domingo, 22 de abril de 2018

A Cadeira Satânica - A História de uma peça de mobília maldita


O Museo de Valladolid é uma instituição que se localiza na cidade de mesmo nome, no sudeste da Espanha.

Ele é conhecido como um dos mais importantes museus ibéricos com um rico acervo de peças, sobretudo voltada para a arqueologia e belas artes. Entre as coleções permanentes em exposição o visitante encontra elementos da história de Valladolid, que é a capital da Província de Leão e Castela. Objetos do passado da cidade como moedas romanas, armas usadas pelos povos mouros que a ocuparam, roupas típicas, obras de arte e pinturas renascentistas disputam as atenções, entretanto a peça mais famosa do Museu é outra: uma cadeira.

Mas não se trata de uma simples peça de mobília antiga do século XVI. A cadeira em questão tem nome e uma história estranha que inclui uma maldição, assassinato e superstição. Ela é chamada de "Cadeira do Diabo" e o título é bem merecido.

De acordo com a lenda, o dono original da cadeira era um estudante português chamado Andres de Proaza que se estabeleceu na Espanha para estudar Medicina na Universidade de Valladolid - uma das mais antigas do mundo. De Proaza, segundo alguns, era um jovem de apenas 22 anos, inteligente e determinado, certas fontes sugerem que ele tinha ancestrais judeus responsáveis por introduzir técnicas médicas aprendidas com os árabes. 

Em 1550, o Curso de Medicina enfrentava uma furiosa oposição da Igreja Católica e da Inquisição que censuravam duramente as aulas de anatomia. O renomado Dom Alfonso Rodriguez de Guevara, decano do Departamento de Medicina tentou introduzir aulas de anatomia e dissecação conforme ele havia aprendido na Itália, mas os clérigos espanhóis ficaram escandalizados. Na concepção dos religiosos, estudar cadáveres equivalia a profanação e portanto era blasfêmia.  

Proaza já possuía um profundo conhecimento em anatomia. Seu pai e avô haviam estudado em segredo com médicos mouriscos que dominavam as principais técnicas da época. Ainda criança ele frequentou as clínicas de seu pai e avô onde teve contato com todo tipo de aflição e doença, muitas das quais os estudantes normais só vinham a conhecer através de seus mestres. Mais do que isso, Proaza tinha uma vantagem sobre seus colegas: ele já havia visto autópsias e não era estranho aos horrores e maravilhas oferecidos pela engenhosa máquina humana.


Não é de se estranhar que todos na Universidade tenham ficado impressionados com o conhecimento de Andres. Mestre Guevara tomou o jovem português como seu pupilo e pensava até em transformá-lo em seu sucessor. Contudo, havia algo estranho naquele rapaz, algo que deixava algumas pessoas inquietas, embora nem todos fossem capazes de determinar de que se tratava. Talvez fosse a maneira como Andres falava sem cerimônia de temas funestos e até sinistros. Quem sabe fosse sua familiaridade com a condição humana já que nada parecia perturbá-lo; enquanto a maioria dos alunos demonstrava uma natural aversão ao sangue e às vicissitudes da carne, Proaza sequer piscava.     
     
Ninguém sabe exatamente como apareceram os primeiros rumores. É possível que tenham sido os vizinhos que residiam nos arredores da quinta que Proaza havia alugado. Talvez eles tenham ouvido sons estranhos: gemidos e lamentos que chegavam até eles na calada da noite. Pode ter sido ainda a estranha coloração do riacho que passava atrás da casa do jovem médico, que de vez em quando amanhecia avermelhado. Seja como for, os boatos de que o jovem estudante de medicina era praticante de necromancia começaram a se espalhar. 

Foi então que uma criança de nove anos, um jovem ajudante de cavalariço desapareceu e os vizinhos de Proaza ficaram atônitos. Uma testemunha afirmava ter visto o estudante conversando com uma criança que poderia ser o menino sumido. Temendo o pior, contataram as autoridades que foram até a quinta do médico. Bateram várias vezes mas ele não atendeu, resolveram então arrombar a porta e revistar o lugar por conta própria.

Um cheiro desagradável os levou imediatamente até o porão que estava coberto por serragem e palha seca usados para absorver o odor e umidade. Havia uma grande mesa de madeira de onde escorria em profusão sangue fresco. A mesa estava coberta por um lençol, mas era possível perceber um volume oculto sob o tecido manchado de vermelho. Os homens engoliram seus temores e olharam o que estava ali embaixo: não era mais o corpo de uma criança, e sim os restos sanguinolentos de um cadáver secionado. 

O corpo era como "um peixe numa feira", aberto com as entranhas e os orgãos espalhados à vista de qualquer testemunha casual. A morte exposta para quem quisesse olhar. Em um carrinho de mão colocado de lado haviam ainda as carcaças de vários cães e gatos igualmente explorados pela curiosidade do jovem anatomista que confrontado com a descoberta reconheceu sua culpa.


Assassinato não era o único pecado cometido por Proaza. 

Durante seu julgamento, conduzido com alarde pela Inquisção, ele admitiu ter firmado um pacto com o Demônio, prometendo sua alma em troca do conhecimento do corpo humano. O jovem médico se gabava de ter criado um método para se comunicar com o Príncipe das Trevas usando para isso uma cadeira. Não uma simples cadeira, tenha em mente, mas um assento oferecido a ele como presente por um Necromante de Navarra.

Sentando-se na cadeira colocada no centro de um círculo de magia desenhado no chão, Proaza conseguia audiências com o demônio que surgia sempre de madrugada. O Senhor das Trevas então cumpria sua parte na barganha, revelando o que o jovem médico desejava saber a respeito de seu ofício. Segundo Proaza esse era o segredo de seu brilhantismo. Ele contou ainda que qualquer médico poderia fazer a mesma barganha com o diabo se assim desejasse, bastando sentar na cadeira e aceitar o mesmo acordo. Entretanto, qualquer um que não fosse um médico e ousasse fazê-lo, morreria três dias depois, o mesmo valendo para qualquer um estúpido o bastante para destruir a cadeira.

Pelos seus crimes inenarráveis, Andres de Proaza foi condenado à forca e segundo os registros, a sentença foi cumprida conforme ditado pelo Inquisidor mor.

Meses depois, um leilão foi realizado para que os bens pertencentes a Proaza fossem vendidos. Não é de se surpreender que poucas pessoas manifestaram interesse em adquirir a mobília associada a um assassino de crianças e satanista. Por essa razão, as coisas dele acabaram indo parar em um depósito na velha universidade. 

 Séculos se passaram, até que a história a respeito da cadeira foi quase que inteiramente esquecida.


No século XIX, um inspetor da Universidade encontrou a cadeira no depósito e tomou posse dela. O homem sentou na cadeira e conforme a maldição proferida por Proaza, morreu três dias depois em um curioso acidente.  Seu sucessor foi igualmente descuidado; ele também sentou na cadeira e não apenas morreu três dias depois, como foi encontrado sentado no assento maldito. A causa da morte teria sido um ataque cardíaco fulminante, mas para a maioria das pessoas ele foi vítima da Cadeira Satânica.

A essa altura, alguém descobriu o registro a respeito da cadeira e fez alarde sobre a suposta maldição. Depois de alegadamente tomar a vida de dois inocentes, a maldição precisava ser quebrada. Para garantir que as energias diabólicas da peça fossem dissipadas, um sacerdote ordenou que ela fosse levada até a capela da Universidade e suspensa de cabeça para baixo ao lado do altar. Lá ela ficou até 1890 quando foi transferida para o Museo de Valladolid depois que a capela foi demolida.

Em seu novo lar, uma faixa vermelha foi amarrada nos braços da cadeira evitando assim que visitantes desavisados sentassem nela. É claro, isso não impediu que pessoas tentassem fazê-lo e nem que ambiciosos médicos sentassem nela esperando que assim um pacto fosse firmado e os poderes infernais concedessem a eles genialidade sobrenatural. Depois de algum tempo, a direção do Museu decidiu fechar a cadeira em um armário de vidro para evitar que curiosos sentassem nela ou a danificassem. Houve um tempo em que maldições seriam o suficiente para afastar as pessoas, mas não nos tempos modernos, quando elas se vêem atraídas pelas qualidades sobrenaturais de artefatos ocultos.

A Cadeira Satânica continua em exibição no Museo de Valladolid, se ela continua agraciando aqueles que sentam nela com audiências demoníacas, é assunto para controvérsia.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

A Expedição Shäfer ao Tibet - A Caçada dos Nazistas ao lendário Yeti


Nazistas parecem ter um lugar de destaque em qualquer grande conspiração que seja estranha, bizarra ou simplesmente esquisita. De experiências com ocultismo, passando por bases de discos voadores, exploração do sobrenatural como armamento de guerra até o desenvolvimento de tecnologias avançadas, nazistas fizeram por merecer o status de grandes vilões.

Enterrado em meio a uma infinidade de conspirações e esquisitices históricas associadas aos nazistas é possível encontrar coisas realmente peculiares. Uma delas atraiu o interesse pesquisadores interessados em criptozoologia. Trata-se de um caso muito estranho combinando expedições secretas, exploração e monstros enigmáticos.      

Existem tantas lendas fantásticas a respeito de expedições nazistas ao redor do mundo que em alguns momentos é difícil determinar se elas possuem algum fundo de verdade. Parece ser verdade que Hitler tinha um intenso interesse em temas sobrenaturais, no desconhecido e no estranho, tanto que ele promoveu a criação de uma organização devotada a sua exploração. A Ahnenerbe, presidida pelo segundo em comando na estrutura nazista, Heinrich Himmler, tinha como um de seus principais objetivos investigar as raízes da raça ariana. Contudo, existiam muitos subdivisões dentro da Ahnenerbe, algumas devotadas ao estudo do misticismo e do mundo sobrenatural, temas que agradavam a Himmler. Entre os projetos da Ahnenerbe estavam o estudo da feitiçaria, de poderes psíquicos, magia negra e outras ciências ocultas. Na sua busca incessante por artefatos e fontes de poder ancestral, os agentes nazistas se lançaram em expedições que os levaram a várias partes do planeta: do Egito, aos desertos da Arábia, da Amazônia ao Coração da Asia.

Entre as mais inusitadas expedições sancionadas por Himmler estava uma viagem aos Picos do Himalaia com o objetivo de encontrar o lendário Yeti, criatura também conhecida como o "Abominável Homem das Neves"

     
O ano era 1938 e os alemães já haviam realizado outras expedições às geladas Montanhas do Himalaia, no Reino do Tibet, uma das regiões mais misteriosas e desconhecidas do planeta. Os nazistas tinham enorme interesse no Tibet, uma vez que acreditavam que a raça ariana teria se originado naquela parte do mundo. Liderada pelo zoólogo alemão e oficial da SS Ernst Schäfer, os nazistas também desejavam explorar as montanhas para determinar se as lendas tibetanas a respeito do Yeti tinham algum fundo de verdade. A expedição contava com vários cientistas respeitados, como o antropólogo Bruno Beger, que acreditava não apenas na existência do Yeti, mas também em espíritos como o Tulpa, em feitiçaria e poderes psíquicos. Beger defendia que os antigos arianos haviam em algum momento da história conquistado uma boa parte da Ásia e que desenvolveram um vasto império que detinha ao mesmo tempo conhecimento místico e tecnológico. Fragmentos desse saber ancestral ainda poderiam ser encontrados entre a população.

O propósito oficial da Expedição Shäfer, a terceira na região, era pesquisar as origens dos povos arianos e determinar suas raízes culturais. Além disso, eles também buscavam catalogar a exótica fauna e flora do Himalaia, traçar a etnografia dos povos locais, examinar a geologia e desenhar mapas detalhados.

Entretanto, é claro, haviam planos mantidos em segredo pelos membros da Expedição. O Ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebels se valia dessas expedições para promover o partido e demonstrar a alegada superioridade da Alemanha diante das outras nações. Conquistar montanhas e chegar antes ao topo de cordilheiras era uma questão de honra e prestígio. Os nazistas também usavam suas expedições de caráter científico como pretexto para sondar esses territórios sob o controle de inimigos em potencial, estabelecer bases para futuras incursões militares e fazer contato com rebeldes. Quando a guerra teve início em 1939, os nazistas usaram as informações de campo colhidas pelos seus exploradores.


Beger acreditava que o Yeti, um dos alvos da terceira expedição, poderia ser uma espécie humana primitiva não evoluída. Suas teorias pseudocientíficas contemplavam a possibilidade dos Yeti terem surgido na mesma época dos arianos originais. Provar a existência dessas criaturas seria uma maneira de validar as teorias a respeito de raças humanas ancestrais habitando essa mesma região inóspita. 

A expedição reuniu inúmeras lendas e narrativas do folclore tibetano envolvendo o Yeti. Guias e tradutores contratados pelos nazistas viajaram de aldeia em aldeia para reunir a maior quantidade possível de informações sobre o assunto. Nenhum rumor, era deixado de lado, todos os avistamentos eram checados e as testemunhas entrevistadas pelos cientistas.

A despeito de todos esforços, a Expedição Shäfer, obviamente, não encontrou nenhum espécime do Yeti. Oficialmente eles coletaram centenas de amostras de plantas e animais, também fizeram numerosas fotografias e filmagens, além de terem adquirido artefatos dos povos nativos, como uma cópia do Kangyur, o livro sagrado dos tibetanos. A expedição também recebeu um importante presente dos nativos do Tibet, uma estatueta de metal do Deus Vaisravana esculpida com um pedaço de um raro meteorito. Shäfer detalhou vários aspectos da expedição em um diário particular no qual descreveu costumes e a cultura do Himalaia. As anotações meticulosas de Beger serviram como material para um importante livro intitulado "Mit der deutschen Tibetexpedition Ernst Schäfer 1938/39 nach Lhasa" considerado um dos mais fiéis relatos das tradições tibetanas, sob uma ótica ocidental.

Shäfer e Beger escreveram relativamente pouco a respeito do Yeti em seus diários, mas descreveram que pelo menos duas incursões tiveram como alvo averiguar lugares onde a criatura havia sido avistada. Shäfer escreveu que do seu ponto de vista o legendário animal, não deveria ser mais do que um tipo de urso de grande porte habitando uma área montanhosa de difícil acesso. Embora Begen deixasse clara sua crença na existência da criatura, seu interesse nela parece ter gradualmente diminuído a medida que sua atenção foi se voltando para outros temas mais concretos.

Isso não os impediu de tentar encontrar sua presa. Em um dos relatos mais significativos, o líder da expedição escreveu que a expedição tentou atingir um platô onde uma caravana havia avistado um animal de grande porte, coberto de pelos brancos no ano anterior. A narrativa de guias que mencionaram já ter visto a criatura animou os membros da expedição, mas uma forte nevasca os impediu de chegar ao local exato.


As filmagens feitas pela expedição foram reunidas e editadas na forma de um filme com o título Geheimnis Tibet ( Tibet Secreto). Schäfer obteve enormes elogios entre os nazistas, recebendo uma comenda pelos valiosos serviços prestados para a Ahnenerbe. Shäfer pretendia retornar ao Tibet para prosseguir nas suas explorações, mas a intensificação da guerra impediu seus planos e ele se viu impedido de deixar a Europa. Após o conflito, ele foi interrogado pelos aliados a respeito de sua relação com os altos círculos do partido e se disse enojado quando as atrocidades nazistas vieram à tona.

Muitos anos depois da guerra, um diário escrito por Shäfer revelava que ele tinha interesse de viajar para o Tibet com o propósito de organizar guerrilhas tibetanas, contudo ele jamais voltou ao Himalaia. Depois da Guerra, ele ficou preso por quatro anos pelo seu envolvimento com a SS. Shäfer casou-se em 1949 e se mudou para a Venezuela onde se tornou professor na Universidade de Maracaibo. Posteriormente ele retornou a Europa e se converteu em um conselheiro do Rei Leopoldo III da Bélgica. Ele morreu em 1992.

Bruno Bager também sobreviveu à Guerra apesar de uma vergonhosa participação como antropólogo nazista trabalhando como consultor para a Ahnenerbe. Ele foi acusado de ter tomado parte em um projeto que visava a criação de uma coleção de esqueletos de judeus. Segundo rumores, 100 judeus foram escolhidos em Auschwitz e executados para que seus ossos fossem coletados e futuramente expostos em um museu que seria criado. Bager negou até o final da vida que tivesse participado desse episódio. Ele morreu em 2009 com quase 100 anos de idade. O antropólogo evitava falar a respeito da Expedições ao Tibet e segundo sua família desejava esquecer sua participação nelas. Ele destruiu todos os itens que o ligavam a expedição de 1938-39 e não autorizou novas edições do seu livro. Hoje, existem menos de 50 cópias dele.  

Apesar da história oficial se limitar a isso, teóricos da conspiração acreditam que algo mais sinistro ocorreu na Expedição Nazista ao Tibet. Há registros de que a expedição teria trazido um grande número de caixas e containers em segredo ao retornar e que dentro deles teriam sido contrabandeados para a Alemanha espécimes de animais desconhecidos. Os membros das expedições faziam parte da Ahnenerbe e muitos deles eram filiados a SS, obrigados a manter segredo sobre seus objetivos e os resultados obtidos. Um manifesto dos itens trazidos pela expedição explicita terem sido trazidos 47 espécimes animais, mas apenas 25 foram descritos.


Alguns acreditam que Shäfer e Beger podem ter descoberto muito mais do que revelaram em seus diários. Sabe-se que a Ahnenere era criteriosa em seus registros e que exigia detalhes de todas as descobertas realizadas. O diário oficial da expedição concluída em 1939 e arquivado pelos nazistas, era bastante sucinto e alguns acreditam que essa versão havia sido pesadamente censurada para que informações chave não vazassem. Da mesma maneira, alguns pesquisadores estranham que boa quantidade dos itens trazidos pela expedição simplesmente desapareceram ou não foram incluídos no acervo da organização. Qual teria sido o destino desses itens que incluíam objetos, animais empalhados e outras amostras?

Finalmente, existe a questão das honrarias dispensadas a Shäfer após seu retorno. Ele recebeu uma das mais importantes condecorações da época, o tipo de reconhecimento concedido a indivíduos que fizeram alguma descoberta científica significativa. Analisando friamente os resultados da Terceira Expedição, ela não foi mais notável que as outras duas.

Pesquisadores de Criptozoologia defendem que ainda que a Expedição não tenha encontrado o Yeti, é provável que eles tenham coletado informações valiosas a respeito da criatura. Mas no diário oficial, há muito pouco a respeito do assunto, quase como se ele tivesse sido propositalmente ignorado. Teriam os nazistas encontrado algo que preferiram manter em segredo? E se esse for o caso, será que ainda existem documentos secretos que sobreviveram?

As questões permanecem sem resposta, e é bem provável que jamais saibamos ao certo o que os nazistas encontraram na sua viagem pelas Montanhas do Himalaia.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

O Segredo do Dr. Willett - Os artefatos profanos de Charles Dexter Ward


“Nesse meio tempo, Willett subira ao laboratório desmantelado e trouxera para baixo alguns itens não incluídos na mudança do mês de Julho anterior, dentro de uma cesta tapada, por isso o Sr. Ward não viu do que se tratava".…”

A postagem a seguir tem relação com a fantástica novela "O Caso de Charles Dexter Ward"  de H.P. Lovecraft. Se você não leu essa história, é impostante avisar que o artigo possui spoilers a respeito de temas centrais. Proceda por sua conta.

Para celebrar os 90 anos que Charles Dexter Ward foi destruído pelo Dr. Marinus Willet, em 13 de abril de 1928, aqui está uma postagem relacionada. 

O Laboratório móvel de Joseph Curwen
por Bigford Works (Dale Bigford)


Em Julho de 1966 a Câmara de Comércio de Providence, no Estado de Rhode Island leiloou a propriedade localizada no número 10 da Rua Barnes. A casa e terreno, um belo exemplo do estilo victoriano de 1880 foi propriedade do viúvo e sem filhos médico, Dr. Marinus Bicknell Willett. Willett faleceu em 1950 e a casa ficou vazia desde então. Curiosamente, o testamento de Willett possuía uma cláusula acessória de que a mansão do bom doutor deveria continuar vazia pelo período em que um fundo especialmente reservado para suprir as taxas se mantivesse. Em seguida, a cláusula explicitava que ela deveria ser demolida.

A despeito dos protestos da firma legal que representava o espólio, brechas legais que não existiam na década de 1950 permitiram que a cidade assumisse a posse da propriedade.

Após o leilão os novos donos que arremataram a propriedade imediatamente contrataram operários para fazer a restauração da casa. Embora vazia por 16 anos a estrutura estava em excelentes condições, com apenas alguns reparos menores sendo necessários em áreas onde o gesso, piso, calefação e encanamento haviam se deteriorado. Além desse trabalho necessário, o restante se resumia a limpeza e manutenção básica.

Doutor Marinnus Willett
No interior do belo aposento em que ficava a biblioteca os operários encontraram uma situação inusitada: Uma pintura à óleo de um homem de boa aparência com trajes do período de 1920 e uma placa com as iniciais "CDW". A tela estava colocada sobre a lareira, ou assim parecia. Logo ficou claro que a pesada moldura que envolvia o retrato estava fortemente presa à parede. Enquanto buscavam por uma forma de soltá-lo, um dos operários descobriu uma alavanca escondida. Uma vez pressionada dobradiças enferrujadas estalaram revelando um nicho oculto atrás da tela.

Atrás da pintura, em um gabinete oculto, coberto de grossa camada de poeira acumulada descobriram um velho baú de madeira contendo várias pastas com papéis, documentos, recortes de jornal e fotografias. 

Se o chefe dos operários não estivesse presente no local, provavelmente o baú teria discretamente sumido no porta malas de um caminhão e desaparecido para sempre. 

Tendo vasta experiência em estruturas antigas e mobiliário o capataz ficou surpreso com a descoberta. O baú de madeira reforçada era um belo exemplo de carpintaria do século XVIII. O estilo da peça remetia ao período medieval, tipicamente usado em caixões, mas não se tratava de um relicário ou ataúde. Alças empoeiradas de couro cru evidenciava que o item era móvel e costumava ser carregado. Os pesados arremates de bronze já corroídos sugeriam que nem sempre ele havia sido usado como uma caixa para guardar objetos e que provavelmente ele havia sido colocado em um ambiente úmido por algum tempo. As fechaduras também tinham uma aparência antiga. O baú foi entregue aos novos donos da casa - que por direito haviam adquirido tudo em seu interior. Eles imediatamente contrataram um chaveiro para abrir a fechadura e descobrir o que continha.   

Quando finalmente a tampa do baú foi destrancada, os donos recuaram em aversão. A caixa segundo um antiquário foi identificada como um estojo de viagem usado por apotecários para carregar seus artigos. O que havia dentro, no entanto, era de natureza muito mais sinistra.

O baú era uma espécie de laboratório móvel. Será que o Dr. Willett escondia uma vida secreta? Estaria aquele pilar da comunidade envolvido com as artes negras e com superstições?  

Charles Dexter Ward
Ansiosos por evitar um escândalo os donos entraram em contato com professores da Universidade Brown para que levassem o baú e avaliassem seu possível "valor histórico". Após uma avaliação preliminar um dos professores achou por bem consultar um colega da Universidade Miskatonic. Todos estavam de acordo que a natureza do objeto qualificavam a Miskatonic e seus departamentos de ciências humanas como os mais qualificados para um exame. Eles poderiam descobrir o seu propósito.

A Escola de Medicina de Arkham, concordou em contratar uma agência de detetives particulares para conduzir uma investigação a respeito da vida pregressa do Dr. Willett. Buscavam algo que fornecesse pistas a respeito da descoberta sem precedentes feita na sua casa.

O pouco que descobriram resultou em estranhas revelações.

O Dr. Marinus Bicknell Willett, nasceu em 14 de março de 1861, em  Providence. Ele cursou a  Universidade de Medicina de Brown em 1879, graduando-se com honras em 1883. No ano seguinte, Willett comprou a mansão na Rua Barnes, que lhe serviu de residência até o dia de sua morte. Sua carreira se iniciou em 1884 e os arquivos demonstram que ele exerceu seu ofício, sendo reconhecido como um dos melhores e mais respeitados médicos particulares de Providence. Entre seus clientes estavam algumas das mais ricas famílias da cidade.

Os investigadores não encontraram nada de estranho em sua carreira até meados de 1928 quando descobriram seu envolvimento em um estranho incidente. Um rapaz chamado Charles D. Ward nascido em Providence, paciente de longa data do Dr. Willett, fora internado no Sanatório da Ilha Conanicut, diagnosticado com colapso nervoso. O Sr. Ward teria escapado de seu confinamento em circunstâncias misteriosas e após a espetacular fuga, ninguém mais ouviu falar dele.

 À época, as más línguas especularam se de alguma maneira Willett teria auxiliado o jovem Sr. Ward a escapar da instituição. O incidente foi abafado, mas os rumores arranharam a carreira do médico deixando uma suspeita de má conduta em seu perfil até então perfeito.

Pode ser inferido que o declínio na carreira do Dr. Willett se acentuou após esses rumores. Sabe-se que Willett resolveu tirar um longo período de férias em 1929 e que retornou a Providence apenas três anos depois. Nesse ínterim as finanças do médico parecem ter sido dilapidadas pela Grande Depressão que o atingiu com força. Uma vez retornando a Providence ele tentou voltar a exercer, mas a maioria das famílias que ele costumava atender já haviam optado por outros profissionais.

A descoberta do quadro na Rua Barnes deixava claro que o retrato com as iniciais "CDW" pertencia ao jovem Charles Dexter Ward. O que não estava claro era a razão para a tela ganhar tanto destaque na parede da biblioteca de Willett e o que seriam os objetos de natureza oculta atrás dele.

Joseph Curwen
Os relatórios a respeito do período em que Ward esteve no Sanatório Conanicut são difíceis de serem localizados. Na ausência de seus pais, Theodore e Abigail Ward que morreram num espaço de dez anos após o sumiço de seu filho único, não há pessoas que possam requisitar os registros. Ward não tinha outros parentes próximos e mesmo que existissem há rumores de que muitos desses documentos foram destruídos. Há suspeitas de que os papéis da internação de Ward no Sanatório tenham sido assinados pelo Dr. Willett, o que faz sentido uma vez que ele era o médico de confiança dos Ward na época. Também existem indícios de que Willett tenha sido um dos médicos que realizou exames no rapaz na ocasião de seu confinamento. Na época alguns jornais relacionaram a internação de Ward com uma série de estranhos casos de roubo e depredações em velhos cemitérios do período colonial de Providence.

Tudo o que se sabe é que o colapso de Ward estava de alguma forma conectado a uma pesquisa genealógica que ele vinha realizando a respeito de sua genealogia. Um dos alvos principais das pesquisas de Ward era um antepassado chamado Joseph Curwen que viveu em Providence na época colonial. Mas a respeito de Curwen existem pouquíssimas informações disponíveis. Ward parece ter vasculhado arquivos e removido a maioria dos documentos e certidões a respeito de seu ancestral.

Ward jamais foi acusado formalmente de ato ou atos criminosos, contudo, após o seu dramático desaparecimento as investigações do caso envolvendo as profanações, foram encerradas. Nenhuma outra notificação foi feita.

Os papéis que estavam reunidos na misteriosa caixa em poder de Willett eram bastante curiosos. Uma pasta continha artigos recortados de periódicos entre 1927-28, noticiando o roubo a sepulturas e ocorrências de profanação em Providence. Também havia um recorte a respeito das queixas frequentes de habitantes das proximidades do cemitério colonial concernente a cães barulhentos que causavam verdadeira algazarra à noite.

As fotografias reunidas em outro envelope retratavam Charles D. Ward em várias poses, provavelmente nos dias em que ele esteve internado no Sanatório. As fotos amadoras, provavelmente feitas pelo Dr. Willett com uma câmera de sua propriedade, pareciam se concentrar em manchas e sinais de nascença de Ward. Em alguns existentes e outros ausentes.

Também havia fotografias de uma antiga sepultura profanada pertencente a um tal Ehzra Wheedon, do cemitério colonial e de uma antiga casa que segundo informações foi adquirida por Ward e serviu como sua morada até seu confinamento e subsequente sumiço. Uma curiosa fotografia, aparentemente tirada de surpresa, mostrava um homem vestindo chapéu, sobretudo e óculos escuros. No verso dela estava escrito o nome "Doutor Allen". Um detetive sugeriu que a foto era o tipo de material usado por investigadores particulares como evidência.


A avaliação dos professores da Universidade Miskatonic quanto ao restante dos itens no baú serviram para levantar mais questionamentos do que para oferecer respostas.

Todos os objetos estavam cobertos por uma densa camada de poeira e teias de aranha evidenciando que eles não eram manipulados a muito tempo. 

O conteúdo mais eclético era uma mistura de ingredientes alquímicos, tanto processados quanto crus acondicionados em frascos grossos de vidro, algumas relíquias de natureza mística, páginas amareladas arrancadas de tomos, pergaminhos antigos, diários relatando o resultado de experiências e reações químicas, além de cadernos com relatos de experimentos no campo da necromancia. Além destes itens, havia ainda alguns instrumentos de tortura autênticos - um chicote conhecido como gato de nove caudas e um quebrador de dedos, inquietantes regalias religiosas, uma estatueta e placas de chumbo com gravações peculiares.


Mais perturbador talvez tenham sido a descoberta de uma caixa de madeira contendo oito velas que uma vez examinadas se provaram ter sido produzidas com gordura extraída de seres humanos. Finalmente haviam seis potes bojudos de chumbo cinza escuros contendo poeiras de procedência ignorada. Esses potes estavam rotulados com uma caligrafia rebuscada indicando o conteúdo de cada um. Lia-se "Custodes" em dois deles e nos demais a palavra "Materia" seguida de um número romano (I a IV). As palavras em latim significavam respectivamente Guardas e Material. Todos os vasilhames tinham tampas de metal e cobertas por uma cera amarelada na qual haviam sido desenhados símbolos cabalísticos.

Uma carta, aparentemente escrita pelo próprio Dr. Willett, no formato de um diário particular (ou confissão) foi de pouca ajuda para entender o caso. A carta extremamente confusa mencionava com indisfarçável terror algo chamado "118" que por pouco não teria matado o médico. Willett ao que tudo indica não era o dono original daqueles objetos e os havia adquirido com a intensão original de destruí-los. Adicionalmente, sua carta fazia menção a "grandes pensadores" e "conhecimento profano que poderia ser usado para o mal". Parece óbvio que o Dr. Willett não era um praticante de artes ocultas, embora pelo seu testemunho ele acreditasse na existência destas.

Departamentos individuais da Universidade Miskatonic se dedicaram cada qual a uma diferente tarefa no exame dos itens do baú e tiraram suas próprias conclusões:


Alguns dos objetos encerrados no baú, como os vidros e papéis eram típicos do século XVIII, outros tinham uma idade tão avançada que não foi possível fazer uma presunção. Alguns dos itens esotéricos eram bem conhecidos, tratados de feitiçaria medievais enquanto outros eram enigmas indecifráveis de procedência ignorada. Os ingredientes nos vidros eram derivados de plantas, de animais ou de minerais comuns e raros. De fato, todos eles sugeriam estar ligados a processos biológicos em especial a estimulação da vida e sua preservação.

A poeira dos frascos de chumbo identificados como "Custodes" era fina como grafite e aderia a pele com uma consistência de talco. Sua coloração era azul-acinzentada. A análise laboratorial dessa substância foi inconclusiva.

Já a substância dos frascos marcados como "Materia", mais densa e granulosa, resultou em uma inusitada descoberta: tratava-se de material biológico (ossos, cartilagens e cabelo) pulverizados e misturados com uma série de outros componentes até adquirir uma coloração cinza escura ou marrom-esverdeada. Análises químicas revelaram que ela tinha uma curiosa resistência a dissolução ou destruição. A substância também não reagia a nenhum teste envolvendo ácidos, variação de temperatura ou composição química. As amostras resistiam a qualquer esforço de serem combinadas. Mesmo quando porções de duas ou mais substâncias diferentes eram acrescidas, elas simplesmente se separavam com rapidez a ponto de poder ser observado a olho nu, mantendo assim sua pureza.


A opinião do Departamento de Química é que as poeiras nos vasilhames "Materia", resultavam de pulverização de material humano em um grau de pureza notável. Os frascos, feitos de chumbo eram usados para preservar essa qualidade e evitar qualquer contaminação externa. Um dos frascos, o de número III, possuía um rótulo adicional no qual estava escrito o nome de Ehzra Wheedon (o nome de uma das sepulturas profanadas).

Havia outras revelações fora da esfera acadêmica sobre o caso.

Um dos detetives contratados pela Universidade de Medicina descobriu que um colega de profissão, que por sua vez fora contratado por Willett em 1927, apareceu morto meses antes do desaparecimento de Ward do Sanatório. O corpo do detetive foi achado em um beco, cerca de uma quadra de distância de seu escritório, vítima de um aparente roubo, ainda que seu relógio e carteira não tenham sido subtraídos pelo criminoso. Entre os objetos encontrados com o investigador estava uma cópia da fotografia do misterioso "Dr. Allen", indivíduo cuja identidade não foi determinada e cujo paradeiro permanece desconhecido. É possível que o detetive estivesse procurando informações a respeito de Allen quando foi morto.


Um objeto que chamou muita a atenção no lote recuperado dentro do baú foi uma estatueta com base confeccionada em chumbo. A peça maciça medindo 18 centímetros e pesando 14 quilos apresenta uma estranha forma composta de globos e ramificações tentaculares que se estendem e abraçam a massa dando a ela uma espécie de coesão. Na base que serve de pedestal podem ser vistos curiosos símbolos ou algum tipo de alfabeto de origem desconhecida. Pesquisadores do Departamento de Metafísica Medieval, uma cadeira única da Universidade Miskatonic aventaram a possibilidade da peça ser uma representação de um princípio alquímico que simbolizaria o tempo e o espaço.

Segundo o Departamento de História, as ferramentas de tortura parecem ser objetos autênticos provavelmente usados no período colonial da Nova Inglaterra. O chicote, conhecido como gato de nove caudas era um instrumento de flagelação usada para o castigo corporal. A peça possuía sinais de sangue seco que denotavam seu uso. O instrumento de tortura conhecido como "quebra dedos" também remonta ao período colonial e foi usado em interrogatórios na infame Caça às Bruxas. Além dessas peças, uma faca com gravação de símbolos na lâmina recurva também chamou a atenção dos pesquisadores. As placas de chumbo com inscrições em hebraico e latim, sem dúvida objetos usados em cerimônias alquímicas também foram entregues ao departamento de História e Antropologia para serem analisados.

Após a conclusão das análises dos itens, a família que havia adquirido as peças concordou em doá-los para a Universidade Miskatonic que os aceitou de bom grado. Eles foram movidos para o Depósito da Escola de Medicina onde permaneceram. Em 1971, ocorreu um arrombamento criminoso neste exato depósito. A princípio os investigadores não perceberam a subtração de nenhum objeto que estava guardado no local, apenas seis anos mais tarde um arquivista descobriu que alguns itens que estavam no interior do baú haviam sido levados. Entre os objetos desaparecidos estavam os frascos de chumbo (e seu conteúdo), algumas páginas de papéis, os diários e a estatueta de chumbo. Um inquérito foi instaurado, mas nenhum suspeito foi detido embora duas conhecidas lojas de antiguidades de Arkham tenham sido investigadas como possíveis receptadores.

Há boatos de que a estatueta tenha sido encontrada na posse de Marshall Applewhite, líder da Seita Heaven's Gate que em 1997 comandou um suicídio coletivo de 39 membros de seu culto apocalíptico. Os membros da Seita acreditavam que iriam embarcar em uma nave espacial oculta na cauda do Cometa Hale-Bopp quando este se encontrava em seu brilho máximo. Os rumores nunca foram confirmados a respeito dessa descoberta.

Eventualmente o baú que pertenceu ao Dr. Willett foi esquecido.

Ele permaneceu em um armário trancado no depósito por décadas até ser redescoberto em janeiro de 2018 em um inventário de rotina. Atualmente ele se encontra em exibição no Museu da Escola de Medicina como um exemplo de pesquisa clandestina de alquimia/medicina do século XVIII.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Folie a Deux - Quando a loucura é compartilhada e se espalha como uma doença


Folie à Deux (fala-se Foli a du) é um termo originário da psiquiatria que soa sofisticado e elegante o bastante para ser usado no dia a dia como algo positivo. Na verdade, isso está longe da realidade. A psiquiatria trocou o termo oficial em francês que significava "loucura à dois" pelo mais correto "desordem de psicótica compartilhada", que é bem menos simpático, mas muito mais acurado na descrição dessa condição mental.

Essa rara doença se manifesta quando os sintomas psicóticos de um indivíduo acabam sendo transmitidos para outra pessoa, em geral alguém muito próximo com quem existe um forte vínculo social. Em termos leigos, é como se a loucura manifesta de uma pessoa fosse transmitida - como uma doença, para outra pessoa, e este, que era perfeitamente saudável, passa a apresentar o mesmo quadro patológico delirante.

Os franceses cunharam o termo original para descrever o estranho caso do casal Margaret e Michael, sobretudo porque ao se deparar com ele, não tinham muita certeza do que estavam encarando. Os especialistas não eram capazes de determinar qual dos dois havia iniciado um crescente ciclo de psicose, mas estavam certos de uma coisa: a loucura de um, ajudava a alimentar a do outro em uma espécie de bola de neve psicótica que continuou aumentando até assumir proporções absurdas. Os dois acreditavam que a casa onde viviam vinha sendo alvo de pessoas desconhecidas. Esses indivíduos misteriosos nunca roubavam ou destruíam nada na casa, de acordo com o casal. Ao invés disso, os invasores deixavam sinais de sua passagem mudando objetos de lugar, abrindo portas, deixando pegadas de lama nos cômodos ou virando roupas do avesso. Margaret começou a trancar as portas, fechar as janelas e bloquear até a saída da chaminé. Michel espalhava ratoeiras, deixava armadilhas e ficava acordado até tarde esperando flagrar o invasor. Tudo em vão! os sinais continuavam aparecendo e os objetos eram manipulados por alguém.

A psicose foi aumentando de tamanho a medida que eles começaram a creditar as invasões não a seres humanos, mas a seres sobrenaturais. Afinal, apenas um fantasma ou espírito seria capaz de superar suas tentativas desesperadas de capturar seja lá quem fosse. Margaret entrou em um crescente surto psicótico abraçando a crença de que havia algum ser demoníaco na casa, isso motivou Michel ao passo seguinte.

Em uma noite ele ficou pronto para agir. Quando ouviu um som do lado de fora da casa, correu para fora com uma faca e atacou mortalmente um transeunte. Ele o arrastou para dentro da casa para que a esposa pudesse participar do linchamento. Os dois fizeram o suposto invasor em pedaços com porretes e facas. O corpo foi tão depredado que as autoridades tiveram enorme dificuldade em fazer o reconhecimento da vítima. Por fim, o pobre coitado nada mais era do que um cidadão que passava pela frente da casa empurrando um carrinho, fazendo barulho.

O mais surreal é que quando os psiquiatras começaram a analisar a loucura do casal em separado, descobriu que o invasor misterioso jamais existiu. Não apenas um, mas os dois, criavam os indícios da passagem do invasor, abrindo coisas, mexendo nos objetos e aumentando a paranoia um do outro. Por fim, a loucura foi se retroalimentando de uma maneira que nem eles próprios percebiam que tudo aquilo era criado por eles mesmos.

Maridos e esposas estão entre as relações que costumam desenvolver a desordem psicótica compartilhada, mais frequentemente, contudo, não são os únicos. Pais e filhos, avós e netos, tios e sobrinhos, irmãos... a loucura compartilhada pode "estar no sangue", como diziam os antigos pesquisadores, ou ser dividida por pessoas que possuem um grau de ligação muito próximo.

Um caso envolvendo irmãos se tornou emblemático. Dois irmãos de sexo masculino, de 22 e 17 anos respectivamente, resolveram se mudar para uma casa menor após a morte da mãe. Ao alugar a casa, eles registraram que eram casados para receber um benefício estendido a casais. Um dos rapazes passou a usar roupas femininas e se travestir para enganar os vizinhos. Para alimentar a mentira, os dois começaram a dormir no mesmo aposento, usar alianças e se apresentar como senhor e senhora. Em algum momento os dois começaram a acreditar que realmente eram um casal e que precisavam preservar a mentira a qualquer custo. Eles esqueceram o que eram e passaram a adotar a noção delirante que construíram, inventando um histórico que pudessem compartilhar com os amigos.


Quando um conhecido da família os encontrou por acaso na rua e reconheceu um deles, o "casal" surtou. Elaboraram então um plano no qual convidaram o sujeito para uma visita e o envenenaram. Em seguida, desmembraram o cadáver e o enterraram em um porão. Mas esse foi apenas o início da escalada, já que a paranoia que os afligiu começou a se intensificar. Na prática eles acreditavam que os vizinhos poderiam descobrir seu segredo e ameaçar sua estabilidade e união familiar. Um dos irmãos, por fim, acabou mutilando a si mesmo com uma tesoura para se tornar aquilo que desejava ser - uma mulher. Após sua morte por hemorragia, o outro irmão se entregou. Entrevistado por psiquiatras ele continuou negando a identidade de sua "esposa" e tudo que havia acontecido.

Os vizinhos jamais desconfiaram de nada. Os irmãos eram para todos os efeitos um perfeito e amoroso casal. Lembraram até que a "esposa" havia perdido dois bebês em abortos espontâneos, período no qual ele/ela usou provavelmente um travesseiro para simular uma gravidez. Assistentes sociais que prestaram apoio, chegaram a diagnosticar que ela sofria de um legítimo quadro de depressão, motivado pela "perda de seu filho".

Um outro impressionante caso de desordem compartilhada ocorreu em 2008, envolvendo duas irmãs gêmeas, Ursula e Sabina Erikson, na Suécia. As duas estavam embarcando em um ônibus e se negaram a abrir suas bagagens depois que um cão da polícia farejou algo estranho no interior delas. Eventualmente as irmãs foram liberadas pelos policiais, mas estes colocaram um agente à paisana para segui-las durante a viagem e assim descobrir se elas entregariam drogas para um receptador. Durante a viagem as irmãs começaram a ficar paranoicas acreditando que alguém as estava seguindo. Em um local de parada na estrada exigiram que o motorista abrisse o compartimento de bagagem para que elas pudessem reaver suas malas. Quando finalmente conseguiram fazê-lo, as duas saíram em disparada com o policial atrás delas ordenando que parassem. Sabina foi atropelada por um carro depois de correr para a estrada e sua irmã escapou.

Enquanto o policial e a equipe da ambulância tentava prestar o socorro, Sabina não parava de gritar e pedir socorro. Gritava que sabia quem eram na verdade aquelas pessoas e que elas estavam tentando roubar seus órgãos. Sabina foi tratada e depois transferida para uma cela por ter agredido um policial. Dentro de sua mala não havia nada estranho ou ilegal. Ela relatou que não queria saber o que encontraram na sua bagagem e mesmo quando o psiquiatra assegurou não haver nada, ela continuou manifestando seu desespero. 

Quando foi liberada da cadeia, Sabina vagou sem destino procurando sua irmã. Semanas depois ela esfaqueou um homem na rua, após perguntar a ele como chegar a uma estação de trens onde esperava encontrar a irmã. Sabina foi presa novamente e dessa vez colocada em uma instituição para doentes mentais onde permanece até hoje. No furor da cobertura da mídia a respeito do caso, a  imprensa descobriu que as gêmeas tinham um irmão mais velho. Quando contatado ele contou que as irmãs estavam desaparecidas há anos e que alegavam "fugir de maníacos que planejavam matá-las e arrancar seus órgãos". As duas haviam fugido, adotado nomes falsos e viviam clandestinamente. O paradeiro de Ursula continua desconhecido e ela está na lista de procurados na Suécia.


Mas o que causa a desordem? 

Embora existam condições pré-existentes como depressão profunda, alucinações e paranoia associados aos que sofrem de folie a deux, o que realmente se faz necessário é isolamento social e uma conexão muito forte firmada entre duas pessoas. O elo formado é tão forte e indissociável que muitas vezes os indivíduos desenvolvem uma percepção quase sobrenatural e empatia com seus parceiros. Eles são capazes de dizer o estado de ânimo, saber se estão felizes ou tristes e compreender suas motivações sem externar nada, a não ser a linguagem corporal. Em alguns casos, alegam sentir até desconforto quando o parceiro é submetido a alguma dor física. São pessoas que acreditam saber o que o outro está pensando e que muito frequentemente completam as frases uns dos outros. Em geral, esse grau de cumplicidade não significa que as pessoas são predispostas a desenvolver folie a deux, sendo necessário algo mais profundo e drástico.

Um fator determinante é algum segredo compartilhado e a paranoia de que ele venha a ser revelado. Outro fator presente é o isolamento e a interdependência que se estabelece, os indivíduos se sentem vazios e incompletos se não estiverem juntos. A dependência entre eles é completa. Por essa razão folie a deux é muito mais frequente entre membros da mesma família. Casais são cerca de 70% dos casos. Pais e filhos e parentes próximos cobrem praticamente todo o restante. Embora a psicose compartilhada seja dividida mais frequentemente entre homens e mulheres, mulheres estão entre as principais vítimas dessa doença. Em certos casos, gêmeos tendem a desenvolver a psicose, sobretudo se eles mantém uma proximidade acentuada ao longo de toda vida.

Três irmãs nascidas nos Estados Unidos, nenhuma delas com histórico prévio de doença mental, se tornaram personagens de um espetacular incidente de desordem psicótica compartilhada - folie a treux, no caso. No início, as irmãs acabaram se mudando para a mesma vizinhança com o intuito de cuidar do filho adoentado da irmã mais velha. Esta vivia com o marido, que trabalhava viajando constantemente, por isso ele concordou que toda ajuda seria bem vinda. As irmãs começaram a ficar cada vez mais próximas e se tornaram devotas religiosas. Eventualmente, a irmã mais jovem começou a manifestar uma preocupação crescente com aspectos da Bíblia que elas usavam. Ela alegava perceber padrões ocultos nos escritos como se alguns trechos se referissem especificamente a elas. Acreditando que havia mensagens cifradas destinadas a elas, as irmãs começaram a rezar em segredo no porão da casa, convertido em um tipo de templo. Lá elas se colocavam nuas diante de um altar bizarro com fotografias e palavras recortadas de revistas. Vertiam sangue das próprias veias, colhendo-o em bacias e tigelas para depois usá-lo na criação de poções curativas. Davam banhos medicinais na criança que deveriam cuidar e acreditavam que os métodos de medicina tradicionais eram ineficazes. A loucura de uma foi alimentando a das demais com elementos cada vez mais perturbadores.

Por fim, elas obtiveram uma nova revelação: o templo deveria ser levado para outro local onde as estranhas "cerimônias sagradas" deveriam ser realizadas. As três encontraram uma casa na vizinhança com a porta vermelha, como haviam visto em suas alucinações, bateram e exigiram que os moradores as deixasse usar o lugar. Quando estes recusaram, as irmãs surtaram e tentaram entrar à força. As autoridades foram chamadas e elas reagiram violentamente agredindo os policiais. As três irmãs acabaram sendo presas e colocadas no mesmo manicômio. 

Diante de tudo isso, surge a questão de como combater esse distúrbio? 


Especialistas acreditam que cortar o vínculo existente entre as partes é o método mais eficaz. Muitas vezes, quando afastados os indivíduos deixam de manifestar a desordem precisando, é claro, de acompanhamento e medicação em casos mais severos. Muitas pessoas sofrendo de psicose compartilhada são proibidas de se encontrarem, morar na mesma cidade ou procurar sua "cara-metade". Há, no entanto, exceções como no caso das três irmãs. Segundo os especialistas elas jamais conseguiram romper o vínculo que estabeleceram entre si e nas ocasiões em que foram separadas, a psicose apenas se intensificou a ponto delas se tornarem um perigo para si e para os demais internos. Desse modo, as três foram transferidas para as mesmas instalações onde continuaram realizando suas estranhas cerimônias, cantando e implorando nuas, pela ajuda divina. 

A ilusão construída é tão real e tão perceptível em alguns casos que ela se torna uma verdade única que não pode ser contestada. Em geral essa ilusão é construída em conjunto, mas imposta por um parceiro dominante que no princípio induz seu subordinado no mesmo caminho. Com o tempo a ilusão vai se intensificando e o subordinado acrescenta elementos de sua própria ilusão. 
  
Folie a Deux pode se manifestar entre outros grupos sociais fechados. Modalidades como folie a treux, à quatre, en familie são reconhecidas pela psiquiatria afetando três e quatro indivíduos, ou uma família inteira. É provável que alguns cultos radicais extremistas, adeptos de suicídios em massa e teoristas da conspiração possam ser casos manifestos de psicose compartilhada, chamados de folie à plusiers (loucura de muitos). Casos popularmente reconhecidos como histeria coletiva podem estar associados a essa doença mental.

Uma das histórias mais chocantes ocorridas recentemente ocorreu em Waukesha, Wisconsin quando duas meninas chamadas Morgan Geyser e Anissa Weier esfaquearam um menino de nove anos dezenove vezes na esperança de que isso pudesse manter a lenda urbana da internet o Slender Man afastado. 

Morgan Geyser se tornou obcecada pelo mito do Slender Man, acreditando não apenas que a entidade era real, mas que ela a visitava desde que era um bebê. Morgan e Anissa descreviam o que sugeria ser alucinações vívidas nas quais elas conseguiam enxergar o Slender Man. Passaram então a crer que se assassinassem seu amigo poderiam saciar o desejo da criatura de matar suas famílias. Anissa no entanto começou a acreditar que se o fizessem acabariam se tornando escravas do Slender Man, tendo que continuar matando para sempre. Em um diário que as duas compartilhavam, elas escreveram que temiam o que poderiam se tornar caso concordassem em levar adiante o plano homicida. Anissa acreditava que o Slender Man vivia em uma mansão abandonada em ruínas nos arredores de um bosque em Waukesha.


As duas meninas passaram meses planejando o assassinato e decidiram que ele aconteceria no dia do aniversário de doze anos de Morgan, como uma forma de ritual de passagem. Originalmente as duas amigas matariam na casa de Morgan, exatamente às duas da manhã e fugiriam para a mansão do Slender Man. Elas planejavam render sua vítima, amarrá-la com fita e esfaqueá-la com facas trazidas da cozinha. Quando chegou a hora, as duas tiveram medo e cancelaram o plano.

Na manhã seguinte a loucura e paranoia atingiu um novo patamar. As meninas alegavam ver o Slender man em todo canto, como se ele estivesse cobrando seu sacrifício prometido e negado. As crianças disseram que iam brincar em um parque que ficava na floresta próxima. Foi lá que Morgan e Anissa começaram a atacar sua vítima. Elas feriram a menina mais jovem, usando uma faca de açougueiro. Enquanto a menina perdia a consciência, elas disseram mais tarde, ouviram a aproximação do Slender Man e correram acreditando que ele reclamaria o corpo. De alguma forma a criança sobreviveu e rastejou até uma estrada onde foi encontrada por um ciclista. Morgan e Anissa foram presas pela polícia algumas milhas adiante, tentando chegar até a mansão que no seu delírio era a morada do Slender Man.

Depois do incidente, psiquiatras determinaram que Morgan sofria de esquizofrenia. Desde o nascimento a menina era acometida de episódios de doença mental, incapaz de diferenciar realidade e alucinações que sua mente criava. Anissa, no entanto, de acordo com os psiquiatras não tinha nenhum problema. Nas suas próprias palavras tudo que ela queria era "uma amiga para a vida inteira". Elas foram separadas e hoje cumprem penas em lugares separados.

Um dos elementos mais perturbadores e fascinantes a respeito de folie a deux é o fato de que sabemos muito pouco a respeito dela. Casos são raros, tornando o estudo da desordem difícil. Não existe uma fórmula para que ela se manifeste. As pessoas tendem a ser moldadas pelos pais, irmãos e pessoas amadas que convivem com elas. Em geral, esse contato e vínculo é algo positivo e essencial no crescimento afetivo, mas em alguns casos o resultado pode ser trágico e inesperado.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Fragmentado - Interpretando personagens com Múltiplas Personalidades em RPG


Na postagem anterior falamos a respeito de casos reais de Múltiplas Personalidades, se você não leu talvez tenha interesse de fazê-lo agora, clicando no LINK - Casos de Múltiplas Personalidades

Na arte de interpretar um personagem de RPG, retratar uma insanidade não é uma tarefa das mais fáceis. Meramente conhecer os sintomas e saber que um determinado personagem vê, ouve ou percebe coisas com uma sensibilidade diferente, ajuda muito pouco. Por vezes, o resultado pode acabar sendo superficial, estereotipado, carregado de preconceitos ou simplesmente sem subsídios para a criação de algo convincente.

No entanto, existem algumas pequenas regras que podem ser aplicadas para que a interpretação ganhe em autenticidade.

Assim como Hamlet, muitos indivíduos afligidos por insanidade possuem métodos em sua loucura. A doença permite a eles evitar ou adaptar a realidade de uma maneira que lhe seja mais conveniente. Em muitos casos, explorar essas condições acrescenta profundidade ao background do personagem afligido por uma insanidade.

Para efeito desse artigo, imaginemos que um personagem tenha sucumbido aos efeitos devastadores de uma revelação que danificou para sempre sua razão. Talvez ele não tenha testemunhado a existência de criaturas ou dos Deuses blasfemos, mas a mera ciência da existência deles já foi o suficiente para causar um turbilhão de insanidade que domina sua mente. Diante disso, sua razão se fragmenta por completo, resultando no que a psiquiatria compreende como Desordem de Múltipla Personalidade.

 Nesse tipo específico de desvio mental, bastante rara, o paciente desenvolve uma ou mais personalidades diversas de sua persona principal ou dominante. Essas identidades se manifestam através de uma enorme variedade de tipos, cada qual distinto em comportamento, interação e posicionamento social.

Primeiro é importante definir o que causa esse transtorno e como seria possível transferir essa condição para uma situação de mesa de jogo. Especialistas acreditam que a desordem de múltipla personalidade na maioria das vezes se instala em decorrência de uma situação com a qual o indivíduo não é capaz de lidar ou compreender em sua total extensão. Diante de uma situação extrema, o paciente fabrica uma personalidade que seja capaz de enfrentar aquela situação de uma maneira mais eficiente ou ao menos encará-la enquanto ele fica protegido. Para ambientações em que os personagens estão sujeitos a stress constante, enfrentando risco de morte, decisões fronteiriças e sujeitos a revelações devastadoras, a desordem parece perfeitamente plausível.


Imaginemos o exemplo de um personagem de Chamado de Cthulhu, jogo em que Sanidade é um conceito central. O personagem tem por ocupação ser professor de história antiga, vamos chamá-lo de Nigel Carrington e dotá-lo de uma personalidade pacífica. Em determinado momento, ele acaba investigando o terrível Culto de Cthulhu, atuando sob a fachada de uma seita congregando marinheiros. Num porão secreto veneram uma divindade marinha. O professor inicia essa investigação buscando explicações racionais para o que ele descobre, tentando relacionar a tal seita com aspectos antropológicos que ele já havia estudado superficialmente. Mas nada poderia prepará-lo para a revelação de que alguns marujos estão se transformando em seres medonhos das profundezas, ganhando escamas e guelras, lentamente se convertendo em criaturas que não deveriam existir num mundo racional.

A revelação, talvez culminando com o encontro com um ou mais híbridos ou quem sabe até um vislumbre de Dagon, faz com que a mente de Carrington se esfacele. Incapaz de aceitar aquelas noções bizarras e conceitos inquietantes, ele sofre uma perda considerável de sanidade. Existem diferentes maneiras de lidar com tais revelações, no caso do professor Carrington , para suportar o que viu, e com a concordância do narrador, ele desenvolve uma personalidade acessória. Alguém que será capaz de lidar com a informação obtida e que talvez consiga enfrentar esses horrores.

O jogador define que Carrington, quando jovem era um entusiasta de histórias de aventura e ação, ele tinha apresso por personagens de literatura barata do gênero pulp. Assim, sua mente fraturada recorre a essa memória reconfortante, envolvendo homens durões e capazes de enfrentar qualquer coisa, fabricando uma personalidade acessória, a do marinheiro Kirk Lowel. É claro, Lowel não existe, mas quando o professor se sente afligido, esta identidade acaba vindo à tona e assumindo o controle. Não seria exagero incorporar então ao personagem algumas características diversas que poderiam incluir um sotaque, maneirismos típicos de um homem do mar, uma postura mais audaciosa e heróica. Como ocorre com personalidades criadas para lutar com o medo ele seria mais agressivo. Lowel é o extremo oposto do tranquilo professor de história e é "chamado a assumir" o controle quando Carrington se vê coagido ou aterrorizado. Em termos de jogo, isso poderia se configurar pela perda de sanidade ou mediante uma situação de stress. Agindo como gatilho da transformação.

Na maioria dos casos envolvendo Múltiplas Personalidades, a persona principal quando cede a acessória, é colocada em um tipo de hibernação. Ela desaparece, como se estivesse dormindo e a outra assume as funções. São incidentes tratados como "blackouts" ou "perda do tempo", no qual o indivíduo simplesmente se ausenta. Na realidade, o que acontece é que uma das personalidades acessórias assume o controle e usa o corpo ativamente.

Filmes são uma boa fonte de inspiração. Norman Bates em Psicose (1960)
É interessante ressaltar que essa mudança de personalidade ocorre a despeito da vontade do indivíduo. A mudança do controle não pode ser usada como uma vantagem que pode ser ligada e desligada quando conveniente. O domínio de personalidades decorre de uma situação de grande stress e se manifesta a despeito da vontade da pessoa. A personalidade pode assumir o controle em momentos inapropriados e por isso ela é um inconveniente e não uma vantagem para a pessoa.

A mudança de personalidade raramente ocorre de imediato, na maioria das vezes a persona aflora após um evento traumático e de um período de relaxamento. Por exemplo, o Professor Carrington se esgueira para dentro de um velho farol abandonado. Lá dentro ele encontra uma estátua do Grande Cthulhu e ossos espalhados pelo chão manchado de sangue, além de pegadas úmidas. Sua mente febril imediatamente compreende que o lugar vem sendo usado para a realização de rituais e sacrifícios. Ele perde 3 pontos de sanidade. O mundo gira ao seu redor e ele sente uma náusea profunda, um horror inenarrável que o faz sair daquele lugar amaldiçoado aos trancos e barrancos. Em casa, o professor toma um tranquilizante e apaga no sofá da sala. Tudo que ele deseja é esquecer a visão medonha e dormir.

Ao despertar horas mais tarde, a personalidade do professor cedeu espaço para sua persona secundária, o Marinheiro Kirk Lowel assume então o comando. Ele lembra daquele lugar desgraçado, sente um ódio profundo queimando em suas entranhas e decide que vai voltar lá e destruir aquela antro maldito! Carrington talvez jamais tivesse estômago para voltar ao velho farol, mas Lowel vai levar a vingança até as últimas consequências.

Não é totalmente impossível que uma personalidade secundária aflore de imediato após um choque severo. Lowel pode assumir o controle quando o professor experimenta um trauma severo. Em termos de jogo, uma regra válida seria assumir que algo capaz de causar uma Insanidade Temporária (a perda de 5 ou mais pontos de uma só vez) e a existência de um perigo real e imediato, iriam aflorar a persona acessória repentinamente.

Uma vez assumindo o controle do corpo, a personalidade acessória passa a controlá-lo por inteiro. Em termos de jogo, isso cria um questionamento válido: Se o personagem acredita ser alguém diferente, suas estatísticas também mudariam para se encaixar nessa papel?

Como regra, o indivíduo continua em essência o mesmo, ele pode adotar os maneirismos e o comportamento do outro, pode se vestir e se portar de maneira diferente, mas em essência ele é a mesma pessoa, portanto não há mudanças em estatísticas. Talvez o personagem receba um pequeno modificador em alguns casos, mas nada além disso. O Professor Carrington não se torna mais forte e ágil quando assume a personalidade de Lowel, embora ele possa até acreditar nisso. Ele também não seria capaz de lutar com os Abissais usando um gancho, mas por acreditar que Lowel poderia fazê-lo, a critério do narrador, receberia um pequeno modificador positivo ao confrontar as criaturas.

O filme Fragmentado (2017)
Um personagem acometido por Múltiplas Personalidades poderia criar várias identidades, não existe de fato um limite, o que é bastante assustador. Uma pessoa pode começar com uma, passar para duas e terminar com vinte diferentes personalidades muito particulares que coexistem e assumem de tempos em tempos o controle. Diferentes situações acabam fazendo aflorar diferentes personas, cada qual adaptada a uma situação.

Quando Lowel não é suficiente, o Professor Carrington pode inventar a identidade de James Olsen, um vagabundo sem endereço fixo que o leva a sair da cidade e se esconder. Pode construir a persona de Kate Meadows uma criança de seis anos que na sua concepção não seria vítima de monstros por ser inocente e protegida por uma força divina. Talvez suas frustrações ensejem a criação de Giuseppe Neri um imigrante italiano ligado ao crime organizado e que resolve as coisas com armas e violência.

Múltiplas Personalidades constitui uma desordem adequada apenas a personagens cuja vida foi realmente afetada por um incidente grave. A perda de 20% ou mais da sanidade original pode ser uma condição para tanto.

Não importa quantas personalidades o personagem constrói, a persona dominante eventualmente volta ao comando. Personas acessórias podem se manter no controle por várias horas ou mesmo dias, se a ameaça vigorar por muito tempo. Um período de 1d20 horas + 1 hora para cada ponto de sanidade perdido é adequado. Ao fim deste, o indivíduo se sente esgotado física e mentalmente. Ao dormir, a identidade original reassume suas faculdades sem ter uma lembrança clara do que aconteceu. Estas podem vir a ele na forma de fragmentos desconexos ou sonhos vívidos.

Essa condição me parece perfeitamente adaptável em chamado de Cthulhu, rastro ou outros jogos inspirados pela obra de Lovecraft e com a presença nefasta dos Mythos. Uma vez que loucura é um elemento importante o tema pode ser facilmente inserido desde que não repetitivamente. 

Na trilogia senhor dos Anéis, Gollun e Smeagol dividiam o mesmo corpo com personalidades opostas 
Até onde sei, não existem regras específicas em nenhum sistema para interpretar personagens com Múltiplas Personalidades, mas não vejo um impeditivo para que Mestre e Jogador não possam sentar na mesa e discutir a possibilidade e definir parâmetros. Considerando quais as condições em que se manifesta, quanto tempo a condição se mantém e no que enseja essa mudança de personalidade, é bem tranquilo adaptar a condição para as mais diferentes ambientações. 

Imagino em Dungeons and Dragons um personagem acometido por múltiplas personalidades depois de ser vítima de um ataque de Devorador de Mentes (Illithid). Talvez outro possa ter criado diversas personas em face de uma agressiva sonda mental realizada por um personagem psiônico. Finalmente, a perturbação pode se manifestar depois que o personagem testemunha a morte de seus antigos companheiros enquanto exploravam uma masmorra especialmente perigosa. Quem sabe o sobrevivente tenha adotado múltiplas personalidades ligadas aos seus companheiros mortos e estas sejam as que se manifestam quando ele perde o controle. A tortura empregada por um Lich, os jogos mentais de um vampiro, as depredações de um Beholder... tudo isso pode servir de explicação para o surgimento de Múltiplas Personalidades num personagem de Cenário de Fantasia e seria bem vindo em Accursed, Belregard e até 7th Sea ou Five Rings.

O mesmo pode acontecer em outras ambientações como Numenera ou Strange onde o ambiente estranho parece favorável ao florescimento de desordens mentais. Um artefato de Numenera poderia causar essa fragmentação e a construção de várias identidades. Em Strange é ainda mais claro, uma vez que diferentes corpos podem se prestar a receber a mesma consciência. Em campanhas Sci-Fi as múltiplas personalidades poderiam ser decorrentes do contato com alienígenas ou tecnologia desconhecida. No Oeste Macabro de Deadlands um pistoleiro afligido por espíritos de nativos que ele matou poderia justificar o surgimento de personalidades. E até no Mundo das Trevas, é fácil imaginar uma criatura amaldiçoada desenvolvendo personas acessórias depois de ser confrontado com coisas aterrorizantes durante sua existência.


É importante compreender que essa e qualquer desordem de cunho mental deve ser tratada com certo grau de maturidade e que se algum dos envolvidos não estiver à vontade com seu uso, ela não deve ser levada adiante. Sempre é bom lembrar que RPG é um entretenimento e qualquer situação que extrapola esse conceito deve ser evitado.

As tabelas abaixo não se propõem a ser regras, mas disposições em linhas gerais para a criação de um Personagem com Múltiplas Personalidades. Cabe ao Narrador a decisão final se tal coisa pode ou não figurar em sua campanha. 

QUANTAS PERSONALIDADES HABITAM O MESMO CORPO?

Segundo a Psiquiatria não existe um limite. Em geral Múltiplas Personalidades se formam gradualmente e vão se desenvolvendo e ganhando detalhes que são incorporados a elas. Algumas simplesmente são absorvidas, se fundem ou desaparecem depois de algum tempo, outras vão se tornando cada vez mais detalhadas. Comece sempre com uma e vá desenvolvendo as personas a medida que elas forem surgindo.

Role o d20

1-10 - Uma personalidade acessoria
11-15 - Duas personalidades acessórias
16-18 - Três personalidades e outras não muito detalhadas
19 - Uma quantidade indefinida com uma ou duas detalhadas e outras não muito detalhadas.
20 - Uma quantidade indefinida de personalidades, todas elas bem detalhadas e definidas. 

QUANDO A PERSONALIDADE SE MANIFESTA?

As personalidades se manifestam em determinadas situações permanecendo adormecidas normalmente e vindo à tona quando condições propícias se apresentam.

Role o d20

1-10 - Em situações de grave ameaça e risco, como uma forma de defesa e preservação
11-13 - idem ao anterior e também em situações de medo profundo.
14-16 - idem aos anteriores e também em situações de incerteza e dúvida.
17-19 - idem aos anteriores e também em situações de excitação.
20 - As personalidades podem surgir a qualquer momento por diferentes motivos

QUAL O SEXO DA PERSONALIDADE?

Indivíduos podem criar Identidades de qualquer gênero, mas em geral eles seguem o mesmo gênero da identidade original. 

Role o d20

1-14 - A persona é do mesmo sexo que a identidade original.
15-19 - A persona é do sexo oposto a identidade original.
20 - A persona não possui um gênero definido, este é fluido ou variável.


QUAL A IDADE DA PERSONALIDADE?

Role o d20

1-10 - a idade da persona é equivalente a idade da identidade original.
11-14 - a idade da persona é 2d10 anos mais jovem do que a identidade original (mínimo de 6 anos)
15-18 - a idade da persona é 2d10 anos mais velha do que a identidade original.
19 - a idade da persona é variável ou fluida.
20 - a idade não é um elemento aplicável. 

QUAL O TRAÇO PREDOMINANTE DE SUA PERSONALIDADE?

define qual o traço predominante na personalidade construída. Esse traço tende a ser muito forte e realçado em cada ação como se definisse o indivíduo.

Role o d20

1-5 - Agressivo - O traço mais frequente em indivíduos com Múltipla Personalidade, sugere uma atitude beligerante e sempre disposta a confrontar.
6-7 - Passivo - A personalidade é tranquila e acata tudo que é dito.
8 - Imaturo - A personalidade é infantil e tende a se comportar como uma criança.
9 - Sádico - Agressividade voltada para provocar dor ou ressentimento.
10 - Masoquista - A personalidade tem um interesse em sofrer física ou mentalmente.
11 - Expansivo - A personalidade se comporta como alguém a vontade em qualquer ambiente.
12 - Retraído - A personalidade é fechada, quieta e tímida.
13 - Dominador - A personalidade tenta sempre controlar a situação e impor sua razão.
14 - Seguidor - A personalidade aceita as ordens de alguém que ela elege como seu líder.
15 - Libidinoso - A personalidade é refém de seus desejos e vontades e faz de tudo para satisfaze-los
16 - Pudico - A personalidade refreia seus desejos e vontades ao ponto da paranóia
17 - Enérgico - A personalidade está sempre disposta e pronta para agir.
18 - Preguiçoso - A personalidade deseja apenas descansar sem tomar parte em nada
19 - Violento - A personalidade está disposta a exercer a força mesmo que não precise.
20 - Escolha dois traços predominantes que não sejam opostos

QUAL A ORIGEM DESSA PERSONALIDADE?

1 a 10 - O personagem é um estranho que vem do mesmo lugar da identidade original.
11-15 - A origem é desconhecida.
16-18 - A persona possui um grau de parentesco direto com a identidade original.

Role d6

1-2 - Irmão/Irmã
3-4 - Pai/Mãe
5 - Avô/Avó
6 - Outros (Tios, sobrinhos, primos etc...)

19 - A persona possui várias origens e muda constantemente sua história.
20 - A persona cria origens e muda sua história constantemente mentindo e enganando propositalmente.

EXCENTRICIDADES

Indivíduos com Múltiplas Personalidades muitas vezes possuem um comportamento recorrente que tende a ser uma assinatura da persona.

Role o d20

1 - A personalidade copia quem está perto ou tentar imitar alguém que admira.
2 - A personalidade rói as unhas constantemente até a carne.
3 - A personalidade gagueja quando nervosa e costuma ter dificuldade em seu comunicar. 
4 - A personalidade xinga e pragueja constantemente
5 - A personalidade estala os dedos constantemente
6 - A personalidade tem um tique nervoso e pisca de maneira afetada.
7 - A personalidade tem uma voz abafada e gutural, ela fala sussurrando
8 - A personalidade não consegue ficar parada, ela precisa se mover constantemente
9 - A personalidade raramente fala, ela prefere observar ao invés de falar
10 - A personalidade não consegue parar de falar, suas palavras parecem uma metralhadora.
11 - A personalidade está sempre doente e se queixa de dores fantasmas
12 - A personalidade sofre de transtorno compulsivo.
13 - A personalidade sofre de uma fobia severa e sempre fala a respeito
14 - A personalidade está sempre rindo ou então chorando
15 - A personalidade precisa roubar pequenas coisas e guardar.
16 - A personalidade é mentirosa compulsiva e sente prazer em enganar
17 - A personalidade é irritável e sempre quer provar alguma coisa a respeito de si mesma.
18 - A personalidade fala sozinha e ignora os outros
19 - A personalidade assume um comportamento sedutor ou libidinoso  
20 - A personalidade age como um maníaco agressivo e está sempre disposto a brigar