sexta-feira, 10 de maio de 2013

Sob o Signo da Cabra Negra - Quando Shub-Niggurath se manifesta na Terra


Shub-Niggurath representa a vida. 

Ela é o estímulo que conduz a criação e a origem de tudo. Mas a "Cabra Negra com mil filhos" não é meramente a vida, ela é a fúria decorrente do existir, a necessidade de propagar, o desejo de fertilizar, de reproduzir, de fecundar custe o que custar...

Os cultos antigos afirmavam que toda a conjunção carnal é realizada em seu nome, e que o ato sexual cumpre o designo da Magna Matter. Ela é a antítese de Azathoth, a entropia universal, mas forma com ele um delicado equilíbrio cósmico: ela é vida enquanto seu algoz é a morte. É a partir da deusa que a vida flui em todos os aspectos, formas e sentidos. 

Mas engana-se aquele que assume ser essa entidade uma força aliada da humanidade. A Cabra Negra é acima de tudo um princípio de  mutação que não tolera a estagnação e opera mudanças em tudo a sua volta. Quando Shub-Niggurath é invocada para a Terra, ela se manifesta em toda a sua gloriosa majestade blasfema. 

Sua forma é gigantesca, uma massa colossal, que ascende aos céus, tal qual um grotesco pilar de carne pulsante fervilhando sem parar. Na superfície de seu corpo marrom-esverdeado e brilhante, desenrola-se uma abundância de filamentos semelhantes a tentáculos que se agitam sem parar. Na massa, podem ser vistos orifícios vaginais, genitálias e imensas bocas cheias de dentes e línguas que mordem e chupam, estalando ruidosamente. Uma saliva caudalosa mistura-se a bile negra, escorrendo e gotejando dessas cavidades, que abrindo, fechando ou se agitando, expelem e ejaculam uma torrente de substâncias viscosas. 

Grandes bolhas de matéria orgânica se formam espontaneamente, como enormes tumores do tamanho de balões de gás enquanto estruturas como gânglios crescem até explodir. Partes de seu corpo possuem diferentes texturas e padrões, como se ela fosse formada de uma colcha de retalhos de tecido e músculos costurados uns sobre os outros. Há olhos em toda parte, purulentos e amarelados, lacrimejando. Nenhum deles se mantém por muito tempo, já que toda a sua superfície borbulha e se reconstrói após no máximo alguns segundos.  

Na extremidade inferior, em meio a milhares de testículos, nascem dezenas de patas musculosas e descarnadas que terminam em cascos fendidos que concedem sustentação a sua titânica corpulência. Ao se mover, o chão treme diante de suas várias toneladas. Apesar de ser capaz de locomoção, a deusa prefere simplesmente levitar no ar, a poucos metros do chão. As patas agitando-se sem qualquer padrão no ar, os tentáculos chicoteando e as bocas estalando. Há um som misto de gemidos e balidos em meio a cacofonia geral. O cheiro da coisa é incrivelmente pungente e ofensivo, podendo ser detectado a quilômetros.

Quando deseja abençoar seus cultistas, a deusa forma um massivo úbere na parte inferior da massa e faz aparecer um conjunto de imensas tetas. Estas se incham até começar a verter uma substância escura, que seus seguidores normalmente se referem como o leite de Shub-Niggurath. Aqueles que bebem dessa substância são afetados por alucinações e premonições, e muitas vezes acabam manifestando profundas mutações.  
    
Uma das características mais marcantes de Shub-Niggurath é gerar outras criaturas. Sua forma absurdamente inchada a ponto de arrebentar, evidencia o fato dela estar sempre prenha. Tomada de  espasmos, por vezes, um volume avantajado se contorce sob as camadas de carne  pustulenta e uma boca ou orifício se abre para parir ou vomitar uma massa menor protoplásmica que se arrasta viva, até ser absorvida uma vez mais.   

Shub-Niggurath é uma abominação sem precedentes. Poucos que vislumbram sua forma absurda retém a sua sanidade, menos ainda são aqueles que sobrevivem após se aproximar.

O próprio ambiente onde ela se manifesta é alterado e sua presença tem como efeito corromper a natureza de tal forma que ela perverte e transforma tudo a sua volta. Os antigos cultos que ousavam invocar sua presença física para a Terra chamam esse efeito de "Arrebatamento da Cabra".

Onde quer que a deusa se manifeste, uma onda de vida se espalha do marco zero e transborda tão rapidamente que nada é capaz de conter sua ação. A vegetação cresce selvagem, campos se abrem em flor, frutos incham e estouram, lançando no ar suco e sementes que crescem de imediato, árvores ficam carregadas de folhas e frutos até seus galhos se partirem como peso. Os animais perdem o controle e seus instintos. Insetos cantam enlouquecidos, pássaros voam para a direção errada e mergulham no solo, peixes desafiam a correnteza dos rios e finalmente, todos os animais se entregam a um cio incontrolável visando unicamente a reprodução.

Mesmo humanos, não são imunes a esse frenesi. Os antigos cultos diziam que "o sangue fervia nas veias daqueles sob a influência de Shub-Niggurath". Afetados por esse êxtase coletivo, indivíduos de ambos os sexos se entregam incontrolavelmente ao rompante do acasalamento em orgias selvagens e primevas. Talvez essa manifestação seja a base para a lenda das Ménades, as cultistas da Grécia clássica que serviam ao Deus Dionísio. As Bacantes, como eram chamadas, se entregavam a um rompante sexual tamanho, que eram "estraçalhadas" física e espiritualmente em um turbilhão de lascívia muitas vezes violento no qual se feriam e  flagelavam a própria carne.

Da mesma forma, os amantes prementes, influenciados por Shub-Niggurath agem ferozmente, e o termo "animalesco" pode ser usado para descrever suas ações. A disputa pelo direito de cópula se converte em uma luta alucinada como ocorre com muitas espécies na natureza. Machos se enfrentam violentamente e podem chegar a matar seus competidores pela atenção das fêmeas da espécie. Durante o frenesi não existe civilização, a razão dá ensejo a desorientação reprodutiva. Mesmo as fêmeas alucinadas, são capazes de despedaçar os corpos dos machos se não forem impregnadas imediatamente. 

Felizmente, após o episódio, a mente humana tende a apagar da memória tudo aquilo que ocorreu durante o arrebatamento de forma a proteger a sanidade de tal revelação. A exposição a descarga de energia fecunda, que acompanha a chegada de Shub-Niggurath, dura algumas horas, mas seus efeitos são muito mais longos. Após o arrebatamento a natureza é irremediavelmente conspurcada. 

A vegetação que cresceu descontrolada assume gradualmente uma coloração e aspecto doentios. Os arbustos e galhos parecem se mover sozinhos, a despeito do vento e fatores externos. Flores desabrocham em horríveis formatos e aparência dramaticamente alterada, seu perfume é azedo e almiscarado. As frutas continuam a crescer inchadas e belas, mas com um gosto tão adocicado e concentrado que torna inviável o consumo. As raízes rompem o chão e se espalham com o um tapete rugoso pelo solo remexido, exalando um cheiro onipresente de húmus. Seiva grossa verte como sangue escuro do alto dos troncos repletos de musgo e linquem. O mato está em toda parte, ervas daninhas recobrem a paisagem. As estações deixam de influir no curso da natureza. As flores crescem no inverno, enquanto no auge da primavera as folhas desbotam e caem.

Os animais também apresentam mudanças. Muitos pressentem algo estranho e evitam a área que fica quieta e deserta. As crias afetadas pelo pulso da deusa começam a mudar e crescem além da conta. Elas apresentam deformidades congênitas: insetos de coloração bizarra e constituídos por um exoesqueleto quitinoso brilhante. Animais nascem com membros extras ou atrofiados e as fêmeas possuem diversos úteros. Suas proles são fartas, com dezenas de filhotes a cada acasalamento. Muitas dessas formas de vida são tão alteradas que no fim das contas se destacam da espécie que lhes deu origem.

E uma vez mais humanos não são poupados dos efeitos. As crianças concebidas durante o arrebatamento de Shub-Niggurath possuem traços distintos. Dizem que estes nascem sob o signo da cabra negra já que foram  "abençoados" por ela. São crianças fortes e robustas, mas de alguma forma estranhas. Indivíduos sensíveis sentem-se afetados perto delas, mesmo que na maioria das vezes não saibam dizer por qual razão. Em alguns casos, essas crianças possuem características incomuns: olhos de cores distintas, cabelos lisos e brancos, chumaços de pelos pelo corpo, uma compleição de tonalidade azeviche... em alguns casos, a mutação é ainda mais acentuada e é inegável que algumas dessas crianças tem um aspecto caprino inquietante, algo que remete às lendas de faunos e sátiros.

Muitos falam que essas crianças se comportam de forma incomum e estes não estão errados em suas observações. As crianças nascem com uma percepção distinta do mundo. Nas palavras de cultistas "são capazes de ver além das aparências e enxergam aquilo que existe entre os recessos do mundo real e do imaginário". Para o observador casual, elas parecem sofrer de autismo, mas um profissional não estaria tão seguro desse diagnóstico. 

Para todos os efeitos essas crianças são diferentes e, é claro, preservadas pelo culto, predestinadas a se tornarem os líderes ou candidatas a importantes rituais.

Em Goatswood, por exemplo, onde o culto da cabra negra é muito forte, uma vez a cada cinco anos uma criança concebida durante o Arrebatamento da Cabra é sacrificada ritualisticamente. Após rasgar a garganta da vítima, sua própria mãe remove as vísceras e as lança sobre um altar de pedra para que a sacerdotisa possa realizar uma leitura precisa do futuro, consultando os haruspícios. Em Sköpk, um isolado vilarejo no interior da Sérvia, quando uma criança concebida na noite do arrebatamento se torna adulta, há uma grande festividade. No fim da celebração, ele é levado ao centro do vilarejo e forçado a impregnar uma mulher especialmente escolhida pelo culto. Segundo a tradição esta dará a luz a um Gof'nn Hupadgh - uma cria especial, que nasce com corpo de homem, cabeça e patas de bode. 

Finalmente, nas escuras florestas de Chilóe, no extremo sul da Patagônia chilena, a Brujeria, um secto de poderosos feiticeiros, é famoso por conduzir um sinistro ritual no qual uma cria do arrebatamento é amarrada e depositada no interior de uma árvore morta. Enquanto sofre uma morte lenta e agonizante, o espírito da vítima sacrificada passa para o tronco da árvore que se transforma em uma das abomináveis Crias Negras de Shub-Niggurath (os Dark Young).

Shub-Niggurath é uma das forças mais poderosas do cosmos e sua manifestação de forma alguma deve ser tratada de forma comum. As consequências de sua invocação são sérias e quase sempre dantescas.

Achou interessante? Leia também:

Os Deuses Externos

A Mãe Negra e seu culto

Os Semeadores de Shub-Niggurath

Goatswood - Vilarejo de Shub-Niggurath

The Black Goat - Curta metragem inspirado na Cabra Negra

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Ma-No-Umi - Navegando através do infame Triângulo do Diabo


Do outro lado do globo terrestre, a meio mundo de distância do infame Triângulo das Bermudas existe uma região oceânica que também é notória pelo desaparecimento de aviões e navios.

Os japoneses estão cientes dos perigos dessa área faz mais de um milênio. Eles o chamam de Ma-no-Umi: o Mar do Diabo. Há séculos, homens do mar atribuíram misteriosos desaparecimentos de embarcações pesqueiras, naquela região, ao ataque  letal de demônios marinhos e dragões das profundezas. Monstros que vinham à superfície para destruir embarcações e arrastar seus ocupantes para as águas profundas a fim de devorá-los.Não é coincidência que a extensa área no oeste do Pacífico seja chamada também de Triângulo do Dragão, pois diante de eventos trágicos, que não podiam ser logicamente explicados, o sobrenatural se tornava a resposta mais conveniente. É mais fácil colocar a culpa no demônio, entidades malignas ou desconhecidas.

No caso do Triângulo das Bermudas, os desparecimentos súbitos de aviões e navios tem sido atribuídos a anomalias eletro-magnéticas, alterações climáticas inesperadas, e mesmo a ação de alienígenas que sequestram tripulantes e marinheiros para experimentos. Nos últimos vinte anos, o Triângulo se tornou um fenômeno de popularidade - ou notoriedade - ao redor do mundo, como foco de incontáveis mistérios. Inúmeros livros, para não mencionar revistas, filmes, documentários, artigos de jornais, tentam explicar os desparecimentos, assim como outros estranhos fenômenos associado a essa região do Atlântico.

Menos conhecido no ocidente, o Ma-no-Umi compartilha características semelhantes ao Triângulo das Bermudas. As duas áreas são famosas por apresentar estranhas variações nas leituras de direcionamento; as bússolas muitas vezes, simplesmente deixam de funcionar. Também é uma característica comum o funcionamento errático de transmissões de rádio, a formação de ondas repentinas, tremores marinhos, tufões, enormes redemoinhos e estranhos nevoeiros localizados.

Acima de tudo, as duas áreas apresentam uma grande quantidade de desaparecimentos de veículos aéreos e marítimos, junto com tripulação e passageiros, sem deixar vestígios ou destroços que indiquem a razão de seu sumiço. Mais importante do que o simples desaparecimento de veículos e carga é a perda de centenas de vidas: pescadores, marinheiros, passageiros, tripulações... 


Assim como nas Bermudas, o Triângulo do Dragão no Pacífico Ocidental é uma área que forma um padrão geométrico triangular. Ele segue uma linha reta a oeste do Japão até um ponto no Pacífico aproximadamente nos 145 graus de latitude leste. O vértice segue para sudoeste até a ilha de Ogasawara Shinto e então retorna para o norte até a Baía de Tóquio no Japão. O Triângulo das Bermudas compreende os estreitos da Flórida, até as Bermudas, seguindo para as Antilhas e de volta a Flórida.  

Os dois ocupam áreas em lados opostos da Terra. Contudo, ambos estão localizados em 35 graus de longitude oeste e leste respectivamente. Isso significa que, se estendermos o limite ocidental do Triângulo das Bermudas até 50 graus de latitude norte e seguirmos até o outro extremo do globo, descobriremos que ele toca um vértice do Triângulo do Dragão. Em outras palavras, os dois triângulos estão em lados opostos do mundo em longitude e latitude.

Além disso, as duas áreas apresentam águas extremamente profundas. O leito marinho no Triângulo das Bermudas possui algumas áreas rasas, mas que em certos pontos sofre uma acentuada depressão. A trincheira submarina ao norte de Porto Rico que se estende até o Caribe, está entre as mais profundas do Oceano Atlântico. Nos limites do Triângulo do Dragão, existem grandes recessos de profundezas oceânicas - os cânions submersos de Ogasawara, as trincheiras submarinas das Filipinas e é claro as Fossas Marianas. Em 1960, o batiscafo americano Trieste tocou o fundo das Fossas Marianas determinando que a profundidade máxima é de 36,198 pés. Se o Monte Everest, que tem 29,028 de altura, fosse depositado nesse abismo, ele ainda ficaria submerso por mais de uma milha.

Existe a possibilidade factual de que haja formas de vida submarinas ainda desconhecidas habitando as profundezas insondáveis em ambas localidades. Cientistas e oceanógrafos concordam que o conhecimento  a respeito desses verdadeiros abismos submarinos é muito pouco. Comparativamente, sabe-se mais a respeito do espaço ou da superfície de outros planetas do que a respeito desses lugares.

Outro elemento identificado nos dois triângulos diz respeito as linhas agônicas (do grego "sem ângulo"). Essas linhas invisíveis, servem para medir a força do campo magnético da Terra. Os polos magnéticos norte e sul não coincidem exatamente com as coordenadas geográficas dos meridianos de longitude, causando uma declinação magnética. Os meridianos que aparecem nos mapas, fornecem coordenadas exatas em graus, mas um local com linhas agônicas há sensíveis variações. Em certos lugares do planeta, a agulha das bússolas não aponta para o norte, o que ocasiona leituras confusas e pode tirar embarcações do curso. O princípio das linhas agônicas no hemisfério Oeste pode ser encontrado na área do Triângulo das Bermudas, enquanto o principal ponto de linha agônica no hemisfério Leste está compreendido no Triângulo do Dragão. Em ambas as áreas as linhas agônicas influenciam leituras e alteram a rota de embarcações. Porque isso ocorre justamente nesses limites, ainda não se sabe.


Já em 1930, o Observatório Marinho Internacional alertava embarcações a respeito de perturbações magnéticas nas proximidades da Ilha de Sumbawa na Indonésia, uma condição que podia alterar as leituras de bússola em mais de 6 graus. O Capitão James Stutt do navio Austrália registrou em 1940 uma anomalia magnética, tão potente que alterava a leitura em mais de 12 graus! O suficiente para lançar o navio em uma rota totalmente divergente do traçado.

O Triângulo das Bermudas atrai a atenção do público desde dezembro de 1945, quando uma esquadrilha de cinco bombardeiros Aztec Avenger desapareceram entre a costa da Flórida e as Bahamas, seguido do misterioso desaparecimento de um avião de busca Martin Mariner. A procura por essa patrulha perdida envolveu centenas de aviões e navios, mas mesmo assim, nenhum destroço ou pista que pudesse lançar uma luz sobre o destino daqueles homens, foi encontrada. As derradeiras mensagens de rádio dos aviadores , afirmavam que eles estavam voando sobre uma ilha que não constava em seus mapas, o que indicava que eles "não estavam onde deveriam". 

Seria possível que uma perturbação magnética os tivesse tirado tanto de sua rota? O que poderia fazer com que aviadores, alguns deles extremamente experientes se perdessem de tal forma? Algumas teorias chegam a afirmar que os aviões de alguma maneira poderiam ter atravessado uma área de timeslip, que os catapultou no passado, em um tempo que ilhas diferentes despontavam na costa da Flórida. 

Não menos intrigantes são os incidentes ocorridos no Triângulo do Dragão. Os marinheiros japoneses e das ilhas próximas conhecem bem a fama dessa extensa área. Navios vem desaparecendo nessa região há mais de mil anos (alguns pesquisadores defendem que há relatos ainda mais antigos!). Documentos dos tempos das dinastias chinesas Sung e Yuang e remanescentes do período medieval do japonês alertam os marinheiros sobre os perigos de se navegar por estas águas.  


Lendas chinesas que remontam ao ano 900 a.C falam de um colossal dragão que dorme abaixo de uma ilha a cinco ou seis dias de veleiro de Suzhou, na província costeira de Kiangsu (bem no centro do Triângulo do Dragão). Mesmo em dias sem vento, o mar nessa área se mostra agitado e no entorno da ilha, recifes traiçoeiros surgem repentinamente dificultando a passagem. Segundo o folclore as ondas repentinas se formavam quando o dragão se agita nas profundezas, enquanto os recifes seriam na verdade os espinhos das costas do monstro. Além disso, sons guturais, os urros da fera e um horrendo cheiro, supostamente o fedor da besta, podiam ser percebidos pelos tripulantes dos navios que por ali navegavam. 

Uma anotação no diário de bordo de um capitão chinês afirma que certa noite, a tripulação foi despertada por um intenso brilho esverdeado vindo das profundezas. O brilho era tamanho que era possível ver vários metros abaixo da superfície.  "O olho do dragão" disseram alguns marinheiros supersticiosos. A anotação é do século V a.C.     

Mas não é apenas superstição o fato de muitos navios simplesmente sumirem no Triângulo do Dragão. Registros da marinha mercantil são comuns desde o século XVII. Em 1698 um oficial holandês no Japão escreveu que os marinheiros locais não navegavam em determinadas épocas do ano por temer que um dragão estivesse desperto nesse período. "Navios não saem do porto e capitães não se arriscam" escreveu ele aos seus superiores. Em outra carta, ele fala de um navio mercante português que se encaminhava para a Baía de Tóquio e jamais chegou ao seu destino: "Afundado pelo Dragão" concluía o registro.

O fato de tantos navios terem afundado ao longo da história naquela região, sem deixar sobreviventes, restos ou destroços indica que algo estranho ocorre. Talvez exista algo mais do que velhas superstições de marinheiros.

Durante a Segunda Guerra, a Marinha Imperial japonesa reportou o desaparecimento de um elevado número de barcos de patrulha e fragatas leves na área. Em tempos de guerra, naturalmente os navios poderiam ter sido afundados por inimigos, mas como explicar a ausência de sobreviventes ou destroços que evidenciassem um naufrágio. Analistas da marinha concluíram que pelo menos 14 embarcações leves desapareceram na costa leste do Japão em meados de 1945. Nenhum deles foi oficialmente reconhecido como atacado pelos inimigos, jamais emitiram pedidos de ajuda ou comunicados de ataque e até hoje não se sabe o paradeiro deles ou da tripulação que os compunha.


No caso mais enigmático, nada menos do que cinco navios de guerra japoneses, desapareceram no início de 1942 enquanto realizavam manobras na costa. A frota era composta por três fragatas de apoio, um navio caça minas e um destróier. O que aconteceu com essas embarcações jamais foi determinado. É extremamente improvável que eles tenham sido afundados por ataques inimigos, já que nos tumultuados dias do início da guerra, nem os Estados Unidos e nem a Grã-Bretanha dispunham de navios ou submarinos na região. O contra-ataque aéreo americano planejado pelo Coronel James Dolittle ainda estava a meses de ser realizado, bem como a Batalha de Midway, quando os japoneses teriam pesadas baixas. Se os Aliados tivessem sido responsáveis por afundar essa frota eles sem dúvida comemorariam o feito, no entanto, até o final da Guerra no Pacífico, observadores da marinha americana acreditavam que o destróier ainda estivesse em ação.

Após a guerra, os desaparecimentos de embarcações sobretudo barcos de pesca continuaram. Em 1950, a Administração Geral da Indústria Pesqueira do Japão proclamou as ilhas de Iza e Ogasawara como áreas oficiais de perigo para navegação. Isso após o desaparecimento de três barcos de pesca ao longo do ano de 1949. Na ocasião, minas submarinas deixadas durante a guerra foram a explicação encontrada, mas a despeito disso, nenhum destroço chegou a superfície. Entre 1949 e 1954, mais de dez grandes barcos  pesqueiros desapareceram na área.    

Quando os Estados Unidos venceram a guerra e iniciaram a ocupação do Japão, houve casos de misteriosos desaparecimentos de navios com a bandeira norte-americana. Uma embarcação proveniente das Filipinas que trazia soldados e famílias, desapareceu em 1951 sem deixar vestígios próximos ao infame Arquipélago de Iza. No ano seguinte, uma fragata da guarda costeira com oito homens à bordo sumiu. Mais uma vez culpou-se minas submarinas e alguns até sugeriram a remota possibilidade de haver um submarino japonês cuja tripulação continuava travando a guerra apesar da rendição. Nenhuma prova foi encontrada para sugerir o que pode ter ocorrido,

Naquele que talvez seja o caso mais estranho, um navio de exploração científica, o Kaiyo Maru No. 5, desapareceu em 24 de setembro de 1952. Ironicamente a missão do navio era tentar desvendar os mistérios da região e apurar porque tantos navios se perdiam ali. Seu desaparecimento é especialmente intrigante, pois na véspera, o mar estava calmo e as condições de tempo eram excelentes. Embora o navio transportasse 150 toneladas de óleo combustível, nenhuma mancha foi vista na superfície e a última comunicação de rádio foi normal.


Meses depois do desaparecimento, um navio mercante retirou do mar oito barris de óleo, supostamente da expedição. Nenhum deles estava danificado. Encontraram ainda um bote salva vidas com o nome do Kaiyo Maru No. 5 pintado na lateral, mas ninguém à bordo. O fato mais assustador sobre o navio de pesquisa talvez sejam as misteriosas transmissões de rádio que certos navios alegam captar de tempos em tempos. Nela, uma mensagem em japonês é repetida várias vezes:

"Estamos encontrando dificuldades para determinar nossa localização! Pedimos socorro de quaisquer embarcações na área! Esse é o navio de pesquisas japonês Kaiyo Maru No.5, alguém ouvindo?" A misteriosa mensagem chegou a ser gravada por um navio japonês em 1976, mas ninguém jamais conseguiu manter contato.

Diante dos rumores e estórias sobre o Triângulo do Diabo, muitos marinheiros ainda acreditam que um imenso dragão, o Li-Lung (Rei Dragão) seja responsável pelos desaparecimentos na área e que navios inteiros são engolidos.

Na ausência de uma explicação, esta crença parece tão válida quanto qualquer outra.

sábado, 4 de maio de 2013

Mesa Tentacular - "O Inocente" para Rastro de Cthulhu se passando no Brasil de 1930

Fala aí, pessoal!

A Mesa Tentacular ficou um tempinho fora das postagens regulares do Blog Mundo Tentacular, Mas quando menos se espera olha ela aqui novamente.

Na semana passada tivemos o tradicional encontro mensal do Dungeon Carioca na Barra da Tijuca (Zona Oeste) do Rio de Janeiro. Contando com mesas nos mais variados sistemas e ambientações, o Dungeon é certeza de encontrar opções de jogos diferentes, grupos de jogadores iniciantes e veteranos para formar mesas e muita diversão.

Em Abril, o tema do encontro era "Game of Thrones" para celebrar o lançamento do "Guerra dos Tronos RPG" em português, então tivemos várias mesas com aventuras nas terras de Westeros. Mas isso não significa que não pudessem haver, e de fato tiveram várias outras mesas presentes - como Mouse Guard, Old Dragon, Space Dragon, Tagmar, Belregard RPG, Esse Corpo Mortal, D&D 4th e Savage Worlds (Solomon Kane).

Na ocasião, aproveitei para tirar meu Rastro de Cthulhu da prateleira e narrei um cenário intitulado "O Inocente", que é na verdade uma adaptação de "The Kidnaping" (O Sequestro), uma aventura do livro "Arkham Detective Tales" lançado pela Pelgrane para ToC. A resenha desse livro pode ser acessada no
aqui.

A proposta de Arkham Detective Tales é colocar os jogadores no papel de investigadores, policiais, detetives ou agentes federais envolvidos com casos bizarros cujo conceito de normalidade é violado pela presença do Mythos de Cthulhu. São casos estranhos de crimes que a primeira vista parecem convencionais, mas que a medida que os investigadores se aprofundam na trama, sugerem elementos do reino do sobrenatural.

Embora eu tenha adorado essa premissa, estava interessado em tentar algo diferente, por isso adaptei a estória para outro lugar. 

Portanto, a Nova York de 1934 saiu de cena, para dar lugar ao exótico Rio de Janeiro do mesmo ano. Fazendo uma ou outra alteração no conceito da aventura, mudando os nomes dos personagens principais e NPCs, as localizações e algumas motivações "The Kidnaping", acabou se transformando em "O Inocente", uma típica investigação do Mythos se passando na Cidade Maravilhosa. É claro que acabei também fazendo mudanças em alguns pontos da estória, o que permitiu inserir na trama criaturas do folclore nacional.

Não vou entregar muito a respeito da aventura pois pretendo narrá-la em outras ocasiões, portanto peço desculpas por não escrever uma sinopse mais detalhada.

O Inocente se inicia com o contato de um influente advogado especialista em casos espinhosos envolvendo os interesses de seus ilustres clientes. O competente causídico Pedro Naves cuida apenas dos casos dos Chateaubriand, dos Guinle, dos Marinho... ele procura os personagens, pois ouviu falar que além de serem de confiança possuem habilidades necessárias para uma tarefa complicada. Algo que ele não pode deixar nas mãos da polícia.

O jovem herdeiro da Família Calegari, Alberto de 3 anos, desapareceu sem deixar vestígios do solar da Família em São Cristóvão. Seus pais Álvaro e Sofia, ricos industriais da cidade querem a criança de volta e estão dispostos a seguir as ordens dos sequestradores, mas eles precisam de alguém para negociar com os facínoras o retorno da criança, o inocente. Mas nessa trama, nem tudo é o que parece ser... existem interesses escusos e motivações sórdidas. Nem todos parecem estar falando a verdade e a medida que os investigadores começam a fazer perguntas e desenterram esqueletos no armário, coisas ainda mais estranhas vêm a tona.

Das ruas arborizadas e tranquilas da Capital Federal da República, para a perigosa zona portuária, e daí para o interior do estado, em Conceição do Carmo, uma cidadezinha repleta de medo e suspeita, os investigadores têm de suar a camisa. Tudo isso para descobrir o paradeiro da criança, enfrentar as forças aterrorizantes que estão por trás do sequestro e trazer o inocente de volta, são e salvo. E no percurso não apenas as suas vidas, mas sua sanidade estará em risco.

O jogo foi bem divertido. Gostei muito de narrar novamente usando o Rastro e para esse cenário em especial, as regras do Gunshoe funcionaram muito bem. Foi legal também contar com um grupo de bons jogadores que tiveram sua primeira experiência com o sistema. Talvez tenha sido a aventura mais tranquila que já mestrei usando Rastro. Infelizmente, como o jogo começou meio tarde não deu tempo de concluir a sessão no encontro, por isso ela vai terminar no próximo. Pretendo utilizar essa ambientação novamente, o Rio de Janeiro nessa época oferece um excelente pano de fundo para investigações lovecraftianas.

A seguir, algumas fotos da sessão, dos Handouts para a aventura e fichas dos personagens.

Material para usar como referência visual:


Esses livros do Rio Antigo são ótimos para dar uma ideia dos lugares e da época em que se passa a aventura.


Esse livro do Augusto Malta, aberto em baixo, é ótimo para apresentar a cidade que ele via pelas lentes de sua câmera. Esse livro "Ontem e Hoje" também é muito bom para quem gosta de ver as mudanças no panorama da cidade e urbanização é show de bola! 

Ficas de Personagem e Handouts:


Como a aventura se passa no Brasil, nada mais justo do que buscar entre artistas brasileiros a imagem dos personagens. O que não faltam são imagens de artistas com roupas dos anos 1930, tiradas de novelas e séries.


Nessa aventura em especial tivemos um elenco formado por: José Wilker (como o Professor da Universidade do Brasil, Jaime Reis), José Mayer (o detetive particular Renato Paiva Jr), Rafael Cardoso (Abilio Molinari, famoso playboy e diletante), Carlos Vereza (Doutor Heleno Prado Müller, alienista do Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha) e Bia Seidl (a diletante e artista plástica modernista, Mariska Heliodoro Steinhagen). 


A Ficha é a versão do FUIM, a melhor disponível para Rastro de Cthulhu na minha opinião


Esses são os Handouts contendo pistas da aventura. Aproveitei e utilizei os cartões de armas, cartões de condições de Estabilidade/ Vitalidade e de vantagens ocupacionais.

E as fotos da mesa:





Bom é isso aí pessoal... mês que vem tem mais!

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Cinema Tentacular: A Morte do Demônio - Resenha do filme "Evil Dead" (2013)


Antes de começar a ler isso, é legal avisar que escrevi uma pequena introdução a essa resenha no artigo anterior. Para quem não leu, dê uma olhada.

"A Morte do Demônio" (Evil Dead/ 2013) é um remake do filme original de 1981, dirigido pelo uruguaio Fede Alvarez, com o carimbo de aprovação de Sam Raimi e Bruce Campbell (respectivamente diretor e astro do original) que assumiram a função de produtores. Até onde se sabe, o envolvimento deles na produção foi mínimo, além de injetar dinheiro. Em entrevistas, Raimi afirmou ter dado completa liberdade para o novo diretor agir e mexer na estória como bem entendesse. Eu li uma entrevista do tal diretor (cujo primeiro longa metragem é justamente esse filme) na qual ele afirmava não estar intimidado pelo desafio de apresentar Evil Dead a uma nova geração. "A estória é basicamente a mesma, mas são outros tempos, por isso é preciso fazer algumas mudanças", disse ele provocando arrepios nos fãs.

Uma das primeiras notícias sobre o filme deixava claro que Bruce Campbell não estaria nele e que o personagem Ash (para quem não conhece, o sujeito da mão de motosserra) sequer faria parte do roteiro. O que por si só, faz uma enorme diferença. O personagem do Campbell é para muitos a alma do filme. Sem ele, quem iria dizer "Groovy baby", "Let's Roll" e outras sacadas absurdas em meio a situações absolutamente violentas?

A razão para isso é que o foco da nova versão de Evil Dead seria diferente. A essência do novo filme seria carregar no terror e se converter num "filme sério". Para isso, o roteiro baniu toda e qualquer menção ao humor camp e exagerado que permeou a trilogia original a partir do segundo filme.


Dizem que quando Sam Raimi dirigiu o Evil Dead original de 1981, sua intensão era fazer um filme de horror realmente assustador e chocante. O problema é que ele esbarrou na falta de recursos que acabaram concedendo ao filme um aspecto tosco e involuntariamente engraçado. Quando Raimi praticamente refilmou Evil Dead na "sequência" de 1987, ele abriu mão de fazer um filme de horror "sério" e se deixou levar pelas cenas de humor coalhadas de tensão e gore. Evil Dead 2 é um filme divertido, mas está longe de ser assustador, o medo é diluído por cenas propositalmente exageradas e sanguinolentas que acabam sendo engraçadas. Alguma até com uma estética de desenho animado. Em Evil Dead 3, o clima era o mesmo, diversão e brincadeiras acima de tudo, alimentadas por uma série de piadas culturais envolvendo Ash e sua louca viagem no tempo para enfrentar os demônios na era Medieval.

O que quero dizer é que a trilogia Evil Dead nasceu como um filme de horror, mas aos poucos esse horror foi sendo posto de lado, cedendo cada vez mais espaço para o humor.

A proposta do novo Evil Dead era devolver o filme às suas raízes, fazer com que ele se tornasse um filme assustador. Mas para isso, Ash (e sua postura devil may care) deveriam ser sacrificados na estória.

Lamentos e ranger de dentes se seguiram. Muitos fãs reclamaram e disseram que sem o Ash não dava para chamar o filme de Evil Dead. Entretanto, por mais que eu goste do Ash (e das suas piadas infames e expressões afetadas), seria difícil colocar o personagem em um filme sério de horror. Ele é um falastrão, que fica ótimo em filmes que não se levam muito a sério como "Meu nome é Bruce", uma gozação em cima de seu personagem mais famoso. Além do mais, quem estaria à altura de imitar os trejeitos de Bruce Campbell sem cair no ridículo?

Tendo como meta essa nova concepção, o roteiro do novo Evil Dead começou a ser trabalhado, dando origem a uma versão muito mais obscura e crua que as anteriores.


Os grandes méritos do roteiro na minha opinião foi conseguir quebrar dois dogmas presentes em incontáveis filmes de horror:

Primeiro - O grupo de personagens não está indo para um lugar isolado nas florestas do Tenensee com o objetivo de passar um final de semana de alegria regado a cerveja e sexo casual. Não há espaço para a velha máxima: "um fim de semana de diversão que se torna um pesadelo". Em A Morte do Demônio, os personagens estão buscando isolamento com o objetivo de realizar uma intervenção em um deles e fazer com que a protagonista se livre do seu vício em drogas.

Segundo - Os personagens não são os esteriótipos que se encontra em filmes de horror. Não há jogadores de futebol babacas, geeks bobalhões, virgens idealistas, cheerleaders malvadas e/ou ninfomaníacas, palhaços da turma etc. Os personagens embora bastante jovens são bem mais comuns e por isso verossímeis em suas motivações.

A estória do filme é praticamente a mesma do Evil Dead original com algumas pequenas mudanças para encaixar o contexto da intervenção. Não se preocupem, eu não vou revelar mais do que a premissa básica de "A Morte do Demônio", e não há nenhum spoiler no que vou escrever a seguir. É apenas um pouco mais do que a gente lê na sinopse do jornal.


Um grupo de amigos se reúne em uma casa absolutamente isolada nos arrebaldes de uma floresta erma. O objetivo deles é ajudar na recuperação de Mia (Jane Levy) que entrou em uma rota auto-destrutiva caindo no vício da heroína. Todos sabem que se ela não receber ajuda, vai acabar morrendo. Não é a primeira vez que eles tentam curá-la, e por isso, alguns estão céticos se a coisa vai funcionar a não ser que eles a forcem a continuar. Eric (Lou Taylor Pucci)  e Olivia (Jessica Lucas), são os amigos que organizam a intervenção, ele um professor de ciências e ela uma enfermeira. Os dois convidam o irmão de Mia, David (Shiloh Fernandez) para a sessão a fim de ajudá-los. Logo fica claro que os irmãos tem as suas diferenças, agravadas por problemas de família, mas que estão dispostos a se reconciliar. David vem acompanhado de sua namorada Natalie (Elizabeth Blackmore) que parece ter sido arrastada para a roubada e não sabe muito bem onde se encaixar.

O que nenhum deles sabe é que pouco antes de chegarem à casa que pertenceu aos pais de David e Mia, o lugar foi palco de uma cerimônia de exorcismo barra pesada realizada por uns caipiras esquisitos. Na introdução do filme, a gente fica sabendo que um espírito demoníaco libertado por um certo livro diabólico, possuiu o corpo de uma garota e que a coisa terminou de modo sangrento.

Ninguém entrou na casa depois da tal sessão de exorcismo, mas Mia logo percebe que há algo de sinistro com o lugar. A sensibilidade dela, permite que ela sinta que algo maligno está à solta nos arredores da cabana e que o foco desse mal vem do porão. Explorando o local, Eric e David encontram o tal livro e movido pela curiosidade, o professor acaba lendo alguns trechos que libertam o demônio fazendo com que ele seja capaz de tomar o corpo de cada um na casa.


Uma das grandes sacadas do filme é usar o vício de Mia como uma desculpa para que ninguém acredite no terror que ela percebe antes de todos. Quando ela começa a ver coisas bizarras - inclusive um garota coberta de vísceras na floresta, todos acham que ela está simplesmente alucinando devido a privação química. É uma maneira muito inteligente de conduzir os acontecimentos sobrenaturais, fazendo com que a descrença dos demais tenha uma razão de ser, ao invés do simples ceticismo teimoso. E o tormento de Mia nos leva a uma das cenas mais angustiantes do filme, reminiscente do original. É claro, estou me referindo ao "estupro da árvore", sequência que marcou o primeiro filme da trilogia e que não poderia estar de fora da refilmagem. O roteiro usa com propriedade o evento para mostrar como o terror realmente tem início, o que faz com que a cena seja menos gratuita do que na versão anterior.

Com Mia a ponto de enlouquecer agindo sem controle e colocando sua vida em risco, os amigos começam a imaginar se algo sobrenatural não estaria realmente acontecendo. "Nenhuma pessoa em surto age assim" um deles diz assustado. Mas é claro, quando finalmente o grupo decide que é melhor arrumar as coisas e voltar para a civilização, já é tarde demais.

Evil Dead embora seja um remake do filme de mesmo nome, parece traçar sua fonte de inspiração em outras produções de horror, em especial "O Exorcista". Embora ele não busque por explicações teológicas, é inegável que o clássico filme do demônio que possui uma garotinha, é a base para muitas situações ao longo de "A Morte do Demônio". Situações deveras similares, com o espírito maligno fazendo propostas obscenas, ferindo o corpo que habita e vomitando nos outros, acenam no roteiro. As cenas são realmente muito bem feitas usando poucos efeitos digitais, recorrendo, ao invés disso, a truques de cena old-school. O gore, outra marca registrada da trilogia está presente em um sem número de sequências nauseantes, com doses cavalares de sangue, membros decepados com requintes de detalhes e ferimentos assombrosos.


Contado em ritmo de montanha russa a toda velocidade, o filme se desenvolve de uma horrível cena para outra, de forma muito eficiente, com poucos instantes para se respirar. É claro, essa progressão de episódios horrendos encadeados em alguns momentos se torna um pouco repetitiva, mas cada uma dessas sequências é imaginativa, divertida, nojenta e tensa o bastante para segurar o ritmo. E depois de assistir ao primeiro filme em DVD, conclui que o ritmo é exatamente o mesmo, com a diferença que o início de "A Morte do Demônio" é mais bem explicado. Em essência, do prólogo ao até o momento em que as letras sobem, o filme é aquilo que se espera de Evil Dead.

Existem clichés? Com certeza! Eu me pergunto se poderia haver um filme de horror sem eles? Mas eles vem muito bem disfarçados em "homenagens" aos filmes anteriores. A cabana inóspita e assustadora, uma tempestade de proporções bíblicas, o porão maldito, o destino de um pobre cãozinho, o uso de implementos domésticos usados para machucar, uma motosserra... tudo isso está lá, e é usado de maneira correta para ajudar a compor a trama.

O enorme cartaz vermelho na frente do cinema alerta em letras garrafais: "O filme mais apavorante que você verá nessa vida". Na verdade, "A Morte do Demônio" não é um filme de sustos e calafrios, ou de clima soturno que vai  deixando o espectador cada vez mais agitado e o obriga a fechar os olhos quando a música sobe. Não me recordo de nenhum momento em que fiquei realmente assustado, mas isso não é uma falha. O filme busca muito mais, causar choque e tensão em face da crueza das cenas do que através de sustos fáceis. O espectador se sente compelido a assistir e não desviar os olhos, apesar de saber que não vai gostar do que será mostrado.


O elenco, formado por ilustres desconhecidos se sai bem na inglória tarefa de defender personagens que, todos sabem, não irão sobreviver até o fim. O destaque vai para Jane Levy que encara a protagonista Mia, banhada em todo tipo de gosma e sangue, sob maquiagem pesada, e ainda assim capaz de conceder um grau de dignidade assombroso à personagem. Se ela está fadada a se tornar uma espécie de novo Ash em inevitáveis continuações, ainda é cedo para dizer, mas ela parece estar no caminho certo. Ao menos ela empunha uma motosserra com desenvoltura.

Bom, e qual o veredito?

A Morte do Demônio é em essência um filme B, inspirado por um cult de horror que marcou época. Apesar do reforço no orçamento, da produção bem realizada e do acabamento caprichado, ele não aspira ser mais do que isso. Não é um filme para "fazer pensar" ou "refletir", é para os apreciadores do horror, e adoradores de cenas elaboradas de violência que transbordam choque.        

No medonho universo das refilmagens, A Morte do Demônio é um raro exemplar que consegue estabelecer um delicado equilíbrio: é uma nova interpretação, oferecendo algo ligeiramente diferente, ainda que honre o espírito do original no qual se baseia. E isso, em se tratando de um remake é muita coisa.

Trailer:


Trailer Red Band:

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Noites Alucinantes - Falando um pouco de Evil Dead e do legítimo horror dos anos 80


Dando um tempinho nos horrores Lovecraftianos para falar de outros horrores, esta deveria ser uma resenha do remake de Uma Noite Alucinante (Evil Dead), mas virou algo um pouco diferente.


*   *   *

Por onde começar uma resenha sobre o filme "A Morte do Demônio"?

Bem, como diria o esquartejador, vamos por partes...

Antes de mais nada: se me permitem, vou chamar o filme pelo título original "EVIL DEAD". Não é purismo besta ou anglofilia (a tradução está corretíssima e é muito melhor que "Uma Noite Alucinante"), mas é que eu cresci chamado o filme de EVIL DEAD. E chamar ele pelo título atual parece simplesmente errado.  

Segundo ponto: antes de abordar diretamente o novo Evil Dead, essa resenha merece uma pequena introdução.

Eu já escrevi várias resenhas aqui no Mundo Tentacular, e muitas vezes mencionei minha devoção aos filmes de horror/ terror dos anos 80 e começo dos 90. Quando eu digo que cresci assistindo filmes de Horror não estou exagerando. Aqueles que, assim como eu, estão na casa dos 30 e vários (tiozinho é a PQP!), e que portanto foram adolescentes nos inesquecíveis anos 80 (repito, tiozinho é o teu pai!) sabem do que estou falando: foi uma época dourada para os fãs de filmes de horror.

Haviam muitos filmes que marcaram época. Nem todos eles GRANDES filmes (é bem verdade!), mas muitos deles acabavam caindo nas graças da molecada. Sexta Feira 13, A Hora do Pesadelo, O Massacre da Serra Elétrica, Re-Animator, Amytiville, Grito de Horror, Brinquedo Assassino, O Enigma do Outro Mundo, Hellraiser e vários outros menos cotados... todos são dessa mesma época. 

Quem lembra desse bonitão?
Foi a década que definiu o gosto pelo sangue sem pudores, quando o pessoal torcia pelos monstros gosmentos e pelos assassinos em série, para que eles aniquilassem os estudantes salientes de Cristal Lake ou chacinassem os jovens sonhadores da Elm Street. Em comum, havia o baixo orçamento, a elevada taxa de óbitos e as reclamações dos pais que não entendiam porque a gente passava horas assistindo aquela festa de sangue e  vísceras espirrar na tela da TV. 

Naquela época existiam revistas especializadas em horror, quem lembra da "Fangoria" e da "Splatter!", ou das edições da extinta Set que tinha os especiais Horror e Ficção? Elas traziam comentários sobre futuros lançamentos de filmes e deixavam a gente ansioso para assistir as novidades. E nas locadoras, era sempre uma disputa danada reservar os filmes (na maioria das vezes havia UMA única fita) e conseguir ver antes dos outros. Contar vantagem e explicar porque a sexta parte de Sexta Feira 13, era a melhor de todas. Putz, por algum tempo eu tive um poster de Fred Kruger no meu armário e me orgulhava de uma máscara de Jason que uma tia trouxe de presente dos EUA. Minha avó tinha um periquito que eu batizei de Pinhead, sem que ela jamais entendesse porque. E até hoje eu tenho uma Configuração dos Lamentos adornando a minha estante de livros.

Como eu disse, essa foi a época de ouro do horror e deixou marcas.

O roteiro dos filmes era repetitivo e a fórmula explorada exaustivamente. Um grupo de estudantes com aparência de comercial de pasta de dentes ia para algum lugar isolado, sobre o qual pesa uma maldição ou acaba se metendo com forças sinistras que invariavelmente elimina um a um dos personagens. E sempre de forma sanguinolenta, apelativa e cruel (isso se o filme fosse bom!).

Ou desse?
Mas é claro, a fórmula não iria durar para sempre! Chegou um momento que ela começou a dar mostras de desgaste, afinal não havia mais maneiras inovadoras de mostrar Jason decapitando ou Fred Kruger fatiando suas vítimas com sua luva de metal. Com o tempo, o horror foi se adaptando a outras tendências e buscando novos espaços e franquias. Tivemos a época dos filmes de mutantes medonhos (A Mosca, Criação Monstruosa), a hype dos Filmes de Horror/Comédia (A Hora do Espanto), as brincadeiras espertas com serial killers (Pânico), a invasão do horror oriental (O Grito, Ringu) e os slasher movies com doses cavalares de tortura, sofrimento e dor (que ainda estão rendendo continuações como Jogos Mortais e Cabin Fever).

Mas mesmo com a mudança de tendência e um novo público, o horror ficou tão marcado pelos anos 1980 que a maioria das franquias acabaram sendo trazidos de volta. Em alguns casos o resultado foi decente, mas em outros tantos - na verdade, na maioria esmagadora, algo parece ter se perdido no caminho. Pegue remakes recentes, como por exemplo, "A Hora do Pesadelo", "The Last House on the Left" ou "Halloween" e você percebe como esses filmes soam bobos diante dos originais. Como falta carisma e substância a eles, empolgação, vigor...

O que ocorre em geral é que os novos filmes se rendem a fórmula de ser um tributo ao original. Há um respeito desmedido e uma busca por calçar os sapatos do anterior, mesmo que o tamanho e o formato seja outro. No final das contas o remake não consegue se sustentar e falha miseravelmente tanto na proposta de homenagear, quanto no ideal de se reinventar. Não é à toa que a maior parte dos remakes de horror, baseados nas produções dos anos 80, não agradaram ou sequer tiveram retorno financeiro que justificasse apostar em continuações. Quem assistiu o novo Sexta Feira 13, não tem o menor interesse em ver esse Jason, o mesmo valendo para a última encarnação do fraquinho "A Hora do Espanto" ou a insossa nova versão de "A Hora do Pesadelo".

Talvez esse seja um aviso: "Certos filmes não devem ser refilmados". 

Talvez os tempos sejam outros, o politicamente correto quem sabe venceu ou ainda, o público atual considera esses clássicos "velharia". Não sei qual a razão, mas acho que o terror nos últimos tempos perdeu a capacidade de fazer o que deve: de impressionar ou meramente causar desconforto no espectador. Isso talvez explique por que muitos dos filmes atuais recorrem a cenas cada vez mais gráficas de tortura, como se esse fosse o recurso final, o último fôlego para garantir a atenção de uma platéia cada vez mais insensível. 

Mas porque toda essa introdução?

Bom, é simples... Dos filmes que marcaram o gênero Horror na década de 1980, EVIL DEAD talvez seja um dos mais cultuados pelos fãs do gênero.

O poster original do primeiro Evil Dead
O primeiro Evil Dead é de 1981 e era bem artesanal em seu pioneirismo, a parada era meio tosca mesmo por falta de verba e poucos recursos técnicos. Ouso dizer que era isso que garantia o interesse na parada. A tosqueira, os baldes de sangue e os efeitos pré-históricos em stop-motion. Se não estou enganado, o primeiro Evil Dead sequer chegou a sair nos cinemas daqui. Mas vou contar uma estória que talvez mostre o impacto que Evil Dead II (lançado em 1987) teve em quem viveu essa época.

Quando o filme estava para ser lançado no cinema, foi feita uma propaganda em horário nobre, durante o intervalo do Jornal Nacional. Eu assisti o anúncio, que durava, no máximo uns 10 segundos e surtei. Imediatamente sai correndo para telefonar e falar com um amigo do colégio. É claro, estava ocupado, pois ele já estava ligando para algum outro colega, que por sua vez estava ligando para outro e assim por diante... sem internet, a divulgação dos filmes era no boca a boca e a coisa corria rápido.

Eu nunca mais vi essa propaganda, mas acreditem ou não, eu lembro dela até hoje!

EVIL DEAD 2 - Dead by Dawn, que recebeu o absurdo título "Uma Noite Alucinante" foi um acontecimento. Mas é claro, não pude assistir o filme no cinema. Lembro que até tentei, junto com uns colegas tão birutas quanto eu, mas com 12 anos fui barrado na porta do Cine Bruni Copacabana. O único filme em que não pude entrar até hoje! (e olha que no mesmo ano eu vi Hellraiser no Cine Jóia!)

Mas nem tudo estava perdido! Alguns dias depois da tentativa fracassada, um colega apareceu com uma fita pirata do filme que (sabe lá Deus como) se materializou do nada em suas mãos. Supostamente era uma filmagem já de outra fita e ele comprou uma cópia. A qualidade era tétrica! Sem legendas e com a cor sumindo em alguns momentos. Mas não importava! Era EVIL DEAD!

E Evil Dead era tudo o que a gente esperava! Não sei dizer, mas acredito que a expectativa e o caráter absurdo, totalmente clandestino de como conseguimos a tal fita catapultou o filme imediatamente para a minha lista de prediletos. Curiosamente apenas um ano depois, descobri que aquele filme que assistimos como sendo "Evil Dead 2", era na verdade o "Evil Dead" original.

Groovy Ash

Mas chega de falar de antigamente.

Diante de tudo que escrevi, vocês podem imaginar o quanto eu estava ansioso por esse remake, e o quão preocupado me encontrava. Tá bom, "ansioso" e "preocupado" são um GRANDE EXAGERO. Para ser sincero, nos últimos anos, EVIL DEAD perdeu um bocado de seu brilho (faz tempo que não é um dos meus filmes prediletos e nem lembro quando o assisti pela última vez). Mas caramba, ele continua sendo uma lembrança querida da minha infância-adolescência. E é claro, eu queria, torcia para que esse remake, mais do que qualquer outro, desse certo.

E foi com um misto de nostalgia e descrença que dei um jeito de escapar mais cedo do escritório para assistir "A Morte do Demônio" (2013) no cinema de um shopping em plena segunda-feira. Francamente, era quase necessário haver certa clandestinidade para marcar a ocasião. Nem que fosse em nome dos velhos tempos...

E o que eu achei?

Digamos que essa resenha vai ficar muuuuuuito extensa se eu começar a escrever sobre o filme nesse momento, portanto, as impressões virão na continuação desse artigo. Para quem está curioso, fique conosco...