sábado, 3 de dezembro de 2016

Perseguidores de Bruxos - Os Esquadrões Anti-Feitiçaria da Arábia Saudita


Existe um triste aspecto na natureza humana que mancha nossa história desde tempos imemoriais.

Por séculos, a humanidade manifestou a propensão de arranjar bodes expiatórios para culpar pelas mais variadas tragédias e fenômenos inexplicáveis, taxados como praticantes de magia negra, feitiçaria e bruxaria. Nossa história está manchada pelo sangue de inocentes, derramado em perseguições sistemáticas que visam culpar alguns como os responsáveis diretos por incontáveis transgressões. 

No alvorecer de tempos mais racionais, procuramos responder questões fundamentais a respeito do mundo que nos cerca e explicar os conceitos de morte, doença e desastre, o que nos permitiu compreender - ao menos em parte, como funciona o Mundo Natural. Nós também fizemos um grande progresso ao não imputar à pessoas a culpa por acontecimentos. Na maioria dos lugares as pessoas não são mais acusadas ou declaradas culpadas sem um devido julgamento. Ainda assim, mesmo nos dias atuais, persiste em muitos lugares do mundo moderno, a crença em magia negra e na habilidade de perverter a ordem através do misticismo. Tristemente, essa crença está presente não apenas em países atrasados e isolados. Ela não está restrita a zonas rurais e a povos iletrados, presos a costumes tribais. Não, em alguns dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo, ainda persevera um sistema de crenças que encara o mau olhado, as maldições e os sortilégios como algo a ser temido e combatido. Na Arábia Saudita, temos o exemplo de uma nação poderosa e próspera, na qual a Caça às Bruxas acontece no dia a dia. 

Embora este seja um país de notável desenvolvimento e riqueza, lá existe uma unidade especial, treinada com o objetivo único de caçar, prender, julgar e executar todos aqueles que se envolvem com magia negra e com as chamadas ciências proibidas. 

A Arábia Saudita, anteriormente conhecida como Reino da Arábia Saudita, é um dos países mais ricos e avançados do Oriente Médio. O segundo maior produtor mundial de petróleo, o único da região que possui um assento permanente nas reuniões do G20 que congrega as maiores economias do mundo. Abençoada com uma economia em pleno desenvolvimento e com um alto índice de desenvolvimento humano, padrão elevado de vida e vastas fortunas, a Arábia é uma nação afluente. Há uma forte pressão na direção da globalização e criação de infra-estrutura. Projetos de engenharia e arquitetura fabulosos garantem ao país destaque no cenário internacional e reconhecimento por conquistas notáveis. Em todos os cenários, trata-se de um país avançado, e ainda assim ele é amaldiçoado por velhas tradições, crenças e Leis brutais.

Uma das nações mais desenvolvidas do Oriente Médio
O Governo Saudita adota uma versão rígida da Tradição Islâmica e das práticas conhecidas como Leis da Sharia, que são um conjunto de regulamentos baseados na interpretação literal das leis islâmicas. A Arábia Saudita em especial se ajusta a Doutrina Wahhabi, que é um ramo ultraconservador do Sunni que defende a pureza da crença monoteísta. Este movimento teve início no século XVIII com um estudioso chamado Muhammad ibn Abd al-WahhabIn, que defendia o retorno de uma interpretação literal do Al-Corão, o Livro Sagrado dos Muçulmanos. Defendia também a eliminação das outras crenças e tradições totêmicas. Nesse sistema de crença, qualquer tipo de crença em poderes além do "Deus Único e Verdadeiro, Alá" é vista como blasfêmia. Dessa forma, qualquer tipo de crença em magia, feitiçaria, leitura do futuro, da sorte, astrologia, cura pela fé, uso de amuletos, e qualquer interação com entidades sobrenaturais como Jinns, espíritos, demônios, profetas, santos, ídolos, ou os mortos, é considerada como uma séria transgressão. Tais ofensas são passíveis de penas como prisão, açoite e nos casos mais extremos execução através de decapitação. O acusado de tais práticas raramente tem a oportunidade de se defender e acaba ficando à mercê dos Juízes, que tem plenos poderes quanto a decretar sentenças.

Dentro de uma sociedade com um código de conduta religiosa tão estrito, que proíbe a crença em quaisquer práticas mágicas, as pessoas podem imaginar que não há espaço para tais coisas na Arábia Saudita e que a população se abstém. Mas não é bem assim. Em muitas nações islâmicas, inclusive na Arábia Saudita, existem tradições bastante antigas, enraizado no dia a dia. A maioria da população acredita, por exemplo, na existência de Jinns, os tradicionais Gênios das Mil e Uma Noites. Estes seres sobrenaturais, cuja existência é atestada pelo próprio Corão, seriam entidades feitas de fogo, ar, terra ou água, que vivem em um universo além. Os Jinn são tidos como a causa de muitas tragédias e acidentes, eles trazem má sorte, causam desastres e tendem a possuir os vivos. 

Jinn do Fogo
Existe também a crença no "Evil Eye" uma espécie de mau olhado que afeta as pessoas e é lançado com o intuito de amaldiçoar e direcionar pragas. A crença em tais feitiçarias é tão difundida que as cortes de justiça criminal ficam abarrotadas de casos envolvendo tais circunstâncias. Além disso, existem acusados que tentam se defender, negando sua responsabilidade em face de influência sobrenatural. Mesmo acusados de crimes capitais como assassinato e estupro por vezes alegam terem praticado tais atos sob influência de Jinns e de feitiços lançados por terceiros. Tais defesas na maioria das vezes são indeferidas, mas há casos em que elas funcionam e ajudam a livrar acusados da punição.

Considerando que a Arábia Saudita segue um regime religioso ultra-conservador, não causa surpresa alguma, o fato das autoridades levarem muito à sério qualquer deslize moral. A quantidade de queixas e denúncias a respeito da atuação de feiticeiros e de Jinns motivou inclusive a criação de uma Divisão Especial da Polícia para lidar com tais casos. Essa Elite formada pelo que se convencionou chamar de Esquadrões Anti-Feitiçaria existe com o propósito de encontrar, coibir e literalmente caçar aqueles que se envolvem com tais práticas. Surgido em 2009 como uma sub-divisão do Comitê para a Promoção da Virtude e Prevenção ao Vício, a unidade é das mais influentes, com uma atuação muito ampla.

Os agentes do Esquadrão Anti-Feitiçaria patrulham as ruas das maiores cidades e aplicam as Leis da Sharia conforme os dispositivos legais, o que inclui reforçar a segregação entre homens e mulheres, a observância dos horários de reza, códigos de vestimenta e outras regras aplicáveis. Contudo, sua principal função é verificar a existência de Feiticeiros e dar combate a eles. Os membros dessa unidade recebem treinamento religioso e filosófico nas leis do Islã. Eles são treinados entre outras coisas em métodos de reconhecer a presença de Jinns, em técnicas de exorcismo e no reconhecimento de rituais mágicos nocivos. Para muitos, eles são verdadeiros heróis que promovem a vontade do Profeta através das Leis, para outros eles são verdadeiros fanáticos, zelotas com autoridade para agir como polícia, juiz e por vezes carrascos.


Abdullah Jaber um dos diretores mais respeitados da Rede de Televisão Al-Jazeera contou a respeito da unidade:

"De acordo com as Leis de nossa tradição islâmica nós acreditamos que magia realmente existe. O fato de existir um órgão oficial subordinado ao Ministério do Interior da Arábia Saudita, especializado em combater feitiçaria demonstra que nosso governo reconhece a existência do problema, bem como os muçulmanos mundo a fora". 

Além do treinamento teológico imprescindível para esse tipo de tarefa, os agentes do Esquadrão Anti-Feitiçaria recebem treinamento em táticas de abordagem, combate e contra inteligência. Muitos deles receberam treinamento militar ou com unidades de resposta rápida como a S.W.A.T. norte americana. É claro, eles também recorrem a tecnologia, informação e armamento pesado. Os agentes tem liberdade para portar armas de fogo - um direito raro na Arábia, trafegam em automóveis blindados e usam uniformes especiais que os identificam. Além disso, precisam fazer uma triagem psicológica regular e seguem um programa que visa mantê-los espiritualmente puros e imunes aos maus olhados e a magias que visem amaldiçoá-los. Por essa razão, muitos deles utilizam máscaras quando estão em diligência e nomes código para não serem reconhecidos publicamente.

As atribuições mais importantes do Esquadrão inclui realizar operações em lugares onde magia e rituais proibidos são conduzidos. Eles contam com um serviço gratuito telefônico de denúncia, onde civis podem delatar suspeitos. Cada unidade do Esquadrão realiza em média 10 ou 12 diligências semanais, que incluem visitar o local denunciado, verificar a existência de indícios de magia negra e recolher suspeitos. Não existe no código de leis saudita uma definição para o que constitui feitiçaria, portanto, cabe aos agentes decidirem com base no que encontram, na palavra de testemunhas ou no conselho de sacerdotes. 

Membros do Esquadrão Anti-Feitiçaria em reunião
As provas em geral são coletadas na cena do crime. Gravações e grampos telefônicos são utilizados, bem como filmagens e testemunhas. Locais onde animais são sacrificados, casas de imigrantes e templos de outras religiões operando na clandestinidade são alvos constantes do Esquadrão. Os Juízes Religiosos formulam o veredito baseado nas evidências apresentadas e tem liberdade para interpretar a Lei da Sharia, acusando os suspeitos e definindo as sentenças que melhor se encaixam no caso. Penas de multa e de prisão são comuns, mas casos mais fortes demandam a chibata em uma praça pública ou mesmo a execução. O acusado em geral não possui nenhum defensor nomeado e está por conta própria.

Desde a criação do Esquadrão, houve um número considerável de apreensões e capturas, incluindo até mesmo pessoas influentes. Em 2007, um farmacêutico de nacionalidade egípcia foi sentenciado à morte por decapitação por utilizar supostas poções mágicas para dissolver o casamento e obrigar pessoas a cometer pecados graves. Além disso, ele também era acusado de deixar uma edição do Al Corão em um lugar impuro - no caso o banheiro de sua casa. O Esquadrão Anti-Feitiçaria seguiu a dica de vizinhos e ganharam a cesso a Farmácia onde encontraram ingredientes estranhos que supostamente serviam para a criação das poções. Na casa do acusado encontraram velas, estranhas ervas e livros de magia, que poderiam ser usados para invocar demônios. Embora o homem tenha confessado ter cometido adultério e deixar o livro sagrado no banheiro, ele negou veementemente as demais acusações. Mesmo assim, ele acabou sendo executado. Apenas duas semanas depois de ter sido capturado e julgado, ele foi conduzido até uma Praça no Centro de Riad onde sua cabeça foi cortada com um golpe de cimitarra.

Em outro caso, uma mulher chamada Amina bint Abdul Halim bin Salem Nasser foi presa e julgada por realizar feitiçaria. Ela supostamente realizava feitiços de mau agouro e operava maldições em troca de dinheiro. Também era acusada de praticar curanderismo. A mulher tentou fugir, mas foi derrubada pelos agentes do Esquadrão usando tasers. Na sua casa, encontraram alguns livros e material usado em suas práticas de cura milagrosa. Eventualmente ela foi sentenciada à morte. Um operário de nacionalidade sudanesa também foi condenado a morte por decapitação, depois que em sua casa foram achadas evidências de que ele havia sacrificado pombos e cabras. O homem tentou se defender alegando que estava professando suas crenças, ele foi sentenciado a 3 anos de cadeira e 15 chibatadas, posteriormente foi deportado.

Em 2008, o Esquadrão investigou Fawza Jahud sob a acusação dela invocar espíritos e Jinns. As alegações foram baseadas em testemunho de vizinhos que acusaram a mulher de realizar rituais tão medonhos que era possível "ver e ouvir a voz e a forma dos gênios quando estes se materializavam no ar". Na casa em que ela vivia foram encontrados talismãs, incenso, mantos e dinheiro aceito como pagamento pelos seus serviços. Os Jinn invocados por ela eram capazes segundo os acusadores de "matar, perverter e destruir famílias inteiras". Quando o esquadrão chegou a casa de Fawza, a encontrou nua e ela tentou reagir. Os membros do Esquadrão tiveram permissão de usar força letal para se proteger dos maus olhados da "feiticeira". A mulher foi morta com tiros de escopeta. 

Uma execução pública na Capital da Arábia Saudita
Todos esses eventos chamaram a atenção de Organizações Internacionais ligadas aos Direitos Humanos. Várias delas recorreram diretamente a autoridade máxima no país, o Rei Abdullah para que algumas das acusações fossem revistas. Infelizmente, a grande maioria dos pedidos não foram acatados e as prisões sauditas permanecem lotadas com suspeitos de bruxaria. Em 2007, o caso de outra mulher, Fawza Falih terminou tragicamente quando a ordem de libertação chegou tarde demais e ela sucumbiu diante das precárias condições do cativeiro.

Muitos dos acusados são estrangeiros. A Arábia Saudita costuma atrair operários e trabalhadores de lugares distantes da África e da Asia que desconhecem as leis locais e acreditam que podem preservar seus costumes em seu novo lar. Estrangeiros podem ser acusados de transgressões em nome do interesse nacional, e enfrentar penas capitais dependendo da seriedade de seus "crimes". Muitos deles não falam árabe e não conseguem sequer explicar seus atos, e como não há defesa assistida, a maioria deles sequer compreende as acusações que lhes são imputadas. 

Não é por acaso que o Esquadrão Anti-Feitiçaria se tornou uma divisão extremamente temida entre estrangeiros trabalhando e vivendo na Arábia Saudita. Os agentes tem total liberdade de invadir casas e locais de trabalho, realizar revistas e interrogar os suspeitos. Feitiçaria é uma acusação muito comum entre contratantes insatisfeitos com o trabalho de seus empregados estrangeiros. Um caso famoso envolve uma mulher de origem asiática que foi condenada a receber 1000 chibatadas e cumprir 10 anos de prisão depois que seu patrão a acusou de magia negra. Felizmente, no caso dessa mulher a verdade veio a tona quando provou-se que seu patrão a denunciou apenas depois que ela se negou a prestar favores sexuais.  

Vítimas de Execução por feitiçaria são apresentadas, erguidas sem cabeça por um guindaste
Na Arábia Saudita, acusações de Feitiçaria atingem até indivíduos nos altos escalões do governo e política. Houve inclusive uma notável acusação contra o então Presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad e seu conselho quando estes estavam em visita na Capital da Arábia Saudita. O líder foi denunciado por secretários e ajudantes. A acusação era nada menos do que adoração a Jinns e utilização de magia negra para obter favores especiais e influenciar o voto em acordos comerciais. Embora Ahmadinejad tenha negado todas acusações, um suposto feiticeiro que alegava ter encontrado com o líder iraniano afirmou que ele havia realizado uma magia no intuito de capturar um Jinn que seria usado contra Israel. Embora a acusação não tenha resultado em prisão, membros do Esquadrão Anti-Feitiçaria fortemente armados chegaram a visitar o Presidente Iraniano no Hotel em que ele estava hospedado o que por pouco não resultou em um incidente internacional.

A Unidade foi responsável por realizar 118 prisões de dignatários, artistas e políticos apena no primeiro ano de atuação. Com base em sua diligência o órgão recebeu uma verba extra que permitiu montar outras dez unidades nas principais cidades do país. O treinamento para os agentes melhorou e foi refinado com intercâmbio com agências de combate ao terrorismo na América, Alemanha e Reino Unido. Alguns membros da força são clérigos e doutores em lei islâmica. No final de 2012, estima-se que cerca de 800 pessoas foram presas e julgadas por crimes relacionados a feitiçaria, o que é visto pelo governo saudita com um retumbante sucesso.

Não é de se surpreender que organizações internacionais condenem tais práticas, alegando que a perseguição a inocentes, punições arbitrárias e confissões forçadas ocorrem frequentemente e estão fora de controle no país. A Anistia Internacional tentou condenar em tribunais estrangeiros o Esquadrão Anti-Feitiçaria, mas nenhuma medida surtiu efeito. A completa liberdade dos juízes e dos agentes em capturar suspeitos e interrogá-los resulta sem dúvida em graves injustiças. O Governo Saudita por sua vez nega o caráter coercitivo do Esquadrão e qualquer quebra de direitos Ainda assim, o número de prisões e mortes continua aumentando.

As Cimitarras continuam afiadas na Arábia
Como acontecia no passado, a humanidade continua tendo uma necessidade de caçar e destruir aquilo que não entende ou que é considerado diferente. Tudo o que é visto sob um ponto de vista imoral ou abrasivo é passível de um violento expurgo. Embora o mundo tenha avançado consideravelmente no que diz respeito a direitos e deveres, alguns lugares ainda estão longe de afastar as superstições concernentes a demônios, espíritos e magia negra. Parece existir uma necessidade de combater um mal invisível e triunfar sobre esse mal, custe o que custar.

Pode parecer difícil acreditar que em nossos tempos de razão, ainda existam lugares onde tradições e medos servem como justificativa para declarar sentenças de morte. Mas em lugares como a Arábia Saudita, a Caça às Bruxas continua incendiando inocentes e provocando tragédias. 

7 comentários:

  1. Tinha que ser um lixo de país mesmo enquanto a Europa já se livrou do martelo das bruxas agora vem essa nova inquisição idiótica praticante de xenofobia já que segundo o postagem vários trabalhadores estrangeiros são perseguidos e até o político do Irão foi investigado claro já que foi presidente de um país inimigo então é do interesse deles.

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  2. Aqueles que se consideram filhos de algum ser e se sentem especiais e acima de todos por isso são os mais perigosos.

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  3. Desculpa pra que o bolo não seja partilhado com o resto do país.

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  4. Jace e Mahamoti djinn do Magic The Gathering alí nas imagens :)

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  5. o artigo poderia dar uma ideia bastante diferente sobre uma partida de Call of Chtulhu, porque ao invés de ser investigadores , não interpretar sacerdotes dos Antigos que são caçados em tempo intergral por fanáticos islâmicos ou cristão ?

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  6. Sempre achei que os contos de horror sobre entidades de Call of Cthulhu foram um tipo de propaganda pra esmagar religiões politeístas da Africa/América e Ásia, pense quem são os Vilões desses contos ? quase sempre cultos ancestrais de algum local remoto da Africa/América/Ásia

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