domingo, 15 de julho de 2018

Dormir e Nunca Despertar - A Misteriosa Doença do Sono


Muriel "Kit" Richardson, era parte da alta sociedade britânica, seu marido Ralph Richardon era uma espécie de celebridade. Sua carreira como ator de teatro e cinema estava no auge e o casal aparecia frequentemente nas colunas sociais londrinas. Certo dia, em meados de 1925, Kit disse ao marido que não estava se sentindo bem: tinha dores de cabeça muito fortes e se queixava de um resfriado persistente. Achou melhor ficar em casa e não acompanhar o marido em uma estréia teatral. Assegurou a ele que não deveria ser nada de mais.

Na manhã seguinte, Ralph encontrou a esposa em estado ainda pior. Teve dificuldades em acordá-la, pois tudo o que Kit queria era continuar dormindo. Ele chamou um médico que receitou algumas vitaminas e prescreveu que ela descansasse por alguns dias. No curso de três dias, ela dormiu, despertando apenas momentaneamente para comer
 alguma coisa ou ir ao banheiro.

No quarto dia, quando o marido não conseguia acordá-la por nada decidiu carregá-la para um hospital. Kit parecia acordar em alguns momentos, abria os olhos, mas não estava totalmente consciente ou desperta. Ela parecia acometida de uma espécie de transe do qual não conseguia acordar, não estava dormindo, mas também não estava inteiramente acordada.

E ela nunca despertou desse estado.

Muriel "Kit" Richardson ficou em estado vegetativo e não despertou mais. Enfermeiras e ajudantes, se revezavam para alimentá-la, limpá-la e tratála pelas duas décadas seguintes. E nesse período todo, ela dormiu profundamente.

Infelizmente, ela não foi a única.


Entre os anos de 1915 e 1926 havia uma estranha doença se espalhando pelo mundo e as pessoas temiam dormir e jamais acordar. Essa foi a era da infame "Doença do Sono", uma epidemia que transformava suas vítimas em estátuas vivas. Elas eram prisioneiras de seus próprios corpos em um perpétuo estado de coma em que pareciam sonhar sem a esperança de um dia acordar.

Logo depois da Grande Guerra, essa doença bizarra que recebeu o nome de Encefalite Letárgica (mas se popularizou com o nome "Doença do Sono"), afetou milhões de pessoas em todo mundo e deixou médicos e profissionais de saúde intrigados. De acordo com algumas fontes, cerca de um milhão de pessoas foram afetadas por essa estranha condição e morreram, enquanto muitas outras simplesmente dormiram por anos e jamais despertaram.

Muitos destes, assim como Muriel Richardson, passaram o resto de suas vidas, em suas camas. Para preservá-los, instituições médicas foram criadas para recebê-los, asilos e alas hospitalares construídas às pressas para hospedar pacientes que simplesmente dormiam.

Nos últimos 100 anos, algumas das mais brilhantes mentes tentaram em vão encontrar uma explicação para o que realmente aconteceu com aquelas pessoas. Que estranha condição era aquela? Como poderia ser tratada? Como amenizar seus sintomas? E como trazer aquelas pessoas de volta? 

Talvez o mais aterrorizante, é que pesquisadores hoje, sabem apenas um pouco mais do que os médicos que tiveram contato com esses pacientes. O "vírus do sono" permanece como um dos maiores mistérios da História da Medicina e um enigma difícil de ser decifrado. 

A doença surgiu no mesmo período em que a devastadora pandemia da Gripe Espanhola matava de maneira desenfreada mais de 50 milhões de pessoas pelo globo. Talvez por isso, relativamente poucas pessoas conhecem essa história, a despeito dela ter afetado tantas vidas. A Gripe Espanhola ganhou tanto destaque que encobriu outras moléstias, deixando-as em segundo plano.


Embora a maioria dos casos tenham ocorrido nos meses que se seguiram a Grande Guerra, acredita-se que os primeiros casos tenham sido registrados entre 1915 e 1916 quando soldados no fronte ocidental começaram a a apresentar um quadro de confusão mental e letargia. Os homens não conseguiam se concentrar: reclamavam de dores de cabeça persistentes, náusea e mau estar. Médicos em Paris foram os primeiros a encontrar a condição, mas demorou pelo menos mais um ano para que eles compreendessem que se tratava de uma doença até então desconhecida.

A princípio assumiram que ela seria um efeito colateral da exposição direta aos gases tóxicos utilizados por ambos os lados do conflito nas trincheiras, em especial o temido Gás Mostarda. Contudo, a suspeita se mostrou errônea, uma vez que pessoas em áreas afastadas dos campos de batalha também demonstravam os sintomas da estranha moléstia.

Um neurologista de Viena chamado Constantin Von Economo foi o primeiro a pesquisar a doença. Ele escreveu um ensaio chamado "Die Encephalitis Lethargica," no qual fazia uma extensiva descrição da doença que afetava tanto combatentes quanto civis. Não demorou muito até que o nome do médico fosse associado com a nova doença, e a encefalite letárgia logo ficou conhecida como a Síndrome de Von Economo.

O médico descreveu a doença da seguinte forma:

"Nós estamos lidando com uma doença até então desconhecida. Cogito que ela jamais foi contemplada pela ciência médica pois não consta em nenhum livro. Os pacientes afetados sofrem de uma letargia profunda, dormindo profundamente por longos períodos, por vezes não despertando. Os primeiros sintomas são dores agudas de cabeça e mau estar. Segue-se então um estado de sonolência crescente, por vezes associado a delírios e alucinações. O indivíduo sente uma notável dificuldade em ficar desperto e seu quadro geral apresenta um esgotamento físico e mental. A vítima é incapaz de dar respostas claras, compreender sua situação ou desenvolver uma linha de pensamento racional. Esse grau de sonolência pode levar a surtos de sonambulismo que são um risco para sua segurança. Isso pode levar à mortes acidentais. 

Indivíduos que não são atendidos, podem morrer em semanas já que são incapazes de suprir suas próprias necessidades. Os afligidos não parecem sentir fome ou sede e literalmente definham se não receberem ajuda para se alimentar. A situação pode persistir por meses ou períodos mais longos, com uma variação entre o estado de sonolência e profundo estupor ou coma"


A descrição de von Economo publicada em 1917 emum jornal de medicina é bastante detalhada e acurada: As pessoas literalmente dormiam até a morte.

Outro estudioso da doença foi o patologista francês Jean René-Cruchet que estudou a condição e escreveu um importante tratado a respeito dela.

Ele descreveu a doença nos seguintes termos:

"As vítimas podem ser consideradas conscientes e despertas - ainda que não estejam inteiramente acordadas; elas podem sentar em cadeiras permanecendo imóveis e ficar em silêncio por todo dia. Não possuem ímpeto, energia, iniciativa, motivação, apetite, sede ou desejo; são capazes de registrar o que ocorre ao seu redor mas sem atenção, e com profunda indiferença. Eles não transmitem e não se comportam como pessoas vivas, eles são tão insubstanciais quanto fantasmas, passivos como zumbis". 

Pouco depois dos médicos publicarem seus trabalhos, a horrenda epidemia já havia migrado dos campos de batalha para as cidades, fazendo vítimas de casa em casa, consumindo vidas. Ninguém entendia o que estava acontecendo e na ausência de uma cura, tudo o que se podia fazer era preservar o doente deixando-o dormir.

Em Montreal, Canadá, Melvyn Berridge um respeitado empresário também manifestou os efeitos da doença do sono. Em 1921, ele começou a se queixar de dores agudas na cabeça e de falta de concentração, semanas mais tarde ele já não conseguia ficar inteiramente acordado. Berridge morreu em um trágico acidente, atropelado perto de sua casa. Certo dia, ele começou a andar dormindo e foi atingido por uma composição enquanto atravessava a rua.

Em Frankfurt, Alvin Brandt, um veterano das trincheiras em Ypres também passava a maior parte de seu tempo, desde que havia retornado da guerra, dormindo. Ele acordava apenas ocasionalmente, e sempre se impressionava ao descobrir que voltara para a casa de seus pais. Em seu devaneio ele acreditava ainda estar no fronte da guerra, apesar desta já ter terminado há anos. Em um instante de lucidez, Brandt se enforcou colocando um fim a sua triste existência.

Muitos outros casos aconteciam ao redor do mundo.

A Encefalite Letárgica se manifesta como uma "inflamação no cérebro, ocasionando  um profundo estupor". Ela não possui tratamento ou cura. Segundo avaliações, apenas aproximadamente 20% das pessoas afligidas pela doença sobreviviam por um período superior a 5 anos, dependendo da supervisão e ajuda profissional. Aqueles que passavam desse estágio e contavam com cuidados podiam viver indefinidamente, por muitas décadas.


A doença afetava todas as faixas etárias, mas era mais ativa em pessoas jovens entre 15 e 35 anos. Pelas descrições da época, a doença se iniciava como uma infecção normal: febre, enxaqueca, dores de cabeça e nariz escorrendo. As pessoas contaminadas não tinham como saber que seus corpos estavam travando uma luta desesperada com uma doença fatal, um mal invisível que ameaçava deteriorar seus cérebros. Autópsias realizadas por pesquisadores como o próprio von Economo determinaram que uma das causas da letargia era um inchaço desproporcional no hipotálamo. O hipotálamo é uma pequena mas importante porção do cérebro responsável por controlar diversas funções, entre as quais o sono. Essa infecção levava a um dano maciço do qual não havia recuperação e que condenava o indivíduo ao estupor.

Cerca de 10 anos depois que von Economo publicou sua descrição da doença, a epidemia de Encefalite Letárgica começou a perder força, desaparecendo tão repentinamente quanto havia surgido. Foi sem dúvida um alívio, mas àquela altura a "Doença do Sono" já havia feito muitas vítimas.

Cientistas estão convencidos de que a doença tenha sido ocasionada por uma mutação viral e bacteriológica extremamente rara, possivelmente relacionada com o Vírus da Influenza que causava a Gripe Espanhola. Na ausência de uma nova epidemia em larga escala, dificilmente ela poderia ressurgir, entretanto, alguns pesquisadores sugerem que ela não está confinada aos livros de história e temem que ela possa um dia reaparecer. O renomado virologista John Oxford acredita que o mundo não está livre da ameaça da Encefalite Letárgica: 

"Eu certamente penso que, seja lá o que tenha causado o surgimento dessa doença, as condições podem um dia vir a se repetir. Até que saibamos o que ocasionou o seu surgimento, não seremos capazes de prevenir uma reaparição, o que seria desastroso", ele preveniu.


Em 1993, uma menina de 11 anos chamada Becky Howells se tornou a primeira pessoa desde a década de 30 a manifestar sintomas da doença misteriosa e quase desconhecida. Felizmente uma mistura de antibióticos ministrados às pressas conseguiu debelar o quadro e ela se recuperou depois de quase três meses em estado de coma vegetativo. Desde então, Agências de Saúde Internacionais e Epidemiologistas rastreiam qualquer caso suspeito, tentando determinar a tempo o ressurgimento da "doença do sono". Em 2002, seis casos foram descobertos em Moçambique e colocaram agências de monitoramento em estado de alerta, mas a doença não se desenvolveu além desse ponto. Em 2007 um caso foi detectado na Bolívia, mas novamente o tratamento se mostrou eficaz e a vítima foi salva.

O que provocou a doença? Em que circunstâncias ela surgiu? E como ela pode ser combatida se por acaso ocorrer uma pandemia novamente? Talvez seja melhor torcermos para que essas perguntas jamais precisem ser respondidas.

Até lá, teremos de dormir com essa preocupação.

(e torcer para acordar)

5 comentários:

  1. Essa eu sei, foi pq tentaram capturar a Morte mas aprisionaram o Sonho. Ordens de Magia, fazendo besteira desde sempre

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    1. Era exatamente o que eu ia comentar. Hahaha...

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  2. Tem um documentário na netflix que fala sobre essa doença do sono, acompanha a vida de algumas pessoas que tem o distúrbio. Se não me engano, a teoria é que de alguma forma as células passam a não mais produzir a energia necessária para o corpo se manter, por isso o estado de letargia das pessoas.
    Não lembro o nome, mas fica a dica.

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