domingo, 2 de maio de 2021

Feitiçaria Islandesa - Conheça a Magia horrivelmente desagradável da Ilha Gelada


A Islândia no início do Século XVII não era o melhor lugar para se viver.

Além do isolamento e do frio constante, a ilha ainda era assolada por desastres naturais, frequentes ataques de piratas e por um sistema de classes que obrigava a todos, exceto os mais ricos, a viver em cabanas rústicas. Os camponeses islandeses levavam uma existência nada agradável. Como acontece frequentemente em situações em que as esperanças são escassas e a educação ínfima, as pessoas  acreditavam em qualquer coisa que pudesse ajudá-las a superar as dificuldades. E pouco interessava que essas coisas envolvessem bruxaria, o que importava era deixar para trás suas vidas miseráveis.

É claro, feitiçaria e magia negra não eram algo aceito na Islândia do período, não mais do que no restante do mundo cristão.  Os islandeses haviam sido apresentados ao cristianismo por missionários e aceitaram os ensinamentos de bom grado, contudo muitos deles mantinham vivas antigas práticas de seus ancestrais. À princípio isso era tolerado, mas depois de 1600, a igreja começou a fazer uma forte campanha para acabar com as práticas chamando aquilo de heresia e combatendo com o bom e velho fogo e enxofre. Um número razoável de pessoas descobriu da pior maneira possível que aquilo não seria tolerado e foram queimadas na fogueira.

É interessante notar que feitiçaria era uma atividade quase que inteiramente masculina na Islândia. Diferente do resto do mundo onde as bruxas dominavam as estatísticas, na Islândia os feiticeiros eram os maiores praticantes. As magias do período envolviam geralmente algo prático, como controlar as forças da natureza e vencer adversidades impostas pelo clima implacável. Era possível empregar rituais para evitar nevascas, diminuir ventanias ou direcionar uma praga para a fazenda do seu vizinho. 

Entretanto, haviam rituais esotéricos mais curiosos e com aplicação, digamos, peculiar.


O que definia a Feitiçaria Islandesa eram os métodos e a forma elaborada que cada ritual podia assumir para trazer os almejados benefícios. Quase todos eles envolviam um enorme sacrifício pessoal ou uma condição degradante para o realizador.

Por exemplo, a feitiçaria local contemplava um ritual para criar um morto vivo semelhante aos zumbis existentes ao redor do mundo. Mas o método para isso era, para dizer o mínimo, nojento. Para começar, o feiticeiro precisa decorar uma série de poesias antigas que deviam ser proferidas enquanto ele estava sobre a sepultura do falecido. Em seguida, era necessário cuspir e degradar o lugar, xingando e provocando o cadáver de todas as maneiras possíveis. Se isso funcionasse, o defunto iria ficar tão furioso que cavaria seu caminho para fora da terra com o intuito de esganar a pessoa. E isso é muitíssimo perigoso já que o morto-vivo, segundo o folclore local tem a força de nove homens parrudos. Para compelir o sujeito a obedecer e não matar o necromante, este tem que recorrer a... saliva. 

Muita saliva!

Ele deve cuspir no rosto do morto vivo até este se sentir humilhado e parar. Então vem o momento mais desagradável. "Mais" você pode perguntar. Sim! Muito mais!

Após cuspir no morto vivo, o ritual envolve lamber o rosto dele por inteiro, com especial atenção ao nariz, olhos e boca. Assim que o rosto for lambido, as secreções absorvidas e qualquer sinal de saliva recolhido, o morto vivo fica sob o comando do feiticeiro para fazer o que ele bem quiser. Trabalho na fazenda ou em barcos de pesca em geral são os motivos mais frequentes para criar seu morto vivo de estimação.

E se você acha que a coisa para por aí e que esse é um exemplo isolado do quão maluca é a feitiçaria islandesa, deixe que eu lhes apresente a algo chamado TILBERI.


O Tilberi é uma espécie de criatura semelhante a um verme com uma cabeça humana em cada extremidade. Ele é construído por um feiticeiro com o pouco nobre propósito de roubar leite das cabras alheias.

Para criar essa coisa hedionda o primeiro passo é roubar a costela de um cadáver recentemente enterrado. Em seguida, esta é enfaixada com um pedaço de lã (também roubado, em especial da cabra pertencente a uma viúva). O resultado macabro deve ser colocado entre os seios de uma mulher, e esta deve cuspir sobre ele a hóstia sagrada da comunhão por três domingos consecutivos. 

Lenta, porém gradualmente a coisa irá crescer e se tornar viva, até morder o seio e beber um pouco de sangue fazendo com que ela mostre estar pronta. A mordida se torna uma verruga e nesse momento o Tilberi estará pronto para receber ordens do seu senhor. Fico imaginando o tipo de persuasão do feiticeiro para convencer uma mulher a se prestar a essa indignidade, mas vamos deixar isso de lado.

Uma vez que a criatura tenha chegado à sua maturidade, ela irá rastejar até as terras dos vizinhos para sugar o leite das cabras até ficar cheio. Em seguida, ele retorna à casa de seu criador e regurgita o leite roubado num pires.

Mas nem mesmo o Tilburi é a coisa mais revoltante da coleção de coisas repulsivas que a Magia islandesa tem a oferecer.


Tirem as crianças da sala, por que vamos falar de algo realmente detestável que atende pelo nome de NÁBROK, ou "Calças de Necromante".

As Calças de Necromante oferecem uma maneira de trazer ao realizador um estoque ilimitado de riquezas, embora os requerimentos para a magia sejam medonhos e façam a maioria das pessoas ponderar que trabalho pesado não parece ser uma alternativa tão ruim afinal de contas. Francamente, qualquer pessoa disposta a encarar algo assim para ganhar dinheiro sofre de um problema grave, mas enfim...

De acordo com o Ritual, para criar as Calças do Necromante (ou Necropants), o feiticeiro primeiro deve fazer um acordo com uma pessoa especialmente compreensível (ou tão louca quanto ele mesmo). Segundo os termos desse acordo, a pessoa em questão dá uma permissão para que seu corpo seja esfolado para a remoção da pele. Mas não toda pele! Apenas a porção da cintura para baixo.

Uma vez que a pessoa morre, especificamente de causas naturais, o feiticeiro visita o cemitério com o intuito de desenterrá-lo e fazer a remoção cuidadosa de cada centímetro de pele, sem permitir o surgimento de rasgões ou buracos que podem comprometer todo trabalho. Uma vez obtido o "material", temos algo parecido com uma calça de lycra, mas feita de pele.  


Em seguida, o necromante precisa vestir a calça contra a sua pele nua. Com isso pronto, resta uma última providência: ele precisa roubar uma moeda de uma viúva. Funciona melhor se a viúva a ser roubada for uma que se encontra em situação de penúria. Essa moeda é colocada no escroto vazio da calça (em bom português, no saco) em que foi desenhado o símbolo da runa Nábrókarstafur.


Pronto!

As calças ficam ocultas e não podem ser removidas para não cancelar o feitiço. De tempos em tempos, novas moedas magicamente irão surgir no saco e poderão ser gastas à vontade, fazendo a alegria do ganancioso feiticeiro.

O único exemplar existente dessa Calça de Necromante no mundo (na verdade uma reprodução bem realista com cabelo e tudo) está em exibição no Museu de Magia e Feitiçaria da Islândia em Hólmark. Abaixo da calça ali exibida podem ser vistas várias moedas espalhadas pelo chão, que supostamente continuam a surgir magicamente. 

O Museu oferece um apanhado de valiosas informações sobre o folclore e costumes da Islândia, um tempo em que a Magia se propunha a promover aquilo que você desejasse... desde que estivesse disposto a pagar o preço.

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