segunda-feira, 19 de junho de 2023

Mesa Tentacular - A Necrópole no Diversão Offline 2023


Ainda tratando do Diversão Off-Line 2023, rolou no evento minha tradicional Mesa Tentacular de Chamado de Cthulhu.

Desde a primeira edição, eu mantenho a tradição de levar ao evento ao menos uma mesa de demonstração do meu RPG favorito.

A Editora New Order, responsável por Chamado de Cthulhu em terras brasileiras como sempre, forneceu o espaço em seu stand para que eu pudesse arrancar um pouco de horror, sangue e sanidade dos interessados.

E foi uma mesa pra lá de animada e disputada!

É gratificante ter na mesa jogadores de primeira viagem, que conhecem pouco (ou quase nada!) das regras e ambientação, mas que querem mergulhar no universo dos Mythos com a peculiar curiosidade dos incautos. O que posso dizer? Além de vieram ao lugar certo!

Foi ótimo, e se dessa experiência inicial resultar interesse pelo jogo, tanto melhor! Mais um para o culto que cresce a cada dia, em algum lugar lá nas profundezasd o Grande Cthulhu agita os seus tentáculos ansioso.

O cenário que escolhi para a ocasião foi A Necrópole, uma aventura curta que se encaixa muito bem no gênero PULP. Ela envolve os membros de uma pequena Expedição no Egito em pleno ano de 1920. O grupo interessado em obter fama, glória e riqueza está colecionando fracassos consecutivos, incapaz de localizar uma tumba no Vale dos Reis. Perto de declarar o fim de sua escavação, um guia se aproxima com uma proposta que parece boa demais para ser verdade: "acompanhá-lo até o deserto, onde seu mestre tem uma irrecusável proposta a fazer".

E esse é o trampolim que dá início a uma exploração na tumba esquecida em que possivelmente repousam os restos de um dos mais obscuros Faraós do Egito, o lendário Nephren-Ka. O que o grupo encontrará lá dentro, além de perigo e horror, marcará a vida de todos - ao menos daqueles que conseguirem escapar da Necrópole com vida.

Esse cenário foi adaptado do material original contido no suplemento Portais para o Terror (cuja resenha pode ser lida no link https://mundotentacular.blogspot.com/2020/05/gateways-to-terror.html).

Originalmente trata-se de uma aventura simples e "direta ao ponto" para ser resolvida em pouco mais de uma hora de jogo. Dei uma temperada na história, inclui uma introdução diferente em que os investigadores são atraídos para o deserto onde recebem uma oferta de um arqueólogo local. Também inclui alguns detalhes adicionais quanto a Tumba, entre os quais algumas salas adicionais e a identidade de seu dono. Finalmente, como se tratava d eum cenário one-shot, nada mais justo que aumentar o nível da dificuldade e incluir alguns perigos a mais.

O resultado? Diversão rápida, aventuresca e mortal!

Aqui estão algumas fotos de como foi o jogo.

Ah sim, eu aproveitei a ocasião para me vestir de acordo, sei que o modelo não é lá essas coisas, mas eu fiquei orgulhoso do traje de explorador que improvisei. Sem mais delongas...


 

Uma vez que o "Traje de Exploração" (que é muito diferente de "fantasia") foi criado em menos de uma semana, acho que funcionou bem demais. Ainda mais se considerar que foi tudo improvisado. A calça era uma dessas calças bags dos anos 90, o lenço a parte de baixo de um pijama velho e a camisa uma que eu não usava fazia anos.


E é claro, eu tive que sentar no trono da New Order para a foto protocolar.


Sem mencionar que ainda deu tempo de caçar, abater e empalhar um espécime de Homem do Cordel Encantado (Homo cordelicus encantatus).


A gente consegue cada troféu nesses encontros de RPG...

Mas, as fotos da mesa.

MATERIAL E PROPS:


O material da aventura, com alguns props, as fichas de personagens e imagens para ilustrar a exploração nas profundezas da Tumba de Nephren-Ka.



Como sempre, um diário mostra o caminho em Chamado de Cthulhu

FOTOS DA MESA:


Pessoal se divertindo durante a exploração da tumba.



E a tradicional fotografia final com o placar da sessão. Quem está na frente ajoelhado, é que morreu, desapareceu ou enlouqueceu. Ao meu lado é quem saiu vivo e relativamente bem.

Bom foi isso...

Mais uma tarde de diversão, rolando dados na dileta companhia dos Mythos de Cthulhu.

Nos vemos no Diversão off Line 2024.

sábado, 17 de junho de 2023

Diversão Off-Line 2023 - Como foi esse ano o evento de RPG/Boardgames


Na semana que passou (10 e 11 de junho) tivemos o tão aguardado Diversão Off-Line (DoffL) São Paulo 2023.

O Evento Geek é uma verdadeira celebração da Cultura Nerd, cedendo um espaço já tradicional para os amantes de RPG e Boardgames. Já na sua Oitava Edição, o evento já pode dizer que tem uma casa para chamar de sua em São Paulo. O excelente Espaço do Pró-Magno é um imenso centro de Convenções na capital paulista com acesso fácil e instalações de primeira. Um verdadeiro achado!

Esse ano o DoffL mirou alto e acertou em cheio! O Evento estava maior, mais confortável e não por acaso, atraiu muito mais gente do que qualquer outra edição. Foram dois dias de muita jogatina, descontração, bate-papo e celebração entre os fãs de RPG e Boards.




Com o espaço ampliado tomando todo primeiro andar do centro de convenções, foi bem mais tranquilo andar pelo evento sem tropeçar em outras pessoas. A inevitável peregrinação pelos stands e pelas mesas de jogo foi bem mais tranquila do que ano passado. Graças ao espaço adicional não teve atropelo. Outro ponto muito favorável é que a entrada foi muito mais fácil e ligeira! A organização deu um show de presteza e garantiu que as filas andassem e todo mundo estivesse rápido dentro do evento. Não houve tempo a perder!

Uma vez no interior havia três "ruas" delimitadas pela inteligente disposição de stands dos expositores. Eu gostei muito da maneira que eles foram distribuídos, os maiores na parte central e no fundo, com stands menores nas extremidades. Os espaços de jogo ficavam dentro dos stands com fartura de mesas e cadeiras para quem quisesse participar. Cada empresa que alugou o espaço tratou de sua decoração para promover produtos e todas se esmeraram em atrair o público. Ainda me incomoda que os preços em alguns expositores seja rigorosamente o mesmo que em lojas ou na internet, mas talvez isso esteja mudando. Encontrei material com desconto em alguns lugares e pude levar para casa alguns belos troféus.

Outro ponto alto foi a presença de Convidados Internacionais, o que sempre é uma ótima pedida para os fãs. Conhecer autores e game-designers, topar com eles, fazer aquela tietagem básica e obter autógrafos é uma atração à parte. Esse ano tivemos Tom Vasel, responsável pelo Podcast The Dice Tower, a lenda do design de boardgames, Rainer Knizia, criador de mais de 700 títulos e o autor de RPG Kenneth Hite, que escreveu Rastro de Cthulhu, Night´s Black Agents e a quinta edição de Vampire, entre outros títulos importantes.




É muito interessante assistir as palestras desses criadores e descobrir o quão acessíveis e simpáticos com os fãs eles podem ser. Em geral não sou um grande fã de palestras, pois elas tomam um bom tempo do evento, mas dessa vez valeu a pena acompanhar os painéis que foram oferecidos. Eu conversei brevemente com Knizia e Vasel e bati um papo bem mais longo com o Hite que é um dos meus autores favoritos. Além de pegar o autógrafo dele em alguns livros, deu tempo de falar sobre o material dele, futuros projetos e sobre como encontrar espaço no mercado.

No que diz respeito a Boardgames, não faltou oportunidade de examinar, jogar e conhecer as últimas novidades. As principais empresas nacionais de Boards marcaram presença e ofereceram um espaço amigável para quem quisesse fazer um test-drive do que havia de mais interessante. É impressionante constatar como esse hobbie cresceu e se desenvolveu nos últimos anos, reclamando um espaço cada vez maior do evento. O próprio Knizia elogiou a quantidade e a empolgação dos adeptos, afirmando que o evento foi muito maior do que ele imaginava.

Havia um espaço reservado para quem está se aventurando na produção de material usando impressora 3D e que trabalha com a pintura de miniaturas. Outro grupo quer está crescendo à olhos vistos. Aliás, ali perto tinha um cenário de Warhammer 40 K que foi responsável por um número elevado de queixos caindo e olhos saltando durante o evento.




Achei bastante interessante também o surgimento de todo um mercado de acessórios para Boardgames que podem ser adquiridos para "turbinar" o material convencional de jogo. Esse é um filão que está sendo muito bem explorado e que estou acompanhando o crescimento com interesse. Você pode adquirir esses kits que renovam a experiência de jogo. Digno de nota também é o espaço fornecido para desenvolvedores independentes que desejam apresentar as suas criações e se engajar no mundo do design de jogos. Essa é uma oportunidade de ouro para quem está começando, algo que não tem preço!

No que diz respeito a RPG, o evento reuniu as maiores editoras nacionais e forneceu não apenas material de venda, mas um espaço onde os fãs podiam encontrar amigos e colegas de longa data e trocar ideias. E isso é bom demais! Como fã de RPG, é sempre bom encontrar autores, editores, podcasters, bloggers e toda a galera responsável por manter a comunidade viva e ativa.

Eu passei a maior parte do evento conversando com colegas que normalmente encontro apenas online, e essa cara a cara é excelente para a troca de informações. Não apenas para saber o que estão jogando, mas também no que estão trabalhando e dedicando seu tempo de jogo. E vou te dizer, quando rpgista se encontra tem assunto para mais uns 10 dias de evento!




Eu consegui jogar uma mesa de RPG que estava sendo apresentado e assisti duas outras que estavam muito bacanas, parabéns aos mestres envolvidos. Também narrei a minha tradicional aventura de Chamado de Cthulhu, que será o foco de uma próxima postagem aqui no blog. A chance de mestrar para um público diferente e pessoas que você conhece ali, na hora (e que muitas vezes que não conhecem o sistema ou ambientação) é um ótimo teste para verificar se nossas habilidades narrativas ainda estão afiadas. Adoro essa chance e fico feliz que ainda tenhamos mesas de demonstração nos eventos.

Esse ano a mala voltou cheia, aproveitei umas belas promoções nos stands e comprei alguns livros que já estava de olho fazia um tempo e que por diferentes motivos ainda não tinha na prateleira. Aliás, fazia tempo que não adicionava tanta coisa na coleção. Vou ter muito o que ler nos próximos meses! Uma das únicas coisas de que sinto falta nesses eventos é que não tem mais a feirinha de usados, aquilo era uma delícia! Fica a dica para uma futura edição. A gente encontrava verdadeiras preciosidades garimpando nas caixas.

Ironicamente, o único ponto negativo do Diversão Off-Line é que quando o evento termina fica uma sensação amarga de ir embora e se despedir de todo mundo. Isso sem falar na longa espera pelo próximo, no ano que vem. Mas a experiência de ter participado é maravilhosa e como sempre, reitero que, aqueles que nunca foram a um evento desse porte, que tentem vir no próximo. Eu sei, nem sempre é fácil arranjar tempo e conciliar com as obrigações, sem mencionar o lado financeiro da coisa, mas no fim vocês não irão se arrepender!

Que venham as próximas edições do Diversão Off-Line.

Nós que aqui estamos por vós, aguardamos!

quarta-feira, 14 de junho de 2023

A Casa, o Ator, o Culto e o Terror - Uma incrível história de Casa Assombrada e Fantasmas


Alguns lugares neste mundo parecem ser uma fonte inesgotável para o Paranormal.

São verdadeiros mananciais de Atividade Sobrenatural, gerando rumores duradores que através do tempo crescem como uma verdadeira bola de neve. Um destes lugares insalubres é o foco de nossa pequena exploração aos recessos profundos do Terror.

O ano era 1932 e o bem sucedido ator teatral Ian Davison estava farto dos palcos e holofotes. Ele era uma celebridade em Londres, conhecido e laureado como um dos maiores artistas de seu tempo e um dos maiores dramaturgos vivos. Entretanto, o estresse do trabalho estava ficando demais para ele. Davison estava cansado da carreira, dos contratos e da sua agitada vida social... em resumo, ele queria se distanciar de tudo e de todos. Para tanto, começou a contemplar a possibilidade de ter uma bela e tranquila casa isolada no campo. Acima de qualquer outra coisa, ele desejava ficar longe da cidade grande e das pressões constantes do teatro. Estabelecer uma sintonia com a natureza era algo com que ele sempre sonhou, para tanto, buscou uma propriedade na verdejante paisagem de Kent, onde planejava se aposentar. Ele conseguiu encontrar um lugar, mas suas esperanças de uma casa dos sonhos estavam prestes a se transformar em um pesadelo cercado por fenômenos sobrenaturais estranhos e incidentes aterrorizantes.

A propriedade que Davison adquiriu e onde decidiu se estabelecer era chamada Branden Hall.

O lugar, no entanto, demandava muitas obras e manutenção. A Mansão havia sido erguida há mais de 400 anos e ficava numa área isolada e selvagem coberta de mato. Ninguém habitava ali há décadas e o cenário era de completo abandono. Os amigos de Davison acharam que ele havia enlouquecido, contudo ele garantia que a Casa oferecia tudo aquilo que ele desejava e que torná-la habitável era parte da terapia que ele almejava. A estrutura também sinalizava com um grande desafio. Haviam tábuas podres, paredes desgastadas e um telhado com enormes goteiras. Não havia instalações elétricas ou de água e tudo ali era antigo e impróprio para a habitação humana. Os salões estavam cobertos de lixo e detritos, enquanto os quartos eram o lar de enormes ratos e insetos.

Ainda assim, Davison conseguia ver além daquela aparência decrépita de ruína. Na sua visão, Branden Hall ainda mostrava sinais fugazes de seu passado opulento e luxuoso, quando a mansão havia recebido a nata da sociedade de Kent em festas que entraram para a história local. Nos salões iluminados por lampiões haviam acontecido recitais, soirées e bailes. Nos jardins iluminados por tochas desfilaram indivíduos ilustres e carruagens despejaram visitantes maravilhados com os arredores. Branden Hall era famosa pelas suas belezas e o artista desejava trazer tudo aquilo de volta à tona - com pompa e circunstância.


Mas não seria tarefa simples; demandaria muito trabalho e gastos elevados. Felizmente, o ator tinha recursos suficientes e tempo para operar a transformação que almejava. Davison contratou empreiteiros e estes realizaram as obras preliminares que permitiram que ele se mudasse para o lugar que pretendia consertar, mas logo ele descobriria que ervas daninhas e ratos eram a menor de suas preocupações.

Quase imediatamente após se estabelecer, Davison experimentou várias esquisitices e anomalias bizarras que à princípio ele tentou relativizar. Um dos primeiros acontecimentos inexplicáveis foram as insistentes batidas nas paredes e janelas enquanto ele tentava dormir. Ele vasculhava a sala e olhava pelas janelas, mas nunca conseguia encontrar nenhuma explicação para aquelas batidas secas que ressoavam no meio da madrugada. Seu empreiteiro chefe explicou que podia ser o assentamento da velha casa ou apenas o vento e que eventualmente isso iria cessar. Entretanto, ao invés de diminuir os ruídos misteriosos apenas ganharam em intensidade, progredindo para sons de arranhar, estrondos e o que soava como passos fortes nas escadas, embora não houvesse mais ninguém na casa.

Em certa ocasião, Davison relatou o som do que parecia ser alguém correndo no pátio, seguido de um estrondo tão forte que a casa estremeceu. Pensando que o telhado havia desabado, ele foi ver o que havia acontecido, mas não encontrou nenhum sinal de dano ou qualquer coisa errada. Ele também passou a ouvir coisas mais ameaçadoras à noite: o som de respiração pesada ou ofegante, rosnados selvagens e até gritos, e muitas vezes tinha a impressão inabalável de estar sendo observado. Pior ainda era a sensação de que sua energia estava sendo drenada de seu corpo. Como se algo ali em Branden Hall estivesse se alimentando de suas forças, deixando-o em um estado cada vez mais de fadiga letárgica.

Davison tentava afastar conceitos absurdos sobre assombrações como meras superstições, mas logo ficou claro que ele não era o único incomodado pelos incidentes bizarros na Propriedade. Visitantes, empregados e hóspedes também relatavam ouvir os ruídos e experimentavam fenômenos estranhos. Alguns afirmaram ter pesadelos incrivelmente assustadores após dormir nas dependências, a maioria deles envolvendo estrangulamento e assassinato. Havia uma sala em particular que se dizia estar especialmente imbuída de algum tipo de energia paranormal sinistra. Este aposento, embora não parecesse diferente dos demais, sofreria flutuações extremas de temperatura, às vezes indo de um frio congelante a um calor escaldante em minutos, não importando a estação, e ninguém conseguia ficar na sala muito tempo. Um visitante que lá esteve, acabou perdendo os sentidos, tendo de ser levado para fora. Mais tarde ele contou que sentiu uma força invisível, como se mãos estivessem agarrando sua garganta e apertando com força.

Amigos próximos de Davison também diziam que um dos quartos era especialmente estranho. Nele, o sono não vinha facilmente, pois dizia-se que sopros espectrais, sussurros e odores nauseantes brotavam do nada. Também haviam supostas mãos gélidas que tocavam e empurravam qualquer um tolo o suficiente para tentar dormir naquele aposento. isso sem mencionar os relatos de mordidas que deixavam marcas horríveis na pele. Este quarto viria a ser conhecida como o "depósito", porque era apenas para isso que ele serviria, para o armazenamento de objetos, tão inadequado era para uma habitação real. E mesmo as caixas colocadas ali dentro teimavam em cair e de despedaçar.


Outras salas também tinham uma violenta atividade paranormal. Uma grande sala no andar térreo apresentava misteriosas marcas de pés descalços no assoalho empoeirado e de garras na madeira ou nos móveis que tombavam por conta própria. Esta sala também tinha o hábito de fazer as pessoas desmaiarem sem motivo aparente. O irmão de Davison, que havia vindo passar alguns dias em sua companhia sofreu um desses desmaios espontâneos e teve de ser levado às pressas para um hospital. Ele não se recordava do que havia ocasionado o desmaio, mas sentia que mãos espectrais apertavam seu pescoço. Um médico atônito apontou para marcas semelhantes a dedos na garganta do sujeito que se negou a voltar a Branden Hall e suplicou ao irmão que deixasse aquele lugar maldito o quanto antes.

Os fenômenos continuaram por algum tempo, mas as coisas estavam prestes a progredir para algo ainda mais assustador com o surgimento de aparições. Uma delas era de uma mulher de aparência desamparada em um vestido cinza, que vagava e parecia estar procurando por algo. Aparentemente alheia ao fato de que estava sendo observada, ela desapareceria no ar se alguém tentasse interagir com ela. Essa aparição em particular parecia deixar o ar espesso com desânimo ao seu redor, a ponto de aqueles que a viam serem tomados por uma tristeza repentina e irracional. O fantasma da Mulher Cinzenta (como ficou conhecida) não era, contudo, o único a espreitar pelos corredores sombrios. Havia também um homenzinho feio e atarracado que andava de um lado para o outro e parecia preocupado com alguma coisa e se irritava com facilidade. O sujeito por vezes interagia com os habitantes e perguntava quem eram eles e o que faziam acordados. Qualquer resposta que fosse dada recebia em contrapartida uma série de xingamentos e grosserias. Embora esses espíritos não fossem particularmente malignos, o mesmo não poderia ser dito de outro que dividia aquela velha mansão com eles.

O espectro mais assustador pertencia a um homem corpulento com "lábios grossos e sorridentes" sobre dentes amarelados e irregulares, descrito por Davison como "o homem de aparência mais desagradável sobre o qual pousei os olhos". A entidade usava um traje de cetim verde brilhante, marrom e vermelho, e normalmente aparecia na grande sala do andar de baixo. 

Sempre era anunciado pela aparição de um gato preto fantasmagórico, e quando esse gato aparecia, era um sinal claro de que o homem de aparência maníaca não estava muito longe. A entidade costumava flutuar pela sala e desaparecia na lareira deixando uma trilha de gosma limosa de aspecto e cheiro nauseantes. Também costumava fazer a temperatura da sala cair a níveis insuportáveis, compelindo os presentes a tremerem de frio. Ao contrário da mulher de cinza, essa monstruosidade ameaçadora interagia com testemunhas, como em uma ocasião em que Davison perguntou se ele era um "demônio do inferno". A resposta foi uma gargalhada sibilante e maligna, seguida de uma abrupta queda na temperatura que quase fez o artista desfalecer.

O "Homem Desagradável" como veio a ficar conhecido supostamente era o espectro de Lorde Marcus Cosgrove, um dos primeiros residentes de Branden Hall em meados do século XVI. Ele tinha fama de ser um sujeito intragável tanto em aspecto quanto em personalidade, notório por importunar as moças de um vilarejo próximo e de trazer para sua casa donzelas que eram raptadas e defloradas. Sua fama era tamanha que alguns o tinham como um verdadeiro ogro. Chegavam a cogitar que Cosgrove havia assassinado um bom número de vítimas inocentes e que se livrara de seus cadáveres ordenando que fossem emparedadas no salão. 


Os rumores nunca foram confirmados e as buscas de Davison por ossos misturados ao reboco das paredes não se traduziu em qualquer descoberta significativa. Ainda assim, as lendas davam conta de que Cosgrove pode ter sido um maníaco que supostamente terminou seus dias assassinado por um noivo em busca de vingança. Para tornar tudo ainda mais assustador, o espectro parecia reservar comentários especialmente repulsivos a testemunha do sexo feminino. Certa vez ele teria ameaçado esganar uma parente de Davison e "arrancar a vida de seu corpinho frágil", tudo isso com um sorriso maligno nos lábios. 

Além desse fantasma abjeto haviam outras figuras sombrias menos definíveis à espreita na extensa propriedade rural. Nos campos se ouvia o som de cães e de um misterioso Guarda-Caça conhecido como Robert Muncee que cavalgava um animal negro com olhos de fogo. Um jardineiro misterioso e com uma longa barba grisalha também vagava pelos jardins, deixando um rastro na relva queimada após a sua passagem. 

Tudo aquilo era perturbador demais e Davison decidiu trazer um renomado Investigador Psíquico chamado Ronald Kaulbeck para verificar o que se passava. O primeiro cômodo que Kaulbeck investigou foi o nefasto aposento no térreo, que o impressionou com a sensação pura e esmagadora de malevolência e "pavor em estado bruto" permeando o espaço e vazando dele. O investigador decidiu passar a noite lá, e como havia acontecido com aqueles que haviam tentado antes, ele foi atacado por mãos invisíveis que agarraram sua garganta e puxaram seu cabelo. Quando ele pediu ajuda, três outros vieram correndo, mas a entidade continuou a estrangulá-lo, mesmo quando os homens tentaram ajudá-lo. Ele foi quase morto antes que as mãos fantasmas abandonassem seu aperto para deixá-lo ali se contorcendo ofegante.

Kaulbeck recrutaria alguns outros médiuns para ajudá-lo, e eles chegariam à conclusão de que os espíritos que infestavam a casa faziam parte de um Culto Satânico devoto da Magia Negra que havia usado a casa para vários rituais ocultos. Os investigadores paranormais foram capazes de conjurar a informação de que Marcus Cosgrove não era o único maníaco a ter residido ali. A mansão, de fato, parecia atrair as piores pessoas.

Um destes infames residentes supostamente foi um ocultista famoso chamado George Tarver, que teria sido mestre de um cabala de bruxos e feiticeiras. Tarver ganhou notoriedade no século XVII por alegar controlar demônios e ser capaz de realizar alta feitiçaria. As pessoas não o levavam muito à sério, achando que ele era simplesmente um lunático, mas outros alegam que sua fama de bruxo tinha fundamento e que muitos em Kent o temiam. Havia o boato persistente de que Tarver havia oferecido seu próprio filho como sacrifício num ritual diabólico, o que deixou sua amante louca, após o que, ele a estrangulou até a morte. Essa amante seria a tal mulher cinzenta que buscava o filho oferecido para as forças das trevas. O homem atarracado foi identificado como um serviçal chamado Hunter, um dos seguidores de Tarver até que protestou contra a morte da amante e foi assassinado por estrangulamento também. 


Os investigadores acreditavam que esses espíritos, em particular o de Tarver, estavam zangados e inquietos porque Davison havia invadido seu covil e realizado reformas. Eles recomendaram fortemente que ele desistisse de viver em Branden Hall, mas surpreendentemente, em vez de sair, Davison continuou com seu trabalho de renovação, desafiador diante dos ataques sobrenaturais. 

Os fantasmas aparentemente não gostaram nada disso.

Uma tarde, Davison se retirou para o quarto quando a porta de um dos aposentos se abriu violentamente e revelou a presença de uma figura que até então não havia se manifestado. Era um homem alto e esguio, com cabelos longos grisalhos caindo sobre os ombros e olhos perversos faiscando. Ele não teve dúvida de que estava diante do espectro maligno de George Tarver que decidiu finalmente surgir para afugentá-lo. 

Davison queria correr, mas já estava farto de ser ameaçado pelos espíritos, então disse desafiadoramente à entidade: "Saia dessa casa! Esse lugar agora me pertence! Minha vontade é mais forte que a sua! Não importa o que te prende aqui! Tens de sair! Saia!". O fantasma rosnou e avançou contra ele tentando agarrar sua garganta para esganá-la, mas Davison conseguiu se esquivar, sentindo a presença gélida da assombração.

Na manhã seguinte ele reuniu o mesmo grupo de médiuns, reforçado por mais dois importantes espiritualistas muito recomendados para proceder em uma tentativa de exorcizar a presença maligna que dominava a Propriedade. Eles acreditavam que Tarver havia mantido todos os demais espíritos que estavam presos na casa escravizados e que extraía deles a energia para continuar atormentando o local. O plano seria, portanto, cortar essa influência, libertar os outros fantasmas e só então se voltar contra a aparição mais poderosa.

Segundo os relatos de Davison, o grupo começou a esconjurar os fantasmas do serviçal e do jardineiro, que já eram conhecidos deles. Estes deram pouco trabalho se comparados ao de Cosgrove e de Robert Muncee que ainda galopava seu alazão negro com olhos queimando pelos jardins da casa. Um a um, entretanto, eles foram senso expulsos por uma combinação de esconjuros e ordens que Ian Davison definiu como perfeitamente teatrais e impressionantes. Após dois dias consecutivos desta batalha psíquica, o grupo se voltou para o maior desafio que tinham pela frente, o maligno satanista George Tarver.


Segundo o relato de Davison, seguiu-se uma "batalha de vontades" em que os Investigadores Paranormais tentavam compelir o espírito a desistir da luta. Ao longo de um final de semana inteira, a disputa prosseguiu, com façanhas impressionantes de atividade paranormal, com estrondos, objetos sendo atirados e quebrados e variações drásticas de temperatura. Alguns dos envolvidos se sentiram tão esgotados física e emocionalmente que tiveram de ser substituídos para que pudesse recobrar suas forças antes de entrar novamente na contenda. Ao fim de quase 72 horas ininterruptas, que Ronald Kaulbeck descreveu como uma das mais assustadoras disputas místicas jamais ocorridas, o espírito atormentador acabou por ceder. Ele se manifestou uma última vez e então começou a se desfazer até desaparecer por completo. Imediatamente a forte sensação opressiva que reinava na casa se desanuviou e os presentes sentiram que aquela presença maligna havia enfim sido derrotada.

Nos dias que se seguiram, Davison alegou ter visto o fantasma da Mulher Cinzenta em pelo menos duas ocasiões, mas este não parecia mais atormentado. Parecia, outrossim, agradecido e a última vez que a aparição da mulher foi vista, ela simplesmente se desfazer. 

Depois desse embate, as aparições nunca mais seriam vistas na casa e os fenômenos paranormais cessaram de um todo. Davison continuaria suas reformas e, embora levasse vários anos, ele acabaria transformando Branden Hall em uma propriedade luxuosa e deslumbrante cercada por terras agrícolas, vastos jardins de flores e pomares extensos. De fato, tornou-se conhecida como uma das propriedades agrícolas mais rentáveis e grandiosas da região. Nada mal para uma mistura assustadora e decrépita de ervas daninhas outrora usadas por um culto satânico. 

A narrativa se mantém até os dias atuais como um dos mais incríveis embates entre espiritualistas e as  forças das trevas. Um acontecimento que foi registrado por Kaulbeck em um livro intitulado "A Assombração de Branden Hall - O relato do mais notável embate paranormal da Inglaterra", lançado em 1940.

No final das contas, o que teria ocorrido naquela propriedade isolada nas florestas de Kent? Branden Hall teria sido realmente assombrada pelas forças das trevas, ou tudo não passou de uma bem construída história de fantasmas? Apenas aqueles que estiveram lá, e participaram do evento, podem dizer com propriedade. Para nós, é uma questão de crer ou não. De acreditar ou desacreditar da existência de coisas que não estamos inteiramente preparados para aceitar.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Vilarejo dos Mortos-Vivos - A história de um povoado acossado pelo Vampirismo


Oculta na pitoresca paisagem do Vale Madawaska em Ontario, Canadá, encontra-se a agradável  e serena vila de Wilno. Foi esse ambiente pastoral que atraiu colonos da região de Kashubia na Polônia em meados de 1850, já que o local lembrava em muitos aspectos sua terra natal. Os imigrantes decidiram lá se estabelecer também para escapar do domínio opressivo imposto pela sua vizinha, a Prússia. De fato, Wilno é o mais antigo assentamento permanente polonês no Canadá. Os colonos decidiram construir lá uma igreja, um armazém geral e uma agência dos correios. A vila gradualmente foi crescendo, atraindo uma grande quantidade de colonos poloneses-cashubianos graças ao incentivo da Canadian Atlantic Railway que ligou o povoado a Ottawa em 1894. 

Até hoje, Wilno mantém suas orgulhosas tradições e permanece imersa em história e imbuída de um charme pitoresco do velho mundo que faz dela um destino turístico muito procurado. Entretanto, sob a sua superfície pacata há antigos rumores envolvendo superstições, magia negra e até mesmo, criaturas mortas-vivas.

Embora os colonos de Wilno fossem católicos romanos, eles trouxeram consigo seu folclore e cultura. Vigorava entre eles a crença persistente na bruxaria, na magia negra e na existência de várias criaturas sobrenaturais, incluindo espíritos malignos, súcubos e vampiros. Apesar de seu catolicismo arraigado, muitos dos colonos acreditavam que forças das trevas também eram muito reais e que os haviam acompanhado até seu novo lar. Foram essas crenças populares que, na década de 1960, chamaram a atenção de um professor de línguas eslavas formado em Harvard chamado Jan Louis Perkowski. Ele ficou fascinado ao descobrir que antigas tradições e crenças da Polônia rural estavam vivas e fortes na América. Com o financiamento do Museu Nacional do Homem (atual Museu Canadense de História), ele fez uma jornada até Wilno em 1968 para estudar as superstições locais penetrando profundamente em um mundo sobrenatural sinistro.

Através de entrevistas com vários habitantes locais, Perkowski estabeleceu que de fato a crença em criaturas sobrenaturais ainda existia entre o povo de Wilno, especialmente em relação aos vampiros. Os moradores acreditavam que esses seres vagavam pela região e os viam de maneira muito semelhante a como seus antepassados os viam no Velho Mundo. 

A crença local era de que havia dois tipos de vampiros, os vjeszci e os wupji, ambos amaldiçoados desde o nascimento e condenados a se transformarem em mortos-vivos após a morte. No caso dos vjeszci, a criança nascia com um saco membranoso na cabeça, escondido sob o cabelo, enquanto os wupji nasciam com dois dentes afiados. Um vjeszci poderia ser curado se a mãe mantivesse a membrana por sete anos, depois a cortasse, triturasse e fizesse com que a criança a comesse. Com um wupji, não havia cura, quando eles morriam, estavam condenados a voltar dos mortos para trilhar na calada da noite em busca de sangue. 


De acordo com as tradições locais, um vampiro estava fadado a matar seus familiares um por um até que não restasse mais ninguém. Uma vez completado esse objetivo, ele iria para uma igreja ou capela e tocaria o sino. Qualquer um que ouvisse o som morreria dentro de um ano. 

Na tradição local, havia várias maneiras de eliminar os vampiros. 

Uma forma era enterrá-los imediatamente após a morte, preferencialmente de bruços no caixão. Assim eles simplesmente cavariam cada vez mais fundo, ao invés de voltar à superfície. Também era aconselhável enterrá-los com areia ou envolvidos numa rede, porque dizia-se que essas criaturas eram incapazes de deixar seu túmulo até que contassem todos os grãos de areia ou desatassem cada nó da rede. Outras maneiras mais terríveis de lidar com um vampiro era decapitar o morto-vivo e colocar sua cabeça entre os pés, ou enfiar um prego comprido em sua testa. Finalmente, enfiar um grande tijolo entre os seus dentes também poderia evitar a transformação. 

É tudo muito sinistro e à primeira vista parece mero folclore, mas Perkowski descobriu através de sua pesquisa que haviam relatos de que esses costumes foram realizados pela população local. Muitos relatos colhidos por ele eram de testemunhas que haviam visto cadáveres sendo mutilados, decapitados, enterrados de bruços ou trespassados por pregos, tudo isso para evitar que se erguessem como vampiros. 

Os registros obviamente não mencionavam nomes, contudo, muitos habitantes de Wilno estariam  envolvidos e dispostos a acreditar nessas coisas. Também permitiriam que tais coisas fossem perpetradas contra seus entes queridos. Perkowski descobriu ao menos cinco famílias que relataram histórias pavorosas sobre o fim dado aos restos mortais de parentes, com o objetivo de frear uma epidemia de vampirismo.

O Coração de um Vampiro sendo incendido

Em 1886, uma senhora que supostamente havia sido mordida por um morcego foi enterrada de bruços em um caixão com duas tábuas pesadas depositadas sobre a tampa. Em 1892, o Sr. Piekarsky, do qual alguns habitantes suspeitavam de realizar missas negras (e de não ir à Igreja) teve dois pregos de ferro atravessados na cabeça, um em cada têmpora para que não se erguesse após sua morte. Já a sra. R. Etmanski teve a cabeça separada de seu corpo e depositada entre as pernas, depois que sua boca foi enchida com alho.

Os casos se multiplicam e as memórias de família fornecem indícios de que era algo aceito e até costumeiro que cada família lidasse com um parente suspeito. Quando eles não o faziam, algum cidadão preocupado podia interceder.

Em 1901, o sr. G. Emany, foi enterrado no cemitério de Wilno, sendo que seus parentes se negaram a realizar uma cerimônia de purificação nos restos mortais, os quais, muitos desconfiavam poderiam se animar na forma de um vampiro. Um grupo de locais, foram então até a sepultura e o desenterraram, depois de haver boatos de que o sr. Emany havia sido visto por crianças, transitando pelo vilarejo. Para não correr nenhum risco, o cadáver foi recuperado do caixão, e embora não houvesse sangue visível em sua boca, os bons cidadãos não quiseram correr riscos. Arrancaram de seu peito o coração e o incendiaram em uma pequena fogueira. Em seguida, o corpo foi depositado de bruços, com um tijolo instalado entre os dentes do cadáver e um prego em sua testa.

Já em 1908, há o relato de uma família de sobrenome Kilby, no qual, após a morte de um primo distante, vários parentes começaram a morrer. Sem saber como explicar o estranho fenômeno, a população culpou o tal primo pelas mortes. Um grupo de pessoas foi até a cidade vizinha, onde o sujeito havia sido enterrado, escavaram a sepultura e atearam fogo aos restos mortais que "queimaram com uma chama esverdeada". Depois disso, as mortes entre os Kilby supostamente cessaram! Contudo, só por desencargo de consciência, os membros que ainda restavam da família deram autorização para exumar os parentes mortos a fim de fincar um prego na testa de cada um.   

Perkowski também conversou com pessoas que afirmavam ter testemunhado a existência de vampiros. De fato, ele descobriu que muitas pessoas nos anos 1910 e 1920 acreditavam que as epidemias de Cólera e Gripe Espanhola haviam sido disseminadas por vampiros e não por agentes patológicos naturais. Em Wilno, mesmo nos anos 1920, vampiros continuavam sendo apontados como uma das causas de mortes e tragédias, entretanto, os locais preferiam manter em segredo para que o mundo exterior seus costumes funerários. 


Uma das fontes de Perkowski contou que era costume em Wilno que ao menos três pessoas preparassem os cadáveres antes do enterro. O corpo era lavado - preferencialmente por um parente próximo. Em seguida, era examinado por um sacerdote que buscava indícios de algum sinal específico - crescimento dos dentes, palidez atípica ou ainda a cor dos olhos e cabelos se alterando. Finalmente, uma pessoa apontada pela família, em geral um agente funerário procedia em um preparativo especial, que podia envolver rezar sobre o cadáver ou aspergir o corpo com uma solução de alho. Se a qualquer momento durante esse procedimento surgisse algum sinal de vampirismo, o corpo era submetido a algum procedimento purificador. E isso podia ser qualquer coisa, desde perfurar o corpo com pregos até fazer uma decapitação com golpe de machado.

Além disso, em Wilno costumavam acontecer muitas exumações. Diante de qualquer suspeita, um grupo de coveiros abriram sepulturas para inspecionar o conteúdo. Se o corpo parecia ter se movido, se houvesse pouca decomposição ou se encontrassem sinais de arranhões na tampa, eles cortaram a cabeça ou incendiavam os restos.
 
Perkowski entrevistou mais de uma dúzia de testemunhas em Wilno que confirmaram que esses costumes ocorreram até o início da década de 1940, caindo gradualmente em desuso posteriormente. Contudo, um dos últimos casos registrados teria ocorrido em 1958, envolvendo uma mulher que foi desenterrada e decapitada depois que dois parentes dela morreram alguns dias depois de seu falecimento. 

O pesquisador escreveu um trabalho intitulado "Vampiros, anões e bruxas entre os Kashubs - Práticas e Costumes do Velho Mundo na moderna Ontário". O excêntrico relatório de 200 páginas foi submetido ao museu, mas foi recebido com certo grau de ceticismo. A maioria das pessoas não estavam dispostas a acreditar que em pleno século XX tais coisas aconteciam. Muitos estudiosos trataram a obra como lixo sensacionalista e decidiram varrer a história para baixo do tapete. 

Apenas na década de 1980, a mídia tomou conhecimento do trabalho de Perkowski que havia falecido em 1977. Em pouco tempo repórteres estavam se reunindo em Wilno procurando investigar as macabras lendas sobre o povoado em que vampiros eram combatidos pela população. Para os residentes locais, que se viram ridicularizados e tratados como tolos supersticiosos, as histórias não passavam de lendas. Contudo, várias pessoas citadas no relatório confirmaram que seus antepassados realmente se preocupavam com vampirismo ainda que acusassem Perkowski de ter distorcido seus testemunhos ou simplesmente inventado coisas que eles jamais haviam dito.


Independentemente de toda essa publicidade negativa e do povo de Wilno tentando afastá-la, a história do vampirismo se espalhou e até hoje a cidade é famosa pelas histórias sombrias de monstros chupadores de sangue. A reputação perdura até os dias atuais ainda.

Um comunicado oficial emitido pela Câmara de Comércio de Wilno em 1985 dizia:

"O trabalho d Sr. Perkowki é um absurdo. Não é bem pesquisado. Não é contextualizado. E ele interpretou mal a comunidade e seus informantes. Ele pegou muitas palavras dos residentes e as distorceu. Houve muita dor nos anos 60 e 70, quando esse trabalho foi lançado, e ainda hoje ela continua. Infelizmente, a história de vampiros sobreviveu e as histórias verdadeiras não foram divulgadas. Há outras histórias e tradições muito mais ricas na região. É por isso que queremos que esta comunidade seja conhecida e não por algo inventado. Às vezes, os jornalistas e a mídia simplesmente espalham essa falsidade, porque isso gera curiosidade. Mas não é justo com o povo de Wilno, porque essa não é a nossa história." 

Então com base nessa história no que devemos acreditar? Aparentemente, muito do que Perkowski escreveu deve ser considerado com cautela. Ele fornece poucas evidências de que defende além de alegados relatos de testemunhas. Não há relatos oficiais de mutilações de cadáveres, nenhum nome sólido real, datas ou locais para verificar. É muito fácil acreditar que o relatório é no mínimo embelezado e até certo ponto fabricado. Por outro lado, muitos dos comentários sobre as lendas de vampirismo e folclore polonês parecem corretamente endereçados e discutidos. O trabalho de Perkowski é no mínimo instigante.

Haveriam vampiros de verdade em Ontário? Provavelmente não. A pesquisa foi manipulada? Definitivamente. No entanto, o teor da obra ainda serve para descortinar velhas tradições e lendas sobre terrores incompreensíveis e coisas que espreitam nas trevas.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Estranhos e Sinistros encontros com o Povo Pequeno


Embora a maioria das pessoas considere absurda a existência de um "Povo Pequeno", o fato é que tais criaturas são vistas por aí, com incrível frequência. Muitas vezes, testemunhas preferem manter esses encontros em segredo por medo que, ao compartilhar tais histórias, possam ser chamadas de loucas. Contudo, é preciso separar os casos em que pessoas afirmam encontrar fadinhas e seres da floresta dos encontros com o povo pequeno das lendas antigas, criaturas muito mais assustadoras e perigosas.

O Povo Pequeno é uma raça de criaturas não-humanas, seres deformados e de baixa estatura que habitam lugares inóspitos nas florestas, geralmente em tocas subterrâneas. Quase todas culturas ao redor do planeta possuem alguma versão desse mito ancestral. Não faltam lendas sobre seres furtivos que raramente interagem com os humanos, preferindo ficar escondidos. Contudo, quando tal interação ocorre, em geral o resultado tende a ser desastroso. 

Com isso em mente, que tal conhecer alguns casos fascinantes envolvendo encontros com o lendário Povo Pequeno?

O primeiro caso vem do ano de 1975, quando o casal britânico Barry e Elaine Milgrey, ambos na época com vinte e poucos anos, estavam dirigindo pelas estradas de Stratfordshire com seus dois filhos. Era véspera de Natal e eles seguiam para a casa dos pais de Elaine em Penkridge, onde iriam comemorar as festas do fim de ano. 

É preciso mencionar que Penkridge foi o centro de um curioso caso na década de 50, envolvendo estranhos seres semelhantes a goblins que pareciam infestar as matas próximas. Na época, a história despertou interesse nacional, com pesquisadores e estudiosos dispostos a se meter nos bosques em busca de alegados membros do Povo Pequeno vistos por pelo menos uma dúzia de indivíduos. Muito antes disso, em tempos medievais, Penkridge, chamada na época de Penkow foi o centro de muitas lendas sobre "pessoas pequenas" vivendo em esconderijos subterrâneos. Eram anões, goblins e kobolds, a maioria deles malignos que perseguiam e matavam animais domésticos, provocavam incêndios e por vezes até sequestravam alguma criança.

Enquanto o casal se dirigia para o povoado (com pouco mais de 300 habitantes), o motor do automóvel começou a apresentar problema até que pifou de vez. Após estacionar no acostamento da estrada, Barry foi dar uma olhada no motor e verificar o que havia acontecido. Não parecia haver nenhum fio solto, o radiador certamente não estava superaquecido e uma verificação dos fusíveis do carro não forneceu nenhuma indicação de qual poderia ser o problema. Mas, como eles haviam andado apenas uns 800 metros, Barry tomou a seguinte decisão: As crianças estavam dormindo no banco de trás e [tinham] apenas quatro e seis anos na época. Disse a mina esposa para ela ficar ali. Eu iria correndo até nossa casa, pegaria outro carro e os apanharia em seguida”. 

Mas nada saiu conforme planejado. Segundo Barry, logo que se afastou do carro, Elaine soltou um grito alto, apavorada com a visão de uma figura que atravessou a estrada correndo na frente deles. Barry voltou imediatamente a tempo de ver uma coisa bizarra. "Eu vi claramente aqueles seres. Eram três deles! A melhor maneira de descrevê-los é como pequenos homenzinhos. Tínhamos um pouco de luz e pude ver que eles eram muito feios e atarracados. Não usavam roupas, estavam sujos e eram cabeludos com enormes orelhas. Eu diria que eles tinham menos que um metro e trinta de altura, e quando surgiram agiam de forma cautelosa."


Nesse ponto, as coisas ficam realmente estranhas, diz Barry: "Nós dois temos noção de que eles vieram em nossa direção, muito lentamente, e pensei que eles estavam interessados em nós ou queriam saber quem éramos. Eles se aproximaram lentamente. Elaine ficou histérica temendo pelas crianças, ela disse ter sentido que eles queriam fazer algo com as crianças. Em algum momento nós resolvemos correr e corremos sem parar sabendo que eles estavam atrás de nós. Eu não tenho uma lembrança clara do que aconteceu, mas quando chegamos ao povoado as pessoas contam que estávamos em pânico. Nenhum de nós tem uma lembrança clara de como chegamos".

O que se sabe através de testemunhas é que o casal estava em um tipo de histeria e que foi difícil acalmá-los. Moradores do vilarejo foram até o bosque e supostamente encontraram rastros e estranhas pegadas - muitas delas pequenas, no entorno de onde o automóvel havia sido deixado. Nos dias seguintes ao evento várias pessoas teriam visto as mesmas criaturas repugnantes vagando por aquelas matas isoladas. O avistamento se tornou um grande acontecimento e atraiu jornalistas e curiosos que chamaram os seres de "Goblins de Penkridge" 

Barry afirma que, até hoje, perto de completar setenta anos, ele e Elaine ainda se sentem incomodados com a experiência que tiveram e faz questão de afirmar que está certo de ter visto as criaturas. "Elas estavam lá, eram reais e essa é a única certeza que tenho e que vou carregar para todo sempre".  

Mas essa é apenas uma das muitas histórias sobre o Povo Pequeno.

Em 1987, Stuveysant, um povoado nos arredores de Oxfordshire, também viveu dias curiosos quando várias pessoas alegaram ter avistado representantes do Povo Pequeno nos bosques adjacentes. Tudo começou com duas mulheres da região, Mary Slater e Clarisse Debham que voltavam para casa após um dia de trabalho. As duas cortaram caminho por uma trilha deserta e lá foram interpeladas por o que elas descreveram como "criaturas estranhas, pequenas e peludas" que as perseguiram pelas matas.


Assim como Penkridge, Stuveysant possui há séculos um curioso folclore que inclui lendas sobre o Povo Pequeno. O bosque próximo sempre foi considerado um lugar propenso a aparições de criaturas estranhas e de pequenos humanoides supostamente habitando as matas. Após o encontro, as duas mulheres compartilharam com amigos e conhecidos o incidente e este recebeu grande destaque dos meios de comunicação.

Nas semanas seguintes várias outras pessoas afirmaram ter experimentado um encontro direto com os estranhos seres de pelagem castanha e aparência grotesca. Fazendeiros e pastores de ovelhas também relataram que as criaturas foram responsáveis por atacar plantações e matar animais, deixando um rastro de danos consideráveis. 

De tempos em tempos, alguém na região afirma ver algo estranho na floresta e a descrição sempre é condizente com membros do Povo Pequeno.

Mas os encontros com essas criaturas não está restrito à Grã-Bretanha.

No ano de 1994, várias pessoas em Fort MacMurray, na Provincia de Alberta, Canadá, afirmaram ter experimentado encontros com pequenas criaturas que habitavam os limites da Reserva Florestal local. Os incidentes ocorreram em pleno verão, quando o Parque Nacional de Elk Grove recebe um grande número de visitantes e campistas. Naquela temporada nada menos que duas dúzias de informes chegaram ao Posto da Guarda Florestal descrevendo estranhos seres, vistos na floresta por testemunhas convictas de que haviam cruzado com algo inusitado.

"As pessoas falavam de homenzinhos pequenos, do tamanho de crianças andando pelas matas e surgindo do nada. Algumas dessas pessoas estavam realmente assustadas e não conseguiam descrever em detalhes as criaturas, pois elas eram vistas na maioria das vezes fugindo ou parcialmente encobertas pela vegetação", relata Robert Fergunson, na época um dos Guardas responsáveis pelo Parque Elk Grove.


Um dos casos mais famosos ocorrido naquela temporada e que recebeu enorme destaque da imprensa foi o de dois jovens que haviam ido acampar na mata e acabaram desaparecendo. Uma grande operação de busca foi conduzida para encontrá-los, o que mobilizou ao menos uma centena de homens e duas vezes isso em voluntários. Após dois dias de buscas, os rapazes foram achados no coração do Parque - exaustos e famintos. Receberam cuidados médico e contaram uma história chocante sobre pequenos homenzinhos selvagens cobertos de pelos, que os perseguiram de maneira implacável.

O mais sensacional é que alguns membros dos grupos de buscas afirmaram ter encontrado pegadas e rastros de estranhos animais justamente nos lugares em que os rapazes se depararam com as criaturas. Algumas dessas pegadas eram condizentes a pés descalços do tamanho de crianças. Alguns afirmaram inclusive terem visto seres desconhecidos se escondendo na vegetação e escapando do contato quando detectados. 

As lendas de tribos nativas sobre a Reserva mencionam inúmeros mitos sobre os Pequoit, o equivalente ao Povo Pequeno canadense que conforme os mitos habitavam cavernas e grutas daquela região. eles eram responsáveis por incontáveis desaparecimentos de crianças. De fato, os nativos contavam que Elk Grove sempre foi um lugar temido pela presença de espíritos, fantasmas e entidades silvestres de toda sorte - da qual os Pequoit fazem parte.

Vários relatos provenientes do Hemisfério Norte mencionam a existência de criaturas pequenas, semelhantes a homens, mas que não são exatamente humanos. O folclore galês é rico em criaturas desse tipo, em especial os Bwbach, descritos como homenzinhos com aproximadamente um metro de altura, que são selvagens e que habitam o interior das montanhas. 

Wirt Sikes foi cônsul do País de Gales, nos Estados Unidos e um notável especialista no folclore de sua nação, autor de um aclamado livro editado em 1880, intitulado "British Goblins". Em suas páginas, Sikes escreveu sobre o pequeno e peludo Bwbach: 

"São criaturas de baixa estatura e atarracados, não muito maiores que uma criança de 6 ou 7 anos. A pele tem uma coloração castanha alaranjada como ferrugem e os cabelos crespos crescem por todo corpo. São absolutamente selvagens e irritadiços quando alguém adentra inadvertidamente seus territórios. Embora primitivos, os Bwbach são conhecidos pelos atos elaborados de vingança e revide. Eles podem atrair pessoas até clareiras no meio da mata e lá preparar emboscadas, mas raramente se afastam da segurança de suas tocas. Eles podem construir facas de pedra, machadinhas grosseiras e lanças afiadas para repelir os invasores, mas não são capazes de fazer mais do que ferramentas rudimentares. Seus gritos são medonhos e tendem a afugentar aqueles que ouvem, mas se esses avisos falharem, eles também empreendem perseguições e recorrem a táticas de choque".


O texto de Sikes parece se encaixar perfeitamente em inúmeros casos de pessoas que afirmam ter avistado o Povo Pequeno em seus redutos florestais.     

Outro interessado nas lendas sobre o Povo Pequeno é o escritor e etnógrafo W.E. Thorner que conta suas experiências na Ilha de Sirguden na Noruega, quando lá serviu durante a Segunda Guerra Mundial. Um incidente em questão serviu para fazer de Thorner um estudioso do Mito e do Folclore à respeito do lendário Povo Pequeno nórdico.

"Em certa ocasião me deparei com um grupo de homens pequenos e selvagens dançando no topo de uma pedra - um lugar que era conhecido pelos moradores locais como Penhasco dos Pequeninos. Isso aconteceu no auge de uma tumultuada tempestade e foi testemunhado por mais três homens, todos eles soldados cuja função era guardar aquela localidade". Nas palavras cativantes do próprio Thorner: "Essas criaturas eram pequenas em estatura, tinham o corpo peludo e feições grotescas com nariz e queixo compridos, corpos magros e dedos longos tanto dos pés quanto das mãos. Executavam essa dança ritual, típica de uma tribo de homens primitivos. lançavam-se no ar em pulos e rodopios e evoluíam soltando gritos e brados. É difícil descrever em poucas palavras meus sentimentos naquele momento, mas creio que perplexidade é um termo adequado. Toda a sequência poderia ter durado de três a cinco minutos, até que eles perceberam nossa presença e deixaram o penhasco." 

Depois desse incidente, Thorner se converteu em um dos mais sérios e respeitados pesquisadores sobre os mitos nórdicos, em especial sobre as criaturas que integram o chamado "Povo Pequeno". Ao longo de seus 80 anos, ele catalogou uma centena de incidentes, entrevistando pessoas que afirmavam ter visto criaturas desconhecidas que poderiam facilmente ser encaixadas no folclore nórdico. Thorner tinha em seu poder uma das mais curiosas e interessantes coleções de itens que supostamente pertenciam ao Povo Pequeno, com objetos como facas e pedras, até estatuetas decorativas e joias coletadas por ele nos lugares mais distantes da civilização. 

"É impressionante o quão pouco ainda sabemos sobre o Povo Pequeno, mas no decorrer de todas as minhas pesquisas não resta dúvida de que eles realmente existem e que habitam o nosso mundo preferindo, no entanto, se manter escondidos".


Thorner faleceu em 2006, mas sua extensa obra é considerada referência no que diz respeito a lendas e ao folclore dos países nórdicos.

Diante do grande número de histórias coletadas e narrativas fornecidas por alegadas testemunhas, parece razoável assumir que há algo, no mínimo estranho, que não compreendemos inteiramente habitando florestas e recantos distantes da civilização. E à medida que o progresso nos impele cada vez mais em terrenos pouco explorados, seria de nos surpreender encontrar coisas desconhecidas? Será que um dia confirmaremos a existência de tais seres habitando os últimos recônditos selvagens no coração de florestas e bosques?

Quem pode saber ao certo o que ainda descobriremos ao adentrar tais lugares.