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quarta-feira, 1 de maio de 2024

Resenha de "Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft"


Atualmente H.P. Lovecraft pode ser encontrado em todos os cantos.

Suas histórias são constantemente editadas e lançadas em edições tanto simples quanto de luxo, comentadas ou repletas de análises. Lovecraft vende bem, e vende como jamais vendeu... suas antologias de contos e novelas figuram num lugar importante das prateleiras e são cada vez mais populares.

Mas esse fenômeno não está apenas na literatura! Suas criações figuram em inúmeras mídias, seja em filmes, séries de televisão, quadrinhos, jogos de computador e tabuleiro, RPG, música e até bichos de pelúcia! Lovecraft e suas criaturas indescritíveis conquistaram um lugar no imaginário e na cultura pop que o autor jamais poderia imaginar. Se o seu maior sonho era estar ao lado de Edgar Allan Poe, com uma obra enaltecida e admirada, hoje, ele conseguiu mais do que isso.



Não deixa de ser curioso como um autor obscuro como Lovecraft, que em vida vendeu alguns poucos contos e foi recusado várias vezes, jamais conquistando reconhecimento, tenha chegado onde chegou. De fato, considerando sua curta carreira, tudo levava a crer que ele seria esquecido ou lembrado apenas por um inexpressivo grupo de fãs. Mas numa reviravolta notável do destino, ele continua ganhando público e atraindo a atenção dos críticos.

Entretanto não apenas a obra de Lovecraft é muito debatida; sua vida também é alvo de constante escrutínio. Nesse aspecto, biografias são essenciais para lançar uma luz sobre a existência de pessoas tão interessantes. Biografias abordam a origem, como pensavam, qual a postura na época em que viveram, sua contribuição e finalmente o legado deixado para a posteridade.  

Nesse pormenor, "Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft" não é apenas um biografia historicamente bem fundamentada e um exame criterioso da existência do autor, mas uma ponte que permite conectar o legado de Lovecraft às tendências atuais do mundo do entretenimento. O responsável por esse trabalho, W. Scott Poole é historiador e um pesquisador dedicado ao gênero horror e a cultura popular. Com uma habilidade notável ele cumpre seu objetivo reunindo informações e dados sem jamais ser repetitivo ou chato. 



Muita gente pode dizer que não resta muito sobre a vida de Lovecraft que vale a pena ser debatido. Mas se enganam! Poole produz uma obra vibrante que disseca tanto os aspectos mais conhecidos quanto os mais obscuros da vida do Cavalheiro de Providence, mostrando que ainda há muito sobre ele que precisa ser discutido.

Certamente Poole não é o primeiro pesquisador à se debruçar sobre a vida peculiar do Sr. Lovecraft. O diferencial é que sua narrativa se concentra nos fatos, em detrimento dos mitos e dos preconceitos. A maioria dos livros sobre Lovecraft servem a um desses dois propósitos: glorificar seu legado ou fornecer uma crítica ferina quanto a sua mentalidade retrógrada. Autores como S.T. Joshi e August Derleth dedicaram suas vidas (e muitas linhas) para promover o papel de H.P. Lovecraft como expoente do terror e pioneiro no Horror Cósmico, enquanto encobriam suas características menos desejáveis. Na mesma medida que é indiscutível a importância do autor, também é impossível esconder seu preconceito latente e suas crenças raciais.

O mérito de Poole é caminhar na linha tênue entre esses dois campos. Ao longo de Necronomicon, ele mostra consistentemente aspectos positivos e negativos de Lovecraft como pessoa. Ele consegue atingir essa meta devido a precisão histórica. Ele admite que S.T. Joshi provavelmente é o mais dedicado pesquisador de Lovecraft, mas a sua análise é comparativamente mais isenta e rica. De fato, reside nas qualidades e defeito do indivíduo o grande trunfo desse trabalho. O resultado é uma biografia deliciosa de ler.



Na mesma medida que Poole enaltece a criatividade e o estilo do autor, tecendo comentários elogiosos, mantém um distanciamento sadio que permite criticar as partes desagradáveis que permeiam sua obra. Como não poderia deixar de ser, a polêmica do preconceito de Lovecraft é visitada frequentemente em Necronomicon. Poole argumenta contra a teoria de que Lovecraft seria um produto de seu tempo, mostrando que alguns de seus colegas escritores tentavam se dissociar das teorias raciais por ele alardeadas. No entanto, chama atenção para o fato de que Lovecraft tinha amigos muito próximos que sustentavam opiniões contrárias às dele, ou, que até mesmo eram membros desses grupos que ele detestava. Como Lovecraft equilibrava isso, demonstra sua dualidade de ideias. 
   
Poole também detalha o papel marcante das mulheres na vida de Lovecraft, desde sua mãe e tias até sua esposa. Falando de sua esposa, Sonia Greene, vemos um exemplo perfeito da especificidade de suas tendências racistas. Ao mesmo tempo que ele era venenoso contra imigrantes, Lovecraft respeitava enormemente sua mulher. E embora o matrimônio estivesse fadado a não durar, eles mantiveram uma longa amizade e respeito mútuo. O fato dele ter desposado uma mulher de descendência judia também ressalta como seu pensamento era contraditório. O livro também aborda de forma convincente que a mãe de Lovecraft não desempenhou um papel negativo em sua vida, ao contrário do que sustentam muitos biógrafos. Apontando para numerosos eventos documentados, Poole mostra como a mãe de Lovecraft, ao permitir que seu filho satisfizesse todos os seus interesses incomuns, deu-lhe a base perfeita para se tornar um autor revolucionário.

À medida que o livro avança para suas conclusões, Poole mapeia um vasto panorama do legado do autor e de como ele influenciou gerações futuras. Sua análise expõe como a obra do Cavalheiro de Providence conquistou seu espaço adaptando-se aos mais variados meios de entretenimento. Esse capítulo inteiro ajuda a entender a influência de Lovecraft (e por tabela de Cthulhu) na cultura pop atual.   



Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft foi lançado recentemente pela Editora Darkside em uma edição extremamente caprichada com o Selo Macabra. Para quem conhece a qualidade das publicações da Darkside nem é preciso mencionar o belíssimo acabamento, mas não tem como passar batido sem falar desse livro em especial. Tudo nele, da capa às ilustrações, da diagramação à tradução de Ramon Mapa, está perfeito! É um prazer folhear as páginas e se deixar absorver por um trabalho gráfico simplesmente irretocável.

Necronomicon vem com um excelente Prefácio do próprio Ramon Mapa e conta com alguns acréscimos exclusivos para a edição nacional. Temos notas, uma cronologia dos contos escritos por H.P. Lovecraft, um artigo sobre o fictício Necronomicon (com ilustrações raras de Robert Bloch) e a versão do próprio Lovecraft para a história do tomo profano.

A Darkside já conta com dois volumes de contos de H.P. Lovecraft em seu catálogo e essa biografia é o complemento perfeito para aprofundar o leitor (tanto o neófito quanto o fã já experimentado) nos pormenores da complexa vida desse gênio do Horror moderno.

Eu não poderia recomendar mais um lançamento sobre o autor!

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O Pescador - Resenha do Romance de John Langan


"Já estive à beira de um oceano cujas ondas eram tão negras quanto a tinta que escorre da ponta desta caneta. Eu vi uma mulher com a pele pálida como o luar abrir a boca, e abri-la, e abri-la, em uma caverna com fileiras de dentes serrilhados que estariam em casa na mandíbula de um tubarão."

John Langan - O Pescador

*     *     *

Para os fãs de horror em geral, o nome de John Langan não é estranho, ou ao menos, não deveria ser. Aclamado pela crítica como um escritor com talento excepcional, ele foi publicado em várias coleções, incluindo aquelas que trazem os "melhores contos do ano" como o Ellen Datlow's Fearful Symmetres. Langan se destaca em meio a outros promissores autores de horror e mesmo entre nomes já consagrados. Além disso, suas duas antologias exclusivas - Mr. Gaunt & Other Uneasy Encounters e o aclamado The Wide Carnivorous Sky contém material notável.

E a razão para um repertório tão impressionante de trabalhos publicados é bastante simples: o homem é uma máquina de produzir excelente material. Seu romance mais conhecido, "O Pescador", é apenas uma prova de seu enorme talento, imaginação e capacidade de oferecer uma história atraente que prende o leitor do início ao fim.

Os termos "excelente", "excepcional" e "transcendente" têm sido usados pelos críticos com tanta frequência que se tornam clichês, mas parecem adequadas para descrever esse, que é o segundo romance de John Langan. "O Pescador" é daqueles livros que você começa a ler e que não consegue parar, pois a história é tão bem escrita e narrada de maneira tão interessante que lembra uma conversa entre amigos, no qual um chega na casa do outro e diz "eu tenho uma história para contar" e sem cerimônia dá início a uma narrativa envolvente.

Não que "O Pescador" seja fácil, mas é a maneira como a história é oferecida que chama mais a atenção. Ele é uma história dentro de uma história, mas estou me adiantando demasiadamente.


A história começa prestando uma homenagem a Moby Dick, e de fato, como convém a um livro com esse título, ele é à respeito de água, um rio e tudo que vive abaixo da superfície. Envolve também coisas misteriosas e terríveis que habitam as profundezas e que não deveriam jamais existir em um mundo de razão e coerência - coisas estas que parecem extraídas diretamente de um conto de H.P. Lovecraft

Embora a narrativa tenha um tom descontraído, a história em si é tudo menos alegre. Desde o início, sentimos que algo horrível está para acontecer a uma página de distância, que nosso protagonista está se movendo em direção a um pesadelo medonho enquanto começa a ter experiências estranhas e sonhos aterrorizantes que vão se intensificando à medida que avançamos. Como dito, a história avança como uma prosa entre amigos, o que é esquisito em um livro sobre ficção bizarra, suspense sombrio e Horror Cósmico de primeira grandeza. Um sentimento opressivo permeia as páginas, mesmo nas circunstâncias mais mundanas, há algo que deixa o leitor inquieto. 

A história central acompanha dois viúvos, Abe e Dan, que perderam suas famílias e que ainda estão tentando lidar com as repercussões de sua imensa dor. Devorados por um vazio monumental do qual parece não haver escapatória, os dois encontram um amor em comum na forma de um hobby que preenche o vazio deixado por suas esposas e filhos - a pescaria. Pescar parece ser a única coisa que diminui a dor e sempre que possível os dois se reúnem com esse intuito. Em sua busca incessante por novos rios para lançar o anzol, Dan descobre um lugar obscuro chamado Dutchman's Creek (Riacho do Holandês). Eles partem então esperando um longo dia de pesca e tranquilidade. Contudo o riacho não corre simplesmente pelas montanhas de Catskills, no interior de Nova York, e sim pelo coração do inferno e os terrores que aguardam a dupla são horríveis além da descrição.


Enquanto estão se dirigindo para seu destino, o tal riacho, os dois param em um restaurante de beira de estrada para pedir direções. Lá eles conhecem o amistoso dono do estabelecimento, um homem que já ouviu falar do "Dutchman´s Creek" e que tem uma longa história para contar à respeito dele.

É nesse ponto que a história dentro da história começa a ser contada. 

Os protagonistas cedem lugar para a narrativa, propositalmente similar a uma história de pescador, na qual somos apresentados a uma série de estranhos acontecimentos que tiveram lugar nos arredores das Catskills no início do século XX. A construção de um enorme reservatório de água muda de vez a vida de habitantes da região, em especial a de um homem que recebe um soturno visitante que passa a morar em sua casa e levanta todo tipo de rumor assustador. O que o sujeito misterioso, o tal forasteiro faz na mansão e o que acontece naquele lugar na calada da noite é parte central da história, bem como os eventos que envolvem os operários - quase todos imigrantes, atraídos pela perspectiva de um grande empreendimento. Entre esses trabalhadores está Rainer Schmidt, um imigrante alemão de passado nebuloso que busca melhores oportunidades de vida para sua família e acaba tendo de enfrentar algo aterrorizante.

Essa porção de "O Pescador" é simplesmente brilhante! 

A lenda sombria de "Der Fisher" é uma experiência para Abe e Dan e também para o leitor. Magia negra, visões surrealistas, rituais antigos, tomos com conhecimento arcano e criaturas bizarras que parecem saídas dos piores pesadelos aparecem numa sucessão vertiginosa. Coisas difíceis de compreender como estas encontrariam abrigo fácil no universo Lovecraftiano e se aninhariam confortavelmente entre os tentáculos dos deuses antigos e seus servos. Langan explora esses caminhos tortuosos e escuros como a noite com maestria, conduzindo a trama de forma perfeita. Seus personagens são reais, as situações, mesmo as mais surreais, são descritas com um colorido especial que torna tudo crível e a forma como ele conduz a trama não é menos que sensacional. John Langan habilmente, com grande atenção aos detalhes, cria uma atmosfera de terror e inquietação, enquanto lentamente nos introduz no universo do romance. Mas em determinado momento, o ritmo se quebra, lançando o leitor em uma montanha russa de ação e violência. 


O terço final da trama confronta os protagonistas com uma escolha cruel. Sabendo de todos os detalhes transmitidos, eles seguirão com a sua excursão ao riacho? Irão acreditar na história ou desconsiderar como mera superstição? Ou irão aceitar a vida e o destino que receberam? Eles buscarão uma maneira não-natural de aplacar sua perda? E ao fazê-lo, que horrendas repercussões suas escolhas trarão? O final reserva algumas reviravoltas e uma conclusão agridoce para os protagonistas.  

A versão nacional de "O Pescador" foi lançada pela Editora Darkside com a já conhecida qualidade que marca suas publicações. A edição em capa dura, marcador de página, borda colorida e belo acabamento gráfico é um complemento à altura dessa grande história. Foi um enorme acerto da Darkside trazer John Langan para nosso idioma e apresentá-lo ao público brasileiro através desse trabalho impecável. Fica a dica para que eles sigam adiante com as publicações desse autor. 

"O Pescador" recebeu o Bran Stoker Awards de 2016 na categoria melhor romance, premiação mais do que merecida na minha opinião. A incrível narrativa fluida de Langan, suas visões surreais e a atmosfera perturbadora tornam a leitura desse livro puro prazer. É um deleite para os fãs de literatura de terror e eu não poderia indicá-lo mais.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Texto e Arte - Resenha de "O Chamado de Cthulhu" da Editora Darkside

 "A Coisa mais misericórdia do mundo, penso eu, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo. vivemos numa ilha plácida de ignorância em meio a mares negros de infinitude e não somos destinados a ir muito longe. As ciências, cada uma delas se estendendo em sua própria direção, nos causaram pouco dano até o momento; mas algum dia, a reunião do conhecimento dissociado revelará paisagens tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição nela que ou enlouqueceremos com a revelação ou fugiremos da luz mortífera em direção à paz e segurança de uma nova era das trevas". 

H.P. Lovecraft - O Chamado de Cthulhu

*     *     *

Nota: Para avaliar esse trabalho magistral, resolvi dividir a resenha em três partes: a primeira tratando do Texto de H.P. Lovecraft, a segunda da Arte de François Baranger e finalmente, na terceira tratando da convergência dos dois elementos na forma do livro 'O Chamado de Cthulhu". 

O TEXTO

É com o parágrafo acima, transbordando pessimismo niilista que H.P. Lovecraft abre O Chamado de Cthulhu, um de seus contos mais famosos. Para muitos, Chamado está na lista dos melhores e mais influentes trabalhos do autor. Outros vão além: Chamado de Cthulhu estaria na lista dos melhores e mais influentes contos de horror do século XX, possivelmente da história. E eles não estão exagerando.

É provável que o próprio Lovecraft não soubesse que esse conto seria tão importante na sua bibliografia e que tornaria seu nome permanentemente associado à criatura que ele criou. De certa maneira, Lovecraft e Cthulhu se tornaram quase sinônimos: quando o nome de um é mencionado, quase que imediatamente o outro surge segundos depois. Criador e criatura com o passar do tempo ficaram quase indissociáveis.

Escrito ao longo do ano de 1926, e publicado pela primeira vez em fevereiro de 1928 na Revista Weird Tales, Chamado não conquistou imediatamente seu espaço, embora tenha atraído a atenção de outros autores que viram nele os méritos de uma história complexa e uma evolução nas bases para o que ficaria conhecido como Horror Cósmico. Talvez seja em O Chamado de Cthulhu que Lovecraft define pela primeira vez o que representa o panteão de seres que ele vinha trabalhando, não demônios, mas entidades alienígenas nascidas na vastidão do espaço. Ele também estabelece a importância cósmica dessas criaturas, seu poder esmagador e influência tóxica na história do planeta. Lovecraft trabalha o conceito de como a presença desses seres ancestrais ainda se faz presente, e como as emanações psíquicas desses horrores, no caso Cthulhu, são captadas pela humanidade. O toque de Cthulhu, seu Chamado, motiva a criação de cultos ao redor do mundo, seitas que veneram essa entidade com fanatismo bestial, oferecendo a Ele sacrifícios e pranteando o Seu retorno. O conto consolida a noção de que a proximidade do Mythos ocasiona alucinação, pavor e loucura, outra pedra angular do gênero.

Em resumo, alguns dos principais elementos que delineiam o Horror Cósmico são apresentados nesse conto de modo incrivelmente imaginativo e inovador.

Lovecraft contava que a inspiração para Chamado veio de um sonho que ele teve em 1919. Ele descreveu a experiência em duas cartas enviadas a seu colega de correspondência Rheinhart Kleiner em 21 de maio e 14 de dezembro de 1920. No sonho, Lovecraft via a si mesmo visitando um museu de antiguidades em Providence, tentando convencer um idoso curador a comprar uma estranha estatueta que o próprio Lovecraft havia esculpido. O curador inicialmente zomba dele por tentar vender algo feito recentemente para um museu de objetos antigos. Lovecraft então se lembra de responder ao curador que a peça era muitíssimo antiga e que ela havia sido esculpida à partir de seus próprios sonhos. 


Ao acordar, Lovecraft apanhou um bloco de notas e guardou essa informação, além de ter feito um esboço preliminar de como era a tal estátua: Um Deus com cabeça de polvo, corpo humano e asas de morcego, acocorado num pedestal. Um Kraken, um Dragão, uma abominação. Nascia assim o Grande Cthulhu, a Entidade Alienígena que habita as profundezas oceânicas, "não morto, mas sonhando", aguardando o momento certo de reclamar o planeta que um dia lhe pertenceu.

Lovecraft salvou essa sinopse com uma anotação adicional que dizia: "Adicione um bom desenvolvimento e descreva a natureza do baixo-relevo". Nos anos que se seguiram, ele trabalhou em muitos outros contos, mas nunca esqueceu do sonho e dessa ideia. Ele delineou o conceito de deuses alienígenas que habitaram a Terra muito antes da humanidade, que foram forçados a hibernar em lugares ocultos do mundo, mas que estão destinados um dia a despertar com a ajuda de cultos apocalípticos.

Depois de publicado na Weird Tales, o conto ficou quase esquecido e após a morte de Lovecraft, não fosse a intercessão de seus amigos, provavelmente teria se perdido para sempre. Ele foi salvo do esquecimento e republicado pela editora Arkham House junto com outros contos que estavam fadados a desaparecer. Aos poucos, a obra de H.P. Lovecraft foi sendo resgatada e cada vez mais lida. Ela influenciou e ainda influencia uma legião de autores, leitores, fãs e entusiastas que captaram a genialidade ali contida.

E Chamado talvez seja a semente disso tudo.

ARTE

Uma coisa curiosa é que por mais importante que seja, a obra de Lovecraft raramente foi objeto de imagens grandiosas capazes de evocar as cenas descritas nos textos rebuscados. Os primeiros livros do autor contavam com imagens pouco evocativas fosse na capa ou sobre o título, imagens discretas que entregavam pouco sobre as dimensões do horror ali contido. Talvez os ilustradores tentassem se manter fiéis ao princípio estabelecido pelo próprio Lovecraft de que as suas criaturas eram simplesmente indescritíveis e impossíveis de serem retratadas de forma fiel.

Os deuses, seres e monstros Lovecraftianos são contrários à própria ordem natural. Eles desafiam as convenções do que tratamos como convencional e corriqueiro. Eles são por definição absolutamente alienígenas e é isso que causa a loucura naqueles que vislumbram suas formas grotescas e contornos bizarros.

Não deve ser nada fácil trabalhar com essa premissa.

O artista que se propõe a ilustrar um Horror do Mythos parte do pressuposto que a coisa a ser retratada não é apenas estranha, ela é incompreensível. Algo que não pode ser decifrado pelos nossos sentidos  pois não temos como compara-la a nada que conhecemos.

Poucos artistas seriam capazes de trabalhar o desafio de dar forma ao Caos do Mythos.

Entra em cena o conceituado artista francês François Baranger, conhecido ilustrador que tem no currículo o projeto conceitual de vários filmes e games de sucesso. Baranger é um fã de longa data de Lovecraft e de suas criaturas inomináveis, segundo ele, "fonte de inspirações e horrores de todo tipo". 

Ele aceitou o desafio de invocar para o mundo real imagens dignas de pesadelo das criaturas lovecraftianas e materializá-las para a apreciação de nossos sentidos.  

JUNTANDO TEXTO + ARTE

O que acontece quando juntamos um dos textos mais inspirados de H.P. Lovecraft - o Chamado de Cthulhu, com as belíssimas ilustrações de François Baranger?

O resultado é "O Chamado de Cthulhu", um livro nada menos do que sensacional.


Lançado aqui no Brasil recentemente pela Editora Darkside, a versão nacional é um banquete para os olhos. Ela não fica devendo nada em relação à edição original lançada em 2017 e possui o mesmo projeto gráfico. Nem é preciso dizer como a Darkside se dedica na produção de seus livros e trata cada um deles com um esmero invejável que estabeleceu um elevado padrão de qualidade. Livros da Darkside são lindos! Fato que nenhum colecionador contesta.

Ao longo das 64 páginas, encerradas em um volume luxuoso com capa dura e papel couché, o leitor é agraciado com um dos melhores contos do gênio do horror, complementado por imagens deslumbrantes de um artista incrivelmente talentoso. O formato do livro chama a atenção, com 36 x 27 centímetros, mas seu objetivo é óbvio, permitir ao artista aproveitar as dimensões como se fosse uma tela. E ele aproveita cada espaço para invocar imagens incríveis.

Temos três tipos de ilustrações: as de página inteira, as que servem de background para o texto e enormes imagens de páginas dupla que mais parecem pôsteres. Baranger se sobressai em cada uma com seu estilo elegante e ao mesmo tempo sombrio. Ele não se intimida em reproduzir as cenas mais apocalíticas, como a que mostra os detalhes da clareira macabra usada pelo Culto de Cthulhu no coração do pântano da Louisiana. Imagem de arrepiar! Mas sem dúvida, são as ilustrações que evocam o terror alienígena da Ilha Cadavérica de R'lyeh, que chamam mais a atenção. Baranger oferece um panorama aterrorizante que completa a descrição de Lovecraft com maestria, ruínas ciclópicas de eras ancestrais, arquitetura impossível com ângulos incompreensíveis e grandeza avassaladora. Ele também não se intimida em retratar Cthulhu com uma aura de ameaça titânica. É possível entender como a mera visão dele conduz pessoas à loucura.

Entretanto, o uso mais genial de ilustração se ajustando ao texto é quando Beranger reproduz o trecho sobre uma matéria do Sydney Bulletin como se fosse uma página de jornal. Resultado nada menos que notável.

O conto original é reproduzido na íntegra e para os leitores que não conhecem esse clássico imortal do horror, imagino que esta talvez seja a melhor e mais acessível introdução ao Horror Cósmico. Se você quer apresentar Lovecraft e o Horror a um amigo ou conhecido, dê a ele esse livro de presente. Para aqueles que já foram introduzidos nesse universo, essa edição tem o mérito de ser uma das mais caprichadas e bonitas lançadas até hoje. Acredite, ela é praticamente um livro de centro de mesa.

A tradução do texto sob a responsabilidade de Ramon Mapa é competente, sem censurar ou atenuar o conteúdo original. Como deve ser! Na última página há uma Nota do Editor contextualizando a já exaustivamente debatida questão do racismo presente na obra de Lovecraft. A nota é esclarecedora, sem defender ou condenar, recorrendo a especialistas e estudiosos do autor para oferecer diferentes pontos de vista sobre a questão.

Em conclusão, "O Chamado de Cthulhu" é uma história inesquecível quase essencial para os fãs do Horror. As imagens de Baranger complementam cada linha de Lovecraft e expandem a percepção do leitor para além do que ele capta através das palavras, garantindo uma experiência inovadora mesmo para os que conhecem a história de trás para frente.

Essa edição vale muito à pena! Nos resta agora torcer para a Darkside traga também os dois volumes da novela "At the Mountains of Madness" projeto seguinte da dobradinha entre Lovecraft e Baranger. 

Que venham outros!

"O Chamado de Cthulhu" ilustrado por François Baranger pode ser encontrado na loja online da Editora Darkside no link abaixo:

https://www.darksidebooks.com.br/o-chamado-de-cthulhu--brinde-exclusivo/p


quinta-feira, 29 de abril de 2021

BIBLIOTECA LOVECRAFTIANA - Terceira Semana


E essa é a TERCEIRA semana de nossa Biblioteca Lovecraftiana.

Diariamente (ou quase) no grupo Mundo Tentacular do Facebook colocamos algum livro que tenha ligação com o Universo dos Mythos de Cthulhu com uma pequena descrição.

Com o objetivo de preservar esse material, semanalmente vamos transcrever os textos para cá. espero que gostem.

SPAWN OF AZATHOTH
Chaosium


Teria tudo para dar certo, afinal se trata de uma das mais antigas campanhas de Chamado de Cthulhu - lançada no distante ano de 1986. Ela segue a premissa das demais, com uma clássica investigação ao redor do mundo na qual os investigadores tem um prazo para conter uma catástrofe global. Também não faltam perigos, horrores e situações bizarras.
 
O problema é que o roteiro da Campanha SPAWN OF AZATHOTH (Cria de Azathoth) não empolga e acaba sendo confuso, pouco interessante e um tanto arrastado. Não por acaso, foi uma das campanhas que eu nunca tentei rodar, por achar que simplesmente o esforço de fazer as mudanças necessárias seria grande demais, e provavelmente, não valeria a pena.

A campanha segue uma série de acontecimentos após a morte de um mentor dos investigadores e de uma trilha de pistas deixadas por ele. O grupo descobre que uma espécie de guardião espiritual que protege o planeta contra "Sementes" do Deus Azathoth está sendo ameaçado por uma conspiração. Se ele for destruído, a humanidade estará perdida.
 
O problema não é o plot central, mas os cenários individuais que levam o grupo de Providence para Montana, Florida, as Ilhas Andaman na costa da Índia, dali para as Dreamlands e encerrando nas Montanhas do Tibet. Dos sete cenários, ao menos dois são totalmente descartáveis e acrescentam bem pouco à campanha.
 
Com uma execução fraca e pontas soltas, essa não é nem de longe a campanha que poderia ser. Nem mesmo a arte decente e os Handouts caprichados ajudam muito. Das campanhas de Chamado de Cthulhu, essa infelizmente e o ponto fora da curva.

1,5/5 Tentáculos

O HABITANTE DAS TREVAS
Editora Script


Um dos últimos contos escritos por Lovecraft, O HABITANTE DAS TREVAS (The Haunter in the Dark) é uma história injustiçada ao meu ver. Trata-se de um dos grandes contos do autor, com uma atmosfera incrível e claustrofóbica, mas que por alguma razão não tem o mesmo prestígio de outras histórias do mestre do Horror Cósmico.

O protagonista, um autor com uma enorme curiosidade pelo estranho e inexplicável, se torna obcecado por uma estranha igreja abandonada em Providence. Seu interesse pela história e pelo passado do lugar, evitado por todos, o leva a buscar informações e faz com que ele descubra a existência de algo aterrorizante habitando aquele antro maldito.

De muitas maneiras, essa história é o protótipo de uma aventura de terror investigativo no qual o protagonista se vê mergulhado num horror indescritível do qual não há escapatória.

Lançado pela Editora Script, essa edição caprichada tem muitos méritos. A tradução do texto original à cargo de Mariana Costa é certeira, possivelmente a melhor já feita para esse conto. O acabamento é incrível, com um formato em "widescreen" que fica acondicionado numa capa protetora. Mas a grande atração são as magnificas ilustrações do artista argentino Salvador Sanz que consegue captar de forma magistral cada nuance do roteiro e traduzir em imagens o assombro desse clássico irresistível.

4,5/5 Tentáculos

CTHULHU BRITANNICA
Cubicle 7


Não são loucas as editoras que pegaram carona no sistema clássico de Call of Cthulhu para lançar produtos do jogo em sua sexta edição. Cthulhu Britannica foi a aposta da Cubicle 7 para apresentar sua visão particular dos Mythos.

Esse seu primeiro livro, daquilo que se tornou uma série de curta duração, trazia histórias centradas nas Ilhas Britânicas em diferentes épocas. O modelo é bem interessante já que os cenários oferecem diferentes interpretações do Horror Lovecraftiano. Temos aventuras na complexa alta sociedade Victoriana, uma numa escavação nos anos 1930, uma curiosa história nos dias atuais, uma desesperadora num futuro próximo e a última num futuro distópico bem distante. Em comum o fato dos Mythos figurarem com preponderância.

Antologias de Cenário são um balaio de gatos, nunca se sabe o que esperar das histórias e aqui isso não e diferente. Temos histórias bem construídas e outras fracas, sendo que uma é muito boa e pelo menos uma me deixou sem palavras, simplesmente por ser estranha demais em sua proposta. Dos cinco cenários, eu lembro de ter narrado dois, e ter alterado alguma coisa. As histórias acompanham personagens prontos, uma boa arte e Handouts bem feitos.
 
Cthulhu Britannica é um suplemento razoável, ainda que não seja incrivelmente empolgante, cumpre seu papel de ser divertida e provocadora. Uma pena a série ter acabado, mas veremos as demais aqui na Biblioteca.

3/5 Tentáculos

SOLDIERS OF PEN AND INK
Pelgrane Press


Um dos aspectos mais atraentes das ambientações lovecraftianas é seu aspecto histórico. Embora os cenários versem sobre ficção de horror e forças aterrorizantes, o pano de fundo é sempre o mundo real. Isso permite aos jogadores interpretar pessoas que viveram em épocas e momentos chave da história.

Em Soldiers of Pen and Ink (Soldados de Caneta e Tinta, uma forma de se referir aos Correspondentes de Guerra) o momento histórico apreciado é a conturbada Guerra Civil Espanhola que dividiu o país e cobrou um pesado preço de sua população. Algo que reverbera até hoje na sociedade, passados quase 100 anos.

Idealizado para Rastro de Cthulhu, usando o sistema Gunshoe, o cenário é uma investigação se passando em meio ao conflito espanhol. Os investigadores assumem o papel de soldados que integram as forças legalistas, as brigadas internacionais. Em meio a barbárie eles começam a perceber algo ainda mais medonho acontecendo nos bastidores da guerra. De fato, é algo que parece usar a guerra em causa própria e que se não for contido ameaça se espalhar.

A ideia e a execução do cenário são muito boas, o único pecado é o visual. A escolha de arte, um tanto simplista, destoa onde algo mais realista seria bem vindo. A parte de cartografia e Handouts também deixa um pouco a desejar. A aventura é interessante, mas eu senti falta de um pouco mais de detalhes históricos da ambientação. Ainda assim, vale a pena pela proposta de vivenciar em sua mesa de jogo um período de Horror bem humano, temperado com horror cósmico.

3/5 Tentáculos

TALES OF THE CTHULHU MYTHOS
Del Rey


Uma das grandes sacadas dos primeiros autores a explorar os Mythos de Cthulhu foi abrir essa mitologia a todos que quisessem contribuir com as histórias. Foi assim que o Círculo Lovecraftiano se expandiu, com o acréscimo de inúmeros autores. 

E assim, ele continua crescendo...

Tales of the Cthulhu Mythos é uma antologia de contos escritos por autores - muitos deles em início de carreira, que se tornaram famosos explorando o tema. Medalhões como Clark Ashton Smith, Robert Bloch, Henry Kuttner, August Derleth, Colin Wilson, Robert E. Howard, Frank Belknapp Long entre outros, foram os primeiros a sondar todas possibilidades do Horror Cósmico.
 
As histórias reunidas nessa coleção estão entre as mais conhecidas. Elas definiram os parâmetros do gênero e são quase obrigatórias para os fãs. Pessoalmente eu considero essa uma das melhores antologias reunidas pela Del Rey, uma que realmente vale a pena conhecer.

O único problema pode ser o papel fino que tende a amarelar e manchar, mas esse é um pecado menor que não depõe contra o sensacional material aqui reunido. Para quem quer conhecer os Mythos à fundo, esse é o melhor caminho.

5/5 Tentáculos.

KINGSPORT - The City in the Mists
Chaosium


KINGSPORT é mais uma das cidades da Lovecraftian Country, um grupamento de pequenas e antigas cidades na Nova Inglaterra, cenário de vários contos escritos por H.P. Lovecraft.

O balneário de Kingsport é um lugar curioso em que o tecido que divide o Mundo Desperto da Terra dos Sonhos é mais tênue. Lá, os sonhadores encontram um terreno fértil para a exploração onírica. Não por acaso é uma cidade de artistas, poetas, pintores, boêmios e pensadores a adotaram como seu lar. Também e uma cidade curiosa, com muitos mistérios e habitantes peculiares.

Esse livro, oferece um panorama completo da cidade: seus residentes, seus segredos, lugares interessantes e possibilidades para investigações no Universo do Mythos. Arte, capa e diagramação de primeira, além de 4 cenários prontos que permitem explorar a cidade. Ah sim, com um belo mapa para completar!

Das cidades que integram a Lovecraft County, KINGSPORT talvez seja a menos conhecida, ainda assim, ela tem muitos atrativos como a Casa no Alto das Névoas e a mansão do Terrível Homem Velho. A opção de misturar sonhos e horror, tornam esse livro um trabalho acima da média.

3,5/5 Tentáculos

PROVIDENCE
Panini


Alan Moore é indiscutivelmente um dois maiores nomes dos quadrinhos, e quando alguém como ele se propõe a explorar o universo dos Mythos Lovecraftianos, é preciso parar e prestar atenção.

Redimindo a si mesmo do fraco Neonomicon, que é um ponto fora da curva em sua carreira, Moore volta com força total nessa série em 9 partes, encadernada em 3 volumes (lançada aqui pela Panini em formato capa dura e edição bastante caprichada).

Em Providence temos uma reimaginação dos Mythos: dos personagens e contos sob uma ótica diferente. A história segue os passos de Robert Black um jornalista em busca de uma história à respeito de folclore e crenças estranhas. A busca de Black pela verdade, que ele parece ser incapaz de enxergar pelo seu ceticismo (mesmo quando está bem diante de seus olhos), faz com que ele viaje pela Nova Inglaterra e entre em contato com horrores indescritíveis. Suas experiências arrepiantes mudarão sua vida para sempre e abrirão as portas de nosso mundo para algo Inominável.

Com roteiro e desenhos incríveis, Providence é repleto de referências e citações a serem descobertas a cada página. Excelente trabalho!

4,5/5 Tentáculos.

*      *      *

Essa foi a segunda semana, fiquem conosco para as próximas.

Tem muita coisa esperando na fila.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Território Lovecraft - Resenha do Livro de Matt Ruff


Com a proximidade da estréia da nova série da HBO, Lovecraft Country, esse final de semana, o livro no qual ela foi baseada ganha atenção. Lançado aqui no Brasil pela Intrínseca, com o título Território Lovecraft, a obra, escrita por Matt Ruff, utiliza elementos clássicos do universo dos Mythos, acrescentando ao gênero outras formas de terror mais mundanos, contudo, nem por isso, menos aterrorizantes.

Território Lovecraft não é exatamente um romance. Ele pode ser entendido como uma espécie de antologia formada por oito histórias curtas independentes, mas que possuem um fio condutor. Estes episódios narram acontecimentos envolvendo uma mesma família ou pessoas próximas a esse núcleo familiar que acabam atraídas por diferentes circunstâncias para uma série de estranhos eventos. A corajosa Letitia, a culta Hippolyta, o geek Horace, o dedicado George, o determinado Atticus entre outros, são personagens ligados pelo sangue que aos poucos vão descobrindo uma espécie de conspiração sobrenatural ao seu redor e que precisam lidar com implicações que mudarão suas vidas para sempre.

A primeira história da trama é que irá iniciar os eventos; nela o jovem veterano da Guerra da Coréia, Atticus Turner retorna a Chicago e descobre que seu pai, Montrose, desapareceu sob circunstâncias misteriosas. Monstrose e Atticus nunca se deram muito bem, mas a suspeita de que algo potencialmente perigoso aconteceu, leva o filho a buscar respostas. Na companhia de seu tio George e de um amiga de infância Letitia, eles deverão fazer uma viagem para encontrar o paradeiro de Monstrose. Isso os leva até uma pequena cidadezinha no interior da Nova Inglaterra e ao estranho clã dos Braithwhite que estão envolvidos com feitiçaria, magia negra e coisas ainda mais bizarras.

O que já seria uma tarefa complicada, fica ainda mais difícil em face de um "pequeno" mas marcante detalhe. Atticus, George e Letitia são negros e a viagem a um enclave branco para reclamar por justiça, é dificultada sobremaneira pelo regime de segregação social conhecido como Jim Crow que nos anos 50, época em que se passa a história, estava à todo vapor. A jornada de Chicago até Massachusetts feita por estradas nos arrebaldes da América já se mostra suficientemente arriscada e levará o grupo a ser confrontado por policiais racistas e cidadãos desconfiados e gente muito mal intencionada.


Mesmo após solucionar as circunstâncias do desaparecimento de Monstrose, os problemas estarão apenas começando. Uma vez tendo atraído a atenção do herdeiro da família, o maquiavélico Caleb Braithwhite, os personagens serão atormentados por outros acontecimentos inquietantes com direito a fantasmas, casas assombradas, portais para outras realidades, livros malditos e uma disputa entre facções de feiticeiros.  

A grande sacada do livro é colocar em paralelo dois tipos de horror distintos. Um deles, o horror cósmico, é bastante familiar para os fãs de ficção e terror, mas o outro, que envolve a face mais hedionda do preconceito e opressão será uma novidade para muitos leitores. Os heróis das histórias escritas por H.P. Lovecraft nunca foram membros de minorias e portanto, jamais tiveram de enfrentar percalços como, por exemplo ter de fugir às pressas de linchadores. Quando o livro coloca personagens negros no papel de protagonistas acerta em cheio ao fazer uma crítica contundente do período e também da forma como Lovecraft enxergava essas pessoas. Sem querer entrar no mérito do do grau de racismo de Lovecraft, o resultado é bastante interessante e inovador.

Lovecraft Country é um sólido entretenimento. Recheado com situações inusitadas e um estilo de escrita agradável, as histórias cumprem a proposta de manter o leitor curioso a respeito do que irá acontecer à seguir e compelido a virar as páginas. É claro, algumas histórias são mais interessantes do que outras, mas de um modo geral, todas elas tem os seus atrativos. Uma vez que o nome "Lovecraft" aparece em destaque, o leitor pode esperar encontrar criaturas e entidades clássicas, mas é bom deixar claro que tal coisa não acontece. Embora haja alguns horrores tipicamente lovecraftianos, aqui e ali, eles não remetem a Cthulhu, Nyarlathotep, Azathoth e outras entidades populares.


A seguir, a lista das histórias e o sumário de cada uma, sem spoilers, apenas o suficiente para dar um gostinho:

"Lovecraft Country" é a história mais longa na qual os protagonistas viajam até a misteriosa cidade de Ardham (sim, com "d" mesmo) e conhecem a Família Braithwhite e seu estranho Culto. 

"A Casa Assombrada dos Sonhos" envolve a herança de uma mansão e de um fantasma que a habita.

"O Livro de Abdullah" diz respeito a um raro tomo perdido com conhecimento místico e uma perigosa operação que visa obtê-lo custe o que custar.

"Hippolyta Perturba o Universo" é sobre a descoberta de um portal dimensional que conecta a nossa realidade com outro planeta onde habitam coisas inacreditáveis.

"Jekyll em Hyde Park" envolve uma fórmula mágica capaz de mudar a vida de uma mulher negra, e de até onde ela está disposta a ir para mudar.

"A Casa Narrow" é sobre um encontro com assombrações e fantasmas do passado.

"Horace e o Boneco do Diabo" diz respeito a um brinquedo assassino e uma terrível maldição lançada por um feiticeiro.

Finalmente, "A Marca de Cain" fecha a antologia com uma derradeira reunião entre vários dos personagens apresentados nas histórias anteriores e o embate final contra o vilão Caleb Braithwhite.


De todas as histórias, a primeira que dá título ao livro e a quarta, sobre o portal entre dois mundos, foram as que mais gostei. Essa última, com direito a viajantes dimensionais ilhados em outra realidade, um predador aterrorizante e vários perigos é particularmente empolgante e tem uma vibração condizente com o Horror Cósmico. Infelizmente, as histórias sobre fantasmas e casas assombradas, soam como uma nota dissonante, não são ruins, mas parecem um tanto fora do contexto. Já o conto sobre uma criança às voltas com um boneco homicida e a do roubo de um tomo com conhecimento apocalíptico escondido num museu, são bastante boas. Haja vista que as narrativas não são de terror extremo, visando causar choque ou sustos, mas com uma construção lenta e ponderada.

Um dos méritos do livro é apresentar personagens com os quais acabamos nos importando. O núcleo familiar formado pelos Turner e seus amigos, é muito bem construído, sobretudo no que diz respeito às personagens femininas que tem nuances admiráveis. As irmãs Letitia e Ruby são as minhas favoritas e a história de Ruby, um pastiche de Médico e o Monstro, também funciona perfeitamente. 

No entanto, é preciso reconhecer que Ruff recorre a um certo grau de maniqueísmo fazendo com que os personagens negros sejam invariavelmente virtuosos e bons, enquanto praticamente todos os brancos são retratados como racistas raivosos. Até mesmo quando descreve uma magia conjurada por um protagonista, este se vê envolvido por uma energia negra que o protege de um brilho branco ameaçador. Talvez, se o autor explorasse uma área fronteiriça, digamos cinzenta, o resultado fosse mais interessante. A única vez que ele o faz é justamente através do vilão, Caleb que tem sua própria agenda dúbia e acaba sendo o catalizador da maioria dos contos.      

De toda maneira, repousa nas experiências vividas por Atticus e companhia, que gravitam muito acima do reino da fantasia a força que alimenta Território Lovecraft. Os vários trechos retratando sem maquiagem a injustiça, perseguição e preconceito raciais conseguem ser tão, ou até mais, assustadores do que aqueles envolvendo aberrações cheias de tentáculos.

Com certeza o interesse sobre a série irá atrair muitos leitores em potencial e fazer com que estes busquem avidamente pelo livro. Para os que gostam do gênero e que desejam algo um pouco diferente, o trabalho de Matt Ruff é um boa pedida.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

O Homem na Torre - Entrevista com Denílson da Editora Clock Tower


O Mundo Tentacular abre as suas portas para conversar com Denilson Carraretto responsável pela Editora Clock Tower que nos últimos anos tem conquistado um lugar no coração dos fãs de Literatura de Terror e Fantasia como um selo que vem publicando autores clássicos até então pouco conhecidos no Brasil.

Falamos a respeito do mercado de livros do gênero, de Literatura fantástica em geral e sobre o próximo lançamento da Editora, inteiramente dedicado a Clark Ashton Smith que será publicado pela primeira vez em português através de uma plataforma de Financiamento Coletivo.

Acompanhe aqui a nossa entrevista e aproveite para conhecer esse grande projeto seguindo o link no final do artigo.

MUNDO TENTACULAR - Obrigado Denilson pela oportunidade de conversar com você. Antes de perguntar especificamente a respeito do novo lançamento da Clock Tower, gostaria que você comentasse um pouco a respeito de como está o mercado de livros do gênero horror/ fantástico. 

DENILSON CARRARETTO - Primeiramente muito obrigado pela oportunidade em divulgar nosso projeto do Catarse e a obra do grande escritor que foi Clark Ashton Smith.


O mercado de livros do gênero horror/fantástico apesar de toda a crise atual na economia se mantém relativamente bem. Não em alta como desejávamos, mas bem, até mesmo porque nosso país já vinha de 3 anos de recessão e num momento em que havia o início de uma recuperação da atividade econômica, fomos pegos de surpresa por essa triste pandemia, e isso afeta o mercado. Mas, é impressionante como o gênero tem atraído os brasileiros, que mesmo em momentos difíceis tem se esforçado em adquirir livros e apoiar bons projetos, coisa que a meu ver não ocorre tanto com outros gêneros literários. Sou suspeito para falar, mas acredito que estamos vivendo já a alguns anos um boom de interesse por horror e fantasia, um gênero até então esquecido ou até mesmo desconhecido por muitos dos brasileiros.

MT - Até pouco tempo atrás tínhamos pouca coisa publicada de H.P. Lovecraft e menos ainda de Horror Cósmico. Agora muitas editoras estão descobrindo esse filão. Na sua opinião, para quem já leu tudo de Lovecraft e quer algo similar, qual seria o próximo passo? 

DC - Nos últimos anos as editoras redescobriram H.P. Lovecraft, uma vez que num passado já distante ele tinha sido publicado e relegado ao esquecimento. Eu imagino que o fato de sua obra ter caído em domínio público e o aparecimento de bons sites e blogs também contribuiu para isso, além é claro da qualidade da obra do autor. 

Muito embora Lovecraft tenha sido bastante publicado no Brasil, ainda resta a publicação de suas cartas, ensaios e biografias mais abrangentes sobre sua vida que não temos em nosso idioma - isso para o fã e admirador do escritor é fundamental, e ainda é uma lacuna. Agora, para quem leu o principal de sua obra (seus contos e novelas), se aprofundar em escritores do seu círculo de amigos e que compartilhavam ideias como Clark Ashton Smith, Robert E. Howard, Derleth e tantos outros, é mais que fundamental.

MT - Falemos sobre o próximo lançamento da Clock Tower. Clark Ashton Smith (CAS) ainda é pouco conhecido no Brasil, o que você pode nos dizer a respeito dele? 

DC - Clark Ashton Smith foi um dos maiores escritores de horror e fantasia de todos os tempos. 

Um artista completo, Smith foi ao mesmo tempo pintor, escultor, poeta e escritor de contos incríveis e criador de mundos e personagens que parecem existir na vida real. Durante sua vida foi acometido por fobia, o que resultou numa vida reclusa, mas de muitos estudos autodidatas o que rendeu uma obra vasta e completa. Smith é um autor que certamente contribuiu e muito para os 'Mitos de Cthulhu' de Lovecraft e que irá cair facilmente no gosto do leitor brasileiro... É interessante observar que o conto de Smith 'O Retorno do Feiticeiro' (que está presente no nosso livro), foi o primeiro conto sobre os Mitos de Cthulhu escrito por outro escritor que não Lovecraft, daí dá para ter uma ideia mais clara do que estamos falando.

MT - Como você define a importância de CAS para o gênero e quais foram as suas maiores contribuições? 




DC - Eu acredito ao falar de Smith estamos falando de um dos maiores gênios da fantasia de todos os tempos, talvez maior mesmo que Lovecraft. Não é a toa que além de amigo de Lovecraft, Smith era muito admirado por ele, considerado um mestre do gênero comparado a grandes nomes como Arthur Machen e Edgar Allan Poe. Mais do que qualquer outro, Lovecraft soube reconhecer seu talento, mesmo sendo Lovecraft um crítico muito voraz. Seus contos são únicos e é impressionante que mesmo hoje em dia, com tantos e tantos escritores, estilos e técnicas literárias bem desenvolvidas não encontramos alguém como a capacidade e versatilidade de Clark Ashton Smith e de seus contemporâneos.

MT - Quais contos estarão nessa antologia e como foi o processo de escolha dos mesmos? 

DC - Smith foi um grande criador de mundos e personagens. Procuramos no livro "Além da Imaginação e do Tempo", representar a parte mais significativa de sua obra, dando destaque para o Mito de Cthulhu. Nosso livro conta com o apoio do Sr. William Dorman que é enteado do autor e detentor dos seus direitos autorais, com sua ajuda e de S.T. Joshi, especialista em Lovecraft, além do trabalho do grande fã e tradutor José Geraldo Gouvêa, chegamos em uma lista de contos e mundos bem representativos de sua obra, são eles:

Mitos de Cthulhu: mitologia criada por H. P. Lovecraft e seus amigos, entre eles C. A. Smith. 

Contos: O Retorno do Feiticeiro, Os Caçadores do Além, A Prole Inominável.

Averoigne: Província fictícia da França medieval onde Smith criou muitos dos seus personagens e cenários. 

Contos: A Santidade de Azédarac, A Besta de Averoigne, O Colosso de Ylourgne.

Hiperbórea: Groenlândia pré-histórica antes do avanço da calota polar, região fria e envolta em muitos mistérios. 

Contos: Ubbo-Sathla (ponte para hiperbórea), A Chegada do Verme Branco, A Porta para Saturno, As Sete Obrigações.

Zothique: no futuro, os continentes voltam a se unir formando uma terra moribunda, onde o sol está escuro e manchado, cenário perfeito para seus contos. 

Contos: Uma Noite em Malnéant (ponte para histórias finais), O Ídolo Escuro, Necromancia em Naat, Morthylla.

É importante lembrar que essa divisão não é muito precisa e que suas temáticas se misturam às vezes. Citando, por exemplo, os Mitos de Cthulhu, que, seja direta ou indiretamente, estão presentes em muitos contos.

Além disso o livro terá muitos extras como biografia do autor, impressões pessoais escritas por seu enteado, poesias, e muito mais...

Cabe ressaltar que os desafios para lançar Smith foram enormes. Embora a Clock Tower atue desse 2013, essa é nossa primeira experiência na plataforma Catarse. E ter esse sucesso já no nosso primeiro projeto só foi possível graças ao apoio da Editora Diário Macabro. Além disso essa época da pandemia, o pagamento dos direitos autorais e outras coisas mais foram desafios que estão ficando para trás, num momento em que graças ao apoio de todos estamos próximos da meta (de fato, no fechamento desse artigo, a meta se encontrava com 90%, faltando ainda 48 dias). 


MT - Quais outros autores estão nos planos da Clock Tower para futuros lançamentos?


DC - Entre nossos planos está lançar um livro de contos de Robert E. Howard ambientado no Velho Oeste. Um subgênero que chamamos de Weird Western e que será o volume 2 do livro 'O Mundo Sombrio de Robert E. Howard'. Além disso, claro, muitos outros livros estão no prelo.


*     *     *

A seguir, você acompanha informações e o press release de "Além da Imaginação e do Tempo" que se encontra em Financiamento Coletivo no Catarse. 

Pela 1ª vez em português, um livro totalmente composto pela obra de Clark Ashton Smith, um dos maiores escritores de horror e fantasia de todos os tempos!

Clark Ashton Smith (1893-1961) foi poeta, escultor, pintor e autor americano de contos de fantasia, horror e ficção científica. Devido a problemas de fobia, ele teve uma vida pobre e reclusa, casando-se muito tarde. Morou quase toda sua vida na cidade de Auburn (Califórnia) com seus pais, que o incentivaram em uma vida de estudos autodidata. Smith foi um grande criador de mundos imaginários e criaturas incríveis, tendo concebido através da escultura seus monstros antes mesmo de transportá-los para o papel.

Contemporâneo, amigo e grande mestre de H.P. Lovecraft, ele escreveu também sobre os famosos “Mitos de Cthulhu”, uma espécie de clico literário de escritores de horror e fantasia da década de 1920, que publicava seus contos em revistas pulp, notadamente a Weird Tales. É um escritor muitíssimo admirado por grandes nomes da literatura como Robert Block, Ray Bradbury e Robert E. Howard.

O livro com os 14 contos mais importantes de Clark Ashton Smith terá aproximadamente 290 páginas, no formato 16 x 23 cm, acabamento brochura e papel pólen soft 80g/m².


Para conhecer mais detalhes à respeito desse Financiamento, basta clicar no link abaixo:

CATARSE - CLARK ASHTON SMITH

Pessoal, essa é uma excelente oportunidade para conhecer um dos maiores autores de Ficção e Horror de todos os tempos. Um expoente do Horror Cósmico que merece ser lido e melhor conhecido por todos os entusiastas do gênero.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Revelando o Invisível - A mística Poeira de Ibn-Ghazi


 O trecho a seguir é geralmente compreendido como um capítulo inteiro do infame livro de Abdul Alhazred. Entretanto, leitores com conhecimento não ficarão surpresos quando eu mencionar que, após consultar diferentes versões do Necronomicon, parte de seu conteúdo se mostra incrivelmente divergente, até mesmo contraditório em certos aspectos. Isso não é particular desse trabalho em especial, uma comparação semelhante de várias versões existentes da Clavícula de Salomão oferece resultados similares.

Escolhi o texto a seguir como um exemplo do problema encarado por muitos pesquisadores da Demonologia de Alhazred. Esta fórmula é particularmente famosa e encontrada em muitas, senão todas as versões do tomo, mas permanece o fato de que a versão mais conhecida pode ser achada na edição traduzida pelo célebre Dr. John Dee. Há versões publicadas por Hay, Wilson, Turner entre outros que também são conhecidas, mas o leitor deve ter em mente que a versão de Dee é um exemplo da longa obsessão do Dr. Dee pelo Necronomicon e tudo que ele representa. Ao longo dos anos, o Mago da Corte Elizabetana e conceituado estudioso reuniu trechos fragmentados e páginas perdidas do Necronomicon em vários idiomas, trabalhando sobre esse material de maneira febril para destilar delas a versão mais completa do texto original. 

O Dr. Dee obteve uma cópia da versão grega do Necronomicon possivelmente datada de 1472, e imediatamente redigiu uma série de anotações que incluíram a tradução de vários capítulos para o inglês. Por razões desconhecidas, Dee codificou essas anotações em 1583, nomeando o documento manuscrito como Liber Logaeth. Ele produziria uma versão mais completa em 1586, após trabalhar em uma cópia em árabe original do Kitab Al-Azif que ele encontrou em Praga três anos antes. Ele acrescentou a esse trabalho, fragmentos colhidos das versões grega e latina (ao qual teve acesso nos Cárpatos), bem como algumas anotações reproduzidas pelo filósofo Alkindi em uma compilação intitulada Kitab ma'ani al-nafs ou Livro da Essência da Alma (c. 850).


Lin Carter (1930-1988) obteve o manuscrito original do Dr. Dee na década de 1950, e deu início a um laborioso trabalho de tradução que foi publicado em fascículos - de 1971 até 1978, mas que resultaram em uma transcrição truncada e incompleta da maioria dos rituais. O executor literário de Carter, Robert M. Price publicou a transcrição do material de Carter em 1990, em um diário acadêmico de pequena circulação.

Mas voltando ao Dr. Dee, ele realizou uma revisão e expansão do conteúdo de seu manuscrito de  1586 com algumas notas e revisões adicionais. Duas cópias destes foram produzidas, mas ele se mostrou reticente a respeito de enviar o material para ser impresso. Após sua morte em 1608, as duas cópias restantes do documento acabaram sendo adquiridas por um gráfico de Londres que foi responsável pela primeira publicação do Necronomicon de Dee em meras 113 cópias. Há boatos de que uma versão manuscrita ainda mais completa do tomo foi encontrada na biblioteca privada do Mago dois anos depois. Esta foi subtraída, vendida clandestinamente e hoje é considerada perdida.

O Liber Logaeth, tido como o manuscrito incompleto do Necronomicon circulou pela Inglaterra do século XVI, sendo eventualmente publicado em uma versão expurgada em Bristol. Esta edição menor se tornou bastante popular no século XVIII e XIX, ganhando círculos ocultistas e acadêmicos, ainda que os verdadeiros pesquisadores reconheçam que ela era largamente inferior. Nessa tradução, trechos inteiros foram cortados ou omitidos, supostamente em face das crenças religiosas de Dee, um cristão devoto (razão pela qual seu interesse no Necronomicon é surpreendente). Alguns biógrafos assumem que o Dr. Dee censurou alguns trechos especialmente perturbadores do Liber Logaeth em um período em que ele manifestava dúvidas a respeito da tradução que estava realizando. Talvez ele imaginasse o perigo de traduzir esse conhecimento nefasto em outros idiomas. Seja como for, o fato de Dee ter realizado outras traduções demonstra que o fascínio dele pelo material superou suas considerações iniciais.


A conhecida versão do Necronomicon constante no acervo da Biblioteca da Universidade Miskatonic é a edição latina editada na Espanha. A Universidade acrescentou ao acervo uma edição em frangalhos do manuscrito de Dee que pertenceu ao falecido Wilbur Whateley e antes dele ao seu avô Noah "Feiticeiro" Whateley de Dunwich. O material foi combinado para que o Dr. Francis Morgan pudesse destilar a fórmula de Ibn Ghazi utilizada na ocasião do surgimento da criatura conhecida como Horror de Dunwich.

O trecho a seguir é uma compilação do texto a respeito da criação da Fórmula de Ibn Ghazi, também conhecida como Poeira de Ibn-Ghazi ou Pó de Revelação de Ibn-Ghazi. Ele tem como base várias fontes. Primeiro, uma cuidadosa reconstrução da versão árabe de Alkindi traduzida pelos Professores Venustiano Carranza, Sergio Basile e Giampero de Vero, a Cópia espanhola da Miskatonic, chamada de "Algazife", o manuscrito italiano que se encontra na Biblioteca do Vaticano traduzido por Pietro Pizzari, um manuscrito polonês com o título Necronomicon Czyli Księga Zmarłego Prawa editado por Krzysztofa Azarewicza, bem como a edição de Dee que pertenceu ao clã Whateley. Também foram consultadas duas versões do Liber Logaeth e trechos de fragmentos do Necronomicon latino que se encontra na Bibliotheque Nationale da França.

Entre as muitas questões que esse texto pode suscitar, é por qual razão o capítulo é identificado em algumas versões com o nome "Fórmula de Ib"? Seria essa uma antiga corruptela ou derivação do nome mais conhecido ao qual ele está associado, Ibn Ghazi? Ou seria uma menção à mítica cidade citada no Necronomicon, Sarnath, que foi obliterada da existência por um Destino que a visitou? Teria sido a poeira usada pela primeira vez em Ib, talvez para revelar a forma de seus habitantes não humanos? Ou seria esse apenas um erro inocente de tradução? Talvez a resposta esteja em alguma versão do Necronomicon que ainda não foi encontrada, quem sabe.

Um último conselho deve ser compartilhado com o leitor: Leia com cuidado e se abstenha de usar esse conhecimento, mas se o fizer, empregue todas as precauções necessárias.

O conteúdo do Necronomicon não deve jamais ser subestimado. Ele é, afinal, um livro extremamente perigoso e daninho. Seu conteúdo, ao longo das eras foi discutido e debatido sem que tenha se chegado a uma conclusão definitiva sobre a sua natureza perniciosa.


Proceda com extrema cautela.

 Para criar a Poeira de Ibn-Ghazi ou Poeira da Materialização de Ibn-Ghazi, que é a Fórmula de Ib

Eu sou o Escriba dos Antigos que foram, são e sempre haverão de ser indiferentes; eternos sejam os seus nomes secretos.

É desse modo que vós ireis obter a poeira com a qual o Grande Ibn-Ghazi - que ninguém tenha o fim que ele conjurou sobre si mesmo! -, fazia visível os Outros Deuses e os infames seres por Eles gerados e que habitam ocultos em meio a humanidade. Ela permite tornar visíveis aqueles que são invisíveis e imperceptíveis, ao menos até desejarem se tornar visíveis e perceptíveis para o terror do homem que os contempla.

Da forma correta de preparar a Poeira

No topo de uma ravina ou monte isolado tu deverás encontrar uma clareira onde nada reste senão o mais rude solo, no qual nada vivo cresça e nada consiga sobreviver. Marque bem: não deverá ser um local onde meramente a grama seja seca mas uma clareira destituída de vegetação, com tão somente solo, poeira, pedras e nada mais. Deve de ser um local em que pássaros, raposas e mesmo insetos pareçam evitar, um local estranho e silencioso que poderia ser confundido com o trono da morte.


Tenha ciência de que tais lugares, espalhados pelo mundo selvagem e primevo, são muito especiais. Retorne ao local escolhido na noite de Lua Nova. Se vosso espírito for capaz de assisti-lo, vós descobrireis que nessa clareira infértil, quase imperceptível nas trevas, emana do solo algo que parece ser um tênue vapor. Este será visível para olhos treinados, erguendo-se e produzindo uma leve inflexão esverdeada.

Tu deves saber que em tais localidades dormem, hibernam ou descansam os restos daqueles seres monstruosos gerados pelos Antigos, sepultados ao longo de eras fúlgidas. Tu já deves saber que tais criaturas embora enterradas não se encontram necessariamente mortas e que nada que pode sonhar para sempre, deve ser percebido como morto. Senta em meditação a dez passos do vapor que do solo impuro se ergue, voltado na direção do nascer do sol e observa com atenção a emanação. Mira em seu miasma, observa as formas que surgem e se desmancham, medita a respeito delas e não tema. Não fechai teus olhos, ainda que as imagens sugeridas pelo vapor sejam aterradoras e nauseantes, e mesmo que elas pareçam coalescer em algo que o vislumbre poderia roubar a razão de teu cérebro. Não fechai vossos olhos, não corra ou demonstre temor, pois este atiça a atenção dos que habitam o abismo. Meditai até o sol se por e pouco antes dele se erguer. Então, levante e sem olhar para trás se afaste com passos rápidos. Dessa forma, tu estabelecerá de maneira correta o elo com aquilo que repousa nas profundezas, que nem morto e nem vivo, perceberá tua presença sobre a clareira: com isso tu estabelecerá o direito de recorrer aos seus poderes.        

Três dias antes da Lua Nova, retorne à clareira após o por do sol trazendo consigo uma vela negra com os símbolos de Ardhamme desenhados na cera. Coloca-te na mesma posição de antes e acende a vela no chão diante de ti. Desenhe no ar o Símbolo de Yhrr, com a ponta do dedo sobre a vela acesa. 

Em seguida faça um corte em forma de cruz no seu braço esquerdo. Deixa o sangue escorrer por ele direto no chão e então recite as palavras da Fórmula de Ibn-Ghazi:


Meu próprio sangue vertido, dê poder a essa magia!
Espírito do Solo, fortaleça esse sangue!
Habitante das profundezas ouvi minha prece!
Que o solo temperado com seus vapores seja consagrado!


A medida que o sangue for absorvido pelo solo recite o Cântico de Aglaophotis em meditação e parta antes do amanhecer sem olhar para trás.

Retorne para a clareira na noite seguinte e com uma pá escave o torrão onde seu sangue foi absorvido pelo solo. Leva esse produto ao teu estúdio, coloque-o em um caldeirão de chumbo e deixe-o cozer por três dias acrescentando lascas de madeira de cipreste.

No terceiro dia apague o fogo e deixe-o esfriar. Tu deverás ter obtido uma fina poeira azul-acinzentada e sobre ela recite as palavras da Fórmula de Ibn-Ghazi:

A serviço do Impronunciável,
Poeira, eu te consagro
Antigos, cujos nomes secretos não ouso repetir,
Espíritos do material e do imaterial, abençoem essa poeira.

Reduza à poeira um osso humano que tenha sido limpo de carne há pelo menos dois séculos.

Com isso, tu terás produzido o primeiro e o segundo componentes da poeira de Ibn-Ghazi, com três partes do primeiro e uma parte do segundo misturados em um pilão, tu farás o terceiro componente.


Para completar a fórmula, use uma parte de Amarante, uma de sal finamente moído e uma de folhas de hera completamente secas e devidamente pulverizadas. Misture todos ingredientes em um pilão aberto, de preferência no dia e hora de Saturno, até que tudo esteja uniformemente granulado. Em seguida deposite o produto - uma poeira fina como grafite de cor cinza-azulada, em uma urna (de bronze ou chumbo) consagrada com os Símbolos de Ptha. Mantenha esta fechada com tecido ou lã, selando a tampa. Durante a noite, abra essa urna e sobre ela, faça o Símbolo de Voorish o que ajudará a mantê-la potente.

A eficiência da poeira não irá se manter além da quarta Lua Nova sucessiva a que ela foi criada.

Como usar a poeira

A Poeira de Ibn-Ghazi deverá permitir a vós observar as manifestações aéreas dos espíritos, a aparência das entidades de além das esferas, além de permitir revelar a presença furtiva de seres que nossa percepção é incapaz de detectar. Após um feitiço de invocação, ela compele Aqueles que são Chamados a mostrar a si mesmos.

Uma pequena pitada da poeira deve ser lançada com a mão esquerda na direção da Entidade ou Criatura cuja forma se deseja contemplar. Quando tu lançar mão dessa poeira, é importante se precaver contra ventos maliciosos que podem voltar a poeira para teus olhos. Esta produzirá danos a suas retinas e podem deixá-lo cego para sempre.

Ao atingir a forma imperceptível, a poeira irá aderir e coalescer de tal maneira que se espalhará até tornar a entidade ou criatura perceptível aos nossos sentidos.


É preciso compreender que a poeira revela a forma do imperceptível, tornando-o visível. Não é preciso alertar aos leitores que as Coisas de além das esferas assumem formas que são abomináveis aos olhos da humanidade e que o simples vislumbre de tais seres pode ser muito prejudicial à razão. Se não estás certo de que pretende ver com seus próprios olhos, não siga com esse intento. Esteja avisado, pois!


A forma afetada pela poeira ficará visível por 60 batidas de coração e começará a se desfazer logo em seguida tornando-se imperceptível findo esse prazo. Ele pode ser renovado por outro punhado devidamente aplicado.

Esta é a Fórmula de Ib, que foi recuperada por Hamurtash Ibn Ghazi em pessoa, constante no Testamento de Kish, traduzido em nosso idioma e aqui copiado por Abdul Alhazred para a ciência dos estudiosos.