quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

The Shadows over Baker Street - Antologia de contos envolvendo Holmes e o mundo de pesadelo de H.P. Lovecraft

O que aconteceria se o maior personagem de Arthur Conan Doyle, Sherloch Holmes e seus aliados cruzassem o caminho das terríveis entidades dos mitos de Cthulhu?

Como agiria o maior detetive de todos os tempos se as suas investigações enveredassem pelos tortuosos caminhos do terror absoluto? Seria a sua lógica inabalável páreo para a aura de loucura que permeia os mitos ancestrais?

Em Shadows over baker Street, temos uma chance de vislumbrar como seria o embate de Holmes contra as trevas. A antologia reúne 18 estórias curtas envolvendo as mais tenebrosas investigações no campo do sobrenatural. Editado por Michael Reeves, o livro conta com conhecidos escritores do gênero entre os quais o premiado Neil Gaiman (criador de Sandman) que assina um conto ganhador do prêmio Hugo.

Shadows é uma boa pedida tanto para fãs de Holmes quanto para os entusiastas de Lovecraft. Embora nem todos os contos sejam brilhantes, a maioria deles é envolvente por misturar horror e mistério policial de maneira coesa. É possível encontrar várias referências aos trabalhos dos Mitos e da mitologia do próprio Conan Doyle nas entrelinhas. Diversos contos também são escritos copiando o estilo narrativo empregado por Conan Doyle, trazendo a ação descrita pelas palavras do Dr. Watson, companheiro inseparável de Holmes.

Os casos enfrentados por Holmes mostram quase em sua totalidade um detetive surpreso com o terror que reside nas raias da loucura e além da própria razão. Mesmo sua lógica racional por vezes acaba confrontada pelas revelações levando Holmes a duvidar das próprias capacidades. Em alguns contos, no entanto, temos um Holmes disposto a confrontar o mal dos Mitos usando dos meios que estiverem ao seu alcance, o que inclui magias e conhecimento místico.

Alguns contos envolvem coadjuvantes do universo de Holmes. Temos contos onde o Dr. Watson, Irene Adler, HG Wells e Thomas Carnacki aparecem como protagonistas ou aliados na luta contra os mitos. Dentre os seres lovecraftianos, temos várias entidades e monstruosidades.

Os contos são os seguintes:

- A Study in Emerald - Neil Gaiman - Um pastiche envolvendo elementos de "Um estudo em Escarlate", personagens clássicos e várias citações aos antigos. Uma morte em Londres expõe um complô contra a coroa que apenas um homem poderia ter planejado, e que apenas um homem poderá enfrentar.

- Tiger! Tiger! - Elizabeth Bear - Uma aventura na India Colonial envolvendo uma caçada nas selvas e intriga internacional, com a participação de Irene Adler e do Coronel Sebastian Morand.

- The Case of the Wavy Black Dagger - Steve Perry - O encontro de Holmes e de uma surpreendente mulher enviada para uma missão de vida ou morte em Londres.

- A Case of Royal Blood - Steven-Elliot Altman - Holmes junta forças a HG Wells para proteger um membro da família real da Holanda atormentado por fantasmas (e coisas bem piores que espíritos malignos).

- The Weeping Masks - James Lowder - Dr. Watson confronta um horror durante seu período no serviço militar, durante o conflito no Afeganistão.

- Art in the Blood - Brian Stableford - Holmes e seu irmão Mycroft enfrentam um perigoso desafio ao investigar uma terrível maldição que recaiu sobre um marinheiro.

- The Curious Case of Miss Violet Stone - Poppy Z. Brite and David Ferguson - Holmes deve desvendar o mistério da jovem Violet Stone que sofre de uma estranha doença que a impede de se alimentar.

- The Adventure of the Antiquarian's Niece - Barbara Hambly - Holmes e Carnacki, o caçador de fantasmas se unem para conter os horrores dos mitos em um pequeno vilarejo no interior da Inglaterra.

- The Mystery of the Worm - John Pelan - O incrível cientista Nicholas Tesla e Holmes conduzem uma experiência macabra.

- The Mystery of the Hanged Man's Puzzle - Paul Finch - O detetive investiga o legado de Innsmouth e busca frustrar um plano que pode destruir Londres.

- The Horror of the Many Faces - Tim Lebbon - Watson tem que enfrentar seus maiores temores, quando Holmes parece enlouquecer tornando-se um assassino maníaco.

- The Adventure of the Arab's Manuscript - Michael Reaves - Holmes e Watson buscam localizar o supremo tomo dos mitos, o tenebroso Necronomicon.

- The Drowned Geologist - Caitlín R. Kiernan - Um geólogo faz uma descoberta tenebrosa na costa da Escócia.

- A Case of Insomnia - John P. Vourlis - Uma praga impede os habitantes de uma pequena cidade de dormir. Um horror se esgueira nas sombras e só é repelido pela luz.

- The Adventure of the Voorish Sign - Richard A Lupoff - Estranhos símbolos precisam ser decifrados por Holmes, oq ue abre as portas para os horrores dos antigos.

- The Adventure of the Exham Priory - F. Gwynplaine Macintyre - O Professor Moriarty se envolve com os Mitos e Holmes precisa desafiar seu nêmesis contando com perigosos aliados.

- Death Did Not Become Him - David Niall Wilson and Patricia Lee Macomber - O clássico conto do Golem em uma visão tipicamente lovecraftiana.

- Nightmare in Wax - Simon Clark - Holmes terá pouco tempo para frustrar os planos de Moriarty envolvendo a utilização das forças dos Mythos.

Shadows é uma boa pedida para quem gosta de Holmes e também para quem deseja ler algo novo e diferente no que diz respeito aos Mitos. Bastante recomendado.

Shadows Over Baker Street
464 páginas
Editora Del Rey
Em inglês
US$ 14,95

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Resenha do filme Sherlock Holmes

Sherlock Holmes é um dos personagens mais adaptados da história do cinema.

Há inúmeros filmes dedicados a ele, sendo que o mais antigo - "The Adventures of Sherlock Holmes" foi filmado em 1905. Na década de 40, Basil Rathborne personificou o destemido detetive em nada menos que 14 filmes. Rathborne não apenas atuou, ele emprestou sua face a Holmes. Foi a partir dele que Holmes ganhou sua imagem mais conhecida. Mas o ator sul-africano não foi o único que encarnou o personagem nos cinemas: Charlton Heston, Christopher Lee, Michael Caine, Peter Cushing, Peter O´Toole, Frank Langela... todos vestiram a capa xadrez, o chapéu de caça e fumaram o cachimbo de Holmes.

Mas os tempos mudam.

Não que Holmes tenha perdido seu encanto, longe disso. Porém muitos acreditavam que o personagem precisava de uma releitura e de uma nova roupagem para entrar no século XXI e ser apresentado a toda uma nova geração de fãs em potencial.

É essa a proposta do filme que está em cartaz e que desponta, desde já, como um dos blockbusters do ano.

"Sherlock Holmes" faz uma aposta arriscada ao investir em ação vertiginosa para conquistar o público jovem que costuma lotar os cinemas. Os mais puristas podem torcer o nariz, pois o resultado remete a um Máquina Mortífera na era Vitoriana: cenas de luta coreografadas, explosões, perseguições, tiroteios e humor ocasional.

Essa mudança faz de Sherlock Holmes um mau filme?

A resposta felizmente é não. Sherlock Holmes é um filme extremamente divertido que conta com um elenco inspirado cuja sintonia é contagiante.


Todos já devem saber que Robert Downey Jr é quem vive o personagem título. A escolha parecia fadada ao fracasso: o ator não tem qualquer similaridade física com o detetive inglês, descrito como alto e esguio. Downey ganhou carta branca do diretor Guy Ritchie (de Snatch e Jogos, trapaças e dois canos fumegantes) para criar em cima do personagem, abandonando certas características consagradas e adaptando outras. O Holmes de Downey Jr é um tipo cheio de energia, arrogante, brilhante e meio malandro.

A fórmula talvez não funcionasse com outro ator, mas Downey Jr tem uma atuação que esbanja carisma e conquista a platéia desde a primeira cena. Seu Holmes talvez seja diferente fisicamente, mas as características que acompanham o personagem desde sua criação estão todas lá. O raciocínio apurado, a capacidade de observação e o poder de dedução continuam sendo suas marcas registradas. Detalhes menores também se fazem presentes: o violino desafinado, as experiências químicas, os disfarces infalíveis, as deduções feitas a partir da observação...

O elenco de apoio conta com um Jude Law quase perfeito. Fisicamente compatível no papel, Watson não é mais um mero ajudante do detetive, ele se mostra como peça fundamental na investigação. Além de ajudar Holmes analisando as pistas, ele se torna seu braço direito quando é preciso enfrentar os vilões seja com armas de fogo ou com os punhos. Watson e Holmes dividem um aparatamento e apesar das brigas e picuinhas, possuem uma profunda afeição e respeito, que estão sendo postos a prova pelo casamento do bom doutor.

Não é exagero afirmar que os melhores momentos do filme são proporcionados pela perfeita química estabelecida entre a dupla.

Rachel MacAddans é a protagonista feminina no papel da dinâmica Irene Adler. Na mitologia de Holmes ela já era retratada como uma mulher fascinante à frente de seu tempo. Holmes tinha uma profunda admiração por ela. No filme ela se apresenta como interesse romântico para o detetive e uma personagem misteriosa cujas motivações ficam ocultas até o fim.

A trama não faz parte do cânone de Arthur Conan Doyle. Holmes e Watson precisam deter a ameaça de um certo Lorde Blackwell (Mark Strong), um soturno nobre, envolvido com bruxaria e satanismo (nos moldes de um Alesteir Crowley) que é responsável por assassinatos ritualísticos no coração de Londres. Após ser capturado e condenado à morte, o vilão promete que retornará dos mortos para extrair sua vingança. Logo a promessa de Blackwell se faz cumprir e as pessoas que ele jurou eliminar começam a morrer de forma bizarra.

Holmes precisa desvendar o mistério da ressurreição de Blackwell, o envolvimento de uma sociedade secreta, antigos rituais místicos e pessoas poderosas, a fim de salvar a cidade mergulhada no terror.

A estória é bem amarrada e a trama envolvendo forças sobrenaturais ajuda a criar um clima de suspense. O inimigo clássico de Holmes, o Professor Moriarty aparece brevemente, contudo seu rosto não é revelado deixando um gancho para a inevitável continuação.

Guy Ritchie consegue imprimir um bom ritmo no filme, embora cometa o pecado de deixá-lo um pouco longo.

A parte técnica de Sherlock Holmes é impecável. O figurino e a direção de arte são de cair o queixo, recriando nos mínimos detalhes a escura e claustrofóbica Londres Vitoriana. Os cenários grandiosos, abusando dos efeitos digitais, são realmente impressionantes e merecem ser enaltecidos. A Londres de Sherlock Holmes não fica devendo nada a apavorante recriação contemporânea de Do Inferno.

Igualmente irretocável são os efeitos sonoros e a empolgante trilha sonora de Hans Zimmer que pontua os momentos mais intensos do filme. Não espere algo profundo ou um mistério intrincado, Sherlock Holmes se propõe a ser um filme divertido, nada além disso. Para quem mantiver isso em mente, pode ter certeza, vai se divertir a valer.


Achou interessante? Talvez você também goste:

- Harry Houdini e sua amizade com Arthur Conan Doyle:


- Os personagens mais famosos de Conan Doyle:


- As aventuras de Sherlock Holmes:


domingo, 31 de janeiro de 2010

Sherlock Holmes - A vida, as peculiaridades e façanhas do grande detetive


Extraído do site Sherlock Holmes Brasil (ver créditos)

O Fenômeno Sherlock Holmes

Sherlock Holmes, criado pelo escocês Sir Arthur Conan Doyle, apareceu pela primeira vez na história "Um Estudo em Vermelho", editada pela revista Beeton's Christmas Annual no Natal de 1887 e, desde então, tem fascinado muita gente, sendo o personagem da literatura mundial que recebeu o maior número de adaptações, estudos e especulações. Doyle acabou por criar um personagem que apaixonou em pouco tempo o mundo inteiro. Leitores juvenis, adultos e velhos de todos os idiomas adquiriram o vício de Holmes, transformando esta figura de ficção numa espécie de psicotrópico, que vem funcionando para as multidões há mais de cem anos.

São milhares as pessoas que, durante anos e anos, acreditaram embevecidamente que Sherlock Holmes existia em carne e osso e morava numa rua de Londres (Baker Street), assim como também de carne e osso seria o Doutor Watson, associado de Holmes, cronista de grande parte dos casos nos quais o Detetive Mestre atuou. O caso é único na história: a criatura Holmes engoliu o criador Doyle. O imaginário Sherlock Holmes é a ficção mais famosa em todos os continentes, superando, certamente, os outros dois de maior renome universal: Robinson Crusoé e Dom Quixote.

O total fascínio de Sherlock Holmes sobre os leitores ainda não obteve de nenhum psicólogo uma interpretação satisfatória. Acredita o poeta contemporâneo Wystan Auden, que o encanto fabuloso de Holmes sobre as imaginações se deva ao fato de que o detetive viveu (ou vive) em estado de graça: é, antes de tudo, um gênio e, em segundo lugar, um gênio dotado de curiosidade científica.

Sherlock Holmes é o que se costuma chamar hoje de uma inteligência eletrônica. Seu cérebro funciona como um mecanismo de alta sofisticação que houvesse sido programado para decifrar crimes. Fora do campo criminal, a capacidade mental de Sherlock é comum e, em muitos aspectos, deficiente, sem penetração. Fora de sua especialidade, o nosso herói é, como na figuração convencional dos gênios, um homem desamparado.

Por outro lado, quando não se ocupa de um caso, Sherlock Holmes cai em estados depressivos que ele só consegue aliviar com a injeção de estupefacientes. Essa incurável tendência à depressão psíquica deve ser também mais um atrativo moderno, e ao mesmo tempo romântico, da personalidade do detetive de Regent's Park. A alma de Beethoven ou de Byron, a par do que produziram estes dois, em música e poesia, deflagrou a imaginação de todo um século. Fenômeno muito parecido ocorreu e ocorre com a alma de Sherlock Holmes no século vinte.

Os fatos são contundentes. O povo tomou conta de Holmes. Chegou a crer na sua existência. Nenhum personagem de ficção tem no mundo mais vasta bibliografia, com toda uma gama de estudos, dos mais ingênuos aos mais eruditos. Ninguém, fictício ou real, foi alvo de tantas representações teatrais, cinematográficas, em histórias em quadrinhos, em palavras cruzadas, em seriados de televisão etc. Ninguém multiplicou um gênero (conto e romance policial) em proporções de tiragens tão astronômicas.

Basta lembrar-se que, sem Sherlock Holmes, é incerto imaginar a penetração fora do comum de Agatha Christie; sem esquecer que nos Estados Unidos, onde a literatura policial se transformou em imensa indústria de consumo, o ponto de partida está nas aventuras de Sherlock Holmes, e não em algumas narrativas de Edgar Alan Poe. Este não inflamou o povão americano; o outro, sim. Os sherlockianos existiram desde a primeira hora; e continuam surgindo no fluir das gerações. Holmes não tem propriamente leitores, tem devotos espalhados por todos os países, sem limites precisos de classe social e de cultura.

Por todos esses motivos, e por outros que poderiam entrar nessa lista, Sherlock Holmes é, repetimos, a ficção mais famosa de todo o mundo. Elementar, meu caro Watson!

Características do Detetive

Ao longo de toda a história das adaptações e representações de Sherlock Holmes, as características físicas originais descritas no Cânone sofreram diversas modificações.

De todo modo, conforme descrito por Watson em Um Estudo em Vermelho, "a sua própria pessoa e aparência eram tais que chamavam atenção do observador mais casual. Tinha muito mais de um metro e oitenta de altura, e era tão excessivamente magro que parecia muito mais alto. Seus olhos eram agudos e penetrantes (...), e o nariz fino de águia dava a todo seu semblante um ar de vivacidade e decisão. O queixo tinha o formato proeminente e quadrado, que marca o homem de determinação. Suas mãos estavam invariavelmente manchadas de tinta e materiais químicos, no entanto, era dotado de extraordinária leveza no toque."
Apesar de não se exercitar por vontade própria, estava sempre em forma, era um ótimo corredor e dotado de uma força pela qual, segundo Watson, poucos poderiam dar-lhe crédito. Era "excepcionalmente forte nos dedos" ("A Coroa de Berilos") e tinha um "aperto de aço" ("Seu Último Adeus"). Além disso, era muito hábil no boxe, esgrima e baritsu, um sistema japonês de defesa pessoal.

Mestre do disfarce, podia passar-se despercebido até pelos seus mais próximos. "Ele está seguindo alguém. Ontem, era um operário procurando emprego; hoje, uma velha senhora" ("A Pedra Mazarino"). E "não era uma mera mudança de roupa - sua expressão, suas maneiras, até sua própria alma parecia variar com cada nova porção que ele assumia. O teatro perdeu um grande ator, assim como a ciência perdeu um perspicaz estudioso quando ele se tornou um especialista em crimes" ("Um Escândalo na Boêmia").

Em decorrência de seus esforços empregados num caso, Holmes mantinha hábitos inconstantes e deveras incomuns. Podia trabalhar vivamente num problema por vários dias, sem qualquer descanso e pouca alimentação. Entretanto, na ausência de casos, que eram uma ocupação para sua mente inquieta, queixava-se da monotonia exaustiva, recusando-se a levantar da cama por dias seguidos. Na tentativa de amenizar suas ocasionais crises depressivas, recorria ao uso de estupefacientes, hábito posteriormente abandonado devido à forte insistência de seu amigo e associado, Dr. Watson.

No caso "O Pé do Diabo", Watson lamenta que o estado de saúde não é alvo de grande preocupação de seu amigo. Sua constituição de ferro sofreu um colapso devido a uma prostração nervosa, em 1887, e dezesseis anos mais tarde, Holmes foi obrigado a retirar-se em benefício de um merecido descanso.

A paixão pela química

Dentre os mais variados campos e assuntos estudados por Holmes, nenhum fascinou-o mais do que a química. Usava seus conhecimentos na área tanto para auxiliar na elucidação de casos, como por puro hobby, misturando compostos e fazendo experiências. Como escrito por Watson, em "O Signo dos Quatro": "[Ele] mal respondia às minhas perguntas, ocupando-se toda a noite com uma abstrusa análise química que exigia o aquecimento de retortas e a destilação de vapores, cujo cheiro quase me enxotou para a rua. Altas horas da noite, eu ainda ouvia o tinir dos seus tubos de ensaio, indicando-me que ele continuava empenhado no seu experimento mal cheiroso".

A irregularidade nas refeições

Quando trabalhando num caso, Holmes freqüentemente dispensava qualquer alimento, acreditando: "as faculdades tornam-se refinadas quando você as priva de alimento. Ora, certamente, meu caro Watson, como um médico, você deve admitir que o que a digestão ganha em fornecimento de sangue é perda tamanha para o cérebro. E eu sou um cérebro, Watson, o resto de mim é um mero apêndice. Assim, é o cérebro que devo considerar" ("A Pedra Mazarino"). Entretanto, Sherlock Holmes possuía um refinado paladar culinário, e quando o tempo lhe permitia, apreciava um bom café da manhã.

O ouvido para a música

O detetive apreciava músicas de todos os tipos, incluindo ópera, concertos e até mesmo motetes. A apreciação de Holmes pela música é clara em vários episódios. O mais notório era seu gosto pelo violino e o cuidado com que mantinha o instrumento, diferentemente dos demais objetos que jaziam espalhados por seus aposentos, no 221B Baker Street.

Sua habilidade com o violino era tal que, no caso "A Pedra Mazarino", ouvintes não discerniam sua música da tocada num gravador. A pedido de Watson, ele tocaria algum dos lieder de Mendelssohn, bem como criaria peças extemporâneas.

A descrença nas mulheres

Ao longo de todo o Cânone, o leitor pode comprovar o descrédito e o desgosto de Holmes pelas mulheres e pelo casamento. Abaixo, seguem alguns exemplos:

"Nunca se pode confiar demasiado nas mulheres... nem nas melhores delas."
(O Signo dos Quatro)

"Eu não sou um fanático admirador da espécie feminina."
(O Vale do Terror)

"O Coração e a mente de uma mulher são enigmas insolúveis para o homem."
(O Cliente Ilustre)

Essa atitude tem sido alvo de muitas especulações e análises por parte de diversos estudiosos em todo o mundo. Uma das possíveis explicações foi apresentada por Nicholas Meyer, no seu "The Seven Per-Cent Solution", que mostra um suposto trauma psicológico adquirido por Holmes em sua juventude.

Ainda assim, o detetive foi forçado a admitir um sustentável respeito e estima por Irene Adler, a mulher. "Para Sherlock Holmes, ela é sempre a mulher. Raras vezes o ouvi mencioná-la de outra maneira. Para seus olhos, ela eclipsava e se sobrepunha às demais mulheres. Não que ele estivesse apaixonado por Irene Adler. Todas as emoções, e particularmente essa, aborreciam sua mente fria, precisa, mas admiravelmente equilibrada" ("Um Escândalo na Boêmia").

Resumo Histórico


Infelizmente, pouco sabemos com certeza sobre detalhes da vida do Detetive Mestre antes da profissão de detetive consultor. Algumas das poucas informações que temos a esse respeito são, em sua maioria, suposições baseadas em fragmentos e pistas espalhados por todo o Cânone, concluídos por estudiosos da Obra de Conan Doyle. Estudiosos esses que vasculham incansavelmente cada canto do Cânone, procurando dados, fatos e revelações sobre a secreta e nebulosa vida de Sherlock Holmes.

Sherlock Holmes, de acordo com o próprio detetive, era descendente de fidalgos rurais "que aparentemente levaram a mesma vida peculiar à sua classe". Além disso, sua avó era irmã do artista francês Vernet. Segundo Matthew Bunson, em seu "Encyclopedia Sherlockiana", duas interpretações podem ser feitas dessas declarações: a frase "aparentemente levaram" aponta a possibilidade do jovem Holmes ter crescido num lugar distante de seus pais, talvez numa escola pública ou até mesmo na América; a outra hipótese, Holmes ter passado de fato sua juventude com os pais, no campo, possivelmente recebendo apropriada educação de um tutor particular (Moriarty?). Nesse ponto, Holmes provavelmente vinha cultivando um crescente desgosto pelo campo, onde os crimes que detectava passavam impunes. Daí, anos mais tarde, uma mudança para a metrópole.

Holmes nasceu por volta do ano de 1854, possivelmente no dia 6 de Janeiro, na província londrina de Surrey. Essa data é estimada e defendida, entre outros, pelo falecido sherlockiano William S. Baring-Gould.

Já na Universidade, Holmes recebeu os conselhos do pai de Victor Trevor, seu único amigo durante os dois anos passados na faculdade - "todos os detetives similares pareceriam crianças em suas mãos. Esse é seu objetivo, senhor, e você pode levar em conta a palavra de um homem que já viu muito desse mundo". Foi, então, convencido de suas habilidades e oportunidades, que Holmes percebeu que podia transformar o que antes sempre fora um hobby em uma profissão. Partiu, assim, para Londres a fim de se estabelecer como o primeiro Detetive Consultor do mundo, entre os anos de 1877 e 1878.

Fora aqueles casos presumivelmente solucionados quando ele ainda estava na Universidade, e portanto durante sua juventude, o primeiro caso no qual seus serviços estiveram empenhados fora o incidente do Glória Scott. Esse, resolvido antes de sua partida para Londres. Uma vez em Londres, Holmes estabeleceu-se à Montague Street e iniciou sua longa carreira de detecção.

Embora obtivesse sucesso na maioria dos casos, Holmes não era perfeito e admitiu, no caso "As Cinco Sementes de Laranja", "Fui derrotado quatro vezes - três por homens, e uma vez por uma mulher".

Caso a caso, ele crescia em importância, tanto entre os criminosos quanto entre os policiais da Scotland Yard. Em 1881, já estava auxiliando pessoalmente a Scotland Yard quando solicitado. Um fato que demonstra seu crescente sucesso ficou claro pelo seu desejo posterior de encontrar novas acomodações; embora não estivesse financeiramente independente, visto que buscava um companheiro para a divisão dos quartos.

Em Janeiro de 1881, Sherlock Holmes e o Dr. John Watson se conhecem, e passam a dividir o apartamento 221B de Baker Street. Pouco depois, Watson pessoalmente descobre as habilidades analíticas do seu companheiro, passando a registrar as inesquecíveis façanhas do detetive: "Seus méritos deviam ser publicamente reconhecidos. Você deveria publicar um relato do caso. Se não o fizer, eu o farei por você."

Os treze anos seguintes levaram Holmes da total obscuridade para uma posição de renome como o detetive do mundo europeu. Ainda mais importante, ele conduziu diversas investigações a favor de monarcas europeus, incluindo o rei da Boêmia, o rei da Escandinávia e a família real da Holanda.

Em 1891, no caso "O Problema Final", Holmes diz a Watson, "Suas memórias, Watson, se arrastarão para um fim no dia em que coroar minha carreira com a captura ou extinção do criminoso mais perigoso e capaz da Europa." No caso, ocorre o inevitável confronto entre Sherlock Holmes e seu maior antagonista, o Professor James Moriarty, resultando numa trágica queda de ambos das Cataratas Reichenbach, na Suíça. Durante três anos, Holmes e Moriarty são dados como mortos; até que, em 1894, Sherlock Holmes reaparece para o mundo, esclarecendo que a queda fora fatal apenas para Moriarty.

O período em que Holmes ficara ausente (1891-1894) é conhecido como O Grande Hiato, e é objeto de muita especulação entre sherlockianos estudiosos de todo o mundo, abrindo espaço para um grande número de teorias e conjeturas. Segundo o próprio Holmes, durante esse período ele esteve no Tibet, Meca, Khartoum e Montpelier, onde passou alguns meses estudando derivados de coltar.

De volta a Baker Street, Sherlock Holmes trabalhou por mais nove anos na investigação de casos. Certamente, um dos que merecem maior destaque é "Os Planos do Bruce-Partington", cujo sucesso lhe concedeu uma audiência particular com a Rainha Vitória. Outro caso válido de menção é "A Escola do Priorado", que tornou-se memorável pelo fato de Holmes ter aceito um cheque de enorme quantia do duque de Holdernesse (o que, de certa forma, contrariava o velho e conhecido comportamento austero de Holmes). Sua atitude surpreendera Watson de tal modo que o doutor ainda comentava o fato no começo do caso seguinte, "Pedro Negro".

Com o tempo passando, o detetive aproximando-se dos cinqüenta e os abusos com a saúde, nos anos anteriores, pesando cada vez mais sobre seus ombros, o descanso era uma proposta cada vez mais tentadora. No caso "A Segunda Mancha", Watson surpreende os leitores com a notícia de que Holmes aposentara-se definitivamente de Londres, e estava dedicando-se aos estudos e à criação de abelhas nas colinas de Sussex. Era o início da merecida aposentadoria do Grande Detetive, e término de uma carreira brilhante na arte da dedução. No prefácio de "Seu Último Adeus", Watson despede o detetive de seu público: "Os amigos do Sr. Sherlock Holmes ficarão felizes em saber que ele está vivo e bem, embora um pouco atormentado por ocasionais ataques de reumatismo. Por muitos anos, vem vivendo numa pequena fazenda sobre as colinas, a cinco milhas de Eastbourne, onde seu tempo é dividido entre a filosofia e a agricultura. Durante esse período de descanso, ele tem recusado as mais tentadoras ofertas para aceitar diversos casos, tendo decidido que sua aposentadoria é permanente."

Tamanha era a crise na Inglaterra, nos anos que precederam a Primeira Guerra Mundial, que Holmes acabou cedendo aos pedidos do primeiro-ministro, e voltou-se para atender a mais um caso. Com a tarefa de penetrar no esquema de espionagem do mestre da inteligência alemã, Von Bork, Holmes personificou Altamont, um irlandês inimigo do Império Britânico. Lentamente, arruinou toda a rede de espionagem alemã. A operação foi um sucesso e o detetive pôde, finalmente, retornar ao descanso no campo.

Em nenhum lugar do Cânone, a morte de Sherlock Holmes é mencionada. Mas isso é certamente apropriado quando analisamos as criações imortais.

Créditos: Esse artigo foi extraído do site Sherlock Holmes Brasil (http://www.sherlockbrasil.com/) com a devida permissão. Agradecemos a gentil colaboração de Graciliano Camargo e convido todos a visitar essa excelente página dedicada ao maior detetive de todos os tempos.

Sherlock Holmes e o Caso dos Mitos Ancestrais de Cthulhu

Ao longo de mais de cem anos, Sherlock Holmes se tornou um dos personagens mais conhecidos da literatura mundial.

A imagem do famoso detetive tornou-se inconfundível. A figura esguia de chapéu e cachimbo, sempre disposto a fazer uma observação mordaz e brilhante ganhou o mundo conquistando seguidores fiéis. Cada um de seus contos se tornou objeto de estudo, análise e adoração. Os intrincados casos investigados por Holmes e seu fiel companheiro Watson, foram adaptados em filmes, quadrinhos, peças, séries de televisão, video-games...

Qual seria o segredo do fascínio que Holmes desperta até os dias de hoje?

Arthur Conan Doyle criou Sherlock Holmes no final do século XIX, uma época em que a razão e a lógica se apresentavam como as musas a serem glorificadas nos anos vindouros. O século XX prometia ser devotado às inovações, realizações e a definitiva conquista do Homem.

Holmes simboliza a luz da razão e do intelecto humano, uma força capaz de domar as interpéries da natureza, de desvendar os segredos mais profundos da criação e alçar o homem ao posto de Senhor de seu Destino.
Ao resolver os mais intrincados mistérios, nada parece ser capaz de suplantar a lógica e poder de dedução do detetive.

Nada?

E se Holmes fosse confrontado com algo inimaginável? Por fenômenos que desafiam a própria noção de realidade? Por forças nascidas além do tempo e espaço que vagam em um Universo totalmente caótico. Como racionalizar aquilo que é em essência inconcebível e cujo mero vislumbre se traduz em insanidade?

Seriam os Mitos a única força capaz de colocar as crenças de Sherlock Holmes em xeque? Como o maior detetive do Mundo enfrentaria esses horrores, como ele lidaria com o poder esmagador das colossais entidades lovecraftianas e com a existência de cultos sanguinários.

Holmes e os Mitos...
Que o jogo tenha início.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

The Art of H.P. Lovecraft Cthulhu Mythos - Foto-Resenha com várias imagens espetaculares

O texto a seguir é uma tradução literal e sem alterações de conteúdo do Blog espanhol: “Susurros de la oscuridad” por Tristan Oberon.

http://susurrosdesdelaoscuridad.blogspot.com/2008/09/art-of-hp-lovecrafts-cthulhu-mythos.html/2008/09/art-of-hp-lovecrafts-cthulhu-mythos.html

Tradução: Daniel “Cuervo”

Originalmente postado em 7 de setembro de 2008

The Art of H.P. Lovecraft's Cthulhu Mythos

Bom, aqui temos outro livro que sem ser diretamente um suplemento do jogo de RPG, cheguei a considerei imprescindível, um livro de cabeceira para todo Keeper ou fã de Lovecraft. O ditado de que uma imagem vale mais do que mil palavras se aplica perfeitamente ao RPG, já que é um jogo onde se estimula a imaginação, mas nem o mais perturbado de nós tem a mente tão deturpada capaz de imaginar certos horrores. Imaginemos que ao final uma infausta investigação, os investigadores acabam encontrando Azathoth cara a cara, com o final da sessão, da campanha ou do mundo, e não necessariamente nessa ordem.

Em qualquer caso, não é o mesmo dizer: “Aparece isto”:
(conste que escolhi um desenho bem melhor que o que aparece no módulo básico de “CoC”)

Que dizer “Aparece ISTO”:

(e mostrar um fabuloso desenho de página dupla)

Por essse motivo e muitos outros, considero imprescindível ter “The Art of HP Lovecraft’s Cthulhu Mythos” ao alcance da mão em qualquer sessão. O livro foi publicado pela Fantasy Flight Games e está disponível só em inglês, mas o idioma, neste caso, não será problema porque é um livro de ilustrações com muito pouco texto.

Capa: um extraordinário desenho de Michael Kormack que nos mostra a aparição de Cthulhu no conto “O Chamado de Cthulhu”.

Contracapa: neste caso é um alívio que a capa seja do tipo “por e tirar” (sobrecapa) para poder apreciar toda a envergadura do desenho.

Lombada: 192 páginas repletas de boas ilustrações, capa dura.

O livro não poderia começar de outra forma, ilustração de HP Lovecraft.

Os créditos nos mostram a longa lista de ilustradores e os capítulos em que se divide o livro.

Aqui temos praticamente todo o texto que encontraremos neste livro, mas prefiro as (lógicas) caras de pânico do desenho.

O primeiro capítulo “Forbidden Knowledge” (Conhecimento Proibido) mostra um bom número de escritos proibidos, bibliotecas e livros que deveriam permanecer fechados e bem guardados.

Em geral, o nível das ilustrações é muito alto, mas as de dupla página são alucinantes, imagens nas que podemos nos perder um bom tempo.

O segundo capítulo, “Visitors” (Visitantes) mostra todo tipo de antagonista para nossas sessões.

Adoro a imagem da esquerda, se esse cara não apavorar seus investigadores, eles não tem sangue nas veias...

No terceiro capítulo “Law and Disorder” (Lei e Desordem) mostra cenas apavorantes, em quase todas elas o ou os investigadores estão prestes a conhecer bem de perto como podem ser perigosos os Mitos de Cthulhu.

É muito bom que cada ilustração venha acompanhada pelo título e o nome do autor, vai nos ajudar a encontrar na Internet novas ilustrações de nossos artistas favoritos.

Eu adoro esta cena, nunca aconteceu numa de suas sessões? O investigador algemado ao carro dizendo à polícia que NÃO entre nesse armazém... E, obviamente, não adianta...

No quarto capítulo, “Strange Pastimes” (Passado Estranho) deixa ver rituais e horrores que nunca deveriam ser vistos.

O quinto capítulo “The Deep” (As Profundezas) nos submerge nas profundezas, onde os piores males espreitam.

Innsmouth, um lindo lugar para passar umas férias de morte.
Ângulos impossíveis na inexpugnável R’lyeh.

O sexto capítulo, “Expeditions” (Expedições) nos leva aos mais recônditos lugares do planeta, desde a Antártida até a selva amazônica passando pela mítica Irem e pelo misterioso Planalto de Leng.


O sétimo capítulo, “The King in Yellow” (O Rei Amarelo), fala de Hastur (ups!) e de sua chegada.

O oitavo e último capítulo “The Crawling Chaos” (O Caos Rastejante) nos permite descobrir várias das mil formas do Caos Rastejante e alguns de seus colegas.

O melhor uso que podemos dar à última bala de um revólver.

Azathoth, cego mas perigoso. Recomenda-se acompanhar esta ilustração com música de flautas.

No final do livro nos deparamos com mini-biografias dos ilustradores.

E umas poucas caricaturas para fechar o livro e recuperar um pouco de sanidade.

Esclarecendo, a maioria destas ilustrações podemos encontrá-las com muito boa qualidade na Internet, se não querem procurar muito clicar esta e esta páginas. Com certeza tem mais, mas nestas poderão encontrar grande