sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Prisão Assombrada - A Macabra Colônia Penal da Tasmânia


Alguns lugares parecem destinados a se tornar assombrados. Seja por sua história brutal ou por estarem mergulhados em sofrimento e angústia, eles chamam e convidam essas histórias. Um lugar assombrado por um passado tempestuoso é uma Colônia Penal isolada em uma península abandonada varrida pelo vento na ilha australiana da Tasmânia. Ela possui histórias extraordinárias sobre atividade paranormal há décadas.

A antiga Colônia Penal conhecida como Port Arthur tem uma origem violenta que a torna perfeita para histórias de assombrações. Localizada numa ilha na Península da Tasmânia, aproximadamente 100 quilômetros a sudeste da capital do estado, Hobart, ela recebeu seu nome em homenagem a George Arthur, vice-governador da Terra de Van Diemen. Originalmente, o lugar era uma estação madeireira fundada em 1830, que derrubava árvores e extraia preciosa lenha de qualidade. Dizem que as condições de trabalho eram tão extremas que ferimentos, muitas vezes fatais, aconteciam toda semana. Como ninguém mais queria se arriscar em trabalho tão exasperante, as operações de corte e extração foram suspensas por volta de 1850.

Três anos mais tarde, o lugar foi convertido numa Colônia Penal para receber os piores criminosos britânicos embarcados em toda parte do Império e despachados nos porões de navios para esse destino insalubre. Ladrões, estupradores, assassinos, todos eles deveriam definhar no esquecimento a um mundo de distância. Rapidamente Port Arthur ganhou a reputação de ser uma das colônias penais mais brutais do mundo, um verdadeiro Inferno na Terra, onde apenas a escória mais dura e implacável conseguia sobreviver. A prisão era conhecida por ter a segurança mais rígida que havia na época. O perímetro era protegido por 3 muros de 6 metros cada, com arame farpado e cacos de vidro no alto. Postos de vigília contavam com guardas armados que tinham permissão de disparar caso alguém cruzasse alguma área proibida. Os castigos corporais eram severos, com o uso de chibata, correntes e bolas de ferro. Privações de todo tipo: sensorial, por fome, desidratação e outras formas de tortura eram empregadas sem pudores. A prisão obrigava os presos a usar máscaras que tampavam seus rostos o que fazia aos poucos com que eles perdessem a identidade própria. Eram números e nada mais...


Além disso, as águas infestadas de tubarões ao redor da ilha eram proibidas aos navios mercantes e baleeiros, afim de evitar que os prisioneiros escapassem em barcos. A terra ao redor era salpicada de armadilhas, postos de guarda e cães ferozes. Os homens eram mantidos completamente impedidos de receber visitas, e a prisão foi amplamente divulgada como inexpugnável. As disputas e violência entre os detentos ocorriam de modo desenfreado, com homicídios ocorrendo frequentemente. Também havia uma alta taxa de suicídios. Ninguém se importava com o que acontecia entre eles. Quando não havia mais espaço para cemitérios no solo pedregoso da ilha, o Diretor ordenou que os corpos fossem jogados no mar. A visão de cadáveres devolvidos pela arrebentação, sendo bicados por aves carniceiras era algo dantesco. Passaram então a amarrar pedras nos cadáveres antes de atirá-los ao mar. 

Em resumo, Port Arthur era um lugar duro e distante de qualquer civilização. Os guardas e presos se superavam no quesito crueldade e perversão, num regime no qual os fortes dominavam e aos fracos era dada uma opção, se sujeitar ou morrer. Havia sofrimento em todo canto, e conta-se que ao receber a sentença para Port Arthur, muitos homens enlouqueciam ou se matavam.

A prisão acabaria sendo fechada em 1877 pois era caro demais manter o lugar em funcionamento, dado seu isolamento extremo. Ademais, os próprios guardas não queriam ficar no lugar, considerado deprimente e perigoso. Os detentos começaram a ser relocados para outras prisões australianas e os últimos presos foram evacuados em 1879.


A prisão foi deixada para se deteriorar, exposta aos elementos, gradualmente se transformando em uma ruína carcomida pela maresia, pelo vento e pelas tempestades. 

Mas graças à localização cênica da península e paisagens paradisíacas, o lugar foi redescoberto por turistas em meados do século XX. Mesmo com os prédios da prisão apodrecendo no horizonte, a área se tornou um destino desejado por turistas de toda a Austrália. Nos anos 1970, o governo local tentou mudar a imagem de Port Arthur para algo mais positivo e alegre, chegando até mesmo a alterar o nome da Ilha para Carnarvon e distanciá-la de seu passado violento. 

Ironicamente as ruínas da prisão se tornaram uma atração turística popular, com visitantes explorando os corredores escuros, celas apertadas e pátios cobertos de erva daninha. No entanto, parece que a história sangrenta deste lugar deixou marcas profundas que ainda podiam ser sentidas por algumas pessoas. Em 26 de abril de 1996 o sítio histórico de Port Arthur foi palco de um dos piores massacres da história recente da Austrália. Nesse dia, Martin Bryant, um desempregado de 28 anos, usou espingardas e rifles semiautomáticos para matar 35 pessoas e ferir outras 23 antes de ser capturado vivo. Ele foi condenado a 35 sentenças consecutivas de prisão perpétua e mais 1.035 anos, sem liberdade condicional na ala psiquiátrica de Prisão Risdon em Hobart, Tasmânia.


Para justificar o que o levou a um ato tão medonho, Bryant disse que ouvia vozes e apelos de pessoas que viveram na Colônia Penal no passado. Estes fantasmas, cheios de ódio e descontentamento o incentivaram a matar. Bryant sofria de esquizofrenia paranoica, mas o caso ganhou grande repercussão quando o componente sobrenatural veio à tona. Alguns jornais sensacionalistas chegaram a dizer que as assombrações de Port Arthur queriam sangue e desejavam o fim das visitas ao local em que eles sofrearam uma existência miserável. Seja como for, após o incidente, o governo da Tasmânia suspendeu visitas ao sítio temendo que outras pessoas pudessem tentar copiar os atos do homicida.

A história da Colônia Penal, entretanto, não pode ser apagada facilmente.

É esta história, impregnada de morte, juntamente com as ruínas decrépitas da antiga colónia penal, que construíram um ambiente perfeito para lendas sobre fantasmas. Desde os dias da colônia penal, menciona-se figuras sombrias à espreita ao longo das altas falésias ou vagando pelas sepulturas sem identificação. Há também outras áreas que dizem ser particularmente assombradas. Uma delas é  chamada "The Parsonage", a residência do padre e seus assistentes durante os dias da prisão. Um dos religiosos que ocupou a habitação foi um homem alto e intimidador conhecido como Reverendo Eastman. Famoso pelos seus sermões sobre o Inferno e a danação, ele foi por algum tempo o único conselheiro espiritual dos presos. Todos o temiam pois era um homem severo e instável. Dizia ser uma espécie de Mensageiro de Deus e que sua função era julgar e punir aqueles que não se arrependiam dos pecados. Segundo todos os relatos, tanto os funcionários da prisão quanto os prisioneiros ficavam aterrorizados com o pároco. Quando ele morreu em 1870, vítima de um tumor cerebral, poucas pessoas sentiram sua falta.

Mas nada é ruim o bastante que não possa piorar. Pouco tempo depois de seu enterro, começaram a surgir rumores sobre aparições do fantasma do Reverendo Eastman. Dizem que ele perambulava pela casa paroquial envolto em um odor fétido repetindo trechos de salmos com uma voz monótona. Nessas ocasiões a Casa Paroquial era atormentada por luzes fantasmagóricas, ruídos medonhos e um fedor nauseante de carne decomposta. Mesmo depois que os condenados foram transferidos, as histórias sobre o Reverendo continuaram. Ele é sem dúvida uma das assombrações mais temidas, mas está longe de ser a única. 


Uma história muito aterrorizante ocorrida nas Ruínas da Prisão é narrada por uma investigadora do paranormal chamada Leonie Vandeven, que visitou o lugar acompanhada de um colega que manejava a câmera durante a exploração. Esse colega, que ela prefere chamar pelo nome fictício de Sam foi possuído por algum tipo de força sobrenatural, conforme ela explica:

"Sam e eu estávamos interessados na história detalhada de Port Arthur. Era uma história notável. Estávamos olhando para um monte de prédios antigos quando senti que algo estranho havia acabado de acontecer com ele. Senti um frio súbito e Sam parou diante da Casa Paroquial. Ele teve um arrepio, algo que eu consegui perceber imediatamente. Perguntei se estava tudo bem e ele começou a gemer e perder o equilíbrio, embora não tenha chegado a desmaiar.   

Nos 30 minutos seguintes, Sam assumiu um comportamento inteiramente atípico: extremamente agressivo, cerrava os punhos e falava com um sotaque diferente. Ele foi incapaz de articular qual era o problema além de dizer: "Não estou bem, estou sentindo algo estranho". Quando o puxei pelo braço para irmos embora, ele me olhou com uma expressão confusa e começou a gargalhar. Uma risada que gelou o sangue nas minhas veias. Era a risada de alguém enlouquecido! Eu tentei apressá-lo, mas ele começou a andar em círculos, rosnando intermitentemente sob sua respiração e proferindo xingamentos. 

A prisão foi construída tanto para o isolamento físico quanto para o mental e sensorial dos condenados. Eu me pergunto se quem se apossou do meu colega, havia passado por essas provações, pois o comportamento era condizente com alguém levado às raias da insanidade. Apenas quando saímos dos limites da cadeia é que Sam começou a voltar à si, sem qualquer lembrança do que havia se passado instantes antes."


Mas o espírito possessor que afligiu o amigo de Leonie ainda tinha uma mensagem a transmitir antes de partir de volta para sua eterna prisão:

"Em determinado momento, ele olhou para mim com uma expressão muito diferente. Ali tive certeza de que não era mais Sam quem estava comandando o corpo. Sua testa se franziu e sua boca recurvou em um sorriso transbordando escárnio. Ele disse então com uma voz medonha: "Ninguém sai desse inferno, ninguém parte desse purgatório. Nós estamos todos aqui e vamos permanecer aqui para sempre." E então repetiu aquela risada tétrica. Felizmente, ao passar os muros, Sam recobrou suas faculdades. Esse foi nosso último trabalho juntos, já que ele desistiu de me acompanhar em explorações por lugares assombrados depois do ocorrido." 

Outra área particularmente assombrada do complexo prisional são as antigas celas de confinamento solitário, que dizem transbordar com uma gélida aura de desespero. As pessoas que entraram nas celas desta área relataram ouvir vozes, serem socadas ou chutadas quando ninguém mais está lá, e até mesmo sofrem ferimentos físicos por ataques fantasmas. De fato, em todo o complexo de Port Arthur há vários relatos de espíritos errantes pertencentes a antigos detentos mortos atrás destes muros. Ouve-se passos e vozes desencarnadas. Não é incomum escutar o som de portas batendo, objetos caindo e se estilhaçando e outros fenômenos paranormais que aqui, nesse lugar amaldiçoado, ocorrem com desconcertante frequência.

Pessoas sensíveis são desaconselhadas a visitar o complexo penal. Vários visitantes declararam se sentir fisicamente exauridos depois de explorar o complexo, sentindo como se algo no lugar drenasse suas forças, quase como se estivesse se alimentando deles. Outros relatam uma sensação desagradável e depressiva permeando toda a cadeia, como se algo estivesse tentando chamar a atenção. A sensação para alguns é tão potente que não são raros os casos de pessoas desmaiando ou sofrendo episódios de ansiedade. Aqueles que possuem alguma faculdade mediúnica descrevem situações ainda mais tensas, sentindo cheiro de fumaça no ar, espaços frios e sussurros que parecem ser carregados pelo vento. Ao menos dois parapsicólogos conceituados desaconselharam visitas a esse lugar, afirmando que os espíritos que habitam os muros são extremamente agressivos e capazes de afetar pessoas abertas a sua interação.   


Não é por acaso que a Colônia Penal da Tasmânia se tornou nas últimas décadas um dos lugares mais infames do continente no que diz respeito a acontecimentos sobrenaturais. Para aqueles que visitam o complexo, não importa se são crentes ou céticos, é inegável que a ele tem algo de desagradável. Poderia uma história sangrenta e tumultuada se incorporar a um ambiente confinado e reverberar através dos anos? A violência e horror ainda infunde o próprio ar com energia negativa? Ou isso é apenas o resultado da imaginação das pessoas que acreditam no que desejam acreditar? Talvez a única maneira de descobrir seja fazer uma visita e vagar pelos corredores e celas que um dia estiveram repletos de dor e sofrimento. 

Você teria coragem?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Algernon Blackwood - A Obra imortal de um Mestre do Horror

Uma assustadora fotografia que emoldura esse artigo mostra um homem velho de aspecto severo e postura grave. Trata-se de uma das últimas imagens de Algernon Blackwood, o homem que ganhou o justo apelido de "Fantasmagórico".

Nascido em 1869 em um pequeno vilarejo próximo de Londres, Blackwood talvez seja um dos mais notáveis escritores de Horror de todos os tempos. Infelizmente, hoje ele não é tão lembrado quanto outros mestres de sua época. Uma grande injustiça que vem sendo corrigida nos últimos tempos graças a uma nova geração de leitores que reconheceram nele os méritos de um Mestre da Narrativa Assustadora. 

Para se ter uma ideia apenas uma ou duas de suas mais conhecidas narrativas foram traduzidas para o português. Uma lástima, pois, Blackwood deixou mais de 100 contos e estórias curtas que são verdadeiros clássicos da literatura fantástica.

O semblante funereo e a expressão sisuda de poucos amigos engana. Ao longo da vida, ele teve diversas ocupações: aventureiro, empreendedor, viajante, místico, apresentador de rádio e televisão para citar apenas algumas. Mas foi como ensaísta e depois autor que ele encontrou fama e reconhecimento. Blackwod escreveu ao longo de sua carreira mais de 10 antologias de contos sobrenaturais, muitos dos quais encenados no palco ou transmitidos por rádio. Também escreveu diversos romances de sucesso e foi publicado em vários idiomas.

Quem o conheceu conta que em vida era um sujeito notável: educado, culto, sempre disposto a ouvir os fãs e trocar ideias com novos escritores em busca de conselhos sobre a carreira. Um indivíduo acessível e simpatico, muito bem quisto pelos colegas. Os personagens em seus contos eram um reflexo de si mesmo. Blackwood era um amante da vida selvagem, apreciava fazer trilhas, acampar e esquiar. Saia regularmente, vagando sem destino pelos recantos intocados em uma espécie de comunhão com o mundo natural de que era devoto. No isolamento da mata virgem, no silêncio da floresta e no coração do bosque encontrava a inspiração para seus contos mais sinistros.


Outro interesse de Blackwood eram os fantasmas e as assombrações de todo tipo. Vários de seus contos se dedicam a manifestações fantasmagóricas, tema que muito o fascinava. Amigos íntimos afirmam que ele acreditava no sobrenatural e frequentava círculos de discussão sobre o assunto como ouvinte e em algumas vezes como palestrante, disposto a compartilhar suas teorias sobre o "Mundo Espectral". Ele se associou a sociedades de estudo do sobrenatural como o Ghost Club e abordou o tema em seu romance "The Human Chord". Blackwood também fez parte da renomada Hermetic Order of the Golden Dawn, a mais famosa Sociedade Mística do século XIX, ao lado de grandes pensadores do oculto como Yeats, Mathers e é claro, Crowley. Alguns o acusaram de se aproximar desses círculos para extrair deles inspiração para seus contos e novelas. Ele jamais negou que usava o contato com ocultistas famosos para dar credibilidade aos seus contos.

Esse ano comemoramos 153 anos do nascimento de Algernon Blackwood e sua influência no gênero Horror Fantástico se mostra imensa. Ela pode ser medida pelos elogios rasgados de H.P. Lovecraft em seu ensaio "O Horror Sobrenatural na Literatura":

"Menos intenso do que Machen ao delinear os extremos do pavor, mas infinitamente mais ligado à ideia de um mundo irreal influindo no nosso, é o inspirado e prolífico Algernon Blackwood, em cuja obra volumosa e desigual, podem-se encontrar alguns dos melhores exemplos de Literatura Fantástica da época atual ou de qualquer outra. A qualidade do gênio de Blackwood não pode ser posta em dúvida, pois ninguém sequer chegou perto do talento, seriedade e minudente exatidão com que ele registra as sugestões de estranheza em objetos e experiências ordinárias, ou o discernimento preternatural com que ele constrói, detalhe por detalhe as sensações e percepções que levam da realidade à existência ou a visão supranatural. Sem domínio notável da magia poética das simples palavras, é ele o mestre absoluto e indisputado da atmosfera espectral; e de um simples fragmento de descrição psicológica é capaz de invocar oque quase chega às dimensões de uma história. Melhor que qualquer outro ele compreende quão inteiramente, certas mentes sensitivas habitam perpetuamente as fronteiras do sonho, e quão relativamente tênue é a distinção entre as imagens formada a partir de objetos concretos e as que são excitadas pelo mecanismo da imaginação".

O que chama a atenção na obra de Blackwood é a forma como ele trata os lugares onde se passam suas histórias. Ele privilegia as paisagens campestres e áreas rurais intocadas do mundo, lugares imersos em uma essência primordial que não foi corrompida pelo homem. Florestas densas, pântanos ermos, rios estagnados, montanhas rochosas que nunca foram exploradas e onde a humanidade não é bem vinda. A paisagem desenhada por Blackwood é quase um personagem atuante na trama, agindo como um organismo vivo que repudia a presença dos personagens e deles quer distância. Blackwood não apenas descreve o ambiente, mas evoca uma sensação de ameaça pois tudo é absolutamente escuro, lúgubre, assombroso.

A região pantanosa próxima do Rio Danúbio em "Os Salgueiros" - seu conto mais famoso - é descrita como um verdadeiro inferno, repleto de sons e sensações perturbadoras. Não há escapatória desses bancos de areia cercados por água barrenta. Não por acaso "Salgueiros" é considerada uma das 10 melhores historias de horror sobrenatural de todos os tempos, e um dos contos favoritos de Lovecraft.

Outra coisa interessante é que Blackwood lida com um tipo bem específico de Horror: o Pavor diante do desconhecido, daquilo que não pode ser compreendido, quantificado ou ponderado racionalmente. É sem dúvida um tema recorrente entre os autores do Mythos, mas Blackwood consegue se destacar ao tratar do assunto como um dos pioneiros no Horror Cósmico.

Os monstros que espreitam em suas estórias aparecem como vultos fantasmagóricos e presenças intangíveis que nunca são vistos inteiramente. Eles agem deixando apenas indícios de sua passagem e rastros de seu horror, nada mais. Ele se dá ao luxo de jamais explicar o que são os seus horrores, o que querem, de onde surgiram... são horrores, são abominações, e isso, basta.

O leitor nunca sabe exatamente o que são as criaturas que habitam o pântano em "Os Salgueiros". O leitor jamais sabe o que deseja o Wendigo no conto de mesmo nome (possivelmente seu segundo mais conhecido conto). Mesmo em narrativas com um suposto motivo ou explicação como "The Glamour of the Snows", "Ancient Sorceries" e "The Man Who Found Out" simplesmente contém lacunas deixadas incompletas, muitos mistérios em aberto. 

Algo proposital como se não houvesse luz suficiente para iluminar as trevas do desconhecido.

O PROJETO 


Uma ótima notícia para os Fãs do Horror é que as Editoras Clocktower e ex-Machina se unem para dar o pontapé inicial de um Financiamento Coletivo que trará as cinco narrativas longas mais importantes de Algernon Blackwood, sendo duas delas inéditas em português, num total de mais de 300 páginas. As histórias selecionadas para essa edição especial são:

Os Salgueiros (1907)
Antigas Feitiçarias (1908)
O Wendigo (1910)
O Homem que as Árvores Amavam (1912)
Descida ao Egito (1914)

O livro ainda contará com ilustrações de Alexandre Teles elaboradas especialmente para a essa edição. Nas metas estendidas, conteúdos extras inéditos tratarão da vida e da obra do autor, sua recepção crítica, memórias e relatos, além de curiosidades sobre a gênese das histórias.

Quem já conhece os envolvidos, pode atestar a seriedade deles e comprovar que já realizaram vários Financiamentos bem sucedidos, entregando material inédito, respeitando os prazos estipulados.

O Financiamento já teve início, então eu convido a todos a conhecer a Proposta, as Metas e as Recompensas oferecidas nesse novo Projeto.

Aqui, vocês podem acessar o link que leva ao Catarse:


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Texto e Arte - Resenha de "O Chamado de Cthulhu" da Editora Darkside

 "A Coisa mais misericórdia do mundo, penso eu, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo. vivemos numa ilha plácida de ignorância em meio a mares negros de infinitude e não somos destinados a ir muito longe. As ciências, cada uma delas se estendendo em sua própria direção, nos causaram pouco dano até o momento; mas algum dia, a reunião do conhecimento dissociado revelará paisagens tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição nela que ou enlouqueceremos com a revelação ou fugiremos da luz mortífera em direção à paz e segurança de uma nova era das trevas". 

H.P. Lovecraft - O Chamado de Cthulhu

*     *     *

Nota: Para avaliar esse trabalho magistral, resolvi dividir a resenha em três partes: a primeira tratando do Texto de H.P. Lovecraft, a segunda da Arte de François Baranger e finalmente, na terceira tratando da convergência dos dois elementos na forma do livro 'O Chamado de Cthulhu". 

O TEXTO

É com o parágrafo acima, transbordando pessimismo niilista que H.P. Lovecraft abre O Chamado de Cthulhu, um de seus contos mais famosos. Para muitos, Chamado está na lista dos melhores e mais influentes trabalhos do autor. Outros vão além: Chamado de Cthulhu estaria na lista dos melhores e mais influentes contos de horror do século XX, possivelmente da história. E eles não estão exagerando.

É provável que o próprio Lovecraft não soubesse que esse conto seria tão importante na sua bibliografia e que tornaria seu nome permanentemente associado à criatura que ele criou. De certa maneira, Lovecraft e Cthulhu se tornaram quase sinônimos: quando o nome de um é mencionado, quase que imediatamente o outro surge segundos depois. Criador e criatura com o passar do tempo ficaram quase indissociáveis.

Escrito ao longo do ano de 1926, e publicado pela primeira vez em fevereiro de 1928 na Revista Weird Tales, Chamado não conquistou imediatamente seu espaço, embora tenha atraído a atenção de outros autores que viram nele os méritos de uma história complexa e uma evolução nas bases para o que ficaria conhecido como Horror Cósmico. Talvez seja em O Chamado de Cthulhu que Lovecraft define pela primeira vez o que representa o panteão de seres que ele vinha trabalhando, não demônios, mas entidades alienígenas nascidas na vastidão do espaço. Ele também estabelece a importância cósmica dessas criaturas, seu poder esmagador e influência tóxica na história do planeta. Lovecraft trabalha o conceito de como a presença desses seres ancestrais ainda se faz presente, e como as emanações psíquicas desses horrores, no caso Cthulhu, são captadas pela humanidade. O toque de Cthulhu, seu Chamado, motiva a criação de cultos ao redor do mundo, seitas que veneram essa entidade com fanatismo bestial, oferecendo a Ele sacrifícios e pranteando o Seu retorno. O conto consolida a noção de que a proximidade do Mythos ocasiona alucinação, pavor e loucura, outra pedra angular do gênero.

Em resumo, alguns dos principais elementos que delineiam o Horror Cósmico são apresentados nesse conto de modo incrivelmente imaginativo e inovador.

Lovecraft contava que a inspiração para Chamado veio de um sonho que ele teve em 1919. Ele descreveu a experiência em duas cartas enviadas a seu colega de correspondência Rheinhart Kleiner em 21 de maio e 14 de dezembro de 1920. No sonho, Lovecraft via a si mesmo visitando um museu de antiguidades em Providence, tentando convencer um idoso curador a comprar uma estranha estatueta que o próprio Lovecraft havia esculpido. O curador inicialmente zomba dele por tentar vender algo feito recentemente para um museu de objetos antigos. Lovecraft então se lembra de responder ao curador que a peça era muitíssimo antiga e que ela havia sido esculpida à partir de seus próprios sonhos. 


Ao acordar, Lovecraft apanhou um bloco de notas e guardou essa informação, além de ter feito um esboço preliminar de como era a tal estátua: Um Deus com cabeça de polvo, corpo humano e asas de morcego, acocorado num pedestal. Um Kraken, um Dragão, uma abominação. Nascia assim o Grande Cthulhu, a Entidade Alienígena que habita as profundezas oceânicas, "não morto, mas sonhando", aguardando o momento certo de reclamar o planeta que um dia lhe pertenceu.

Lovecraft salvou essa sinopse com uma anotação adicional que dizia: "Adicione um bom desenvolvimento e descreva a natureza do baixo-relevo". Nos anos que se seguiram, ele trabalhou em muitos outros contos, mas nunca esqueceu do sonho e dessa ideia. Ele delineou o conceito de deuses alienígenas que habitaram a Terra muito antes da humanidade, que foram forçados a hibernar em lugares ocultos do mundo, mas que estão destinados um dia a despertar com a ajuda de cultos apocalípticos.

Depois de publicado na Weird Tales, o conto ficou quase esquecido e após a morte de Lovecraft, não fosse a intercessão de seus amigos, provavelmente teria se perdido para sempre. Ele foi salvo do esquecimento e republicado pela editora Arkham House junto com outros contos que estavam fadados a desaparecer. Aos poucos, a obra de H.P. Lovecraft foi sendo resgatada e cada vez mais lida. Ela influenciou e ainda influencia uma legião de autores, leitores, fãs e entusiastas que captaram a genialidade ali contida.

E Chamado talvez seja a semente disso tudo.

ARTE

Uma coisa curiosa é que por mais importante que seja, a obra de Lovecraft raramente foi objeto de imagens grandiosas capazes de evocar as cenas descritas nos textos rebuscados. Os primeiros livros do autor contavam com imagens pouco evocativas fosse na capa ou sobre o título, imagens discretas que entregavam pouco sobre as dimensões do horror ali contido. Talvez os ilustradores tentassem se manter fiéis ao princípio estabelecido pelo próprio Lovecraft de que as suas criaturas eram simplesmente indescritíveis e impossíveis de serem retratadas de forma fiel.

Os deuses, seres e monstros Lovecraftianos são contrários à própria ordem natural. Eles desafiam as convenções do que tratamos como convencional e corriqueiro. Eles são por definição absolutamente alienígenas e é isso que causa a loucura naqueles que vislumbram suas formas grotescas e contornos bizarros.

Não deve ser nada fácil trabalhar com essa premissa.

O artista que se propõe a ilustrar um Horror do Mythos parte do pressuposto que a coisa a ser retratada não é apenas estranha, ela é incompreensível. Algo que não pode ser decifrado pelos nossos sentidos  pois não temos como compara-la a nada que conhecemos.

Poucos artistas seriam capazes de trabalhar o desafio de dar forma ao Caos do Mythos.

Entra em cena o conceituado artista francês François Baranger, conhecido ilustrador que tem no currículo o projeto conceitual de vários filmes e games de sucesso. Baranger é um fã de longa data de Lovecraft e de suas criaturas inomináveis, segundo ele, "fonte de inspirações e horrores de todo tipo". 

Ele aceitou o desafio de invocar para o mundo real imagens dignas de pesadelo das criaturas lovecraftianas e materializá-las para a apreciação de nossos sentidos.  

JUNTANDO TEXTO + ARTE

O que acontece quando juntamos um dos textos mais inspirados de H.P. Lovecraft - o Chamado de Cthulhu, com as belíssimas ilustrações de François Baranger?

O resultado é "O Chamado de Cthulhu", um livro nada menos do que sensacional.


Lançado aqui no Brasil recentemente pela Editora Darkside, a versão nacional é um banquete para os olhos. Ela não fica devendo nada em relação à edição original lançada em 2017 e possui o mesmo projeto gráfico. Nem é preciso dizer como a Darkside se dedica na produção de seus livros e trata cada um deles com um esmero invejável que estabeleceu um elevado padrão de qualidade. Livros da Darkside são lindos! Fato que nenhum colecionador contesta.

Ao longo das 64 páginas, encerradas em um volume luxuoso com capa dura e papel couché, o leitor é agraciado com um dos melhores contos do gênio do horror, complementado por imagens deslumbrantes de um artista incrivelmente talentoso. O formato do livro chama a atenção, com 36 x 27 centímetros, mas seu objetivo é óbvio, permitir ao artista aproveitar as dimensões como se fosse uma tela. E ele aproveita cada espaço para invocar imagens incríveis.

Temos três tipos de ilustrações: as de página inteira, as que servem de background para o texto e enormes imagens de páginas dupla que mais parecem pôsteres. Baranger se sobressai em cada uma com seu estilo elegante e ao mesmo tempo sombrio. Ele não se intimida em reproduzir as cenas mais apocalíticas, como a que mostra os detalhes da clareira macabra usada pelo Culto de Cthulhu no coração do pântano da Louisiana. Imagem de arrepiar! Mas sem dúvida, são as ilustrações que evocam o terror alienígena da Ilha Cadavérica de R'lyeh, que chamam mais a atenção. Baranger oferece um panorama aterrorizante que completa a descrição de Lovecraft com maestria, ruínas ciclópicas de eras ancestrais, arquitetura impossível com ângulos incompreensíveis e grandeza avassaladora. Ele também não se intimida em retratar Cthulhu com uma aura de ameaça titânica. É possível entender como a mera visão dele conduz pessoas à loucura.

Entretanto, o uso mais genial de ilustração se ajustando ao texto é quando Beranger reproduz o trecho sobre uma matéria do Sydney Bulletin como se fosse uma página de jornal. Resultado nada menos que notável.

O conto original é reproduzido na íntegra e para os leitores que não conhecem esse clássico imortal do horror, imagino que esta talvez seja a melhor e mais acessível introdução ao Horror Cósmico. Se você quer apresentar Lovecraft e o Horror a um amigo ou conhecido, dê a ele esse livro de presente. Para aqueles que já foram introduzidos nesse universo, essa edição tem o mérito de ser uma das mais caprichadas e bonitas lançadas até hoje. Acredite, ela é praticamente um livro de centro de mesa.

A tradução do texto sob a responsabilidade de Ramon Mapa é competente, sem censurar ou atenuar o conteúdo original. Como deve ser! Na última página há uma Nota do Editor contextualizando a já exaustivamente debatida questão do racismo presente na obra de Lovecraft. A nota é esclarecedora, sem defender ou condenar, recorrendo a especialistas e estudiosos do autor para oferecer diferentes pontos de vista sobre a questão.

Em conclusão, "O Chamado de Cthulhu" é uma história inesquecível quase essencial para os fãs do Horror. As imagens de Baranger complementam cada linha de Lovecraft e expandem a percepção do leitor para além do que ele capta através das palavras, garantindo uma experiência inovadora mesmo para os que conhecem a história de trás para frente.

Essa edição vale muito à pena! Nos resta agora torcer para a Darkside traga também os dois volumes da novela "At the Mountains of Madness" projeto seguinte da dobradinha entre Lovecraft e Baranger. 

Que venham outros!

"O Chamado de Cthulhu" ilustrado por François Baranger pode ser encontrado na loja online da Editora Darkside no link abaixo:

https://www.darksidebooks.com.br/o-chamado-de-cthulhu--brinde-exclusivo/p


sábado, 5 de fevereiro de 2022

Escola do Diabo - A Macabra história da Escola Pública Quatro


Por que alguns lugares são assombrados? O que torna um determinado prédio, construção ou edifício um lar para fantasmas? Seriam as energias negativas represadas ali ou a memória de antigas tragédias? Para a parapsicologia, emoções fortes, mortes violentas e o medo deixam um eco nas paredes de construções e estas estão fadadas a se repetir infinitamente, até que essa energia latente termine por se dissipar.

São inúmeras as histórias, contos e lendas sobre lugares assombrados, alguns destes bastante óbvios como cemitério, manicômios e casas funerárias, mas outros lugares considerados assombrados nos deixam perplexos por não serem os típicos redutos de atividade paranormal. Um desses lugares que a maioria não iria associar imediatamente com assombrações são escolas, mas mesmo esses lugares inocentes de aprendizado podem mergulhar no reino das forças das trevas. 

Aqui temos uma velha escola em estilo americano, abandonada e incrivelmente assustadora no estado da Flórida. Ela acumulou mesmo enquanto estava em funcionamento a reputação de ser um dos lugares mais assombrados do estado. E depois de ser fechada, os boatos infames à respeito dela, apenas aumentaram exponencialmente. Hoje ela é tida como um foco de atividade fantasmagórica de grandes proporções.

A escola batizada simplesmente de Escola Pública Número 4 teve um começo humilde. Originalmente inaugurada em 1891 em Jacksonville, Flórida, ela passou a se chamar Riverside Park School pouco depois. Nos anos seguintes, sua estrutura precária, praticamente um barracão de madeira, foi completamente reformada e em 1918, ela reabriu como a Riverside Comunity School. As expansões continuaram até que na década de 1950 ela ganhou a configuração que se manteve até seu fechamento definitivo em 1974. Em seu auge a Riverside chegou a receber 2200 alunos em dois turnos e contar com mais de 200 funcionários. Ela jamais foi uma referência de ensino, mas ajudou a educar gerações de jovens estudantes e alfabetizar milhares de adultos, sobretudo de comunidades carentes.


Há vários rumores estranhos sobre a história da Escola, sobretudo no que diz respeito a acontecimentos trágicos e inexplicáveis. Estes ajudaram, sem dúvida, a sedimentar a história assombrosa da instituição. Em 1938, a sala do aquecedor no porão teria explodido e provocado um incêndio que vitimou cinco funcionários e três alunos. Outro incidente, dessa vez em 1951 foi causado por um escapamento na tubulação de gás que envenenou 12 alunos que viviam na Escola em regime de internato. Os alunos provavelmente morreram enquanto dormiam, sem se dar conta que o ar que respiravam estava saturado de gás mortal. Em 1970, uma nova tragédia se abateu sobre a Escola, dessa vez motivada por drogas misturadas com veneno de rato que supostamente foram distribuídas para alunos do colégio. Seis adolescentes teriam morrido nas dependências do colégio.

Depois desse escândalo, a Riverside ficou fechada por um ano inteiro, funcionando por um curto período em 1971 como escritórios para aluguel. Curiosamente, todos os espaços alugados para essa função eram invariavelmente devolvidos após alguns meses. Extraoficialmente, os boatos é que as pessoas não suportavam trabalhar em lugar tão deprimente. Outros, no entanto, culpavam a atividade paranormal constante. Em 1973, várias unidades foram fechadas e acabaram se tornando reduto de sem-teto e usuários de drogas. Mais boatos dão conta do número assustador de dependentes químicos encontrados mortos no terreno, supostamente vítimas de overdose.

O edifício principal se manteve de pé como uma ruína que se deteriorava lentamente, sem ser condenada ou demolida. Ervas daninhas cresciam e pichações se espalhavam pelas paredes de alvenaria que se converteu num esconderijo para a Gangue dos Blood. Em 1995 um incêndio fez com que o velho auditório desabasse sob o próprio peso.


A Escola, que voltou a ser conhecida como Número Quatro se encontra no mesmo lugar que sempre ocupou, isolada e vazia, deixada para morrer. Ela é um monumento glorificando o abandono. Muito se falou à respeito de reconstruir e reutilizar o terreno, mas nenhum plano oferecido foi levado adiante, em parte por conta dos rumores sobre sua história tétrica.      

E não são poucas essas histórias...

Uma das lendas urbanas mais populares que começaram a circular após o fechamento da Número Quatro foi que um dos zeladores da escola, um sujeito chamado John Dalton era um criminoso extremamente perigoso. Ele não seria apenas um pedófilo condenado, o que é ruim o bastante em se tratando de um funcionário de escola, mas também teria sido um assassino e pior ainda, um canibal. Segundo os relatos, John Dalton trabalhou na Escola entre 1967 e 1969, período no qual alguns alunos foram dados como desaparecidos. A polícia acreditava que os jovens sumidos simplesmente teriam fugido de casa, mas outros sugerem que eles teriam sido emboscados por Dalton nas dependências da própria escola e levados para o complexo de depósitos no subterrâneo da escola, lugar que o zelador conhecia como a palma de sua mão. Lá embaixo, ele teria violentado, torturado e assassinado pelo menos seis vítimas. Depois de matá-los, o criminoso devorava as partes que achava mais saborosas, enquanto o restante era descartado dos grandes aquecedores no porão.

A lenda vai mais longe, citando que a Escola descobriu o que vinha ocorrendo, mas que temendo um escândalo que fecharia a instituição, simplesmente decidiu dispensar o assassino e deixa-lo ir. Tudo teria sido acobertado e os corpos das crianças vitimadas pelo monstro jamais foram encontradas. Há um rumor que dentes e restos de ossos calcinados teriam sido achados nos fornos perto da Sala do Aquecedor, mas nada jamais foi provado. Alguns acreditam que John Dalton posteriormente mudou de nome e assumiu a identidade do assassino em série Robert James Long, que aterrorizou a região de Tampa Bay, na Flórida, em meados dos anos 1970. A maioria das pessoas considera essa história uma lenda urbana assustadora, mas muitos ex-alunos e funcionários juram que havia de fato um zelador sinistro chamado John Dalton que trabalhou na escola e que tinha péssima fama.


Outro rumor persistente à respeito da escola Número Quatro é que ela teria sido construída sobre um antigo cemitério indígena e que ossos haviam sido desenterrados durante sua construção. O terreno em que a Escola foi erguida realmente era parte de terras indígenas que depois deram lugar a uma reserva que foi relocada em 1870. Na época, muito se falou á respeito desse remanejamento dos nativos americanos que não ficaram satisfeitos, sobretudo porque seus ancestrais estavam enterrados naquele lugar.

Em 1987, período em que a escola se encontrava fechada, supostamente uma escavação arqueológica foi conduzida na área. Seu objetivo era encontrar artefatos indígenas que supostamente estavam enterrados no solo. As escavações coordenadas pela Sociedade Histórica da Flórida e que contou com o apoio de organizações ligadas a tribos indígenas desenterrou alguns objetos que foram doados a museus ou devolvidos aos habitantes originais. Boatos davam conta de que ossadas parciais e inteiras também foram retiradas da terra.

Além desses boatos, as tragédias ocorridas na escola durante seu funcionamento também faziam com que a fama de assombrada se espalhasse. A morte de vários alunos ao longo dos anos, em incidentes documentados sem dúvida causa uma sensação de inquietação. Sabe-se de pelo menos 26 mortes no interior da Escola, em incêndios, acidentes com gás e drogas, o que é um número incrivelmente elevado.


Todas essas histórias ajudaram a criar a mística sobre a Escola Número Quatro, e lhe valeram o apelido macabro de "Escola do Diabo". Mas embora não haja provas concretas de que todos esses infortúnios ocorreram, uma coisa todos que lá estiveram concordam: o lugar é extremamente aterrorizante. Quem visita as ruínas da escola, mesmo hoje em dia sente o peso da negatividade e a incrível aura de pavor que parece estar impregnado no que resta do prédio dilapidado. Não por acaso, a Escola ganhou a alcunha de ser "um dos lugares mais assombrados da Flórida".

Os relatos sobre atividade fantasmagórica no terreno incluem o avistamento dos fantasmas de crianças correndo por ali. Aparentemente, há estranhas sombras do tamanho de crianças e até mesmo vultos à espreita nas antigas salas de aula e nos salões decadentes. O som de passos de almas desencarnadas, risos e sussurros, gritos e gemidos mais assustadores são comumente ouvidos ecoando pelos corredores desertos. Diz-se que o fantasma do suposto zelador canibal os mantém aterrorizados, mesmo após a morte. Ele é descrito como uma entidade malévola e muito agressiva que ataca fisicamente os visitantes com empurrões e atirando objetos. 

Há ainda narrativas sobre orbes negras flutuando e estranhos flashes de luz vistos nas dependências. Há ainda uma suposta árvore fantasma que cresce dentro do prédio, mas que muitas vezes desaparece ou se move de um lugar para outro. Também se ouve sons em uma língua estranha, descrita por alguns como dialetos indígenas. Parecem cânticos inexplicáveis ​​que surgem das profundezas do porão sempre imerso na mais negra escuridão. 


Caçadores de fantasmas que visitaram a Escola Número Quatro registraram todos os tipos de atividades paranormais, incluindo aparições e frequentes EVP (fenômenos de voz eletrônica). Muitos parapsicólogos sérios, devotados ao estudo do paranormal exploraram a Escola e se mostraram impressionados pelo que captaram em câmeras ultravioleta e de visão noturna. Toda essa reputação de ser assombrada atraiu também curiosos, que corajosamente atravessam a cerca de arame farpado ao redor da propriedade e se arriscam vagando pela estrutura insalubre.

Apesar de todos os rumores que cercam esse lugar maldito, ao longo dos anos, houve alguns esforços para trazer a Escola Pública 4 de volta à vida. Também foi feita uma tentativa de transformá-la em prédio de condomínios e outra para transformá-la em uma casa de repouso, mas nenhuma dessas propostas chegou a ser concretizada. Em 2000, ela foi designada como um marco histórico, o que impediu que fosse demolida, e por isso ainda permanece como um espaço vazio, selvagem e sombrio, com pichações cobrindo quase todas as superfícies disponíveis de sua estrutura deteriorada. A maior parte dela, uma ruína completa.

Assombrado ou não, certamente o esqueleto decrépito da Escola se presta ao papel de inspirar lendas urbanas assustadoras. Ela alimenta com sua atmosfera sombria a imaginação das pessoas com visões pavorosas. Se não é assombrada, ela certamente parece ser, e apesar do fato de sua estrutura estar se desintegrando com tetos ruindo e pisos esburacados, a escola resiste, como se estivesse disposta a morrer lentamente. Ela é uma espécie de armadilha mortal, que atrai curiosos independentemente dos muitos cartazes de "Proibido Invadir" afixados ao longo da cerca. Muitos exploradores urbanos e investigadores paranormais não conseguem resistir ao canto de sereia desse lugar e vem conferir em primeira mão, arriscando suas vidas nesse ambiente decadente.


Existe alguma verdade nisso tudo, ou são apenas lendas girando em torno de um lugar inegavelmente esquisito? Alguma dessas histórias é verdadeira ou elas não passam de um mito local persistente? Seja qual for o caso, a Escola Pública Número 4 ainda está de pé, cercada e segregada do mundo à sua volta, guardando mistérios sobrenaturais que talvez nunca compreenderemos.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

A Horror na Abadia - Lendas macabras de um lugar apavorante


Há lugares neste mundo que parecem atrair relatos de estranheza paranormal. Lugares em que se forma uma aura de terror e superstição que passa a ser uma marca indissociável. 

Localizada na pitoresca zona rural próxima à cidade de Trino, no noroeste da Itália, está uma imensa estrutura de pedra construída na Era Medieval. Com sua imponente arquitetura gótica, muro e campanário, o lugar conhecido como Abadia de Lucedio está lá desde 1124. Sua história é longa, envolta em rumores e lendas, boa parte delas bizarras. Muito antes de existir a abadia, o lugar não passava de um terreno pantanoso e inútil, dominado por charcos e atoleiros. Ele foi dado aos monges cistercienses pelo Marquês de Montefract, Renier I como dádiva por uma cura milagrosa.

Os monges agradecidos pela benevolência do senhor se mudaram para lá e através de muita labuta conseguiram mudar o panorama. Em poucas décadas transformaram a terra lodosa em uma estância para cultivo de arroz. Com o lucro de seu empreendimento, ergueram uma formidável fortaleza para abrigar a Abadia de Lucedio, que seria a base de suas operações. Com o trabalho árduo e disciplina dos monges, a abadia deu origem não apenas a um importante assentamento, mas também transformou a região outrora desolada em uma das áreas de cultivo de arroz mais importantes de toda a Itália, verdadeiro celeiro que alimentava o norte do país. Uma prosperidade que se destaca até os dias atuais. No entanto, de acordo com a lenda, havia algo sórdido e sinistro por baixo de todo esse sucesso.

Algumas lendas afirmam que os monges simplesmente negociaram suas almas imortais com o Diabo em troca de riqueza. Após os primeiros anos de muito trabalho e esforço, com poucas recompensas, eles aceitaram uma saída para se ver livres da pobreza que os afligia. Esse ato vez com que eles abraçassem as trevas para sempre. Com o acordo demoníaco, eles conseguiram uma riqueza inimaginável, mas o Diabo impôs duas condições para sua ajuda: que eles o servissem dali em diante e que continuassem a se passar por monges, como um tipo de escárnio divino.


Há outras teorias que mencionam os religiosos sendo seduzidos pelas belas jovens da zona rural, que na verdade seriam sucubus, agindo como instrumentos do diabo ou uma praga que fez os monges se voltarem para o Diabo quando acharam que Deus os tinha abandonado. Não importa como, mas o resultado final é sempre o mesmo. Os monges da Abadia de Lucedio supostamente se afastaram de seus caminhos piedosos e abraçaram as trevas.

Por volta de 1684, eles estavam envolvidos em todo tipo de rituais arcanos, adoração satânica e sacrifícios humanos. Há rumores de incontáveis horrores e atrocidades cometidos pelos monges atrás das grossas paredes da Abadia, incluindo estupro, assassinato e tortura. Tudo isso enquanto disfarçavam das pessoas sua real natureza diabólica. Segundo as lendas, eles chegaram a sequestrar aldeões desavisados ​​para seus propósitos místicos e nefastos. Ocasionalmente, os gritos dos torturados, bem como algo sons produzidos por entidades não-humanas, podiam ser ouvidos ecoando de dentro da fortaleza. Os aldeões sussurravam sobre o que acontecia naquele lugar. Em algum momento, uma vítima inocente teria conseguido escapar das garras dos monges malignos e relatar histórias sobre adoração de demônios, magia negra e outras coisas grotescas.

O pior de todos os boatos que circulava pelos povoados vizinhos dava conta de que os Monges invocavam de tempos em tempos uma hoste de demônios e que ofereciam a eles as pobres camponesas que eram sequestradas. Após essas orgias, as mulheres violadas pelas criaturas eram trancafiadas numa masmorra para que pudessem das à luz à horríveis crianças com sangue infernal. 


Isso supostamente continuou acontecendo por um séculos, até que a abadia foi finalmente fechada em 1784, após uma suposta epidemia que dizimou os monges. Depois disso, o prédio passou por uma série de proprietários, incluindo até Napoleão Bonaparte que deteve as chaves da abadia por anos. Contudo, as lendas dizem que embora abandonada, algo maligno continuava habitando a Abadia. Uma presença de maldade e corrupção que jamais desapareceu e que até os dias atuais permeia esse lugar marcado pela iniquidade.

Uma das histórias mais assustadoras menciona a tentativa da Santa Sé de reaver a Abadia no final do século XVIII. Um grupo de religiosos teria sido enviado ao lugar com o intuito de subjugar a presença demoníaca que lá vivia e exorcizá-la de uma vez por todas. Os padres enviados para a missão supostamente encontraram o acesso para uma cripta secreta abaixo da Igreja de Santa Maria, o epicentro do mal. Dos dez religiosos que desceram para explorar a cripta apenas cinco retornaram com vida, entre eles um jovem seminarista. Quatro dos sobreviventes decidiram se sacrificar para que as forças malignas jamais deixassem os subterrâneos. Eles se colocaram diante da escadaria que levava para a cripta e rezaram por dias e noites ininterruptamente. Segundo a lenda, isso conseguiu deter as forças nefastas que retornaram para as profundezas. Infelizmente, o esforço teria sido tão grande que os quatro morreram e lá foram deixados como sentinelas pela eternidade. O seminarista que testemunhou os acontecimentos foi enviado para o Vaticano onde prestou relato ao Papa em pessoa. Supostamente os cadáveres mumificados dos quatro padres continuam no mesmo lugar, guardando as escadarias que levam para a Cripta amaldiçoada. Enquanto continuarem lá, o mal será detido nas profundezas da Abadia.

Diferente da maioria dos mitos em que provas físicas jamais são apresentadas, a Lenda sobre os Quatro Guardiões da Abadia de Lucedio possui ao menos uma comprovação irrefutável. No aposento que leva às criptas abaixo de Santa Maria estão dispostos quatro cadáveres mumificados sentados em cadeiras. Eles vestem trajes de antigos clérigos e estes não foram corroídos pela passagem dos séculos. Da forma como foram depositados ali, realmente parece que eles estão guardando o lugar pela eternidade. A Igreja não comenta a Lenda, mas é um fato que após esses acontecimentos, o prédio pôde ser reclamado uma vez mais pela Santa Sé.


Considerando todas essas histórias, não é de se admirar que a abadia, e especialmente a cripta, sejam tidas como incrivelmente assombradas por sombras, fantasmas e demônios.

Outra narrativa popular sobre a abadia envolve um salão, usado para as refeições que possui uma pilastra de pedra que está sempre molhada sem motivo aparente. Não há vazamentos no telhado e nenhuma razão razoável para ele aparecer úmido o tempo todo. O chamado "Pilar das Lágrimas"  supostamente verte um choro amargo por conta de todas as atrocidades que ocorreram na Abadia. Dizem que justamente naquele aposento, ocorreram humilhações, torturas e sacrifícios humanos nos anos em que o prédio era governado pelos monges malignos. 

Outra história muito difundida menciona uma estranha névoa que vaga pelos corredores da Abadia e que seria uma presença diabólica invocada numa missa negra. A entidade, uma massa de fumaça escura e rodopiante costuma atravessar paredes ou entrar nos aposentos por baixo do vão das portas. Supostamente, a coisa possui natureza diabólica, deixando sempre um fedor nauseante de enxofre. Ela persegue suas vítimas, em especial aquelas que que são mais virtuosas, tentando possuir seus corpos e fazer com que eles se sujeitem à sua vontade. Verdade ou simples mito, existe um incômodo boato de que a Abadia foi palco de muitos suicídios ao longo dos séculos, cometidos justamente por jovens monges que lá viviam e enlouqueceram.

A região ao redor da Abadia de Lucedio também seria assombrada conforme contam os camponeses que residem nas cercanias.


Uma presença especialmente temida espreita os muros, na parte exterior da construção. Este ser sinistro anda encapuzado, com um pesado manto escuro cobrindo suas feições e impedindo se ver a sua face. Para alguns, a figura sombria pertence ao Abade responsável por intermediar o pacto diabólico firmado séculos atrás. O tal abade teria se convertido em um poderoso feiticeiro, responsável por oficializar os rituais sangrentos que lá aconteceram. A tal figura segue as pessoas e supostamente oferece aos que cruzam seu caminho uma barganha diabólica. Ele faz isso com o intuito de livrar sua alma condenada ao inferno oferecendo outros. A lenda afirma que quando ele tiver 1001 almas poderá trocá-las pela sua liberdade. Nos arredores, outra lenda cita enormes cães de pelagem escura e brilhante, quase como se fossem sombras vivas que uivam em certas noites particularmente escuras. Aqueles que ouvem esses uivos lamurientos por três vezes acabam amaldiçoados, e diz a sabedoria popular morrem pouco depois em tragédias inexplicáveis.    

Todos esses fenômenos paranormais são tão intensos que a Abadia de Lucedio é frequentemente citada como um dos lugares mais assombrados da Itália. Mais recentemente, essa fama atraiu investigadores paranormais e caçadores de fantasmas de todo o mundo que vieram até Trino com o intuito de estudar as manifestações fantasmagóricas. No início a Paróquia local permitiu visitantes, mas atualmente há regras bastante severas impedindo que equipes de televisão explorem as lendas da Abadia.

Seria tudo isso mera lenda urbana e simples folclore surgido ao longo de séculos? Ou há algo mais misterioso nesse lugar com histórico tão peculiar? Nos tempos atuais, a Abadia continua funcionando, mas a população de religiosos não passa de 50 almas residindo na velha construção secular. Ao redor dela encontram-se poucas fazendas de rizicultura, o que é atípico já que estas se espalham comumente pela paisagem local. 

Quando perguntados sobre as lendas, os habitantes locais desconversam e preferem ignorar as velhas superstições associadas à Lucedio como se elas fossem algo de um passado distante. Ainda assim, é curioso que um dos costumes associados à Trino envolvia se benzer com o Sinal da Cruz sempre que o nome da Abadia fosse mencionado. E mesmo nos dias atuais, tal costume se mantém intocado. Pelo sim pelo não, talvez seja melhor não arriscar.