quarta-feira, 1 de maio de 2024
Resenha de "Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft"
quarta-feira, 7 de setembro de 2022
O Pescador - Resenha do Romance de John Langan
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
Texto e Arte - Resenha de "O Chamado de Cthulhu" da Editora Darkside
"A Coisa mais misericórdia do mundo, penso eu, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo. vivemos numa ilha plácida de ignorância em meio a mares negros de infinitude e não somos destinados a ir muito longe. As ciências, cada uma delas se estendendo em sua própria direção, nos causaram pouco dano até o momento; mas algum dia, a reunião do conhecimento dissociado revelará paisagens tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição nela que ou enlouqueceremos com a revelação ou fugiremos da luz mortífera em direção à paz e segurança de uma nova era das trevas".
H.P. Lovecraft - O Chamado de Cthulhu
* * *
Nota: Para avaliar esse trabalho magistral, resolvi dividir a resenha em três partes: a primeira tratando do Texto de H.P. Lovecraft, a segunda da Arte de François Baranger e finalmente, na terceira tratando da convergência dos dois elementos na forma do livro 'O Chamado de Cthulhu".
O TEXTO
É com o parágrafo acima, transbordando pessimismo niilista que H.P. Lovecraft abre O Chamado de Cthulhu, um de seus contos mais famosos. Para muitos, Chamado está na lista dos melhores e mais influentes trabalhos do autor. Outros vão além: Chamado de Cthulhu estaria na lista dos melhores e mais influentes contos de horror do século XX, possivelmente da história. E eles não estão exagerando.
É provável que o próprio Lovecraft não soubesse que esse conto seria tão importante na sua bibliografia e que tornaria seu nome permanentemente associado à criatura que ele criou. De certa maneira, Lovecraft e Cthulhu se tornaram quase sinônimos: quando o nome de um é mencionado, quase que imediatamente o outro surge segundos depois. Criador e criatura com o passar do tempo ficaram quase indissociáveis.
Escrito ao longo do ano de 1926, e publicado pela primeira vez em fevereiro de 1928 na Revista Weird Tales, Chamado não conquistou imediatamente seu espaço, embora tenha atraído a atenção de outros autores que viram nele os méritos de uma história complexa e uma evolução nas bases para o que ficaria conhecido como Horror Cósmico. Talvez seja em O Chamado de Cthulhu que Lovecraft define pela primeira vez o que representa o panteão de seres que ele vinha trabalhando, não demônios, mas entidades alienígenas nascidas na vastidão do espaço. Ele também estabelece a importância cósmica dessas criaturas, seu poder esmagador e influência tóxica na história do planeta. Lovecraft trabalha o conceito de como a presença desses seres ancestrais ainda se faz presente, e como as emanações psíquicas desses horrores, no caso Cthulhu, são captadas pela humanidade. O toque de Cthulhu, seu Chamado, motiva a criação de cultos ao redor do mundo, seitas que veneram essa entidade com fanatismo bestial, oferecendo a Ele sacrifícios e pranteando o Seu retorno. O conto consolida a noção de que a proximidade do Mythos ocasiona alucinação, pavor e loucura, outra pedra angular do gênero.
Em resumo, alguns dos principais elementos que delineiam o Horror Cósmico são apresentados nesse conto de modo incrivelmente imaginativo e inovador.
Lovecraft contava que a inspiração para Chamado veio de um sonho que ele teve em 1919. Ele descreveu a experiência em duas cartas enviadas a seu colega de correspondência Rheinhart Kleiner em 21 de maio e 14 de dezembro de 1920. No sonho, Lovecraft via a si mesmo visitando um museu de antiguidades em Providence, tentando convencer um idoso curador a comprar uma estranha estatueta que o próprio Lovecraft havia esculpido. O curador inicialmente zomba dele por tentar vender algo feito recentemente para um museu de objetos antigos. Lovecraft então se lembra de responder ao curador que a peça era muitíssimo antiga e que ela havia sido esculpida à partir de seus próprios sonhos.
E Chamado talvez seja a semente disso tudo.
ARTE
Uma coisa curiosa é que por mais importante que seja, a obra de Lovecraft raramente foi objeto de imagens grandiosas capazes de evocar as cenas descritas nos textos rebuscados. Os primeiros livros do autor contavam com imagens pouco evocativas fosse na capa ou sobre o título, imagens discretas que entregavam pouco sobre as dimensões do horror ali contido. Talvez os ilustradores tentassem se manter fiéis ao princípio estabelecido pelo próprio Lovecraft de que as suas criaturas eram simplesmente indescritíveis e impossíveis de serem retratadas de forma fiel.
Os deuses, seres e monstros Lovecraftianos são contrários à própria ordem natural. Eles desafiam as convenções do que tratamos como convencional e corriqueiro. Eles são por definição absolutamente alienígenas e é isso que causa a loucura naqueles que vislumbram suas formas grotescas e contornos bizarros.
Não deve ser nada fácil trabalhar com essa premissa.
O artista que se propõe a ilustrar um Horror do Mythos parte do pressuposto que a coisa a ser retratada não é apenas estranha, ela é incompreensível. Algo que não pode ser decifrado pelos nossos sentidos pois não temos como compara-la a nada que conhecemos.
Poucos artistas seriam capazes de trabalhar o desafio de dar forma ao Caos do Mythos.
Entra em cena o conceituado artista francês François Baranger, conhecido ilustrador que tem no currículo o projeto conceitual de vários filmes e games de sucesso. Baranger é um fã de longa data de Lovecraft e de suas criaturas inomináveis, segundo ele, "fonte de inspirações e horrores de todo tipo".
Ele aceitou o desafio de invocar para o mundo real imagens dignas de pesadelo das criaturas lovecraftianas e materializá-las para a apreciação de nossos sentidos.
JUNTANDO TEXTO + ARTE
Entretanto, o uso mais genial de ilustração se ajustando ao texto é quando Beranger reproduz o trecho sobre uma matéria do Sydney Bulletin como se fosse uma página de jornal. Resultado nada menos que notável.
O conto original é reproduzido na íntegra e para os leitores que não conhecem esse clássico imortal do horror, imagino que esta talvez seja a melhor e mais acessível introdução ao Horror Cósmico. Se você quer apresentar Lovecraft e o Horror a um amigo ou conhecido, dê a ele esse livro de presente. Para aqueles que já foram introduzidos nesse universo, essa edição tem o mérito de ser uma das mais caprichadas e bonitas lançadas até hoje. Acredite, ela é praticamente um livro de centro de mesa.
A tradução do texto sob a responsabilidade de Ramon Mapa é competente, sem censurar ou atenuar o conteúdo original. Como deve ser! Na última página há uma Nota do Editor contextualizando a já exaustivamente debatida questão do racismo presente na obra de Lovecraft. A nota é esclarecedora, sem defender ou condenar, recorrendo a especialistas e estudiosos do autor para oferecer diferentes pontos de vista sobre a questão.
Em conclusão, "O Chamado de Cthulhu" é uma história inesquecível quase essencial para os fãs do Horror. As imagens de Baranger complementam cada linha de Lovecraft e expandem a percepção do leitor para além do que ele capta através das palavras, garantindo uma experiência inovadora mesmo para os que conhecem a história de trás para frente.
Essa edição vale muito à pena! Nos resta agora torcer para a Darkside traga também os dois volumes da novela "At the Mountains of Madness" projeto seguinte da dobradinha entre Lovecraft e Baranger.
Que venham outros!
"O Chamado de Cthulhu" ilustrado por François Baranger pode ser encontrado na loja online da Editora Darkside no link abaixo:
https://www.darksidebooks.com.br/o-chamado-de-cthulhu--brinde-exclusivo/p
quinta-feira, 29 de abril de 2021
BIBLIOTECA LOVECRAFTIANA - Terceira Semana
O HABITANTE DAS TREVAS
3/5 Tentáculos
SOLDIERS OF PEN AND INK
TALES OF THE CTHULHU MYTHOS
5/5 Tentáculos.
3,5/5 Tentáculos
4,5/5 Tentáculos.
Essa foi a segunda semana, fiquem conosco para as próximas.
Tem muita coisa esperando na fila.
sexta-feira, 14 de agosto de 2020
Território Lovecraft - Resenha do Livro de Matt Ruff
segunda-feira, 20 de julho de 2020
O Homem na Torre - Entrevista com Denílson da Editora Clock Tower
CATARSE - CLARK ASHTON SMITH
terça-feira, 26 de novembro de 2019
Revelando o Invisível - A mística Poeira de Ibn-Ghazi
O trecho a seguir é geralmente compreendido como um capítulo inteiro do infame livro de Abdul Alhazred. Entretanto, leitores com conhecimento não ficarão surpresos quando eu mencionar que, após consultar diferentes versões do Necronomicon, parte de seu conteúdo se mostra incrivelmente divergente, até mesmo contraditório em certos aspectos. Isso não é particular desse trabalho em especial, uma comparação semelhante de várias versões existentes da Clavícula de Salomão oferece resultados similares.
Escolhi o texto a seguir como um exemplo do problema encarado por muitos pesquisadores da Demonologia de Alhazred. Esta fórmula é particularmente famosa e encontrada em muitas, senão todas as versões do tomo, mas permanece o fato de que a versão mais conhecida pode ser achada na edição traduzida pelo célebre Dr. John Dee. Há versões publicadas por Hay, Wilson, Turner entre outros que também são conhecidas, mas o leitor deve ter em mente que a versão de Dee é um exemplo da longa obsessão do Dr. Dee pelo Necronomicon e tudo que ele representa. Ao longo dos anos, o Mago da Corte Elizabetana e conceituado estudioso reuniu trechos fragmentados e páginas perdidas do Necronomicon em vários idiomas, trabalhando sobre esse material de maneira febril para destilar delas a versão mais completa do texto original.
Lin Carter (1930-1988) obteve o manuscrito original do Dr. Dee na década de 1950, e deu início a um laborioso trabalho de tradução que foi publicado em fascículos - de 1971 até 1978, mas que resultaram em uma transcrição truncada e incompleta da maioria dos rituais. O executor literário de Carter, Robert M. Price publicou a transcrição do material de Carter em 1990, em um diário acadêmico de pequena circulação.
O Liber Logaeth, tido como o manuscrito incompleto do Necronomicon circulou pela Inglaterra do século XVI, sendo eventualmente publicado em uma versão expurgada em Bristol. Esta edição menor se tornou bastante popular no século XVIII e XIX, ganhando círculos ocultistas e acadêmicos, ainda que os verdadeiros pesquisadores reconheçam que ela era largamente inferior. Nessa tradução, trechos inteiros foram cortados ou omitidos, supostamente em face das crenças religiosas de Dee, um cristão devoto (razão pela qual seu interesse no Necronomicon é surpreendente). Alguns biógrafos assumem que o Dr. Dee censurou alguns trechos especialmente perturbadores do Liber Logaeth em um período em que ele manifestava dúvidas a respeito da tradução que estava realizando. Talvez ele imaginasse o perigo de traduzir esse conhecimento nefasto em outros idiomas. Seja como for, o fato de Dee ter realizado outras traduções demonstra que o fascínio dele pelo material superou suas considerações iniciais.
A conhecida versão do Necronomicon constante no acervo da Biblioteca da Universidade Miskatonic é a edição latina editada na Espanha. A Universidade acrescentou ao acervo uma edição em frangalhos do manuscrito de Dee que pertenceu ao falecido Wilbur Whateley e antes dele ao seu avô Noah "Feiticeiro" Whateley de Dunwich. O material foi combinado para que o Dr. Francis Morgan pudesse destilar a fórmula de Ibn Ghazi utilizada na ocasião do surgimento da criatura conhecida como Horror de Dunwich.
O trecho a seguir é uma compilação do texto a respeito da criação da Fórmula de Ibn Ghazi, também conhecida como Poeira de Ibn-Ghazi ou Pó de Revelação de Ibn-Ghazi. Ele tem como base várias fontes. Primeiro, uma cuidadosa reconstrução da versão árabe de Alkindi traduzida pelos Professores Venustiano Carranza, Sergio Basile e Giampero de Vero, a Cópia espanhola da Miskatonic, chamada de "Algazife", o manuscrito italiano que se encontra na Biblioteca do Vaticano traduzido por Pietro Pizzari, um manuscrito polonês com o título Necronomicon Czyli Księga Zmarłego Prawa editado por Krzysztofa Azarewicza, bem como a edição de Dee que pertenceu ao clã Whateley. Também foram consultadas duas versões do Liber Logaeth e trechos de fragmentos do Necronomicon latino que se encontra na Bibliotheque Nationale da França.
Um último conselho deve ser compartilhado com o leitor: Leia com cuidado e se abstenha de usar esse conhecimento, mas se o fizer, empregue todas as precauções necessárias.
O conteúdo do Necronomicon não deve jamais ser subestimado. Ele é, afinal, um livro extremamente perigoso e daninho. Seu conteúdo, ao longo das eras foi discutido e debatido sem que tenha se chegado a uma conclusão definitiva sobre a sua natureza perniciosa.
Proceda com extrema cautela.
Da forma correta de preparar a Poeira
No topo de uma ravina ou monte isolado tu deverás encontrar uma clareira onde nada reste senão o mais rude solo, no qual nada vivo cresça e nada consiga sobreviver. Marque bem: não deverá ser um local onde meramente a grama seja seca mas uma clareira destituída de vegetação, com tão somente solo, poeira, pedras e nada mais. Deve de ser um local em que pássaros, raposas e mesmo insetos pareçam evitar, um local estranho e silencioso que poderia ser confundido com o trono da morte.
Tenha ciência de que tais lugares, espalhados pelo mundo selvagem e primevo, são muito especiais. Retorne ao local escolhido na noite de Lua Nova. Se vosso espírito for capaz de assisti-lo, vós descobrireis que nessa clareira infértil, quase imperceptível nas trevas, emana do solo algo que parece ser um tênue vapor. Este será visível para olhos treinados, erguendo-se e produzindo uma leve inflexão esverdeada.
Tu deves saber que em tais localidades dormem, hibernam ou descansam os restos daqueles seres monstruosos gerados pelos Antigos, sepultados ao longo de eras fúlgidas. Tu já deves saber que tais criaturas embora enterradas não se encontram necessariamente mortas e que nada que pode sonhar para sempre, deve ser percebido como morto. Senta em meditação a dez passos do vapor que do solo impuro se ergue, voltado na direção do nascer do sol e observa com atenção a emanação. Mira em seu miasma, observa as formas que surgem e se desmancham, medita a respeito delas e não tema. Não fechai teus olhos, ainda que as imagens sugeridas pelo vapor sejam aterradoras e nauseantes, e mesmo que elas pareçam coalescer em algo que o vislumbre poderia roubar a razão de teu cérebro. Não fechai vossos olhos, não corra ou demonstre temor, pois este atiça a atenção dos que habitam o abismo. Meditai até o sol se por e pouco antes dele se erguer. Então, levante e sem olhar para trás se afaste com passos rápidos. Dessa forma, tu estabelecerá de maneira correta o elo com aquilo que repousa nas profundezas, que nem morto e nem vivo, perceberá tua presença sobre a clareira: com isso tu estabelecerá o direito de recorrer aos seus poderes.
A medida que o sangue for absorvido pelo solo recite o Cântico de Aglaophotis em meditação e parta antes do amanhecer sem olhar para trás.
Retorne para a clareira na noite seguinte e com uma pá escave o torrão onde seu sangue foi absorvido pelo solo. Leva esse produto ao teu estúdio, coloque-o em um caldeirão de chumbo e deixe-o cozer por três dias acrescentando lascas de madeira de cipreste.
No terceiro dia apague o fogo e deixe-o esfriar. Tu deverás ter obtido uma fina poeira azul-acinzentada e sobre ela recite as palavras da Fórmula de Ibn-Ghazi:
Reduza à poeira um osso humano que tenha sido limpo de carne há pelo menos dois séculos.
A eficiência da poeira não irá se manter além da quarta Lua Nova sucessiva a que ela foi criada.
Uma pequena pitada da poeira deve ser lançada com a mão esquerda na direção da Entidade ou Criatura cuja forma se deseja contemplar. Quando tu lançar mão dessa poeira, é importante se precaver contra ventos maliciosos que podem voltar a poeira para teus olhos. Esta produzirá danos a suas retinas e podem deixá-lo cego para sempre.
Ao atingir a forma imperceptível, a poeira irá aderir e coalescer de tal maneira que se espalhará até tornar a entidade ou criatura perceptível aos nossos sentidos.
É preciso compreender que a poeira revela a forma do imperceptível, tornando-o visível. Não é preciso alertar aos leitores que as Coisas de além das esferas assumem formas que são abomináveis aos olhos da humanidade e que o simples vislumbre de tais seres pode ser muito prejudicial à razão. Se não estás certo de que pretende ver com seus próprios olhos, não siga com esse intento. Esteja avisado, pois!
Esta é a Fórmula de Ib, que foi recuperada por Hamurtash Ibn Ghazi em pessoa, constante no Testamento de Kish, traduzido em nosso idioma e aqui copiado por Abdul Alhazred para a ciência dos estudiosos.






































