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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O Homem Negro: o mensageiro das bruxas e um dos mais inquietantes avatares de Nyarlathotep


Dentro do vasto panteão dos Mythos de Cthulhu, poucas entidades são tão enigmáticas quanto Nyarlathotep, o Caos Rastejante. Diferentemente de outras divindades cuja existência é praticamente indiferente à humanidade, Nyarlathotep caminha entre os homens. Ele fala, negocia, manipula, seduz e corrompe. Nenhuma entidade do Mythos é mais humana, ou interessada na raça humana do que ele.

Na mitologia lovecraftiana, Nyarlathotep assume inúmeras formas para interagir com diferentes culturas e épocas. Ele tem trânsito livre pelos campos, pelas nações e pelas cidades. Uma das mais antigas e perturbadoras manifestações do Caos Rastejante é conhecida simplesmente como o Homem Negro (The Black Man), figura intimamente ligada às tradições de feitiçaria e aos antigos sabás das bruxas.

O Homem Negro aparece de forma mais marcante no conto The Dreams in the Witch House (1933), uma das obras-primas de H. P. Lovecraft. Na história, ele surge como uma figura misteriosa que acompanha a bruxa Keziah Mason e conduz novos iniciados ao serviço de forças muito além da compreensão humana. Embora seja mencionado de maneira relativamente breve, sua presença domina toda a atmosfera do conto. Lovecraft jamais afirma explicitamente que o Homem Negro seja Nyarlathotep, mas essa identificação tornou-se consenso entre autores posteriores e acabou sendo oficializada em diversos suplementos de Call of Cthulhu e outras obras dos Mythos. Fora desse conto, referências indiretas ao personagem aparecem em diversos livros da Chaosium, especialmente aqueles voltados para feitiçaria, cultos e o próprio Nyarlathotep.

Diferente da maioria dos Grandes Antigos e Deuses Exteriores, o Homem Negro estabelece uma relação direta com seus seguidores. Ele não exige adoração distante nem inspira terror reverencial. Sua função é a de ser um intermediário, um tentador e, sobretudo, um negociador. Ele surge como um mestre que oferece aos seus discípulos sabedoria inacessível e um conhecimento atroz. Suas verdades, ou meias verdades são terríveis e não raramente acabam condenando aqueles que se relacionam com ele à completa ruína. O Homem Negro oferece barganhas, mas sempre está em vantagem. 

Nas antigas tradições de feitiçaria europeia, ele surge diante daqueles que buscam conhecimento proibido, oferecendo poder em troca de lealdade. Sob muitos aspectos, Lovecraft reinterpretou a figura folclórica do Diabo dos sabás medievais, retirando dela o aspecto estritamente cristão e transformando-a em algo muito mais antigo e cósmico.

Essa associação com a bruxaria é um dos elementos mais fascinantes do personagem. O Homem Negro costuma aparecer durante reuniões secretas de feiticeiras e ocultistas, presidindo cerimônias onde novos membros são aceitos em uma cabala. Quando um novo iniciado é levado diante da congregação ele é chamado para oficializar sua adesão. Essa reunião tende a acontecer em lugares específicos - devidamente consagrados através de sacrifícios. Lugares típicos costumam ser clareiras em matas fechadas, cavernas escuras, velhas ruínas subterrâneas ou mesmo em encruzilhadas. Datas propícias também parecem desempenhar um papel importante na manifestação do Homem Negro, sendo que as noites sem lua parecem especialmente favoráveis. O Homem Negro tradicionalmente está ligado a Noite de Walpurgis quando ele responde aos chamamentos dos seus cultistas. 

Uma vez presente, o Homem Negro desempenha a função de oficializar os rituais. Ele também recebe sacrifícios, geralmente de animais, mas em alguns casos de indivíduos especialmente mulheres virgens e crianças recém nascidas. Quanto mais importante o ritual, maior a necessidade de um sacrifício à altura. 

Se satisfeito, o Homem Negro pode partilhar o segredo sobre antigos rituais, ensinar fórmulas esquecidas e conceder acesso a conhecimentos que jamais deveriam estar ao alcance da humanidade. Em muitos Tomos dos Mythos, especialmente naqueles que tratam de misticismo pagão, a entidade é descrita como Patrono de inúmeras tradições mágicas espalhadas pelo mundo.

O pacto oferecido pelo Homem Negro raramente envolve riquezas ou poder político imediato. Seu verdadeiro presente é a Sabedoria. Ele pode garantir benefícios como longevidade, domínio sobre feitiços, comunicação com entidades extraplanares, viagens entre dimensões e uma compreensão da realidade inacessível aos mortais. Em troca, exige devoção absoluta e disposição para abandonar gradualmente tudo aquilo que torna alguém humano. O Homem Negro tem especial deleite em corromper e perverter os valores dos indivíduos e talvez seja por esse motivo que muitas religiões o encaram como uma manifestação do demônio. O Homem Negro se interessa em testar os limites da moralidade e da ética, compelindo aqueles que aceitam barganhar com ele a enveredar por um caminho de aniquilação pessoal e de todos que estão ao seu redor. A noção geral do que consideramos transgressão, tabu e pecado é algo muito valioso a ele.

O preço a ser cobrado nunca é apresentado de forma explícita; ele se revela ao longo dos anos, conforme o iniciado percebe que seu corpo, sua mente e sua moralidade foram profundamente transformados pela barganha com a divindade. Ninguém que trata com o Homem Negro escapa impune dessa interação.

Uma das imagens mais emblemáticas associadas ao Homem Negro é a do Livro Negro. Durante o sabá, aqueles que aceitam seu pacto eram convidados a assinar seus nomes nesse volume utilizando o próprio sangue. Essa ideia possui profundas raízes no folclore europeu, onde pactos demoníacos frequentemente eram selados por intermédio de um livro ou registro sobrenatural. Lovecraft incorporou essa tradição ao Mythos, mas substituiu a condenação religiosa por algo muito mais inquietante: ao assinar o Livro Negro, o iniciado não entrega apenas sua alma, mas torna-se parte de um projeto cósmico cuja verdadeira finalidade permanece incompreensível. O livro representa menos um contrato e mais um registro daqueles que aceitaram servir às vontades insondáveis de Nyarlathotep. O Livro é uma espécie de instrumento pelo qual um vínculo perpétuo é estabelecido. Não é a alma que é ofertada, mas sim cada fibra do ser afim de ser moldada e alterada de acordo com os caprichos do Caos Rastejante. 

Fisicamente, o Homem Negro costuma ser descrito como um indivíduo alto, extremamente magro e longilíneo. Sua pele é incrivelmente escura, quase como tinta ou como uma sombra particularmente profunda. Seus olhos tendem a ser verdes, com um brilho particular que enseja inteligência e sagacidade. Os traços são difíceis de definir, ele não tem características raciais discerníveis e sua face transmite uma estranha aura de serenidade e ameaça. Seus movimentos são fluidos e graciosos, acompanhados de mesuras e meneios afetados. Ele chama a atenção onde quer que esteja e é impossível não ser atraído pela sua presença magnética. 

O Homem Negro se veste de maneira elegante variando seus trajes de acordo com a cultura do local e do momento no qual se manifesta. Suas roupas refletem uma noção global de riqueza e status elevado, uma vez mais, condizente com o período e o local. Portanto, ele pode se vestir com um suntuoso traje de seda e musselina púrpura na Idade Média, uma roupa feita da pele de animais selvagens e penas na África sub-saariana ou um magnífico terno sob medida nos dias atuais.

Em The Dreams in the Witch House, ele é acompanhado por um grande bode negro — uma clara referência às antigas representações medievais do sabá — e sua simples presença inspirava uma sensação de reverência e desconforto. O Homem Negro para as bruxas era uma personificação de Satanás e como tal tratado com louvores pagãos. Em certas tradições, ele possuía patas caprinas, deixando as marcas de cascos fendidos por onde perambulava. Em outras representações ele é visto acompanhado de animais selvagens como lobos, leões e leopardos, predadores que se deitam aos seus pés e lambem seus dedos em submissão. 

O Homem Negro quase nunca demonstra emoções intensas. Seu sorriso sardônico e seu olhar penetrante sugerem alguém que observa pacientemente a humanidade desde o início dos tempos. Ele é como um professor observando crianças se esforçando para compreender conceitos inacessíveis. Sua atitude pode sugerir incentivo, mas ele transborda condescendência, deixando evidente sua superioridade. 

Psicologicamente, o Homem Negro talvez esteja entre as manifestações mais sofisticadas de Nyarlathotep. Ele não recorre à violência quando a manipulação se mostra uma ferramenta muito mais sutil e eficaz. Ele é educado, articulado e frequentemente até mesmo gentil. Nunca força ninguém a servi-lo; apenas oferece escolhas cuidadosamente calculadas. Seu maior talento está em identificar desejos ocultos — curiosidade, ambição, medo da morte, sede de conhecimento — e utilizá-los como porta de entrada para uma corrupção lenta e quase imperceptível. Ele representa a ideia de que os maiores horrores não surgem da coerção, mas da decisão consciente de ultrapassar limites que jamais deveriam ser cruzados.

Embora tenha origem na tradição europeia de feitiçaria, os cultos dedicados ao Homem Negro não permanecem restritos ao Ocidente. Nyarlathotep assume inúmeras formas ao redor do mundo para dialogar mais confortavelmente com diferentes culturas. No Oriente Médio, manifesta-se como o Profeta Escuro, uma forma que sussurra versos teológicos e expõe contradições filosóficas por intermédio de parábolas evocativas. Essa manifestação é similar a uma forma assumida no subcontinente indiano, a do Sábio Peregrino, um homem dotado de sabedoria ancestral que se senta à beira da estrada para partilhar suas visões. Na África ele era o Senhor das Feras, uma figura que estreitava os caminhos da magia ancestral e cobrava dos seus seguidores um alto preço. Na América durante a Conquista do Oeste assumia a forma de um Mascate que vagava pelos povoados em uma carroça cheia de novidades. Nas treze Colônias da Nova Inglaterra ele era o Homem de Voz Doce que oferecia uma vida de luxo e prometia inatingíveis prazeres terrenos. Já no Sul do Mississipi ele assumia a forma do Homem da Encruzilhada que oferecia aos músicos de Blues o segredo das baladas imortais.

São tantas as formas e nomes que o Homem Negro assumiu ao longo do tempo que talvez seja impossível nomear uma parcela ínfima delas. Essas manifestações não constituem entidades distintas, mas diferentes máscaras utilizadas pelo mesmo ser para tornar-se compreensível às culturas locais.

No fim das contas, o Homem Negro representa um aspecto essencial de Nyarlathotep e, talvez, dos próprios Mythos de Cthulhu. Enquanto Cthulhu simboliza a insignificância da humanidade diante do cosmos e Yog-Sothoth representa a incompreensibilidade da realidade, o Homem Negro encarna a tentação do conhecimento proibido. Ele não destrói civilizações pela força; faz algo muito mais sutil concedendo a ela os meios de se implodir de dentro para fora. Convence homens e mulheres de que certas portas merecem ser abertas, certos livros merecem ser lidos e certos segredos justificam qualquer sacrifício. O Homem Negro não age pela coação, mas pelo convencimento puro e simples. 

É por isso que continua sendo uma das figuras mais fascinantes e perturbadoras da obra de Lovecraft: não porque seja um monstro, mas porque fala diretamente ao impulso humano de buscar respostas, mesmo quando o preço dessa descoberta é a própria danação.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Os Outros Árabes Loucos III - Feiticeiros do Mythos no Oriente Médio

O terceiro e último artigo sobre os outros feiticeiros do Oriente Médio além do celebre Abdul Al-Hazred, o árabe louco original.

UMAR BIN-YAKTHOOB


Umar Ibn-Yakthoob, conhecido em alguns círculos apenas como Velho Yakthoob teve a dúbia honra de ser o primeiro Mestre de Abdul Al-Hazred no início de seu treinamento místico. Pouco se sabe à respeito de sua vida pregressa, mas o autor do Necronomicom creditava a seu mentor parte de seu interesse pela feitiçaria, chegando a referenciá-lo como o professor que instilou em sua alma o desejo pelo aprendizado das artes negras.

Supõe-se que Ibn-Yakthoob nasceu em Memphis no Egito e que pode ter sido um membro da infame Irmandade do Faraó Negro, um culto devotado a Nyarlathotep e mais especificamente ao seu avatar egípcio. Cronistas mencionam o feiticeiro como um favorito de Nitocris de quem ele teria obtido parte de sua instrução arcana. Verdade ou não, Yakthoob tinha grande influência e era tido como um dos feiticeiros mais poderosos do Egito. Em dado momento ele se retirou ou mais provavelmente, foi expulso da Irmandade por perseguir fontes de poder vedadas aos devotos do Faraó Negro. É possível que essa separação não tenha sido amistosa já que Al-Hazred afirmava que seu mentor sofria ameaças constantes de seus antigos companheiros e que temia sofrer atentados contra sua vida.

Ele se exilou no Vale de Hadoth, próximo das Colinas de Neb, possivelmente a leste da cidade de Tel el-Amarna. Com aproximadamente 50 anos ele aceitou instruir dois aprendizes o devasso Ibn-Ghazoul e o o prodigioso iemenita Abdul Al-Hazred, então com apenas 15 anos. Yakthoob ensinou aos seus dois aprendizes a base do estudo arcano, bem como a "invocar entidades malignas". 

O período de estudos de Al-Hazred com Yakthoob durou dois anos e se encerrou abruptamente quando o feiticeiro foi devorado por um demônio que ele próprio invocou. A entidade deveria ter sido controlada graças a uma poção mágica obtida na Babilônia pelos aprendizes. Contudo, Ibn-Ghazoul forneceu a seu mestre um elixir falso uma vez que gastou o dinheiro dado para comprá-lo em um bordel. A morte de seu mestre foi um choque para o jovem Al-Hazred que rompeu sua amizade com Ibn-Ghazoul depois do ocorrido. Ele prometeu que jamais tomaria para si próprio a responsabilidade de instruir discípulos após o trágico destino de seu Yakthoob. Ironicamente, o próprio Hazred teria uma morte que espelhou a de seu mestre, despedaçado por uma entidade invisível em Damasco.

O nome de Yakthoob é mencionado várias vezes nas páginas do Al-Azif, inclusive em um capítulo que narra sua horrível morte. Ele também é citado como um dos mais experientes feiticeiros na arte da invocação de entidades de planos distantes - dimensões. 

XUTHLTAN


Dos Feiticeiros do Oriente Médio que se destacaram em seu envolvimento com o Mythos de Cthulhu, talvez Xuthltan seja o mais abominável. Não se sabe muito sobre seu passado, mas supõe-se que ele tenha nascido em Gandara, no atual oeste do Paquistão, à época parte do vasto Império Persa

Há boatos de que Xuthltan se envolveu com o Culto Bestial de Carniçais que operava no submundo do Império e que gozava de enorme influência entre alguns aristocratas entediados. Ele teria partilhado dos rituais desses seres e se envolvido em atos de necrofilia e canibalismo. O contato íntimo com tais criaturas e suas práticas iniciou em seu corpo a transformação profana que eventualmente faria dele um Carniçal.

Xuthltan foi um hábil feiticeiro, supostamente um dos favoritos do infame Pai dos Carniçais, Naggoob que lhe agraciou com vários presentes e conhecimento. Em dado momento de sua vida, já quase inteiramente transformado, ele empreendeu uma jornada aos recessos de um complexo subterrâneo de onde retornou com um importante artefato, a joia mística conhecida como Fogo de Asshurbanipal. O feiticeiro deveria ter entregue o artefato ao seu benfeitor Naggoob, mas ao invés disso decidiu tomar a pedra para si próprio. 

Ele fugiu para a cidade de Kara-Shehr onde ofereceu suas habilidades ao Rei daquela terra que se impressionou com as suas proezas mágicas. Por muitos anos ele foi um conselheiro místico e vizir na corte usando uma máscara que disfarçava sua terrível aparência. Contudo, o Rei foi consumido pela cobiça que o levou a ordenar a prisão do Feiticeiro afim de se apoderar da magnífica joia. Xuthltan foi torturado na masmorra e acabou revelando a localização do Fogo de Asshurbanipal pouco antes de ser esquartejado.

Diz a lenda que em seu último fôlego o Feiticeiro lançou uma maldição sobre Kara-Shehr, seu povo e seu Rei. A cidade foi varrida pela doença, pela loucura e finalmente pela morte. Os poucos sobreviventes que escaparam dessa calamidade abandonaram a cidade que foi coberta pelas inexoráveis areias do deserto.

O FOGO DE ASSHURBANIPAL


Descrita como uma das mais formidáveis gemas de que se tem notícia, o Fogo de Asshurbanipal tem fascinado e atraído homens para sua perdição há milênios.

A origem da gema é obscurecida por lendas, mas supõe-se que ela teria sido criada por um poderoso feiticeiro da mítica Atlântida que extraiu da Terra dos Sonhos a matéria prima para sua construção. Fisicamente a pedra é uma gema do tamanho de um ovo de galinha com coloração vermelho alaranjada com raias amarelas. Ela parece emanar um brilho próprio que reflete a luminosidade criando um efeito hipnótico similar a chamas dançando. Aqueles que contemplam a joia acabam desenvolvendo um incontrolável desejo de tê-la apenas para si.

A pedra teria sido perdida milênios atrás em um complexo subterrâneo onde ficou sob os cuidados de  uma entidade diabólica devotada a ela. Quando o Feiticeiro Carniçal Xuthltan conseguiu reavê-la precisou enfrentar e derrotar esse guardião, uma notável façanha.

O artefato é obviamente mágico e possui vários poderes sobrenaturais. O maior deles diz respeito ao prolongamento da vida. Ela também poderia ser usada para estabelecer conversa com os Espíritos Flamejantes dos Efreet (possivelmente uma alegoria para as criaturas conhecidas como Vampiros de Fogo). Finalmente, concentrando-se sobre a superfície cristalina da gema um feiticeiro pode observar outros lugares, planos e dimensões, tendo um vislumbre da grandeza do universo.

Após a devastação de Kara-Shehr a pedra se perdeu uma vez mais. Ela supostamente foi enterrada com seu último detentor um Rei maldito cuja cobiça condenou sua nação. Nômades que exploraram a cidade perdida afirmavam que na tumba real havia uma múmia com uma joia de rara beleza. Ela teria sido roubada, mas repetidas vezes retornou a esse local. Nos anos 1930, um explorador americano e seu associado chegaram a relatar a descoberta do Fogo de Asshurbanipal nessa exata câmara funerária. Apesar da tentação de tomar para si o artefato, ele teria resistido e deixado a pedra naquele local.

Seu paradeiro atual é desconhecido.

domingo, 15 de dezembro de 2024

Os Outros Árabes Loucos II - Cultistas e feiticeiros do Mythos no Oriente Médio

Continuando nossa série sobre outros feiticeiros do oriente Médio além de Abdul Al-Hazred.

IBN-GHAZI


Ibn-Ghazi é um nome conhecido nos círculos místicos. Muitos estudiosos das artes arcanas estão familiarizados com sua maior criação, a famosa poeira que permite tornar visível seres que normalmente são imperceptíveis para os nossos sentidos.

O feiticeiro tem a reputação de ter sido um magnífico alquimista, conhecendo segredos ancestrais da arte da transmutação de metais e destilação de poções, concatenações e filtros com propriedades mágicas. Sabe-se que ele foi atraído pelo conhecimento de Damasco onde se reuniam os maiores sábios do mundo Islâmico. É provável, contudo, que Ibn-Ghazi tenha nascido nas terras da Arábia no século sete.

O árabe se notabilizou pelo estudo das ciências físicas e da matemática. Acredita-se que ele seja o autor de numerosos tratados científicos que atestam seu brilhantismo em diversos campos da ciência. Supõe-se que ele tenha descoberto os Mythos de Cthulhu no período em que esteve em Damasco. Lá ele integrou sociedades secretas e possivelmente cultos devotados a Hastur, Cthugha e Shub-Niggurath

A reputação de Ibn-Ghazi é celebrada por Abdul al-Hazred no Al-Azif que possui um capítulo descrevendo a criação e uso da poeira que leva seu nome. Hazred comenta que Ibn-Ghazi teve a motivação de criar a famosa substância após uma experiência aterrorizante com um demônio invisível conjurado das estrelas - possivelmente um Vampiro Estelar.  O aperfeiçoamento da fórmula consumiu quase duas décadas de sua vida mas rendeu uma forma confiável de detectar e evidenciar a presença de certas criaturas.

A morte de Ibn-Ghazi é cercada de mistério e horror. 

No Al-Azif, Al-Hazred afirma que durante um ritual, Ibn-Ghazi obteve uma visão apocalíptica sobre o fim da humanidade. Os deuses negros negaram compreensão sobre o que ele havia contemplado e o feiticeiro os desafiou. Por sua ousadia, ele foi punido com grande severidade pelos seus companheiros de culto. Sua língua foi arrancada, sua boca costurada e finalmente sua cabeça foi cortada. Em outra versão de seu terrível destino, Ibn-Ghazi teria sido lançado nos recessos mais profundos das soturnas Câmaras de Zin onde habitam os nefastos Shoggoth.    

IBN-SCHACABAO


Conhecido como o Herege de Bagdá, Ibn-Shacabao foi um dos teóricos do Mythos mais importantes de sua época. Ele foi superado apenas por Abdul Al-Hazred seu aprendiz, que estudou consigo por um período de pelo menos cinco anos na capital da Mesopotâmia.

Shacabao, chamado também de Shayk Abol (Herdeiro de Abol) e Ibn-Muchacab (Filho daquele que Habita  Vazio) é citado em pelo menos quatro passagens do Al-Azif. Hazred afirma que seu mestre obteve a maior parte de seu conhecimento esotérico através de conversas com Djins que respondiam aos seus apelos e se manifestavam no vazio do deserto. Ele também se comunicava com entidades superiores utilizando um estranho artefato semelhante a uma lâmpada mística. Alguns teóricos acreditam que Ibn-Shacabao teve seu corpo cooptado por um ser da Grande Raça de Yith que o habitou com sua mente por anos. Nesse período ele teria vagado pelas terras do Oriente Médio empreendendo jornadas até a Cidadela sem Nome e ao misterioso Oásis de Kara-Sher. Ele teria realizado um poderoso ritual de invocação no Rub al Khali que lhe permitiu convocar o próprio Yog-Sothoth para uma audiência. Outra façanha notável foi resgatar um artefato da Raça Ancestral escondido em uma ruína da Caldéia.

Os críticos de Ibn-Shacabao o consideravam um "fanfarrão" em face das façanhas que ele próprio propagava no final de sua vida. Biógrafos afirmam que ele tinha mais de 100 anos de idade quando finalmente expirou em sua morada em Bagdá. As últimas palavras que passaram pelos seus lábios foram uma oração blasfema aos Grandes Antigos. Após sua morte o sol teria sido coberto em um súbito eclipse que causou grande consternação e terror na capital. 

Há grande debate à respeito do destino da lendária biblioteca pertencente a Ibn-Shacabao que possuía uma infinidade de tomos extremamente valiosos e raros. A coleção teria sido roubada por um de seus ajudantes logo após sua morte. O aprendiz ignorou as instruções de seu mestre de queimar os documentos e ao invés disso, carregou consigo inúmeros pergaminhos. Estes teriam sido vendidos para poderosos feiticeiros no Oriente Médio. O aprendiz, no entanto, foi vítima de uma terrível maldição que arruinou seu corpo lentamente - supostamente a temida Necrosis, o "Mal dos Feiticeiros". Abdul Al-Hazred teria recuperado alguns destes pergaminhos subtraídos que foram incorporados a sua coleção particular em Damasco.

Para saber mais:

Sobre Necrosis - 

Sobre Abdul Al-Hazred - 


Sobre o Necronomicon

Shoggoth

A Cidade sem Nome

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

O Amuleto do Mastim Alado - Um artefato aterrorizante de um Culto tenebroso

No caixão estava um amuleto de desenho curioso e exótico, que aparentemente tinha sido usado em volta do pescoço do cadáver. Era a figura estranhamente convencionalizada de um cão alado agachado, ou esfinge com um rosto canino, e foi primorosamente esculpido em estilo oriental antigo a partir de um pequeno pedaço de jade verde. A expressão de suas feições era extremamente repulsiva, saboreando ao mesmo tempo morte, bestialidade e malevolência. Ao redor da base havia uma inscrição em caracteres que nem St. John nem eu conseguimos identificar; e na parte inferior, como o selo de um fabricante, estava gravado um crânio grotesco e formidável.

H.P. Lovecraft - O Mastim

Agindo no submundo, longe dos olhos de testemunhas inocentes, os Cultos devotados aos horrores do Mythos de Cthulhu tentam a todo custo manter uma fachada de sigilo indevassável. Afinal, é uma das prerrogativas mais valiosas de qualquer sociedade secreta, manter-se como tal, privando o público de suas ações perniciosas. De que outra forma conseguiriam prosperar se os seus rituais e tradições fossem partilhadas abertamente?

Entretanto, de tempos em tempos, um fragmento de tais atividades medonhas acaba escapando e rompendo a superfície para ser resgatado por indivíduos que só então conseguem obter um lampejo desses cultos abomináveis. Muitas vezes, é por intermédio de artefatos pertencentes a cultos e resgatados por terceiros que temos uma visão das suas atividades mais reprováveis. Os artefatos usados por um Culto dizem muito a respeito dele e de seus membros, lançando uma luz sobre aquilo que eles tem de mais enigmático.

Tomemos por exemplo o blasfemo Culto dos Devoradores de Cadáveres de Leng sobre o qual se sabe muito pouco, mas cuja existência é comprovada pela existência de amuletos usados por eles em seus ritos mais sagrados. Sobre o Culto falaremos mais a miúde posteriormente, já que esse artigo se debruça sobre os curiosos artefatos usados por estes devotos como uma espécie de distintivo de honra.

Esses pequenos berloques são muito bem protegidos pelos sectários e é extremamente raro que um deles seja encontrado ou reclamado. Em geral, ao tomar conhecimento que uma dessas joias cai em mãos de estranhos, os membros do Culto devotam grande esforço para recuperá-las. Há boatos de que uma peça em poder do Museu de Chicago, que estava em exibição na ala de antropologia oriental, foi roubada em plena luz do dia por um indivíduo que quebrou o display e tomou a peça antes de poder ser detido. Outro amuleto similar encontrado pelo arqueólogo e aventureiro Monterrey Jack em uma expedição a Península de Yucatán, teria sido roubado do Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México em 1932. Na ocasião um guarda de segurança foi morto e um escândalo foi abafado à respeito de como se deu o roubo na instituição. Seja como for, é possível que outros desses amuletos tenham chegado às mãos de colecionadores privados e museus ao redor do mundo. É provável que muitos deles desconheçam o perigo que correm, meramente em possuir tais objetos em seus acervos.

Os amuletos podem se diferenciar em pequenos detalhes, variando em decorrência do ramo do culto que o criou, mas em geral eles guardam similaridades. São talhados em uma peça única de jade verde profundo. De fato, seus criadores se esmeravam em selecionar as melhores peças minerais, quanto mais verdejante melhor, para a criação dos artefatos. Os amuletos eram confeccionados por artesãos experientes que faziam parte do culto e que concediam à peça a forma desejada. Ele poderia ter formato arredondado achatado, uma forma de drágea ou ainda ser esculpida como uma pequena estatueta. No oriente esta última modalidade é a mais comum, enquanto na América Central, a preferência seja por formas arredondadas. Sabe-se de um secto na Rússia que utilizava peças em forma de gota com detalhes em ouro. De todo modo, os amuletos possuem um cordão, geralmente de couro cru, para que possa ser vestido ao redor do pescoço como forma de identificação.

É comum a todos os amuletos, não importa a cultura, que ele traga a imagem de uma criatura agachada semelhante a um grande cão de corpo delgado dotado de asas, do qual decorre seu nome - Amuleto do Mastim Alado. A representação lembra uma esfinge, com feições claramente caninas, embora um exame mais detalhado mostre detalhes perturbadores na anatomia da criatura. Alguns estudiosos que examinaram o item conceberam erroneamente a teoria de que a entidade retratada fosse o Deus central do Culto, quando na realidade ele é uma espécie de Guardião ou Custodes da seita. É comum que o amuleto traga inscrições com símbolos no verso, em geral caracteres do degenerado povo Tcho-Tcho que teriam sido os precursores na criação desses artefatos. Esses caracteres por vezes sofrem alterações, perdendo seu significado ao longo das gerações, ainda que no Planalto de Leng as peças encontradas mantenham os símbolos intactos. A tradução do trecho é aberta a interpretações, mas acredita-se que o significado mais correto seja algo como:

"Oh, morte fiel que vem nas asas do guardião, 

Não se atrase jamais"

Os amuletos muitas vezes trazem em algum lugar o desenho de um crânio humano estilizado, com a boca aberta deixando à mostra dentes afiados. Este emblema é o símbolo mais conhecido do Culto dos Devoradores de Cadáver de Leng, uma imagem tétrica que se traduz em terror para muitos povos que tiveram o azar de cruzar o caminho dessa seita profana de canibais.

Segundo as crenças sagradas do Culto, os amuletos são criados quando uma vítima usando o amuleto em volta do pescoço é sacrificada por um sacerdote. Geralmente esse sacrifício se dá por enforcamento através de um garrote, mas algumas seitas utilizam um pesado porrete para desferir um golpe certeiro na testa da vítima. O cadáver então é preparado ritualisticamente para consumo, com o Sacerdote responsável pelo ritual se alimentando do coração e oferecendo o restante do corpo aos demais membros numa ceia comunal. Simbolicamente a alma da vítima é marcada e conduzida para um limbo dimensional em que os Mastins Alados habitam. Lá essa alma infeliz é caçada, feita em pedaços, mutilada e devorada pelas grandes bestas através da eternidade. Esse sustento espiritual é oferecido ritualisticamente a cada ano. O amuleto então é removido e presenteado a um membro escolhido pelo sacerdote e que provou seu valor diante da congregação. Ele simboliza um reconhecimento a dedicação e lealdade de um cultista.

Uma vez que o amuleto foi usado para capturar um espírito, acredita-se que ele conserva uma parcela de sua energia vital, podendo ser drenada pela pessoa que o possui. Alguns acreditam que o detentor de um amuleto é capaz de se comunicar com a alma da vítima presa no limbo e que sofre tormentos inenarráveis. Esses amuletos permanecem geralmente escondidos, sendo usados apenas durante os rituais e reuniões do Culto. Membros fora da Seita não devem tocá-los ou mesmo saber de sua existência. Geralmente esses colares são recolhidos após a morte de seu dono e concedidos a outros membros, contudo não é impossível que eles possam ser sepultados junto com cultistas de grande status. 

Os amuletos são imbuídos de poderes ligados à feitiçaria do Povo Tcho-Tcho e são itens que conservam capacidades necromânticas latentes. Além de permitir que seu detentor fale com o espírito aprisionado em seu interior e se valha de energia mística contida nele, os colares são usados como foco em diferentes rituais ensinados aos cultistas a medida que eles avançam nas fileiras da seita. Há relatos de amuletos sendo utilizados para consagrar os doentios rituais antropófagos, para se comunicar psiquicamente com outros membros, para comungar com entidades não humanas e principalmente para invocar os Guardiões do Culto, os terríveis Mastins Alados.

Para esse propósito, o cultista deve ter aprendido o ritual com algum sacerdote que o julgou apto dessa honraria. Para trazer um Mastim Alado ao mundo dos homens é necessário realizar um ritual em que o sangue do invocador é coletado em uma cabaça combinado a raízes e ingredientes e usado para pintar símbolos arcanos em seu corpo. A magia só funciona à noite, e tem maior chance de ser bem sucedida nas noites sem lua. 

Após cumprir os preparativos e pintar no chão um círculo de magia iluminado por nove velas, o realizador entoa um cântico lamuriento no idioma dos Tcho-Tcho que irá estreitar a barreira entre as dimensões e permitir que o Mastim Alado rasgue esse tecido e adentre nossa realidade. O ritual em geral demora nove horas para ser concluído. Se a invocação for conduzida corretamente, um Mastim Alado irá surgir no centro do círculo desenhado com sangue para ouvir o pedido de quem o conjurou. Em geral, esse pedido envolve a destruição de um inimigo, a obtenção de algum objeto de poder ou alguma outra missão em nome do Culto. 

O Mastim, se julgar o pedido aceitável, partirá então para concluir sua parte do acordo, e ao regressar, cobrará um sacrifício a ser entregue pelo invocador. Entre os Tcho-Tcho esse sacrifício podia ser de qualquer mortal, oferecido como tributo e levado para a Dimensão dos Mastins Alados. Dentre as seitas Mesoamericanas convencionou-se que os feiticeiros oferecessem uma criança para saciar a fome das feras.

Possuir ou pior ainda, vestir o Amuleto do Mastim, é um perigo para qualquer um não iniciado nos mistérios do Culto dos Devoradores de Mortos de Leng. Não apenas os cultistas são capazes de rastrear e atacar quem estiver de posse dele, como entidades sobrenaturais terminam por tornar a vida do infiel desagradavelmente curta. Eventualmente o uso de um desses amuletos acaba por atrair a atenção de um Mastim Alado que aos poucos começa a fazer seu caminho para punir o transgressor que inadvertidamente utiliza o amuleto. Estas bestas ferozes de dimensões distantes são mestres na caçada e terríveis rastreadores. Aos poucos a presença deles pode ser sentida com manifestações selvagens ocorrendo ao redor da pessoa amaldiçoada que passa a ver os contornos de outra realidade e sentir a presença cada vez mais próxima da fera. Algumas vítimas descrevem sentir o cheiro nauseante, o som dos uivos cada vez mais próximos e os latidos ferais das criaturas. Por fim, percebem o contorno dessas criatura se formando cada vez mais perceptível em nosso plano.

Acredita-se que feiticeiros Tcho-Tcho saibam como aplacar a fúria dos Mastins e evitar que eles apareçam para demandar sua vingança perante o transgressor. Mas parece pouco provável que eles compartilhem esse saber.

Eventualmente o Mastim Alado irá conseguir atravessar para nossa dimensão com o intuito de perseguir o transgressor. A criatura buscará capturá-lo e este será carregado de volta para o Limbo Dimensional onde amargará um terrível destino. Não existe nenhuma maneira de ludibriar o Mastim que inicia uma caçada, mas é possível que poderosos feitiços de proteção que envolvem o Símbolo Ancestral ou relíquias extremamente poderosas como o Olho da Luz e Trevas possam ajudar.

NOTA: O Conto "The Hound" escrito por H.P. Lovecraft em 1922 e publicado na Revista Strange Tales de fevereiro de 1924 apresenta esse perigoso objeto amaldiçoado e também o Mastim Alado. 

A história narra as desventuras de uma dupla de violadores de cemitérios que roubam e colecionam peças removidas de ataúdes ao redor do mundo. Em uma visita a Holanda eles encontram uma sepultura incomum e dela extraem um amuleto que tratam como um grande prêmio. No decorrer da história descobrem o terrível preço a ser pago por reclamar inadvertidamente esse objeto. O conto é notável por conter a primeira menção ao célebre tomo de conhecimento blasfemo, o Necronomicon

Ele também é notável pela qualidade repulsiva dos dois protagonistas que não apenas são ladrões de sepultura, mas pessoas de hábitos e costumes extremamente reprováveis. Lovecraft se esmerou ao criar dois de seus personagens mais detestáveis, o narrador da trama e seu amigo, identificado como St. John.

A dupla tem um fim medonho, sendo levados às raias da completa insanidade pela vinda cada vez mais próxima do Mastim Alado que chegaria para puni-los. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Resenha "Nas Montanhas da Loucura" vol 2 - Gelo, loucura e morte num clássico de H.P. Lovecraft com arte de François Baranger


Quando se fala na obra de H.P. Lovecraft, sua novela mais famosa "Nas Montanhas da Loucura" (At the Mountains of Madness) sempre se destaca.

Escrita em 1931, Montanhas é um épico de suspense, ficção e terror. Lovecraft utilizou de expedientes que na época eram novidade: utilizar lugares e fatos do mundo real, buscar fontes jornalísticas para emoldurar sua trama e principalmente, se valer da ciência e tecnologia para embasar sua história. O resultado é uma narrativa repleta de dados tão fieis que tudo soa incrivelmente fidedigno. Da maneira como foi escrito, Montanhas soa como um relato real escrito por um cientista ou explorador, dando conta de acontecimentos ocorridos durante uma dramática expedição a um dos lugares mais inóspitos e perigosos do planeta - o Continente gelado da Antártida.

Para quem não está familiarizado com a literatura lovecraftiana e caiu de paraquedas nessa resenha, cabe falar um pouco do sujeito. 

H.P. Lovecraft é um dos maiores (para alguns o maior) expoente da literatura de Horror nos EUA no século XX. Seus textos macabros englobam diferentes gêneros do horror clássico, do terror gótico passando para o folk horror, transitando pela ficção científica, sempre com enorme competência e um estilo inconfundível. O Horror Cósmico é sua criação mais significativa e contribuição marcante ao terror. O gênero se refere a um horror tão profundo e desconhecido, absurdamente alienígena para a humanidade que a exposição prolongada a ele causa a loucura. No cânon de Lovecraft, entidades ancestrais vindas das estrelas distantes se principiaram sobre a Terra no inícios dos tempos e se tornaram Deuses que influenciaram cultos e seitas macabras. Estas aguardam ansiosas pelo dia em que estes deuses despertarão. Lovecraft explora o pessimismo nihilista ao máximo, apresentando uma visão perturbadora de um mundo à beira da devastação e de uma humanidade esmagada por forças que ela é incapaz de compreender.



O valor da obra de Lovecraft só foi reconhecido muito depois de sua morte, graças ao resgate de seus escritos por amigos e admiradores que foram os primeiros a perceber a genialidade do seu trabalho. Desse momento em diante, a redescoberta de Lovecraft foi radical. Ele não apenas se tornou famoso na literatura, mas sua obra inspirou filmes, séries, jogos de computador, games, cards, RPG e muito, muito mais.

Na literatura, os contos de Lovecraft foram reunidos em antologias que reúnem suas histórias mais famosas. De edições simples a volumes de luxo que mais parecem tomos como o célebre Necronomicon, é possível achar Lovecraft em diversos formatos.

Isso nos leva ao artigo e resenha que você está lendo nesse momento.

Seria a combinação de texto e imagem a melhor forma de apreciar os contos de Lovecraft?

Ao folhear o segundo volume de "Nas Montanhas da Loucura" belissimamente ilustrado pelo talentoso artista francês François Baranger, é difícil não dizer que sim.

Lovecraft é, em grande parte, um escritor que aproveita as paisagens que está descrevendo, sejam elas físicas ou emocionais. Suas visões são viscerais exatamente porque seu vocabulário é avançado e cheio de detalhes intrincados. As imagens imponentes no livro permitem que o leitor se concentre e não se distraia com uma palavra com a qual não esteja intimamente familiarizado. E isso é algo que percebi lendo o primeiro volume da novela. Talvez esta tenha sido minha experiência mais agradável ao ler Montanhas da Loucura, que alguns consideram demasiado rebuscado. O texto flui mais fácil, em comunhão com as imagens. A grandiosidade das descrições se encaixa perfeitamente com o visual geral. Os desenhos têm espaço para respirar acompanhando a prosa do texto.

A Darkside oferece esse pôster incrível como brinde para quem comprar na loja online

A arte de Baranger é tão complexa e elaborada quanto a escrita de Lovecraft. Ela complementa o texto, dando margem a interpretações fantásticas de paisagens ermas e de um ambiente selvagem. A maioria das ilustrações se debruça sobre paisagens impossíveis e a insignificância da presença humana em lugares onde o homem nunca deveria estar. Mas há cenas mais intimistas evocando descobertas que drenam a sanidade, arqueologia e astronomia que nunca deveriam ter existido, silhuetas de criaturas estranhas ao nosso mundo, cenas de ação e muito mais. Cada desenho é diretamente relevante para o texto que é sobreposto acima dele.

O artista equilibra cenas de ação, imagens do passado e imagens propositalmente nebulosas ao longo das página. Baranger tem um olho clínico para extrair da narrativa as cenas mais marcantes, sem jamais, no entanto, ser óbvio. Suas cenas de horror são aterrorizantes bem dentro da proposta do impensável e imponderável. É uma façanha considerável dar forma a coisas que Lovecraft não se furta em dizer que são por demais bizarras para serem descritas adequadamente.

O livro é apresentado em uma versão luxuosa, com capa dura e páginas em papel de altíssima qualidade. Visualmente o livro segue o padrão da primeira parte, o que faz todo sentido. O tamanho das páginas fornece uma tela ampla para o artista, que oferece imagens que poderiam facilmente se tornar pôsteres. Não há molduras ou espaços em branco, o texto é colocado dentro das imagens para total impacto das cenas. A Darkside Books se esmerou em fazer o material o mais fiel possível à edição americana e, de fato, comparando as duas, eu até acho que a edição brasileira tem cores mais vivas que sua contraparte estrangeira.

Para quem adquiriu a primeira parte de Nas Montanhas da Loucura, esse Volume II é praticamente obrigatório. Não apenas por se tratar da conclusão da história (aqui temos os capítulo 6 a 12), mas por ser uma continuação que sustenta a mesma proposta. Com imagens deslumbrantes que acentuam a narração ao máximo, essa é possivelmente a versão definitiva da novela. Dificilmente alguém conseguirá fazer algo melhor e mais evocativo.

Aos fãs do Horror Cósmico e de arte, esse livro é simplesmente imperdível.

Leia aqui a resenha da primeira parte: 

E aqui está o link para a Editora Darkside.


segunda-feira, 13 de maio de 2024

O Velho Ruim - O Terrível Ancião de Kinsgport

A cidade costeira de Kingsport é conhecida como o lar de muitos indivíduos peculiares. São pessoas que escolheram viver nesse pequeno e aprazível balneário da Nova Inglaterra, cujo cenário litorâneo e belas paisagens atrai visitantes ávidos por sua tranquilidade pastoral.

Dentre os habitantes mais ilustres (ou seria notórios?) da pequena cidade, encontramos um que suscita um sentimento de dúvida mesmo entre os residentes mais antigos. São poucos os que conhecem detalhes sobre ele, e menos ainda os interessados em saber. Sua existência sempre foi marcada por rumores, muitos dos quais, os forasteiros mais esclarecidos, considerariam na melhor das hipóteses infundados e na pior, absurdos. "Coisa de cidade pequena", diriam os céticos. Mas não o bom povo de Kingsport, essa lavra de taciturnos yankees acostumou-se com certas coisas a ponto de tê-las como fatos indiscutíveis. Assim é sobre os insondáveis mistérios do mar, o encanto das ondas e a presença do mais antigo morador da cidade, que alguns chamam de o Terrível Ancião.

Não se sabe quem foi o responsável por cunhar esse apelido ou quando ele passou a ser usado para identificar o velho barbudo e grisalho que vive na parte mais isolada da Rua da Água perto do mar. Verdade seja dita, aqueles que se referem a ele dessa maneira se certificam de que ele não está por perto, temendo que o velho ruim (outra alcunha usada para ele) possa estar ouvindo. Ninguém nunca gostou muito dele e é corriqueiro que as pessoas prefiram manter certo distanciamento dele e de sua propriedade. Muitos passam longe dela ou fazer a volta quando o veem claudicando pelas vielas da cidade.

O Terrível Ancião habita uma casa igualmente antiga com muro alto e aparência desleixada. Para o transeunte desavisado o lugar pode passar facilmente a ideia de ser uma morada abandonada. Contudo, o Velho Ruim reside lá desde que os mais antigos habitantes são capazes de recordar.

A casa é imponente e soturna, com um pátio ajardinado com árvores retorcidas e onde o mato cresce selvagem, salpicado por erva daninha e arbustos de espinheiro. Dada a proximidade do mar há ainda algas sopradas pelo vento que ali se depositam em novelos. Coberto por essa mesma vegetação bolorenta podem ser vistas agrupadas estranhas estátuas esculpidas em pedra. São carrancas e representações bizarras de monstros marinhos que felizmente se encontram tão dilapidadas que os detalhes não são mais perceptíveis. Alguns sugerem que o próprio ancião foi o artista responsável por essas imagens, mas outros atestam que ele as trouxe de terras exóticas, onde povos pagãos talharam essas formas ímpias para adornar seus templos. 

O jardim insalubre, ainda que pujante, conduz até o alpendre de madeira carcomida, onde uma cadeira de balanço permanece disposta, ainda que o velho raramente a utilize. Houve tempo que ele observava os andarilhos que desciam a rua apressando o passo ao desfilar diante de sua calçada rachada. Mas hoje em dia, raramente ele é visto ali.

Todos que tem a curiosidade de observar a fachada venerável da casa de alvenaria, percebem que ela possui estranhos símbolos arranhados nas pedras gastas e madeira maciça. Alguns sugerem se tratar de grifos náuticos, mas outros reputam a eles origem cabalística. Os vidros nas janelas são grossos e amarelados, cobertos por uma camada de poeira que aderiu a maresia. Alguns deles foram rachados por pedras atiradas por algum menino mais valente. O telhado claramente necessita de reparos, mas ninguém iria se voluntariar para esse serviço. 

É motivo de debate entre o povo de Kingsport a razão pela qual a vivenda do Terrível Ancião parece estar sempre imersa numa densa névoa cinzenta. O fog oceânico não é, de modo algum, raro na cidade, contudo ele parece assomar nesse endereço, ganhando corpo e se avolumando em espessas nuvens pairando sobre o quintal. Quem observa esse fenômeno se surpreende ao constatar que o nevoeiro repousa ali, estático como se estivesse à vontade naquela localidade. Isso cria um efeito incomum que contribui sobremaneira para a aura enigmática da morada.

Se por fora a propriedade levanta dúvidas, seu interior constitui um mistério ainda maior. Até onde se sabe, o Terrível Ancião é o único residente e são raríssimos os visitantes que ele admite além de seus umbrais. Aqueles que lá estiveram, ou que se esgueiraram para espiar o interior, comentam que há um salão de visita com assoalho de madeira, uma lareira sempre crepitando e um ambiente rústico repleto de velhos artefatos náuticos. Não se trata de decoração, já que essa miscelânea de objetos empoeirados se encontram dispersos sem ordem definida junto das paredes, sobre alguma mesa de canto, prateleira ou na bancada da lareira. 

O ocupante da casa tudo indica cedeu ao hábito que muitos velhos adquirem com o tempo, o de guardar coisas sem serventia pela simples razão deles serem lembretes de sua vivência. Digno de nota, e mencionado pelos que visitaram a casa, é uma coleção de estranhas garrafas de vidro azulado de forma e aspecto singular que repousam sobre uma sólida mesa de mogno castanho ao lado da lareira. Há algo de sinistro nessa coleção, ou assim dizem os que a viram brevemente.

As tais garrafas são antigas, isso é certo, mas nada explica o estranho brilho que elas emitem. Todos e cada um desses vasilhames se encontram cuidadosamente lacrados com rolhas de cortiça cobertas por cera de vela. É consenso que as garrafas estão vazias, exceto por um fino fio prateado preso a parte interna da rolha. Na ponta desse pendulo, curiosos pingentes de chumbo rodopiam no interior das garrafas. Alguns sugerem que o velho, provavelmente senil, tem por costume engajar em animadas conversas com essas garrafas e que elas costumam emitir estranhos ruídos e vibrações nessas ocasiões. Superstições sem sombra de dúvida, mas ao menos um indivíduo que esteve na casa sentado diante da mesa relatou ter visto silhuetas fugazes surgirem na superfície do vidro apenas para sumir em seguida.

Não se sabe muito sobre os demais cômodos da propriedade. Contudo é certo que o quarto do Ancião fica no segundo pavimento acessado por uma escadaria empoeirada que range e reclama a cada degrau. 

Muitos dizem que a casa é reflexo de quem nela reside, e isso é verdade no que tange ao seu habitante único. Ele é indubitavelmente um indivíduo de idade avançada, mas não é fácil determinar quantos anos ele tem. Isso porque, embora pareça velho, e velho seja, reside nesse vetusto ancião uma centelha admirável de energia. Algo em seus olhos atentos de um azul pálido contradiz o molde de um velho encarquilhado. Embora se mova amparado numa bengala de madeira nodosa, ele parece fingir o manquitolar débil que exibe, falseando propositalmente para que o tomem por alguém frágil.

Sua aparência geral pode ser descrita como desgrenhada. Sua face enrugada e empalidecida conserva uma perpétua expressão sisuda de desagrado. Os cabelos grisalhos e a barba crescem como uma única coisa, formando um emaranhado grosso que escorre pelos ombros e pelo queixo. As sobrancelhas são grossas e os tufos que brotam de suas orelhas e nariz lhe conferem uma imagem lupina. As roupas que veste são puídas, datadas de duas ou mais gerações atrás.   

O excêntrico morador transita pelos cantos da casa, preparando as próprias refeições e fazendo suas tarefas sem requisitar a ajuda de ninguém. Até algum tempo atrás ele era visto rachando lenha no pátio enquanto conversava com algum interlocutor invisível. Esse hábito frequente suscitou a suspeita de que ele estivesse finalmente ficando senil. Alguns anos atrás, um médico de Arkham que passava férias na cidade se compadeceu e foi até a casa tencionando avaliar se o velho precisava ser interditado. O gentil profissional foi expulso e por pouco não recebeu uma bengalada quando mencionou que poderia indicar um acompanhante ou uma criada para cuidar do Ancião.

Para o povo de Kingsport, o velho tem algo entre 80 e 120 anos, mas alguns vão mais longe. Dizem que ele seria contemporâneo de seus bisavós, ou até trisavós, que eram jovens quando ele já era adulto. Alguns brincam afirmando que o Terrível Ancião em momento algum de sua existência terrena foi jovem. De tão taciturno, muitos sequer supunham seu nome, ainda que alguns acreditem que ele na mocidade havia sido um capitão de clipper engajado com o comércio das Índias Orientais.

Um rumor persistente é que o ancião teria reunido uma considerável fortuna e que mantinha essa riqueza escondida em algum lugar de sua casa. O boatos eram alimentados pelos relatos de que ele pagava suas contas com dobrões de ouro espanhóis. Essas histórias eram muito especuladas pelo povo de Kingsport que se perguntava qual a origem de tesouro tão fabuloso. 

Mas quem realmente é o Terrível Ancião da Rua da Água? 

Acompanhe-nos na continuação desse artigo que apresentará as terríveis verdades sobre sua origem, sua identidade e o que ele oculta sob a fachada de um pacífico eremita.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Resenha de "Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft"


Atualmente H.P. Lovecraft pode ser encontrado em todos os cantos.

Suas histórias são constantemente editadas e lançadas em edições tanto simples quanto de luxo, comentadas ou repletas de análises. Lovecraft vende bem, e vende como jamais vendeu... suas antologias de contos e novelas figuram num lugar importante das prateleiras e são cada vez mais populares.

Mas esse fenômeno não está apenas na literatura! Suas criações figuram em inúmeras mídias, seja em filmes, séries de televisão, quadrinhos, jogos de computador e tabuleiro, RPG, música e até bichos de pelúcia! Lovecraft e suas criaturas indescritíveis conquistaram um lugar no imaginário e na cultura pop que o autor jamais poderia imaginar. Se o seu maior sonho era estar ao lado de Edgar Allan Poe, com uma obra enaltecida e admirada, hoje, ele conseguiu mais do que isso.



Não deixa de ser curioso como um autor obscuro como Lovecraft, que em vida vendeu alguns poucos contos e foi recusado várias vezes, jamais conquistando reconhecimento, tenha chegado onde chegou. De fato, considerando sua curta carreira, tudo levava a crer que ele seria esquecido ou lembrado apenas por um inexpressivo grupo de fãs. Mas numa reviravolta notável do destino, ele continua ganhando público e atraindo a atenção dos críticos.

Entretanto não apenas a obra de Lovecraft é muito debatida; sua vida também é alvo de constante escrutínio. Nesse aspecto, biografias são essenciais para lançar uma luz sobre a existência de pessoas tão interessantes. Biografias abordam a origem, como pensavam, qual a postura na época em que viveram, sua contribuição e finalmente o legado deixado para a posteridade.  

Nesse pormenor, "Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft" não é apenas um biografia historicamente bem fundamentada e um exame criterioso da existência do autor, mas uma ponte que permite conectar o legado de Lovecraft às tendências atuais do mundo do entretenimento. O responsável por esse trabalho, W. Scott Poole é historiador e um pesquisador dedicado ao gênero horror e a cultura popular. Com uma habilidade notável ele cumpre seu objetivo reunindo informações e dados sem jamais ser repetitivo ou chato. 



Muita gente pode dizer que não resta muito sobre a vida de Lovecraft que vale a pena ser debatido. Mas se enganam! Poole produz uma obra vibrante que disseca tanto os aspectos mais conhecidos quanto os mais obscuros da vida do Cavalheiro de Providence, mostrando que ainda há muito sobre ele que precisa ser discutido.

Certamente Poole não é o primeiro pesquisador à se debruçar sobre a vida peculiar do Sr. Lovecraft. O diferencial é que sua narrativa se concentra nos fatos, em detrimento dos mitos e dos preconceitos. A maioria dos livros sobre Lovecraft servem a um desses dois propósitos: glorificar seu legado ou fornecer uma crítica ferina quanto a sua mentalidade retrógrada. Autores como S.T. Joshi e August Derleth dedicaram suas vidas (e muitas linhas) para promover o papel de H.P. Lovecraft como expoente do terror e pioneiro no Horror Cósmico, enquanto encobriam suas características menos desejáveis. Na mesma medida que é indiscutível a importância do autor, também é impossível esconder seu preconceito latente e suas crenças raciais.

O mérito de Poole é caminhar na linha tênue entre esses dois campos. Ao longo de Necronomicon, ele mostra consistentemente aspectos positivos e negativos de Lovecraft como pessoa. Ele consegue atingir essa meta devido a precisão histórica. Ele admite que S.T. Joshi provavelmente é o mais dedicado pesquisador de Lovecraft, mas a sua análise é comparativamente mais isenta e rica. De fato, reside nas qualidades e defeito do indivíduo o grande trunfo desse trabalho. O resultado é uma biografia deliciosa de ler.



Na mesma medida que Poole enaltece a criatividade e o estilo do autor, tecendo comentários elogiosos, mantém um distanciamento sadio que permite criticar as partes desagradáveis que permeiam sua obra. Como não poderia deixar de ser, a polêmica do preconceito de Lovecraft é visitada frequentemente em Necronomicon. Poole argumenta contra a teoria de que Lovecraft seria um produto de seu tempo, mostrando que alguns de seus colegas escritores tentavam se dissociar das teorias raciais por ele alardeadas. No entanto, chama atenção para o fato de que Lovecraft tinha amigos muito próximos que sustentavam opiniões contrárias às dele, ou, que até mesmo eram membros desses grupos que ele detestava. Como Lovecraft equilibrava isso, demonstra sua dualidade de ideias. 
   
Poole também detalha o papel marcante das mulheres na vida de Lovecraft, desde sua mãe e tias até sua esposa. Falando de sua esposa, Sonia Greene, vemos um exemplo perfeito da especificidade de suas tendências racistas. Ao mesmo tempo que ele era venenoso contra imigrantes, Lovecraft respeitava enormemente sua mulher. E embora o matrimônio estivesse fadado a não durar, eles mantiveram uma longa amizade e respeito mútuo. O fato dele ter desposado uma mulher de descendência judia também ressalta como seu pensamento era contraditório. O livro também aborda de forma convincente que a mãe de Lovecraft não desempenhou um papel negativo em sua vida, ao contrário do que sustentam muitos biógrafos. Apontando para numerosos eventos documentados, Poole mostra como a mãe de Lovecraft, ao permitir que seu filho satisfizesse todos os seus interesses incomuns, deu-lhe a base perfeita para se tornar um autor revolucionário.

À medida que o livro avança para suas conclusões, Poole mapeia um vasto panorama do legado do autor e de como ele influenciou gerações futuras. Sua análise expõe como a obra do Cavalheiro de Providence conquistou seu espaço adaptando-se aos mais variados meios de entretenimento. Esse capítulo inteiro ajuda a entender a influência de Lovecraft (e por tabela de Cthulhu) na cultura pop atual.   



Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft foi lançado recentemente pela Editora Darkside em uma edição extremamente caprichada com o Selo Macabra. Para quem conhece a qualidade das publicações da Darkside nem é preciso mencionar o belíssimo acabamento, mas não tem como passar batido sem falar desse livro em especial. Tudo nele, da capa às ilustrações, da diagramação à tradução de Ramon Mapa, está perfeito! É um prazer folhear as páginas e se deixar absorver por um trabalho gráfico simplesmente irretocável.

Necronomicon vem com um excelente Prefácio do próprio Ramon Mapa e conta com alguns acréscimos exclusivos para a edição nacional. Temos notas, uma cronologia dos contos escritos por H.P. Lovecraft, um artigo sobre o fictício Necronomicon (com ilustrações raras de Robert Bloch) e a versão do próprio Lovecraft para a história do tomo profano.

A Darkside já conta com dois volumes de contos de H.P. Lovecraft em seu catálogo e essa biografia é o complemento perfeito para aprofundar o leitor (tanto o neófito quanto o fã já experimentado) nos pormenores da complexa vida desse gênio do Horror moderno.

Eu não poderia recomendar mais um lançamento sobre o autor!