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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Páginas do Diário - Notas da Campanha Horror on the Orient Express


Não tem muito tempo, escrevi um artigo a respeito de Diários de Campanha em RPG. Quem não leu pode acessar através do link.

Por motivos aleatórios, acabei esquecendo de postar o complemento dele que trata de meu diário mais antigo.

Trata-se do meu diário da Campanha "Horror on the Orient Express", escrito em 1994-95, quando eu joguei a tal campanha uma das mais saudosas lembranças da minha "carreira de jogador de RPG".

Caras, esse é de longe meu caderno de notas de campanha mais querido. Por muitos anos ele ficou no fundo de um armário e eu até achei que o tivesse perdido para sempre - talvez o tivesse deixado na casa de alguém ou jogado fora por acidente. 

Mas nada como uma mudança para encontrar nossas relíquias mais antigas...

Nem vou comentar a felicidade de quando encontrei o velho Diário de Lady Helen Marie Hutchington, Condessa de Olenska, sobrevivente da fatídica jornada do Oriente Express a Constantinopla (e volta), Investigadora Notável do Clube Hades para Damas e Cavalheiros.

Ao longo de cerca de 300 (!!!!) páginas está a história de nossa campanha narrada de maneira romanceada em primeira pessoa como se fossem as memórias da personagem - um marco do roleplay que só era viável numa época em que a gente tinha tempo e disposição para essas loucuras...

O mais legal é que além do diário em si, encontrei dentro dele uma série de props da campanha, cartas simulando correspondência e material usado durante as sessões de jogo.

Material muito bacana que merece ser postado num artigo com fotos.

Então, sem mais delongas...


Por fora, o diário não é grandes coisas...

Eu usei uma dessas agendas antigas e funcionou bem. 

Lady Olenska era baseada na atriz Grace Kelly, não apenas por que eu adorava a atriz e por que ela tinha APP 17, mas por que de alguma forma tinha tudo à ver usar a imagem dela para a personagem.

Se não me engano, tinha mais algumas imagens dela pré-internet, mas não achei essas dentro do diário, uma pena...

Se não me engano, ainda tenho a ficha em algum lugar numa pasta.

Antes que perguntem, sim, as páginas foram envelhecidas com suco de limão (ou borra de café, não lembro direito). Nem todo o diário recebeu esse tratamento, acho que lá pelas tantas a tinta começou a ficar borrada e para não perder o que havia escrito resolvi deixar para envelhecer as páginas em outra ocasião - o que nunca aconteceu.

Mas deu um efeito bem legal!


Lembro quando eu era moleque de ter levado o "diário" para algum lugar e ter aberto ele no ônibus. 

Uma senhora sentada ao meu lado esticava o olho cheia de curiosidade sempre que eu virava uma página para olhar o que estava escrito. Lá pelas tantas ela não se conteve e perguntou: 

"Esse livro aí é muito antigo, meu filho?"

E eu prevendo a pergunta já tinha até ensaiado o que dizer:

"É um diário de uma parente dos anos 20, minha bis-avó".

Ao que a Senhora com um ar pensativo respondeu:

"Nossa, estou vendo! O lugar disso era num museu, as páginas estão até amareladas."

Bom, se passou por autêntico, fico feliz. 😉

Outro detalhe interessante a respeito do Diário é que ele foi usado como prop no jogo.

Quando um personagem/jogador novo entrou na metade da campanha, a maneira como ele tomou conhecimento dos acontecimentos do jogo até então, foi lendo o diário. Ele não sabia de nada a respeito dos cenários e foi muito legal ter uma aventura só para contar os detalhes do que estava escrito no diário.

Alguns handouts que ficaram comigo foram colados nas páginas para servir como referência dos acontecimentos da aventura.

O diário foi bem útil para ajudar na investigação e nos detalhes, sobretudo, por que a campanha é longa e há muitos detalhes que podem passar desapercebidos.

Essas daqui são algumas das cartas e da correspondência trocada entre os jogadores. Isso sobreviveu porque estava dentro do diário, inclusive o "passaporte britânico" que eu fiz para minha personagem.

Essa carta com selo chegou ao cúmulo de ter um selo postal emitido pelo Império Austro-Húngaro (tá bom confesso, eu tinha coleção de selos!) já que ela havia sido despachada pelos correios daquele país.

O selo era o sinal universal de "mensagem secreta", já que ele havia sido colado de cabeça para baixo! Os jogadores fizeram um teste para descobrir que havia uma mensagem secreta na carta e depois de muito procurar encontraram a mensagem no lado esquerdo inferior da folha de papel.

Escrita com suco de limão, a mensagem poderia ser lida depois de aproximar a borda de uma fonte de calor, no caso, uma vela.  

É... eu tinha visto, "O Nome da Rosa' e queria testar para ver se funcionava! E surpresa, funcionou!


Essa aqui era a carta com "Últimos desejos e Vontades" para o caso da personagem não sobreviver até o final da campanha.



















Como metade do grupo já havia morrido, enlouquecido ou pior, nada mais justo do que a personagem relacionar o que deveria ser feito em caso de morte, loucura, ou pior dos que haviam restado...
A carta final continha uma espécie de testamento da personagem com alguns pedidos e instruções para um segundo grupo intervir caso eles não conseguissem sucesso em frustrar os planos do Culto do Skinless One.


No melhor estilo Lovecraftiano, a personagem se despedia de uma maneira muito dramática - a essa altura a sanidade já estava baixa e parecia que não ia dar para completar a viagem.

Mas ela acabou sendo um dos (poucos) sobreviventes da campanha.

Bom é isso!

O Diário de um dos meus personagens favoritos.

*     *     *

Caras, enquanto estava escrevendo essa postagem encontrei essa página com a oferta de um Diário artesanal para ser usado em Call of Cthulhu.

Minha nossa, que coisa linda!

Detalhes: Tamanho do Diário 16 x 13 cm ~ espessura de 5 cm ~ com detalhes em relevo dourado, costurado e encadernado à mão com couro italiano curtido ~ 480 páginas de papel envelhecido gramatura 100 ~ Margem com desenhos e epígrafe com frases extraídas da obra de H.P. Lovecraft.

Ao custo de (ai, ai), US$ 75,00, mas chega a doer de tão maneiro!



sexta-feira, 6 de maio de 2016

Como a Chaosium quase implodiu a si mesma - Do desastre ao renascimento.



Do blog Geek and Sundry
Por Ben Riggs

Como pode um Financiamento Coletivo de meio milhão de dólares falhar? E por que outra companhia iria querer assumir o problema alheio e gastar seis dígitos para erguê-la dos mortos?

A Chaosium Inc é um dos grandes medalhões da Indústria dos Role Playing Games. A companhia foi fundada em 1975 pelo designer de jogos Greg Stafford, criador da ambientação Glorantha e do RPG Pendragon. A companhia se tornou muito conhecida por publicar o seminal RPG de Horror, Call of Cthulhu que é baseado nos trabalhos de H.P. Lovecraft. Embora jamais tenha sido uma gigante em tamanho, a Chaosium estabeleceu uma grande base de fãs devotos.

Então, quando a Chaosium iniciou um Financiamento Coletivo para a sétima edição de Call of Cthulhu em 2013, ela se saiu muito bem, arrecadando US$ 500,000 com milhares de apoiadores. A campanha superou as metas estabelecidas e conquistou inúmeras recompensas oferecidas, que demandariam a criação de outros quatro livros. Fãs do jogo e de horrores não-euclidianos em geral, uivaram em êxtase, por terem contribuído para a criação de um belo jogo e ansiosos por colocar suas garras em volumes que sem dúvida abalariam sua sanidade. Esse era o segundo Financiamento Coletivo da Chaosium a atingir seis dígitos de lucro, o anterior, a campanha Horror on the Orient Express já havia levantado US$ 207,804, um ano antes. 

A expectativa de entrega do livro era outubro de 2013, um prazo que chegou e passou. Uma nova data foi anunciada, que também chegou e passou. Os arquivos em PDF dos Livros Básicos foram entregues em 2014, e muitas promessas foram feitas a respeito da impressão e envio.

Em março de 2015, quase dois anos depois do início da campanha, apoiadores receberam a notícia, "Seguindo nosso último anúncio, a editora contratada recebeu os arquivos finais e iniciou o processo de impressão. Nós esperamos receber nossas provas dentro no prazo acordado".

O problema é que esse anúncio também era falso. Arquivos foram enviados para impressão, mas infelizmente, sem os fundos necessários para pagar o trabalho.

Em 2 de junho de 2015, a Chaosium anunciou que seu fundador Greg Stafford havia retornado a companhia como Presidente. Seu companheiro Sandy Petersen, o idealizador original do RPG Call of Cthulhu, retornou com ele, e a dupla assumiu que a entrega do material do Financiamento Coletivo seria sua prioridade. Quando Stafford e Petersen retornaram, encontraram na conta bancária da Chaosium menos de US$ 10.000.

PARA ONDE FOI O DINHEIRO?

Como pode uma companhia que arrecadou 750,000 em Financiamentos coletivos em dois anos pode ter tão pouco em sua conta bancária? 

Em uma extensiva entrevista concedida por e-mail, a  nova direção da Chaosium e o atual presidente, Rick Meints relataram uma estória de má gestão, estratégia de negócios fraca e práticas quase anti-éticas por parte da administração anterior.

Os problemas se iniciaram com o Financiamento de Horror on the Orient Express. A administração anterior estabeleceu a cobrança de apenas US$ 20 para enviar uma caixa pesando cinco quilos a apoiadores internacionais. O custo para postagem de um pacote desse tamanho é muito alto, algumas vezes podendo chegar a US$ 150 para apoiadores residentes do Japão. Meints explicou que apenas nesse Financiamento a Chaosium perdeu US$ 170.000. Quando Greg Stafford retomou a companhia, ainda haviam vários apoiadores que ainda não haviam recebido seus produtos. 

O Financiamento da sétima ediçãod e Call of Cthulhu continuou com esses problemas. O Financiamento comprometeu a Chaosium com a obrigação de produzir OITO livros, bem como quatro baralhos de cartas e um CD. Além disso, esses produtos precisavam ser enviados para apoiadores em todo mundo. Horror on the Orient Express também voltou para assombrar a companhia. Ele foi oferecido como um add-on para os apoiadores da sétima edição, que podiam adquirir uma cópia por meros US$ 65 (o produto se encontra à venda na página da Chaosium por US$ 119,95!) e PIOR a editora cobraria apenas 1 dólar pelo envio. O Financiamento acumulou meio milhão de dólares, mas quando confrontado com a quantidade de itens oferecidos e o custo de envio, ele não se mostrou muito.

A magnitude do erro pode ser compreendida simplesmente avaliando o custo de envio. No nível "Nictitating Nyarlathotep" o apoiador deveria receber oito livros. Os apoiadores internacionais teriam de desembolsar US$ 355 por todo material e mais o envio, o que parece muito, até você considerar que é apenas US$ 15 a mais do que os apoiadores americanos teriam de pagar por uma entrega nacional. A noção de enviar oito livros para o Japão e cobrar apenas US$ 15 é uma loucura que nem mesmo Lovecraft seria capaz de conceber.

Meints disse que dezenas de milhares de dólares tiveram de ser gastos com layout, arte, testo e edição dos livros. Além disso, Chaosium ficava em Hayward, um subúrbio de San Francisco. O custo de manter um depósito e escritório nesse local também drenava os fundos obtidos.

Chaosium ficou devendo os salários de artistas, editores e autores. A nova administração descobriu que mais de cem envolvidos na produção não haviam sido pagos pela Chaosium, e mais grave, haviam pessoas que estavam esperando a mais de uma década para receber por trabalhos anteriores.

Quando Stafford retornou para a companhia em junho de 2015, ele encontrou a companhia com pouco dinheiro, com várias obrigações contratuais pendentes e parecia não haver nenhuma forma de cumprimento. Stafford havia construído a Chaosium. Será que ele também teria de enterrá-la?


AS ESTRELAS SE ALINHAM PARA A CHAOSIUM

Em agosto, Stafford anunciou que a premiada equipe da Editora Moon Design assumiria a administração da Chaosium. A equipe Moon Design lidou com a crise de uma maneira ousada e honorável: eles injetaram dinheiro na empresa. 

A Moon Design investiu seis dígitos de seu próprio bolso para que a sétima edição de Call of Cthulhu fosse impresso e entregue aos apoiadores. Meints estima que até todos os apoiadores receberem suas recompensas, a companhia terá gasto mais de US 100,000 apenas em despesas de envio.

Depois de muito tempo, a editora foi paga e os livros impressos.

Fãs ansiosos usando a hashtag #ShipsofCthulhu rastrearam os navios que transportam os tão aguardados volumes desde seu porto de origem até seu destino final, tirando fotos e acompanhando através das redes sociais.

O Vice-Presidente Michael O'Brien disse, "A resposta dos fãs da Chaosium foi esmagadoramente positiva - mesmo aqueles que já estavam fartos de esperar".

Moon Design trouxe o editor James Lowder. Lowder, que é conhecido por aquilo que Meints chamou de "forte defesa dos criadores", tornou-se consultor editorial para a linha de ficção e imediatamente começou a liquidar as dívidas com autores e artistas.  

Lowder contou a respeito da situação, "Em situações semelhantes editores simplemsente foram embora e esqueceram suas obrigações, Greg, Sandy e a nova administração da Chaosium fizeram a coisa certa para sua equipe, para os apoiadores que tanto esperaram após o Financiamento, um grupo no qual eu mesmo estou incluído. Eles me trouxeram aqui como consultor para ajudar a identificar os débitos e pagar o que é devido. É exatamente isso que estamos fazendo. Eu fico orgulhoso de fazer parte desse esforço".

Matthew Sanderson, um escritor que trabalhou para a antiga administração e agora para a Moon Design, disse que a nova equipe se mostra muito mais comunicativa. Ele acrescentou, "Ele stem sido ótimos (em pessoa e por email) sempre que tenho d elidar com eles".

Chaosium parece estar tentando se erguer do chão, como um feiticeiro Lovecraftiano invocado pelos sais essenciais. Um Financiamento do clássico RPG RuneQuest financiado com sucesso em janeiro, e recompensas de apoiadores já foram impressas e estão prontas para o envio dentro de três meses, o que, com certeza aumentará a confiança na administração da Moon Design.

Entretanto, uma questão permanece pairando. Por que a Moon Design Productions investiria uma quantia considerável de tempo e dinheiro em revitalizar uma companhia que se enterrou num Financiamento?


PAGANDO SEUS DÉBITOS

O Presidente Rick Meints explicou suas ações dizendo, "[Nós] decidimos ajudar a salvar a Chaosium por diferentes motivos. Nós quatro crescemos com a companhia e amamos seus jogos há décadas. Nós também vemos isso como um investimento de longo prazo que pode dar retorno com o devido trabalho. O mundo dos jogos de mesa fica bem mais rico com a Chaosium existindo, e nós estamos orgulhosos de ajudar a garantir que ela continue". 

CFO Neil Robinson explicou que o sucesso da Chaosium é uma questão pessoal para a Moon Design. Ele contou, "Nós quatro nunca teríamos nos encontrado sem RuneQuest, o primeiro RPG da Chaosium… [quando] nos conhecemos, nós estávamos vivendo em quatro países diferentes, em três continentes".

E assim, a Chaosium, sob uma nova administração, continua em família.

Agradecimentos a equipe da Chaosium/Moon Design. Sem a sua transparência, esse artigo não seria possível.

*          *          *

Ainda é cedo para dizer se as coisas vão se arrumar... não é o momento de comemorar ainda.

Francamente eu já estive mais preocupado, afinal fiz um bom investimento nesse Financiamento Coletivo e já estava achando que no final das contas ficaria chupando o dedo sem meus livros. Mas quando lembro da via crucis que foi receber meu Horror on the Orient Express, chego a ter arrepios... se não me engano fui um dos últimos aqui no Brasil a receber a caixa e tive que bombardear a Chaosium com e-mails toda quinta feira para ver se eles me respondiam e enviavam o produto que eu paguei para ter.

No fim, acho que só recebi meus livros por que enviei quarenta e sete mensagens (sim, eu contei!) até eles finalmente enviarem minha caixa através de um Priority Express Mail ao custo de US$ 85. Mesmo assim, fiquei sem meus dados e sem meu shield exclusivos da campanha que eles "esqueceram de enviar" e que "infelizmente não dispomos mais".

Saber das trapalhadas que a antiga direção da Chaosium cometeu me faz pensar que certas companhias não tem a menor ideia do que é agir com profissionalismo. E infelizmente isso é tão verdade aqui no Brasil, quanto lá fora. Mas há pessoas e pessoas... algumas fazem o possível para cumprir suas obrigações e lutam para entregar o acordado por vezes colocando a cara à tapa e levando prejuízo outras não estão nem aí.

Agora com a Moon Designs *parece* que as coisas estão voltando aos trilhos e que a companhia está em boas mãos...

Eu digo "parece" por que só vou respirar aliviado quando e (não queria escrever, mas lá vai), se o meu pedido chegar. Até lá vou continuar com um pé atrás, cruzando os dedos e rezando aos antigos pelo melhor.

Eu já disse anteriormente que nunca mais participaria de um Financiamento Coletivo organizado pela Chaosium, espero que eles consigam fazer com que eu mude de opinião e volte atrás nessa decisão.

Mas até isso acontecer, vão ter que rebolar e fazer um trabalho de primeira.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O Horror que veio com minha Caixa de Orient Express


Quinta feira, 10 de setembro de XX

Uma das maiores bençãos do mundo, creio eu, é a incapacidade que tem a mente humana de correlacionar todos os acontecimentos. A inaptidão de reconhecer causa e efeito entre elementos aparentemente discordantes e suas implicações. Se por ventura compreendidos em sua plenitude, essas ocorrências terminariam por nos levar urrando para a aparente segurança das cavernas mais profundas.

Tome por exemplo o que ocorreu dias atrás quando o imponderável teve lugar.

Era um dia como qualquer outro e como tal transcorreu, sem eventos até o momento fatídico do fim de tarde, quando uma presença se anunciou nos umbrais de minha morada: 

"Tem uma caixa grande aqui com seu nome. Pode vir apanhá-la?" vociferou uma voz gutural, destituída de face através do portão.

Eu realmente nem pensei muito a respeito, não esperava nada de importante.

De fato, a essa altura, toda esperança parecia ter esvanecido como as folhas de uma primavera longínqua. No meu entender, aquilo que eu aguardava já há três anos - sim, já faziam três longos anos, jamais chegaria por intermédio dos trâmites convencionais. Em meu desalento, já havia ido às raias da loucura, contatado os Antigos e quando mesmo eles não deram solução aos meus insistentes apelos, desisti. Havia tentado sacrifícios, promessas, suborno, coisas vis das quais, não me orgulho... tudo em vão. Sem êxito, me sentia colérico, traído e frustrado. Além disso, havia o temor de que conquanto chegasse, aquilo que eu tanto desejava, provavelmente seria interceptado e onerado implacavelmente pela ganânica dos homens, e eu teria que pagar com sangue ou minha própria alma para que fosse liberado dos trâmites viciados do sistema.

Como em um delírio onírico me dirigi para receber a tal encomenda tendo em mente que podia ser qualquer bugiganga frívola. Podia nem ser algo para minha pessoa, como não raro ocorre. Fosse lá o que fosse, não parecia ter muita importância, e logo, minha atenção foi desviada para outra ocorrência mais premente. Ao atentar para o alto, me deparei com um céu plúmbico, com nuvens escuras e carregadas que se avolumavam no horizonte e na abóboda celeste, sinalizando com uma tempestade que aprochegava. Sem aviso, sem alarde até então, escapara de meus sentidos por completo ou do nada se formara. Parei por um momento, percebendo a aproximação do temporal, captando a densa umidade no ar que me envolvia como um manto etéreo. Um trovão então rugiu ao longe: a água não tardaria a cair, pensei entrementes. Cães ladravam pela vizinhança e as pessoas comuns, o populacho ignóbil e as massas sujas, corriam para o refúgio de suas casas. Um vento tépido soprou, sabe lá de onde, e me roubou do estupor momentâneo. 


Dei de ombros e prossegui. Ao chegar ao meu destino, um dos rapazes que auxilia no portão, observou com uma expressão bovina, meio indolente e sinalizou para que eu fosse retirar o pacote com meu nome. Sem muito interesse quando perguntei onde estava, ele apontou distraído com o queixo:

"Ali em cima! É bem pesado..."

Meus olhos correram para o outro extremo da sala e nesse ínterim, dei conta de que poderia ter ocorrido um milagre, que poderia ser a encomenda que eu aguardava ansiosamente há tanto tempo, pela qual cansei de pedir e pela qual acendi velas e proferi votos caso um dia chegasse às minhas mãos. Teriam os esguios Nightgaunts ou os quiméricos Byakhee feito o translado desse fardo? Teria ele atravessado o véu entre os espaços, por intermédio do Portão e da Chave? Teria ele, sido depositado sobre a bancada onde ora repousava, por um dos Andarilhos Dimensionais que vagam manquitolando pelas sendas enevoadas? Como? Quando? 

Antes de ver o pacote, senti meus nervos tensionando. A boca seca de antecipação, as palmas das mãos suadas e escorregadias... um arrepio elétrico correu pelas minhas costas, terminando no meio da minha nuca, como um fragmento de gelo derretido... O pulsar nas minhas têmporas eram tamboros frenéticos. Sim, eu já sabia o que iria encontrar e antes de compreender as implicações daquilo, um sorriso jubiloso já se desenhava na minha face tomada momentaneamente de um devaneio angustiante, misto de desvairio e insânia.

"Sim! Deuses e Demônios do Céu e da Terra! Finalmente chegou! Só pode ser ele!" pensei - ou ao menos acho que pensei, pois o sujeito, me olhou com uma expressão peculiar, percebendo que eu estava parado contemplando por tempo demais a caixa sobre a tampa. Repleta de carimbos e estampas de terras distantes pelas quais viajou, manipulada por tantas pessoas insuspeitas de seu conteúdo profano.

Eu a apanhei com mãos trêmulas, incapaz de responder aos detalhes do translado e questões pendentes, que o rapaz propunha. Apanhei a caixa, sentindo o peso considerável, acautelado quando o conteúdo moveu de um lado para o outro em seu interior: "O Caos está aqui dentro, em verdade, só pode ser!" ponderei em um sussurro, no qual eu era o único interlocutor em toda Terra.

Retornei a passos céleres, meio trôpego como um ébrio delirante, sem reparar que as primeiras gotas da chuva já se precipitavam do céu cinzento. Ao chegar em casa, coloquei a chave na fechadura e no momento que girei, não foi o estalo metálico do ferrolho que ouvi, mas um trovão crepitante à distância. Prenúncio de uma magnífica borrasca com certeza, mas que diabos, que um aluvião lavasse a terra se preciso, pois nada disso importava...

Enquanto me dirigia para o interior claustrofóbico equilibrando o pesado fardo, acendi as luzes ansioso por abrir o pacote e remover de dentro seu conteúdo blasfemo. Mas então, do nada, um novo rugido irrompeu do lado de fora e súbito, as luzes apagaram, deixando a sala imersa em escuridão tão indevassável que as sombras formavam uma muralha negra que por um instante pareceu viva e pulsante. A total treva se apoderou do aposento e nublou meus sentidos por inteiro.

As luzes se apagaram, mas ainda assim eu tencionava seguir com meu plano. Eu precisava inspecionar o quanto antes, o conteúdo da caixa e precisava tomar ciência do que havia chegado.

Corri para o lado de fora com um abridor de cartas na mão e a caixa - a amaldiçoada caixa, nos braços. "Não hão me deter! Não irão!" gritei em represália aos trovões furiosos.


A noite já chegara, com uma obscuração atípica e uma ventania insistente que fazia a copa das árvores se agitar de lado a lado. Ao redor estava tudo embotado e o céu reclamava, formando um funil nebuloso bem acima do telhado em água furtada de minha casa. Uma cascata corria em profusão, caudalosa e rumorosa. Decidido em um átino frenético, rompi os lacres que cerravam a caixa, prometendo que nada iria me deter. Abri a tampa e como um cirurgião experiente removi do interior o conteúdo, colocando de lado, como se realizasse uma cerimoniosa necrópsia, na qual extirpava vários órgãos gotejantes.

A chuva à essa hora, já desancava a cair com pingos pesados que como previ, lavaram a rua furiosamente por horas levando aquela gente a rezar por seu cessar. O negrume era total de modo que foi apenas sob a luz tênue de velas, que vislumbrei os tomos repletos de horror que brotavam de dentro do pacote. O luzir tremeluzente da chama revelou as páginas cobertas de palavras eivadas com maus agouros e promessas de maravilhas proibidas. Eu as li com cuidado, dando graças aos Grandes Antigos pela sua benção, descrita naquelas páginas repletas de erudição atávica que eu cheguei a supor, nessa vida, jamais haveria de folhear.

Imerso naquele estupor contemplativo comecei a perscrutar o conteúdo e não me dei conta do passar do tempo, pois o que é tempo para aquele que sorve a doce seiva do saber proibido? 

Foi só muito mais tarde... após aquele verdadeiro dilúvio amainar e diminuir em seu ímpeto, depois dos trovões e ventania cessarem por completo e da luz afinal retornar, que despertei de meu transe. Só então, dei conta que já ia longe a madrugada. Havia lido sem parar por horas como evidenciava a vela já quase inteiramente consumida disposta sobre a mesa.

Não sei e provavelmente eu jamais venha a saber das invocações ignotas que recitei enquanto lia furiosamente as páginas. Meus olhos ardiam, minha boca tinha gosto metálico e a ponta dos meus dedos estavam gastas pelo ato contínuo de virar páginas. Talvez ilhas pútridas e medonhas tenham se erguido n'algum oceano insondável, talvez portais tenham se escancarado em algum pântano ermo iluminado pela lua gibosa, quem sabe uma janela tenha se formado e através dela algo observou avidamente nossa realidade. Quem pode dizer ao certo o que se deu quando a leitura terminou. Resta apenas imaginar o que foi desencadeado, e o árduo exercício da meditação concernente ao corrido, me enche de temor, ainda que todavia eu saiba, de modo alguma procederia de outra maneira.

Agora mesmo, enquanto rabisco esse registro tacanho, ela repousa sobre a tampa maciça da minha escrivaninha nos recônditos de meu santuário; a própria matéria dos pesadelos em forma de um tomo volumoso. Eu ouço enquanto ele sussurra promessas metafísicas, aguardando meu retorno para uma nova leitura. 

Com certeza, não terá de esperar demasiadamente...

*     *     * 

E foi assim que minha caixa de Horror on the Orient Express chegou.


À saber, leitor descrente que aponta o dedo acusando-me de descalabrio exagero, que vários fatos aqui relatados são perfeitamente verídicos.

Meu estado mental deplorável, agravado pela longa espera é fato, como podem corroborar vários de meus queridos amigos. Os pilares de minha sanidade há muito já haviam ruído e eu repetia quase como um mantra que jamais veria o referido livro.

A descrição do que ocorreu após a chegada da caixa também é factual. A tempestade monumental, os raios e trovões, a queda de luz na vizinhança, a abertura da caixa no pátio à luz de velas... tudo isso aconteceu e há testemunhas. A tempestade eventualmente amainou depois de um final de semana sombrio no qual choveu como à tempos não acontecia.

Há de ser comentada ainda a posterior e inédita infestação de oligoquetas (obrigado aos amigos que as identificaram) ocorrida no pátio dos fundos e na frente da minha casa. Esses pequenos seres vermiformes parecem ter sido trazidos à superfície, atraídos por algo bem menos trivial que a forte chuva. Após dias se contorcendo no piso de pedra, para horror primitivo de minha esposa (que perdeu boa parte de sua sanidade) morreram deixando suas formas chapadas no chão, para serem raspados laboriosamente. 

Também me chamou a atenção a foto que registra a chegada do pacote, enquanto eu o carregava para dentro de casa. Reparem na estranha luminosidade amarelada nos meus olhos, resultado provável de um mero reflexo fotográfico... ou assim prefiro imaginar, julguém por conta própria:



Não vou comentar os insistentes latidos no meio da madrugada e o curioso odor de frutas passadas que venho sentindo nesses últimos dias... eu as considerarei apenas como uma inoportuna coincidência. Quem sabe, assim possa sossegar meus temores e aplacar meus nervos em frangalhos.

Mas não obstante, a caixa chegou... e é isso que importa. Não?

As fotos do unboxing seguem seguem abaixo:

Eu sei que muitos dos amigos já devem ter recebido as suas devidas caixas, pois até onde sei, sou o último infeliz a tê-la em mãos! Como um De La Poer ou um selvagem mohawk, sou o último na linha... Eu inclusive já publiquei um unboxing do conteúdo da caixa (aquele que quiser ler pode buscá-lo AQUI). 

Eis na sequência os extras do Financiamento Coletivo:

O Material todo em cima da mesa.
Cartões postas de várias cidades visitadas pelo Oriente Express.
Adesivos para malas, bloco e emblema do Orient Express
Passaportes internacionais (faltou o britânico e francês!)
Lápis, envelopes, tickets e moeda comemorativa.
Ticket de embarque no Orient Express (esse prop ficou demais!)
Camisa da Campanha (preta)
Camisa Comemorativa de 1000% atingido (azul)
A Caixa e a bolsa de lona

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Kit de Viagem - Prop para a Campanha Horror on the Orient Express


A jornada de terror através da Europa teve início semana passada com o primeiro capítulo de Horror on the Orient Express. Em breve planejo colocar no ar o relato de como foi a primeira parte, correspondendo aos cenários "Dancers in a Evening Fog" e "Doom Train".

Por hora, aqui estão algumas fotos do Kit de Viagem dos jogadores.

Eu queria fazer algo diferente nessa campanha, um tipo de prop que pudesse acompanhar os jogadores ao longo de todos os cenários e que fosse de alguma forma útil.

Eu já tinha tido a ideia do kit de viagem faz tempo, mas custei a encontrar algo que pudesse remeter diretamente a um grupo de viajantes. A solução veio por acaso, quando encontrei essas pastas em formato de maleta que simulam bem uma valise.


Uma vez que são oito jogadores na mesa, a logística de preparar os kits de viagem foi meio tumultuada, mas no final, cada valise continha o mesmo material.

A ideia é que na parte de trás das valises possamos colar stickers com o nome dos lugares para onde o grupo está seguindo, fazendo com que as valises fiquem "decoradas" ao estilo da bagagem de viajantes dos anos 1920.


Cada valise tem a identificação dos personagens do jogador em uma etiqueta. Depois de ponderar um bocado a respeito de imprimir, achei que escrever à mão em caligrafia cursiva daria um "toque vintage" à coisa. 

Ademais, a medida que os personagens sofrerem "acidentes" que os incapacitem de seguir viagem, os nomes serão devidamente riscados.


Próximo da alça coloquei as iniciais dos jogadores para identificar mais facilmente as valises.


E esse é o interior delas com os props.


Esse é o conteúdo de um dos kits de viagem que irão receber o acréscimo de material ao longo da campanha. Papéis, blocos de notas, passaportes, material de escritório, pasta para guardar recursos,  uma pasta para proteger as ficha, fotos dos personagens, mapas, etc...


Os blocos de anotações são bem práticos e úteis para o grupo registrar tudo aquilo que for relvante durante a investigação. Há um bloco pautado para as pistas, um bloco em branco para anotações gerais, um para NPCs e outro para lugares visitados ou à visitar. Lápis, caneta e borracha sempre à mão também é uma boa.

Eu adoraria ter personalizado alguns lápis e canetas para o kit, mas infelizmente o custo de gravar o nome da campanha era proibitivo, a não ser que eu mandasse fazer no mínimo 250.


Eu gosto especialmente do Cartão de Embarque do Orient Express (Boarding Pass) usado pela Compagne Internacionale des Wagons-Lits.

Encontrei uma versão dele na internet e copiei o texto para ficar mais autêntico. Embora o símbolo esteja diferente eu gosto das letras douradas no alto e as bandeiras dos países por onde o trem passa.


Esse é um mapa do roteiro do Orient Express. Eu tirei uma cópia reduzida do Mapa que vinha na caixa antiga do Orient Express. 

Fiz uma marcação dos principais destinos e tracei uma linha do percurso, assim o pessoal pode saber qual é seu próximo destino e onde vai se passar o próximo cenário.


Este aqui também ficou bacana. É um envelope e papel de carta com o timbre do Orient Express. Os passageiros tinham à disposição um papel de carta semelhante a esse para enviar sua correspondência. As cartas eram deixadas nas estações e enviadas gratuitamente pela Companhia. O próprio Orient Express por vezes transportava correspondência uma vez que era o método mais rápido de fazer as cartas chegarem ao seu destinatário.

Quando eu joguei a campanha usávamos um papel de carta semelhante que foi usado para mandar mensagens entre os personagens que acabaram se separando em uma parte da jornada. Foi um prop bem legal!


Esse é um modelo de ficha backup para os personagens. Essas fichas ficam sempre dentro do kit para o caso de extravio ou de algum jogador esquecer as suas fichas em casa.


Os passaportes da Campanha Horror on the Orient Express são famosos pelos seus detalhes. Se você pegar imagens dos passaportes originais do período, vai descobrir que essas cópias são idênticas aos documentos que se usava na época.

Até o momento temos passaportes americanos, britânicos, alemães e turcos. Faltam ainda os documentos concedidos pela Itália e França. O bacana desses documentos é que eles podem ser preenchidos a medida que os investigadores chegam a um novo destino. Tem uma página com os carimbos oficiais que podem ser impressos e colados no passaporte. Acredito que vai ficar ótimo.


Para registrar os acontecimentos da campanha, os jogadores tem esse caderno de viagem.

O caderno serve como uma espécie de diário no qual os jogadores podem registrar nomes, acontecimentos, pensamentos dos personagens ou trechos marcantes. Para incentivar os jogadores a utilizá-lo, cada vez que anotações forem inseridas, os personagens recebem uma pequena "vantagem" na forma de um ponto de confidence, que conta como uma espécie de "ponto de força de vontade". Se o jogador precisa muito realizar um teste, e falha, ele pode utilizar esse ponto para rolar novamente e tentar uma vez mais ser bem sucedido. Essa é uma house rule que eu adotei algumas vezes em certas campanhas e que funcionou bem.


O diário de viagem ao lado de uma garrafa retirada do bar do Orient Express.

Para seguir viagem alguns personagens podem necessitar de um pouco de "coragem líquida". Especialmente se esta for envelhecida por 12 anos.

Na próxima postagem irei apresentar os personagens da Campanha.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Horror on the Orient Express Unboxing - Abrindo a caixa da Mega-Campanha da Chaosium


Olá pessoal,

Essa é uma postagem excepcional quebrando momentaneamente o recesso do Mundo Tentacular, anunciado dias atrás.

Mas é por uma boa razão já que recebi a caixa de Horror on the Orient Express e alguns colegas no grupo do Facebook pediram por um unboxing.

Eu participei do Kickstart da Chaosium em 2012 (é, já faz esse tempo todo) e finalmente os primeiros livros prontos estão sendo despachados pela editora para os backers em território americano. Para os apoiadores fora dos Estados Unidos será necessário ter um pouco mais de paciência. A espera será de alguns meses, já que eles avisaram que as remessas "over seas" irão demorar em virtude do correio e questões aduaneiras. Eu só espero que as caixas não fiquem retidas na alfândega e ninguém as confunda com jogos de tabuleiro ou computador, o que representaria um desastre importando na cobrança taxas adicionais.

Pouco antes do Natal eu reclamei a respeito dessa demora e do meu temor de que a caixa pudesse ficar retida, minha esposa que estava procurando por algum presente de Natal, teve então a ideia de comprar a caixa que já estava disponível no Amazon. Aparentemente a Chaosium disponibilizou cerca de 50 caixas do estoque adicional (e de desistências) para venda no Natal, a fim de aproveitar a data.

Não vou entrar no mérito da questão, mas pessoalmente acho errado que boa parte dos apoiadores que acreditaram no projeto em 2012 e ajudaram a realizá-lo, só receberão o material depois de quem comprou pela internet. Muita gente tem reclamado dessa manobra da Chaosium nos fóruns estrangeiros, eu mesmo não gostei... acho que eles queimaram o filme com muita gente que possivelmente não vai entrar em futuros financiamentos desse tipo. O que nos resta é esperar que a entrega dos livros não atrase demasiadamente e que o material adicional - exclusivo para os financiadores, seja muito bacana e justifique a longa espera.

De qualquer forma, a caixa chegou aqui em casa sã e salva, sem problemas de alfândega apesar do peso (4,5 Kg) que me deixava apreensivo. O Amazon remeteu o pedido no dia 23 de dezembro e ele chegou 2 de janeiro, ou seja, exatamente 10 dias de espera. Considerando que haviam dois feriados, nesse ínterim e que esse é o pior período de entregas, não há do que reclamar. Chegou inclusive antes do prazo, que havia sido estipulado para 6 de janeiro.

Eu ainda não tive a oportunidade de ler ainda todo material - mais de 1000 páginas (!!!), mas posso dizer de antemão que Horror on the Orient Express é de fato sensacional. Uma das caixas mais bonitas de RPG que eu já coloquei as mãos, rivalizando página a página com as deslumbrantes publicações da editora francesa Sans Detour.

Eu preferi tirar algumas fotos do material depois de fazer uma tentativa de filmagem. Acho que dessa forma é possível passar mais detalhes a respeito do material através de comentários que em vídeo deixaria-no muito extenso. A outra razão é minha pouca familiaridade com edição e criação de videocast. Por sinal, se no futuro, algum colega quiser ajudar com esse tipo de coisa, eu ficaria muito grato.

Mas não vamos desvirtuar a postagem.

Aqui está o unboxing de Horror on the Orient Express, edição 2013. Tenham em mente que não se trata de uma resenha da Campanha, apenas uma visualização das partes que o constituem.

A Caixa


A Caixa é algo realmente imponente. Medindo quase 10 centímetros de altura e pesando 4,5 Kg ela desponta em qualquer estante ou prateleira de livros.

Eu tirei algumas fotos em que podemos ver a comparação da caixa com diferentes livros.


Essa é a comparação com o Livro Básico da Sexta Edição.


Comparação com Beyond the Mountains of Madness, até então a maior campanha lançada pela Chaosium com mais de 500 páginas - apelidado por alguns de Lista Telefônica.


Aqui uma comparação entre a Caixa 2013, Beyond the Mountains e a Caixa Original de Horror on the Orient Expresss, edição de 1991.


A versão 2013, faz a de 1991 parecer uma anã. Realmente é muito grande.

Interior


O material vem bem acondicionado na caixa, muito embora seja tanta coisa que é difícil fechar. A caixa é bastante resistente, no mesmo papelão reforçado das caixas de jogos de tabuleiro. Essa era uma das minhas preocupações, que a caixa não fosse muito resistente.

Goodies/ Extras


Horror on the Orient Express (doravante HotOE em prol da minha sanidade), possui um bom sortimento de goodies - material para ambientação e imersão na sessão de jogo. Não poderia deixar de ser assim, uma vez que a caixa original praticamente criou esse tipo de recurso para o narrador.

Eu gostei do material que acompanha essa versão, muito embora, a versão do Kickstart venha com ainda mais material e algumas surpresas maneiras para quem apoiou em níveis mais altos.

Mapa das rotas do Orient Express


O mapa de rotas do Orient Express é um excelente recurso para a campanha. Não apenas é bonito e muito bem feito, mas será extremamente útil para acompanhar o progresso da campanha ao longo de cada parada do percurso. 


As várias rotas das linhas do Orient Express estão registradas, bem como as cidades e estações onde o trem faz paradas. Eu achei o mapa bem interessante e com melhor acabamento do que os mapas anteriores editados pela Chaosium que vinham encartados em alguns livros. 

Só o fato dele ser colorido e com um papel mais resistente já fazem toda diferença.

Guia do Viajante


O Guia do Viajante é outra novidade nessa caixa. É um livro curtinho, mas muito detalhado cheio de informações a respeito das principais cidades visitadas pelo Orient Express.


Mais do que um mero prop, o Guia permite uma imersão dos jogadores e concede informações para que eles explorem as cidades e capitais. Cada capítulo menciona pontos turísticos, principais atrativos, hotéis, fornece um mapa detalhado e lugares que valem a pena visitar - e buscar pistas.


A proposta é que os jogadores possam ler as informações ao chegar em cada cidade e com base nelas traçar os seus planos d einvestigação em cada etapa da viagem.


O guia é todo ilustrado e com uma fartura de detalhes.

Envelope

Um envelope pardo com cerca de 25 centímetros de comprimento e o Selo do Orient Express. Suponho que ele possa ser usado para guardar os Handouts da campanha.


Dentro dele, temos esse sortimento de goodies.


Quatro passaportes norte-americanos para os personagens.

Visualmente o passaporte está muito bonito, embora eu preferisse o original que tinha uma coloração amarela desbotada e selo do governo em relevo. Esse é bem bonito, mas perde na comparação.

Outro porém é que a campanha contará com personagens de outras nacionalidades, não apenas americanos. Essa questão foi sanada no Kickstart onde os financiadores podiam escolher quatro diferentes modelos de passaportes - alemão, francês, britânico, americano, italiano ou turco. 


Dois cartões postais imitando os cartões que são distribuídos à bordo do Orient Express e que podem ser remetidos das estações ao longo do percurso.


Os cartões são perfeitos, parecem realmente postais de época.


Esses são os stickers de bagagem para serem colados nas malas e valises de viagem.


Um adesivo grande dizendo "Uma Viagem como nenhuma Outra" - o lema da Companhia Wagon-Lit Orient Express.


Uma caixa de fósforos imitando as que eram distribuídas à bordo do Orient Express. Infelizmente, as caixas contém palitos de dentes. A Chaosium explicou que os correios americanos não ficaram confortáveis em remeter material passível de incêndio e exigiram que fossem retirados os palitos de fósforo. 

Os Livros da Campanha


Bom, esse é o filet-mignon da caixa.

Os livros que compõem a campanha e a ambientação na qual se passa a aventuras.


Mais uma comparação lado a lado com Beyond the Mountais e suas consideráveis 500 páginas. Somando tudo, HotOE totaliza mais de 1000 páginas de material.


O Livro I é o Livro de Campanha, exclusivo para o Guardião, contendo todas as informações pertinentes para a condução da campanha.


Os livros II, III e IV trazem as aventuras em si. São os livros mais extensos cada um com cerca de 250 páginas.


Algumas fotos do interior dos livros de Campanha - Livro II - "Através dos Alpes", Livro III - "Itália e e mais adiante" e Livro IV - "Constantinopla e Consequências".


Algumas ilustrações foram mantidas da edição clássica, outras no entanto receberam um tratamento fotográfico com imagens de época. Pessoalmente eu gostei muito da maneira como o livro foi tratado e da forma que as imagens complementam os textos.

Ah sim, uma olhada por alto atesta que os textos foram reescritos, trechos inteiros foram alterados do original e clarificações (colocadas em boxes) aparecem frequentemente. Ou seja, quem já tem a edição original vai ter muita coisa nova para ler.


Ah sim, além das aventuras clássicas que formam a espinha dorsal da campanha Orient Express, composta de (se não me engano) 13 cenários, temos mais seis aventuras inéditas.

Esses cenários adicionais são opcionais, o Guardião pode abrir mão de alguns deles se assim desejar. Os cenários extras se passam em diferentes épocas, correspondendo às Eras de Cthulhu - Invictus (no período Romano), Dark Ages (Medieval), 1890 (Victoriano), 1920 (Clássico) e 2013 (Now), além de uma aventura na Terra dos Sonhos (Dreamlands).

Muitos se perguntavm como essas aventuras em diferentes épocas seriam inseridas no contexto da campanha que se passa em 1923. Essa é uma das partes mais geniais de Orient Express. Ao longo dos cenários, os investigadores encontram pistas, por exemplo diários, manuscritos ou relatos. Esses relatos servem para conceder pistas adicionais à investigação, mas ao invés de simplesmente ler o que foi descoberto, os jogadores tem a oportunidade de jogar uma aventura com personagens específicos para aquela época. Com base no sucesso ou fracasso nessas aventuras opcionais eles podem conseguir informações especiais ou artefatos que normalmente não teriam acesso.

Essa sacada foi nada menos do que sensacional e merece aplausos.


A parte visual dos livros ficou ótima. Os mapas, fotos e ilustrações ficaram impecáveis como podemos ver nas fotos seguintes.



Lista de Apoiadores


No final do livro temos uma lista dos apoiadores que ajudaram a Financiar o livro no Kickstart. Não contei, mas deve haver uns 800 nomes na lista.


Eu assinalei os nomes de colegas, amigos e conhecidos - muitos membros do Blog Mundo Tentacular participaram do Financiamento.

Livro de NPCs e Personagens Adicionais


Strangers on a Train é um livro adicional com vários NPCs que podem ser usados ao longo da campanha para povoar os vagões do Orient Express com personagens diferentes e misteriosos.


Cada página traz um personagem diferente, suas motivações, estatísticas e ideias para eles serem inseridos na narrativa. Eu gostei muito desse recurso que já estava presente na edição original, mas que aqui fica mais atraente graças a fotografias e detalhes mais elaborados.


Eu lembro bem desse NPC chamado Lorenzo Bercê, o comissário de bordo do Orient Express que acabou trabalhando para os investigadores. Muito legal poder contar com essas informações para expandir as sessões.

Livro de Handouts/ Pistas e Recursos para os Cenários


Como não poderia deixar de ser, HotOE vem acompanhado de MUITOS Handouts.

Temos 17 cenários, alguns repletos de pistas e recursos para entregar aos jogadores.


O livro é para ser recortado, já que a parte de trás de cada página está em branco. Mas francamente fazer isso parece um sacrilégio...


Além dos recursos normais (páginas de livros, cartões, diários, manuscritos, documentos, etc.) temos um sortimento imenso de mapas.

O Sedefkar Simulacrum


O Livro acompanha uma nova versão do misterioso Artefato de origem oriental - O Sedefkar Simulacrum, foco da campanha.


Eu gostei dessa versão, embora a original me pareça mais simpática. A Chaosium enviou um "vale" junto com a caixa prometendo para aqueles que entrarem em contato até um data limite, uma versão luxuosa do Sedefkar Simulacrum, enviada de graça pelo correio. Vou enviar meu código o quanto antes.

Sedefkar Scrolls e Diagramas do Trem


Esses mapas e diagramas da composição também estavam presentes na Edição original, mas não dá nem para comparar...

Os mapas são muito bonitos e úteis para situar os personagens durante as aventuras que se passam à bordo.


Temos nada menos do que seis mapas em três páginas do interior do trem. Alguns deles com frente e verso, além de uma página com os misteriosos Manuscritos de Sedefkar.


Eu gostei muito dessa ideia e planejo usar os mapas de bordo durante minhas sessões, sobretudo em face do grande número de jogadores na minha mesa (serão oito!).

Bom, é isso!

Unboxing de cada elemento contido na caixa Horror on the Orient Express.