sábado, 24 de dezembro de 2016

Krampus - Outro bicho-papão que vem assustar suas Festas.


Artigo originalmente publicado em 25 de dezembro de 2015

A popularidade da postagem a respeito de Grýla, a bruxa/troll/bicho papão da Islândia que costuma atormentar crianças travessas na época do Natal fez com que eu buscasse outros monstros que aparecem na época das festas natalinas.

E não são poucos...

O Krampus eu já conhecia, mas nunca tinha levado muito à sério.... sempre achei que a lenda fosse meio exagerada e inventada, mas parece que a estória realmente existe e foi importante, até cair em desuso e ser redescoberta nas últimas décadas.

Já que estamos ainda em clima natalino (de horror) que tal investigar a Lenda do Krampus?

Todos nós sabemos o que o Papai Noel simboliza. Ele é uma espécie de espírito benevolente que representa a bondade e a harmonia entre as pessoas. As crianças recebem um tratamento especial do Velho Noel. Aquelas que são boas e se comportaram ao longo do ano são agraciadas com presentes na véspera de Natal, mas o que acontece com aqueles que foram maus?

Reposta: eles são entregues ao Krampus, o demoníaco oposto do Papai Noel.

Cartão Postal alemão de 1910 mostra as crianças saudando o Krampus
O Krampus é uma Lenda muito antiga, possivelmente contemporânea do Papai Noel. A maioria das celebrações do Krampus - que ocorre anualmente no dia 5 de dezembro, são marcadas por diversão. Contudo uma análise mais criteriosa mostra que a lenda não é nem um pouco inocente.

O nome Krampus vem da palavra germânica krampen, ou garra, e de fato faz sentido já que a criatura é um monstro completo, com direito a garras, presas, chifres, cascos e todos os demais atributos que constroem um demônio clássico. A origem do Krampus não é fácil de definir, ele parece ser uma mistura de vários mitos alpinos, embora existam elementos que possam ser conectados ao folclore céltico e nórdico. Há menções a ele em texto escritos no século XVII, citando a Krampusnaicht na qual a celebração do personagem chegava ao auge. No século XIX, o Krampus figurava em vários cartões natalinos, usado pelos vitorianos como um símbolo de Natal tão marcante quanto o próprio Papai Noel.

Nos últimos anos, Krampus vem sendo redescoberto e celebrado em algumas cidades da Europa em desfiles festivos - a parada de dezembro em Viena, na Áustria é especialmente animada. Nela, diversas pessoas vestidas com fantasias de Krampus vagam pelas ruas assustando as crianças. Eles carregam porretes, varas de marmelo e chicotes que não cansam de brandir ameaçadoramente diante das crianças. Alguns levam grandes sacos nas costas para supostamente carregá-las para as profundezas do inferno. A festa atualmente é organizada pela prefeitura de Viena, visto que alguns autoproclamados Krampus passaram dos limites em sua encenação. Bebedeiras são comuns na ocasião e alguns atores acabaram encarnando o espírito do Krampus de maneira muito realista, distribuindo bordoadas e chicotadas no público. Desde 2010, cada Krampus leva uma espécie de colar em volta do pescoço com um número e autorização para participar do desfile. A tradição do Desfile de Krampus vem se espalhando nos últimos anos, tendo chegado aos Estados Unidos, onde é celebrado em Connecticut e Nova York.

Mas qual o apelo desse mito antigo e de onde ele vem?

Assim como o Papai Noel, o mito do Krampus parece ter origens muito mais antigas que podemos supor, acessando níveis mais profundos da psique humana.

Krampus é possivelmente uma manifestação de um dos "Deuses Cornudos", um termo que antropólogos utilizam para as várias divindades veneradas na Europa pré-Cristã e que foram posteriormente demonizadas, literalmente, pela Igreja Católica. O Deus com Chifres - meio humano, meio animal, foi um dia muito popular na Europa e no Oriente Próximo. Hathor no Egito, Moloch em Canaan são representações bastante claras, bem como o Deus Romano Pan, associado com comunidades rurais. Sua importância era marcante em festejos de colheitas e em celebrações que visavam garantir a abundância do solo.

Cartão postal britânico do início do século XX
As cerimônias devotadas a essas entidades divinas incluíam rituais orgiásticos, música, vinho, violência e sexo. Não é de se surpreender que elas tenham chocado os primeiros cristãos que professavam um estilo de vida asceta. Vistos como uma celebração de elementos condenados pela Igreja - impureza, desejo, idolatria, imoralidade, o "Deus Cornudo" em suas inúmeras variações acabou sendo duramente combatido e eventualmente elevado ao patamar de "Inimigo de Deus". Alçado ao papel de Satã, as comunidades que adoravam os Deuses Cornudos, não necessariamente "malignos", foram combatidos de maneira implacável até que o medo falasse mais alto e os rituais fossem abandonados. 

Contudo, os Deuses Pagãos, não seriam inteiramente esquecidos. Eles acabariam sobrevivendo aos séculos, transfigurados e adaptados, é bem verdade, mas ainda passíveis de reconhecimento. Krampus provavelmente foi adotado como um contraponto ao símbolo do Natal e ao benevolente Saint Nicholas (São Nicolau) que distribuía presentes às crianças boas. Krampus, a personificação do anti-Natal, surgia como uma figura maligna punindo as crianças que no correr do ano, haviam sido más. Nada poderia ser mais adequado para a imagem do anti-Natal do que um monstro com claros traços demoníacos.

O Krampus, que começou a aparecer de maneira recorrente a partir do século XVII não mudou muito nos séculos seguintes. Ele sempre era retratado como uma espécie de demônio condizente com a mitologia judaico-cristã: um monstro de aspecto animalesco, dotado de enormes chifres de carneiro, presas aguçadas na boca que despontavam para fora, olhos vermelhos, patas de bode e garras afiadas. Ele tinha uma longa língua que serpenteava sem parar. Sua pele sempre é negra como alcatrão ou em alguns casos vermelha e muito quente. O Krampus balia pelas ruas das cidades, carregando uma corrente enferrujada, exalando um fedor de enxofre nauseante. Ele avançava contra grupos de pessoas reunidas, investindo contra elas com alguma ferramenta punitiva, fosse um chicote ou uma vara de marmelo. Por vezes batia em quem estivesse por perto, adulto ou criança, atirando os pequenos em um cesto de vime, gaiola ou em um saco de couro que carregava nas costas. Dessa forma, o Krampus, levava as crianças más para conhecer os tormentos do submundo. Ele servia como uma espécie de guia infernal, levando as crianças a um tour pelas câmaras profundas do Hades, para que pudessem testemunhar em primeira mão os suplícios das almas que eram condenadas ao suplício eterno. Servia assim como um aviso claro: "ou vocês começam a se comportar ou irão acabar no inferno".

Os pais não deixavam de levar seus filhos às festas conhecidas como Krampuslauf (literalmente Corrida de Krampus) tradicionalmente comemoradas na Alemanha, Áustria, Suíça e em parte do Leste Europeu. Nela, homens vestidos com trajes medonhos davam varadas ou agarravam as crianças, mesmo nas que estavam comportadas. A ideia é que vendo o Krampus (e apanhando dele) no desfile, as crianças passariam a se comportar melhor e obedecer aos seus pais sem questionamentos. Na Inglaterra, para onde o mito foi carregado por imigrantes, as celebrações se tornaram comuns até o início do século XX.

A partir da publicação do influente livro "O Deus das Feiticeiras" da antropóloga Margareth Murray de 1933, Neo-Pagãos começaram a resgatar os Deuses Cornudos, um termo cunhado pela própria autora. Krampus foi imediatamente reconhecido como um exemplo de alegoria pagã que simplesmente fora cooptado pela Igreja para compor as tradições natalinas. Suprimido, banido e ridicularizado, ao longo de séculos,o Krampus jamais desapareceu por completo, ele continuou entre nós assumindo diferentes máscaras e assim sobrevivendo.

Durante a primeira metade do século passado, os regimes fascistas proibiram o uso do Krampus considerando-o uma má-influência para a população. Na Áustria sob o domínio nazista, depois de 1938, as tradicionais festividades de dezembro foram inteiramente banidas. Máscaras e fantasias de Krampus foram queimadas em praça pública e uma pesada multa era imposta a quem desobedecesse as leis. O governo britânico também proibiu o uso do Mito nas celebrações do calendário natalino por considerar a lenda prejudicial - em parte por sua origem germânica.

Uma fotografia de 1935 mostra um Desfile de Krampus na Áustria
O Krampus parecia fadado a desaparecer uma vez mais. Contudo, ele acabou sobrevivendo a mais esse oponente. Na década de 1960, a festa voltou a ser realizada na Áustria - que parece ser o berço original da lenda. Dali foi levada lentamente a outras terras: Bavária, Norte da Itália, Romênia, Croácia, Hungria, República Tcheca e várias outras nações.

Atualmente o Krampus experimenta um momento de redescoberta ao redor do mundo. Há ainda muito debate se ele é adequado ao público infantil ou se ele deveria ser de alguma forma censurado. Não obstante, a Internet parece ter sido instrumental para trazê-lo de volta do limbo em que se encontrava espalhando sua existência para outros povos e continentes. 

Adotado por diferentes públicos por diferentes motivos, sua popularidade nunca foi tão grande.

Update:

Nossa... eu não convidaria o Sr. Krampus para a Ceia Natalina.

Já o Sr. C, faz parte das nossas festas:


Feliz Natal para todos!

Um comentário:

  1. Mais um avatar de Nyarlathotep pra apavorar as festas!!! Próxima vez que os investigadores correrem pra esperar Papai Noel no pé da lareira, vão tomar um bom susto!

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