domingo, 18 de novembro de 2018

Nenhum tabu - Os Monges Canibais da India e seu bizarro estilo de vida


Através da história humana existiram cultos e sectos religiosos que causam sensações variadas a respeito de suas práticas. De curiosidade a surpresa, estupefação, ou mesmo medo e repulsa. Seja pelas suas práticas consideradas bizarras, pelos rituais perturbadores ou pelas crenças extremas beirando o fanatismo, alguns grupos causam verdadeiro choque em quem os observa pela primeira vez. Um grupo misterioso que causa reação dessa natureza é a bizarra tribo de místicos canibais da India conhecidos como Aghori, ou Aghori sadhus.

Os Aghori sadhus formam um culto ascético do hinduísmo que se consideram Shivistas, significando que são devotos do Deus Shiva, uma poderosa divindade hindu voltada para a morte e destruição, por vezes referida largamente como "Destruidor" e "Transformador". Os Aghori teriam surgido a partir de uma cisão de outro grupo de adoradores de Shiva, os Kapalika, em algum momento do século XIV. O atual secto entretanto incorporou os ensinamentos de um monge chamado Kina Ram, que viveu no século XVIII e é considerado pelos devotos como a encarnação de Shiva. Segundo a crença Kina Ram possuía poderes sobrenaturais, capacidade de vida e morte sobre as pessoas e teria vivido até os 150 anos de idade. 

Os Aghori são monistas que se desviaram dos ensinamentos e crenças tradicionais do hinduísmo. Eles não acreditam em alguns preceitos centrais da fé hindu, sobretudo o que diz respeito a distinção de pureza e impureza. Eles basicamente não acreditam na dualidade do universo, em uma divisão de certo e errado, defendem que não existe nada puro ou impuro, e que não deve haver nenhuma diferença. Para os Aghori, nada no universo é totalmente "bom" ou "mal", mas uma manifestação de seu Deus e portanto perfeito em suas falhas. Negar qualquer coisa, afastar ou ter preconceitos é negar a exist~encia de um Ser Supremo. Eles acreditam também que todos os seres humanos, incluindo outros hindus, vivem em um mundo de ilusões. Eles são incapazes de ver além de um véu de preconceitos que os obriga a separar tudo.


Os Aghori acreditam que Shiva está ao seu alcance e desejam transcender de seu corpo, ou shava, de maneira absoluta, para se tornarem uma parte do Deus. Para atingir esse estágio, eles precisam atingir um estado de indiferença total. Eles devem abraçar a morte, afastar tudo que poderia lhes causar preconceitos e repulsa, vencer os medos tradicionais e negar todos os prazeres físicos bem como as emoções de raiva, desejo ou vergonha. Da mesma forma, os monges abrem mão de qualquer sinal de sua passagem pelo mundo, portanto eles se afastam de suas famílias e bens. Através da negação total de sua identidade, da superação dos tabus e abraçando a igualdade, os Aghori acreditam que serão capazes de remover os laços que os mantém presos ao ciclo de reincarnação e que os impede de se tornar um com Shiva.

Membros da seita também acreditam que a maneira mais eficiente de atingir a luz do conhecimento é trilhar um caminho tortuoso através da mais profunda escuridão. Eles buscam a pureza na morte e em tudo aquilo que as demais pessoas consideram como maligno, sujo ou moralmente errado. Essa visão não ortodoxa, bem como seu desejo de abraçar todos os tabus, formam a base de complexos rituais que aos olhos de forasteiros são incompreensíveis, medonhos e aterrorizantes.


O atributo menos ofensivo dos Aghori reside em seu comportamento atípico. Eles usam um tipo de dialeto próprio repleto de palavrões e se dirigem às pessoas sempre gritando e xingando. Os monges acreditam que compartilhar blasfêmias é uma maneira de afastar tabus e portanto usam de irreverência e cinismo sempre que possível.

Os Aghori consomem drogas que alteram a sua percepção e servem para afastar qualquer timidez ou auto-censura. Eles fumam uma quantidade absurda de maconha, não para fins recreacionais, mas para aprofundar suas experiências espirituais e permitir uma maior percepção durante os rituais que exigem meditação. Os monges não cortam os cabelos ou aparam a barba, deixando que eles cresçam em longos dreadlocks emplastados com lama e urina para ficarem duros. Raramente se lavam ou tomam banho. Vestem-se com roupas simples, muitas vezes apenas o suficiente para poder transitar com mínimo decoro, mas alguns abrem mão de qualquer traje e andam nus, exceto por pesados colares de madeira em volta do pescoço. 

O fedor que os acompanha é ofensivo, quase insuportável. Em uma sociedade de castas como a da India, os Anghori sadhus seriam naturalmente considerados como párias e afastados do convívio das pessoas, contudo, eles também são monges e portanto respeitados pela sua devoção. Como resultado eles são tolerados ainda que vivam nas margens da sociedade, praticamente como mendigos que dependem da caridade alheia.

Em um esforço para quebrar todas as convenções e afastar emoções fracas e medos, os Aghori são infames por comer qualquer coisa. A dieta dos monges é suficiente para provocar náuseas e causar repulsa em pessoas sensíveis. Eles comem comida podre e lixo decomposto para horror de todos que assistem esse espetáculo escatológico. Por vezes, consomem tais substâncias revoltantes em bacias feitas de crânios humanos ou com talheres confeccionados com ossos. Enquanto a maioria das pessoas acha tal coisa revoltante, os Aghori acreditam que isso mata o ego e nega a percepção de beleza. Além disso, uma vez que eles não acreditam em "pureza" ou "impureza", não faz diferença se a comida consumida é asquerosa ou mesmo palatável. Para eles, se alimentar de lixo é o mesmo que consumir qualquer outra coisa.   

Os rituais de morte e o uso de restos humanos também são parte importante do dia a dia dos monges. Com o objetivo de confrontar a morte e a decadência, os Aghori costumam viver perto de cemitérios e locais de cremação, que são considerados como lugares sagrados por Shiva. Nos lugares de cremação, os Aghori coletam cinzas que usam para cobrir os seus corpos. Eles vestem ocasionalmente pequenas jóias e adereços feitos de osso e cabelo trançado, alguns também utilizam cajados cuja matéria prima são ossos humanos amarrados, em geral o fêmur. Uma sinistra bacia chamada kapala, é confeccionada com um crânio humano cujo topo é removido. Ela é levada em volta do pescoço com uma corda feita de cabelos humanos; usada para beber, como prato para a comida ou para receber esmolas.


A intimidade com os mortos não se limita a criar utensílios para o dia a dia. Os Aghori são conhecidos por usar cadáveres com uma espécie de altar no qual eles meditam, uma prática conhecida como shava samskara. Para isso, eles simplesmente dispõem um cadáver, na falta dele, restos humanos, sobre o qual sentam em posição de lótus. O contato, na crença dos monges ajuda a projetar seus pensamentos e limpa a mente.

O secto entretanto, talvez seja mais notório por suas práticas repulsivas de canibalismo. O ato de consumir restos humanos é parte de um ritual com o objetivo de absorver efeitos medicinais que reduz os sinais do envelhecimento, mas que também tem um simbolismo próprio. O de compartilhar de uma mente universal. A carne humana é cortada de cadáveres e então consumida crua ou cozida em uma fogueira. Por vezes, a fonte é uma sepultura da qual o cadáver putrefato foi removido. O pedaço desejado é cortado cuidadosamente, e o resto guardado de volta.  

Por mais macabro e revoltante que isso possa parecer, os Aghori não matam ou ferem as pessoas. Toda a sua relação com restos humanos, seja na construção de ferramentas ou na alimentação, advém de cadáveres. Em geral, esses cadáveres pertencem a pessoas que foram depositadas nas águas do Rio Ganges, considerado sagrado pela religião hindu. Na India, o costume de cremar os cadáveres é bastante difundido, mas algumas pessoas não devem ser cremadas de acordo com os preceitos religiosos. Estes incluem crianças, homens santos, mulheres grávidas, mulheres solteiras e aqueles que morreram de lepra, mordidas de cobra ou por suicídio. Ao invés de serem cremados, estes corpos são comumente descartados nas águas do Rio Ganges para serem carregados pela maré. O objetivo é simbólico, as águas do Rio sagrado lavam os pecados e deixam o corpo purificado. Por vezes, mesmo os corpos queimados acabam flutuando no rio, onde o fogo acaba se apagando, deixando os restos apenas parcialmente cremados. As pessoas tendem a não se importar com o destino desses restos, eles são considerados meramente como cascas vazias que não tem mais uma função.

Os Aghori costumam procurar por estes restos, muitas vezes lançados nas margens do rio. Eles são usados como altar de sua meditação, como recurso para a criação de objetos práticos ou então, para o consumo da carne.  


Apesar de toda a imagem sinistra que cerca os Aghori, a noção de morte e decadência associada a eles não os impede de serem respeitados. Muitas pessoas consideram que os monges possuem um talento para operar milagres de cura. Eles próprios, a despeito da maneira revoltante em que vivem, raramente sofrem com doenças. Existe a crença de que os Aghori dominam rituais e magias que lhes permite absorver todo tipo de moléstias e então curar a si próprios. Para absorver essas doenças, a magia Aghori exige contato físico, por vezes íntimo entre doente e mago. Alguns rituais exigem carícias, toques, lambidas e até mesmo um forte componente de cunho sexual. A ideia é que Shiva se deleita com os atos de cura realizados pelos seus monges.

Existem boatos de que xamãs Aghori sejam capazes de criar fórmulas mágicas, soluções, bálsamos e pomadas com ingredientes bizarros (que é melhor nem descrever aqui) capazes de curar uma infinidade de doenças que pela medicina tradicional estão além de qualquer socorro. Segundo rumores, até mesmo Câncer e AIDS poderiam ser curados pela intercessão dos poderes medicinais dos feiticeiros. 

É claro, os Aghori não são bem vindos em todos os lugares. Os indianos modernos não toleram a presença deles e em geral as autoridades são chamadas para interceder e remover os monges quando eles aparecem em lugares impróprios. Apesar das tradições serem largamente respeitadas, o comportamento dos monges é suficiente para causar comoção, sobretudo quando há turistas presentes. Eles são tolerados em áreas rurais e regiões afastadas nas quais prevalecem costumes antigos, enraizados no seio da sociedade. Os Aghori podem ser encontrados mais comumente no norte da India, seguindo o curso do Ganges, particularmente no Vale de Varanasi, onde os Templos mais importantes dedicados a Shiva foram erguidos. O mais sagrado dos templos Aghori supostamente guarda os restos de Kina Ram, o sacerdote que deu início ao secto.


Há muitas religiões, seitas e cultos mundo afora, crenças que são compartilhadas por pessoas de todas as raças e nacionalidades. Todas tentam oferecer aquilo que o ser humano, em geral, deseja: uma resposta para questões existenciais e quem sabe, a verdade cósmica. Quem somos? Para onde vamos? Qual o nosso propósito? Apesar de desconcertantes as práticas dos Aghori fornecem uma revelação mística aos seus seguidores e eles parecem felizes com ela. 


Mas será que eles deveriam ser permitidos a continuar trilhando esse caminho bizarro? 

Quem pode dizer ao certo? 

A despeito de nossa opinião ou preconceitos, os Aghori continuam existindo na India e não demonstram qualquer sinal de que vão um dia desaparecer. Quem sabe se eles, ao seu modo, não conseguiram atingir a tão desejada iluminação.

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