terça-feira, 13 de novembro de 2018

Safra de Horrores - Uma lista de fimes lovecraftianos sem ser lovecraftianos


Todo fã de filmes de terror e de H.P. Lovecraft espera ansiosamente por um filme de qualidade inspirado na obra do distinto Cavalheiro de Providence.

Infelizmente a carreira de Lovecraft no cinema rendeu uma safra variada de filmes no que diz respeito a qualidade. Eu costumo dividir os filmes baseados na obra de Lovecraft em três tipos:

1) Aqueles bastante fiéis, sobretudo por serem feitos por fãs, como "The Call of Cthulhu" e "The Whisperer in Darkness" ambos produzidos pela HPLHS (HP Lovecraft Historical Society). "The Mountains of Madness" que seria dirigido por Guilhermo del Toro prometia ser absolutamente fiel ao conto, e sem dúvida tinha chances de vir a se tornar o expoente máximo desse exemplo, mas Prometheus acabou com esses planos (maldito seja Ridley Scott!!!!)

2) Os que ganharam o status de cult conquistando uma legião de fãs ainda que deixem a desejar no quesito fidelidade a fonte original, como "Re-Animator", "From Beyond" e "Dagon". Esses estão longe de serem ruins (bem, boa parte ao menos) ainda que eu imagine que Lovecraft ficaria corado como uma beterraba diante das cenas de indisfarçável saliência e enjoado com o festival de sangue e tripas de algumas produções.

3) E finalmente há aqueles que são simplesmente medonhos. Filmes ruins demais que tentam ganhar um pouco de reconhecimento ou granjear fãs chapinhando elementos típicos do universo lovecraftiano. São em geral produções rasteiras que pinçam nomes de criaturas ou referências menores. Alguns até podem ser divertidos, mas a grande maioria é de lascar.

Mas há ainda uma quarta vertente. São aqueles filmes levemente inspirados no Universo de Horror Cósmico do Mythos, sem contudo assumir isso em momento algum. Exemplos clássicos são "O Enigma do Outro Mundo", "O Nevoeiro", o primeiro "Hellboy" e até mesmo "Alien, o oitavo passageiro". Eu costumo chamar esses filmes de "Lovecraftianos sem ser Lovecraftianos".

São filmes onde as "digitais incriminatórias" que apontam para um roteiro inspirado por Lovecraft estão em toda parte. Filmes em que os fãs conseguem encontrar os indícios claros, mas que não possuem uma ligação assumida com a mitologia Cthulhiana.

Aqui está uma pequena lista de filmes tipicamente lovecraftianos, mas onde você não ouvirá uma vez sequer os nomes Cthulhu, Dagon, Necronomicom etc... alguns deles são bastante obscuros, mas é possível encontrá-los com algum esforço na internet. Nem todos são "bons", alguns são meio "estranhos", mas no geral são filmes com uma pitada de tentáculo, aqui e uma blasfêmia ali.

Ok, eu confesso que tomei emprestado o mesmo texto que escrevi anos atrás quando escrevi um artigo exatamente sobre o mesmo tema. Incrível que de lá para cá, pouca coisa mudou e as referências continuam rigorosamente as mesmas. Continuo esperando "aquele filme" lovecraftiano que vai definir o gênero e fazer jus à literatura de Lovecraft. Enquanto isso, vamos nos agarrando ao que temos. 

Sem mais delongas, a lista:

1) O Culto (The Endless, 2017)


Dois irmãos recebem um vídeo enviado por um culto do qual eles fugiram anos atrás, quando ainda eram crianças. A seita os convida a retornar e desfazer más impressões deixadas... O irmão mais velho, Justin desconfia dos motivos do grupo que na sua opinião era uma espécie de seita suicida que venerava discos voadores. Aaron, o mais jovem, no entanto, tem ótimas lembranças do tempo que passou na companhia do grupo. Justin não sabe se os seus temores são justificáveis ou não. Ele não testemunhou nenhuma morte e sua desconfiança parece ser mero preconceito. Depois de muito ponderar os dois acabam retornando para reavaliar suas experiências. Aaron acaba se apaixonando por uma colega. Justin sente que há algo estranho no ar. E realmente algum estranho fenômeno parece prestes a acontecer a medida que um dia especial para o culto se aproxima. 

Ok, a premissa é interessante! Quando eu assisti o trailer fiquei ansioso para encontrar o filme e procurei por ele por semanas... período em que criei uma grande hype a respeito da produção. Grande erro! Nada prejudica mais um filme do que construir a respeito dele uma grande expectativa.

Não que "O Culto" seja ruim. Não é...

O filme tem excelentes momentos e boas ideias. Há algumas coisas surreais na trama e ela tem alguns momentos interessantes que acenam com um mistério realmente intrigante. Mas no fim, fica devendo. As respostas não são suficientes e as coisas no final ficam um tanto sem explicação... Talvez o maior pecado do filme seja sinalizar com uma história que à primeira vista é de horror, mas que no fim das contas, não passa de uma ficção científica light.

Endless é diferente, um filme bem feito e bastante inovador, mas ainda assim, falta alguma coisa que o impede de ser o que poderia ser. Ainda assim, vale a pena arriscar!

2) Primavera (The Spring, 2014)


Do mesmo diretor e roteirista de "O Culto", Primavera é outro filme estranho e difícil de encaixar em um único gênero. Ele começa como um drama, se transforma em um romance, passa para o reino da Ficção Científica e consegue causar alguns arrepios com pitadas de horror.

Talvez a melhor definição desse filme seja uma história de amor mitológica, com algumas reviravoltas imprevisíveis. Uma história de como o verdadeiro amor pode superar obstáculos aparentemente intransponíveis e achar o seu caminho. E entre uma e outra cena de romance há espaço para sequências sangrentas, bizarras e estranhas. O ritmo é dolorosamente lento e você fica se perguntando o que diabo vai acontecer, e torcendo para que aconteça de uma vez. Ao contrário do outro filme, aqui as coisas são explicadas, mas quando vem a explicação é impossível deixar de pensar: "Caraca, que diabo foi isso que eu acabei de assistir"?

Primavera é um filme que tem o mérito de ser despretensioso e justamente por isso, te pega de surpresa e consegue envolver. 

A história é simples. Evan cuida de sua mãe desenganada no leito de morte. Quando finalmente ela sucumbe, o rapaz acaba se envolvendo em uma briga estúpida, motivada pelo seu luto. Para evitar problemas com a polícia, ele decide se afastar e passar algum tempo na Itália, ao menos, até a poeira baixar. Uma vez lá, Evan conhece outros mochileiros e começa a explorar a cidade, tentando aproveitar suas férias. Eventualmente ele cruza o caminho de uma bela mulher chamada Louise e se sente atraído por ela. Por sua vez, ela retribui, e os dois começam a namorar. O que emerge disso, entretanto, não é uma relação óbvia como se poderia imaginar... a misteriosa e impulsiva Louise não é exatamente o que Evan imaginava e tudo indica que ela está escondendo algum tipo de terrível segredo.

Há algo claramente lovecraftiano na trama, que remete a uma das histórias clássicas do mestre do horror. Primavera é um filme discreto, sensível e inovador, características que nem sempre casam bem com o gênero horror. Mas aqui, a mistura resulta em algo, no mínimo, interessante. 

3) A Dark Song (2016)


Rapaz, eu gostei muito desse aqui e acho que ele até merece uma resenha maior.

A Dark Song é um filme sério, dark e com um ritmo lento, mas que consegue manter o interesse ao longo de toda a sua duração. Ele não mostra praticamente nada, não há gore ou criaturas, não há sangue em excesso ou efeitos especiais, mas mesmo assim, ele consegue entrar na sua pele e perturbar. Bons filmes de horror, causam esse efeito, graças a atmosfera e clima que vão construído cena a cena. E a atmosfera aqui é pesada, o clima de trevas!

A Dark Song pode ser sutil, mas é uma bela história de horror. 

Com grandes atuações, roteiro muito bem escrito e uma direção eficiente, os dois personagens principais disputam a atenção do espectador que fica em dúvidas a respeito de quem ali está planejando enfiar a faca nas costas do outro. Não há sustos baratos ou tentativas bobas de assustar, tudo é milimetricamente calculado. O roteiro vai se abrindo como um pesadelo claustrofóbico e o ambiente confinado de uma casa isolada na região rural da Inglaterra, usada como base para um ritual de invocação, funciona perfeitamente. A medida que a história progride, os personagens vão mergulhando em uma espiral de tensão cada vez mais sinistra e mórbida que vai acabar por sobrepujá-los.

O enredo é simples, mas muito bem amarrado.

Uma mulher obcecada pela morte de seu filho, vítima de um grupo de adolescentes que realizaram um ritual de magia negra, aluga uma casa isolada no interior da Inglaterra. Ela contrata um ocultista veterano e calejado, assombrado pelos seus próprios fantasmas, para conduzir um intrincado ritual. Seu plano é contatar o filho e saber o que aconteceu, no entanto ela esconde suas verdadeiras intenções.

Grande parte do filme se desenrola enquanto a dupla cumpre os extensos rituais de purificação e os preparativos para a cerimônia. Não me lembro de um filme ter conseguido capturar com tantos detalhes elementos do mundo oculto e da feitiçaria de uma maneira tão convincente. O resultado é um suspense muito bem feito e um final bastante inteligente.

4) Ghost Stories (2017)


É difícil falar desse filme sem recair em algum spoiler, portanto, vou tentar ser especialmente cuidadoso ao falar dele.

Ghost Stories é daqueles filmes de horror que contam uma história central, que por sua vez se desenvolve a partir de histórias secundárias. De fato, há três histórias acessórias, cada qual com seus pontos fortes e fracos, mas de um modo geral, agradáveis de assistir. Há alguns sustos aqui e ali, suspense considerável e algumas cenas de humor negro que vão desenhar um sorriso nervoso na sua face.

A trama tem uma excelente premissa: Phillip Goodman é um cético investigador do sobrenatural, um homem de ciência que ganha a vida expondo farsas e provando fraudes alegadamente sobrenaturais. Ele é procurado por um de seus ídolos, um velho estudioso que realizava o mesmo tipo de pesquisa que ele, desmascarando charlatãos. No fim da vida, o velho propõe que Phillip investigue três casos sobrenaturais que ele não conseguiu desvendar e sugere que estes podem realmente conter elementos sobrenaturais. A cada caso investigado, Phillip mergulha em uma situação diferente que vai mudando sua percepção e acaba tendo um efeito dramático em suas crenças.

A produção é muito caprichada e o elenco excelente, contando com a ilustre presença de Martin Freeman, o rosto mais conhecido presente. Não consigo falar muito mais a respeito desse filme sem entregar alguma coisa, então é melhor nem tentar ir além.

Infelizmente, justo no clímax o filme se perde um pouco e acaba saindo dos trilhos. Eu fiquei um pouco desapontado com a conclusão, mas ainda assim, é um filme interessante que vale a pena ser assistido. Há algo de mórbido e sinistro, principalmente na segunda e terceira histórias que remetem a algo decididamente lovecraftiano.

Assista e tire suas próprias conclusões...

5) A Casa do Medo - Incidente em Ghostland (Incident in a Ghostland, 2018)


Eu estava esperando esse aqui desde que vi o trailer e tentei a todo custo conter a hype ao redor dele.

O filme é de Pascal Laugier diretor e roterista de Martyrs, filme que me deixou de cabelo em pé e sem palavras anos atrás. Eu estava aguardando ansiosamente, mas os primeiros comentários muito polarizados me deixaram com um pé atrás... algumas pessoas falavam que era uma verdadeira obra prima e um clássico imediato, outros que o filme era risível, fraco e sem substância. Realmente, se você pegar as críticas, vai encontrar notas extremas para cima e para baixo, gente atribuindo a ele a nota máxima de cinco estrelas e outros uma única estrela, pois é a nota mínima.

Eu vou no caminho inverso. Vou dizer que achei ele mediano e que duas estrelas e meia estaria de bom tamanho.

O filme começa bem, segue em um caminho que te deixa intrigado a respeito do que vai acontecer, mas na metade pega um atalho totalmente diferente, enveredando por uma trama meio confusa e esquisita. É uma pena, pois tinha tudo para ser um filme de terror bem acima da média. O diretor consegue construir um clima angustiante e cenas altamente impactantes sobretudo no primeiro ato que conta a história da invasão da casa. Dali em diante a coisa perde o rumo, levando a um final meio sem graça.

Na trama uma família composta pela mãe e duas garotas adolescentes de temperamento totalmente oposto, seguem para seu novo lar, A casa é parte de uma herança, recebida após a morte de uma tia distante. Na estrada, as três acabam cruzando o caminho de uma dupla de maníacos realmente perigosos. Eles invadem a casa no meio da madrugada, dispostos a fazer as maiores barbaridades. As três precisam lutar com unhas e dentes pelas suas vidas. Dezesseis anos mais tarde, quando se reúnem novamente, na mesma casa, as coisas se tornam realmente estranhas.

O filme faz um aceno para o velho Lovecraft logo na abertura. Uma das meninas é fã de Lovecraft e aspira ser uma escritora de horror que tem no cavalheiro de Providence sua maior inspiração. Mas não há praticamente nada de Horror Cósmico no roteiro. O terror aqui é basicamente psicológico, dramático e carregado de melancolia e amargura. Apesar do título remeter a "Fantasmas", o filme não tem nada de assombrações ou sobrenatural... isso no entanto, não impede de ser bastante assustador.

Assista por sua conta e risco.

Por enquanto são esses... mas tem outros filmes para incluir nessa lista.

8 comentários:

  1. Recomendo The Void , ele tem uma pegada lovercrafthiana com criaturas dos pesadelos, gore na medida certa

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    1. The Void recebeu uma resenha só pra ele. Dá uma conferida:

      http://mundotentacular.blogspot.com/2017/05/cinema-tentacular-void-resenha-do.html


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  2. Bela lista. Deu vontade de assistir.

    Abraço!

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  3. Fala Luciano, da lista o unico que não vi ainda foi dark song mas já esta na lista depois desse trailer e resenha.

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  4. "3) E finalmente há aqueles que são simplesmente medonhos. Filmes ruins demais que tentam ganhar um pouco de reconhecimento ou granjear fãs chapinhando elementos típicos do universo lovecraftiano. São em geral produções rasteiras que pinçam nomes de criaturas ou referências menores. Alguns até podem ser divertidos, mas a grande maioria é de lascar."

    Fiquei curioso com esses filmes. Se alguém puder citá-los...

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    1. Tem um horrível no pior sentido. Chamasse "The Dunwitch Horror". Seria uma atualização de um clássico da década de 70 do mesmo nome, mas é ruim de dar dó. Na tentativa de agarrar o possível fã, apela pro recurso barato da citação a elementos lovecraftianos totalmente fora do sentido. O Velho Castro vira uma coisa nada a ver com o conto original "O Chamado de Chtulhu". Adiantado uma desgraceira do filme.

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  5. Fugindo um pouco do assunto, eu vi ali menção ao nevoeiro. Esse conto faz parte do universo de a torre negra. Elas criaturas da escuridão todash. Bem vai que um dia eu vejo uma resenha aqui kkk . Stephen King tem influências de lovecraft em seus contos e na torre negra também.

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    1. Tem uma resenha do filme "O Nevoeiro" (The Mist) aqui e uma análise de várias das criaturas do filme. Dá uma procurada que você encontra fácil.

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