quinta-feira, 13 de outubro de 2022

O Príncipe Negro - Os feitos e atrocidades de Edward de Woodstock


Pense em um vilão, mais especificamente um vilão de filme medieval.

Não será surpresa que venha a mente a figura de um homem forte e rude, de cabelos e bigodes negros e armadura igualmente escura. Ele será um nobre de estirpe, mas terá uma atitude arrogante, disposto a violência e com uma queda para a brutalidade. Nada ficará em seu caminho para que ele tome para si aquilo que acredita lhe ser de direito e ai daquele que se interpõe diante dele.

Essa descrição que se encaixa perfeitamente no estereótipo do vilão medieval, foi enormemente inspirada por um personagem real, no caso, Edward de Woodstock, que entrou para a história como "O Príncipe Negro". As façanhas e a história de Edward foram amplamente documentadas, como bem cabe a todos membros da família real inglesa, mas teria ele sido merecedor de todos os feitos que lhe foram imputados? Seria ele um verdadeiro vilão ou sua infâmia é decorrente de uma espécie de campanha difamatória para torná-lo alguém excessivamente perverso? 

Edward de Woodstock nasceu em 15 de junho de 1330. Ele era o filho mais velho do rei Eduardo III e Filipa de Hainault, mas, apesar de ser o herdeiro de direito do trono nunca se tornou rei, morrendo um ano antes de seu pai em 8 de junho de 1376, com apenas 45 anos. Os poucos anos de Edward foram marcados por proezas que escreveram seu nome entre os grandes guerreiros de seu tempo. De fato, ele ganhou fama como um soldado formidável, um líder militar adequado e um homem que sabia como transitar com segurança na política e na arte da guerra medieval. Também se tornou famoso por suas grandes conquistas e vitórias.

Indiscutivelmente, ele é mais notório por seu brutal "Saque de Limoges", e alguns acreditam que foi esse incidente que levou Edward a ser conhecido como "O Príncipe Negro", no entanto, nem tudo é o que parece. Na verdade, ele só ficou conhecido por esse apelido, mais de cento e cinquenta anos após sua própria morte, no tempo dos Tudor. Durante sua vida, ele era simplesmente conhecido como "Edward de Woodstock", temido pelos inimigos e admirado pelos aliados.


A razão exata de sua reputação sinistra ainda é debatida pelos historiadores; existem várias teorias desde aquelas que apontam o fato dele usar uma armadura preta até sua atitude que não era das mais iluminadas. Mas quando seus feitos começaram a pender para o lado da vilania é que as coisas se tornam interessantes.

Edward nasceu em berço de ouro e cresceu como um típico príncipe medieval, sendo ensinado dos deveres de soldado e cavaleiro desde a infância. Ele foi instruído nos códigos de cavalaria e era um ávido praticante de Torneios de Justa, tão ávido que James Purefoy retrata o personagem de Edward, o Príncipe Negro, na clássica peça medieval "A Knight's Tale". Dizem que ele era tão adepto de justas que se envolveu na primeira com apenas 14 anos, o que lhe valeu costelas quebradas e uma grande reprimenda de seu pai, que achava tal atitude um risco para o herdeiro do trono. À despeito disso, ele continuou participando de torneios, por vezes usando um elmo fechado que ocultava sua identidade. Sabemos que ele era péssimo perdedor, e que em mais de uma ocasião, meteu-se em discussões e brigas quanto ao resultado das disputas. Em pelo menos uma ocasião, ele teria emboscado um adversário após ser derrubado do cavalo, indo procurá-lo para tirar satisfações. Edward teria participado de um bom número de duelos ainda adolescente, saindo-se bem da maioria já que dominava a arte da esgrima e do combate corpo a corpo.

Forte para sua idade e ágil no jogo de pernas, Edward era adepto de um estilo brutal de combate. Ele investia com tudo, correndo contra o oponente com a espada em riste, brandindo suas armas com toda força até derrubar o oponente. Há uma descrição de que ele teria matado um oponente usando seu elmo de aço como arma para afundar a face do inimigo até deixá-la irreconhecível. 

Mas nem só de treinamento marcial vive um herdeiro real. Edward tinha apenas sete anos quando começaram as negociações para seu noivado. Ele se casou com uma prima de seu pai, Joana de Kent, em 1362 e teve com ela dois filhos legítimos, o mais velho dos quais morreu aos 6 anos de peste, mas o mais novo, Ricardo, viria a ser chamado de rei Ricardo II com a morte de seu avô em 1377. O casamento de primos certamente não era incomum para a realeza na Europa medieval. Não há muitas informações sobre como era a relação com a esposa/prima, mas dado o grande número de amantes, podemos supor que ele gostava de mais coisas do que apenas combater. Edward havia tido vários filhos ilegítimos o que não era incomum para a época. Há rumores de que ele andava sempre acompanhado de amigos que se ofereciam para livrá-lo desses embaraços. Ele próprio teria ordenado o afogamento de seus "pequenos bastardos".


Edward tornou-se Príncipe de Gales, mas detestava a vida na corte, ansiando pelo calor da batalha. Ele teve um aperitivo do que era uma guerra aos 17 anos, quando cavalgou impetuosamente para participar da Batalha de Crécy em agosto de 1346. Foi uma vitória total para os ingleses que se provou devastadora para os franceses. Edward participou ativamente das escaramuças, chegou a ser derrubado de seu cavalo, mas continuou marchando pelo campo de batalha coberto de barro, sangue e corpos mutilados. Seguiu ceifando golpes às cegas com a espada usando-a como um grande cutelo em suas mãos. Dizem que ele matou vários inimigos e que ao terminar o frenesi da batalha, ainda coberto de sangue e vísceras seguiu direto para um bordel local para descarregar o que restava de suas energias. O Príncipe havia provado do doce néctar da morte e gostara do sabor.  

Os franceses se tornaram seus inimigos frequentes e ele teria a chance de enfrentá-los repetidas vezes ao longo da célebre Guerra dos Cem Anos. Edward era um adepto do confronto direto, mesmo quando seus exércitos estavam em menor número ou em posição de desvantagem. Se a situação se mostrasse contrária, ele não tinha escrúpulos em deixar os companheiros lutando para fazer uma retirada estratégica. Quando não estava guerreando contra os franceses, o Príncipe vagava pelas estradas em busca de lutas, bebedeira ou camponesas que pudesse violentar. Seus gostos eram vorazes e ele detestava ser contrariado.

Os pais de Edward temiam o caráter impulsivo do príncipe, mas tinham de concordar que ele parecia talhado para ser um soldado. Uma vitória decisiva veio em setembro de 1356, quando ele derrotou os franceses em Poitiers chegando a fazer prisioneiro o rei deles. Há relatos de que ele pretendia desafiar o rei para um duelo onde tencionava matá-lo e enviar sua cabeça para Paris, mas os conselheiros conseguiram dissuadi-lo de tal atitude. Um regate real, afinal, não podia ser ignorado. Entretanto, isso não impediu Edward de matar vários membros da corte, torturar outros, cegar alguns e estuprar as amantes do rei francês.

Mas a barbárie de Edward estaria prestes a atingir outro patamar após a Batalha de Limoges pela qual ele será lembrado para sempre. A Inglaterra ostensivamente governava Limoges e Edward recebeu a administração da cidade e o título de Príncipe da Aquitânia. Ele adorava Limoges, era seu playground para fazer o que bem entendesse. Não é de se surpreender que quando recebeu a notícia de que havia perdido a cidade para um Bispo local, Johan De Cross que resolveu se aliar aos franceses, o Príncipe tenha ficado furioso. De Cross guiou uma guarnição francesa até a cidade e conseguiu tomá-la em agosto de 1370.


Ao receber a notícia, Edward sentiu-se traído e decidiu contra-atacar imediatamente. Ele cavalgou até Limoges e conseguiu reavê-la com relativa facilidade, mas quando ficou sabendo que os cidadãos locais haviam coberto os franceses com honras e os tratado como libertadores, sua fúria cresceu. Cronistas medievais dizem que o Príncipe ordenou que mais de 3000 moradores, homens, mulheres e crianças fossem executadas por traição. A multidão aterrorizada foi conduzida até a praça central que ficou coberta de sangue. As vítimas eram decapitadas e as cabeças arremessadas num vau que cruzava a cidade. Por dias, o rio correu vermelho.  

A vingança de Edward inegavelmente contribuiu para o apelido assustador de Príncipe Negro, ainda que historiadores discutam se o massacre foi tão grande quanto se noticiou na época. É inegável que houve uma matança, mas alguns registros sugerem que essa não passou de 300 prisioneiros. Independentemente de quantos realmente morreram, os soldados de Edward aproveitaram o rescaldo para saquear e incendiar boa parte da cidade. 

Deixando Limoges de lado, existem várias outras teorias sobre como Edward ganhou o nome de "O Príncipe Negro". A primeira foi sua já mencionada crueldade com aqueles que ele derrotou em batalha. O príncipe não acreditava em cortesia com inimigos vencidos e não raramente ordenava que estes fossem agredidos e até mesmo, torturados. Alguns argumentam que a razão para o apelido envolvia o simples fato de que Edward vestia uma armadura preta na batalha. Outros postulam que talvez tenha sido devido à armadura de bronze de sua efígie na Catedral de Canterbury ter ficado preta ao longo do tempo. Outra possibilidade é que seu brasão, composto por três penas de avestruz em um fundo preto, tenha levado ao seu nome.

Após seus sucessos militares na França, a atenção de Edward se voltou para a Espanha, onde ele ajudou o deposto Rei Pedro, outro conhecido como "Cruel" a derrotar seu irmão ilegítimo Henrique de Trastamara. Eduardo o derrotou em Nájera e foi premiado com um lendário rubi cor de sangue. O rubi está na Coroa do Estado Imperial e até hoje faz parte das Joias adornando a Coroa Britânica.


Mas a vida intempestiva de Edward de Woodstock começou a cobrar um alto preço pelos seus excessos. A causa de sua morte é incerta, pois ele sofria de muitas doenças no final de sua vida. O mais provável é que ele sofria com ferimentos antigos que não cicatrizaram corretamente, mas não se descarta um agravado quadro de disenteria. Outros mencionam um câncer, esclerose ou nefrite, doenças que ele parece realmente ter enfrentado conforme descrevem seus cronistas. A causa exata provavelmente nunca será conhecida, mas o que se sabe é que ele morreu antes de poder ascender ao trono. Os ingleses lamentaram a morte do Príncipe negro, mas os franceses celebraram, sabendo que se Edward tivesse se tornado Rei a Guerra poderia escalar e sair do controle.

Após sua morte, o corpo foi sepultado na Catedral de Canterbury, onde um espaço foi mantido ao lado dele para sua esposa, embora, ela tenha preferido ser enterrada ao lado do primeiro marido.

Os desejos específicos escritos pelo Príncipe à respeito do que deveria acontecer após a sua morte são no mínimo curiosos. Ele queria um sepulcro de bronze onde sua imagem vestindo armadura deveria ser colocada. Uma instrução importante é que uma inscrição fosse visível a todos aqueles que passassem por seu local de descanso final. Existem teorias de que sua escolha de ser enterrado na Catedral de Canterbury foi quase uma confissão de seus pecados no leito de morte, já que a capela é considerada um lugar de arrependimento e penitência. Suas motivações para isso nunca foram explicitadas, mas talvez o epitáfio abaixo lance alguma luz sobre suas intenções:

Tal como você é, algum dia fui eu.

Como eu sou, você será.

Pensei pouco na morte

Contanto que eu aproveitasse a vida.

Na terra eu tinha grandes riquezas ...

Terras, casas, grande tesouro, cavalos, dinheiro, ouro ...

Mas agora sou um pobre cativo,

No fundo da terra eu deito ...

Minha grande beleza se foi,

Minha carne está carcomida até os ossos ...


O Mausoléu do Príncipe Negro é um dos mais belos da Inglaterra, hoje, tornou-se uma espécie de atração turística que atrai muitos curiosos que não sabem detalhes sobre a vilania de seu ocupante. Bom ou mau, a única certeza, é que todos tem o mesmo destino conforme salienta a inscrição. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Cinema Tentacular: Hellraiser (2022) - Reinventando um clássico


Eu sempre gostei de Hellraiser

Ok, não me olhem com essa cara... eu sempre adorei ter medo do filme original. 

O Hellraiser de 1987 era algo diferente de tudo o que havia naquela época. Ele era estranho, brutal, transcendental em sua proposta de casar violência, gore e body horror com uma história bem escrita e bem contada. Em resumo, era apavorante e fascinante na mesma medida.

Diz a lenda que o próprio Clive Barker, o autor do romance e diretor do filme, jamais ficou muito satisfeito com o resultado da produção. Ele achava que as pessoas iriam rir das cenas em que um dos personagens retorna do inferno e grita como se estivesse nascendo. As pessoas não riram, vai por mim, eu não ri... o filme é uma das coisas mais apavorantes que eu vi numa tela de cinema. O tipo da coisa que parece espirrar sangue em quem está assistindo. 

O tempo passou e a fórmula de Hellraiser rendeu incríveis NOVE sequências, sendo que destas apenas a segunda e terceira mantém algum frescor do original. Depois de um tempo, a franquia foi ladeira abaixo com produções meia-boca que acrescentavam muito pouco à mitologia dos Cenobitas, da Configuração dos Lamentos e do horror grotesco. Sendo absolutamente franco, os filmes eram uma porcaria.

Demorou três décadas até que alguém olhasse tudo aquilo e chegasse a conclusão de que Hellraiser ainda tinha potencial, mas precisava ser reinventado. O Canal de streaming Hulu decidiu bancar a aposta e assumiu a responsabilidade de recriar Hellraiser e apresentar a franquia a uma nova geração de fãs do cinema de terror. 


Os planos eram ousados. Muitos pensavam que o novo Hellraiser seria uma releitura do romance de Barker, outros supunham que sem Doug Bradley, o ator que deu vida a Pinhead nos bons e maus momentos, não teria como funcionar. O anúncio de que o personagem seria interpretado por uma mulher ainda jogou mais gasolina na questão e dividiu o público. Os primeiros trailers acalmaram as coisas e apresentaram um cenário curioso no qual Jamie Clayton, a atriz escalada para usar os pregos do Sacerdote Máximo do Inferno brilhava com uma aura demoníaca. Parecia que as coisas estavam entrando nos eixos e que Hellraiser, versão 2022, seria no mínimo interessante.

Esse final de semana, tive a chance de assistir o tão aguardado filme.

O que posso dizer é que a releitura do Hulu para o clássico de Clive Barker, não é ruim, mas é dolorosamente sem graça. Se por um lado ele se concentra em aspectos interessantes da mitologia de Hellraiser, por outro, ele embala tudo de uma maneira muito superficial. O resultado, ainda que não seja desastroso, soa como um horror moderninho convencional no qual um grupo de pessoas tenta sobreviver a uma situação assustadora e aos monstros que os atormentam. 

Em linhas gerais, o filme se concentra em um grupo de personagens irritantes que buscam escapar de um mal sobrenatural, gritando uns com os outros incessantemente em uma tentativa ensurdecedora de descobrir o que está acontecendo. Mas se isso não fosse o bastante, piora... O que me irrita é que eles agem como idiotas completos, e é incrivelmente difícil torcer ou ter empatia com qualquer um deles quando estão perpetuamente fazendo birra ou (como diria a minha mãe) tendo um siricutico.


Eu até entendo que os personagens são jovens e que estão enfrentando algo horrendo, mas a reação deles diante da maioria das situações beira o cômico. Eles são burros, e eu odeio gente burra em filme de Terror.

A conexão com o filme original é estabelecida através do folclore que gira em torno dos Cenobitas, os seres horrivelmente mutilados cuja existência inteira é dedicada a ultrapassar os limites da sensação e explorar a fronteira da dor e do prazer. Em bom português, os cenobitas vivem de torturar as pessoas que conseguem agarrar e causam um sofrimento insano nestes pobres coitados. Para convocar os cenobitas nessa versão, é preciso manipular a Configuração dos Lamentos, um tipo de caixa quebra cabeças que possui arestas afiadas. Uma vez cortando alguém, os demônios respondem quase que imediatamente. Quando a caixa vai parar com a protagonista ela acaba trazendo os Cenobitas repetidas vezes provando que um imbecil com algo perigoso nas mãos sempre será capaz de fazer as coisas mais idiotas, apenas para provar sua estupidez. Presumo que seja por conta de pessoas assim que xampu tem instruções de uso no rótulo - e mesmo assim, algum idiota vai usar errado.  

Liderando o grupo de personagens Geração Z está Riley (Odessa A'zion), uma ex-viciada em drogas que se encontra em dificuldades e cuja única salvação é o irmão, Matt (Brandon Flynn). Quando os dois tem uma briga feia, Riley corre para os braços de seu namorado Trevor (Drew Starkey) que obviamente não vale nada. O sujeito a convence a ajudar no roubo uma carga misteriosa que está guardada em um container num depósito. É claro, a carga é a Configuração dos Lamentos, vista na introdução do filme em Belgrado e que acabou chegando misteriosamente à Nova York. Não demora até que Riley convoque os Cenobitas o que dá início a uma série de acontecimentos onde muito sangue será derramado.

Além da irritante falta de sintonia com os personagens descartáveis, Hellraiser comete um segundo pecado capital em filmes de horror: Ele não dá medo! O filme sempre foi marcante por causar desconforto e obrigar o espectador a desviar o olhar das cenas mais hediondas (eu lembro da cena "E Jesus chorou" até hoje). Mas essa versão não consegue causar desconforto algum, muito menos medo. As cenas de horror extremo, tortura e angústia estão ali, mas quando se trata de Hellraiser, você espera mais... espera que certos limites sejam cruzados para que se justifique o título. Aqui não há qualquer resquício do horror visceral do original, ainda que bem executadas as cenas não provocam reação.


Um dos pontos positivos é o vilão humano do filme, um bilionário amaldiçoado chamado Voight (Goran Visnjic). Ele consegue trazer um pouco de interesse na trama quando está na tela, mas é uma pena que ele não apareça mais. Sua mansão é outro destaque, um cenário grande como uma catedral com muros que formam padrões cabalísticos, repleto de passagens secretas e uma claraboia que serve como uma das imagens memoráveis do filme. Eu gostei da mitologia do Leviatã (o Deus dos Cenobitas) voltar a ser explorada, mas infelizmente o roteiro não foca muito nesse aspecto preferindo dar destaque para correria, esconde esconde e outras bobagens pelos corredores da mansão. 

Hellraiser não seria nada sem os icônicos monstros, os Cenobitas que são no fim das contas a coisa mais interessante desse filme. Os artistas, designers e maquiadores que criaram o conceito desses cenobitas estão de parabéns em suas opções estéticas. Os cenobitas se tornaram visualmente bem assustadores nessa versão, saindo os trajes de couro preto (bem no espírito sadomasoquista) e dando lugar a roupas feitas da pele, ossos e tendões, arrancados das vítimas. Visualmente os cenobitas estão sinistros: as mutilações são medonhas com rostos distorcidos, membros dilacerados e corpos misturados com enxertos e próteses horríveis. O líder dos Cenobitas, aqui identificado como "Sacerdote" se mostra um sucessor digno da performance do Pinhead original, interpretado de forma memorável por Doug Bradley. Jamie Clayton não é tão assustadora, mas há um magnetismo nela que se encaixa no credo Cenobita. Outro destaque é o Trincador (Shaterer), cujos dentes estalando e rangendo são material digno de pesadelos.

Contudo, por mais impressionante que seja essa coleção de aberrações (e não são poucas) é um tanto frustrante que a aparição recorrente dos monstros acabe cansando. O mistério das criaturas é revelado, tornando-os menos assustadores a cada aparição, diluindo gradualmente o choque de ver uma mulher com a cabeça cheia de pregos ou um espectro todo dilacerado. 


O diretor David Bruckner (que fez o excelente "O Ritual") conduz o filme de forma correta, mas ele perde tempo demais com os personagens pouco interessantes e seus dilemas existenciais, algo que não interessa em absoluto. Fica faltando a mística, o suspense, o ritmo vertiginoso e o rigor narrativo que Barker acertou tão bem com uma fração do orçamento.

É louvável que Hellraiser aposte em uma nova história para se reconstruir, mas ele teria sido um filme muito melhor se tivesse tomado emprestado os elementos essenciais do original e contado a história no mesmo espírito. Temos vítimas sofrendo as agruras do inferno, muito sangue, monstros horríveis, correntes e ganchos afiados; todos elementos reconhecíveis como parte do universo de Hellraiser, mas apesar disso tudo, o filme não soa como Hellraiser.

O Inferno não se ergue como promete o título, mas não tenho dúvidas de que outras sequências virão na esteira deste. Veremos se elas conseguem acertar na próxima.  


Trailer:


sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Lugares Estranhos: Castelo de Chillingham - A Fortaleza mais assombrada da Inglaterra


A visão de um velho castelo construído no topo de um monte é um clássico do imaginário do horror gótico. Algo nessas majestosas obras medievais feitas de pedra bruta transmite uma aura que evoca mistérios e segredos ancestrais. Mas alguém já imaginou como essa associação direta entre assombrações e castelos teve início?

É possível que muito da noção sobre Castelos serem considerados antros assombrados se deva a um lugar em especial, o macabro Castelo de Chillingham no extremo norte da Inglaterra, na região da Northumbria. Em uma província erma e escura, coberta de vegetação selvagem e ravinas, a construção se destaca na paisagem tristonha como um baluarte de proteção que inspirou medo por gerações.

O Castelo é amplamente considerado como um dos, senão, o mais assombrado da Inglaterra. Tendo mais de 800 anos, a construção foi erguida com um único propósito e um propósito apenas: morte.

A Northumbria era a última linha de defesa da Inglaterra contra os escoceses, prevenindo os povos do norte de cruzar a fronteira e invadir o reino. Chillingham tem uma história verdadeiramente horrível, e é por conta dela, que é tido como um dos lugares mais fantasmagóricos do mundo. A história está intimamente ligada a intimidação uma vez que o Castelo além de ser uma posição defensiva, era onde os rebeldes escoceses terminavam os seus dias. 

A masmorra é um pequena sala com marcas riscadas na argamassa aonde prisioneiros contavam quantas dias ainda tinham para viver. O lugar inteiro irradia uma aura pesada de medo e desespero. Tamanho é o sentimento impregnado nessas paredes que algumas pessoas mais sensíveis sofrem de ataques de ansiedade, vertigens e palpitações, meramente entrando no local. Os prisioneiros desse calabouço medonho podiam esperar um tratamento severo por parte de seus captores. Muitos deles sofriam torturas, tendo braços e pernas quebrados antes de serem jogados 6 metros abaixo, num buraco conhecido como o Oubliette. Aqueles que não morriam na queda podiam padecer por dias de inanição ou sofrer pelos ferimentos impostos.


As histórias sobre o sofrimento em Chillingham são lendárias e alguns podem até imaginar que um tanto exageradas. Contudo, historiadores encontraram documentos e registros de época atestando que as torturas eram uma constante nesses porões escuros. De fato, há extensivos registros com o nome das vítimas e os procedimentos aos quais elas foram submetidas.
 
Logo diante das grades fica a Câmara de Tortura, em uma posição estratégica que permite aos prisioneiros que assistam o sofrimento imposto aos seus companheiros. Praticamente todos os dispositivos de tortura medievais estavam presentes nessa sala, cada um deles tão doentio e cruel quanto os outros. A infame mesa de estiramento, a trave de madeira, uma série de braseiros de ferro, assentos com pregos e sistemas de polias eram usados com habilidade pelos torturadores. O piso tinha forma de declive, assim o sangue naturalmente escorria e se concentrava de um lado do cômodo.

Para milhares de Escoceses, esse foi o último lugar que eles viram. Nas celas frias e úmidas, homens, mulheres e até mesmo adolescentes de 13 anos de idade, sofreram enormemente antes de suas vidas serem abreviadas pelo girar de uma engrenagem ou pelo golpe de um machado. Algumas vezes prisioneiros enlouquecidos devoravam uns aos outros e até seus próprios corpos, numa tentativa fútil de prolongar suas vidas. 

O carrasco mais conhecido e temido em Chillingham era um homem chamado John Dragfoot Sage. Alto, perverso e um verdadeiro mestre no seu ofício, ele era uma espécie de celebridade do seu tempo. A tortura era uma atividade comum na época medieval, e os homens capazes de extrair a verdade das vítimas, de empregar dor na medida certa sem matar ou de matar quando necessário sem pestanejar eram contratados à peso de ouro. Sage era notório pelo sadismo e por fazer coisas inimagináveis.


Antes de se tornar torturador ele foi um dos homens de confiança do Rei Edward, presente no campo de batalha em várias oportunidades. Sage foi ferido um dia enquanto lutava com os escoceses e teve sua perna mutilada, o que lhe impedia de continuar a servir o Rei como soldado. Ele implorou para que o rei o mantivesse em alguma ocupação, pois seu ódio pelos escoceses o consumia e se fosse impedido de matá-los, ele próprio morreria de frustração. E assim lhe foi oferecido o papel de carrasco do castelo. Sage era um homem brutal, que detestava os escoceses na mesma proporção que adorava o seu ofício. As dores frequentes que sentia em sua perna eram um lembrete constante de que um escocês fora o culpado por seu sofrimento. Dizem que em noites frias, quando a perna latejava, ele descontava sua dor, impingindo as torturas mais inomináveis. Sage até chegou a desenvolver alguns dispositivos, ele mesmo.

Além de manipular os aparelhos de tortura grandes e pesados, Sage se notabilizou pelos instrumentos mais simples. Um pote podia ser usado para ferver óleo, colheres eram usadas para arrancar os olhos, barris recebiam pregos no interior e prisioneiros amarrados eram postos dentro deles e rolados pelo chão. Haviam tubos enfiados no estômago ou no ânus dos prisioneiros para que em seguida ratos famintos fossem colocados dentro. A única forma para o rato sair era abrir o seu caminho por dentro da vítima, comendo-lhe de dentro para fora. A mórbida criatividade do torturador era infame e segundo seus contemporâneos, ele passava horas pensando em diferentes maneiras de atormentar as vítimas que passavam pelas suas mãos. Ele torturou uma média de 50 pessoas por semana pelos três anos em que esteva à frente do trabalho. Suas vítimas eram ladrões de estrada, mulheres acusadas de bruxaria, desertores e rufiões, mas ele se esmerava em prolongar o suplício de rebeldes - era com eles que Sage libertava seus piores instintos.

Mas a guerra com os Escoceses finalmente estava chegando ao fim e uma série de acordos colocaria fim às disputas territoriais que duravam séculos. Isso preocupava John Sage, pois colocar as vítimas em liberdade podia se voltar contra ele. Seu plano era se livrar de todos os prisioneiros do castelo, então ele juntou todos os homens, mulheres, e adolescentes, levou-os ao pátio, cobriu-os com piche e ateou fogo. As crianças eram mantidas no quarto Edward de onde provavelmente podiam ouvir os gritos e sentir o cheiro de seus parentes sendo queimados vivos. Sage ponderou sobre o que fazer com as crianças: se as soltasse elas voltariam quando adultas para buscar vingança. Então, ele tomou sua decisão: apanhou um pequeno machado e foi até o quarto onde elas estavam, as matou e depois esquartejou. Segundo relatos, foram oito as vítimas, algumas com menos de um ano de idade, feitas em pedaços. O machado pode ser visto hoje em dia na parede da escada de Chillingham. Ele continua afiado. 


O quarto Edward na Torre diante do pátio é um dos aposentos mais famoso de Chillingham, batizado em homenagem ao Rei que empreendeu a perseguição mais austera aos escoceses. De tempos em tempos, o rei se hospedava nesse aposento e dizem, gostava de visitar a masmorra para ver os trabalhos de seu torturador mor. O local também era usado para receber prisioneiros nobres e de maior importância. Após o brutal assassinato das crianças no seu interior, o quarto passou a ser considerado um dos mais assombrados. As pessoas que o visitam frequentemente diziam, e ainda dizem, que se ouve o som de choro e gritos de crianças, além de se ver o lustre do teto movendo-se e sentir um fedor de carne queimada. Décadas atrás, o quarto passou por manutenção e marcas de arranhões deixados pelo machado foram encontradas no piso e nas paredes.

Mas ao menos, todo o horror promovido com sádico deleite pelo carrasco John Sage não ficou sem punição. A trégua com os escoceses não durou muito, e mais uma rebelião se formou obrigando a masmorra a ser reativada. 

Dizem que na câmara de tortura havia uma mesa de estiramento que o carrasco costumava usar nas escapadelas com sua amante, uma mulher chamada Elizabeth Charlton. Certa noite, eles faziam sexo no aparelho de tortura quando Sage começou a estrangula-la para aumentar o seu prazer sexual Infelizmente ele foi longe demais e acabou esganando-a. O pai de Elizabeth era um membro de um clã local chamado de Border Reivers. Essa bando congregava foras da lei que haviam se aliado aos ingleses e que serviam a coroa como uma espécie de polícia. Não eram o tipo de pessoas com quem se meter, e claro, quando ficaram sabendo do que Sage havia aprontado, exigiram que ele fosse executado.

Os Border Reivers eram um grupo influente e importante para os governantes ingleses. É registrado que os Reivers se encontraram pessoalmente com Edward Longshanks e deram a ele um ultimato. Se ele não executasse Sage eles se uniriam aos Escoceses e lançariam um ataque massivo ao castelo para fazer justiça com as próprias mãos.


Como o Rei dependia dos Reivers e não podia se dar ao luxo de perder aliados valiosos, ele acabou concordando. Sage foi capturado e mandado para a mesma masmorra em que matou e torturou impunemente, para aguardar a chegada de um novo carrasco. Embora tenha sido mantido em separado numa cela, ele foi alcançado e surrado repetidas vezes pelos prisioneiros que desejavam vingança. Por milagre ele conseguiu sobreviver, mas quando o novo verdugo chegou, dizem as lendas, ele estava ferido e completamente insano.  

Sage foi arrastado para o pátio externo e pendurado para ser enforcado na frente de uma multidão enorme que veio assistir a execução. Enquanto ainda sufocava na ponta da corda, a multidão começou a pegar souvenires, cortando dedos, os testículos e o nariz do torturador que ainda se agitava. Não se sabe o quanto um homem forte como Sage, suportou pendurado até morrer, mas dizem que foi por muito tempo. 

É claro, o fantasma de John Sage acabaria se tornando uma das assombrações mais conhecidas em Chillingham. Mas diferente do imponente e temido John Sage que era visto causando dor e sofrimento nas vítimas, o espectro visto é uma figura mutilada e covarde que chora e se lamenta pelos pecados cometidos. Ele sobre e desce as escadas que levam para a masmorra, manquitolando com sua perna coxa, clamando por piedade. Dizem que o demônio o liberta do inferno de tempos em tempos, prometendo que ele será liberado de seu suplício se conseguir alguém que o perdoe pelo horror que causou. A lenda afirma que ele jamais irá encontrar alguém tão piedoso e que a eternidade no inferno será sua única recompensa. 

Mas esse fantasma não é o único a rondas as câmaras, salões e corredores do Castelo de Chillingham. Supostamente existem muitos, muitos outros. 


Uma das lendas assombradas mais famosas menciona a grelha de ferro cobrindo o Oubliet, o infame fosso através do qual vítimas mutiladas e torturadas eram lançadas para morrer. Dizem que se você olhar para baixo através da grelha cobrindo o fosso é possível ver uma jovem garota olhando de volta para você. Ela seria a última pessoa morta ali. Muitos visitantes experimentam sensações estranhas nesse lugar, globos de luz tem sido vistos e fotografados e algumas pessoas efetivamente sentiram as emoções negativas que a sala emana. Todo o lugar tem uma atmosfera depressiva que parece contaminar as pessoas.

Há também o fantasma conhecido como "Blue Boy" (Garoto Azul), visto frequentemente em flashes de luz azulada ou envolto numa auréola luminosa. Esse fantasma começou a aparecer depois que dois esqueletos, de um homem e de um menino, terem sido descobertos durante os trabalhos de renovação nas paredes internas do salão. Os restos estavam enfiados em um nicho que depois foi coberto com gesso, argamassa e papel de parede. Quem eles eram e por que estavam sepultados naquele espaço permanece um mistério. Acredita-se que eles poderiam ser pai e filho, um valete e seu filho que teriam sido mortos por terem testemunhado algo proibido ou sigiloso ocorrendo no Castelo. Muitas atividades ilegais ocorreram em Chillingham ao longo dos anos. Monges foram escondidos no porão na época que Henrique VIII perseguiu as ordens religiosas e dissidentes políticos também encontraram esconderijo provisório na masmorra. 

Além das visões de vultos e globos, passos são frequentemente ouvidos nos quartos, além do som de risadas, choro e gritos. Visitantes reclamam de que por vezes sentem dedos e mãos invisíveis tocando-os. Um dos fenômenos mais macabros envolve ouvir o som desesperado de pessoas sussurrando e pedindo para serem salvas, um acontecimento recorrente na Câmara de Tortura.  Então, quando a noite cai, as pessoas que dormem no Castelo experimentam os famosos pesadelos vívidos e apavorantes. Inúmeras pessoas disseram experimentar pesadelos nos quais estão aprisionadas na Masmorra, testemunhando torturas ou elas próprias sofrendo. Há relatos de indivíduos despertando tão apavorados que não conseguiram mais ter paz de espírito para dormir nos quartos.  Existem também possessões, estas envolvendo quase sempre uma pessoa sendo dominada por um fantasma desesperado desejando ser libertado do calabouço. 

Apesar de todos esses fenômenos medonhos, Chillingham abriu suas portas na década de 2000 e se converteu em um Hotel que aluga seus quartos para visitantes em busca de uma autêntica experiência sobrenatural. Os gerentes do Hotel ressaltam que não se responsabilizam pelo seus hóspedes que eles encontrarão em sua estadia. Não são poucas as pessoas interessadas em passar a noite no Castelo mais assombrado da Inglaterra e estas vem de longe em busca de arrepios e histórias macabras.  

Não é estranho encontrar turistas vagando pelo castelo na madrugada, alguns deles buscando a fonte de sons e visões arrepiantes. Não é permitido fazer fotografias de dentro do Castelo ou gravar os sons em seu interior, os visitantes são no entanto aconselhados a explorar por conta própria os ambientes. De fato, há guias que conhecem as histórias, estão dispostos a contá-las e acompanhar os turistas noite e dia, onde eles desejarem ir.  


Há avisos para que nada seja removido do interior do Castelo, pois supostamente há uma maldição que incide sobre aqueles que roubam algum objeto por menor que seja. Chillingham tem uma estranha reputação e dizem que pessoas que desrespeitam certas regras no Castelo acabam sofrendo com um azar crônico. Além da regra que adverte para não retirar nada, há outra que envolve evitar piadas e gracinhas dentro do castelo. Um dos guias descreve que um turista certa vez fez algumas brincadeiras e acabou tropeçando na escadaria e se machucando depois de ter rolado degraus abaixo. Ele teria dito que foi empurrado por uma presença invisível.

Os céticos acreditam que os administradores são responsáveis por estranhos sons e cheiros que se sente no interior do Castelo transformado em Hotel. Estes, no entanto, afirmam que não é preciso fingir a existência de fantasmas, pois a presença destes pode ser sentida quando eles assim desejam.

Para aqueles que estão em busca de arrepios ou de um contato direto com a história sinistra da Inglaterra, Chillingham oferece uma experiência única, senão aterrorizante. Trata-se de um lugar interessante e um típico cenário de romance gótico de horror. Embora quieto à noite, ele transmite uma sensação de estranheza que nas palavras da maioria dos hóspedes é palpável. Para quem está interessado em visitar o Castelo a taxa de visita é de 10 libras, mas para dormir num dos quartos é preciso fazer uma reserva antecipada. Os aposentos mais modestos custam 100 libras por noite, já os maiores podem custar até 300 libras, sem a garantia de ver fantasmas.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

O Dragão do Rio - Legionários Romanos enfrentam um monstro desconhecido


Roma e Cartago passaram os anos entre 264-146 a.C. engajados em um sangrento conflito para decidir quem governaria as rotas marítimas do Mediterrâneo. No fim Roma saiu triunfante e como bônus teve a destruição total de Cartago na conclusão da Terceira Guerra Púnica. A Primeira Guerra Púnica (264-241 a.C.) eclodiu em meio a uma acirrada disputa naval e guerras terrestres que lavaram o solo da Sicília, Córsega e Sardenha com sangue de soldados dos dois lados.

Até cerca de 260 a.C., os romanos estavam em desvantagem náutica, pegando barcos emprestados de seus aliados quando precisavam movimentar grande quantidade de tropas. Enquanto isso os cartagineses eram tidos como marinheiros experientes no mundo antigo, com vasta habilidade náutica e tendo aperfeiçoado estratégias de combate naval. Para fazer frente a isso, Roma decidiu que precisava de uma frota e necessitavam de embarcações à altura. Os romanos tiveram sorte de capturar um quinquereme cartaginês e o usaram como modelo para seus navios. Na melhor tradição romana de engenharia civil, eles construíram uma série de embarcações, incluindo uma inovação que tirava vantagem de suas incríveis habilidades de combate – o “corvus”, uma ponte de embarque que permitia que seus navios se conectassem ao do inimigo. Isso permitia despejar dezenas de soldados romanos armados com espadas curtas que podiam exercitar seu verdadeiro talento no combate corpo a corpo. Essa nova tática se mostrou um acerto decisivo para os romano e resultou em uma série de derrotas esmagadoras da marinha cartaginesa.

O sucesso naval romano na Batalha do Cabo Ecnomus (no sul da Sicília) em 256 a.C. encorajou os romanos a desembarcar um exército de 15.000 soldados de infantaria e 500 de cavalaria na África, perto da moderna Kelibia. O objetivo desse contingente era devastar o campo cartaginês e garantir uma cabeça de ponte para o desembarque de mais tropas. A força romana foi comandada pelo general (e ex-cônsul da República Romana) Marcus Atilius Regulus.


É preciso ter em mente duas coisas quando se fala de Marcus Atilius Regulus. Primeiro é que ele era um homem sério, verdadeiro modelo de virtude, manifestado no fato de que, quando derrotado e capturado pelos cartagineses e liberado condicionalmente para levar os termos aos seus comandantes, ele manteve sua palavra e retornou a Cartago como prisioneiro. Ou seja, ele não inventaria uma história para benefício próprio. Segundo, Cartago não era uma terra misteriosa e estranha para Roma. Até o advento da Primeira Guerra Púnica, Roma e Cartago mantiveram um bom relacionamento por pelo menos 200 anos, incluindo alianças formais e fortes laços comerciais. Cartago até forneceu engenheiros navais para os romanos e em pelo menos uma ocasião ofereceu sua marinha para transportar uma força romana. O que significa dizer que os Romanos estavam familiarizados com a geografia e os animais locais.

A historia começa com Regulus desembarcando em Túnis. Sua tropa precisaria atravessar o rio Bagradas no caminho para sitiar Cartago. Era uma boa ideia montar acampamento na margem do rio e esperar o amanhecer para fazer a travessia. Um pouco de descanso antes de empreender uma marcha árdua seria essencial para o moral da tropa. Foi nesse descanso que algo inusitado aconteceu, algo envolvendo uma coisa assustadora que espreita nas águas. 

Os escritores latinos ao falar do incidente descrevem o encontro com uma criatura que poderia ser traduzida como “serpente” ou “dragão”. O monstro seria gigantesco, um réptil de corpo sinuoso, coberto de escamas e com uma ferocidade incomparável. A criatura habitava uma cova na margem do rio e quando os soldados se aproximaram para pegar água, atraíram sua atenção. O monstro matou alguns legionários que chegaram perto de seu esconderijo. O historiador romano Tácito Lívio (59 a.C. – 17 d.C.) que era o cronista que acompanhava a tropa registrou o encontro. 


Tal como acontece em muitas histórias clássicas, o texto original do historiador romano Quintus Aelius Tubero (século I a.C.), escrito um pouco mais tarde se perdeu nas areias do tempo, mas felizmente o autor e gramático romano Aulus Gellius ( 125-180 d.C), dispunha de uma cópia em sua biblioteca. Esta  fornece uma descrição bem mais detalhada do que teria acontecido.

Tubero escreve em sua história, que o Comandante Attilius Regulus, o cônsul, estando acampado na África, perto do Rio Bagrada. Lá ele teve um severo combate com uma serpente de extraordinária ferocidade, cujo covil se localizava nos bancos lamacentos do rio. A besta se lançou em um ataque furioso contra o exército, desafiando os homens armados com lanças, pilluns e gladius (as armas da infantaria romana). A besta era tão terrível que muitos legionários foram esmagados sob suas escamas, outros tantos acabaram mordidos e um grande número envenenado pelos vapores tóxicos que se projetavam de sua bocarra. Os legionários encontraram dificuldade em romper a couraça de escamas do monstro que repelia seus ataques. As lâminas romanas não conseguiam romper a sua resistência, ao passo que as lanças tiveram maior sucesso. Ainda assim as pontas agudas não foram capazes de penetrar fundo em sua carne. Os soldados sem escudo ou com armadura incompleta não tinham defesa contra a força esmagadora da criatura. 

Regulus deu ordens para que os soldados se afastassem para que os arqueiros tentassem encurralar a besta, enquanto a balista e catapulta eram armadas. Apenas assim, a criatura foi mantida à distância e liquidada por três disparos devastadores, um deles na cabeça.  


Mesmo morto, os legionários não arriscaram a se aproximar pois o veneno do réptil ainda podia ser sentido no ar. Só algumas horas depois, os primeiros homens foram até ele e constataram que a criatura estava morta. Eles então esfolaram sua pele que, na descrição de Tubero, tinha trinta e seis metros de comprimento. A pele, as presas, a cabeça e frascos com o veneno da Besta de Bagaras foram enviados para Roma como troféus e para corroborar a narrativa. Era algo tradicional para as legiões no exterior, matar animais incomuns e enviar os restos aos parentes, amigos e conhecidos. 

Outro historiador romano do século IV, Paulus Orosius, deu uma descrição ainda mais completa da batalha contra a besta, atribuindo a morte da criatura (após o fracasso de lanças e espadas) ao uso de flechas, pedregulhos e principalmente as grandes setas da balista. Apenas o uso de armas de cerco, adequadas a destruir muros e paredes de pedra, deram cabo da monstruosidade.

Segundo os registros feitos por Orosius, baseados em narrativas mais antigas, a Fera de Bagrada matou nada menos que 23 legionários, deixando outros 12 feridos em diferentes graus de gravidade. O ferimento principal e causa da maioria das fatalidades foi o veneno do monstro que deixou alguns homens paralisados, cegos ou ambas as coisas. Aqueles que entraram em contato direto com a bile escura que vertia das presas do Dragão morreram quase que imediatamente. 

Esse não foi o único caso de um monstro abatido por legionários romanos. Qualquer criatura de proporções anormais ou ainda, desconhecida na Europa, era tratada como um monstro. Em geral, os soldados atacavam avidamente esses seres. Estes homens estavam em busca de conquistas, fortuna e glória e tais coisas podias ser alcançadas com a fama que essas batalhas proporcionavam. Algumas se tornavam lendárias, com os participantes celebrados por seus feitos e elevados ao status de heróis em Roma.


Mas até que ponto a história envolvendo essa misteriosa serpente ou dragão que habitava o Rio Bagrada pode ser levada à sério? Até que ponto ela é crível e onde a realidade cede espaço para a fantasia? Não parece muito razoável supor que um serpente medindo 36 metros estivesse viva por aí dois mil anos atrás no norte da África, contudo, as lendas, mesmo as mais absurdas, geralmente encontram fundamento em fatos. É possível que os soldados sob o comando de Marcus Atilius Regulus tenham se deparado com algo estranho que desconheciam e que eles tenham enfrentado esse perigo e até que alguns deles tenham sido feridos ou mesmo mortos pela fera. 

O austero comandante da tropa e seu historiador creditam o acontecimento como fato. Eles dificilmente inventariam tal coisa, contudo, ao longo dos anos a coisa foi crescendo. Todos que já participaram de uma pescaria, sabem como funcionam essas coisas: a história sobre o peixe que escapou, geralmente diz que ele é bem maior do que realmente era. É provável que a história sobre a serpente gigantesca tenha ganhado proporções com o passar do tempo até se tornar o relato de uma épica batalha contra um dragão.

Seja como for, a história da Serpente de Bagrada, a besta que enfrentou uma Legião Romana é uma narrativa incrível.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Rubi Sangrento - O Tesouro Maldito da Coroa Real da Inglaterra


"No topo da coroa cruzam-se dois arcos (ou quatro meios-arcos), cada um dos quais vem de um padrão cruzado. A cruz frontal tem no centro um grande espinélio vermelho conhecido como o 'Rubi do Príncipe Negro'. Em sua história, a pedra foi perfurada para ser usada como pendente, e o orifício superior foi então tampado com um pequeno rubi em uma montadura de ouro. As três cruzes restantes são cada uma montada com uma esmeralda de corte escalonado. As cruzes se alternam com quatro flores-de-lis, cada uma com um rubi de corte misto no centro. Tanto as cruzes quanto as flores-de-lis são incrustadas com diamantes."

A Coroa Imperial Britânica, ou State Imperial Crown, representa a grande pompa do Império Britânico e é um símbolo de seu poder e riqueza. A coroa usada até recentemente pela falecida Elizabeth II é a peça mais suntuosa possuída por qualquer monarca. Recentemente, tentaram estimar o valor da coroa real, algo que se provou impossível devido ao seu excessivo valor histórico e sentimental. Ainda assim, atribuíram a cifra meramente material a coroa inteira, algo na casa dos 300 milhões de dólares. 

A coroa pesa quase três quilos e em sua estrutura de ouro estão engastados 2.783 diamantes, 277 pérolas, 4 esmeraldas, 17 safiras e 5 rubis. Mas três joias se destacam do restante do conjunto: a Safira Stuart; o Diamante Estrela da África; e, é claro, o Rubi de Alhambra.

O Rubi é o objeto desse artigo e vamos nos dedicar a ele. No centro da coroa, numa posição de destaque encontra-se um enorme rubi cor de sangue do tamanho de um ovo de pomba. Ele é o maior rubi encontrado até os dias atuais, uma peça tão bela quanto impressionante. Ela pertenceu originalmente ao tesouro real de Alhambra, capital do Reino de Granada até 1362, e chegou às mãos dos ingleses de uma forma extremamente rocambolesca. 

Com 170 quilates (34 gramas, 5,08 centímetros de comprimento), o rubi (que na verdade é um espinélio) é a joia mais famosa de seu gênero no mundo. Sabe-se com certeza que ela esteve no tesouro real Nasrida até 1362, mas não se conhece nada sobre ela antes disso; sua real origem se perdeu nas brumas do tempo, dando lugar a uma origem mítica: ela seria parte do tesouro lendário do Rei Salomão. Suspeita-se que sua origem mais provável seja proveniente das minas de Mianmar, embora não se descarte que ela possa ter vindo da Tailândia ou das minas de Badaisan (Tadjiquistão). Quando foi encontrada e como chegou à Alhambra ainda permanece um mistério, embora seja provável que a pedra tenha sido trazida para Granada por mercadores genoveses. Sabe-se, no entanto, como ela chegou às mãos de um Rei Espanhol que a tomou para si após um horrível massacre.


Em meados do século XIV, a Europa estava mergulhada em uma série de sangrentas guerras civis. Na Espanha, o Reino de Granada passava por uma disputa entre Muhammad V e Muhammad VI; no reino castelhano lutavam Pedro I e seu meio-irmão Enrique II de Trastamara; enquanto Inglaterra e França prosseguiam envolvidos na Guerra dos Cem Anos. Nesse panorama de crises e conflitos, o Rubi desempenharia um importante papel.

Muhammad V de Granada havia sido deposto por seu sobrinho Ismail, com a ajuda de seu cunhado Muhammad Abu Said (ou Muhammad VI). Ismail tinha um caráter fraco e poucos dons políticos, que o levaram a ser assassinado em 1359. Na primavera daquele ano, o rei deposto Muhammad V voltou de seu exílio, determinado a reconquistar Granada. A Guerra entre os Muhammad chegou ao reino vizinho castelhano. Os dois lados almejavam conquistar o apoio de Pedro I. Quem obtivesse seu favor conseguiria uma vantagem considerável na disputa. 

Com o intuito de convencer Castilha a apoiar sua causa, Muhammad VI, decidiu viajar para negociar com o Rei Pedro I em pessoa. Ele levou consigo parte do tesouro real para oferecê-lo em troca da aliança, o que se provou um grande erro!

Pedro Pérez de Ayala conta na sua Crónica de D. Pedro de 1362 que em 16 de abril daquele ano que a comitiva dos Cavaleiros de Granada chegou a corte e foram recebidos com cordialidade. Eles foram então convidados para um grande jantar durante o qual manifestaram a sua vontade de oferecer várias joias como tributo a Castilha. Ao descobrir que as joias haviam sido trazidas, Dom Pedro mandou render os convidados de imediato.


Depois que Muhammad VI foi feito prisioneiro, ele foi revistado para checar se carregava joias consigo. Encontraram com ele uma pedra vermelha do tamanho de um ovo de pomba, uma gema de beleza notável. Encontraram ainda com seus companheiros de viagem um tesouro considerável incluindo 730 pedras violetas; 100 pérolas; e uma quantidade enorme de pequenos brilhantes do tamanho de grãos de bico. Confiscaram ainda brincos, anéis, colares e joias pessoais que eles vestiam na ocasião. Despidos de tudo que tinha valor, a comitiva foi conduzida até a masmorra. O pretexto para esse roubo foi uma suspeita infundada de que a comitiva tinha relação amigáveis com o inimigo jurado de Dom Pedro, seu meio irmão Enrique II.

De todo o fantástico tesouro confiscado, o Rubi Vermelho foi o que exerceu maior fascínio sobre o Rei Castelhano. Dizem os cronistas que se não fosse pelo Rubi, talvez o Rei não tivesse agido daquela forma traiçoeira. O brilho escarlate da joia o deixou sem palavras. Seja como for, Dom Pedro estava prestes a justificar o apelido pelo qual ficaria famoso: "O Cruel". 

O monarca ordenou que a comitiva composta por 37 cavaleiros granadinos fosse conduzida até os Campos de La Tablada, nos arredores de Sevilha. Foram avisados de que seriam mantidos em um lugar seguro até que se decidisse o seu destino. Na verdade, Dom Pedro já sabia o que iria acontecer e quando chegaram a La Tablada o grupo foi visitado pelos soldados de confiança do Rei. Os mouros não tiveram qualquer chance de reação, estavam amarrados e foram assassinados de forma brutal. Após o massacre, Dom Pedro mandou decepar a cabeça de Muhammad VI, a espetou na ponta de uma lança e a enviou para seu rival Muhammad V como presente. 

A pedra que despertou a cobiça do Rei foi incorporada ao Tesouro de Castilha e passou a ser tradicionalmente conhecida como "El Rubí de Dom Pedro, el Cruel" ou como alguns a chamavam "Rubi Sangrento". O Rei que era ruivo se encantou pela joia vermelha de cor profunda que se tornou a sua favorita por combinar com suas madeixas. O Rubi era usado em um cordão de ouro em torno do pescoço de Dom Pedro sempre que ele se apresentava em audiências reais.


Pouco tempo depois disso, em 1367, Pedro I foi encurralado por seu meio-irmão Enrique II de Trastâmara na longa guerra que sustentava pela Península ibérica. Pedro refugiou-se na França e pediu ajuda ao Príncipe de Gales, Eduardo Plantageneta, mais conhecido como Príncipe Negro por trajar uma couraça dessa cor. Os ingleses, que vagavam pela Bretanha em uma guerra contra a Coroa Francesa, concordaram em invadir a Espanha para ajudar Pedro I a se consolidar no poder. Eles foram essenciais para a vitória de Pedro na Batalha de Nájera. Como recompensa Pedro ofereceu a eles joias de seu tesouro pessoal, mas o que realmente eles queriam era o tão falado Rubi Sangrento. Embora adorasse a pedra, Pedro acabou entregando-a aos ingleses. 

Com o pagamento, os ingleses retornaram à Bretanha e à Normandia para continuar sua guerra. O Príncipe Negro recebeu o pagamento e quando pousou os olhos no Rubi se encantou por ele. Passou então a usá-lo como um talismã de boa sorte em todas as suas batalhas. Dizem as lendas que o Príncipe Negro acreditava que enquanto estivesse usando a joia, jamais seria ferido ou morto. Dizem ainda que havia a crença de que a alma de cada homem morto por ele passaria a habitar a pedra e servi-lo como escravo. Para realçar essa história comentavam que ela se tornava mais vermelha com o sangue dos que pereciam na campanha. 

Contudo, a crença do Príncipe Negro de ser invulnerável se provou uma farsa: ele morreu em 1376 sem se tornar Rei. O rubi passou para seu filho Ricardo II Plantageneta que ordenou que o Rubi fosse incrustado em sua Coroa Real onde permaneceria ao longo dos séculos. 


No ano de 1415, o Rei Henrique V travou a épica Batalha de Agincourt, em que o arco e flecha inglês destruiu o exército francês de Carlos VI. As crônicas contam como o Duque de Alençon desafiou o rei inglês: em batalha, ele teria quebrado a coroa britânica com um golpe de machado, mas no fim os ingleses conquistaram a vitória no campo.

O perigoso costume dos monarcas da época de lutar com a coroa real no elmo levou a outro susto com as joias. Na Batalha de Bosworth (1485), o Rei Ricardo III perdeu sua vida, reino e coroa no mesmo dia. A Coroa real foi encontrada dias depois, dividida em duas, caída em meio a alguns arbustos. Posteriormente, o Duque de Richmond passou a reinar como Henrique VII da Inglaterra; inaugurando a dinastia Tudor com a coroa de rubi da Alhambra em sua cabeça.

A joia esteve nas mãos de uma rainha consorte inglesa de origem espanhola: Catarina de Aragão, filha mais nova dos Reis Católicos e esposa de Henrique VIII, embora por pouco tempo. A coroa e o rubi correspondente foram vendidos na crise monárquica inglesa de 1649. É provável que não tenha ido longe, tendo sido comprada por alguém da família real, pois em 1661 ela reaparecer sobre a cabeça do rei Carlos II, após a restauração que sucedeu o período de Oliver Cromwell. Houve nessa época tentativas ocasionais de roubar as joias reais, o que levou as autoridades a guardá-las na inexpugnável Torre de Londres a partir de 1671. Por ocasião da Segunda Guerra Mundial, as joias foram retiradas da coroa e escondidas para evitar que na iminência de uma invasão nazista elas não caíssem nas mãos dos inimigos. A última reforma da Coroa Imperial Britânica ocorreu em 1953, por ocasião da coroação de Elizabeth II. O aro foi reduzido para caber no tamanho menor de sua cabeça.

A joia vermelha pertenceu às casas reais dos Násridas, Trastamaras (na Espanha), Plantagenetas, Lancasters, Tudors e Stuarts (na Inglaterra), mas e antes disso? Bem, antes disso há lendas que falam de sua origem sobrenatural.


São muitos os mitos que acompanham o Rubi Sangrento e os benefícios/prejuízos que ele traz ao seu proprietário. Uma lenda muito difundida é que a pedra ornamentava uma mesa que pertenceu ao Rei Salomão em pessoa. O Rubi seria uma das joias mais importantes dessa mesa magnífica, supostamente usada pelo Rei para aprisionar um gênio e fazer dele seu servo. Durante as Cruzadas, um grupo de cavaleiros teria encontrado a Mesa em Jerusalém. Eles a desmontaram e levaram em partes para Roma em uma operação sigilosa. De alguma maneira, uma dessas partes, justamente aquela que continha o Rubi incrustado no tampo se perdeu e foi parar na Espanha, alguns dizem, por intermédio dos Cátaros. A pedra teria sido removida da mesa e oferecida a Musa, governante árabe da Península Ibérica que a adquiriu e manteve em Granada. 

A crença de que o Rubi aprisionava um Ifriti também sempre foi muito conhecida. No folclore árabe, os Gênios são seres mágicos, com os Ifrit compondo uma casta associada ao fogo. Geralmente malignos ele vivem tentando e oferecendo favores aos mortais. Apesar de perigosos, magos e feiticeiros de grande poder, como o lendário Rei Salomão conseguiam exercer influência sobre eles, sendo capazes até de aprisionar as criaturas e fazer com que elas obedecessem suas ordens. Aquele que detinham o Rubi seriam capazes de se comunicar com o Gênio preso em seu interior e usá-lo à seu favor, isso se conseguisse impor sobre ele, sua vontade.  

Como nem todos possuíam essa qualidade, o rubi está frequentemente associado ao azar, pois o Gênio ressentido com sua prisão conspira contra quem detém a pedra. Diz-se que aqueles que ficam fascinados pelo Rubi estão fadados a sofrer um destino cruel: o Rei de Granada morreu quase instantaneamente; Pedro I de Castela foi assassinado sete anos depois de obter para si o Rubi; o Príncipe Negro jamais reinou; Ricardo III da Inglaterra perdeu seu trono quando a estava usando. Todavia, o Império Britânico se fortaleceu com ele durante os séculos XVI a XIX. Mas até para isso existe uma explicação e ela passa pelo famoso médico e ocultista real John Dee, que teria bloqueado a influência do Gênio sobre o destino dos monarcas reais. Ainda assim, há o rumor de que embora possa ser usado sobre a cabeça, o Rubi jamais deve ser observado de perto.

Outra lenda é que o vermelho profundo do Rubi assume uma cor mais fulgurante em tempos de guerra. Ele até chegaria a emitir um brilho cor de sangue quando a Inglaterra se vê envolvida em grandes conflitos ou momentos tumultuados. Ele teria brilhado intensamente durante a Primeira e Segunda Guerras e por conta disso, teria sido removido temporariamente da presença dos súditos. Além disso, dizem que o Rubi permite ao seu dono saber quantas mortes ocorrem em face de ordens reais dadas. Ele também causaria horríveis pesadelos e visões envolvendo antigas batalhas, massacres e torturas realizados diante dele ao longo da sua sangrenta história. Tal fardo se tornou pesado para alguns Monarcas britânicos que teriam enlouquecido após usar a joia por anos. 
 
À despeito da sua tumultuada história e das lendas associadas ao Rubi de Sangue, ele continua ocupando um lugar de destaque na Coroa Real Britânica.