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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Cinema Tentacular: Backrooms - O Horror de um universo que não deveria existir

Poucos fenômenos do horror moderno nasceram de maneira tão característica da era digital quanto Backrooms. O conceito surgiu como uma imagem perturbadora compartilhada na internet: um espaço vazio composto por corredores amarelados, carpetes úmidos e iluminação fluorescente constante, um lugar que parecia familiar e, ao mesmo tempo, profundamente errado. A ideia de uma dimensão escondida atrás da realidade rapidamente ganhou força entre comunidades de terror online, tornando-se uma das creepypastas mais influentes dos últimos anos.

O responsável por transformar esse conceito em algo muito maior foi Kane Parsons, conhecido na internet como Kane Pixels. Ainda adolescente, Parsons criou uma série de vídeos em estilo found footage que imaginavam os Backrooms como uma dimensão desconhecida investigada por uma organização científica. A força desses vídeos estava menos em mostrar uma ameaça explícita e mais em criar uma sensação de desconforto: a impressão de que existia um lugar além das fronteiras normais da realidade. O sucesso da série chamou a atenção da indústria cinematográfica e acabou levando à produção do longa-metragem distribuído pela A24.

A chegada de Backrooms aos cinemas é, por si só, uma história curiosa. Kane Parsons assumiu a direção do longa, trabalhando a partir de um roteiro desenvolvido com Will Soodik. O elenco inclui nomes como Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell, enquanto a produção reúne nomes importantes da indústria, incluindo James Wan, Shawn Levy e equipes ligadas à A24 e à Chernin Entertainment.

O mais impressionante nesse processo é perceber que Parsons não abandonou a essência experimental que tornou os Backrooms famosos. Muitos conceitos nascidos na internet perdem sua força quando transformados em grandes produções, pois acabam recebendo uma estrutura tradicional demais. Backrooms, porém, preserva a principal característica de sua origem: o medo de estar diante de algo que não conseguimos compreender.

A premissa do filme parte de uma situação aparentemente simples: uma passagem estranha surge no porão de uma loja de móveis, revelando uma abertura para um espaço impossível. A partir desse ponto, a narrativa abandona gradualmente a lógica do mundo cotidiano e mergulha em uma realidade onde arquitetura, memória e percepção deixam de funcionar como deveriam.

Esse é justamente o aspecto que aproxima Backrooms do horror cósmico de H. P. Lovecraft. Apesar de muitas pessoas associarem Lovecraft apenas a criaturas gigantescas ou cultos secretos, o elemento central de sua obra sempre foi a descoberta de que o universo é muito maior e mais estranho do que a mente humana consegue compreender. O horror nasce quando a realidade deixa de ser confiável.

Nesse sentido, os Backrooms funcionam quase como uma localização dos Mythos de Cthulhu. Não são simplesmente um lugar perigoso, mas uma violação das regras fundamentais do universo. Corredores se prolongam além do possível, espaços parecem copiar ambientes conhecidos sem realmente compreendê-los e a própria ideia de distância perde significado. Para jogadores de Call of Cthulhu, é difícil não lembrar de histórias envolvendo dimensões alienígenas, realidades paralelas e locais onde as leis naturais funcionam de maneira completamente diferente.


O filme também acerta ao compreender que o vazio pode ser mais assustador do que a presença de um monstro. Durante grande parte da experiência, o espectador é confrontado não com ataques constantes, mas com silêncio, repetição e isolamento. Os corredores infinitos tornam-se uma espécie de entidade por si mesmos. A arquitetura deixa de ser cenário e passa a ser o próprio antagonista.

Visualmente, essa é uma das maiores forças do filme. A direção de arte transforma espaços comuns — escritórios, depósitos, corredores comerciais e ambientes industriais — em algo alienígena. A escolha por ambientes iluminados, em vez da tradicional escuridão dos filmes de terror, é particularmente eficiente. O espectador consegue ver tudo, mas justamente por isso percebe que não há nada familiar naquele lugar.

A fotografia e o desenho de som desempenham papel fundamental nessa construção. O zumbido constante das lâmpadas fluorescentes, a repetição dos ambientes e a ausência de referências externas criam uma sensação de desorientação semelhante à que os personagens experimentam. É um horror baseado menos no choque e mais na permanência da inquietação.

A atuação também segue essa proposta mais contida. Chiwetel Ejiofor traz ao filme uma presença dramática forte, enquanto Renate Reinsve ajuda a equilibrar o aspecto emocional da narrativa. Em vez de personagens simplesmente fugindo de um monstro, eles representam pessoas tentando compreender uma situação que desafia qualquer explicação racional.

A escolha de Kane Parsons como diretor talvez seja o elemento mais curioso da produção. Sua trajetória representa uma mudança importante na maneira como novos cineastas podem surgir. Antes de dirigir um longa de uma grande distribuidora, Parsons construiu sua linguagem através de vídeos independentes publicados online. Essa experiência fica evidente na maneira como ele utiliza câmera, ritmo e atmosfera. Ele demonstra uma confiança incomum para um diretor estreante, especialmente na capacidade de sustentar tensão sem depender de recursos tradicionais do gênero.

A recepção crítica ao filme foi bastante positiva, principalmente em relação à direção, à atmosfera e ao design visual. Muitos críticos destacaram a habilidade de Parsons em transformar um conceito originado na internet em uma experiência cinematográfica própria. Também houve elogios à ambição do projeto e à maneira como o filme utiliza os Backrooms como uma metáfora para memória, isolamento e a fragilidade da percepção humana.

As principais críticas, porém, apontam uma questão recorrente: a força conceitual do filme às vezes supera o desenvolvimento emocional dos personagens. Alguns espectadores podem sentir que o mistério e a atmosfera recebem mais atenção do que os conflitos pessoais. Para quem procura um horror mais tradicional, com uma narrativa mais direta e respostas claras, Backrooms pode parecer deliberadamente distante.

Mas talvez essa seja justamente sua maior qualidade. O filme não está interessado em explicar completamente seu universo. Assim como os melhores trabalhos de horror cósmico, ele entende que algumas perguntas são mais assustadoras quando permanecem sem resposta. O desconhecido perde sua força quando é completamente revelado.

Para fãs de Call of Cthulhu, essa característica torna Backrooms especialmente interessante. O filme apresenta uma situação que poderia facilmente servir como inspiração para uma campanha: investigadores descobrindo uma falha na realidade, uma organização tentando estudar um fenômeno impossível e personagens lentamente percebendo que a humanidade não é a medida de todas as coisas.

No fim das contas, Backrooms é menos um filme sobre monstros e mais um filme sobre a descoberta de que existem lugares onde o universo simplesmente não funciona como deveria. Ele transforma um conceito nascido na cultura da internet em uma reflexão sobre espaço, memória e a fragilidade da percepção humana. Para quem aprecia horror cósmico, é uma obra que demonstra que os maiores pesadelos talvez não estejam escondidos nas sombras, mas em algum lugar logo atrás da realidade que acreditamos conhecer.

Trailer:


Poster:

domingo, 4 de janeiro de 2026

Cinema Tentacular: Colheita Estranha - Mr. Shiny retornou para matar

Como qualquer fã do gênero terror pode atestar, encontrar um filme que realmente assuste é como procurar uma agulha num palheiro. Acho que, com o tempo, ficamos "curtidos" e o terror deixa de nos afetar, como um dia afetou. Nós acabamos gravitando em direção ao que nos assustou na juventude, buscando aquela sensação quase esquecida, esperando que algum filme de terror devolva os arrepios que um dia sentimos. 

Colheita Estranha (Strange Harvest/ 2025), um pequeno filme independente que assisti semana passada, atendeu às minhas expectativas tão frustradas. Com imagens chocantes e uma abordagem de realismo quase documental, ele conseguiu o que muitos não passaram nem perto: foi assustador. 

Agora, é importante dizer que esse hiper-realismo pode não agradar a todos, principalmente àqueles que preferem um terror mais estruturado e convencional. Colheita é um derivado do manjado found footage (aqueles filmes onde a ação se sustenta em imagens captadas por câmeras), mas ele consegue a proeza de renovar esse estilo. Escrito e dirigido por Stuart Ortiz, cocriador do competente Grave Encounters, ele tem um toque atemporal em sua abordagem. Feito sob medida para os entusiastas de true crime, Strange Harvest funciona como um conto arrepiante sobre um serial killer que soa real demais para nos deixar à vontade.

Narrada através de uma mistura de entrevistas, testemunhos, trechos de câmeras de segurança, imagens granuladas de cenas de crime e cartas, Strange Harvest constrói uma experiência imersiva e inquietante. O texto de abertura informa que "O caso à seguir é considerado um dos mais subnotificados na história do sul da Califórnia" — embora, se tivesse realmente acontecido, certamente seria um dos mais notórios da história dos EUA, dada suas reviravoltas. Óbvio que é tudo ficção, mas com uma construção tão competente que você sente um verniz de realidade.  

Os fãs de documentários sobre crimes, um público crescente, vão sentir familiaridade com o modelo do filme. Os pormenores do caso são dissecados cuidadosamente por especialistas, detetives e testemunhas que passam uma sensação de estarrecimento diante dos crimes cometidos. As atuações são contidas e naturais, o que torna o horror que se desenrola ainda mais verossímil. Os "detetives" Joe Kirby (Peter Zizzo) e Lexi Taylor (Terri Apple) nos levam a uma odisseia de duas décadas de assassinatos ritualísticos medonhos. As atuações são bastante sólidas; tanto Zizzo quanto Apple convencem em seus respectivos papéis, e o ator que interpreta o assassino, se deleita como vilão.

Os elementos de found footage são usados ​​de forma eficaz, sem se tornarem artificiais ou repetitivos. As sequências são tão bem enquadradas que às vezes a coisa soa genuína demais. Cada detalhe é tratado sob a ótica de um realismo brutal, sustentando o clima de suspense.


A história começa em 2010, quando uma verificação policial de rotina se transforma em uma macabra descoberta numa casa insuspeita de subúrbio. Uma família de três pessoas é encontrada massacrada. Eles foram amarrados ao redor de uma mesa e sangraram até a morte. Acima deles, no teto, há um desenho sinistro: o símbolo usado por um assassino em série que esteve sumido por anos. As mortes não são são apenas terríveis, elas acenam com o retorno de Mr. Shiny

Somos informados então que entre 1993 e 1995, uma série de assassinatos ritualístico ocorreram na Califórnia. Eles estão conectados por uma carta sinistra enviada aos detetives. Nela, o assassino que se apresenta como Mr. Shiny, afirma que ainda restam "10 trânsitos" (a maneira como ele se refere a suas mortes) e que seu trabalho continuará até ser concluído. A polícia inicia uma caçada ao maníaco, busca pistas e indícios, mas não consegue chegar nem perto de capturá-lo...

Mas misteriosamente, tão súbito quanto aparece, Mr. Shiny some sem concretizar suas ameaças. 

O crime quinze anos depois é como o retorno de um pesadelo!

À medida que os detetives relatam os detalhes sobre os novos assassinatos, estes se tornam cada vez mais perturbadores. Por que Mr. Shiny está fazendo essas coisas? Qual é a sua verdadeira identidade? Pode haver um padrão nessas mortes aparentemente sem relação? Embora o filme responda essas perguntas, ele inteligentemente evita mostrar demais. Em vez disso, o roteiro sugere apenas o suficiente para deixar a imaginação correr solta com as inquietantes possibilidades. E o exercício de preencher as lacunas talvez seja o mais assustador, já que as mortes parecem atender os delírios de um louco e sua fixação com entidades obscuras, deuses esquecidos e alinhamentos planetários. Isso concede uma nova camada ao true crime, acrescentando um componente sobrenatural e uma pitada inesperada de Horror Cósmico. 

Há alguns efeitos práticos memoráveis e um notável trabalho principalmente no design nos cadáveres que geram imagens grotescas. A produção dá atenção impressionante aos detalhes, mesmo nas fotos e imagens borradas de cenas de crime. Mas muito além dos efeitos é revigorante encontrar uma trama que estimula o espectador a participar da investigação - quase como se estivesse lá. Mr. Shiny permanece profundamente bizarro mesmo enquanto descobrimos detalhes sobre sua figura misteriosa. Os assassinatos que à princípio soam plausíveis, sofrem uma reviravolta sombria com a inserção do elemento sobrenatural. Em outros filmes isso poderia atrapalhar, mas aqui, esse fator inesperado parece apenas um novo desenvolvimento no caso. Mr. Shiny assume a forma de uma ameaça incontrolável, uma presença quase surreal.

Extremamente bem feito, Colheita Estranha não é para os fracos de coração. 

É um filme que permanece na memória não só pelas cenas sanguinolentas, mas pelo contexto no qual elas estão inseridas. O ritmo segue frenético, martelando imagens cruas e costurando uma longa sequência de crimes hediondos. Fãs de filmes como Lake Mungo, The Poughkeepsie Tapes ou V/H/S provavelmente vão aprovar o estilo, ainda que ele tenha uma identidade exclusiva. 

Com tudo isso dito, não posso indicar mais Colheita Estranha e colocá-lo entre os melhores filmes de terror do ano.

Trailer:



quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A lista do ano - Os 10 Melhores Filmes de Terror de 2025

E 2025 está acabando e a safra de Horror nos cinemas foi grande e significativa. 

Aqui estão os meus 10 filmes de horror favoritos, com direito a uma pequena sinopse e comentário. 

Tenham em mente que essa lista não é de forma alguma impositiva. de maneira nenhuma, estou dizendo que estes filmes são os melhores e ponto final. É uma opinião pessoal de fã e gosto, sabem como é... cada um tem o seu. O artigo está obviamente aberto a comentários, questionamentos e críticas, que eu ficarei feliz em ler e debater, mas vamos tentar conter nossas paixões.

Meu critério para essa lista foi muito mais, "filmes que eu gostei e que de alguma forma me impressionaram" do que qualquer outra coisa. Não tentei fazer concessões e incluir produções conhecidas, apenas fui fiel aos títulos que mais me chamaram a atenção no ano.

Então, vamos lá?

10) ASH: PLANETA PARASITA (Ash)


Sinopse: Uma astronauta acorda sozinha em uma estação espacial na órbita de um planeta distante. Sem memória do que aconteceu, ela encontra o restante de sua tripulação brutalmente assassinada. Ela precisa juntar as peças do mistério e entender o que aconteceu.

Ash: Planeta Parasita constrói um horror menos influenciado pela ameaça explícita e mais pela fragmentação da percepção e da identidade dos personagens. A perda de memória da protagonista funciona como eixo narrativo e metáfora: o desconhecimento do que ocorreu é tão aterrador quanto o parasita que assombra o planeta. 

O filme aposta fortemente na atmosfera — iluminação agressiva, cores artificiais e uma montagem que privilegia a desorientação — em detrimento de uma progressão narrativa tradicional. Essa escolha aproxima a obra do Horror Cósmico e psicológico, mas também expõe suas limitações: ao priorizar sensação e estética, o roteiro sacrifica desenvolvimento dramático e clareza temática. O resultado é uma experiência sensorial intensa, que provoca mais pelo desconforto do que pela construção da trama.

Ash não tenta ser mais do que é: uma ficção científica com bons momentos, uma aura densa e um final horripilante que funciona bem. O ritmo pode ser um pouco lento, mas para quem tiver paciência e conseguir relevar alguns clichês encontrará um bom misto de Horror e Sci-Fi.  

9) JUNTOS (Together)


Sinopse: A mudança de um casal para o interior desencadeia um incidente sobrenatural que altera drasticamente seu relacionamento, suas existência e sua forma físicas.

Juntos é um daqueles filmes de horror que te atrai... e depois te tortura aos poucos. O que começa como um drama de casal vira um pesadelo visceral quando Tim e Millie, se envolvem com uma força sobrenatural que literalmente ameaça seus corpos e mentes. O clima é claustrofóbico, as transformações são grotescas na medida certa — nada de gore gratuito, mas aquele horror corporal que fica na pele e na cabeça — e a sensação de desconforto cresce como um nó sufocante bem mais eficiente do que "A Substância" por exemplo.

O terror aqui não está só nos corpos se fundindo, torcendo e mesclando com efeitos bizarros (que, honestamente, te fazem olhar de lado e depois olhar de novo) — mas na maneira como o filme transforma ansiedade de relacionamento em algo quase palpável. Cada discussão íntima vira campo de batalha, cada abraço parece um aviso de perigo, e a floresta ao redor se torna parte dessa espiral bizarra. Juntos acerta em misturar horror físico e emocional, fazendo você sentir tanto a estranheza dos eventos quanto a tensão que existe entre duas pessoas que não sabem se soltam ou se agarram ainda mais firme.

8) A MEIA IRMÃ-FEIA (The Ugly Stepsister)


Sinopse: Elvira luta contra sua linda meia-irmã em um reino onde a beleza reina suprema. Ela recorre a medidas extremas para cativar o príncipe, em meio a uma competição implacável pela perfeição física.

The Ugly Stepsister começa como uma história que você acha que conhece… até ela resolver te apresentar algo dark e horrível como só um conto de fadas conseguiria. Tudo diante de um espelho grotesco que finge beleza mas que é simplesmente aterrador. A história pega o universo de Cinderela e vira do avesso, acompanhando Elvira, a "meia-irmã feia", em uma corrida insana por perfeição num reino onde ser bonita é literalmente uma questão de sobrevivência. Mais um filme que parece ter sido inspirado por "A Substância", tratando de beleza e até onde as pessoas estão dispostas a ir para garantir uma bela aparência, não importando a bizarrice dos métodos empregados.  

E haja bizarrice! O terror aqui não é para principiantes, é horror corporal hardcore que te faz sentir coceira embaixo da pele. As cenas de transformação e os procedimentos incrivelmente dolorosos são de causar pesadelo ao expectador mais insensível (sério, tem coisa ali muito doentia!). O humor negro afiado permite alguns momentos que te fazem rir de nervoso… e logo em seguida te arrepiar. Você sente o desconforto como se estivesse lá, observando cada incisão e cada deformação num misto de repulsa e fascínio. 

A estética de conto de fadas sujo de sangue, competição brutal e a pressão por se encaixar num ideal de beleza inatingível criam um terror que não te abandona mesmo depois dos créditos subirem. 

7) FRANKENSTEIN DE GUILHERMO DEL TORO (Frankenstein)


Sinopse: Um cientista brilhante, mas egocêntrico, dá vida a uma criatura em um experimento monstruoso que acaba levando à destruição do criador e de sua trágica criação.

Esse talvez fosse o filme que eu estava aguardando com mais ansiedade esse ano e talvez por isso, a expectativa tenha causado alguns danos ao resultado final. Isso explica porque ele está em sua posição.

Frankenstein de Guillermo del Toro, não é um filme interessado em sustos fáceis ou horror contemporâneo. Aqui, o terror é "old school" nascendo da melancolia, da rejeição e da obsessão humana em brincar de Deus. Del Toro trata a história como uma tragédia gótica desde o primeiro momento, envolvendo tudo numa estética cuidadosamente decadente: laboratórios cheios de sombras, corpos imperfeitos, maquinário antigo e uma sensação constante de que algo profundamente errado está sendo feito em nome do progresso. É um filme que respira tristeza e inspira beleza, como se cada quadro fosse uma pintura cuidadosamente executada.

O horror propriamente dito surge menos na criatura e mais no criador. O Frankenstein de del Toro entende que o verdadeiro monstro não é feito de carne costurada, mas de orgulho, medo e incapacidade de amar aquilo que não corresponde às expectativas. Quando a violência acontece, ela não é espetacular — é pesada, inevitável e profundamente humana. O diretor usa o horror corporal com parcimônia, mas impacto: cada marca no corpo da criatura carrega um significado de dor e abandono. É o tipo de terror que aperta o peito, não o que faz pular da cadeira.

No fim, Frankenstein se firma como um filme sobre solidão e reprovação, usando o horror como condutor emocional. Del Toro não quer reinventar o mito, mas reafirmar por que ele ainda é relevante: porque fala sobre criação sem cuidado, sobre amar apenas o belo, e sobre o medo do diferente. É um terror triste, compassivo e cruel.

O grande senão é a forma como Del Toro optou narrar sua história, com recursos técnicos impressionantes (que devem ser premiados), mas com demasiada simpatia pela criatura e ódio declarado pelo criador. Talvez ele tenha deixado extravasar para a tela seus próprios sentimentos, esquecendo que o importante devia ser manter-se fiel à história original.   

6) TERROR EM SHELBY OAKS (The Curse of Shelby Oaks)


Sinopse: A busca desesperada de uma mulher por sua irmã há muito tempo perdida torna-se uma obsessão ao perceber que o demônio imaginário de sua infância pode ser real.

Terror em Shelby Oaks aposta no já batido subgênero do found footage, mas faz isso com consciência do peso — e do desgaste — do formato. A história acompanha uma investigação sobre um desaparecimento ligado a uma pequena cidade cercada por lendas sinistras. O filme vai construindo o medo de forma gradual, usando gravações fragmentadas, silêncios longos e aquela sensação constante de que algo está sempre fora do quadro. O terror é paciente: nada explode logo de cara, e a tensão cresce justamente pela expectativa, pelo medo do que não está sendo mostrado.

O que realmente sustenta o filme é sua atmosfera. 

Shelby Oaks parece um lugar amaldiçoado pela própria memória, onde cada imagem gravada carrega a ideia de que há algo errado e perigoso prestes a acontecer. Quando o horror finalmente se revela, ele não vem como espetáculo, mas como uma quebra brutal de confiança: nas imagens, nos relatos e até na lógica do que está sendo investigado. Terror em Shelby Oaks não reinventa o found footage, mas entende bem por que esse tipo de terror ainda funciona: ele coloca o espectador na posição de testemunha, preso entre a curiosidade e a incerteza de continuar assistindo.

5) EXTERMÍNIO: A EVOLUÇÃO (28 Years Later)

Sinopse: Um grupo de sobreviventes do vírus da raiva vive em uma ilha. Quando um do grupo deixa o refúgio em uma missão no continente, ele descobre segredos, maravilhas e horrores que transformaram não apenas os infectados, mas outros sobreviventes. 

Extermínio: A Evolução é um retorno ao universo de apocalipse zumbi com uma sensação incômoda de familiaridade, o que por si só, é um elogio. Filmes sobre Apocalipse Zumbi podem ter se tornado lugar comum, mas este consegue de alguma forma se reinventar e acenar com uma nova trilogia. Passando-se 28 anos após a queda da Inglaterra, o filme entende que o verdadeiro terror da franquia nunca esteve nos infectados correndo e gritando, mas no colapso lento da sociedade. O mundo já teve tempo de se adaptar ao vírus, e é justamente essa adaptação que assusta: comunidades fechadas, regras brutais e uma normalização da violência que transforma sobrevivência em algo quase mecânico. O clima é seco, pessimista e constantemente tenso.

O horror funciona em duas frentes bem claras. De um lado, a ameaça física na forma dos zumbis rápidos, caóticos e implacáveis, assegurando a sensação de perigo que marcou a franquia Extermínio. Do outro, o filme investe pesado no terror humano: decisões morais duvidosas, paranoia coletiva e a linha cada vez mais borrada entre proteção e crueldade. Não há espaço para conforto aqui; cada escolha parece dúbia e o medo vem tanto do que está fora dos muros quanto do que cresce dentro deles.

No fim das contas, Extermínio: A Evolução aprofunda o pessimismo da série. É um filme sobre o que sobra depois do apocalipse — não só em termos de mundo, mas de humanidade. O terror não está apenas na possibilidade de infecção, mas na constatação de que talvez não haja mais nada a "salvar" além de sobreviver por mais um dia. É brutal, desconfortável e coerente com a proposta original.

4) PECADORES (Sinners)

Sinopse: Dispostos a deixar suas vidas conturbadas para trás, irmãos gêmeos retornam à sua cidade natal na época da Lei Seca para recomeçar suas vidas do zero. Lá descobrem que um mal está à espera deles.

Pecadores é aquele tipo de terror que te deixa desconfortável antes mesmo de algo acontecer. A história gira em torno de personagens cheios de culpa, jogados num ambiente onde religião, moral e julgamento andam de mãos dadas — e isso já cria um clima esquisito por si só. Desde o começo dá pra sentir que ninguém ali está em paz, e o filme se diverte esticando esse mal-estar até um limite quando tudo vai pelos ares. 

O terror aqui não vem dos monstros escancarados, mas da pressão psicológica. Pecadores brinca com símbolos religiosos, ideias de castigo e aquela sensação incômoda de estar sendo observado ou julgado o tempo todo. Quando a violência irrompe, ela é direta, sem glamour, quase como uma punição inevitável. Não é um filme interessado em te fazer o público pular da cadeira, mas te deixar pensando: "ok… isso aqui está indo pra um lugar bem ruim".

No fim das contas, Pecadores funciona melhor quando você entra no clima e aceita esse terror mais moral e psicológico. Sim, tem vampiros, mas eles são uma alegoria. É um filme que provoca mais desconforto do que medo, mais reflexões do que sustos.

Eu sei que é o favorito de muitos, achei um bom filme, mas pra ser sincero, também achei um tanto pretensioso.

3) COLHEITA ESTRANHA (Strange Harvest)


Sinopse: Um documentário sobre os crimes e a perseguição de dois detetives por um assassino em série chamado Mr. Shiny, que aterrorizou o sul da Califórnia por quase duas décadas.

Este pequeno filme independente é para mim, a maior surpresa do ano. Ele mistura documentário de true crime, com horror sobrenatural e notas dissonantes de Horror Cósmico. 

Strange Harvest se apresenta como um falso documentário sobre a ascensão e o legado de um serial killer diabólico conhecido como Mr. Shiny. Misturando entrevistas, imagens de arquivo e reconstruções que borram a linha entre investigação criminal e espetáculo macabro. Desde o início, o filme cria uma sensação incômoda ao tratar a violência com uma frieza quase burocrática, como se o horror já tivesse sido absorvido pela mídia e transformado em conteúdo. O tom é perturbador, e a estrutura documental ajuda a vender a ideia de que aquilo poderia muito bem ser real.

O terror não vem de perseguições ou sustos típicos de filmes sobre maníacos mascarados, mas da forma como os crimes são narrados, analisados e, aos poucos, normalizados. Mr. Shiny funciona menos como um monstro e mais como uma presença constante, quase mítica, construída pelo inconsciente coletivo, pelas especulações e pela obsessão do público. O filme explora bem esse desconforto ao mostrar como investigadores, jornalistas, familiares e curiosos acabam orbitando o assassino, transformando sua violência em narrativa — e, sem perceber, alimentando o próprio mito que dizem querer desmontar.

No fim, Strange Harvest é um terror seco e inquietante, mais interessado em provocar mal-estar do que em chocar visualmente. O mockumentary funciona como crítica ao fascínio por serial killers e à maneira como o horror real é consumido como entretenimento. Não é um filme que te deixa tenso pelo que aparece na tela, mas pelo que é sugerido o tempo todo: a ideia de que, em meio a tanta exposição e curiosidade mórbida, o verdadeiro horror talvez seja o quanto nos acostumamos a olhar para esse tipo de violência até ela parar de incomodar.

2) FAÇA ELA VOLTAR (Bring Her Back)


Sinopse: Um irmão e uma irmã descobrem que não estão seguros na casa isolada de sua nova mãe adotiva. Um estranho ritual está em curso e algo aterrorizante os aguarda.

Faça Ela Voltar é daqueles filmes de terror que já começam devastadores emocionalmente. A trama trata de luto e culpa e vai construindo uma narrativa sufocante em que a ideia de "trazer alguém de volta" soa como uma amarga esperança. O filme trabalha bem o silêncio, os espaços vazios e a sensação constante de perda, criando um clima pesado que antecede qualquer evento sobrenatural.

O terror se manifesta de forma gradual e violenta. O grande objetivo é corroer os nervos do público aos poucos, usando para isso rituais, símbolos e pequenas quebras da realidade para indicar a perversidade nas entrelinhas. Quando o horror finalmente se revela de maneira mais explícita, ele vem carregado de dor e desconforto. Aqui, o sobrenatural não é um espetáculo, mas uma consequência direta da incapacidade das pessoas em aceitar a morte.

A grande questão é até onde alguém iria para desfazer uma perda e o filme faz questão de mostrar que algumas portas nunca deveriam ser abertas. É um horror perturbador, com um ator mirim que realmente me deixou apavorado, não só pela interpretação, mas pela forma como as coisas avançam. O medo de Faça Ela Voltar está naquilo que é sugerido e não o que se vê. É um ótimo filme, mas o melhor do ano é...

1) A HORA DO MAL (Weapons)


Sinopse: Várias histórias de Horror interrelacionadas ao desaparecimento de estudantes do ensino médio em uma pequena cidade acabam conduzindo a uma revelação devastadora.

A Hora do Mal começa como um mistério inquietante e rapidamente se transforma em algo muito maior — e mais perturbador. O desaparecimento simultâneo de várias crianças, todas na mesma hora exata da madrugada, cria um vazio impossível de ignorar. O filme entende que o terror mais eficaz nasce da ausência: quartos vazios, camas intactas, relógios marcando o momento em que tudo deu errado. Não há explicações razoáveis, só a sensação crescente de que algo antigo, deliberado e cruel está em movimento.

O horror é construído com paciência e inteligência através de histórias separadas que se cruzam e se complementam. Weapons aposta num clima de paranoia coletiva, onde adultos entram em colapso enquanto tentam dar sentido ao impossível. O medo não vem apenas do que pode ter levado as crianças, mas da forma como a comunidade reage — suspeitas, culpa, histeria e a necessidade desesperada de encontrar um culpado. Quando o terror finalmente se manifesta de maneira mais direta, ele vem carregado de estranheza e brutalidade, como se a lógica do mundo tivesse sido substituída por outra coisa, muito mais hostil.

No fim, A Hora do Mal se firma como um terror sobre perda, impotência e o medo de não conseguir proteger quem se ama. É um filme que assusta não por monstros claramente definidos, mas pela ideia de que o mal pode agir de forma coordenada, silenciosa e inevitável nas mãos de pessoas dispostas a manipulá-lo. O resultado é o melhor e mais efetivo horror do ano, um filme que reverbera e se mantém na cabeça por muito tempo. 

*     *     *

E é isso!

Um bom ano de Horror e Fantasia, e que 2026 traga muitos outros tão bons ou ainda melhores...  

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Cinema Tentacular: "Faça Ela Voltar" um filme angustiante sobre perda e tragédia


Em 2022, Danny e Michael Philippou se tornaram nomes conhecidos entre os fãs do Terror com o sucesso inesperado de Fale Comigo, um filme assombroso sobre luto que acabou se tornando a produção de maior bilheteria da produtora A24 até então. Em Fale Comigo, o longa-metragem de estreia dos irmãos, a dupla ofereceu uma combinação impressionante de imagens bizarras ​​e momentos chocantes, tudo enquanto contava uma história sobre tragédia e luto. Foi assustador com certeza, mas o que realmente tocou o espectador foi a maneira como o filme lidou com o trauma de perder alguém tão próximo que não haveria limites para tentar tê-lo de volta, nem que por alguns instantes.

Em seu aguardado segundo filme, "Faça Ela Voltar" (Bring Her Back, 1925), os irmãos Philippou abordam novamente o trauma da perda. No entanto, enquanto Fale Comigo se concentrava nesse sentimento em um mundo de festas adolescentes e brincadeiras divertidas, Faça Ela Voltar é muito mais sério e perturbador. Em vez de adolescentes em busca de emoções fortes, a dor da perda se torna o cerne do segundo filme, deixando a dor se infiltrar em cada cena. Do início perturbador, com imagens caseiras granuladas, até a conclusão de tirar o fôlego, o filme tem o efeito de um soco na boca do estômago. 

Embora ambos os filmes explorem a natureza da perda, Faça Ela Voltar adota uma abordagem muito mais crua, que se deleita com a escuridão de maneira ainda mais assombrosa do que Fale Comigo. Juntos, esses dois filmes criam uma mistura fascinante de tristeza e terror que consegue ser enervante e trágica na medida certa.

Mas do que trata Faça Ela Voltar?

Podem ficar tranquilos, nada do que vou escrever aqui contém SPOILERS e não vai estragar sua (bem, digamos), diversão. 


(Aqui é interessante abrir um parênteses e falar sobre as situações perturbadoras que esse filme vai oferecer ao público. Não se trata de um filme palatável e imagino que muita gente vai ficar legitimamente incomodada com ele. Não me entendam mal, esse é em excelente filme, mas também é uma experiência indigesta e agonizante, para dizer o mínimo, portanto, estejam avisados).

Na trama, o adolescente Andy (Billy Barratt) e sua meio-irmã Piper (Sora Wong) voltam da escola um dia e descobrem que seu pai morreu no chuveiro. Em três meses, Andy terá idade suficiente para se tornar tutor legal de Piper, mas até lá, os dois serão enviados para morar com uma mãe adotiva, Laura (Sally Hawkins), e seu filho, Oliver (Johan Wren Phillips) que os recebem. Laura age de forma excêntrica, também está de luto pela morte acidental da filha, mas se apega a Piper imediatamente. As duas meninas tem em comum a deficiência visual e ela parece ver em Piper o reflexo de sua falecida filha.

Andy sente que há alguma coisa estranha com sua nova guardiã, para dizer o mínimo. Laura tem pensamentos estranhos sobre a morte e frequentemente se refugia em seu quarto onde assiste a vídeos perturbadores de um ritual aterrorizante. O pequeno Oliver também é muito estranho, ele anda por aí ou fica trancado em seu quarto por horas a fio, sem falar e aparentemente sem comer. Enquanto Piper se adapta ao novo arranjo, Andy percebe que algo estranho está acontecendo, ou será que o trauma da perda do pai o está fazendo ver coisas que não existem?

Aos poucos a aura de estranheza vai se intensificando a medida que segredos aterradores vem à tona.


Danny e Michael Philippou mostram que o talento apresentado no primeiro filme não é obra do acaso. A atmosfera lúgubre ajuda a criar um ar incômodo, mantendo certos detalhes ocultos do público para maximizar o terror de cada descoberta. Em "Faça Ela Voltar", o expectador é compelido a juntar as peças do quebra-cabeça para entender o que exatamente Laura está planejando. As pistas são oferecidas através de imagens borradas das fitas VHS, onde algo monstruoso e difícil de entender acontece. Fica claro que é algum tipo de cerimônia, mas o verdadeiro teor horrendo só irá se revelar no desfecho, e acredite, não será nada bonito.

O tema central do filme, a PERDA é mesclada com um terror, profundo, físico e por fim, corporal. Desde Hereditário eu não tinha uma reação tão visceral a um filme de terror. 

Laura, Andy e Piper são personagens muito bem construídos. Os três estão intimamente unidos pela tragédia e isso impacta em suas vidas cotidianas todo dia, toda hora, a cada segundo. O peso da perda de Laura é uma luta constante, fica claro que ela nunca a deixou ir. Já Andy se esforça ao máximo para preservar Piper e fazê-la superar, a um elevado custo emocional. O drama do trio protagonista vai se desenvolvendo em cenas que alternam estranheza e crueldade num ritmo vertiginoso. 

Faça Ela Voltar é realmente arrepiante, repleto de momentos surpreendentes que ficarão na sua memória coçando por baixo da pele. A dupla de diretores consegue manter o espectador na beira da poltrona com trechos inesperados e sombrios. Assustadora também é a maneira como eles manipulam o público com o mínimo de informação para que não possam fazer suposições razoáveis sobre o que está acontecendo. 

Não é exagero dizer que esse filme contém algumas das cenas mais surpreendentes que você verá em um filme de horror neste ano, contudo não é no susto e no choque que reside seu maior mérito. É a sensação tangível de desconforto, que faz nossa mente vagar para lugares escuros, que torna o filme uma experiência angustiante.


Sally Hawkins está fantástica como a mãe adotiva, Laura, que parece estar presa numa cápsula temporal: isso se reflete nas roupas que ela veste, nos vídeos que assiste em seus momentos de privacidade e por sua incapacidade geral de superar a morte da filha. Hawkins interpreta Laura com um nível compreensível de tristeza, uma mulher que faria de tudo para reaver a pessoa que mais ama. Sua vida foi arruinada e ela está desesperada para voltar a ser feliz. Isso não a impede de ser um monstro. É o tipo de atuação que só uma indicada duas vezes ao Oscar poderia retratar, e ela equilibra com perfeição tudo o que a personagem precisa ser.

Traga Ela de Volta também apresenta uma das melhores atuações de ator infantil dos últimos anos, com Jonah Wren Phillips como Oliver. Em um papel predominantemente silencioso, Phillips faz de seu personagem uma presença assombrosa, pairando como uma sombra excruciante sempre que está presente. Sem dizer nada, ele torna as coisas especialmente desconfortáveis com seu olhar vazio.

Em meio a tudo isso, Billy Barratt e Sora Wong, são o coração dessa fábula distorcida, conduzindo através de sua tortuosa jornada os acontecimentos mais infames. O roteiro nos faz torcer para que eles sobrevivam e que possam começar uma nova vida juntos e longe de seu passado. Os dois formam uma dupla adorável pela qual torcemos. Os papéis de Barratt e Wong são muito mais contidos, mas eles são a essência que faz o filme funcionar.

Filmes de terror sobre tragédia familiar e perda parecem estar em alta, mas inegavelmente coube a Danny e Michael Philippou dirigir os dois melhores exemplares sobre o tema. Assista a esse filme e prepare-se para ver algo que vai ficar com você por uns bons dias.

Trailer:


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terça-feira, 1 de abril de 2025

Últimas notícias sobre a produção do filme vindouro baseado em Chamado de Cthulhu

Acompanhamos recentemente o anúncio oficial da produção do filme "O Chamado de Cthulhu" obra baseada no conto de mesmo nome escrita pelo pioneiro do Horror Cósmico H.P. Lovecraft.

As notícias até então davam conta de que James Wan, o criador da franquia Invocação do Mal e de produções de sucesso como Aquaman seria o diretor. Wan sempre se mostrou um entusiasta do gênero e em entrevistas recentes deixou claro ser também um fã ardoroso dos Mythos de Cthulhu.

Entretanto, como em Hollywood nada é certo, temos atualizações surpreendentes sobre a pré-produção e elementos que colocam a proverbial pulga atrás da orelha dos entusiastas do gênero. São notícias polêmicas que causaram um misto de apreensão e dúvida entre os fãs do cultuado autor, gerando debates acalorados sobre como o filme será tratado e em que bases a história será contada.

Um dos pontos mais preocupantes é justamente a saída de James Wan do projeto. Ele que seria o Produtor e Diretor da produção acabou se afastando alegando dificuldades irreconciliáveis com o roteiro e escolha de elenco ainda em fase de escolha. Wan era visto por alguns como uma boa opção para capitanear o projeto, mas outros o enxergavam com reservas, alegando que outros diretores como Guilhermo del Toro poderiam assumir a direção e tratar a obra com o respeito merecido. 

A reportagem abaixo é da Revista Variety que estampou essa reportagem em sua edição deste mês:

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Adaptação de Filme de Horror ganha sinal verde 

por Les Dan Hill

Nessa segunda -feira, Hollywood anunciou oficialmente a adaptação cinematográfica de O Chamado de Cthulhu. O projeto será desenvolvido pela Sony Pictures, conhecida por suas tentativas controversas de revitalizar franquias clássicas nos últimos anos. A produção está sendo descrita como "um filme de terror e aventura", com uma abordagem com mais ação que o aproxima de produções como "A Múmia".

O escolhido para dirigir o longa é Zack Snyder, nome conhecido na indústria do entretenimento com a adaptação competente de blockbusters como Madrugada dos Mortos, 300 e Watchmen. Snyder fez seu nome à frente das produções do Universo de Heróis da DC Comics pela Warner Bros. Um nome que divide opiniões, Snyder possui defensores fiéis que o veem como um visionário na mesma medida que outros o criticam por excessos cometidos em suas produções. Ele é conhecido por filmes como O Homem de Aço, Batman versus Superman e Liga da Justiça, que tiveram obviamente grande repercussão, mas que não lograram o êxito financeiro esperado. 

Os filmes de Snyder possuem os requisitos necessários para criar um horror intimista e questionamentos morais sobre a história relatada. Isso e longas sequências em câmera lenta que tornaram sua marca registrada. Na reunião de anúncio da produção em Los Angeles, o diretor disse: 

"Meu objetivo é trazer algo novo para Lovecraft, algo com terror e perguntas existenciais. É claro haverá espaço para os elementos essenciais típicos da obra, mas planejo aprofundar as discussões existencialistas que estão entranhadas nas palavras de Lovecraft. Por isso o filme deve ter algo em torno de 3 horas e meia de duração", declarou Snyder.

No elenco, as escolhas foram bastante surpreendentes senão inesperadas. 

A estrela Jason Strathan interpretará o protagonista, um detetive cético que investiga uma série de assassinatos em Nova Orleans. Kevin Hart foi escalado como seu parceiro, vivendo um personagem que não está na trama original. No papel de vilão, a produção optou por Jared Leto, que já sinaliza com uma atuação "imersiva e perturbadora nos moldes de seu Coringa". Ele fará o papel de um cultista excêntrico com uma pesada maquiagem facial.

Completam o elenco Ezra Miller e Ray Fisher que trabalharam com Snyder em Liga da Justiça nos papéis de Barry Allen (Flash) e Vic Stone (Cyborg). Fecham o grupo principal Amber Heard (Aquaman) e Amandla Stemberg (Star Wars: O Acólito) cujos papéis ainda não foram definidos na trama, mas que provavelmente serão escrito especialmente para ela a fim de corrigir a ausência de protagonistas femininas fortes na obra escrita em 1928.

Também foram feitos anúncios quanto a equipe responsável pela parte técnica da produção.

Em vez de efeitos práticos e CGI sutil, a produção deve optar por um Cthulhu completamente digital. Algumas artes conceituais vazadas mostram a criatura com traços mais estilizados e olhos expressivos, o que gerou certo burburinho nas redes sociais. Um dos elementos narrativos mais importantes para o personagem é Morgan Freeman escalado para ser a voz da entidade. 

As locações para as filmagens também foram divulgadas, além de cenas gravadas na Islândia, Azerbaijão e Kiribati, a Sony escolheu sets digitais e gravações as erem realizadas em Los Angeles. 

Uma das principais mudanças é a modernização da trama que será adaptada para os dias atuais, se passando quase inteiramente em Nova Orleans, mas com parte da ação transferida do Pacífico Sul para a região do Havaí que deve ser o novo lar da cidade submersa de R'Lyeh. 

Um dos objetivos da trama envolve repaginar a história e dar uma imagem mais contemporânea a ela, focando também em questões ecológicas que são uma tendência atual. Assim a história passará a transcorrer em 2025, seguindo a descoberta de uma grande conspiração envolvendo cultos ao redor do mundo que planejam trazer de volta uma entidade ancestral adormecida. 

Entre as principais preocupações do roteiro, escrito por S.J Clarkson (de Madame Teia), está suavizar as polêmicas à cerca da relação de H.P. Lovecraft com minorias e estrangeiros que são motivo de grande controvérsia. O filme irá se concentrar em fazer uma reparação histórica mais do que necessária nesse sentido. 

A estreia do filme está prevista para junho de 2027, com um lançamento no verão americano, acompanhado por uma linha de brinquedos colecionáveis, incluindo um "Mini Cthulhu Falante", que dirá frases icônicas como "Ia Ia, parceiro!".

Será que a produção será um sucesso? 

A Sony acredita que sim!

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As reações dos fãs foram majoritariamente negativas, com muitas reclamações sobre a direção do filme. "Isso não tem nada a ver com Lovecraft!", comentou um usuário indignado. No entanto, os produtores garantem que o filme agradará ao grande público. "Queremos que O Chamado de Cthulhu seja para os filmes de horror aquilo que Velozes e Furiosos foi para os filmes de corrida", declarou um executivo da Sony.

O tempo dirá se essa abordagem ousada será um sucesso ou um desastre cósmico. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Nosferatu - Resenha do grande filme de terror do ano

Vou começar essa resenha com uma constatação. Quando se trata de filmes de terror, eu não me assusto facilmente. Não estou me gabando sobre minha suposta bravura; mas é fato que ao longo dos anos e de inúmeros filmes assistidos, sinto que ganhei certo grau de resistência. Eu cresci cercado por filmes de terror, e sou tão devoto ao gênero que me sinto imune ao seu poder bruto. Eu amo terror — é um dos meus gêneros favoritos — mas raramente fico assustado quando assisto a um filme de terror. Então, quando um filme realmente me causa arrepios, eu considero isso algo digno de nota. 

Entra em cena "Nosferatu" do diretor Robert Eggers, um filme que me arrepiou e fez meu coração bater mais rápido. Eu senti que isso poderia acontecer e tomei a decisão acertada de assistir esse filme no cinema: no escuro, com som potente e mergulhando na trama, absorvendo cada detalhe. Esse não é um simples filme de terror, é um acontecimento.   

O diretor fez algo especial aqui: produziu um filme fantasmagórico, gótico e macabro como há muito não era realizado. A obra é ainda mais impressionante devido ao fato de que Eggers não está exatamente pisando em terreno novo aqui — ele está refazendo o clássico filme mudo de F. W. Murnau, que foi, é claro, fortemente (e ilegalmente) influenciado pelo maior clássico de vampiros de todos os tempos, "Drácula". A abordagem de Eggers se mantém bastante próxima aos eventos do filme de Murnau e do romance de Bram Stoker, e ainda assim, o cineasta cria algo que nunca parece uma repetição ou uma regurgitação dos elementos. O resultado é impressionante, com cenas belíssimas e doentias, imagens perturbadoras e uma aura sufocante de medo.

Eggers, que dirigiu "A Bruxa", "O Farol" e "O Homem do Norte", é um cineasta aparentemente obcecado pelo passado. Todos seus filmes, incluindo "Nosferatu", estão firmemente enraizados em eras passadas, em uma busca pela visão de uma determinada época da forma mais fiel possível. Soma-se a isso um talento especial para criar uma sensação de autenticidade. Não sou historiador, então não posso comentar sobre o quão "precisos" os filmes de Eggers são, mas tudo ali parece incrivelmente correto, pesquisado, transbordando autenticidade. 

O diretor é habilidoso em contar histórias que têm um senso tangível de realidade. "Nosferatu", como todos os filmes anteriores de Eggers, não parece uma recriação — realmente parece que estamos de alguma forma observando o passado. É o equivalente a abrir uma janela para outra época. A trama se passa em 1838, com figurinos, cenários e ambiente nada menos do que deslumbrantes gerando um mundo frio e estéril. Aliás, o filme é impecável em cada quesito técnico.

Mas e quanto à história? 

Bem, se você viu o "Nosferatu" original, ou o remake de Werner Herzog de 1979, ou ainda, qualquer adaptação de "Drácula", estará familiarizado com a trama: um vampiro antigo e estrangeiro tem como alvo um grupo de personagens jovens, trazendo morte e destruição para todos que cruzam seu caminho. Mas Eggers encontra maneiras eficientes de contar essa história e usar a familiaridade como arma; esperamos que a história se desenrole de uma certa maneira, e ficamos surpresos quando as coisas seguem um caminho um tanto diferente. São pequenas mudanças, mas todas elas muito bem executadas. A trama segue sob uma atmosfera genuinamente sombria, com inúmeras cenas que se desenrolam sob a lógica de um sonho febril ou de um pesadelo surreal.

Quando "Nosferatu" começa, o ambicioso advogado Thomas Hutter (Nicholas Hoult) recebe a proposta de seu chefe, o obscuro Sr. Knock para viajar a trabalho e receber uma promoção. Ele deixa sua casa em Wiesburg na Alemanha com o objetivo de chegar até uma terra remota nos recessos da Transilvânia. Lá deverá fechar um acordo imobiliário com o misterioso Conde Orlok (Bill Skarsgård). A viagem é uma jornada através de um Leste Europeu imerso em superstição, costumes bizarros e folclore estranho. Quanto mais se afasta da familiaridade de sua casa idílica, mais Hutter sente estar avançando num ambiente perigoso e nefasto. A cena em que ele encontra um grupo de ciganos é carregada de estranheza e desconfiança esmagadoras.  

Mas o pior ainda está por vir! Ao chegar ao Castelo decrépito do Conde, nas Montanhas dos Cárpatos, o  advogado se vê diante de um pavor indescritível. Orlok não é um mero homem — ele é um vampiro antigo com sede de sangue... e mais. Seus planos são aterrorizantes e envolvem não apenas a perdição de Hutter, mas de tudo que ele ama e preza. Não é apenas sua vida que está em perigo, mas tudo que está ao seu redor. 

Skarsgård tinha um desafio e tanto quando aceitou esse papel. Orlok é um dos monstros mais icônicos do cinema, interpretado de forma memorável por Max Schreck, Klaus Kinski e outros ao longo dos anos. É o tipo do papel que consagra ou desgraça uma carreira. Em vez de recriar o personagem seguindo a fórmula de seus antecessores, o filme ousou reinventar o protagonista. 

A clássica aparência do monstro, com feições de roedor, que Schreck e Murnau empregaram tão efetivamente foi profundamente alterada para esse filme. Não vou estragar a surpresa, já que o marketing fez de tudo para mantê-lo em segredo, mas efetivamente a maquiagem transforma Skarsgård em algo sobrenatural e apropriadamente desumano. Empregando um sotaque profundo, imponente e gutural, Skarsgård desaparece completamente no papel e se transforma no personagem. Seu Orlok parece antigo; podemos praticamente sentir o cheiro dos séculos de podridão, mofo e corrupção sepulcral cobrindo sua carne macilenta.

Mais do que alterar a imagem icônica, o roteiro vai mais além ao estabelecer indícios de que o Conde sempre foi algo perverso, mesmo quando estava vivo. Praticante de artes negras e ciências proibidas, o personagem é o próprio mal encarnado, uma entidade que invoca uma aura de inenarrável força sobrenatural. Essa noção de tornar Orlock um ocultista calejado é um aceno às origens traçadas por Albin Grau que na obra original despejou sob o Conde uma série de elementos arcanos. Diferente do Drácula de Bran Stoker, o vampiro de Nosferatu é um feiticeiro de maldade irrefreável. Não há nada nobre nele. Nada de romântico. Ele não deseja a redenção, pois mesmo que ela estivesse ao seu alcance, não é esse seu objetivo. Orlock existe apenas para espalhar a morte, a doença e a destruição.  

A câmera e a fotografia mantêm Orlok imerso nas sombras — nunca temos uma visão clara dele, o que torna o personagem ainda mais misterioso. Ele é como um vulto que surge no canto dos olhos, uma sombra que desliza e que se mescla com a escuridão premente.

Orlok tem mais em mente do que simplesmente adquirir uma nova propriedade. Ele é atraído pela noiva de Hutter, a problemática e melancólica Ellen, interpretada de forma hipnotizante por Lily-Rose Depp. A protagonista feminina desempenha um papel muito mais importante nessa trama do que nas versões anteriores. Ela não é uma mocinha desamparada que aguarda ser salva pelos demais personagens, ao invés disso, ela tem maior compreensão do que está acontecendo a sua volta. Ela também tem um vislumbre do que precisa ser feito para derrotar a criatura monstruosa e qual o preço que deverá ser pago.  

A atuação de Depp é notável alternando fragilidade e força arrebatadora. Nas cenas em que o Vampiro tenta possuir seu corpo (e alma) ela se entrega a uma interpretação visceral que traduz o tormento pelo qual está passando, lutando não só contra Orlok, mas com seus próprios demônios internos. Depp se joga no papel literalmente, abraçando um componente físico perturbador. Quando ela é arrebatada pelo Conde, seu corpo reage violentamente, tentando expulsá-lo em espasmos frenéticos. A cena resultante é nada menos do que apavorante. 

Ellen e Orlok têm um tipo de vínculo que influencia todos os aspectos do filme. Um prólogo de abertura (novamente tétrico) mostra que Ellen aparentemente convocou essa criatura da noite por meio de suas próprias paixões inflamadas; um misto de luxúria e depressão simplesmente irresistível para o monstro. Ele literalmente a alcança através dos golfos do tempo e espaço para cumprir uma espécie de contrato firmado nos sonhos febris da jovem.

A jornada do navio que carrega o Conde e seu caixão através de mares escuros é memorável. As cenas de horror dos tripulantes expostos a um monstro morto-vivo que os caça são medonhas. Quando Orlok finalmente chega à Alemanha, traz consigo hordas de ratos e a peste. Ele é a morte personificada; um cadáver ambulante que se alimenta dos vivos. Aliás, Eggers faz o vampiro se alimentar de uma maneira diferente da tradicional mordida na jugular. 

Logo, todos ao redor de Ellen são colhidos no tormento e no horror, incluindo sua querida amiga Anna (Emma Corrin) e seu confuso marido, Friedrich (Aaron Taylor-Johnson) os dois ótimos. Todo filme de vampiro que se preze precisa de caçadores, o que traz o Dr. Sievers (Ralph Innerson, com seu vozeirão) à trama. Percebendo que o problema está muito além de seus talentos médicos, ele procura seu antigo professor, o alquimista Albin Eberhart Von Franz, interpretado com a pitada certa de insanidade pelo grande Willem Dafoe. Ele tem as melhores falas do filme, incluindo um trecho em que proclama: "Eu vi coisas que fariam Isaac Newton rastejar de volta para o ventre de sua mãe!"

Assim como o Conde, inclinado para o estudo do oculto, Von Franz, o equivalente a Van Helsing, é um estudioso das artes místicas, detentor de um conhecimento que quase destruiu sua carreira e o condenou a loucura e esquecimento. É ele quem irá buscar uma solução para a situação dramática dos protagonistas e também da cidade, arremessada para um caos de morte e doença desde a chegada do monstro.  

O roteiro trabalha muito bem a função de cada um desses personagens, simples mortais, que se chocam com o mal indizível representado pelo Nosferatu. Ninguém sairá desse confronto intocado e cada um deles sofrerá com o embate até o confronto final. 

Auxiliado por uma fotografia deslumbrante à luz de velas e por uma trilha sonora arrebatadora e trágica, Nosferatu causa uma espécie de overdose sensorial. O som é incrível tornando quase uma necessidade assistir em uma sala com som de alta qualidade - para ter a sensação de ouvir a voz do Conde como se ele estivesse sussurrando em seu ouvido. A trama oferece alguns sustos concebidos com a eficiência de efeitos práticos - pouco ou nada, foi criado digitalmente. O verdadeiro pavor, entretanto surge em meio ao caos em que tudo está imerso. Como a própria morte, Orlok parece inevitável e quando ele está na tela sua presença se mostra implacável. 

Eu já vi muitas adaptações de "Drácula", filmes e livros, conheço a história de cabo a rabo, mas "Nosferatu" conseguiu me pegar de surpresa e me desarmou totalmente. Ele é tão marcante que mesmo quando o filme acaba, mesmo quando acendem as luzes, as imagens ficam gravadas na sua mente. Não é exagero nenhum considerar "Nosferatu" não apenas um ótimo filme de terror, talvez o melhor da década, mas também, desde já, um dos melhores filmes do ano.

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sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Perseguindo Sombras - Os 100 anos e o legado imortal de Nosferatu


Para muitos fãs de horror, o filme Nosferatu de Robert Eggers é o filme mais esperado do ano, talvez, até mesmo da década até aqui. Ele teve uma história conturbada com muitos trancos e barrancos ao longo do caminho antes de finalmente chegar às telas após quase uma década em produção. 

Sem dúvida, há muito em jogo e esse é um legado difícil de seguir dada a importância das obras que o antecederam, mas se o burburinho pré-lançamento servir como indicativo, o filme deve exceder as expectativas monumentais ao seu redor.

A história de Nosferatu remonta a mais de cem anos e é um dos maiores e mais consistentes legados de terror no cinema. Ostensivamente ele reconta a trama clássica de Drácula, mas com fundamentos muito mais sinistros do que a maioria das histórias "oficiais" do vampiro mais famoso de todos os tempos. Nosferatu em todas as suas formas se inclina para as ideias de peste, desespero e ocultismo com imagens que estão entre as mais perturbadoras de todo gênero Terror. 

Vamos falar um pouco de cada uma dessas encarnações do terrível Conde Orlock nas telas:

Nosferatu: Uma Sinfonia de Horror (1922)

Embora o filme original tenha sido atribuído ao brilhante diretor alemão F.W. Murnau, a verdadeira força motriz por trás de Nosferatu: Eine Symphonie des Gauens foi seu produtor/diretor de arte Albin Grau. A grande historiadora do cinema expressionista alemão Lotte H. Eisner descreveu Grau como um "espiritualista ardente", mas hoje podemos muito bem chamá-lo de ocultista devoto. Ele viu imediatamente o potencial cinematográfico de Drácula de Bram Stoker, mas não tinha, nem ele e nem sua pequena produtora, a Prana-Film recursos suficientes para adquirir os direitos sobre o romance. Sendo assim, ele, junto com o roteirista Henrik Galeen, elaborou um roteiro que eles acreditaram poderia escapar despercebido do olhar atento da viúva de Stoker, Florance. 

O roteiro alterou os nomes e os locais do romance, mantendo sua estrutura básica. Jonathan Harker se tornou Hutter, Mina se tornou Ellen, Van Helsing se tornou Professor Bulwer, Renfield se tornou Knock e Drácula se tornou Conde Orlok. A ação principal foi traduzida da Inglaterra para a cidade de Wisborg, Alemanha. Na verdade, todo o romance complicado é simplificado para três cenários principais: o Castelo na Transilvânia onde Orlok vivia, o navio que o leva até Wisborg e a pequena cidade alemã em si. São três ambientes distintos que reúnem o início, meio e fim da trama.

O que dá a Nosferatu seu caráter singular são os muitos desvios do material de origem. Embora as raízes da história original ainda sejam identificáveis, ela ganha um caráter diverso pelas referências visuais únicas. Isso é percebido mais claramente no visual macabro do Conde Orlok, uma aparência única e diferente do idealizado por Bran Stoker em seu romance. É bem provável que a forma tétrica do conde tenha sido projetada por Grau, como implícito em seus desenhos de pré-produção. Seu vampiro não tem nada de charmoso, belo ou atraente - pelo cntrário, ele é monstruoso até a última fibra de seu ser. Grau muito acertadamente escolheu destacar as características físicas do ator Max Schreck usando maquiagem e próteses, dando destaque a sua cabeça calva e concedendo a ele dentes afiados localizados centralmente em sua boca. O resultado final é assustador, o vampiro ganhou uma aparência única de morcego ou rato que ressaltou os temas de peste do filme. 

Assim como no remake de Egger, o Nosferatu de Murnau estava a apenas quatro anos do auge de uma pandemia global que ceifou milhões em todo o mundo. As pessoas ainda se recuperavam de suas perdas e  filme ganhava dimensão ao acessar esse drama recente. Justa ou injustamente, o rato serviu como símbolo da peste por séculos, graças ao seu papel na disseminação da peste bubônica por toda a Europa medieval. Em retrospectiva, a praga de ratos também pode ser interpretada como uma indicação do clima político e social da Alemanha sob a República de Weimar, que governou a nação do fim da Primeira Guerra Mundial até 1933, como sendo solo fértil para ideias pestilentas se consolidarem. Isso, é claro, se concretizou na ascensão de Hitler e do partido nazista, apenas onze anos após o lançamento de Nosferatu.

Hoje, o filme é corretamente considerado uma obra-prima e F.W. Murnau, em grande parte por causa de Nosferatu, foi declarado por Lotte Eisner como "o maior diretor de cinema que os alemães já conheceram". A direção de Murnau, juntamente com a brilhante cinematografia de Fritz Arno Wagner, infundiu Nosferatu com algumas das imagens mais inesquecíveis de toda a história do cinema. O surgimento de Orlok de seu caixão a bordo do navio, sua sombra subindo a escada para o quarto de Ellen (Greta Schröder) antes de se estender pela porta da câmara, Orlok agarrado às molduras das janelas de sua casa abandonada. Tudo isso foi tão inovador e surpreendente que marcou um novo e vibrante estilo de filmagem. Não é de se admirar que o filme tenha capturado a imaginação de cinéfilos e cineastas por mais de um século, e é um atestado de sua importância que ele continue tão relevante.  

De certa forma, é quase um milagre que ele continue existindo. Depois que Florence Stoker soube do filme, ela imediatamente processou Grau e Prana-Film. O juiz do caso ordenou que todas as cópias do filme fossem destruídas. Há inclusive a lenda de que um procurador da viúva acabou se ferindo gravemente ao atear fogo em um rolo de filme para garantir sua destruição. Muitas cópias acabaram sendo destruídas, mas grupos clandestinos protegeram cópias que acabaram sendo contrabandeadas para fora do país. Alguns cineastas e proprietários de salas de cinema perceberam a genialidade da obra e tomaram para si a missão de preservá-la. Por muitos anos, ter uma cópia de Nosferatu podeia ser algo perigoso, já que a lei ordenara pesadas multas para quem tivesse a fita em seu poder, ou pior, a exibisse.

Nas décadas de 1930 e 1940, cópias surgiram e desapareceram. No decorrer da Segunda Guerra, algumas apareceram em Londres e foram destruídas, sobretudo por conta do sentimento anti-alemão causado pelo conflito. Contudo alguns bravos cineastas tomaram para si o dever de proteger algumas cópias e graças a eles Nosferatu pôde ser salvo. Surpreendentemente cópias originais aparecem até hoje, em coleções particulares, acervos de filmes ou até em velhos porões de cinemas desativados. Por vezes esses tesouros ocultos da sétima arte trazem cenas adicionais, imagens ou mesmo trechos em melhores condições que acabam sendo incorporados ao filme. Isso concedeu a obra um caráter de morte e renascimento bastante condizente com o tema abordado. 

Nosferatu: O Vampiro da Noite (1979)

No final dos anos 1970, o diretor Werner Herzog produziu e dirigiu dois filmes consecutivos que eram tentativas de se conectar com o melhor da herança cinematográfica alemã. O primeiro deles foi Nosferatu, o segundo, Woyzeck que começaria a ser filmado apenas cinco dias após Nosferatu ser concluído. Herzog descreveu a experiência como uma forma de se conectar com seus avôs cinematográficos. Ele frequentemente descreveu sua geração de cineastas alemães, que inclui principalmente Rainer Werner Fassbinder, Wim Wenders e ele mesmo, como uma geração sem pais porque eles tinham comprado a cultura nazista ou fugido do país por causa dela. "Como a primeira geração real do pós-guerra, éramos órfãos sem pais com quem aprender"; Herzog contou aos seus biógrafos: "Não tínhamos professores ou mentores ativos, pessoas cujos passos seguir. Isso significava que eram os avôs — Lang, Murnau, Pabst e outros — que se tornaram nossos pontos de referência."

Herzog foi atraído por Nosferatu por várias razões, não menos importante entre elas, seu sentimento de que o filme de Murnau era "o melhor filme alemão de todos os tempos". Ele buscou conexão com seus antepassados ​​criando sua própria versão dele, que ele nunca pensou como um remake. "Ele segue seu próprio caminho com seu próprio espírito e se mantém em seus próprios pés como uma nova versão", disse mais tarde à respeito do filme.

E, de fato, o filme é genuinamente único em comparação ao seu antecessor. Embora ainda incorpore alguns de seus aspectos marcantes, ele consegue certo grau de independência. Quando Herzog decidiu fazer sua versão de Nosferatu, Drácula já havia caído em domínio público há muito tempo. Ele dispensou as armadilhas do filme original que tinha a intenção de velar, ainda que superficialmente, as origens de Nosferatu no romance de Bram Stoker e escolheu chamá-lo de Conde Drácula em vez de Orlok, Hutter mais uma vez se tornou Jonathan Harker (Bruno Ganz), agora casado com Lucy (Isabella Adjani), e Roland Topor interpretou Renfield (e um dos Renfields mais bizarros e hilários da história) em vez de Knock. Os locais, no entanto, mantiveram a semelhança com o filme de Murnau, assim como o visual do vampiro, a ênfase na praga simbolizada por hordas de ratos e a centralidade de Lucy como aquela que detém o poder de destruir o mal que invadiu sua cidade natal.

Os elementos singulares que tornam esse filme algo mais do que mera repetição do original são muitos, mas os mais notáveis ​​têm a ver com o vampiro, a protagonista e a maneira como os locais são capturados no filme. O filme marcou a segunda de cinco colaborações de Herzog com o lendariamente volátil e imprevisível protagonista Klaus Kinski. Herzog o descreveu essa como a sua experiência de trabalho mais agradável. "Durante quase toda a filmagem, Klaus estava feliz e à vontade consigo mesmo e com o mundo, embora ele fizesse birra talvez a cada dois dias." 

Esta foi uma melhoria marcante em relação ao relacionamento deles em Aguirre: a Cólera de Deus (1972), que acabou sendo um mero prenúncio do furacão que estava reservado para eles em Fitzcarraldo (1982). Em Nosferatu, Herzog e Kinski buscaram "humanizar" o vampiro, dando a ele "uma angústia existencial real" que o sugador de sangue sem alma de Schreck não tinha. “Eu queria dotá-lo de sofrimento humano, com um verdadeiro anseio por amor e, mais importante, a única capacidade essencial dos seres humanos: a mortalidade”, disse Herzog, “Ele estava profundamente amargurado com a solidão e incapacidade de se juntar ao resto da humanidade.”

De muitas maneiras, o Nosferatu de Herzog deu origem aos vampiros com crises existenciais e questionamentos sobre o que eles haviam se tornado e como enxergavam um mundo que não era mais o deles. Essa linha dramática foi posteriormente explorada por inúmeros autores e diretores e serviu para oxigenar o mito dos vampiros concedendo a eles nuances que iam muito além do monstro morto-vivo.

A Lucy, de Adjani, também tem mais o que fazer do que a Ellen, de Schröder, e tem muita diligência no filme. Numa das cenas mais marcantes ela se encontra no meio da praça da cidade enquanto dezenas de caixões passam por ela nos ombros de homens que os carregam para fora da cidade. Perto dali, homens e mulheres atordoados dançam ao redor de fogueiras alimentadas pelos móveis de casas que ardem. As pessoas não precisam mais de nenhuma dessas meras posses, pois os ocupantes estão todos mortos e os ratos invadem as ruas. É uma imagem surpreendente que evoca o tema da peste, a praga disseminada e a mortalidade humana. 

Outra sequência marcante acontece no início do filme, quando Harker viaja para o Castelo Drácula a pé por paisagens impressionantes e por lugares ermos que ninguém parece ter visto em muito tempo. A sensação de isolamento é sufocante. Este é um dos maiores dons de Herzog como cineasta — ir a lugares que ninguém mais iria para nos mostrar paisagens que nunca foram vistas e posicionar sua câmera de modo que essas paisagens pareçam sobrenaturais. O filme é uma obra de beleza poética infundida com uma sensação constante e implacável de pavor.

A Sombra do Vampiro (2001)

Por mais que eu ame as versões "oficiais" de Nosferatu, e embora esta esteja fora desse reino, Sombra do Vampiro é um dos meus filmes prediletos de vampiros. A premissa do filme é bastante simples: E se o misterioso ator Max Schreck fosse realmente um vampiro? 

A trama oferece uma visão do processo da produção cinematográfica, do método usado para a produção e da natureza da própria arte em si, tudo reunido em rápidos noventa e cinco minutos. É tudo muito "rápido" e "direto ao ponto", mas não soa corrido ou apressado de forma nenhuma. Na verdade, o filme captura muito da estranheza do filme de Murnau, ao mesmo tempo em que é um drama envolvente e um filme muito, muito divertido. 

Produzido pelo astro Nicolas Cage, um entusiasta e fã assumido de vampiros, e dirigido por E. Elias Merhige, que chamou a atenção do produtor com seu filme sombrio e surreal Begotten (1989), Sombra é um casamento perfeito de cineastas e uma obra específica. Assim como Albin Grau, Merhige é fascinado pelo ocultismo e tinha um relacionamento próximo com Werner Herzog na época em que ele fez o filme. Diz a lenda que ele teria oferecido a Herzog o papel de Murnau, mas que este não aceitou apesar da insistência. Dá para imaginar como ele teria atuado, literalmente calçando os sapatos de seu ídolo, mas por outro lado não teríamos uma das grandes atuações de John Malkovich que assumiu o personagem.

Sombra do Vampiro apresenta um dos elencos mais brilhantes já reunidos para um filme desse tipo, incluindo John Malkovich como Murnau, Udo Kier como Grau, Cary Elwes como Wagner, Catherine McCormack como Greta Schröder e Eddie Izzard como Gustav von Wangenhein, que interpretou Hutter em Nosferatu. Todos têm atuações excelentes, mas Willem Dafoe como Max Schreck é nada menos que sensacional. Ele recebeu uma merecida indicação ao Oscar pela sua construção do Conde. 

O cerne do filme se concentra nos esforços que um artista (no caso o diretor) está disposto a fazer para ter sua visão concretizada, não importando os custos para si ou para qualquer outra pessoa. Os cineastas são retratados como cientistas loucos vestindo jalecos e óculos de proteção, uma necessidade na época devido aos resíduos criados pela iluminação. Murnau é regularmente chamado de "Herr Doktor" e esse tipo de Dr. Frankenstein declara repetidamente que fazer filmes é um ato de guerra. "Nossa batalha, nossa luta é criar arte. Nossa arma é o filme", ​​ele diz enquanto a equipe embarca em um trem para seu primeiro local de filmagem. Ao longo do filme a câmera é comparada a uma metralhadora. 

No final, essa versão fictícia da produção de Murnau se torna tão avassaladora que o mundo se torna o artifício e o que é filmado, a única coisa real. Sombra do Vampiro é um filme genial sobre loucura e criatividade.

É também o mais difícil de todos esses filmes de se encontrar. Apesar do elenco de estrelas, d eter sido produzido por um ícone de Hollywood e ser propriedade da Lionsgate e Universal, o filme não está disponível para streaming e permanece preso em um DVD fora de catálogo. Agora, com todo burburinho em torno de Nosferatu, nenhum filme é mais merecedor de um streaming de alta definição e lançamento físico do que esse. Para quem não assistiu, fica a dica, se conseguir colocar as mãos nele, assista.

Sombras e Influência

Vários outros filmes se apropriaram do nome de Nosferatu e o usaram para vários propósitos. 

Klaus Kinski assumiu a responsabilidade de retornar ao seu personagem vampírico, com resultados muito diferentes do filme de Herzog, em "Nosferatu em Veneza", de 1988, dirigido por Augusto Caminito e sobre o qual, quanto menos se falar, melhor. 

Mimesis: Nosferatu (2018) vê um professor do ensino médio, Professor Kinski (Joseph Scott Anthony), montando uma produção teatral de Drácula fortemente influenciada pelo filme de Murnau e estrelando um aluno obcecado por vampiros chamado Michael Morbius (Connor Alexander) no papel principal. O filme contém uma série de easter eggs relacionados a vampiros, incluindo vários nomes inspirados em Fright Night, Salem’s Lot e até mesmo Twilight. Ele também apresenta várias aparições breves de Lance Henriksen como um mentor enigmático criando um culto de vampiros no molde do Conde Orlok de Max Shreck. 

Também lançado nesse mesmo ano, após um longo período de gestação, temos "Nosferatu: Uma Sinfonia de Horror" estrelando Doug Jones no papel do vampiro. O filme, financiado por uma campanha do Kickstarter, é mais ou menos um remake cena por cena do filme de Murnau com atores modernos inseridos em recriações geradas por computador dos locais e cenários usados ​​no original. Curioso sem dúvida, embora talvez desnecessário.

Talvez ainda mais prevalentes tenham sido os muitos filmes que prestam homenagem ou refletem a influência de Nosferatu para criar vários efeitos — do assustador ao cômico. Em 1979, o mesmo ano do filme de Herzog, a produção televisiva de Tobe Hooper, "Salem's Lot" baseado na obra de Stephen King apresentou Kurt Barlow, uma criatura claramente modelada a partir do Orlok de Max Schreck. Curiosamente o personagem tem muito pouca semelhança com o personagem descrito no livro de King. 

Outras homenagens incluem Ben Fransham como Petyr no filme de mesmo nome lançado em 2014 e uma vez mais Doug Jones como o Barão Afanas na versão televisiva de "O Que Fazemos nas Sombras" (2019). No ano passado, Javier Botet interpretou o vampiro cinza, careca e com orelhas de morcego com grande efeito em "A Última Viagem do Deméter", pelo qual o personagem é creditado como Drácula/Nosferatu. 

O alcance de Nosferatu pode ser encontrado ao longo da história do cinema em personagens tão diversos quanto as formas animalescas dos vampiros em A Hora do Espanto (1985) e The Lost Boys (1987) a várias encarnações do Conde de Gary Oldman em Drácula de Bram Stoker (1992) a Marlow de Danny Huston em 30 Dias de Noite.

Parece provável que a nova versão do filme de Eggers fique ombro a ombro com o longo e imponente legado de Nosferatu. Parece que os fãs de terror estão famintos por uma releitura da versão clássica do mito do vampiro que seja genuinamente perturbadora, até mesmo, ouso dizer, assustadora. Provavelmente, e digo por mim mesmo, talvez seja o momento do vampiro clássico reclamar o status de MONSTRO uma vez mais, e se libertar da figura de criatura amargurada que o acompanha nas últimas décadas. O vampiro surgiu como um horror incompreensível, uma força nefasta de morte e esquecimento, que existe (não vive) para tornara  vida dos mortais um tormento. É para isso que ele foi criado, é para isso que precisa voltar.

Com as inúmeras variações do personagem ao longo dos anos, é revigorante retornar ao básico do porquê essas criaturas invadem nossos sonhos e nossos medos em primeiro lugar. De porque são tão fascinantes e por que o asco que deviam causar se converte em fascínio?

Há uma qualidade primitiva em Nosferatu que é encontrada além das virtudes de Drácula, ele é a fera inumana que não tem romance ou remorso, simplesmente ataca nossos medos mais profundos, sombrios e potentes em busca de sangue.

E é esse o vampiro de que sentimos saudade!