terça-feira, 13 de setembro de 2022

A Cabana Negra - A estranha história de um lugar marcado por sangue e morte


Perdida em um descampado poeirento no sudoeste do Condado de Cochise, Arizona, encontram-se os restos esquecidos de uma antiga cabana. Resta pouco para se ver, apenas fundações e paredes, mato sufocado por ervas daninhas e lembranças amargas. Essas ruínas decrépitas à primeira vista não parecem nada além de alguns resquícios de um passado esquecido, abandonado no deserto, algo pelo qual se poderia passar direto sem nem mesmo perceber a presença. No entanto, esta cabana tem um lugar na história do Arizona, um passado sombrio e assustador. É um lugar assombrado e maldito, muitas vezes referido como "a cabana mais sangrenta do Oeste", ou ainda "A Cabana Negra".

A história desse lugar começa com o imigrante alemão Frederick Brunckow, que veio para os Estados Unidos em 1850 para se juntar à Sonora Exploring and Mining Company. Ele planejava ir para o oeste e trabalhar em extração de minérios. Eventualmente, em 1858, deu início a uma operação de mineração chamada San Pedro Silver Mine no Arizona. Para auxiliar nos trabalhos, ele coordenou a construção de um pequeno acampamento e assentamento, junto com alguns trabalhadores mexicanos contratados, um químico chamado John Moss, seus primos James e William Davis, além de um cozinheiro alemão chamado David Bontrager. O lugar era rústico, mas servia como abrigo fornecendo proteção contra o clima, animais selvagens e tribos hostis. Fazia parte do assentamento uma modesta cabana de adobe, com um simples telhado de zinco e uma lareira que serviria como depósito de suprimentos. 

A princípio, tudo estava bem para eles, mas logo as coisas dariam uma guinada acentuada na direção do horror e da escuridão. E haveria muito sangue...


Em 23 de julho de 1860, William Davis partiu para a cidade com o objetivo de buscar farinha e outros suprimentos. Era uma viagem de três dias por um terreno selvagem, por isso ele levou um rifle para se proteger. Davis chegou em segurança na cidade, negociou os suprimentos com seu fornecedor e começou a retornar pela trilha. No dia 26 ele avistou o assentamento perto do entardecer. Ele sentiu que alguma coisa estava errada quando percebeu que a lareira da cabana estava apagada e a chaminé não cuspia fumaça. O lugar estava muito quieto. Quieto demais!

William amarrou as mulas, apanhou seu rifle e entrou no assentamento cautelosamente. Perto da cabana a visão que teve o deixou petrificado. O corpo de seu irmão, James estava caído no chão em uma poça de sangue. Sua cabeça havia sido estourada com um tiro de espingarda à queima roupa que espalhou seus miolos pelas paredes e teto. O lugar havia sido saqueado, portas e gavetas estavam abertas, objetos jogados no chão e tudo em completa desordem. 

Ele chamou pelos demais, mas ninguém respondeu. Davis sentiu um arrepio. O correto seria verificar os outros cômodos em busca de feridos, mas algo o impediu de adentrar na cabana em busca de sobreviventes. Mais tarde ele diria que sentiu algo desagradável, não como se o assassino estivesse no local, mas algo pior... uma presença que o fez sentir arrepios e que o obrigou a sair de lá o mais rápido possível. William Davis correu até a guarnição de soldados estacionados à cerca de 25 quilômetros dali. Os homens da cavalaria o acompanharam até o assentamento e quando estavam à caminho encontraram o corpo do químico, John Moss no deserto. Sua garganta havia sido cortada e ele andou por cerca de 200 metros antes de perder os sentidos e morrer.


Chegando no assentamento, os soldados se espalharam e começaram a buscar pelos arredores algum sinal do que havia acontecido. Não demorou a encontrarem, perto da entrada da cabana outro corpo, dessa vez pertencente a Brunckow. Ele estava enfiado em um poço de mineração, aparentemente assassinado com golpes de picareta. O cadáver estava tão mutilado que foi difícil conseguir uma identificação e esta só foi possível através de um sinal que ele tinha no braço. O corpo havia sido mergulhado de cabeça no buraco e as pernas pendiam de forma macabra para o lado de fora. 

Dos trabalhadores mexicanos não havia sinal. Também haviam sumido cerca de três mil dólares em mercadorias que foram levadas. Ninguém tinha ideia do que havia acontecido ao certo, mas a suspeita era de que os trabalhadores haviam roubado e matado seus patrões. Enquanto investigavam o local, o cozinheiro Bontrager surgiu. Ele contou que estava vagando pelo deserto e alegou ter escapado do massacre quando os trabalhadores mexicanos atacaram. Contou ainda que conseguiu fugir em disparada quando ouviu gritos de alerta. O cozinheiro ficou nos arredores, mas não viu o alegados assassinos, cinco empregados da fazenda e mais o capataz, um sujeito chamado Jaime, deixando o lugar do massacre.  

Os soldados decidiram enterrar os cadáveres ali mesmo e partir atrás dos assassinos quando raiasse o dia. A suspeita é que eles tentariam atravessar a fronteira e chegar ao México onde poderiam desaparecer facilmente. Conforme planejado o grupo de soldados, composto de sete homens e mais um oficial, além de Davis partiu da cabana nos primeiros raios de sol. Eles deixaram Bontrager e um dos soldados, um homem chamado Sam Knowles, para trás.


A cavalaria seguiu a trilha deixada pelos assassinos por cerca de um dia, mas antes de chegar na fronteira se depararam com um novo mistério sangrento. Encontraram um acampamento desfeito e marcas de luta com sinais inequívocos de violência. Buscando nos arredores descobriram três cadáveres brutalmente assassinados com golpes de porrete, faca e machadinhas. Davis reconheceu os três corpos como mexicanos que trabalhavam no assentamento, de Jaime e dos outros nem sinal.

A suspeita é que o bando tivesse se desentendido e que brigaram entre si. Esse tipo de coisa acontecia, e não era exatamente incomum, mas algumas coisas não se encaixavam no cenário geral. O produto do roubo havia sido deixado no acampamento. As mercadorias roubadas estavam em sacos e caixas espalhadas pela clareira e William reconheceu que não faltava nada. Talvez os homens tenham se desentendido sobre a chacina e os que prevaleceram partiram sem levar nada. Isso não explicava entretanto porque cantis, suprimentos e comida necessários para chegar à fronteira foram deixados. Mais estranho, os soldados buscaram por rastros que pudessem indicar para onde eles haviam seguido, mas não acharam nada. Era como se o restante do grupo tivesse desaparecido no ar.

Sem ter uma trilha a ser seguida, os soldados decidiram voltar para a cabana e lá traçar seus próximos planos. Mas o inesperado agiu novamente! Ao chegar na Cabana se depararam com mais um mistério que os deixou sem palavras. Bontrager e o soldado Knowles não estavam mais lá. Era como se tivessem evaporado no ar pois o cavalo continuava amarrado no mesmo lugar, a lareira estava acesa e uma caneca com café foi deixada sobre a mesa, dos homens, nenhum sinal. 


Por mais misterioso e violento que fosse tudo isso, as autoridades não podiam fazer muita coisa. Uma ordem de busca foi expedida contra o capataz e os mexicanos que haviam sumido, supostamente responsáveis pelo ocorrido. Também foi mandado um retrato do cozinheiro. O soldado foi tratado como desertor e seu nome enviado para todo território. Nenhum deles jamais foi encontrado e o paradeiro deles permanece como um inexplicável mistério. Contudo, esse não seria o fim das coisas inexplicáveis ocorrendo naquele lugar maldito.

Ao longo dos anos, outras histórias macabras ocorreriam na Cabana Negra como veremos na continuação desse artigo. 

sábado, 10 de setembro de 2022

O Ataque dos Habitantes da Atmosfera - Criaturas inacreditáveis vivendo nas Nuvens


Monstros atmosféricos são criaturas bizarras e aparentemente impossíveis. Essas estranhas bestas voam silenciosamente acima da raça humana, desafiando as leis convencionais da física, e suas origens e intenções continuam sendo um dos mistérios mais intrigantes e fascinantes nos reinos da ufologia e da criptozoologia.

A maioria dos indivíduos inteligentes admitiria prontamente que os oceanos da Terra ainda não revelaram todas as formas de vida que habitam suas vastas profundezas. Alguns cientistas sugeriram que há quase um milhão de espécies desconhecidas à espreita, aguardando nas profundezas salgadas, enquanto outros insistem que o número seria muito maior. Mas, embora os cientistas não tenham problemas em aceitar que os mares estão repletos de formas de vida não identificadas, eles rejeitam a ideia de que o oceano de ar acima de nossas cabeças possa ser igualmente povoado por espécies únicas, e até hoje, não classificadas.

O consenso dos cientistas determina que nossa atmosfera se estende a aproximadamente 998 quilômetros acima da superfície do planeta. Isso é muito espaço, muito mesmo.

Quando pegamos todo esse espaço e comparamos com os quilômetros quadrados de água, a diferença é esmagadora em favor do espaço atmosférico. Então, se admitirmos que o oceano abriga um monte de formas de vida desconhecidas, será possível ignorar o mesmo potencial dos céus, muito mais expansivos, acima de nós?

Estudiosos da Criptozoologia, aquele ramo obscuro da ciência que tenta classificar seres misteriosos e estranhos, acreditam que esse vasto ambiente pode ser o habitat de criaturas sobre as quais sabemos muito pouco. Mas haveria algo habitando a atmosfera? Seria possível que criaturas misteriosas vivam nos céus? E como nós não percebemos sua presença? 

Os chamados Habitantes da Atmosfera, ou Monstros Atmosféricos, supostamente estão com a humanidade há séculos. As descrições variam de entidades vaporosas, semelhantes a nuvens, a "baleias do ar" e "krakens do espaço" até águas-vivas flutuantes e translúcidas que mergulham entre as nuvens sem meios visíveis de propulsão aerodinâmica. Há também os lendários "peixes do céu", animais mitológicos que supostamente nadam em pleno ar, como se estivessem no fundo do mar agitando suas nadadeiras para se mover graciosamente. 


Geralmente esses seres são retratados como bestas gigantescas com vários metros de comprimento. Seus corpos sinuosos flutuam pelo ar delicadamente, como balões vivos. Segundo os criptozoólogos, no passado, eles foram avistados por testemunhas que os identificavam erroneamente como nuvens estranhas. Em tempos mais recentes, eles são incorretamente identificados como aviões, balões meteorológicos, dirigíveis e até discos voadores 

Os defensores da existência de tais seres sugerem que – assim como muitos outros animais, eles também são capazes de criar uma camuflagem que os deixa virtualmente invisíveis a olho nu. Eles poderiam se misturar a paisagem de tal maneira que seria quase impossível perceber seus contornos, mais ainda por conta da altitude que sustentam na maior parte do tempo. Apenas ao se moverem, através de nuvens é que sua presença poderia ser traçada, e ainda assim de forma bastante discreta.  

Alguns defendem que a substância conhecida como "gelatina das estrelas", frequentemente associada a chuvas de meteoros pode muito bem vir a ser os restos em decomposição dessas bestas ostensivamente invertebradas forçadas para a terra. Talvez estrelas cadentes e outros detritos terrestres atinjam essas criaturas no meio do voo, rasgando-as com a força de seu impacto e enviando-as ao chão em pedaços ainda não identificáveis.

A origem dos Habitantes da Atmosfera também permanece como um ponto de discórdia entre os defensores da existência desses seres. Há diferentes vertentes sobre o que são essas criaturas: se elas seriam entidades alienígenas ou criaturas nativas da Terra. A maioria dos adeptos acredita que, de onde quer que esses animais venham, eles são animais não inteligentes que vivem suas vidas no céu confiando no instinto e não no intelecto. Mas, é claro, eles podem estar errados.


O famoso autor e investigador paranormal, Ivan T. Sanderson, formulou a teoria de que essas bestas do céu seriam uma forma de vida ainda a ser compreendida. Ele especulou que vários relatos de OVNIs poderiam se referir ao avistamento de "animais de densidade extremamente baixa nativos das nuvens".

Sanderson não está sozinho em sua crença à respeito de animais atmosféricos. Até mesmo o célebre cosmólogo Carl Sagan propôs que o conceito de tais bestas com forma similar a de um balão, poderia ser perfeitamente viável do ponto de vista biológico. Sagan chegou a formular que tais seres poderiam se desenvolver nos céus de gigantes gasosos como Júpiter. Ele chegou a especular que tais seres poderiam ter se formado na Terra.

Em 1975, o renomado ufólogo Trevor James Constable, propôs em seu livro "The Cosmic Pulse of Life" que o fenômeno dos discos voadores provavelmente não seria um exemplo de tecnologia extraterrestre, mas de colossais criaturas semelhantes a amebas que habitam a atmosfera da Terra. Ele coloquialmente apelidou esses animais teóricos de "criaturas do ar".

Constable propôs ainda que esses monstros atmosféricos passavam a maior parte do tempo em um estado de baixa densidade virtualmente invisível, mas quando aumentaram sua densidade (possivelmente enquanto procuravam sustento), essas estranhas formas de vida se tornavam parcialmente visíveis. Ele também defendia que o uso de dispositivos de radar e a perturbação causada por veículos aéreos de alguma forma perturbou essas bestas, forçando-as de seu estado geralmente oculto para um mais perceptível. Isso justificaria o relato de "coisas estranhas vistas nos céus".


Como se isso não bastasse, Constable sugeriu a premissa literalmente horripilante de que essas "criaturas" não eram apenas carnívoras, mas que provavelmente seriam responsáveis ​por uma infinidade de mutilações de animais, bem como de milhares de mortes e desaparecimentos de seres humanos todos os anos. Nem é necessário dizer que a noção da existência de predadores imensos, vorazes e praticamente indetectáveis é bem pouco reconfortante. Curiosamente, vários povos do passado mencionam em suas lendas e mitos entidades estranhas que vivem nos céus, entre as nuvens e que descem de tempos em tempos para interagir com humanos, geralmente tornando-os vítimas de um ataque inesperado.

Dentre os encontros mais famosos envolvendo supostos monstros atmosféricos, encontramos um incidente supostamente ocorrido em Crawfordsville, Indiana. Segundo o relato, publicado na edição do Indianapolis Journal, por volta das 2 horas da manhã do dia 4 de setembro de 1891, dois homens estavam consertando uma carroça quando olharam para o céu e ficaram chocados ao ver o que descreveram como uma "aparição horrível" pairando sobre eles.

Os homens afirmaram que a criatura sem cabeça, retangular e com várias barbatanas "nadava em pleno ar" a não menos de 30 metros acima deles. Eles calcularam seu tamanho em aproximadamente dois metros de largura e seis metros de comprimento. Os homens mais tarde confirmariam aos repórteres que a fera parecia definitivamente viva. Eles assistiram que enquanto a criatura se movia com suas numerosas barbatanas, circulava exatamente acima de uma casa próxima. O monstro eventualmente desistiu de seu assédio e desapareceu subindo abruptamente rumo ao firmamento. 

É curioso, que na mesma noite outras pessoas testemunharam a mesma aparição misteriosa nos céus. Um fazendeiro e sua família avistaram a mesma criatura cerca de meia hora depois flutuando acima de uma plantação. Os membros da família, seis pessoas ao todo, descreveram o ser como uma forma amorfa translúcida que subia e descia, como um enorme balão. A criatura também foi vista no município vizinho por diferentes testemunhas idôneas que garantiram ser o monstro algo vivo.  

Tais narrativas totalmente bizarras poderiam ser descartadas como uma alucinação infundada ou uma farsa total, não fosse a corroboração de indivíduos com reputação impecável. Outra testemunha ocular foi o Reverendo G. W. Switzer, um pastor metodista local que, junto com sua esposa, também afirmou ter visto a estranha besta aérea.


Como se isso não bastasse, nas noites seguintes a coisa reapareceu, mas desta vez não se mostrou apenas para um punhado de observadores isolados. De acordo com o relatório publicado pelo Indianapolis Journal, centenas de testemunhas contaram ter visto a entidade anômala no céu noturno.

Observadores descreveram a fera de maneira similar, mas alguns desta vez notaram um "olho" vermelho ciclópico e flamejante. Eles também discerniram que a fera que se contorcia emitia um "ruído queixoso e sibilante" e por vezes "se contorcia" no que parecia ser um movimento agonizante. 

A criatura de Crawfordsville ondulou acima de uma multidão de espectadores a uma altura de cerca de 90 metros, até que abruptamente despencou em direção à terra, caindo perto de um grupo de aterrorizados espectadores. Os que viram os restos da criatura juraram que podiam sentir seu "hálito quente" enquanto ela desmanchava diante de seus olhos incrédulos. O monstro parecia uma coisa gelatinosa, amorfa, translúcida e de consistência similar a uma água viva. 

O famoso pioneiro da pesquisa paranormal, Charles Fort, estudou o fenômeno e visitou Crawfordsville anos depois para ouvir o relato de pessoas que testemunharam o incidente. Ele concluiu que as histórias eram consistentes e os relatos por serem tão semelhantes indicavam um grau elevado de verossimilhança. Fort entrevistou dezenas de testemunhas oculares envolvidas com esse avistamento em massa, e escreveu que: “Todos os relatos se referiam ao misterioso objeto como um ser vivo". Fort ficou tão impressionado com o que ouviu que deu início a uma campanha para que leitores enviassem relatos de histórias parecidas. Nada menos do que 470 relatos detalhados mencionando "criaturas do ar" chegaram ao seu conhecimento - muitos simples tolices, mas outros tantos corroborados por testemunhas ilibadas.

Fort estava tão convencido de que tais seres existiam que ofereceu uma recompensa para quem conseguisse fotografar tais seres ou demonstrar sua existência em fatos.


Outro incidente notável envolvendo Habitantes da Atmosfera vem das pequenas ilhas do arquipélago de Shetland, na Escócia. As Ilhas Shetland são um local remoto e envolto em névoas a cerca de 80 quilômetros a nordeste de Orkney. É um lugar ermo conhecido por abrigar um monstro que os ilhéus conhecem apenas como "aquilo". 

Os moradores locais descrevem o ser como uma espécie de verme vaporoso que habita os céus, escondendo-se em meio às nuvens. Por razões desconhecidas, ocasionalmente ele faz descidas para a terra firme, supostamente para se alimentar. Aqueles que entraram em contato com a entidade não sofreram qualquer ferimento, relatando uma sensação física semelhante a de ser lambido por uma enorme "língua macia". Embora esse efeito não seja danoso, ele foi descrito como muito desagradável.

Um incidente relatado em 1914 detalha um contato com a criatura. O incidente teve lugar quando um policial estava andando de bicicleta em sua rota de patrulha. O homem alegou que "aquilo" o envolveu criando a sensação de estar enrolado em um "cobertor extremamente macio" que cheirava a "mofo". O ser, que o oficial insistiu estava vivo, o manteve aprisionado por alguns instantes até soltá-lo e se afastar para o céu acendendo como um balão. O oficial abalado afirmou que tinha sido uma das experiências mais aterrorizantes de toda a sua vida.

Desde a introdução da fotografia dezenas de fotos de supostos objetos voadores foram apresentadas como evidência de "coisas estranhas flutuando nos céus". Esses objetos anômalos tem as mais variadas formas, muitos se assemelhando a veículos, mas outras tendo uma clara natureza orgânica. Estes se movem de maneiras que parecem inusitadas para uma nave voadora de base tecnológica.

Uma das mais intrigantes fotografias representando tais seres atmosféricos foi tirada pelo jornalista Bruno Ghibaudi na tarde de 27 de abril de 1961. No dia em questão ele estava dirigindo pela estrada adjacente à praia de Montesilvano, na Itália, quando estourou um pneu. Enquanto trabalhava para deixar o carro em ordem, Ghibaudi notou um "objeto bizarro", com várias asas ou possivelmente barbatanas, pairando sobre o oceano a baixa altitude. A coisa estava indo em sua direção a uma velocidade considerável. O jornalista não entrou em pânico, ao invés disso pegou sua câmera para registrar o que estava vendo. Ghibaudi conseguiu tirar uma única foto da criatura antes que ela desaparecesse de vista. Enquanto alguns afirmam que a imagem mostra um veículo interestelar, há outros que acreditam que na verdade é uma criatura viva.



Uma imagem registrada na França por um turista foi obtida em julho de 1999 e mostra uma coisa singular semelhante a um ser vivo flutuando no ar. Supostamente, o objeto parecia uma espécie de lula ou água viva, com pele translúcida levemente amarela-esverdeada. Ela era muito grande, talvez com mais de 10 metros e ficou estática por longos minutos antes de começar a subir e desaparecer à certa altura. 

Outro caso conhecido envolve um fotógrafo da Nova Zelândia chamado Michael White, que em abril de 2008 estava tirando fotos do céu quando notou o que descreveu como uma "nuvem escura de aparência estranha que parecia se mover conscientemente". A estranha nuvem, segundo ele, permanecia imóvel por longos períodos de tempo e então se movia sozinha, mesmo que as demais próximas a ela permanecessem estacionadas. Após registrar em câmera a nuvem se comportando dessa forma inusitada, ele percebeu que ela simplesmente ascendeu cada vez mais alto até sumir.

White conseguiu tirar várias fotos da nuvem, mas só depois de revelar as imagens é que percebeu o caráter único do que havia registrado. Na foto, ele descobriu um objeto misterioso que se assemelhava a uma espécie de criatura orgânica, semelhante a uma arraia manta de tamanho absurdo. A parte mais intrigante da história de White é que ele alegou que não percebeu o "objeto" no interior da nuvem quando tirou as fotos. White insistiu que tudo o que viu foi uma "nuvem" que ele descreveu como "fibrosa" e "de aparência peculiar", movendo-se de maneira incomum.

Poderia a criatura estar usando a nuvem como um tipo de camuflagem para se manter disfarçada? Se este for o caso, então isso dá origem à suposição de que entidades estranhas e ondulantes podem estar constantemente cruzando as nossas cabeças e tudo o que nossos olhos humanos percebem são nuvens comuns. Se isso for verdade, então nosso mundo é realmente um lugar bem mais estranho do que podemos imaginar. 


Para finalizar, eis aqui um relato supostamente ocorrido na tarde de 3 de novembro de 1973 envolvendo um banqueiro mexicano e sua família. Eles avistaram um objeto estranho voando na direção oeste sobre Cocoyoc, México. A esposa do banqueiro alegou que o objeto era arredondado e não se assemelhava a nenhuma aeronave tradicional que ela conhecesse. O banqueiro parou o carro para ver melhor o objeto incomum. Ele e sua esposa rapidamente saíram do veículo e observaram o objeto se mover "como se estivessem nadando no ar", não simplesmente voando, mas literalmente deslizando como um gigantesco peixe faria na água.

Felizmente, o banqueiro teve a presença de espírito de pegar sua câmera e conseguiu tirar uma foto da coisa antes que ela sumisse de vista. A coisa lembrava uma espécie de anêmona gigantesca voando no céu.

Os casos acima representam apenas um punhado de relatos e fotografias do que podem ser monstros atmosféricos, uma forma de vida desconhecida. Apesar das imagens, o consenso geral permanece de que esses animais podem não modificar seu tamanho e densidade, bem como empregar uma forma única e extremamente eficaz de camuflagem para se esconder. Isso significa que, se essas criaturas realmente existem, podem haver em grande número, flutuando acima de cada um de nós neste exato momento sem que percebamos. 

Talvez essas especulações não sejam nada mais do que mera fantasia, contudo se provadas verdadeiras, mudariam tudo o que sabemos, ou acreditamos saber à respeito de nosso mundo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O Pescador - Resenha do Romance de John Langan


"Já estive à beira de um oceano cujas ondas eram tão negras quanto a tinta que escorre da ponta desta caneta. Eu vi uma mulher com a pele pálida como o luar abrir a boca, e abri-la, e abri-la, em uma caverna com fileiras de dentes serrilhados que estariam em casa na mandíbula de um tubarão."

John Langan - O Pescador

*     *     *

Para os fãs de horror em geral, o nome de John Langan não é estranho, ou ao menos, não deveria ser. Aclamado pela crítica como um escritor com talento excepcional, ele foi publicado em várias coleções, incluindo aquelas que trazem os "melhores contos do ano" como o Ellen Datlow's Fearful Symmetres. Langan se destaca em meio a outros promissores autores de horror e mesmo entre nomes já consagrados. Além disso, suas duas antologias exclusivas - Mr. Gaunt & Other Uneasy Encounters e o aclamado The Wide Carnivorous Sky contém material notável.

E a razão para um repertório tão impressionante de trabalhos publicados é bastante simples: o homem é uma máquina de produzir excelente material. Seu romance mais conhecido, "O Pescador", é apenas uma prova de seu enorme talento, imaginação e capacidade de oferecer uma história atraente que prende o leitor do início ao fim.

Os termos "excelente", "excepcional" e "transcendente" têm sido usados pelos críticos com tanta frequência que se tornam clichês, mas parecem adequadas para descrever esse, que é o segundo romance de John Langan. "O Pescador" é daqueles livros que você começa a ler e que não consegue parar, pois a história é tão bem escrita e narrada de maneira tão interessante que lembra uma conversa entre amigos, no qual um chega na casa do outro e diz "eu tenho uma história para contar" e sem cerimônia dá início a uma narrativa envolvente.

Não que "O Pescador" seja fácil, mas é a maneira como a história é oferecida que chama mais a atenção. Ele é uma história dentro de uma história, mas estou me adiantando demasiadamente.


A história começa prestando uma homenagem a Moby Dick, e de fato, como convém a um livro com esse título, ele é à respeito de água, um rio e tudo que vive abaixo da superfície. Envolve também coisas misteriosas e terríveis que habitam as profundezas e que não deveriam jamais existir em um mundo de razão e coerência - coisas estas que parecem extraídas diretamente de um conto de H.P. Lovecraft

Embora a narrativa tenha um tom descontraído, a história em si é tudo menos alegre. Desde o início, sentimos que algo horrível está para acontecer a uma página de distância, que nosso protagonista está se movendo em direção a um pesadelo medonho enquanto começa a ter experiências estranhas e sonhos aterrorizantes que vão se intensificando à medida que avançamos. Como dito, a história avança como uma prosa entre amigos, o que é esquisito em um livro sobre ficção bizarra, suspense sombrio e Horror Cósmico de primeira grandeza. Um sentimento opressivo permeia as páginas, mesmo nas circunstâncias mais mundanas, há algo que deixa o leitor inquieto. 

A história central acompanha dois viúvos, Abe e Dan, que perderam suas famílias e que ainda estão tentando lidar com as repercussões de sua imensa dor. Devorados por um vazio monumental do qual parece não haver escapatória, os dois encontram um amor em comum na forma de um hobby que preenche o vazio deixado por suas esposas e filhos - a pescaria. Pescar parece ser a única coisa que diminui a dor e sempre que possível os dois se reúnem com esse intuito. Em sua busca incessante por novos rios para lançar o anzol, Dan descobre um lugar obscuro chamado Dutchman's Creek (Riacho do Holandês). Eles partem então esperando um longo dia de pesca e tranquilidade. Contudo o riacho não corre simplesmente pelas montanhas de Catskills, no interior de Nova York, e sim pelo coração do inferno e os terrores que aguardam a dupla são horríveis além da descrição.


Enquanto estão se dirigindo para seu destino, o tal riacho, os dois param em um restaurante de beira de estrada para pedir direções. Lá eles conhecem o amistoso dono do estabelecimento, um homem que já ouviu falar do "Dutchman´s Creek" e que tem uma longa história para contar à respeito dele.

É nesse ponto que a história dentro da história começa a ser contada. 

Os protagonistas cedem lugar para a narrativa, propositalmente similar a uma história de pescador, na qual somos apresentados a uma série de estranhos acontecimentos que tiveram lugar nos arredores das Catskills no início do século XX. A construção de um enorme reservatório de água muda de vez a vida de habitantes da região, em especial a de um homem que recebe um soturno visitante que passa a morar em sua casa e levanta todo tipo de rumor assustador. O que o sujeito misterioso, o tal forasteiro faz na mansão e o que acontece naquele lugar na calada da noite é parte central da história, bem como os eventos que envolvem os operários - quase todos imigrantes, atraídos pela perspectiva de um grande empreendimento. Entre esses trabalhadores está Rainer Schmidt, um imigrante alemão de passado nebuloso que busca melhores oportunidades de vida para sua família e acaba tendo de enfrentar algo aterrorizante.

Essa porção de "O Pescador" é simplesmente brilhante! 

A lenda sombria de "Der Fisher" é uma experiência para Abe e Dan e também para o leitor. Magia negra, visões surrealistas, rituais antigos, tomos com conhecimento arcano e criaturas bizarras que parecem saídas dos piores pesadelos aparecem numa sucessão vertiginosa. Coisas difíceis de compreender como estas encontrariam abrigo fácil no universo Lovecraftiano e se aninhariam confortavelmente entre os tentáculos dos deuses antigos e seus servos. Langan explora esses caminhos tortuosos e escuros como a noite com maestria, conduzindo a trama de forma perfeita. Seus personagens são reais, as situações, mesmo as mais surreais, são descritas com um colorido especial que torna tudo crível e a forma como ele conduz a trama não é menos que sensacional. John Langan habilmente, com grande atenção aos detalhes, cria uma atmosfera de terror e inquietação, enquanto lentamente nos introduz no universo do romance. Mas em determinado momento, o ritmo se quebra, lançando o leitor em uma montanha russa de ação e violência. 


O terço final da trama confronta os protagonistas com uma escolha cruel. Sabendo de todos os detalhes transmitidos, eles seguirão com a sua excursão ao riacho? Irão acreditar na história ou desconsiderar como mera superstição? Ou irão aceitar a vida e o destino que receberam? Eles buscarão uma maneira não-natural de aplacar sua perda? E ao fazê-lo, que horrendas repercussões suas escolhas trarão? O final reserva algumas reviravoltas e uma conclusão agridoce para os protagonistas.  

A versão nacional de "O Pescador" foi lançada pela Editora Darkside com a já conhecida qualidade que marca suas publicações. A edição em capa dura, marcador de página, borda colorida e belo acabamento gráfico é um complemento à altura dessa grande história. Foi um enorme acerto da Darkside trazer John Langan para nosso idioma e apresentá-lo ao público brasileiro através desse trabalho impecável. Fica a dica para que eles sigam adiante com as publicações desse autor. 

"O Pescador" recebeu o Bran Stoker Awards de 2016 na categoria melhor romance, premiação mais do que merecida na minha opinião. A incrível narrativa fluida de Langan, suas visões surreais e a atmosfera perturbadora tornam a leitura desse livro puro prazer. É um deleite para os fãs de literatura de terror e eu não poderia indicá-lo mais.


domingo, 4 de setembro de 2022

O pior de todos os anos - O trágico ano de 536



Pode ser uma pergunta estranha, mas qual teria sido o pior dos anos?

O pior mesmo, aquele que deixou uma marca clara na história como um ano especialmente ruim para a humanidade.

Se você perguntar ao historiador medieval Michael McCormick qual foi o pior ano para se estar vivo, ele terá uma resposta rápida e sem rodeios: "536 d.C". 

Ele não dirá 1349, quando a Peste Negra varreu metade da Europa matando milhares e devastando cidades inteiras sob os auspícios da doença. Tampouco dirá 1918, quando a Gripe Espanhola matou algo entre 50 e 100 milhões de pessoas, principalmente adultos jovens. 

Ele dirá 536, e será categórico em sua opinião. Mas o que esse ano em particular teve de tão terrível? Com certeza, a maioria das pessoas não saberia dizer.

A explicação é simples. 

Na Europa, "foi o início de um dos piores períodos para se estar vivo, se não o pior ano de que se tem notícia desde o início da história humana registrada", explica McCormick, um historiador e arqueólogo que preside a Iniciativa da Universidade de Harvard para a Ciência do Passado Humano.

O ano de 536 teve início com um nevoeiro misterioso que mergulhou a Europa, o Oriente Médio e partes consideráveis da Ásia numa escuridão terrível. Dia virou noite e esse estranho fenômeno durou nada menos do que 18 meses. 


"O sol mostrou sua luz sem brilho, tênue como a lua, durante todo o ano", escreveu o historiador bizantino Procópio um dos muitos que registraram esse estranho incidente ao redor do mundo. As temperaturas no verão de 536 caíram de 1,5°C a 2,5°C, iniciando a década mais fria dos últimos 2300 anos. Neve caiu em pleno verão na China; as colheitas foram devastadas; pessoas passaram fome. As crônicas irlandesas registram "uma falta de pão e víveres que lançou milhares na carestia. A fome era tamanha e tão terrível que pessoas morriam de inanição nas ruas. Forçadas ao limite de suas forças, há relatos de um desespero que levou as pessoas a comer cavalos, cães e gatos. Em algumas partes da Europa, em especial no Leste, a fome era tamanha que o canibalismo foi praticado largamente. Com a crise de alimentos, cidades esvaziaram, portos pararam, o comércio deteriorou e as moedas perderam o valor.

Então, na esteira desses acontecimentos, a peste bubônica atingiu o importante porto romano de Pelusium, no Egito. Dali a praga encontrou lugar nos navios que navegavam pelo Mediterrâneo, sendo disseminada pelos ratos que habitavam os porões. A Peste foi tão impiedosa que devastou os poucos lugares que ainda resistiam à fome. A epidemia de ratos era tamanha que os animais proliferaram livremente. Em vários cantos da Europa eles se tornaram um problema de verdade, com ratazanas devorando os mortos e atacando os vivos.

"Aquilo que veio a ser chamado de Praga de Justiniano se espalhou rapidamente, eliminando de um terço a metade da população do Império Romano Oriental, acelerando seu colapso", diz McCormick.

Os historiadores sabem há muito tempo que a primeira metade do século VI foi um tempo especialmente sombrio no que costumava ser chamado de Idade das Trevas, mas a fonte das nuvens misteriosas que submergiram o mundo em uma escuridão até então era um enigma. Agora, uma análise ultra precisa do gelo extraído de uma geleira suíça por uma equipe liderada pelo glaciologista Paul Mayewski, do Instituto de Mudança Climática da Universidade do Maine, apontou aquilo que pode ser o culpado. 

Num workshop em Harvard, a equipe relatou que uma erupção vulcânica cataclísmica ocorrida na Islândia expeliu cinzas no Hemisfério Norte no início de 536. Duas outras erupções maciças se seguiram, em 540 e 547. Os golpes repetidos, seguidos de peste, mergulharam a Europa em estagnação econômica que durou até 640, quando outro sinal no gelo – um pico de chumbo no ar – marcou um ressurgimento da mineração de prata, e retorno a certo grau de normalidade.


Para Kyle Harper, reitor e historiador medieval e romano, o registro detalhado de desastres naturais e poluição humana congelados no gelo "nos dá um novo tipo de registro para entender quais as causas naturais que levaram à queda do Império Romano - e os primeiros movimentos da nova economia medieval."

Desde que estudos de anéis de árvores na década de 1990 sugeriram que os verões por volta do ano 540 eram excepcionalmente frios, os pesquisadores procuravam a causa. Três anos atrás, núcleos de gelo polar da Groenlândia e da Antártida forneceram a pista. Quando um vulcão entra em erupção, ele expele enxofre, bismuto e outras substâncias na atmosfera, onde formam um véu que reflete a luz do sol de volta ao espaço, resfriando o planeta. Ao comparar o registro de gelo desses traços químicos com os registros climáticos de anéis de árvores, uma equipe descobriu que quase todo verão excepcionalmente frio nos últimos 2.500 anos foi precedido por uma erupção vulcânica. Uma erupção maciça se destacou no final de 535 ou início de 536; outra se seguiu em 540. A equipe de Sigl concluiu que o golpe duplo explicava a escuridão e o frio prolongados.

A equipe decidiu procurar as mesmas erupções em um núcleo de gelo perfurado em 2013 na geleira Colle Gnifetti, nos Alpes. O núcleo de 72 metros de comprimento sepulta mais de 2.000 anos de precipitação de vulcões, tempestades de poeira do Saara e atividades humanas bem no centro da Europa. A equipe decifrou esse registro usando um novo método de resolução no qual um laser esculpe lascas de gelo de 120 mícrons. A abordagem permitiu que a equipe identificasse tempestades, erupções vulcânicas e levasse a identificar a poluição nos últimos dois mil anos.

No gelo da primavera de 536, foram encontradas partículas microscópicas de vidro vulcânico. Ao bombardear os fragmentos com raios-x para determinar sua impressão digital química, a equipe descobriu um núcleo de gelo semelhante ao da Islândia. As semelhanças químicas convencem os geocientistas que as partículas no gelo provavelmente vieram do vulcão islandês. 


De qualquer forma, os ventos e os sistemas climáticos em 536 devem ter sido mortalmente perfeitos guiando as nuvens de erupção para o sudeste, através da Europa e, mais tarde, para a Ásia, lançando uma mortalha fria à medida que a névoa vulcânica dominava a paisagem. O horror das pessoas diante dessa nuvem que encobria os céus, deve ter sido inenarrável. A cobertura devia resplandecer com cristais de vidro concedendo uma coloração avermelhada ao firmamento. Algo que permaneceu igual por meses.

Um século depois, em 640 a prata voltou a ser fundida com minério de chumbo, sinal de que o metal precioso estava em demanda em uma economia se recuperando do golpe de um século antes. Um segundo pico de chumbo, em 660, marca uma grande infusão de prata na economia medieval emergente e uma mudança cada vez maior no panorama. Os sinais de chumbo viriam a desaparecer novamente durante a Peste Negra de 1349 a 1353, revelando uma economia que novamente se achava estagnada.

Quem poderia imaginar que a análise de extratos de gelo poderia revelar tantos detalhes sobre a nossa história, inclusive os mais obscuros.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Ctônianos - Os terríveis causadores de Terremotos


"Tentáculos serpenteando e um corpo alongado, cinza-escuro e polpudo... 
nenhuma característica distintiva além dos tentáculos que se estendiam e tateavam. 
Ou havia - sim - um nódulo na parte superior do corpo da coisa... 
uma espécie de recipiente para o cérebro, gânglios e órgãos doentios 
que governavam a vida repugnante daquele horror! „

- Brian Lumley, The Burrowers Underath

*     *     *

Ctônicos são criaturas que guardam pouca semelhança com qualquer outra forma de vida no planeta e podem, segundo alguns teóricos ser uma subespécie dos terríveis Dholes. Há semelhanças, como o fato de ambas espécies serem subterrâneas, vermiformes e que compartilham do mesmo habitat, contudo, o principal diferencial entre eles diz respeito ao tamanho, uma vez que os Dholes são monstros colossais com centenas de metros de comprimento.

Comparativamente, os Ctônicos são menores, com indivíduos adultos medindo entre 5 e 8 metros de comprimento e pesando entre quatro e cinco toneladas - embora indivíduos maiores já tenham sido avistados. As criaturas possuem um corpo alongado em formato tubular com uma grossa carapaça revestindo toda extensão. Essa camada coriácea é tão densa que resiste facilmente a temperaturas elevadas e protege as criaturas mesmo de potentes explosões. Uma espingarda disparada à queima roupa encontraria dificuldade em penetrar na carne da criatura e provocar algum ferimento. A parte posterior das criaturas é totalmente encouraçada, contudo a porção anterior, que corresponde à cabeça, é menos guarnecida pela armadura natural. Esta cabeça, uma massa de carne musculosa e úmida, fica alojada em uma espécie de estojo. Dela despontam entre 10 e 14 tentáculos prenseis que se alongam até 6 metros. Os tentáculos são geralmente lisos, contudo alguns podem formar grânulos de sucção que ajudam a criatura a apanhar e puxar objetos com maior facilidade. Os tentáculos são incrivelmente fortes capazes de agarrar e levantar uma viga de construção ou dobrar uma barra de aço de uma polegada. Eles são o método principal de ataque dos Ctônicos, usados para dilacerar seus oponentes. Alternativamente eles também atacam esmagando ou capturando alvos que são então arrastados para o subterrâneo e devorados.   

A boca do Ctônico é uma estrutura em forma de cone localizada no centro da cabeça, com uma série de cerdas serrilhadas que fazem o papel de dentes. Alimentos empurrados através do tubo bucal são fatiados por essas cerdas a medida que escorregam para o interior oco. Ctônicos são carnívoros, embora possam obter outra forma de nutrição, possivelmente proveniente de sais minerais no solo. Eles parecem nutrir uma satisfação especial em se alimentar de seres humanos e o fazem quando possível. 


Os Ctônicos não possuem estruturas sensoriais similares ao que conhecemos como olhos, nariz ou orelhas, de modo que sua percepção depende exclusivamente de vibrações no solo. Um membro da espécie é capaz de captar leves vibrações no solo e interpretá-las, reconhecendo padrões. Dessa forma eles podem definir o peso ou número de indivíduos próximos a eles. Além disso, seu sistema sensorial é reforçado pela sua telepatia latente que detecta outras formas de vida com um alcance de quilômetros. 

O cérebro da criatura, dividido em 6 lobos, fica protegido sob várias camadas de pele esponjosa que tem o propósito de absorver impacto. A complexidade do córtex é notável, possuindo 50% mais neurônios que os seres humanos e pesando em média quase dois quilos e meio. Esse cérebro portentoso é a fonte dos dons telepáticos da espécie. Além de projetar uma "voz mental" que estabelece comunicação, um Ctônico adulto pode acessar a mente de um ser humano e afetá-lo. Entretanto, essa é uma interação rude, não um tipo de "controle mental". A criatura implanta uma espécie de sugestão que nubla a percepção momentaneamente. Uma pessoa afetada pode agir estranhamente e tomar decisões atípicas, como por exemplo caminhar até a beira de um precipício ou soltar um objeto, mas nada muito além disso.     

Atrás da cabeça do Ctônico há uma glândula musculosa que secreta uma substância mineral betuminosa quando estimulada por fricção. Ela espalhada a substância pelo corpo a medida que a criatura se move, recobrindo-a por inteiro quando ela se arrasta. Essa substância é responsável por proteger a criatura, facilitar sua locomoção e supostamente, por propiciar a dissolução de minerais através do qual ele pode então se mover. Não se sabe exatamente como essa substância age uma vez que amostras são quase impossíveis de serem obtidas já que ela se desfaz em poucos segundos depois de liberada do corpo. A substância também preserva o Ctônico. Uma vez morto a glândula cessa sua produção e o organismo inteiro seca e se desfaz rapidamente. Isso explica porque a carcaça de tais seres nunca é encontrada.


As colônias desses seres se encontram exclusivamente nos subterrâneos, estendendo-se por quilômetros de túneis e passagens que penetram na Terra até profundezas inimagináveis. Essas colônias são formadas por pelo menos meia dúzia de indivíduos adultos e geralmente por alguns filhotes que são zelosamente protegidos coletivamente. Os Ctônicos não são especialmente conhecidos por sua tecnologia (aparentemente, eles não veem necessidade em ferramentas), contudo alguns acreditam que estranhos engenhos de dimensões titânicas, encontrados no fundo do mar, possam ter sido criados por eles em algum momento do passado distante. O misterioso objeto supostamente encontrado nas profundezas do Mar Báltico em 2012, seria apenas o último desse enigmáticos itens cujo propósito permanece desconhecido.

Uma teoria controversa é que as colônias se formariam com o objetivo de render homenagem ao Deus principal da espécie, Shudde M'ell, um Ctônico de proporções gigantescas que habita os alicerces da cidadela de G'Harne. Sabemos pouco sobre costumes religiosos, mas conjectura-se que o Deus projeta emanações psíquicas que são captadas pelos demais membros da espécie e interpretados como ordens de sua vontade. Shudde M'ell seria responsável entre outras coisas por migrações, por determinar a temporada de acasalamento e a realização de ataques. De tempos em tempos, os Ctônicos peregrinam para G'Harne para as bênçãos de sua deidade. Embora sejam nômades por natureza, há lugares em que as colônias se fixam mais frequentemente sendo o Planalto Central da Ásia, as planícies da Mongólia, o Oriente Médio e sob os Andes seus locais favoritos - não por acaso, todas, áreas sujeitas a instabilidade sísmica.

Uma das características mais aterrorizantes sobre os Ctônicos envolve sua capacidade de provocar terremotos. Por séculos conjecturou-se que o simples movimento dessas criaturas, criando seus túneis, seria suficiente para ocasionar os tremores de terra. Estes seriam decorrentes de desabamento em seus túneis, contudo, é possível que eles conscientemente provoquem terremotos com a intenção de causar destruição em larga escala na superfície. Um grupo suficientemente grande de Ctônicos pode se reunir com o objetivo de criar um terremoto, bastando para isso se posicionar sob o local que desejam atingir. Nessas ocasiões, as criaturas costumam realizar uma série de movimentos calculados que tem como objetivo incidir sobre determinadas placas tectônicas. A sensibilidade desses seres em encontrar as placas adequadas é notável tornando possível atingir uma área específica e provocar dano localizado. Com o devido conhecimento geográfico, um grupo de Ctônicos é capaz de concentrar sua ação e atingir uma vizinhança, um bloco de construções ou mesmo uma única edificação, por exemplo uma casa. 


Muito mais temida, no entanto, é a capacidade de causar terremotos em larga escala. Para esse intento, um grupo grande de Ctônicos precisa se juntar, criando as condições para um massivo cismo que se espalha por uma área de quilômetros de diâmetro, centrada no ponto em que eles se reuniram. Esse tipo de cooperação tende a ser rara e os Ctônicos a reservam para casos extraordinários. Suspeita-se que grandes terremotos ocorridos ao longo da história tenham sido causados, ou ao menos potencializados pela ação de Ctônicos. Seu propósito seria punir humanos na superfície. Em geral, tal coisa ocorre como retaliação diante de alguma ação prévia, em especial alguma que tenha afetado uma colônia e custado a vida de indivíduos jovens. No passado, certas sociedades humanas, ofereciam aos Ctônicos sacrifícios para aplacar sua ira, acreditando que tais medidas podiam conter terremotos. 

Teóricos do Mythos conjecturam que o terremoto que devastou Knossos, capital da Civilização Minoana em 1500 aC possa ter sido causado por Ctônicos. Os gregos teriam sido os primeiros a reconhecer a existência dos Ctônicos. Posteriormente, o Terremoto que atingiu Antióquia em 115 dC também pode ter sido obra desses seres. Há suspeitas que a Catástrofe de Lisboa (1755) e o Tremor de Tabriz (1780) foram intentados por colônias localizadas sob a Península Ibérica e Pérsia. Em épocas mais recentes pesa uma suspeita sobre os trágicos terremotos de San Francisco (1906), Yokohama (1923), Tangshan (1976) e Port au Prince (2010).

Historicamente, poucas forças da natureza são mais temidas do que terremotos. Desde a aurora da civilização, a humanidade se ressente de sismos de terra e do poder destrutivo por eles liberado. Em poucos segundos, um terremoto é capaz de arrasar com uma cidade e transformar obras que demoraram séculos para serem erguidas em pilhas de entulho e ruínas. Nesse contexto, se os Ctônicos realmente um dia declararem guerra aos humanos, há pouco que poderíamos fazer para nos resguardar de seus ataques e menos ainda para prevenir suas ações. Não por acaso, muitos estudiosos consideram que os Escavadores estão entre as maiores ameaças para a nossa existência no planeta.