Orang Bunian parece mais forte do que nunca. 

As pessoas realmente acreditam na existência dessas criaturas e os avistamentos tem se tornado cada vez mais comuns. Sejam eles fantasmas, espíritos, exploradores inter-dimensionais ou alienígenas é provável que eles continuem a povoar a imaginação das pessoas por muito tempo.

domingo, 29 de novembro de 2020

O Canibal da Tailândia - O Horror exposto de Si Quey



Por décadas, muitos pais tailandeses avisavam seus filhos que eles deviam se comportar, do contrário Si Quey viria para comê-los vivos. Pior ainda, se elas teimassem, os pais podiam levá-las diante do monstro como forma  de punição. As crianças então se comportavam, pois nada pode ser mais assustador do que a ameaça de um bicho papão de carne e osso. 

Conhecido como o Canibal de Bangcoc, os crimes macabros cometidos por Si Quey (também chamado de Si Ouey) se tornaram uma espécie de lenda urbana no país, com muitas pessoas crescendo sob a ameaçadora sombra desse monstro. A história adquiriu contornos tão surreais ao logo dos anos que muitos passaram a considerar que tudo não passava de lendas e histórias inventadas. Contudo, como costuma acontecer muitas vezes, o mundo real fornece os subsídios para o nascimento dos maiores horrores. 

Si Quey de fato existiu e sua carreira criminosa foi especialmente assustadora e traumática. Ele é tido como o primeiro assassino em série da história da Tailândia. 

Um imigrante chinês que veio ao país após o fim da Segunda Guerra, Si Quey perambulou por boa parte do país antes de se fixar na Capital Bangcoc. Isso leva muitas pessoas a questionar se a contagem final de suas vítimas não seria maior, visto que ele esteve em regiões rurais onde mortes poderiam ser facilmente acobertadas como desaparecimentos. Oficialmente o assassino foi sentenciado a pena capital pela morte de 7 crianças, mas não se sabe quantas mais podem ter tido o azar de cruzar seu caminho.

A verdade é que ninguém sabe ao certo quem foi o taciturno homem que trabalhava como jardineiro nos parques e jardins no centro de Bangcoc. Para todos os efeitos ele era descrito como um sujeito pacífico e muito quieto, que muitos acreditavam não falava o idioma local ou que tinha problemas mentais. Por vezes, ele ruminava algumas palavras em chinês, sorria e se afastava. "Era muito educado", "totalmente inofensivo", "gentil e cortês", foram algumas palavras ditas sobre ele por aqueles que haviam visto o homenzinho de apenas um metro e cinquenta e oito de altura cumprindo suas tarefas. Ele podava árvores, cortava a grama e andava de um lado para o outro enfiado numa roupa suja de terra. Carregava sempre consigo ferramentas de jardinagem: ancinho, pá e tesoura de podar.


Certa noite de agosto de 1958, dois policiais que estavam fazendo uma ronda pelo parque perceberam uma fumaça escura que se levantava. Acharam que pudesse ser um incêndio, afinal, o parque havia fechado há algumas horas. Por desencargo de consciência, decidiram ir até lá e verificar. 

Encontraram o pequeno jardineiro queimando algumas folhas e sequer iam quetsioná-lo a respeito, quando ele percebeu a presença dos policiais e saiu correndo em disparada. Percebendo que havia algo errado, o interceptaram e ele começou a gritar que a culpa não era dele e que ele era doente. Os policiais então remexeram nas folhas e encontraram sob o tapete vegetal o cadáver de uma criança de oito anos que estava desaparecida. Ele vestia apenas uma cueca, e apresentava marcas de estrangulamento em volta do pescoço. Não havia sofrido violência sexual, mas o peito estava aberto, como se escavado no lado esquerdo onde despontava um buraco escuro e profundo cercado de sangue coagulado. O coração fora removido de seu lugar - mais tarde ficaram sabendo que ele havia sido cozinhado e devorado. O monstro arrancava os órgãos de suas vítimas com a tesoura de podar, enterrava a ponta aguda no peito e usando toda a força destroçava a carne e as costelas ao abri-la.

Si Quey estava tentando destruir as evidências como já havia feito em pelo menos outras seis vezes.

Capturado e interrogado, ele readquiriu a compostura e reconheceu que aquele não era seu primeiro assassinato. Ele costumava ver as crianças brincando nos parques onde trabalhava. Após escolher a vítima, ele as seguia até a casa das famílias e ficava observando, esperando a melhor oportunidade para capturá-las. Oferecia brinquedos que haviam sido esquecidos no parque como forma de conquistar a confiança das vítimas, mas também recorria a doces e pequenos agrados. Quando sabia que havia conquistado a confiança, atacava e levava os pequenos até sua casa, um barraco de ferramentas num dos parques, onde havia conseguido autorização para viver.


Na cabana acharam os parcos bens do monstro guardados em uma maleta velha. Dormia em um colchão embolorado no chão, ao lado de sacos de fertilizante e terra.  Tinha um pequeno fogão de duas bocas e alguns utensílios que usava para cozinhar. Numa panela de arroz costumava ferver os órgãos humanos removidos de suas vítimas. Eles os comia com arroz e batatas, mas revelou que no início os devorava crus, recém extirpados da fonte. O homem era um canibal e segundo suas contas, havia sido tal coisa por boa parte de sua vida.

O relato de Si Quey foi dado sem rodeios com todos os pormenores. Ele não parecia se arrepender em absoluto. De fato, parecia muito à vontade revelando os detalhes para o horror dos investigadores que gravaram sua confissão em fita.

Apuraram o passado dele. Si Quey foi um soldado durante a Segunda Guerra Mundial, tendo lutado ao lado das forças de defesa da China contra os invasores japoneses. Ele contou que em certa ocasião sua unidade foi enviada para defender um vilarejo na Ilha de Hainan. O lugar era muito miserável e não tinha comida. Revelou que no auge da fome, depois de comerem cães e ratos, ele e alguns companheiros decidiram capturar uma criança e usá-la como alimento. Si Quey no entanto, reconheceu que aquela não havia sido a primeira vez que quebrara o tabu de se alimentar de carne humana. Sua família o fazia desde que ele era criança, então a medida parecia perfeitamente natural, um simples retorno aos antigos hábitos.

Quando a ilha foi atacada pelos japoneses, a unidade manteve o hábito alimentar. Eles costumavam extirpar o fígado dos soldados inimigos e fritá-los com cebolas. O próprio oficial responsável pela defesa da ilha incentivava esse comportamento afirmando que se alimentar do fígado era uma forma de obter força, já que na medicina oriental o órgão é creditado como tendo propriedades regenerativas. Entusiasmado com essas informações, Si Quey se fartava ainda de corações, pulmões e em algumas ocasiões dos intestinos.

Quando a Guerra terminou, ele partiu para o sul da China, mas com a Guerra Civil, decidiu imigrar para a Tailândia onde se tornou um vagabundo. Ele viveu em meio a pobreza extrema, fazendo uma série de trabalhos menores até ser contratado como jardineiro dos parques. Supostamente ele foi contratado pois já realizava por conta própria uma série de trabalhos menores nos parques. Todos se referiam a ele como um trabalhador responsável: quieto e pacífico no exercício de suas funções.

No momento que a verdade veio à tona, seus colegas não conseguiam acreditar.


Si Quey mostrou onde havia queimado os restos de suas outras vítimas. O motivo para cometer aqueles crimes bárbaros, em suas próprias palavras, envolvia o fato dele "sentir vontade de comer carne humana". Quando pedido para elaborar um pouco mais seus motivos, ele respondeu que "carne humana, em especial de crianças pequenas até 10 anos, era uma delícia. Nem tão salgada e nem tão dura, como a carne de porco, mais tenra e macia". Um dos investigadores ao ouvir isso, não se conteve e saiu da sala, sobretudo porque o sujeito parecia estar salivando ao contar esses detalhes. O coração e o fígado, segundo ele faziam parte de uma dieta medicinal que visava mantê-lo saudável.

O caso, medonho em todas suas implicações, indicava que Si Quey era um demente homicida e provavelmente desequilibrado mental, mas ainda assim, ele foi julgado como capaz de entender a natureza atroz de seus feitos. Com efeito, foi condenado a morte por um júri que levou apenas 10 minutos para dar a decisão. Tribunais estrangeiros alegaram que ele era mentalmente incapaz de compreender suas ações, mas de nada adiantaram os pedidos para revisão do caso. A justiça tailandesa ordenou que o homem de 32 anos fosse executado o mais rápido possível. Uma bala na cabeça pôs fim a sua existência.

Mas esse não foi o fim da saga de Si Quey, ao menos não para seus restos mortais.

Pouco depois da execução, o Hospital Siriraj apresentou um documento assinado pelo próprio Si Quey no qual ele aceitava doar seu corpo para a ciência. O objetivo era compreender melhor a sua mente pervertida e entender o que impulsionava suas ideias homicidas. Vários criminosos ao longo do século XIX e XX haviam aceito algo similar. Concordavam que médicos os dissecassem para procurar o "germe" responsável pela sua sanha assassina.

Vários médicos se ofereceram para ajudar na autópsia ou ao menos estar presente quando a mente do assassino fosse removida de seu crânio e dividida em fatias para observação no microscópio. Ao fim do procedimento, os especialistas não encontraram nada que fosse revelador, mas mesmo assim, decidiram que os restos deveriam ficar à disposição da Instituição para futuras referências. Desse modo, o corpo foi fechado, embalsamado com cera de parafina e colocado em uma caixa. 


Posteriormente, um dos diretores do Hospital achou que seria uma boa ideia deixá-lo a vista dos curiosos e então decidiram colocá-lo num caixão de vidro que ficaria em exposição na entrada do Museu do hospital. Aos pés do cadáver ressecado e escurecido, foi disposta uma placa de bronze onde se lia:

Si Quey - Canibal

Embora o propósito da exposição supostamente envolvesse interesse científico, é inegável que os restos do assassino passaram a ser a atração mais importante do Museu que apresentava ainda uma vasta coleção de anomalias congênitas, bebês deformados e provas de crimes famosos. Pessoas vinham de longe para ver o canibal de Bangcoc e algumas chegavam a cuspir no vidro para manifestar seu desprezo pelo monstro. Para alguns, a mensagem que estava sendo passada era simples e direta: esse é o fim de criminosos na Tailândia.

Para muitos o tratamento constituía uma indignidade e um absurdo, mas para a maioria dos Tailandeses,  a exposição do criminoso era merecida como uma punição eterna. Na tradição religiosa predominante na Tailândia, o Budismo, a observância do tratamento de restos mortais é muito importante. O fato de Si Quey não ter recebido os devidos ritos fúnebres fazia com que seu espírito não encontrasse o devido descanso.

Os curiosos, num misto de emoções, se colocavam diante do caixão de vidro contendo o corpo do monstro. O horrível cadáver do bicho papão da Tailândia ficou à vista de todos por 60 anos, levantando questionamentos a respeito de punição, do simbolismo sobre exposição pública e é clarom sobre a Condição Humana.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

O Horror de Inunaki - O sinistro vilarejo maldito do Japão


Caminhando pelas matas fechadas da Província de Kyushu Fukuoka, no Japão, o visitante pode se sentir maravilhado pela natureza intocada dessa vasta região. Alguns podem ser levados a pensar que esse é apenas um tranquilo refúgio das metrópoles superpovoadas do país, mas estarão errados em assumir tal coisa.

A medida que você caminha por essas trilhas elas o levarão até um curioso túnel que atravessa a Montanha Inunaki. A mera visão desse caminho impõe uma sensação de apreensão a muitos, causada pela escuridão em seu interior. Se você for corajoso o bastante para prosseguir em seu caminho, você irá mergulhar em uma zona de trevas indevassáveis, e segundo alguns ouvirá vozes e sussurros vindos das sombras. Se estiver com uma lanterna, talvez encontrará formas estranhas, ou melhor, será encontrado por elas. Diz a lenda que seguindo em frente, dependendo do caminho que você pegar, poderá encontrar a saída do túnel, mas não necessariamente a saída que a maioria das pessoas esperava achar. Os rumores afirmam que algumas pessoas ao atravessar o túnel chegam a um lugar diferente e estranho. A entrada desse lugar possui uma árvore torta onde pende uma placa na qual se lê as palavras: "Leis e regulamentos japoneses não se aplicam aqui".

Mais adiante, existe uma cidade fantasma abandonada que pertencia ao Período Edo. Um vilarejo congelado no tempo e espaço que aguarda os exploradores, oferecendo um vislumbre único de um passado distante. Mas não leve nada desse lugar consigo, nem tente tirar fotos, pois isso pode desagradar os habitantes locais.

Bem vindos a lendária Vila de Inunaki, onde histórias estranhas, fenômenos bizarros e misteriosos desaparecimentos são comuns, e de onde você terá sorte, se conseguir sair vivo.      

A região já era uma fonte de lendas sobrenaturais mesmo antes da construção do Túnel Inunaki Toge, também chamado de Velho Túnel de Inunaki.  E o que não falta são histórias a respeito de espectros e aparições vagando pela floresta que envolve a montanha como um manto verde escuro. Acredita-se que a floresta jamais tenha sido habitada por conta de histórias assombradas que faziam os colonos procurarem uma região com menos notoriedade. Desaparecimentos nessas matas ermas sempre foram comuns. Ravinas perigosas, lagos sem fundo e animais selvagens viviam no lugar, mas muitos acreditavam que os sumiços eram causados por algo pior, algo sobrenatural. A reputação da Floresta é secular, registrada em documentos, contos e poesias folclóricas. É muito esquisito, mas o mais interessante é como tudo isso está sempre relacionado a velha lenda de um Vilarejo maldito.


O túnel era um projeto antigo para encurtar as distâncias e permitir o acesso ao outro extremo da montanha, mas desde o início ele foi um projeto polêmico. Muitos habitantes das proximidades, sobretudo os mais antigos, não gostavam da ideia de mexer com o lugar. Em um país tão arraigado às tradições dos ancestrais, a Floresta sempre foi tratada como um tabu. Até o século XIX, eram poucos os que ousavam explorá-la, e apenas as convenções do progresso mudaram isso. As obras foram complicadas, o terreno era bem mais instável do que se imaginava e um novo mapeamento teve de ser realizado depois que as cavernas se revelaram bem mais extensas do que se imaginava. Durante a construção, ocorrida nos anos 50, um desabamento causou a morte de dezenas de operários em uma tragédia que ajudou a aprofundar os mitos sobre antigas maldições.

O túnel ficou pronto em 1961 e desde a sua inauguração multiplicaram-se histórias a respeito de fantasmas e outros mistérios A lenda mais difundida cita um caminho alternativo ao túnel principal, uma trilha oculta dentro da própria montanha que se aprofunda por tortuosos corredores e câmaras naturais repletas de estalagmites. Seria essa trilha, acessada apenas em meio a escuridão que se revelaria o vilarejo escondido. 

Supõe-se que a vila seja muito pequena e muito bem escondida. Para alguns, ela escolhe se revelar apenas para algumas pessoas especiais que se sentem compelidas a buscá-la. Mas que lugar seria esse? Há uma história assombrosa por trás de sua existência e uma lenda bastante sinistra que remonta ao Período Edo entre 1603 e 1868. Os moradores do vilarejo isolado teriam se fechado em seus próprios costumes, escolhendo viver através de seu próprio código moral, que se diferenciava substancialmente do restante da população.

Dizem ainda que esses habitantes faziam parte de um estranho culto, que professava rituais arcanos e estava disposto a assassinar qualquer um invadindo seus limites. Essas pessoas pretendiam conservar seu modo de vida e não toleravam que ninguém levasse para fora informações sobre o que acontecia no vilarejo. Histórias sobre incesto, rituais bizarros e canibalismo seriam ocorrências frequentes entre o povo local que vestia estranhos mantos vermelhos em suas cerimônias. Certa noite, um dos aldeões teria enlouquecido e tomado de uma loucura incontrolável matou membros de sua família e vizinhos num verdadeiro banho de sangue. Depois disso, o vilarejo teria sido abandonado pelos sobreviventes. Deixaram as construções para apodrecer. Sua localização foi apagada dos mapas para que ninguém ousasse ir até lá.

Mas isso foi apenas o início das esquisitices. 


De acordo com as fábulas locais, o vilarejo ainda existe, habitado por alguns poucos sobreviventes nascidos de relações espúrias consanguíneas. Estes mantiveram o costume de repelir invasores com toda severidade. Para tanto deixaram armadilhas mortais nas casas restantes, preferindo viver escondidos nos porões e subsolos. Ao primeiro sinal de forasteiros, eles deixam seus covis, armados com foices e machados, vestidos com os mantos escarlates que escondem suas deformidades, dispostos a retalhar os invasores e devorar seus restos. 

Histórias sobre andarilhos e exploradores desaparecendo na área são tratadas como prova inequívoca da existência da lendária aldeia maldita. Equipamento eletrônico não funciona no interior da montanha e encontra algumas interferências na floresta. Muito se fala a respeito de matilhas de cães selvagens e outros animais que espreitam nas trilhas e que não se intimidam diante de humanos. Esses animais, em especial os cães, emitem um brilho fantasmagórico em seus olhos, resplandecendo com uma inteligência maligna. Para alguns, os espíritos dos habitantes de Inunaki vivem nesses animais.

Mas é o interior do túnel o ponto focal de toda sorte de fenômeno inexplicável: portais interdimensionais, lapsos de tempo, o avistamento de demônios conjurados no passado e presenças fantasmagóricas que chamam os exploradores tentando levá-los para trechos traiçoeiros. Dizem ainda que aqueles que chegam ao vilarejo não devem tocar em nada, quanto mais tentar levar alguma lembrança. Estes objetos, se removidos, carregam consigo um azar terrível, além de maldições mortais.  

Não por acaso, essas histórias deram vazão a lendas urbanas disseminadas em todo Japão. O sinistro Túnel de Inunaki é considerado um dos lugares mais assombrados do país. Estas lendas rendem debates acalorados sobre a veracidade desses incidentes e o perigo que o túnel representa aos que tentam visitá-lo. E embora o lugar seja usado como travessia entre um lado e outro da montanha, muitos preferem evitá-lo e fazer o percurso mais longo.

O que se sabe, é que de fato existiu um vilarejo chamado Inunaki nas imediações da densa floresta aos pés da montanha. O lugar foi fundado como um assentamento de exploração carvoeira e mineração sob o controle do Clã Kuroda. O lugar chegou a contar com 350 moradores sendo que a maioria destes eram mineradores. Segundo os registros, em 1889, uma enchente devastou a mina e fez com que a operação fosse abandonada após a inundação dos túneis. Os habitantes teriam partido para vilarejos vizinhos afim de reerguer suas vidas até que nada restasse do vilarejo além de uma memória distante.    

Embora seja um lugar real, Inunaki não guardava qualquer relação com as lendas que se contavam sobre ela. Supõe-se que o lugar tenha ganhado fama graças a creepypastas que circulavam pela internet no final dos anos 1990 e que acabaram atraindo visitantes buscando o vilarejo. As histórias a partir desse ponto não podem ser corroboradas pois envolvem várias narrativas sobre a descoberta do local maldito, o avistamento de aldeões maníacos e encontros com monstros, fantasmas e demônios. 


Tudo é muito estranho e perturbador, mas difícil de ser levado em consideração dada a ausência de provas.

Ao longo dos anos, essa lenda ganhou força em fóruns e blogs sobre localidades bizarras, aparecendo e sumindo em intervalos intermitentes. Alguns anos atrás o vilarejo de Inunaki serviu de inspiração para uma série de video-games chamados Siren e Forbidden Siren. Os jogos apresentam um vilarejo chamado Hanuda, que guarda várias similaridades com Inunaki. Hanuda é uma aldeia perdida nas montanhas, cheia de moradores estranhos que seguem um bizarro culto diabólico e que foi palco para um massacre. As casas abandonadas escondem passagens entre dimensões e portais para outras realidades que são  habitat de monstruosidades. Na época do lançamento do jogo, várias propagandas e campanhas de marketing do jogo se dedicaram a semear a noção de que a lenda era inspirada em uma macabra história real.

Com isso, o vilarejo macabro ganhou um novo fôlego. Mas quem pode saber ao certo quanto dessas lendas bizarras são baseadas em incidentes reais? O Japão possui várias histórias perturbadoras a respeito de lugares abandonados, esquecidos ou malditos. Tudo indica que as lendas não passam disso, lendas... mas em todo caso, é bom ficar atento e tomar cuidado com túneis conduzindo a lugares remotos.