quinta-feira, 22 de julho de 2021

Terror e Erebus - A Jornada de Horror da Expedição Franklin (parte 1)


"Não está aqui: o Norte branco tem os seus ossos;
E tua heroica alma de marinheiro, segue em viagem mais feliz
 agora em direção a nenhum Polo terrestre".

- Alfred, Lord Tennyson,
inscrição no memorial a Sir John Franklin 
na Abadia de Westminster
Nós humanos, como espécie, sempre tivemos um forte impulso que nos levou a explorar o mundo em que vivemos. Seja por terra, pelos mares ou mesmo no espaço, temos uma vocação natural que nos compele a conhecer à fundo nosso mundo e um desejo instintivo de tocar seus limites. É uma necessidade quase irresistível de saber o que além da próxima colina, em torno da próxima onda e, de fato, além do próximo planeta. É esse espírito empreendedor de exploração que vibra no coração de nossa civilização, um motor de iluminação que no passado impulsionou o avanço rumo aos recantos mais distantes e que resultou em realizações humanas impressionantes.
Nos anais das grandes explorações, existiram aqueles que tiveram sucesso em seus esforços para expandir nosso mundo. Que traçaram mais adiante as fronteiras mapas do que anteriormente conhecíamos e que preencheram os vazios nos mapas. Contudo, houve outros que, embora tivessem grandes aspirações, não conseguiram cumprir seus objetivos. Desapareceram nas selvas do mundo, sumiram nos mares distantes ou foram tragados da existência por forças além de sua capacidade. Estes nunca mais voltaram. 
Em muitos casos, essas expedições perdidas, marcadas pela tragédia e circunstâncias de sua condenação tornaram-se mistérios duradouros. Mistérios estes que perduram além daquilo que esperavam descobrir. Um dos casos mais emblemáticos entrou para a história como a Expedição Franklin, que em 1845 navegou da Inglaterra para o grande frio do norte, nas bordas de nosso mundo para nunca mais ser vista ou ouvida novamente.

A expedição foi lançada na primavera de 1845, com o objetivo de tentar encontrar a lendária Passagem do Noroeste. Já em 1845, havia uma grande preocupação em encontrar ao norte uma rota navegável alternativa que ligasse os oceanos Atlântico e Pacífico. O caminho, cuja existência era apenas presumido era chamada de Passagem Noroeste. Sua descoberta seria de extrema importância, ligando os mares e possibilitando viagens mais curtas até os ricos mercados orientais. Até então, a única maneira de chegar ao Pacífico vindo do Atlântico era uma longa e perigosa jornada ao redor do Cabo Horn, no extremo sul do Chile, na América do Sul, ou a igualmente traiçoeira passagem ao redor do Cabo da Boa Esperança na África. Se alguém pudesse encontrar outra maneira de cruzar do Atlântico para o Pacífico, poderia abrir uma rota comercial alternativa muito lucrativa para o Oriente e as ilhas das Especiarias, e isso valeria uma enorme fortuna. 
O esforço para sua descoberta capturou a imaginação dos exploradores do Ártico por séculos e alimentou muitas expedições para encontrá-la. Desde o século XV, antes mesmo da América ser descoberta, navegadores já conjecturavam a existência da passagem, mas a sua busca continuou por boa parte do século XIX. Os britânicos, em particular, estavam convencidos de que tal rota existia e, nos idos de 1890, estavam absolutamente obcecados em encontrá-la. Aquilo se tornou motivo de orgulho nacional.
A Expedição Franklin seria a mais ousada e planejada das expedições visando encontrar a Passagem Noroeste. Contaria com mapas desenhados por exploradores e intérpretes que conversaram com esquimós que viviam naquela região extrema. A Expedição seria chefiada por John Franklin, um marinheiro e explorador experiente que ingressou na Marinha Real aos 16 anos e lutou com distinção nas Guerras Napoleônicas. Franklin era tido como um dos melhores comandantes navais da Marinha Real Britânica, havia completado três viagens bem-sucedidas para mapear a costa norte do Canadá e o nordeste do Alasca. Tinha portanto vasta experiência em mares gélidos, onde abundavam os perigos manifestados por icebergs, tempestades e nevascas. Além disso, recebeu o título de cavaleiro por seu trabalho e serviu como vice-governador da Terra de Van Diemen (agora conhecida como Tasmânia, Austrália) antes de retornar à Inglaterra para explorar o Ártico. Franklin sempre foi obcecado pela ideia da Passagem Noroeste e queria encontrá-la de uma vez por todas; seria a conclusão de sua carreira com chave de ouro. 
Sir John Franklin
No centro da expedição estavam dois enormes navios, o Erebus e o Terror, embarcações que provaram sua coragem na exploração da Antártica e que desafiaram climas e temperaturas inclementes. Ambos foram originalmente naves de guerra, concebidas como navios de bombardeio, embarcações que carregavam morteiros e que precisavam ser naturalmente resistentes. Os dois transportariam um total de 24 oficiais e 110 marinheiros. O Erebus seria comandado por James Fitzjames e o Terror foi colocado sob o comando de Francis Crozier, enquanto toda a expedição estava sob a liderança experiente do próprio Comandante Franklin. Apesar de ter completado os 60 anos, idade considerada bastante avançada para esse tipo de aventura, não havia dúvidas de que ele era o homem para a missão.
Os preparativos para a expedição foram bem coordenados desde sua concepção. Tanto o Erebus, que tinha 19 anos de serviço, quanto o Terror, que acumulava 32 anos, eram navios antigos, mas que passaram por extensas reformas para transformá-los em naves mais resistentes e modernizadas. Eles receberam novos mastros reforçados, lemes retráteis e hélices de parafuso, uma inovação nos navios árticos. Instalaram ainda novos motores a vapor extremamente potentes, que eram tecnologicamente o que havia de mais avançado para a época. Os navios também foram equipados com recursos modernos: arcos reforçados com grossas vigas de ferro, a fim de torná-los capazes de suportar os rigores dos mares gelados e um dispositivo de aquecimento interno movido a vapor para manter a tripulação sempre aquecida. A expedição inteira também foi muito bem abastecida com alimentos conservados e enlatados que deveriam durar 3 anos, um estoque de lenha e carvão para queimar, água potável, barris com suco de limão, uma infinidade de cobertores e uma extensa biblioteca, bem como vários outros luxos.
Com todo equipamento de alta tecnologia em ordem, os navios de última geração estavam prontos para a ação. O Erebus e o Terror partiram rumo à glória, deixando o Porto de  Greenhithe, na manhã de 19 de Maio de 1845. A primeira parada foi na Escócia para receber mais uma carga de provisões antes de cruzarem o Atlântico, rumo aos mares frios do Ártico, águas traiçoeiras jamais mapeadas, em busca da descoberta que mudaria o mundo para sempre. 
Com preparativos e equipamentos tão impressionantes e sob a liderança de homens que eram versados ​​na exploração do Ártico, ninguém imaginava que algo pudesse dar errado. Enquanto uma multidão de pessoas se reunia nas docas para vê-los partir, certamente ninguém suspeitou que o Erebus e o Terror estavam destinados a se tornar um dos maiores mistérios da história.
Não demorou muito para que a Expedição de Franklin fosse rapidamente envolvida por um turbilhão de problemas e infortúnios que se iniciaram tão logo eles deixaram sua pátria natal. Os navios estavam lotados até o limite da capacidade com 65 tripulantes cada, resultando em condições de aperto que acarretavam numa tripulação irritada, propensa a discussões e brigas. A conduta desordenada prevalecia à bordo, o que Franklin, um capitão á moda antiga, não tolerava. O comandante era notoriamente rigoroso quanto a palavrões e embriaguez, e cinco tripulantes foram mandados para casa por beber e praguejar quando os navios pararam para comprar provisões na Escócia antes mesmo de cruzarem o Atlântico. Não era um bom sinal do que estava por vir. 

A viagem transcorreu com um moral surpreendentemente baixo desde o início. Alguns homens reclamavam do salário, que embora fosse superior ao soldo habitual, previa um tempo de serviço indeterminado, afinal, ninguém podia dizer quanto tempo demoraria a missão. Os supersticiosos se queixavam que deixar em branco o espaço onde constava data de retorno atraía má sorte. À despeito disso, Franklin zelava por manter a disciplina. Ele levou os navios através do Atlântico Norte até a baía de Disko, na costa oeste da Groenlândia. Lá embarcaram carne bovina fresca, frango defumado, linguiça e outros suprimentos. Também seria a última oportunidade para a tripulação escrever cartas endereçadas para casa.

A expedição seguiu a rota de Lancaster Sound, onde planejavam começar sua investida em território desconhecido. Eram águas misteriosas que eles estavam prestes a enfrentar. Até aquele ponto, várias expedições ao Ártico haviam gradualmente mapeado porções da região, mas restavam cerca de 181.300 km2 de território jamais navegado e nunca mapeados e era este vasto e desconhecido território que a Expedição estava adentrando. 

Em 26 de julho de 1845, o Capitão Dannert, mestre do baleeiro Príncipe de Gales, avistou os dois navios na Baía de Disko, esperando por condições mais claras para adentrar o estreito de Lancaster. Seria a última vez que alguém de sua terra natal os veria com vida. 


Dannert escreveu em seu diário:

"Cruzamos com o Erebus e Terror aportados e já carregados com as provisões. Os marinheiros vieram para o tombadilho nos saudar agitando lenços e pedaços de pano. Ficaram felizes com a presença de compatriotas, o que pareceu aliviar os ânimos à bordo daqueles enormes navios. Ainda assim, era a tripulação mais sisuda que já vi, homens tristonhos, como se estivessem incertos quanto à missão diante deles. E não é para menos! Não sabiam o que encontrariam mais adiante, a única certeza é que teriam gelo, ventos causticantes e um clima inclemente. Nenhum dos meus comandados os invejava e posso dizer que eu tampouco gostaria de trocar de lugar com qualquer um deles".

Ao deixar o porto, os navios sumiram da história e se tornaram parte das lendas. 

Quando nenhuma notícia foi ouvida sobre a expedição por mais de dois anos, seus patrocinadores na Inglaterra ficaram temerosos. Não havia uma data pré-estabelecida para o retorno, mas ninguém imaginava que eles ficariam tanto tempo sem notícias. Não seria a primeira vez que navios acabavam presos no gelo, incapacitados de retornar. A expedição tinha suprimentos para três anos não mais que isso, o que começou a causar preocupação em parentes e amigos.

A esposa do comandante, Lady Jane Franklin, ficou obcecada por encontrar seu marido, ou ao menos saber de seu paradeiro. Ela usou contatos políticos e pressionou o Almirantado para que tomasse uma atitude. Um grupo, o Conselho Ártico, foi formado para estudar a situação. Este organizou a primeira missão de resgate em 1848. O objetivo era determinar o que havia acontecido. A Marinha não poupou despesas nesse resgate, recrutando todos os navios disponíveis na caçada à Expedição de Franklin. Uma vultuosa recompensa no valor de 20 mil libras chegou a ser oferecida para quem encontrasse o grupo, outros 10 mil para quem trouxesse informações e mais 10 pela descoberta da Passagem Noroeste. Isso obviamente atraiu muitos interessados; apenas em 1850, uma dúzia de navios partiram para tentar encontrá-los. 


Impelidos pela curiosidade e promessa de recompensa, várias expedições seguiram rumo ao norte para encontrar qualquer evidência do que havia acontecido com eles. Algumas dessas expedições pioneiras revelaram algumas pistas.

Os primeiros vestígios de relíquias deixadas pela expedição, restos de um acampamento de inverno e túmulos de tripulantes foram encontrados na Ilha de Beechey. Os poucos resquícios de acampamento eram estranhos, sem os típicos círculos de pedra usados para acender fogueiras. Tudo parecia um tanto descuidado, o que era atípico para exploradores experientes. Tanto as buscas marítimas quanto as buscas terrestres foram realizadas à duras penas sob um clima hostil. Na tentativa de resgate muitos outros perderam suas vidas. Por fim, os americanos também se envolveram no esforço, já que o governo cedeu navios de guerra para a missão de resgate. 

Todos tinham uma teoria a respeito do que havia sucedido, o que Franklin teria feito e o que poderia ser feito para achá-los. Raposas árticas foram capturadas com mensagens presas ao redor do pescoço com detalhes da situação. As mensagens eram carregadas de desesperança e temor diante do pior. Medalhas e insígnias foram achadas com esquimós, supostamente dadas a eles por membros da expedição para que, se estes encontrassem um grupo de resgate. Apesar de todos os esforços, nenhuma pista definitiva lançou uma luz sobre o destino final dos 141 homens perdidos.  

Mas o que teria acontecido com a Expedição Franklin? Que fim tiveram os homens envolvidos em uma das mais ousadas incursões através da Fronteira Ártica? Teriam todos eles perecido diante das agruras do território selvagem? E se esse foi o caso, sob que circunstâncias? Será que teriam encontrado a tão almejada Passagem Noroeste e se visto incapazes de retornar com as informações? Os questionamentos eram muitos, bem como as opiniões que inflamavam a imaginação do público.  


Em 1854, o médico John Rae, à serviço da Hudson Bay Company, entrevistou nativos de uma tribo Inuit que contaram uma sinistra história. Segundo eles, cerca de três anos antes, um grupo de 30 ou 40 homens brancos foram vistos cruzando o deserto gelado. Arrastavam um barco sobre trenó onde carregavam seus suprimentos pela paisagem desolada. Eles contaram uma trágica história sobre como o navio que os trouxe havia ficado preso e terminou esmagado pela pressão do gelo. Os esquimós negociaram com eles um pouco de carne de foca, mas ficaram apreensivos com a maneira como os forasteiros se comportavam: Pareciam incomodados, irritadiços e propensos à violência. Decidiram não se aproximar mais deles temendo que estivessem doentes ou tomados por maus espíritos. Dias mais tarde, a tribo escutou gritos e o estampido de tiros cujo som se propagou pela planície. Encontraram algumas semanas depois alguns cadáveres, mas os outros haviam partido arrastando o barco, ainda mais para o interior.

Os esquimós disseram que os homens ficaram presos quando o inverno chegou. Foi um inverno especialmente severo e eles não tiveram nenhuma chance, acabaram morrendo de inanição. Em meio ao desespero, os inuit afirmaram que eles teriam enlouquecido e recorrido ao canibalismo antes de expirar. Para comprovar a história, mostraram alguns artefatos, incluindo colheres de prata e roupas posteriormente identificados como pertencentes a Expedição Franklin. Os objetos haviam sido barganhados com a tribo. 

Rae ficou chocado com a narrativa e pediu indicações aos esquimós para chegar até o lugar onde a tragédia teria ocorrido. Como era verão, o tempo ajudou e ele conseguiu localizar o acampamento final sem grandes dificuldades. Lá, uma visão descrita como apocalíptica, o aguardava.

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