domingo, 20 de abril de 2025

Dicionário do Mythos de Cthulhu: LETRA A de "ADUMBRALI"

ADUMBRALI

No universo do Mythos existem realidades, planos e dimensões que se justapõem aquilo que entendemos de modo muito simplório como "o mundo real". Por intermédio de rituais arcanos, pela vontade de algum Deus ou por incidência de fenômenos não inteiramente compreendidos, incidentalmente ocorre um estreitamento ou rompimento no tecido que separa as realidades. O resultado pode ser uma incursão de entidades e seres que habitam esses outros planos e que transacionam para o nosso lado.

O incrivelmente raro Cântico de Yste, uma compilação de tradições ancestrais da África setentrional fala à respeito de uma dessas espécies, os Adumbrali. Esses seres obscuros são atraídos por fraturas dimensionais e não raramente se dedicam a explorar nossa realidade, por vezes, interagindo com o mundo natural. Essa interação tende a ser desastrosa uma vez que os Adumbrali são predadores contumazes que buscam satisfazer seus instintos de caça. Eles costumam perseguir animais e humanos sem distinção, arregimentando, torturando e depois matando suas presas. Não é claro se eles se alimentam de suas vítimas, mas acredita-se que o processo envolve a absorção de energia vital. Algumas tribos subsaarianas mencionam os Adumbrali como demônios de sombras que se deliciam com a crueldade e massacre. Eles são vistos como uma presença aterrorizante.

O método preferido de caça dos Adumbrali envolve mesmerismo. Eles são adeptos de uma forma de hipnose utilizada para confundir e nublar a percepção das vítimas. Não se sabe exatamente como opera essa sugestão hipnótica, mas há suspeitas de que ela é estabelecida por intermédio de feromônios incidindo sobre o sistema límbico, gerando uma resposta fisiológica. A vítima se sente tranquila e é atraída para perto do Adumbrali sem perceber qualquer perigo iminente. Quando está ao seu alcance, o predador estende uma série de gavinhas fluidas que agarram e puxam até sua massa insubstancial. Essas gavinhas finas se assemelham a um emaranhado de cabelo trançado e são a única parte substancial dos Adumbrali.

Os nativos se referiam a essas criaturas nas suas lendas como "sombras vivas" e a descrição é bastante adequada. 

Os Adumbrali se assemelham a glóbulos de escuridão perene que flutuam graciosamente no ar. Eles se movem horizontalmente, mas por vezes rastejam, escalam ou se fixam em superfícies verticais onde encontram proteção do sol. Ravinas, fossos ou rochas são lugares adequados para se proteger da luz que lhes causa incômodo. Um espécime típico mede algo entre 1,80 e 2,30 metros e parece uma sombra disforme ou uma mancha não reflexiva de negrume uniforme. Outra particularidade é que a área imediatamente próxima a eles se torna fria. Como sombras que são, eles não podem ser tocados e portanto são impérvios a qualquer contato físico não podendo ser feridos. Para afastá-los o Cântico de Yste menciona o uso de fogo, mas tal método não é garantido. Quando agarra uma presa e a puxa para si, o Adumbrali a absorve causando severas queimaduras semelhantes às de congelamento. Os cadáveres são encontrados com ulcerações arroxeadas de formato arredondado, tratadas como "mordidas".

Felizmente as condições de nossa realidade não são as ideais para os Adumbrali que depois de algumas semanas experimentam desconforto. Isso os motiva a retornar para sua dimensão à despeito de seu interesse por continuar caçando. Se impossibilitados de regressar eles sofrem progressiva degeneração que termina por consumi-los. Um Abrundali "morto" não deixa qualquer resquício ou marca, simplesmente desaparecendo.

Um Adumbrali fixado em uma superfície vertical se assemelha a uma sombra deslocada. Na imagem é possível ver o movimento de suas gavinhas tentaculares.  

A presença de um Adumbrali registrada em fotografia.

Três Adumbrali se alimentando de uma mesma presa.

Uma representação simples de um Adumbrali 


Bônus:

CÂNTICO DE YSTE

“... E estes não são outros senão os Adumbrali, as sombras vivas, seres de incrível poder e malignidade, que habitam fora dos véus do espaço e do tempo como os conhecemos. 
Sua diversão é caçar e atormentar os habitantes de outras dimensões, sobre os quais praticam atos horríveis e múltiplas ilusões...”

Um coleção alegórica de músicas, versos e costumes de tribos subsaarianas. Em geral o Cântico não é registrado, sendo uma tradição oral passada através das gerações. Entretanto, trechos do Cântico de Yste no idioma Seduu e benuê, podem ser encontrados em rochas e estruturas pictóricas no Mali, na Costa do Marfim e no norte do Congo.

A primeira vez que esses símbolos etnográficos foram reconhecidos eles foram categorizados pelo pesquisador belga Henry Bertrand Duamis no século XIX. Posteriormente Duamis buscou compilar as histórias orais dos povos congoleses, interessado em publicá-los em um livro. Seu projeto jamais foi concluído, mas o que se sabe é resultado de fragmentos de sua pesquisa.

Segundo Duamis, os textos foram criados por um povo ou clã antediluviano chamado Dirka cuja ancestralidade pode ser traçada aos primeiros homens. Os Dirka possuíam extenso conhecimento místico e dominavam a feitiçaria do Mythos. É possível que tenham estabelecido um ou mais cultos devotados a entidades primais como Tsathoggua.

O Cântico de Yste é famoso por relatar incursões de criaturas interdimensionais conhecidas como Adumbrali que atuam como predadores. Além de nomear tais criaturas ele cita como eles agem e como elas devem ser evitadas.

Parte dos escritos de Duamis se encontram no arquivo do Museu Etnográfico da cidade de Lyon, na França. Eles também podem ser achados em fac-símile na Biblioteca do Louvre, na Universidade de Bruxelas e outras instituições com interesse antropológico. É possível que anotações também estejam com descendentes da família Duamis que guardaram o trabalho de seu antepassado.         

Henry Bertrand Duamis (c.1878)

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Casa Boleskine - A Morada que o Senhor Crowley construiu


Quem conhece o Mundo Tentacular sabe que o blog tem alguns personagens recorrentes que vez ou outra surgem em nossos artigos. São as tais figurinhas carimbadas que tiveram uma vida tão cheia de reviravoltas que ainda causam fascínio e interesse.

Uma dessas pessoas sem dúvida é o místico, pensador, filósofo, autor e mago Aleister Crowley. Apelidado ainda em vida "o Homem mais Perverso do Mundo", Crowley foi uma figura peculiar que atraiu a atenção pelos seus feitos e desfeitos. Para quem quiser ler à respeito do caríssimo Mister Crowley (sim, esse mesmo da música feita em sua homenagem) basta clicar no link que estará no final da postagem.

Mas nesse artigo em especial falaremos à respeito de sua renomada (ou seria infame?) morada.

Aleister Crowley residiu parte de sua vida, entre 1899 e 1913, em uma Mansão que ele mandou restaurar chamada Casa Boleskine, localizada às margens do Loch Ness. É importante notar que não foi um acaso aleatório que levou o místico também conhecido como "a Grande Besta" ao coração dessa região isolada da Escócia. O fato é que ele via uma importância mística nesse local ermo, algo tão significativo quanto o propósito que ele tinha em mente. Crowley pretendia usar a Casa como cenário para um complexo experimento batizado de Ritual de Magia Sagrada de Abramelin, o Mago. Para realizar com sucesso o tal experimento, Crowley precisava encontrar uma morada que se encaixasse perfeitamente nos requisitos do ritual, uma que precisasse estar especificamente situada em um local isolado e que cumprisse certos requisitos. Há, no entanto, muitos elementos estranhos na história da Casa Boleskine.

Segundo a lenda, a casa foi construída sobre as ruínas de uma igreja do século X que foi destruída por um incêndio durante um culto, matando todos os fiéis que estavam lá dentro. A acontecimento reverberou na história local, não apenas por conta do teor trágico, mas por conta da superstição de que os mortos ali continuava vagando pelas imediações. Não por acaso a fama de assombrado se espalhou rapidamente e os vizinhos do terreno evitavam passar por ali mesmo durante o dia. Uma história recorrente afirmava que figuras sombrias e espectros com queimaduras e ferimentos medonhos podiam ser vistos perambulando por ali. Também havia o cheiro de fumaça e carne queimada que podia ser sentido há quilômetros de distância quando o vento soprava do lado para a terra.


A casa tem vista para o Cemitério Boleskine, no sopé da colina, que há muito tempo é palco de acontecimentos ocultos. O Cemitério teria recebido corpos de bebês indesejados não batizados, de mães que morreram durante aborto, de criminosos executados e claro, de suicidas. Todos os mortos indesejados eram sepultados na faixa de terra escura daquele cemitério maldito. Com ciprestes retorcidos e salgueiros tristonhos o lugar possui uma aura de melancolia.  

A mansão e o cemitério estão inexplicavelmente ligados por um túnel de pedra que se estende do porão da mansão até o sombrio interior da necrópole. Talvez ele tenha sido construído para que um guarda-mor alertasse o dono da casa sobre qualquer roubo de cadáver. Dizem que tal coisa costumava acontecer frequentemente: pregos de caixão, crânios de fetos e a mão esquerda de enforcados eram artigos usados em rituais de magia negra. Também se falava de práticas nefastas de necrofilia e necrofagia acontecendo naquelas premissas. Seja como for, a Casa e o Cemitério estavam conectados não apenas por essa passagem, mas pela história.

Vários dos antigos residentes de Boleskine foram enterrados no cemitério próximo e era uma espécie de tradição que o mais imponente mausoléu despontando na ravina fosse usado para esse fim. A estrutura de pedra cinzenta e ardósia esverdeada reúne os ossos de dezenas de senhores que chamaram a mansão como seu lar.

A mansão também tem vista para o Lago Ness, famoso pelo lendário Monstro do Lago Ness. As janelas do segundo andar e do sótão concedem uma vista magnífica do lago de águas plácidas e escuras. Mais de uma história relata avistamentos estranhos rompendo a linha da água e de borbulhas que surgem perturbando a superfície.  


Aleister Crowley comprou a Casa Boleskine em 1899 para se isolar do mundo e gozar da privacidade que praticar magias demandava. Ele almejava um lugar afastado onde poderia estudar o Livro da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago, mal traduzido por seu mentor, o fundador da Ordem Hermética da Aurora Dourada, Samuel Liddell MacGregor Mathers. Crowley era fascinado pela Magia Ritual e acreditava que através dela, o Mundo Real e Espiritual poderiam se conectar.

Foi durante seu tempo em Boleskine que a Grande Besta mergulhou de cabeça no ramo mais obscuro do espiritualismo e nas práticas de magia negra. Crowley acreditava que Boleskine oferecia as condições ideais para seus ritos, fosse pela teatralidade do ambiente soturno ou pelas reverberações sinistras de sua biografia.  

Em algum momento desse período, Mathers, que havia se exilado em Paris, chamou Crowley para a filial da Ordem Hermética da Aurora Dourada que havia criado. Crowley atendeu ao chamado e partiu para se juntar ao seu mentor na França e dali seguiu para outros projetos no campo do misticismo.  

O mago partiu de forma intempestiva, supostamente sem dissipar os "12 Reis e Duques do Inferno" que havia invocado na casa durante os rituais que lá realizou. Pessoas que inspecionaram a casa disseram sentir uma aura esmagadora de ameaça no ar, o que combinava com os muitos altares montados no pátio e símbolos de proteção desenhados no assoalho da sala e quartos. Crowley traçou esses símbolos no chão, no teto, nas portas e nas janelas para confinar o que quer que ele tenha invocado e impedir que estes saíssem. Contudo ele mesmo tinha dúvidas sobre o que havia trazido para a casa e lá aprisionado. 

Muitos moradores locais atribuem a história infeliz da casa aos espíritos malignos deixados para trás. Crowley, que nunca admitia erros, chegou a reconhecer que os rituais que realizava na Casa Boleskine haviam saído do controle. Poderiam representar um perigo real para alguém entrando lá inadvertidamente.


Ainda assim, quando partiu para a França ele deixou uma família para tomar conta da propriedade. A filha de 10 anos e o filho de 1 ano da governanta que lá trabalhava morreram misteriosa e abruptamente. Doenças e acidentes se multiplicavam e a criadagem precisava ser substituída com frequência. As pessoas não queriam ficar lá e logo o staff foi reduzido e restringido apenas a um guarda que morava próximo e que se dispunha a ir uma vez por semana, durante o dia, averiguar se as portas estavam trancadas. Um rumor muito difundido é que esse guarda encontrava janelas e portas abertas mesmo que não houvesse sinal de que viva alma tivesse estado lá. 

Outra história macabra foi contada pelo próprio Crowley a amigos. Ele relatou que um funcionário da propriedade, que havia se abstido de álcool por muito tempo, ficou bêbado e tentou assassinar toda a sua família. O escândalo foi abafado, mas o homem, que posteriormente foi colocado sob os cuidados de um manicômio, acabou cometendo suicídio ao cortar a garganta com uma navalha. 

Eventualmente Crowley decidiu que era o momento de se livrar de Boleskine. Ele chegou a cogitar retornar a Mansão e realizar um grande Ritual de Exorcismo que expulsasse as manifestações ali contidas, contudo tal medida jamais foi levada adiante. A Grande Besta tinha receio de que isso poderia ser perigoso, visto que as forças lá dentro se ressentiam profundamente dele. Até onde se sabe, Crowley jamais retornou para Boleskine e para vendê-la utilizou agentes imobiliários. Seus objetos pessoas, sobretudo a vasta biblioteca, foi encaixotada e despachada de volta para Londres.

Mas mesmo depois da casa mudar de mãos, as energias negativas ali represadas não se dissiparam e tragédias continuaram acontecendo. 

Em 1965, um Major do Exército que havia comprado a casa cometeu suicídio com um tiro de espingarda na boca. Seu corpo foi achado semanas depois e dizem que sua face ficou transfigurada por um terror presenciado antes do ato extremo. Depois disso, um casal recém-casado mudou-se para a casa. A esposa era cega e, depois de um mês, o homem foi embora, deixando a mulher abandonada vagando sem enxergar. Em 1969, Kenneth Anger, um cineasta experimental interessado em ocultismo, soube que a casa estava à venda e a alugou por alguns meses. Ele também partiu alegando não ter suportado o "duro fardo de viver naquele lugar".


O próximo proprietário foi uma celebridade sombria de um tipo diferente: Jimmy Page, da banda Led Zeppelin. Page, que nutria interesse pelo ocultismo comprou a casa cogitando realizar lá algumas experiências ritualísticas em especial as delineadas por Crowley de quem ele era fã. O músico esperava que a aura de Boleskine pudesse contribuir para seu aprimoramento místico. Page passou muito pouco tempo na propriedade, ele a considerou desagradável e alegadamente teve pesadelos que o deixaram aterrorizado. A casa foi passada para um amigo e sua família e este relatou não se importar com os rangidos, gemidos e várias aparições fantasmagóricas inexplicáveis que ocorriam no local. O que mais o incomodava eram os fãs de Crowley e Page que frequentemente tentavam invadir a casa e profanar o terreno.

Proprietários posteriores descartaram qualquer ideia de assombrações ou bruxaria na casa, mas a tragédia continuou a assolar a região. Em 2015, os moradores da casa retornaram de uma ida às compras e encontraram a casa completamente em chamas. Não houve feridos, pois ela se encontrava vazia quando o incêndio começou.

Entre os muitos rumores da casa, persiste a narrativa de que Crowley realmente levou à cabo seu Grande Experimento Místico. Ele decidiu iniciar os preparativos na véspera da Páscoa de 1908, mas estes só se concluíram cerca de seis meses depois. Crowley observou que, devido a certos perigos sobrenaturais que o experimento poderia desencadear seria bom contar com alguém para auxiliá-lo, assim chamou um colega. O homem em questão era Charles Rosher, que, assim como Crowley, era membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada e amigo do professor de Crowley, Allan Bennett

Rosher pretendia ficar com Crowley por meses. Acabou partindo – ou melhor, fugindo – em no máximo três semanas. O motivo: a presença de forças malignas invisíveis que Rosher tinha certeza de que haviam se apossado da Casa Boleskine e que pretendiam tornar sua vida um inferno. Tal foi a natureza de sua partida precipitada que Crowley não sabia de nada até que seu mordomo o informasse de que seu amigo havia partido. Os dois não se viram novamente por anos pois Crowley considerou a fuga um ato de covardia extrema.

Não há muitos relatos sobre como transcorreu o ritual de Abramelin, o que é curioso já que Crowley adorava se gabar de suas proezas mágicas. É curioso que ele fosse muito discreto sobre esse experimento em especial, levando muitos a crer que ele tenha sido um fracasso retumbante. Mesmo assim, o sempre enigmático Crowley provocava seus colegas afirmando que certos assuntos não deveriam ser abordados. 


Se algo sobrenatural ou maligno havia descido sobre Boleskine House, não demorou muito para que começasse a afetar e infectar as pessoas que viviam ao redor do lago. Em certa ocasião, logo após se mudar para Boleskine, Crowley retornou à residência após um passeio pelas colinas, apenas para encontrar um padre sentado em seu escritório. Pálido como um fantasma e profundamente preocupado, o sacerdote confidenciou que o zelador da hospedaria, um homem chamado Hugh Gillies tentara matar sua família em um frenesi de violência repentino. 

Em outra ocasião, um velho amigo de Crowley dos tempos de Cambridge, visitou-o — e, como Charles Rosher, pretendia ficar por um longo período. Ele também não suportou a aura de Boleskine partindo em menos de duas semanas, após apresentar sintomas semelhantes aos de um ataque de pânico e dizer a Crowley, em tom de medo, que a Casa Boleskine estava repleta de espíritos terríveis e malévolos.

O próprio Crowley reconheceu existir algo sinistro na casa. Ele decidiu trabalhar no único cômodo que oferecia um grau razoável de luz solar – e que contrastava fortemente com o resto da casa. Era um lugar purificado, segundo o próprio, uma ilha de sanidade naquela mar caótico. Mas mesmo naquele cômodo Crowley foi forçado a introduzir iluminação artificial, tamanha era a atmosfera lúgubre. 

Apesar das dificuldades, a atração magnética do Loch Ness e da Casa Boleskine continuou atraindo a Grande Besta de volta à Escócia, e ele continuou com seus estudos e planos. Ele também se casou.

"Sempre me sentirei um pouco grato a Boleskine por me dar minha esposa", disse Crowley. Ele se referia à sua amada, Rose Edith Kelly, que desposou em 1903. "Embora, anos mais tarde", revelou, "essa união, que tanto significou para nós dois enquanto durou, tenha se tornado uma tragédia doméstica, catalizada pela casa onde decidimos viver. Boleskine não era boa para nosso matrimônio", contou.

O período de Crowley como Lorde e Senhor de Boleskine também foi marcado por graves disputas e desentendimentos. Um "mago rival" teria conjurado energias sobrenaturais que causaram a morte de sua matilha de cães farejadores. Crowley adorava seus cães e ficou furioso com essa ousadia. Ele reagiu através de rituais que visavam contra-atacar seu desafeto. Além disso, seus servos começaram a adoecer ou se demitir pois não gostavam da casa. Doenças e insatisfação eram algo mundano nesse emprego. Então, o pior de tudo aconteceu numa manhã. Crowley ouviu gritos e xingamentos selvagens e histéricos vindos da cozinha. Um empregado havia ficado inexplicavelmente furioso e atacou Rose. Tal era o estado de ferocidade do sujeito, que Crowley e sua equipe foram forçados a trancá-lo no porão e aguardar a chegada da polícia local.


Felizmente, Rose se recuperou, mas ela não se viu livre de infortúnios. Em 1911, Crowley foi forçado a interná-la em um asilo, devido a demência provocada por seu alcoolismo descontrolado. Embora não culpasse a casa por mais esse revés, ele com certeza suspeitava que o ambiente não era bom para a esposa. E de fato, quando deixou a casa em busca de tratamento, ela afirmou que a morada exercia uma forte influencia sobre sua condição geral.

Hoje em dia, a lendária Casa Boleskine segue mantendo um grande apelo popular como "lugar assombrado". Dada a sua tumultuada história, a fama é mais do que merecida ainda que provavelmente haja muitos exageros e invenções. Inegável contanto que o lugar desempenha um papel crucial na biografia de uma das figuras mais controversas e fascinantes do século XX.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Sepultado pela Eternidade - As precauções contra o retorno de um temido morto vivo


Um dos medos mais antigos, presente em diversas culturas e difundido entre incontáveis povos do passado era o medo dos mortos voltarem a vida.

Parece uma tolice hoje em dia, mas nossos antepassados aparentemente dedicavam boa parte de seu tempo livre tentando encontrar maneiras de impedir que as pessoas enterradas retornassem para incomodá-las. O terror era tamanho que há relatos no mínimo bizarros sobre práticas de contenção. Por exemplo, os persas contratavam vigias para manter guarda no perímetro de cemitérios e observar por pelo menos sete dias e sete noites se o morto não se erguia do lugar onde havia sido enterrado. Na Rússia medieval também havia essa preocupação e os caixões por vezes eram cobertos com pesadas pedras, lacrados com correntes ou então amarrados com cordas. Em algumas partes da China era um costume bastante difundido prender nos tornozelos de cadáveres suspeitos bolas de ferro para restringir seu movimento.

Mas sempre há casos que extrapolam e vão longe demais.

Arqueólogos escavando um sítio da antiga cidade romana de Sagalassos, no sudoeste da Turquia, se depararam recentemente com uma tumba do século II d.C. que foi preparada para impedir que seu ocupante perambulasse por aí. Uma área de aproximadamente 30 metros ao redor do mausoléu em questão foi especialmente preparada para impedir o cadáver de incomodar os vivos.

Os especialistas relataram a descoberta do mausoléu que se difere de todos outros depósitos funerários da antiga necrópole. Neste contexto específico, os restos humanos foram cercados por uma série medidas cautelares que incluem até memso armadilhas visando deter o morto à qualquer custo. Johan Claeys, arqueólogo da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, descreveu além dos obstáculos, rituais mágicos e truques com o intento de preservar o homem debaixo da terra. 

O mausoléu remonta a 100-150 d.C., quando Sagalassos estava sob domínio romano. Claeys e sua equipe trabalham como parte do Projeto de Pesquisa Arqueológica local e a primeira coisa que chamou a atenção deles foi a maneira como este homem foi depositado no mausoléu. Em funerais normais o cadáver era colocado em uma profundidade de 1,50 metros (os proverbiais sete palmos), mas esse morto foi colocado a quase 4 metros abaixo do nível do solo. O caixão foi lacrado com pregos, acorrentado e atado com uma corda. Além disso na tampa do ataúde foram desenhados cuidadosamente símbolos cujo propósito era apaziguar o espírito.

Mas os cuidados não pararam por aí!

Seja lá quem tenha enterrado esse cadáver, seu objetivo era não deixar nenhuma brecha para o inesperado. Os arqueólogos encontraram os restos de 5 gatos que teriam sido sacrificados e sepultados no mesmo espaço - gatos eram tidos como guardiões do mundo espiritual, portanto sua função era impedir qualquer incidente não natural. 

Próximo dos felinos foi erguida uma mureta com um metro de altura composta de tijolos isolando uma camada grossa de cal viva, colocado ali para causar queimaduras em quem andasse sobre ela. O estudo observa que cal viva era usada como uma prevenção a necrofobia e como medida protetiva contra vampiros, carniçais e fantasmas. No entanto a quantidade da substância chama a atenção. O cal podia ser frequentemente utilizado para evitar a putrefação ou para proteger os vivos de qualquer doença que o falecido tivesse, mas essa não parece ter sido a principal razão aqui.
 
O mais impressionante, entretanto, foi a descoberta de uma derradeira medida protetiva - uma legítima armadilha. Telhas finas de terracota foram colocadas cuidadosamente sobre um fosso de três metros, escavado ao redor da tumba. No fundo dessa trincheira haviam centenas de pregos de ferro. Os pregos eram ferramentas comuns para afastar o mal - Plínio, o Velho, escreveu sobre o uso de pregos para combater pesadelos, enquanto outros textos se referem a eles afastando espíritos malignos. Neste caso, era claramente a maneira de dissuadir o morto de sair do seu descanso eterno. 

"Nós já havíamos encontrado práticas de proteção similares na região, mas o fato delas estarem todas presentes aqui chama a atenção. A combinação de métodos restritivos, de medidas místicas, o uso da cal e da armadilha com pregos denota que tudo foi projetado por um medo profundo do cadáver. Independentemente da causa da morte ter sido traumática, misteriosa ou ainda o efeito de uma doença contagiosa ou punição, ela parece ter levado os vivos a temer uma possível retaliação do morto", relatou Claeys.

Mas quem seria o indivíduo ali sepultado e o que justificava tantos cuidados?

Infelizmente a lápide e as pedras que marcam o sepulcro não identificam quem está enterrado lá. Esse tipo de coisa é especialmente curiosa já que era costumeiro identificar as pessoas, sobretudo em um mausoléu de aparência tão impressionante. Os arqueólogos acreditam que dado o luxo da cripta a pessoa tenha sido alguém de posses: um mercador bem sucedido ou nobre de status social elevado.

Seja lá quem fosse esse homem falecido, ele obviamente aterrorizava aqueles que o enterraram. Os arqueólogos observam que todo o rito funerário aqui é confuso. Enquanto o falecido foi tratado com respeito e enterrado de maneira apropriada, foram as práticas posteriores ao enterro que demonstravam estar longe do normal. É como se o morto tivesse sido tratado de forma correta, mas posteriormente medidas tivessem sido adotadas para certificar que sua morte seria definitiva.  

Após a publicação das observações, estudiosos sugeriram outra possibilidade. 

Talvez o temor não fosse à respeito do morto retornar, mas de que alguém o incomodasse. Nessa interpretação a família do falecido o estaria protegendo da ação dos vivos e não o contrário. Na época do enterro, a região de Sagalassos era atormentada pela presença de necromantes - magos que interrompiam o descanso dos mortos e podiam usar partes deles em seus feitiços. Os restos de pessoas famosas ou ilustres eram, segundo a crença os mais valiosos.

O Professor Claeys, no entanto acredita que as medidas eram no sentido de evitar a fuga do morto, um temos muito mais palpável, do que o inverso.

"Algumas pessoas continuavam a ser temidas mesmo depois da morte. Estes indivíduos especialmente poderosos ou influentes mantinham essa aura de autoridade mesmo após serem declaradas mortas. Outra possibilidade é que o indivíduo tenha experimentado uma morte traumática, violenta ou incomum. Talvez até ele possa ter sofrido algum efeito de terceiros, o que justificaria o temor destes. Mortos retornando com o intuito de extrair vingança dos vivos era uma crença comum no período".  

Há muitas questões à respeito desse mausoléu peculiar e seu ocupante misterioso, mas os estudiosos esperam resolver ao menos algumas dentro em breve. Há planos para a abertura do caixão e uma investigação criteriosa de seu conteúdo, isto é, se realmente ainda existir alguém sepultado ali.

Hmmmm... abrir um mausoléu milenar repleto de armadilhas e coberto de avisos para não fazê-lo, o que poderia dar errado, certo?

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Nas Ruínas de Innsmouth - Antologia de contos da Editora Clock Tower em Financiamento Coletivo


Uma cidade pesqueira, isolada e evitada por todos os seus vizinhos que a temem com razão. Pois apenas os que vivem em Innsmouth ou nos seus arredores sabem os horrores indescritíveis que espreitam pelas suas ruas desertas. 

Entre a população local estão membros de um antigo Culto apocalíptico, a Ordem de Dagon. 

Muitos deles são descendentes dos fundadores dessa Ordem abominável. 

Muitos deles realizaram um pacto blasfemo com as profundezas.

Muitos deles foram pervertidos: mudaram e se transformaram. 

E agora não são mais humanos!

Innsmouth é uma das criações mais aterrorizantes do genial H.P. Lovecraft.


A Editora Clock Tower, responsável por publicar o que há de melhor e mais clássico no gênero Horror Cósmico, pioneira em vários lançamentos e textos que jamais haviam sido traduzidos em português mergulha nas lendas e mitos de Innsmouth para trazer uma antologia de contos inteiramente inspirada pela mais assustadora cidade da Terra Lovecraftiana.

Os contos que compõem essa antologia foram escritos por fãs e entusiastas do Horror, que tomaram emprestada a prosa e os conceitos de Lovecraft destilando sua visão particular sobre Innsmouth e seus inúmeros terrores.

"Nas Ruínas de Innsmouth", não é só uma expansão do ambiente presente em um dos maiores e mais famosos contos de H.P. Lovecraft. É uma homenagem ao autor do Cthulhu Mythos, Contos, poesias e ilustrações que darão uma nova visão sobre essa terra amaldiçoada. Além disso, haverá textos interconectando as histórias, tornando o livro uma narrativa fechada que aumenta o panorama da obra original.

Conheça a seguir o conteúdo do livro e quem são os participantes dessa coleção. 

SUMÁRIO

"Mistérios não revelados de Innsmouth" (introdução pelo editor)

1946 — Innsmouth, MA. (EUA) — Como tudo começou

Sombras que vêm do mar (Alexandre Callari) - Um homem sem esperança na vida vai passar uns tempos em Innsmouth. Lá tem contato com um ancião que o alerta sobre perigos da cidade, mas ele não lhe dá ouvidos, não imaginando o mal que está por vir. Uma história muito bem contada que remete com detalhes à cidade de Innsmouth e suas ruas misteriosas.

Um punhado final de consciência (Explorador) - A história de um pescador que começa a ser atormentado por estranhos pesadelos, sendo taxado de louco pelos amigos. Em uma bela noite, ele pega seu barco e rema para Innsmouth. Nos causou impressão muito positiva a imaginação do escritor desse conto.

O breve relato de um moribundo (Hugo Sales) - Um jovem vai para Innsmouth em busca de sua amada que não responde mais suas cartas. Lá se depara em um comércio com estranhos seres e depois com sua esposa, que agora está muito mudada.

O que descansa na escuridão (Dama Oliveira) - Essa é a história de duas meninas que tinham forte amizade, mas que são separadas, sendo que uma delas (órfã), após a adoção, vai parar em Innsmouth. Anos depois, elas se encontram nessa maldita cidade em meio a uma trama violenta e um destino que as une. Nos impressionou muito a força narrativa desse conto no que se refere a sentimentos entre pessoas do mesmo sexo, em meio aos horrores alienígenas de Innsmouth.

O relato de Natham White (Julius) - Essa é a história de um escravo chamado Nathan White. White trabalhava como marinheiro em um navio mercante, até que uma estranha tempestade fez a embarcação ficar à deriva, indo parar em Innsmouth. Lá tem contato com estranhos moradores e uma seita macabra que pode levar ele à loucura. O que impressiona é como o autor conciliou as questões relativas ao racismo e ao horror de forma magistral.


A morte em nome do deus proscrito (Marcos Faria Martins Filho) - Essa é a história do brasileiro José dos Anjos, que em um quarto de hospital psiquiátrico faz seu relato para uma enfermeira. Anjos explica a forma inusitada sobre como ele, do Brasil imperial, foi parar em Innsmouth e tudo o que de mais macabro presenciou no lugar. Um destaque para esse conto é sua forte ambientação e os detalhes históricos, haja vista o escritor ser historiador.

A mancha (Helton Lucinda Ribeiro) - Esse conto trata das aventuras de uma antropóloga da Universidade de Columbia em sua breve passagem sobre Innsmouth. Dr. Wilmarth da Miskatonic University aconselha ela não ir, mas mesmo assim, em pouco tempo a jovem chega à cidade desolada. E lá, uma estranha seita deseja ofertar sua filha que ainda está no ventre ao deus Dagon, mas isso é impedido por um fato muito inusitado. O destaque para esse conto vai na forma como o autor fez relação com outros elementos dos Cthulhu Mythos.

O relatório de Ethan Darkwood (Ari C. Freire) - Um corpo muito estranho é encontrado no Rio Miskatonic em Arkham e Ethan Darkwood foi chamado para dar uma resposta ao caso. Suas investigações o levam à cidade portuária de Innsmouth, onde seres híbridos, metade homem, metade peixe, reverenciam um deus chamado Dagon, segundo relata para ele o velho Zadok Allen. Mesmo assim, ele insiste em prosseguir suas investigações, que poderão levá-lo à loucura.

A noiva de Innsmouth (Lucas Freitas) - Essa é a história de um nobre que decide virar marinheiro e se depara com a cidade portuária de Innsmouth. Um destaque para o conto foi a escrita coerente, coesa. A escrita no que tange ao horror é primorosa, visível e acertada.

Arte de corpo e alma (Alex Rebonato) - Uma história sobre um curador de uma galeria de arte que, depois de um acidente, deixa-o obcecado por pinturas bizarras. Isso faz com que ele tenha pouco sucesso, mas chama a atenção de um habitante ilustre de Innsmouth, que o convida a conhecer essa cidade por um motivo muito peculiar. O destaque do conto vai para a força imaginativa do autor e a forma com prende nossa atenção a descrição dos fatos.

Os diários de Matt Eliot (Felipe Silva Carvalho) - Durante as investigações conduzidas por Selectman Mowry e que levaram à prisão de Obed Marsh, trechos do diário de Matt Eliot foram utilizados como evidência. Os relatos são uma linha do tempo que conecta a primeira viagem do Sumatry Queen ao início do culto a Dagon, que culminou no declínio de Innsmouth. O destaque para esse conto foi a qualidade como o autor inseriu fatos relativos aos eventos da novela A Sombra sobre Innsmouth (como a prisão de Obed Marsh), de forma muito detalhada.

A canção de Scyllintha (Luciano Reis) - De volta a sua cidade natal, Innsmouth, um marinheiro terá que encarar o seu passado, enfrentar seus medos e descobrir uma verdade oculta, abissal e mortífera, ao som de uma hipnótica e sedutora melodia. O destaque foi a criatividade e originalidade da história muito bem escrita. É ótima a construção narrativa.

Dos confins do tempo (Focinho Curto) - Uma vila de pescadores enfrenta a escassez de alimentos. Isso obriga os seus moradores a irem cada vez mais longe no mar, aproximando-se do temido Recife do Diabo e da estranha cidade de Innsmouth. Poderes ancestrais estão prestes a se manifestar. O destaque vai como o autor explora de forma aterrorizante Innsmouth, conto ótimo e bem escrito.

O bibliotecário em Innsmouth (Luciano Paulo Giehl) - A misteriosa doação de um raro volume para o acervo da Universidade Miskatonic leva um bibliotecário até a decadente cidade de Innsmouth. Mas aquilo que parecia um trabalho corriqueiro se transforma em pesadelo quando ele descobre que entrar nessa cidade pesqueira é mais fácil do que sair. O destaque vai para a história que foi muito bem escrita e desenvolvida, utilizando de forma perfeita elementos dos Cthulhu Mythos.

Epílogo

A prisioneira de Innsmouth (Liveira) - poesia

Cântico para Dagon (Paulo R. Caetano Tonon) - poesia

A Editora Clock Tower está oferecendo esse livro no formato de Financiamento Coletivo em uma campanha que se iniciou hoje. As metas extras contemplam material adicional, extras, contos, mapas e muito, muito mais...

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terça-feira, 1 de abril de 2025

Últimas notícias sobre a produção do filme vindouro baseado em Chamado de Cthulhu

Acompanhamos recentemente o anúncio oficial da produção do filme "O Chamado de Cthulhu" obra baseada no conto de mesmo nome escrita pelo pioneiro do Horror Cósmico H.P. Lovecraft.

As notícias até então davam conta de que James Wan, o criador da franquia Invocação do Mal e de produções de sucesso como Aquaman seria o diretor. Wan sempre se mostrou um entusiasta do gênero e em entrevistas recentes deixou claro ser também um fã ardoroso dos Mythos de Cthulhu.

Entretanto, como em Hollywood nada é certo, temos atualizações surpreendentes sobre a pré-produção e elementos que colocam a proverbial pulga atrás da orelha dos entusiastas do gênero. São notícias polêmicas que causaram um misto de apreensão e dúvida entre os fãs do cultuado autor, gerando debates acalorados sobre como o filme será tratado e em que bases a história será contada.

Um dos pontos mais preocupantes é justamente a saída de James Wan do projeto. Ele que seria o Produtor e Diretor da produção acabou se afastando alegando dificuldades irreconciliáveis com o roteiro e escolha de elenco ainda em fase de escolha. Wan era visto por alguns como uma boa opção para capitanear o projeto, mas outros o enxergavam com reservas, alegando que outros diretores como Guilhermo del Toro poderiam assumir a direção e tratar a obra com o respeito merecido. 

A reportagem abaixo é da Revista Variety que estampou essa reportagem em sua edição deste mês:

*     *    *

Adaptação de Filme de Horror ganha sinal verde 

por Les Dan Hill

Nessa segunda -feira, Hollywood anunciou oficialmente a adaptação cinematográfica de O Chamado de Cthulhu. O projeto será desenvolvido pela Sony Pictures, conhecida por suas tentativas controversas de revitalizar franquias clássicas nos últimos anos. A produção está sendo descrita como "um filme de terror e aventura", com uma abordagem com mais ação que o aproxima de produções como "A Múmia".

O escolhido para dirigir o longa é Zack Snyder, nome conhecido na indústria do entretenimento com a adaptação competente de blockbusters como Madrugada dos Mortos, 300 e Watchmen. Snyder fez seu nome à frente das produções do Universo de Heróis da DC Comics pela Warner Bros. Um nome que divide opiniões, Snyder possui defensores fiéis que o veem como um visionário na mesma medida que outros o criticam por excessos cometidos em suas produções. Ele é conhecido por filmes como O Homem de Aço, Batman versus Superman e Liga da Justiça, que tiveram obviamente grande repercussão, mas que não lograram o êxito financeiro esperado. 

Os filmes de Snyder possuem os requisitos necessários para criar um horror intimista e questionamentos morais sobre a história relatada. Isso e longas sequências em câmera lenta que tornaram sua marca registrada. Na reunião de anúncio da produção em Los Angeles, o diretor disse: 

"Meu objetivo é trazer algo novo para Lovecraft, algo com terror e perguntas existenciais. É claro haverá espaço para os elementos essenciais típicos da obra, mas planejo aprofundar as discussões existencialistas que estão entranhadas nas palavras de Lovecraft. Por isso o filme deve ter algo em torno de 3 horas e meia de duração", declarou Snyder.

No elenco, as escolhas foram bastante surpreendentes senão inesperadas. 

A estrela Jason Strathan interpretará o protagonista, um detetive cético que investiga uma série de assassinatos em Nova Orleans. Kevin Hart foi escalado como seu parceiro, vivendo um personagem que não está na trama original. No papel de vilão, a produção optou por Jared Leto, que já sinaliza com uma atuação "imersiva e perturbadora nos moldes de seu Coringa". Ele fará o papel de um cultista excêntrico com uma pesada maquiagem facial.

Completam o elenco Ezra Miller e Ray Fisher que trabalharam com Snyder em Liga da Justiça nos papéis de Barry Allen (Flash) e Vic Stone (Cyborg). Fecham o grupo principal Amber Heard (Aquaman) e Amandla Stemberg (Star Wars: O Acólito) cujos papéis ainda não foram definidos na trama, mas que provavelmente serão escrito especialmente para ela a fim de corrigir a ausência de protagonistas femininas fortes na obra escrita em 1928.

Também foram feitos anúncios quanto a equipe responsável pela parte técnica da produção.

Em vez de efeitos práticos e CGI sutil, a produção deve optar por um Cthulhu completamente digital. Algumas artes conceituais vazadas mostram a criatura com traços mais estilizados e olhos expressivos, o que gerou certo burburinho nas redes sociais. Um dos elementos narrativos mais importantes para o personagem é Morgan Freeman escalado para ser a voz da entidade. 

As locações para as filmagens também foram divulgadas, além de cenas gravadas na Islândia, Azerbaijão e Kiribati, a Sony escolheu sets digitais e gravações as erem realizadas em Los Angeles. 

Uma das principais mudanças é a modernização da trama que será adaptada para os dias atuais, se passando quase inteiramente em Nova Orleans, mas com parte da ação transferida do Pacífico Sul para a região do Havaí que deve ser o novo lar da cidade submersa de R'Lyeh. 

Um dos objetivos da trama envolve repaginar a história e dar uma imagem mais contemporânea a ela, focando também em questões ecológicas que são uma tendência atual. Assim a história passará a transcorrer em 2025, seguindo a descoberta de uma grande conspiração envolvendo cultos ao redor do mundo que planejam trazer de volta uma entidade ancestral adormecida. 

Entre as principais preocupações do roteiro, escrito por S.J Clarkson (de Madame Teia), está suavizar as polêmicas à cerca da relação de H.P. Lovecraft com minorias e estrangeiros que são motivo de grande controvérsia. O filme irá se concentrar em fazer uma reparação histórica mais do que necessária nesse sentido. 

A estreia do filme está prevista para junho de 2027, com um lançamento no verão americano, acompanhado por uma linha de brinquedos colecionáveis, incluindo um "Mini Cthulhu Falante", que dirá frases icônicas como "Ia Ia, parceiro!".

Será que a produção será um sucesso? 

A Sony acredita que sim!

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As reações dos fãs foram majoritariamente negativas, com muitas reclamações sobre a direção do filme. "Isso não tem nada a ver com Lovecraft!", comentou um usuário indignado. No entanto, os produtores garantem que o filme agradará ao grande público. "Queremos que O Chamado de Cthulhu seja para os filmes de horror aquilo que Velozes e Furiosos foi para os filmes de corrida", declarou um executivo da Sony.

O tempo dirá se essa abordagem ousada será um sucesso ou um desastre cósmico.