quinta-feira, 7 de outubro de 2021

O pior de todos nazistas - A maldade monstruosa de Oskar Dirlewanger


ATENÇÃO: Esse artigo possui descrições gráficas que podem ser perturbadoras. 

Muitos filósofos já se debruçaram sobre uma questão central  a respeito da humanidade: a origem do mal. Por que certos homens são capazes de promover ações medonhas sem se importar em absoluto com a repercussão de seus atos é outros se enojam com elas? De onde surge e o que motiva o mal? Como ele contamina as pessoas e como os transforma em monstros?

Alguns estudiosos acreditam que certas condições se mostram propícias para fazer o mal aflorar. Momentos decisivos da vivência durante o desenvolvimento humano podem lançar as bases para que certas pessoas se tornem malignas. O ressentimento, a dor, a humilhação, o desejo de revidar, tudo isso fomenta uma vontade de ferir nossos semelhantes. O ambiente transforma o indivíduo normal em um demônio, ou assim se pensa. Os estudos atuais demonstram que o mal pode surgir espontaneamente, brotando onde menos se espera, em qualquer lugar, em qualquer tempo. 

Quando se fala de maldade e perversidade, é difícil não levar a discussão até os dias negros da Ascenção do Terceiro Reich. Muitas coisas que aconteceram ao longo da Segunda Guerra continuam ressoando na sociedade atual e servem como exemplo do que de pior podemos produzir. 

Canais de documentários oferecem uma infinidade de programas a respeito de aviões de guerra, navios e tanques alemães, bem como as batalhas marcantes travadas durante o conflito que moldou o mundo atual. Menos explorados, no entanto, são os lados mais sombrios da máquina de guerra liderada pelos nazistas. É claro, sabemos a biografia dos grandes líderes: políticos, generais e burocratas, mas e quanto às massas de seguidores fanáticos que constituíam o bando sem face que dava sustentação aos nazistas?

Uma dessas biografias infames está finalmente vindo à tona e ela nos fornece um vislumbre da maldade que permeava entre os homens escolhidos pelos nazistas para fazer o mais sujo dos trabalhos.

Soldados alemães da 36a Infantaria

Em março de 1940, pouco antes da invasão alemã da França, Hitler decidiu formar uma unidade de combate diferente das demais. Ela seria composta de caçadores ilegais e soldados condenados, todos comandados por um militar durão. A ideia é que essas pessoas, em sua maioria caçadores que ganhavam a vida se embrenhando nas florestas e cuja pontaria era reconhecida, fariam diferença em combate. Eles seriam atiradores de elite calejados e acostumados a matar. Bastaria transferir sua habilidade em abater animais para abater seres humanos. O grupo seria enviado em missões especiais em lugares inacessíveis, seriam como caçadores de homens.

O comandante dessa tropa, escolhido à dedo para o serviço, seria um homem conhecido do líder SS Heinrich Himmler, um veterano da Grande Guerra chamado Oskar Dirlewanger.

Mas quem foi Oskar Dirlewanger e como ele veio a ocupar o topo da lista dos piores nazistas de todos os tempos?

Oskar Dirlewanger serviu no Exército Alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Segundo todos os relatos oficiais, seu serviço foi honroso, recebendo a Cruz de Ferro (uma alta condecoração militar) duas vezes e sendo ferido em seis diferentes ocasiões. Ele ganhou certa fama após o fim da guerra, quando sua unidade formada por cerca de 600 homens ficou presa na Romênia e teve de fazer uma jornada considerada heroica de volta à Alemanha. Os soldados alemães eram hostilizados em todos os territórios pelos quais passavam e tiveram de cortar caminho através de bosques e montanhas na qual encontraram oposição ferrenha.  

Após a guerra, Dirlewanger se juntou aos Freikorps, milícias armadas que existiam na Alemanha do pós-guerra. Eram tropas de veteranos calejados que haviam sido forçados à dar baixa militar após o desarmamento da Alemanha e que não se conformavam com isso. Muitos dos Freikorps eram mercenários que ofereciam suas habilidades obtidas na Guerra para quem pagasse mais. Dirlewanger era o comandante de uma dessas tropas e eles se saíam muito bem oferecendo seus serviços em outros países, sobretudo para sufocar revoltas. Sem uma hierarquia militar para controlar os Freikorps, estes agiam por conta própria e faziam o que bem entendessem. Ninguém questionava suas ações e, portanto, excessos eram cometidos sem qualquer punição.    

Num momento raro de tranquilidade em 1940 

Quando não estava trabalhando, a vida particular de Dirlewanger era um desastre. Um alcoólatra inveterado com uma forte tendência à truculência, ele frequentemente tinha problemas com as autoridades. Na verdade, ele acabou em prisões militares mais de uma vez, por se envolver em brigas, badernas e bebedeira que comumente descambavam para violência. Além, de ter sido acusado de agressão e homicídio, ele também tinha predileção por sexo com meninas menores de idade. A família de Dirlewanger o evitava e o tratava como uma ovelha negra, que havia rompido relações com todos à sua volta. Os irmãos, primos, tios, parentes próximos e distantes o evitavam, por temer seu gênio irascível. 

Durante seu período na cadeia ele teve contato com alguns membros do Partido Nazista e se interessou pela sua filosofia. Esses contatos o levaram a uma posição nas tropas de choque que lutaram na Guerra Civil Espanhola (onde ele foi ferido três vezes). Muitos alemães do Freikorps lutaram na Espanha ao lado de Franco, engrossando as suas tropas e fornecendo um expertise obtido anos antes Não por acaso, essas tropas se destacavam como algumas das mais brutais, capazes de todo tipo de atrocidade, não apenas contra o inimigo, mas contra a população civil.

Quando a Alemanha começou a se armar novamente, os Friekorps se desfizeram e seus membros foram novamente integrados ao exército. Dirlewanger foi uma exceção, pouco antes do início do conflito ele estava preso, e embora fosse um oficial graduado, seu histórico era dos piores. Muitos o consideravam instável: "um candidato maior ao manicômio do que ao comando militar", conforme escrito em uma avaliação psiquiátrica.

O início da guerra fez com que ele fosse liberado da cadeia com a ficha devidamente limpa para que pudesse servir seu país. Dirlewanger foi integrado ao quadro de oficiais da Waffen SS, quando surgiu a ideia de criar a unidade de Caçadores Furtivos que ele deveria liderar. A fama conquistada na retirada da Romênia fez com que ele fosse considerado a opção ideal. Muitos diziam que ninguém mais seria capaz de fazer o mesmo, provavelmente estes estavam certos, mas por motivos errados. 

Durante o treinamento brutal, a unidade rapidamente assumiu o nome de seu comandante e passou a se chamar Sonderkommando Dirlewanger. Posteriormente, após várias expansões, alcançaria o título pelo qual ganharia notoriedade: Brigada Dirlewanger. Esse título estaria para sempre ligado a uma onda de horror e crimes de guerra que incluíam assassinato, tortura, estupro, pilhagem e, praticamente, todas as modalidades de crimes de guerra concebíveis. 

A Brigada tinha prazer em registrar suas atrocidades 

A Brigada Dirlewanger foi testada em campo pela primeira vez na Polônia ocupada, em agosto de 1940, pouco menos de um ano após a ocupação alemã daquele país. Seu trabalho era pacificar a insurgência que existia contra a presença nazista. Dirlewanger e seus homens, receberam carta branca do comando para lidar com a situação da maneira que julgassem necessária. desde que trouxesse resultados. 

Os homens que compunham a Brigada eram quase que inteiramente veteranos das Freikorps, muitos deles envolvidos em crimes, mas havia ainda muitos ex-condenados que foram liberados das prisões para que se juntassem ao exército. Havia indivíduos envolvidos em extorsão, roubo e corrupção; bem como assassinos e estupradores, soldados afastados por indisciplina e atitudes temerárias que não eram condizentes com a função de um soldado. Pode ser exagero categorizar todos eles como psicopatas, mas tal coisa não está longe da verdade.

A Brigada não se importava com a população civil, matava qualquer suspeito que estivesse em seu caminho, cometendo crimes sexuais em massa, torturando e agindo sob efeito de álcool ou drogas (em especial meta-anfetaminas). Um visitante de seu quartel general podia encontrar salas cheias de pilhagem, soldados bêbados em serviço e gritos de mulheres e crianças sendo estupradas nos porões.

Muitos deles acabavam presos preventivamente, mas os contatos de Dirlewanger conseguiam uma rápida liberação, mesmo quando a infração era grave e poderia resultar em corte marcial e até fuzilamento. Naqueles primeiros anos de guerra, a jurisprudência militar alemã era um tanto confusa e se resultados positivos surgiam, tudo podia ser relevado. Os nazistas estavam gradualmente descriminalizando muitos crimes militares. Em 1940 ainda existiam leis contra o assassinato de civis, embriaguez em serviço, roubo de propriedade privada e muitos outros crimes cometidos pelos homens, mas a lei não os tocava. O próprio Dirlewanger chegou a ser acusado de matar um de seus homens numa briga de faca, de ordenar o massacre de inúmeros civis e de manter uma judia cativa como escrava sexual, embora o sexo entre alemães e judeus fosse proibido.

As autoridades alemãs ficaram enojadas com o comportamento desses homens - até mesmo membros locais da SS e da Gestapo ficaram furiosos com os informes. Os demais soldados ficavam horrorizados com o que acontecia e temiam trabalhar com aqueles maníacos furiosos. A situação chegou a tal ponto que o governo provisório alemão na Polônia ameaçou prendê-los se não fossem transferidos imediatamente. O pedido de afastamento mencionava que o moral das tropas convencionais afundava quando forçados a agir com a Brigada proscrita. Mesmo alguns oficiais queriam o bando longe por considerá-los um perigo.  

Varsóvia devastada pela Guerra

Uma vez que o conflito se movia para o Leste, a Brigada foi enviada para a Bielo-Rússia, onde seus talentos poderiam vir à calhar contra os soviéticos.

Dirlewanger recebeu uma permissão especial assinada pelo próprio Heinrich Himmler, líder da SS, para agir como bem entendesse na sua nova função. Era um privilégio extraordinário para um oficial do exército alemão, que normalmente precisava obedecer a regulamentos como qualquer outra força de combate. Ele pediu por reforços e quando ganhou autorização, escolheu à dedo nas cadeias e prisões de toda Alemanha os seus novos recrutas. Ele procurou especificamente por soldados mandados para a prisão por excessos cometidos. Sua seleção passava por três critérios: os candidatos deveriam ser duros, ter treinamento e responder ao seu comandante com completa lealdade. Aqueles que não correspondessem eram disciplinados por Dirlewanger que podia inclusive fuzilar quem não obedecesse suas ordens à risca. 

O Comandante usava liberalmente seus poderes e novos membros da brigada recebiam ordens frequentes de executar civis para confirmar sua lealdade. A presença da Brigada Dirlewanger tinha um efeito dramático onde quer que atuasse. O índice de mortes aumentava consideravelmente onde eles eram designados.  

Dirlewanger era muito próximo de seus homens e tinha a tendência de usar uma linguagem informal e tratá-los pelo primeiro nome, o que era extremamente incomum para um oficial alemão. Ele bebia, socializava e permitia a realização de pilhagens, ações que a maioria dos militares não autorizava em suas fileiras. Além disso, ele também estuprava e matava, agindo como um deles. Finalmente, ele não se eximia de participar dos combates, fazendo questão de estar em ação muito mais do que a maioria dos oficiais de sua patente. Sua calma sob fogo e a conexão quase sobrenatural com as tropas lhe valeram o apelido absurdamente irônico de "Gandhi" entre seus homens.

A infame Brigada Dirlewanger atuou na Bielo-Rússia por três terríveis anos. Nesse período eles ficaram famosos pela perversidade que o comandante categorizava como "medieval". De fato, ele via a si mesmo e aos seus homens, como guerreiros e não soldados, mais adequados ao período medieval do que às guerras modernas. A tropa empregava táticas como forçar mulheres e crianças, com a ponta da baioneta, a marchar à frente dos soldados para detonar quaisquer minas terrestres que pudessem estar em seu caminho. Costumavam ainda trancar moradores de vilas suspeitas em celeiros e atear fogo. Como sempre, estupro, assassinato e destruição injustificada estavam na ordem do dia.

Uma vida de violência e vício cobrava seu preço, Dirlewanger tinha 45 anos nessa foto

Eles alcançaram o auge da infâmia durante a Revolta de Varsóvia de 1944. Os poloneses tomaram o controle da capital quando os soviéticos se aproximaram e Hitler ordenou que os rebeldes fossem esmagados. Uma das tropas responsáveis pelo contra-ataque seria a Brigada Dirlewanger chamada de volta à Polônia. Há inúmeras histórias sobre a atuação da tropa nas operações realizadas em Varsóvia. Um exemplo que ficou famoso foi testemunhado por um tenente do Exército alemão que havia sido imobilizado por uma unidade de poloneses num prédio de vários andares. O oficial relatou mais tarde que a Brigada Dirlewanger chegou, invadiu o prédio sob um barragem de balas e logo o tiroteio parou - substituído por gritos. O oficial encerrou seu relatório descrevendo a visão de rebeldes sendo jogados pelas janelas do prédio com cordas ao redor do pescoço.

Contudo, a Revolta de Varsóvia foi a última ação da Brigada. Não muito depois, o próprio Dirlewanger foi ferido - seu décimo segundo ferimento - e desta vez com gravidade para impedir seu retorno à liderança da tropa. No final da guerra, a brigada foi absorvida por outra tropa, totalizando um efetivo de 7.000 homens. Sem Dirlewanger para opinar, a tropa recebeu soldados sem grande experiência e que não tinham estômago para as atrocidades dos mais velhos. Na primavera de 1945, a tropa foi praticamente dizimada pelo Exército Vermelho na região do Halbe. Apenas algumas centenas sobreviveram.

Anos depois, no início dos anos 1960, um ex-membro da brigada se apresentou a promotores de justiça e se dizendo arrependido ofereceu-se para relatar seus crimes. Ele descreveu vários crimes de guerra, incluindo um incidente em que um membro da unidade, aparentemente bêbado, estuprou uma garota ao ar livre, na rua. Quando terminou, o estuprador puxou uma faca e rasgou-a da virilha até a garganta, deixando-a para morrer ali. Em outro incidente medonho, a Brigada capturou uma cidade e Dirlewanger ordenou que seus homens matassem todas crianças que estavam em um prédio que funcionava como orfanato e creche. Para economizar munição os homens foram instruídos a usar  baionetas e a coronha dos rifles. Esse horror é lembrado como o Massacre de Wola, e supõe-se que cerca de 500 crianças tenham sido assassinadas na ocasião.

Quanto ao próprio Dirlewanger, ele foi capturado vivo por soldados franceses tentando se misturar à população de refugiados e escapar dos aliados. Oficialmente, ele morreu de causas naturais enquanto estava sob custódia, mas há rumores que ele foi espancado até a morte por soldados poloneses que o reconheceram.

[Só um adendo pessoal aqui - Eu espero que eles tenham feito essa surra valer a pena e que esse filho da puta tenha sofrido.]

Massacres eram algo comum nas ações do Batalhão Dirlewanger

A morte de Dirlewanger sequer foi noticiada com destaque, embora tenha simbolizado o fim de uma das carreiras mais assassinas da história militar moderna. Quantas pessoas morreram por sua causa? Qual o tamanho do sofrimento que ele disseminou? É impossível calcular. 

Nem todos, no entanto, consideram a Brigada Dirlewanger como monstros sádicos. Por décadas, eles foram chamados de heróis, com romances e histórias sendo escritas a respeito de suas façanhas militares. Muitos inclusive serviram posteriormente na Legião Estrangeira da França, enviados para lutar no Norte da África e no Sudeste Asiático. O símbolo da unidade, duas granadas cruzadas, ainda é visto nas bandeiras de grupos extremistas e na pele de skinheads. É notável que nenhum membro da Brigada Dirlewanger tenha sido formalmente acusado ou sentenciado por crimes de guerra. Na Polônia e Bielo-Rússia, bem como entre os veteranos russos, a Brigada sempre foi tratada como um bando de homicidas. 

No início desse artigo eu fiz algumas perguntas filosóficas a respeito do mal, de sua origem e de como ele cresce. Depois de escrever esse artigo, eu tendo a concordar com alguns pensadores que dizem ser o mal a apatia diante da perda do senso de moral. Ele ocorre quando aquilo que é claramente errado, ruim e desprezível se transforma em corriqueiro pelas circunstâncias e passa a ser praticado sem culpa.

Na minha opinião pessoal, o mal é a falta total da empatia que nos define como humanos e nos difere como espécie consciente. Quando essa bússola moral se perde, é quando o mal aflora. E ele cresce enquanto uma direção não é apontada.

O horror da Brigada comandada por Oskar Dilewanger não pode ser esquecido ou relativizado, conhecê-lo talvez seja a única maneira de evitar que um dia ele ressurja.

8 comentários:

  1. Tem alguns documentários na netflix sobre a segunda guerra mundial,focado nos nazistas, que só consegui assistir 20 minutos dele, as imagens são muito fortes e não tive estômago pra terminar. Fico imaginando o que faz um ser humano protagonizar tamanha barbárie.

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  2. Dentro de cada ser humano existe o bem e o mal,sobresai o quer for mais alimentado...

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  3. Muito boa e informativa a matéria !

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  4. No artigo, a imagem de um jovem ajoelhado, com uma pistola apontada para sua cabeça foi tirada de um filme russo: "Vá e Veja", que mostra atrocidades cometidas contra a população civil na Bielo-rússia. Filme pesadíssimo, mas muito bom!

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  5. Caro senhor Brant, por gentileza poderia informar o nome do filme citado. Obrigado.

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