segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Motosserras - O Ruído da máquina de cortar (e desmembrar)

Já que estamos falando de armas improvisadas em uma ambientação de terror, que tal dedicar um espaço especial para uma das ferramentas mais terríveis quando usadas com o intuito de ferir, desmembrar e matar. 

Estou me referindo às Motosserras. Poucos objetos estão tão intimamente associados ao horror quanto essas ferramentas. Seu ruído característico, a corrente dentada girando em alta velocidade e a aparência brutal fazem dela um dos instrumentos mais reconhecíveis do cinema de terror, geralmente empunhada por algum assassino mascarado que parece ter saído diretamente de um pesadelo. Para os investigadores de Chamado de Cthulhu, entretanto, a motosserra pode ser algo ainda mais interessante: uma arma improvisada, pesada, barulhenta e extremamente perigosa. E há uma curiosidade que muitos jogadores talvez desconheçam: ela já existia na década de 1920.

A história da motosserra começa, curiosamente, não nas florestas, mas na medicina. Em 1830, o médico alemão Bernhard Heine desenvolveu o osteótomo, um instrumento cirúrgico formado por uma pequena corrente dentada acionada manualmente. Seu propósito era cortar ossos durante determinados procedimentos cirúrgicos. A ideia de uma corrente serrilhada capaz de remover material rapidamente acabaria encontrando outras aplicações, e durante o final do século XIX e início do XX surgiram diversos projetos destinados ao corte de madeira. Eram, contudo, máquinas experimentais e muito diferentes das ferramentas portáteis que conhecemos atualmente.

A verdadeira transformação ocorreu nas primeiras décadas do século XX, quando motores começaram a ser incorporados às serras de corrente. Em 1918, o canadense James Shand patenteou uma serra de corrente portátil para trabalhos florestais. Poucos anos depois, Andreas Stihl desenvolveu uma serra elétrica para madeira, patenteada em 1926. No ano seguinte, Emil Lerp apresentou a Dolmar Type A, uma das primeiras motosserras movidas a gasolina. Portanto, uma aventura ambientada em Arkham em 1928 poderia perfeitamente colocar uma dessas máquinas em cena. O detalhe importante é que ela seria muito diferente da motosserra moderna.

As primeiras máquinas motorizadas eram bem maiores. A motosserra elétrica desenvolvida por Stihl pesava quase 40 quilos e precisava ser ligada a uma fonte de energia; os primeiros modelos a gasolina também eram pesados e pouco práticos para manejar como arma. Algumas eram concebidas para serem operadas por dois trabalhadores, um segurando a máquina e outro auxiliando na operação. Não havia nada de elegante ou ágil nelas. Transportá-las já era um trabalho considerável, e utilizá-las exigia força, cuidado e espaço. Uma motosserra dos anos 1920 seria, portanto, uma ferramenta industrial encontrada principalmente em serrarias, propriedades rurais ou operações de exploração madeireira — não algo que um investigador carregaria casualmente consigo.

As motosserras manuais, aquelas que vemos em filmes manejadas por uma única pessoa só surgiram no final dos anos 1940. Para uma aventura de Call of Cthulhu ambientada em 1928, portanto, a motosserra cinematográfica de um homem não existia ainda.

Mas isso não significa que não existissem equipamentos semelhantes. 

O princípio de funcionamento, entretanto, já era essencialmente o mesmo. Um motor movimenta uma corrente metálica equipada com dentes cortantes, fazendo-a circular continuamente ao redor de uma peça alongada chamada barra-guia. Ao contrário de uma serra convencional, que precisa ser movimentada para frente e para trás, a corrente realiza o trabalho de corte enquanto se desloca em alta velocidade. É justamente essa combinação de movimento contínuo e dentes afiados que torna a máquina tão eficiente para madeira — e tão assustadora quando alguém decide utilizá-la contra outra coisa.

Existiam motosserras com rodas acopladas que podiam ser manobradas por uma pessoa sozinha, ou versões com um cinturão guia preso na cintura para facilitar o movimento que era viável para um único operador. É possível imaginar uma dessas ferramentas enormes sendo usadas por um maníaco ou como arma improvisada por um investigador desesperado. 

Porém, é importante deixar claro que uma motosserra está longe de ser uma arma. Seu peso dificulta movimentos rápidos, seu tamanho torna complicado utilizá-la em corredores estreitos e seu motor produz um ruído capaz de denunciar a posição de seu portador a praticamente qualquer pessoa nas proximidades. Ela também depende de combustível ou eletricidade, pode sofrer problemas mecânicos e exige as duas mãos para ser manejada adequadamente. Em compensação, um golpe que encontre um alvo pode provocar ferimentos terríveis. Para um investigador desesperado, encurralado em uma serraria ou laboratório, a motosserra pode representar a diferença entre fugir e ser alcançado.

Para um cenário de Chamado de Cthulhu em 1920, eu trataria a motosserra como uma arma improvisada excepcionalmente perigosa. Para ser usada, o personagem testaria Operar Equipamento Pesado. Seu dano deve ser elevado o bastante para justificar o medo que ela provoca (eu colocaria no mínimo 3d8 pontos de dano para os modelos desse período). O Guardião pode exigir uma boa pontuação em Força para manejá-la adequadamente (75 ou mais), impor penalidades quando o espaço for apertado (dado de desvantagem) e considerar que ataques malsucedidos podem fazer o investigador perder o equilíbrio (uma falha de 90%). O ruído também deveria ter consequências narrativas: depois que o motor é ligado, não há muita esperança de permanecer escondido. Finalmente, eu sugiro que ser atacado por uma motosserra poderia provocar perda de sanidade 1/1d6, o mesmo custo para quem vê uma pessoa sendo atingida por tal ataque.

A criatividade dos jogadores pode ser ainda mais importante que as estatísticas. Uma motosserra pode ser encontrada em uma serraria abandonada, no galpão de uma fazenda, em uma oficina ou durante uma investigação envolvendo trabalhadores da indústria madeireira. Alteranativamente tal ferramenta poderia estar presente em grandes centros médicos ou Instituto Médico Legal. 

Provável que os investigadores nunca tenham usado uma antes. Talvez o personagem mais acostumado a ferramentas seja o único capaz de fazê-la funcionar. Ou talvez ninguém saiba exatamente como manejá-la, mas todos concordem que é melhor tentar do que enfrentar aquilo que está subindo as escadas desarmado. Nesse sentido, a motosserra funciona perfeitamente como uma arma improvisada: não é uma escolha racional, é uma escolha desesperada.

E há outra maneira de utilizá-la em uma aventura de horror: fazer com que o som venha antes da arma. O motor pode começar em algum lugar distante, permanecer ligado por alguns segundos e então silenciar. Os investigadores não sabem quem está segurando a máquina, nem por que aquela pessoa está ali. Alguns minutos depois, o ruído retorna, agora muito mais próximo. A motosserra nem precisa ser utilizada imediatamente. Seu som, por si só, já pode se transformar em um aviso de que alguma coisa terrível está se aproximando.

MOTOSSERRAS EM CENÁRIOS MODERNOS

A verdadeira revolução da motosserra aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial. Durante décadas, essas máquinas haviam sido equipamentos pesados, frequentemente destinados a dois operadores. O pós-guerra, porém, trouxe motores menores, carburadores mais eficientes e soluções que permitiam à máquina trabalhar em diferentes posições. A corrida passou a ser justamente a redução de peso para que ela pudesse ser manejada por uma única pessoa. A diferença em relação às máquinas de quarenta ou cinquenta quilos das décadas anteriores era extraordinária.

Isso mudou também o emprego da ferramenta. A motosserra deixou de ser exclusivamente uma máquina de grandes operações madeireiras e tornou-se progressivamente útil para derrubar árvores, cortar troncos e galhos, preparar lenha e realizar trabalhos florestais de maneira muito mais rápida. Durante as décadas seguintes, a evolução continuou: motores menores, redução de vibração, melhores correntes, lubrificação automática e dispositivos de segurança transformaram a motosserra em uma ferramenta relativamente compacta e extremamente eficiente.

Para nosso interesse em mesa de jogo, a diferença mais importante reside no fato de uma motosserra moderna poder ser carregada e utilizada por um indivíduo. A habilidade mais adequada seria Operar Máquina Pesada. É plausível encontrar motosserras em fazendas, oficinas, serrarias, propriedades rurais ou mesmo no veículo de alguém que trabalhe com árvores. E, a partir daí, ela pode se transformar em uma arma improvisada. Não é necessário imaginar que a ferramenta foi concebida para esse propósito: basta lembrar que sua função normal já envolve uma corrente de dentes metálicos circulando em alta velocidade.

Como arma, eu evitaria tratá-la simplesmente como "uma espada que causa muito dano". Uma motosserra é pesada (força mínima de 60, para usar), exige controle (Destreza mínima de 60) e produz um ruído enorme. Mais importante, ela não é uma ferramenta segura para ser usada contra um alvo móvel. O fenômeno mais interessante é o kickback, ou rebote: quando a ponta da barra encontra determinado obstáculo, a máquina pode ser violentamente lançada para trás e para cima, em direção ao operador. Os próprios manuais modernos alertam que a motosserra deve ser operada com as duas mãos.

O dano pode ser alto, mas a motosserra deve ser uma arma difícil de controlar. Eu daria a ela dano elevado (3d8 para os modelos maiores e 2d8 para as versões compactas), mas exigiria as duas mãos em todos os modelos. Além disso, eu penalizaria seu uso em espaços apertados (com um dado de desvantagem) e permitiria que uma falha significativa (90% ou mais) pudesse ocasionar uma situação de perda de controle (teste de força para controlar). A falha nesse kickback não precisa necessariamente significar "o investigador se fere"; pode significar que a motosserra salta de sua mão, o personagem perde sua posição, derruba a ferramenta ou até mesmo atinge o alvo errado. 

Isso mantém o horror sem transformar a motosserra em uma arma de combate superior. Por ser um ícone moderno de terror, eu ajuizaria o custo de sanidade por ser atacado por uma motosserra para 1/1d6+1, o mesmo para ver alguém sendo ferido por uma dessas coisas.

Um investigador com uma motosserra talvez tenha uma chance melhor contra uma criatura do que com um martelo, mas também está fazendo barulho suficiente para anunciar sua posição a toda a casa. Um assassino empunhando uma motosserra, por outro lado, pode transformar justamente esse defeito em vantagem narrativa. O motor começa. Para. Começa novamente. O investigador não sabe onde está o homem, mas sabe que ele está em algum lugar próximo. Nesse momento, a motosserra deixa de ser apenas uma ferramenta e se transforma em um aviso sonoro de que o horror está chegando.

Talvez essa seja a razão pela qual a motosserra permaneça uma das armas mais memoráveis do terror. Ela não foi criada para matar pessoas, mas para transformar árvores enormes em lenha. É uma ferramenta industrial, pesada e barulhenta, concebida para realizar uma tarefa brutalmente eficiente. Quando um investigador a ergue contra uma criatura que não deveria existir, ou quando o ruído de seu motor ecoa em um corredor escuro, a ferramenta deixa de ser apenas um objeto cotidiano. Naquele momento, torna-se uma das poucas coisas entre um ser humano e algo que definitivamente não deveria estar chegando perto.

E olha o tipo de pessoa que porta uma motosserra como arma...

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