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sexta-feira, 4 de abril de 2025

Nas Ruínas de Innsmouth - Antologia de contos da Editora Clock Tower em Financiamento Coletivo


Uma cidade pesqueira, isolada e evitada por todos os seus vizinhos que a temem com razão. Pois apenas os que vivem em Innsmouth ou nos seus arredores sabem os horrores indescritíveis que espreitam pelas suas ruas desertas. 

Entre a população local estão membros de um antigo Culto apocalíptico, a Ordem de Dagon. 

Muitos deles são descendentes dos fundadores dessa Ordem abominável. 

Muitos deles realizaram um pacto blasfemo com as profundezas.

Muitos deles foram pervertidos: mudaram e se transformaram. 

E agora não são mais humanos!

Innsmouth é uma das criações mais aterrorizantes do genial H.P. Lovecraft.


A Editora Clock Tower, responsável por publicar o que há de melhor e mais clássico no gênero Horror Cósmico, pioneira em vários lançamentos e textos que jamais haviam sido traduzidos em português mergulha nas lendas e mitos de Innsmouth para trazer uma antologia de contos inteiramente inspirada pela mais assustadora cidade da Terra Lovecraftiana.

Os contos que compõem essa antologia foram escritos por fãs e entusiastas do Horror, que tomaram emprestada a prosa e os conceitos de Lovecraft destilando sua visão particular sobre Innsmouth e seus inúmeros terrores.

"Nas Ruínas de Innsmouth", não é só uma expansão do ambiente presente em um dos maiores e mais famosos contos de H.P. Lovecraft. É uma homenagem ao autor do Cthulhu Mythos, Contos, poesias e ilustrações que darão uma nova visão sobre essa terra amaldiçoada. Além disso, haverá textos interconectando as histórias, tornando o livro uma narrativa fechada que aumenta o panorama da obra original.

Conheça a seguir o conteúdo do livro e quem são os participantes dessa coleção. 

SUMÁRIO

"Mistérios não revelados de Innsmouth" (introdução pelo editor)

1946 — Innsmouth, MA. (EUA) — Como tudo começou

Sombras que vêm do mar (Alexandre Callari) - Um homem sem esperança na vida vai passar uns tempos em Innsmouth. Lá tem contato com um ancião que o alerta sobre perigos da cidade, mas ele não lhe dá ouvidos, não imaginando o mal que está por vir. Uma história muito bem contada que remete com detalhes à cidade de Innsmouth e suas ruas misteriosas.

Um punhado final de consciência (Explorador) - A história de um pescador que começa a ser atormentado por estranhos pesadelos, sendo taxado de louco pelos amigos. Em uma bela noite, ele pega seu barco e rema para Innsmouth. Nos causou impressão muito positiva a imaginação do escritor desse conto.

O breve relato de um moribundo (Hugo Sales) - Um jovem vai para Innsmouth em busca de sua amada que não responde mais suas cartas. Lá se depara em um comércio com estranhos seres e depois com sua esposa, que agora está muito mudada.

O que descansa na escuridão (Dama Oliveira) - Essa é a história de duas meninas que tinham forte amizade, mas que são separadas, sendo que uma delas (órfã), após a adoção, vai parar em Innsmouth. Anos depois, elas se encontram nessa maldita cidade em meio a uma trama violenta e um destino que as une. Nos impressionou muito a força narrativa desse conto no que se refere a sentimentos entre pessoas do mesmo sexo, em meio aos horrores alienígenas de Innsmouth.

O relato de Natham White (Julius) - Essa é a história de um escravo chamado Nathan White. White trabalhava como marinheiro em um navio mercante, até que uma estranha tempestade fez a embarcação ficar à deriva, indo parar em Innsmouth. Lá tem contato com estranhos moradores e uma seita macabra que pode levar ele à loucura. O que impressiona é como o autor conciliou as questões relativas ao racismo e ao horror de forma magistral.


A morte em nome do deus proscrito (Marcos Faria Martins Filho) - Essa é a história do brasileiro José dos Anjos, que em um quarto de hospital psiquiátrico faz seu relato para uma enfermeira. Anjos explica a forma inusitada sobre como ele, do Brasil imperial, foi parar em Innsmouth e tudo o que de mais macabro presenciou no lugar. Um destaque para esse conto é sua forte ambientação e os detalhes históricos, haja vista o escritor ser historiador.

A mancha (Helton Lucinda Ribeiro) - Esse conto trata das aventuras de uma antropóloga da Universidade de Columbia em sua breve passagem sobre Innsmouth. Dr. Wilmarth da Miskatonic University aconselha ela não ir, mas mesmo assim, em pouco tempo a jovem chega à cidade desolada. E lá, uma estranha seita deseja ofertar sua filha que ainda está no ventre ao deus Dagon, mas isso é impedido por um fato muito inusitado. O destaque para esse conto vai na forma como o autor fez relação com outros elementos dos Cthulhu Mythos.

O relatório de Ethan Darkwood (Ari C. Freire) - Um corpo muito estranho é encontrado no Rio Miskatonic em Arkham e Ethan Darkwood foi chamado para dar uma resposta ao caso. Suas investigações o levam à cidade portuária de Innsmouth, onde seres híbridos, metade homem, metade peixe, reverenciam um deus chamado Dagon, segundo relata para ele o velho Zadok Allen. Mesmo assim, ele insiste em prosseguir suas investigações, que poderão levá-lo à loucura.

A noiva de Innsmouth (Lucas Freitas) - Essa é a história de um nobre que decide virar marinheiro e se depara com a cidade portuária de Innsmouth. Um destaque para o conto foi a escrita coerente, coesa. A escrita no que tange ao horror é primorosa, visível e acertada.

Arte de corpo e alma (Alex Rebonato) - Uma história sobre um curador de uma galeria de arte que, depois de um acidente, deixa-o obcecado por pinturas bizarras. Isso faz com que ele tenha pouco sucesso, mas chama a atenção de um habitante ilustre de Innsmouth, que o convida a conhecer essa cidade por um motivo muito peculiar. O destaque do conto vai para a força imaginativa do autor e a forma com prende nossa atenção a descrição dos fatos.

Os diários de Matt Eliot (Felipe Silva Carvalho) - Durante as investigações conduzidas por Selectman Mowry e que levaram à prisão de Obed Marsh, trechos do diário de Matt Eliot foram utilizados como evidência. Os relatos são uma linha do tempo que conecta a primeira viagem do Sumatry Queen ao início do culto a Dagon, que culminou no declínio de Innsmouth. O destaque para esse conto foi a qualidade como o autor inseriu fatos relativos aos eventos da novela A Sombra sobre Innsmouth (como a prisão de Obed Marsh), de forma muito detalhada.

A canção de Scyllintha (Luciano Reis) - De volta a sua cidade natal, Innsmouth, um marinheiro terá que encarar o seu passado, enfrentar seus medos e descobrir uma verdade oculta, abissal e mortífera, ao som de uma hipnótica e sedutora melodia. O destaque foi a criatividade e originalidade da história muito bem escrita. É ótima a construção narrativa.

Dos confins do tempo (Focinho Curto) - Uma vila de pescadores enfrenta a escassez de alimentos. Isso obriga os seus moradores a irem cada vez mais longe no mar, aproximando-se do temido Recife do Diabo e da estranha cidade de Innsmouth. Poderes ancestrais estão prestes a se manifestar. O destaque vai como o autor explora de forma aterrorizante Innsmouth, conto ótimo e bem escrito.

O bibliotecário em Innsmouth (Luciano Paulo Giehl) - A misteriosa doação de um raro volume para o acervo da Universidade Miskatonic leva um bibliotecário até a decadente cidade de Innsmouth. Mas aquilo que parecia um trabalho corriqueiro se transforma em pesadelo quando ele descobre que entrar nessa cidade pesqueira é mais fácil do que sair. O destaque vai para a história que foi muito bem escrita e desenvolvida, utilizando de forma perfeita elementos dos Cthulhu Mythos.

Epílogo

A prisioneira de Innsmouth (Liveira) - poesia

Cântico para Dagon (Paulo R. Caetano Tonon) - poesia

A Editora Clock Tower está oferecendo esse livro no formato de Financiamento Coletivo em uma campanha que se iniciou hoje. As metas extras contemplam material adicional, extras, contos, mapas e muito, muito mais...

Se você gosta de horror, tensão, suspense e criaturas macabras, não deixe de apoiar no catarse através do link:




terça-feira, 17 de maio de 2022

Legado das Trevas - O Professor M.R. James e seus fantasmas em Financiamento Coletivo da Clock Tower


A já conhecida Editora Clock Tower, especializada em oferecer o que há de melhor em Literatura Fantástica e de Horror, está com um novo Financiamento Coletivo.

Dessa vez, trata-se de LEGADO DAS TREVAS e o autor escolhido é ninguém menos do que o britânico M.R. James um dos mais conhecidos e respeitados escritores de histórias de terror. Famoso principalmente por narrativas evocativas envolvendo fantasmas, espíritos e assombrações. Suas contribuições para o gênero fizeram seu nome ser celebrado por dezenas de outros expoentes da Literatura, como Clark Ashton Smith, Fritz Leiber, Stephen King e claro, H.P. Lovecraft que lhe dedicou elogiosas palavras em seu ensaio "O Horror Sobrenatural na Literatura".

Montague Rhodes James nasceu no dia primeiro de agosto de 1862 em Kent na Inglaterra. Era filho de um clérigo e passou grande parte de sua vida na Universidade de Cambridge onde realizou diversos estudos de documentos antigos (paleografia), além de catalogação de manuscritos da biblioteca da universidade e traduções de grandes clássicos. Era um verdadeiro erudito e um pesquisador dedicado. James ficou muito conhecido e foi admirado em sua época pelas suas contribuições ao processo de organização da Biblioteca de Cambridge. 


O grande reconhecimento, entretanto viria graças à literatura, com a qual ele se envolveu primeiramente por hobby e que decorria de seu talento para contar histórias assustadoras aos seus amigos mais próximos. Sua habilidade como "contador de histórias" era lendária e ele entretinha os colegas mais chegados com narrativas góticas "de gelar o sangue nas veias". Incentivado por esses amigos que conheciam sua habilidade em construir histórias assustadoras, ele escreveu seus primeiros trabalhos, reunidos em "Histórias de Fantasmas de um Antiquário", publicado em 1894, coleção que teria uma continuação em 1911, com "Mais Histórias de Fantasmas de um Antiquário". Ambos os trabalhos seriam sucesso de crítica e público. 

James viajou por toda a Europa muitas vezes, tendo sido reitor do King's College, Cambridge (1905-1918), e também do prestigioso Eton College (1918-1936). Atuou como vice-chanceler da Universidade de Cambridge (1913-15), títulos e encargos que lhe trouxeram enorme prestígio.

Grande acadêmico e medievalista, teve nos antiquários seu grande interesse. No campo da literatura o escritor irlandês Sheridan Le Fanu foi sua grande influência.

Tudo isso formou as bases para suas histórias que eram a princípio contadas oralmente.

James nunca se casou e pouco se sabe sobre relacionamentos seus, embora exista alguma evidência que tenha tido casos amorosos com algumas de suas alunas.


No ano de 1930 foi condecorado com a importante Ordem do Mérito e seis anos mais tarde, veio a falecer (com 73 anos), sendo enterrado no cemitério de Eton em 12 de junho de 1936.

M.R. James influenciou toda uma nova geração de autores que reconheceram a genialidade de suas obras. Derivado das obras de James estão muitos programas gravados no rádio, filmes e trabalhos acadêmicos.

AS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DE SEUS CONTOS:

1 — Abandono do clichê gótico.

2 — Os fantasmas em suas histórias são seres maus e nunca misericordiosos.

3 — O cenário de suas histórias é geralmente de uma vila inglesa, cidade litorânea, universidade ou o interior e sempre contemporâneo a ele.

4 — O protagonista na maioria das vezes é um cavalheiro muito erudito.

5 — Apresenta a descoberta de algum objeto antigo de antiquário ou um livro misterioso que atrai forças sobrenaturais.

O conceito para LEGADO DAS TREVAS, proposto pela Clock Tower, teve início em 2015 quando o conto "Count Magnus" muito referenciado por H.P. Lovecraft e tido como primordial na obra de M.R. James, foi traduzido. 

M.R. James escreveu 4 grandes livros em vida: Ghost Stories of an Antiquary (1904), More Ghost Stories of an Antiquary (1911), A Thin Ghost and Others (1919), e A Warning to the Curious and Other Ghost Stories (1925). 

OS CONTOS ESCOLHIDOS:


A coletânea visa trazer o melhor desses contos após muitos debates e escolhas quanto ao conteúdo a ser oferecido ao leitor.

Para quem, assim como eu, adora uma pequena sinopse das histórias que irá encontrar numa antologia, aqui estão breves resumos delas, obviamente, SEM SPOILERS. Apenas para dar um gostinho do que, LEGADO DAS TREVAS trará em, termos de conteúdo.

Conde Magnus – Uma das mais importantes e elogiadas obras de M.R. James, obrigatória para os fãs do gótico e tratada por Lovecraft como uma das melhores do gênero. Nela, um inglês viaja para a Suécia a fim de escrever um livro guia sobre o país. Ao se deparar com documentos históricos de uma família nobre, ele se torna obcecado com o terrível Conde Magnus, um homem cruel interessado no oculto.

Apite e eu virei – Outro clássico absoluto de MR James. Em uma viagem de férias pelo litoral, o professor Parkins descobre um misterioso apito de bronze nas ruínas de um local usado pelos templários. Que coisas terríveis o afligirão caso utilize o objeto?

Sr. Humphreys e sua herança – O jovem Humphreys recebe uma herança inesperada de seu avô: uma luxuosa mansão no interior. A propriedade possui um intrigante labirinto, com um sombrio
segredo em seu coração. Stephen King usou a ideia do enorme labirinto do qual não se consegue escapar em seu clássico, O Iluminado

Número 13 – Numa viagem à Dinamarca, o inglês Anderson se hospeda em um hotel que segue o costume local de não ter um quarto número 13. O que seria então a misteriosa porta que aparece entre o seu quarto, número 12 e o vizinho, número 14, apenas durante a noite?

O Livro de Recortes do Cônego Alberic – O antiquário Dennistoun descobre um tesouro em forma de livro em uma cidade francesa. O assustado sacristão da catedral local, dono do objeto, vende a preciosidade por uma quantia irrisória, parecendo feliz com a negociação. Mais tarde, Dennistoun descobrirá o porquê.

O Mezzo-Tinto – Um homem chamado Williams recebe, por conta de seu trabalho, um mezzotinto que não o impressiona. As coisas ,começam a ficar assustadoras quando ele e seus colegas começam a notar que a obra de arte, que antes mostrava apenas uma paisagem, agora não parece mais tão vazia.


O Tesouro do Abade Thomas – Acompanhe a história do reverendo Justin Somerton, um medievalista que descobre uma mensagem secreta em um vitral sobre o tesouro do falecido e desonrado abade Thomas. Logo Somerton descobrirá que forças além da compreensão não deixaram o tesouro escapar tão facilmente.

Os Bancos da Catredal de Barchester – O talentoso clérigo Haynes assume o cargo de Arquidiácono após a morte misteriosa de seu antecessor. Sua competência e seu zelo são inegáveis, mas o homem é atormentado pelas estranhas figuras gravadas nos bancos de madeira da catedral.

Caso o Financiamento atinja as Metas Estendidas, os seguintes contos serão incluídos no livro:

Um Episódio na História das Catedrais – A renovação de uma catedral revela uma antiga tumba escondida. Logo após esta descoberta, algumas pessoas começam a ficar doente e outras acabam morrendo. O que são os estranhos barulhos que assolam as noites dos moradores locais?

Corações Perdidos – O jovem órfão Stephen chega à mansão do seu recluso tio, Sr. Abney. A vida feliz e tranquila do garoto dura apenas alguns meses, pois ele começa a experimentar misteriosos e perturbadores eventos. Corações Perdidos é considerada por muitos a melhor história de M.R James.

O trabalho da Editora Clock Tower já é conhecido pelos leitores brasileiros, que sabem da qualidade e comprometimento de seus organizadores. O livro trará além dos contos ensaios, fotos, imagens e biografia do autor para que os leitor possa conhecer um pouco mais sobre ele. 

M.R. James infelizmente ainda é um autor pouco lembrado aqui no Brasil, então, essa é uma oportunidade de ouro para conhecer um dos Mestres Imortais do Horror e as histórias que fizeram sua fama.

O FINANCIAMENTO COLETIVO está no ar através do Catarse, no seguinte link:


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Arthur Machen - O Mestre da Fantasia Obscura


"Dos Criadores vivos do pavor cósmico elevado ao seu 
mais alto expoente artístico, dificilmente poderá citar-se 
algum que se iguale ao versátil Arthur Machen".

H.P. Lovecraft 
- O Horror Sobrenatural na Literatura

Arthur Machen nasceu em Caerleon on Usk, no condado de Gwent, no Sul do País de Gales no ano de 1863. Nascido na fé anglicana ele foi batizado como Arthur Llewellyn Jones. Seu pai, John Edward Jones (Machen era o nome de solteira de sua mãe), foi um pastor anglicano, vigário da pequena igreja de Llandewi, perto de Caerleon, e o menino foi criado na reitoria de lá. Uma criança solitária, ele aprendeu primeiro a amar as encostas suaves do Riacho Soar, depois as fortalezas mais impressionantes nas Montanhas Negras que ficavam ao norte, e a leste a antiga floresta de Wentwood no remoto Vale do Severn. Embora ele apenas retornasse para Gwent no fim da vida, seu trabalho evocava continuamente as paisagens sombrias conhecidas em sua infância, um prelúdio para maravilhas e terrores inenarráveis.

A criança Machen também ficou encantada com as descobertas dos arqueólogos que escavaram sua terra natal. Na década de 1870 desenterraram estranhas esculturas pagãs e pedras com inscrições que datam da ocupação romana da região. O menino ficava maravilhado com cada uma dessas descobertas que pareciam brotar do solo escuro de Gales. O avô de Machen havia encontrado inscrições e esculturas romanas no cemitério de Caerleon, e a imaginação do menino foi capturada desde cedo pela sensação de que o solo em que pisava era assombrado por forças de um passado distante e ao mesmo tempo tão próximo. Mais que isso, havia uma estranheza tangível e pagã em cada artefato - uma sensação que lhe inspirou a escrever alguns dos seus melhores contos de ficção. O Deus romano-britânico Nodens, cujo templo foi escavado nas proximidades do Parque Lydney em sua infância, aparece em algumas de suas histórias de terror mais memoráveis.

Aos onze anos, o jovem Machen foi enviado para a Escola de Hereford Cathedral, onde recebeu esmerada educação nos clássicos. Ele era um aluno hábil, mas permaneceu indiferente, interessado mais nos caminhos do estranho e misterioso do que nas ciências. A literatura e a arte seriam o recurso para sua carreira vindoura. Depois de alguns falsos começos e após sua primeira publicação, os pais o persuadiram a seguir carreira no jornalismo. Em busca de afirmação profissional, ele foi morar no coração do Império Britânico.

Machen passou o início da década de 1880, em Londres, vivendo em solitariamente na vastidão da maior cidade do mundo. Tinha medo das aglomerações, receio dos ambientes cheios e lembrava com carinho do isolamento rural de Gales. Vivia em pobreza austera, residindo nos subúrbios remotos e sórdidos da metrópole. Em vez de fazer um esforço determinado para conquistar sua profissão, passava a maior parte do dia lendo e explorando à pé as vastas áreas da cidade, geralmente à noite. As paisagens urbanas passaram a fasciná-lo tanto quanto a Gwent de sua infância: ele se tornou colecionador de histórias e mitos, de fábulas e segredos de Londres. Viajava pelas ruas tortuosas e distritos afastados, observando com olhos experimentados, em busca do que havia de estranho, incomum e imperceptível na sociedade que o adotou.

Em 1884, produziu seu primeiro livro, The Anatomy of Tobacco, e encontrou uma editora de Covent Garden que aconselhou a ele mudar o nome para Machen. Na segunda metade da década de 1880, ele começou a emergir de seu isolamento. Realizou traduções de obras escritas em francês clássico e também trabalhou nos seu primeiros escritos no reino da ficção, a maioria das peças influenciadas pelo estilo romântico e gótico. Em 1887, seus pais morreram e, no mesmo ano, aos 24 anos, ele se casou com Amy Hogg, uma mulher independente, parte da cena literária londrina.


No final da década de 1890, sua escrita deu uma nova guinada: tornou-se agudamente contemporânea em idioma e interesse. Uma série de suas peças foram publicada em jornais e revistas; muitas das quais constituindo a base de sua ficção fantástica, ambientada no mundo que conhecemos, mas movendo-se para reinos de fantasia perturbadora. Suas obras cruzavam além dos limites impostos pelo mundo real; lidando com temática gótica, não muito longe do terror.

Em 1891, Machen havia mostrado que podia escrever ficção à maneira de contemporâneos de sucesso, como Arthur Conan Doyle e Robert Louis Stevenson; agora ele buscava uma conquista maior. Tendo recebido elogios, retirou-se para uma cabana afastada onde expandiu uma de suas primeiras peças, dando vida a seu primeiro conto de horror pagão: "O Grande Deus Pã". O conto foi aceito pelo editor John Lane, com ressalvas - "Não sei quem irã querer ler isso", teria dito, e publicado como uma série. Através dos excessos ousados ​​de sua obra, Machen tornou-se um dos "autores perigosos" do fim do século. Um daqueles autores cujas obras desafiavam a sociedade e erguiam diante dela um espelho onde a hipocrisia e injustiça podia ser vista em detalhes. Machen conheceu Oscar Wilde que o elogiou eloquentemente pela coragem e teor da prosa. Apoiado no escandaloso sucesso de "O Grande Deus Pan", Machen enveredou de vez pelos caminhos do terror e do fantástico. Não demorou até ele alcançar amplo reconhecimento do público, expoente de uma nova estética, igualmente decadente e fascinante.

O julgamento e a condenação de Wilde em 1895 (acusado de depravação), causaram uma virada contra o estilo em que Machen estava inserido. O ano também viu acusações histéricas contra a influência maligna de artistas também considerados degenerados. Machen e muitos outros jovens escritores sofreram perseguições e graves acusações. Ele não publicou nada por quase uma década.

Felizmente , Machen teve sucesso suficiente para se sustentar através desse período, e ainda continuar produzindo romances como "A Colina dos Sonhos", peças de poemas que acabaram sendo coletadas em "Ornamentos de Jade", as novelas sobre o espantoso "O Povo Branco" e "Um Fragmento de Vida", todas escritas nessa época.

Em 1898, voltou ao jornalismo e se tornou subeditor da Seção de Literatura do Times. Machen tinha bons motivos para trabalhar exaustivamente na segunda metade da década: sua fortuna estava minguando rapidamente e sua esposa, Amy, morria lentamente de câncer. Ela faleceu em 1899, e o marido devastado entrou em colapso nervoso. Machen vagava pelas ruas de Londres em devaneio, tal qual um personagem de sua própria ficção. O apoio de amigos foi essencial para que ele mantivesse a sanidade. Um destes colegas, o também autor, A.E.Waite, o convidou a se juntar à Ordem Hermética da Golden Dawn, uma confraria de estudos do oculto, famosos por praticarem magia ritual. Com nomes como W.B. Yeats e Aleister Crowley entre seus membros, a Golden Dawn parecia um reduto adequado para o autor que escrevia sobre aqeles temas. Contudo, Machen nunca se envolveu intimamente nas atividades do grupo ou em suas disputas internas. Ao invés disso, para enfrentar a crise existencial desenvolveu seu próprio cristianismo baseado nas crenças celta.


Em 1901 deu um passo improvável na sua carreira ingressando numa companhia itinerante de teatro. A companhia teatral ofereceu companheirismo e esperança ao homem enlutado e desgraçado, e ele aderiu com entusiasmo. Sua vida voltou aos trilhos e ele se casou novamente, permitindo assim retomar a alma do Contador de Histórias. Em sua nova fase ele se converteu numa espécie de campeão do misticismo e espiritualidade e adversário dedicado do materialismo. Lentamente, o clima moral que havia afetado tão desastrosamente o tipo de escrita de Machen, começou a se suavizar e, em 1906, muitos de seus melhores contos, e alguns novos, puderam ser finalmente lançados. Nessa fase, seu romance emblemático "A Colina dos Sonhos", talvez seu melhor trabalho, foi publicado.

Na casa dos quarenta anos de idade, Machen começou a buscar uma forma de existência mais estável, trabalhando em uma base experimental para jornais londrinos cobrindo religião, filosofia e nas artes. Cobriu escavações arqueológicas e expedições científicas importantes, até que a Grande Guerra estourou na Europa e lançou o continente num caos jamais visto antes. O grande confronto entre os exércitos britânico e alemão em Mons, em agosto de 1914, o inspirou a escrever um dos seus contos mais famosos, publicado no The Evening News. A história com o título "Os Arqueiros", descrevia arqueiros fantasmas dos dias da célebre Batalha de Agincourt, disparando suas flechas contra os alemães e evitando a derrota britânica. Ele afirmou que sua única fonte era sua própria imaginação; ainda assim, descobriu que havia um número significativo de pessoas que acreditavam que a história era baseada em fatos - que os "Anjos" realmente apareceram e lutaram pelos britânicos.

Com o sucesso estrondoso, Machen voltou à ficção, alcançando grande fama e reputação positiva. As  histórias da década de 1890 foram descobertas por uma geração de jovens autores que, após o fim da guerra, abraçaram sua estética refinada e pessimista. Ele cruzou o Atlântico e visitou os Estados Unidos, entrando em contato com novos entusiastas de seus escritos, mas não chegou a fazer fortuna.

Durante a maior parte da década de 1920, Machen e sua esposa viveram na elegante St John's Wood em uma casa comprada em época mais confortável. Eles eram famosos por suas festas, onde as "celebridades" atuais ficavam lado a lado com os "notórios" de ontem. Quando tinham dinheiro, gastavam, e provavelmente foi sorte terem reunido um círculo de amigos fiéis ao seu redor, dispostos a ajudá-los em sua velhice. O autor não escreveu muito nas décadas seguintes e se aposentou em relativa obscuridade voltando para o País de Gales onde morreu em 1947. 

Com sua morte, o interesse pela sua bibliografia se renovou e novas gerações descobriram o gênio do autor galês que tratou como ninguém as lendas de sua terra, traduzidas no idioma do terror.

*     *     *


A boa notícia é que a Editora Clocktower, que conta em seu repertório com excelente material devotado a alguns dos maiores Mestres do Horror, está com uma Campanha de Financiamento Coletivo dedicada a Arthur Machen.

Anteriormente a Editora publicou alguns dos mais importantes trabalhos do Galês na Antologia "Arthur Machen - O Mestre do Oculto", mas agora a proposta é outra, mergulhar na Dark Fantasy e trazer as obras mais soturnas do autor. O gênero muito popular se caracteriza por histórias medievais (mas, nem sempre) que tem como pano de fundo o horror e uma sensação de decadência e luta pela sobrevivência em meio a perigos de todos os tipos. Certamente um fato incontestável é a dificuldade de delimitar as fronteiras que separam a fantasia do horror e as que as une. Então para isso, a edição vai contar com a inestimável participação de S.T. Joshi que ajudou a preparar a notável seleção de contos de fantasia sombria.

O livro contém os seguintes contos reunidos, muitos deles pela primeira vez em português:

- Um Fragmento de Vida
- O Retorno Triunfal
- O Ômega Exaltado
- A Estrada para Dover
- Os Arqueiros
- N

Trata-se de um material incrível, essencial para os fãs do Horror, mas também do gótico, do soturno e do perturbador. Uma oportunidade única de conhecer obras que até então, só estavam disponíveis na versão original em inglês. 

Não é de hoje que a Editora Clocktower, que granjeou um lugar de destaque entre os fãs do gênero, estabeleceu seu nome entre as mais confiáveis editoras dedicadas ao Horror e Fantasia. O trabalho dela tem sido irretocável, conquistando a confiança de um público cativo (e exigente) que está sempre ansioso por novidades. 

Extremamente recomendado em todos os aspectos!

Para obter mais detalhes desse fantástico Financiamento Coletivo (que já atingiu a META BASE!!!!) basta acessar o link abaixo:


quarta-feira, 7 de abril de 2021

O Weird Western de Robert E. Howard em Financiamento Coletivo


Pode ser uma surpresa, mesmo para quem conhece a obra de Robert E. Howard, saber que ele escreveu muito mais do que suas famosas histórias à respeito de Conan, o Bárbaro. Embora ele seja muito lembrado e celebrado por estas, ele explorou à fundo, através de seus personagens, outros tantos gêneros.

Durante sua carreira, Howard enveredou por caminhos que incluíam aventuras de época, em alto mar, envolvendo pirataria, acompanhando exploradores em terras exóticas, contos de Horror Cósmico e, é claro, Western.

Nascido no Texas, ele estava ciente da história e acontecimentos de sua terra natal. Era natural que ele investigasse o passado recente de seu estado e contasse através de seu ponto de vista como se deu a lendária Conquista do Oeste. Como pistoleiros, cowboys, homens da lei, exploradores e aventureiros lutaram para domar aquele lugar inóspito, árido e perigoso.

Como não poderia deixar de ser, Howard não seguiria o caminho convencional, ele falaria de todas essas coisas, é bem verdade, mas acrescentaria à conquista uma pitada extra de violência, superstição e terror. Assim, através dessas histórias, ele inaugurou um novo subgênero, o Weird West (ou Oeste Estranho).

Em suas histórias a poeira do deserto se misturava a coisas impensáveis, mortos vivos galopavam as pradarias, o misticismo transbordava em maldições, assombrações estavam em todo canto, lançando um medo primitivo que tomava conta de tudo e todos. Apenas seus heróis, indivíduos duros e ferozes, conseguiam enfrentar essas provações e sobreviver à elas. Armados com coragem, determinação e um revólver de seis tiros, eles abriam caminho à bala.


O Oeste de Howard era um lugar realmente assustador e nessas histórias encontramos vários elementos que tornaram o autor sinônimo de excitação.      

Uma de suas características mais admiráveis era justamente traduzir na forma de texto suas aventuras e descrever cenas de ação de forma incrivelmente vibrante. Howard não parecia meramente escrever, ele parecia viver aquelas situações, como se estivesse rememorando acontecimentos reais dos quais tivesse tomado parte.

Por muito tempo, as fantásticas histórias de Weird West, escritas por Robert E. Howard, estiveram fora do alcance dos leitores brasileiros, mas agora, estes tem a oportunidade de desfrutar dessas narrativas.

A Editora Clock Tower, que nos últimos anos publicou farto material de Horror e Fantasia com alguns expoentes do gênero, está trazendo uma antologia dedicada exclusivamente ao Weird West escritas por Robert E. Howard.

A edição que se encontra em Financiamento Coletivo, trará uma série de histórias até então inéditas em português. Nelas o autor apresenta sua visão única de uma época e de um tempo.

O livro, que se propõe a ser o primeiro volume, inclui a seguinte lista de contos:

- O Horror da Colina (história pioneira no Weird Western)
- O Vale dos Perdidos
- O Coração do Velho Garfield
- O Homem no Chão
- Os Mortos Lembram
- Pelo Amor de Barbara Allen
- O Cavaleiro do Trovão

Além disso, traz ainda ensaios, biografia do autor e uma série de detalhes extras.

Mais detalhes a respeito podem ser encontrados na página do Catarse que está hospedando o Projeto. Há vários níveis de apoio, que dão direito a brindes bem interessantes e metas extras. 

Vale muito a pena dar uma olhada.

Ah sim, no primeiro dia, há alguns benefícios especiais e preços mais acessíveis, então, não deixem passar a chance de ter em suas mãos o melhor do Oeste Macabro, cortesia do Sr. Howard. 

O link para o Financiamento Coletivo está abaixo:



segunda-feira, 20 de julho de 2020

O Homem na Torre - Entrevista com Denílson da Editora Clock Tower


O Mundo Tentacular abre as suas portas para conversar com Denilson Carraretto responsável pela Editora Clock Tower que nos últimos anos tem conquistado um lugar no coração dos fãs de Literatura de Terror e Fantasia como um selo que vem publicando autores clássicos até então pouco conhecidos no Brasil.

Falamos a respeito do mercado de livros do gênero, de Literatura fantástica em geral e sobre o próximo lançamento da Editora, inteiramente dedicado a Clark Ashton Smith que será publicado pela primeira vez em português através de uma plataforma de Financiamento Coletivo.

Acompanhe aqui a nossa entrevista e aproveite para conhecer esse grande projeto seguindo o link no final do artigo.

MUNDO TENTACULAR - Obrigado Denilson pela oportunidade de conversar com você. Antes de perguntar especificamente a respeito do novo lançamento da Clock Tower, gostaria que você comentasse um pouco a respeito de como está o mercado de livros do gênero horror/ fantástico. 

DENILSON CARRARETTO - Primeiramente muito obrigado pela oportunidade em divulgar nosso projeto do Catarse e a obra do grande escritor que foi Clark Ashton Smith.


O mercado de livros do gênero horror/fantástico apesar de toda a crise atual na economia se mantém relativamente bem. Não em alta como desejávamos, mas bem, até mesmo porque nosso país já vinha de 3 anos de recessão e num momento em que havia o início de uma recuperação da atividade econômica, fomos pegos de surpresa por essa triste pandemia, e isso afeta o mercado. Mas, é impressionante como o gênero tem atraído os brasileiros, que mesmo em momentos difíceis tem se esforçado em adquirir livros e apoiar bons projetos, coisa que a meu ver não ocorre tanto com outros gêneros literários. Sou suspeito para falar, mas acredito que estamos vivendo já a alguns anos um boom de interesse por horror e fantasia, um gênero até então esquecido ou até mesmo desconhecido por muitos dos brasileiros.

MT - Até pouco tempo atrás tínhamos pouca coisa publicada de H.P. Lovecraft e menos ainda de Horror Cósmico. Agora muitas editoras estão descobrindo esse filão. Na sua opinião, para quem já leu tudo de Lovecraft e quer algo similar, qual seria o próximo passo? 

DC - Nos últimos anos as editoras redescobriram H.P. Lovecraft, uma vez que num passado já distante ele tinha sido publicado e relegado ao esquecimento. Eu imagino que o fato de sua obra ter caído em domínio público e o aparecimento de bons sites e blogs também contribuiu para isso, além é claro da qualidade da obra do autor. 

Muito embora Lovecraft tenha sido bastante publicado no Brasil, ainda resta a publicação de suas cartas, ensaios e biografias mais abrangentes sobre sua vida que não temos em nosso idioma - isso para o fã e admirador do escritor é fundamental, e ainda é uma lacuna. Agora, para quem leu o principal de sua obra (seus contos e novelas), se aprofundar em escritores do seu círculo de amigos e que compartilhavam ideias como Clark Ashton Smith, Robert E. Howard, Derleth e tantos outros, é mais que fundamental.

MT - Falemos sobre o próximo lançamento da Clock Tower. Clark Ashton Smith (CAS) ainda é pouco conhecido no Brasil, o que você pode nos dizer a respeito dele? 

DC - Clark Ashton Smith foi um dos maiores escritores de horror e fantasia de todos os tempos. 

Um artista completo, Smith foi ao mesmo tempo pintor, escultor, poeta e escritor de contos incríveis e criador de mundos e personagens que parecem existir na vida real. Durante sua vida foi acometido por fobia, o que resultou numa vida reclusa, mas de muitos estudos autodidatas o que rendeu uma obra vasta e completa. Smith é um autor que certamente contribuiu e muito para os 'Mitos de Cthulhu' de Lovecraft e que irá cair facilmente no gosto do leitor brasileiro... É interessante observar que o conto de Smith 'O Retorno do Feiticeiro' (que está presente no nosso livro), foi o primeiro conto sobre os Mitos de Cthulhu escrito por outro escritor que não Lovecraft, daí dá para ter uma ideia mais clara do que estamos falando.

MT - Como você define a importância de CAS para o gênero e quais foram as suas maiores contribuições? 




DC - Eu acredito ao falar de Smith estamos falando de um dos maiores gênios da fantasia de todos os tempos, talvez maior mesmo que Lovecraft. Não é a toa que além de amigo de Lovecraft, Smith era muito admirado por ele, considerado um mestre do gênero comparado a grandes nomes como Arthur Machen e Edgar Allan Poe. Mais do que qualquer outro, Lovecraft soube reconhecer seu talento, mesmo sendo Lovecraft um crítico muito voraz. Seus contos são únicos e é impressionante que mesmo hoje em dia, com tantos e tantos escritores, estilos e técnicas literárias bem desenvolvidas não encontramos alguém como a capacidade e versatilidade de Clark Ashton Smith e de seus contemporâneos.

MT - Quais contos estarão nessa antologia e como foi o processo de escolha dos mesmos? 

DC - Smith foi um grande criador de mundos e personagens. Procuramos no livro "Além da Imaginação e do Tempo", representar a parte mais significativa de sua obra, dando destaque para o Mito de Cthulhu. Nosso livro conta com o apoio do Sr. William Dorman que é enteado do autor e detentor dos seus direitos autorais, com sua ajuda e de S.T. Joshi, especialista em Lovecraft, além do trabalho do grande fã e tradutor José Geraldo Gouvêa, chegamos em uma lista de contos e mundos bem representativos de sua obra, são eles:

Mitos de Cthulhu: mitologia criada por H. P. Lovecraft e seus amigos, entre eles C. A. Smith. 

Contos: O Retorno do Feiticeiro, Os Caçadores do Além, A Prole Inominável.

Averoigne: Província fictícia da França medieval onde Smith criou muitos dos seus personagens e cenários. 

Contos: A Santidade de Azédarac, A Besta de Averoigne, O Colosso de Ylourgne.

Hiperbórea: Groenlândia pré-histórica antes do avanço da calota polar, região fria e envolta em muitos mistérios. 

Contos: Ubbo-Sathla (ponte para hiperbórea), A Chegada do Verme Branco, A Porta para Saturno, As Sete Obrigações.

Zothique: no futuro, os continentes voltam a se unir formando uma terra moribunda, onde o sol está escuro e manchado, cenário perfeito para seus contos. 

Contos: Uma Noite em Malnéant (ponte para histórias finais), O Ídolo Escuro, Necromancia em Naat, Morthylla.

É importante lembrar que essa divisão não é muito precisa e que suas temáticas se misturam às vezes. Citando, por exemplo, os Mitos de Cthulhu, que, seja direta ou indiretamente, estão presentes em muitos contos.

Além disso o livro terá muitos extras como biografia do autor, impressões pessoais escritas por seu enteado, poesias, e muito mais...

Cabe ressaltar que os desafios para lançar Smith foram enormes. Embora a Clock Tower atue desse 2013, essa é nossa primeira experiência na plataforma Catarse. E ter esse sucesso já no nosso primeiro projeto só foi possível graças ao apoio da Editora Diário Macabro. Além disso essa época da pandemia, o pagamento dos direitos autorais e outras coisas mais foram desafios que estão ficando para trás, num momento em que graças ao apoio de todos estamos próximos da meta (de fato, no fechamento desse artigo, a meta se encontrava com 90%, faltando ainda 48 dias). 


MT - Quais outros autores estão nos planos da Clock Tower para futuros lançamentos?


DC - Entre nossos planos está lançar um livro de contos de Robert E. Howard ambientado no Velho Oeste. Um subgênero que chamamos de Weird Western e que será o volume 2 do livro 'O Mundo Sombrio de Robert E. Howard'. Além disso, claro, muitos outros livros estão no prelo.


*     *     *

A seguir, você acompanha informações e o press release de "Além da Imaginação e do Tempo" que se encontra em Financiamento Coletivo no Catarse. 

Pela 1ª vez em português, um livro totalmente composto pela obra de Clark Ashton Smith, um dos maiores escritores de horror e fantasia de todos os tempos!

Clark Ashton Smith (1893-1961) foi poeta, escultor, pintor e autor americano de contos de fantasia, horror e ficção científica. Devido a problemas de fobia, ele teve uma vida pobre e reclusa, casando-se muito tarde. Morou quase toda sua vida na cidade de Auburn (Califórnia) com seus pais, que o incentivaram em uma vida de estudos autodidata. Smith foi um grande criador de mundos imaginários e criaturas incríveis, tendo concebido através da escultura seus monstros antes mesmo de transportá-los para o papel.

Contemporâneo, amigo e grande mestre de H.P. Lovecraft, ele escreveu também sobre os famosos “Mitos de Cthulhu”, uma espécie de clico literário de escritores de horror e fantasia da década de 1920, que publicava seus contos em revistas pulp, notadamente a Weird Tales. É um escritor muitíssimo admirado por grandes nomes da literatura como Robert Block, Ray Bradbury e Robert E. Howard.

O livro com os 14 contos mais importantes de Clark Ashton Smith terá aproximadamente 290 páginas, no formato 16 x 23 cm, acabamento brochura e papel pólen soft 80g/m².


Para conhecer mais detalhes à respeito desse Financiamento, basta clicar no link abaixo:

CATARSE - CLARK ASHTON SMITH

Pessoal, essa é uma excelente oportunidade para conhecer um dos maiores autores de Ficção e Horror de todos os tempos. Um expoente do Horror Cósmico que merece ser lido e melhor conhecido por todos os entusiastas do gênero.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

O Mundo Fantástico de H.P. Lovecraft volume 2 da Clock Tower está à caminho


Não é de hoje que a Editora Clock Tower conquistou espaço no mercado editorial de horror/fantasia, tornando-se uma referência no gênero.

Com material muito bem escolhido (trazendo autores e histórias inéditas), um belo catálogo de títulos, tradução correta e livros com acabamento caprichado, ela se tornou uma excelente pedida para os fãs do gênero. Aqui no Mundo Tentacular já fizemos a resenha de vários produtos da Clock Tower, elogiando a qualidade dos produtos.

Um dos primeiros trabalhos da editora foi uma antologia dedicada a Lovecraft com o título "O Mundo Fantástico de H.P. Lovecraft", reunindo algumas de suas histórias mais clássicas. Lançado em 2013, o livro foi o primeiro contato de muitos leitores com o Horror Cósmico e com a obra do Cavalheiro de Providence.

Agora, a Clock Tower anunciou o lançamento do volume 2 dessa antologia, trazendo contos escritos por Lovecraft como Ghost Writer. São algumas histórias menos conhecidas, algumas assinadas por outros autores que contrataram Lovecraft na época para aparar as arestas ou desenvolver uma ideia central. Como é de hábito, as histórias versam sobre o que existe de melhor nos reinos do horror e do bizarro.

A coleção inclui ao longo de suas 320 páginas os seguintes contos:

O Prado Verde
O Homem de Pedra
Até os Mares
O Horror no Cemitério
As Duas Garrafas Negras
A Arvore no Morro
A Dança da Medusa
O Último Teste
O Oceano Noturno
Trapaceando a Morte
Além dessas histórias, algumas inéditas ou pouco conhecidas dos leitores, a coleção acompanha ainda ilustrações exclusivas e padrão de qualidade já conhecido.

Para os fãs é uma excelente pedida para completar a coleção e ter acesso à algumas histórias mais obscuras, mas em por isso, intrigantes do mestre do horror.

"O Mundo Fantástico de H.P. Lovecraft" volume 2 está disponível na página da Clock Tower, no link no final desse artigo.Agora, sejam rápidos, a venda vai apenas até o dia 15 de Outubro e quem deixar passar vai ficar sem!

Vale a pena dar uma olhada também no restante do material que está no link. 


quinta-feira, 7 de junho de 2018

"O Ciclo de Yig" - Antologia da Clock Tower sobre o Pai das Serpentes


No Universo dos Mythos de Cthulhu, Yig é um dos Grandes Antigos mais atuantes.

Interpretado por muitas civilizações ancestrais, ele assume a forma dos dragões chineses, da serpente emplumada, do Deus da cura cultuado pelos nativos americanos, de Set, o Deus egípcio do mal, ele está presente no mito haitiano da Serpente do Arco Iris e é personagem chave na fábula do Éden no papel do grande tentador, arquiteto da Queda do Paraíso. 

A serpente é a personificação da Besta e quando Yig adentrou a nossa realidade e teve de decidir qual forma assumir em nosso planeta, ele buscou aquela que inspirava maior terror na humanidade.

Yig apareceu pela primeira vez na história "A Maldição de Yig", concebida por Zealia Bishop, quase que completamente reescrita por H.P. Lovecraft. Nessa história, Yig é descrito como uma criatura humanóide com características de serpente, o corpo cheio de escamas, olhos vítreos e boca larga. De acordo com Lovecraft, todas as cobras são servas de Yig - elas são as suas "crianças". Quando deseja punir aqueles que o desafiam Yig as envia na calada da noite, ou lança sobre seus desafetos uma maldição aterrorizante que transforma a vítima em uma abominação, um ser meio homem, meio réptil.

Yig é figura central em várias histórias e contos, dos parceiros do Círculo Lovecraftiano, Robert E. Howard o usou como entidade principal no Culto de Set e o identificou com a raça atávica, o Povo Serpente da Valúsia, inimigos do Rei Kull.

Infelizmente, as histórias de Yig jamais foram publicadas no idioma português. 

Mas isso está prestes a mudar...

A Editora Clock Tower, já conhecida dos fãs do horror cósmico, responsável por excelentes coletâneas de contos, até então inéditos, de grandes expoentes do gênero anunciou seu próximo projeto que se encontra na reta final de financiamento.

A Coletânea dedicada ao Pai das Serpentes tem o sugestivo nome "O Ciclo de Yig" e reúne os três grandes contos escrito pelo criador do Mythos envolvendo o deus réptil.

Os contos são "A Colina" (The Mound), escrito por Lovecraft em 1930, atuando como ghostwriter para Zealia Bishop que queria uma história tradicional de assombrações e velhas maldições indígenas. Lovecraft subverteu o tema sugerido, acrescentou elementos típicos do Horror Cósmico, uma civilização perdida nos subterrâneos do meio-oeste americano, o Reino de K'na yan que seria combustível para muitas outras histórias nas décadas seguintes. A história não foi publicada durante a vida de Lovecraft, mas após a sua morte foi redescoberta e ganhou um lugar de destaque pela sua criatividade.

O segundo conto é o clássico "A Maldição de Yig" (The Curse of Yig), escrito em 1928. A história introduz a entidade serpentoide Yig, narra uma terrível maldição extraída por um culto contra um homem que desafia a vontade de um Deus. A Maldição em si é absolutamente bizarra, Lovecraft está em grande forma, apesar de atuar novamente como ghostwriter para Zealia Bishop.

A terceira história é "Vindo dos Aeons" (Out of Aeons) co-escrita por Hazel Heald. Os fãs de Lovecraft encontrarão nessa narrativa vários elementos clássicos de sua obra entre os quais cultos blasfemos, tomos profanos (o Livro Negro de Von Junz!), maldições aterrorizantes, civilizações ancestrais, citações a Deuses Exteriores e um dos mais mortais Grandes Antigos da Mitologia Lovecraftiana. o terrível Ghatanathoa (um dos meus monstros favoritos!)

Completa a edição uma série de extras inéditos: prefácio de Daniel I. Dutra, cartas dos autores, ilustrações de época e arte interna elaborada por Elson Félix.

Sem dúvida um excelente acréscimo ao repertório de histórias de Horror Cósmico com a qualidade da Clock Tower.

Para quem estiver interessado, visite o  Site Lovecraft e adquira o seu.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A Terra da Noite - Clássico da Ficção e Horror em Pré-Venda




"...esta fantasia de noite escura, planeta morto, com o que sobrou da raça humana concentrada ao redor de uma incrivelmente vasta pirâmide de metal, cercada por monstros, híbridos e forças desconhecidas das trevas, é algo que nenhum leitor jamais esquecerá" 


"Uma das mais poderosas peças de imaginação macabra jamais escritas"

H.P. Lovecraft

Lovecraft não estava exagerando: A Terra da Noite (The Night Land) talvez seja um dos maiores trabalhos de Ficção Fantástica escrita no idioma inglês. 

Nessa saga sensacional, se passando num futuro muito distante, o Sol morreu e não concede mais luz e calor, assim como as demais estrelas que se extinguiram. Não resta nenhuma fonte de luz brilhando no firmamento, tudo foi coberto por um manto de escuridão indevassável. Os dias de luz e calor não passam de lendas, contadas como histórias de ninar para tranquilizar as crianças. Os últimos sobreviventes da raça humana ainda tentam sobreviver diante das privações, de um ambiente implacável e de predadores aterrorizantes que espreitam na escuridão perpétua. 

A última grande concentração de seres humanos construiu uma precária sociedade protegida por uma estrutura piramidal gigante erguida em outros tempos e alimentada por uma fonte de energia subterrânea. É ela quem brilha na noite perpétua concedendo alguma segurança. Mas o fim parece cada vez mais próximo a medida que a estrutura dá mostras de que está entrando em colapso e não vai durar muito mais tempo. Breve não restará mais nada capaz de manter a escuridão afastada e então... cairá as trevas!

Com o fim cada vez mais próximo, resta apenas uma desesperada tentativa de lançar uma expedição rumo às Terras Escuras com o objetivo de explorar o que restou do mundo e encontrar um lugar onde os sobreviventes poderão se estabelecer.


A Terra da Noite é uma história de horror e medo, escrita por William Hope Hodgson, autor de "A Casa na Fronteira" (The House in the Borderlands) e criador do detetive sobrenatural Thomas Carnaki. 

Pouco conhecido no Brasil, Hodgson é considerado um dos maiores expoentes do gênero Ficção Fantástica, lembrado por H.P. Lovecraft em seu livro "Horror Sobrenatural na Literatura" e tido por Clark Ashton Smith e Lin Carter como "um mestre da ficção". 

Pelo seu notável grau de descrição, a obra chegou a ser comparada em caracterização e profundidade a clássicos como O Senhor dos Anéis de Tolkien e Duna de Frank Herber. Hodgson produziu várias outras obras inquietantes, mas infelizmente ele morreu cedo, combatendo na sangrenta Batalha de Ypres durante a Primeira Guerra Mundial. 

A Terra da Noite, um de seus trabalhos mais famosos; foi publicada originalmente em 1912, obtendo críticas positivas e elogios pela sua imaginação e estilo inconfundíveis. Como uma obra de fantasia, ele pertence ao subgênero da Terra Morta, novelas que relatavam o ocaso da civilização e do planeta, geralmente num futuro distante. A Terra da Noite é uma obra que expressa uma visão pessimista do futuro com uma narrativa intimista transbordando com elementos sombrios de isolamento e incerteza. Os personagens percorrem um caminho aterrorizante e claustrofóbico no qual não existe esperança ou conforto.   

A Terra da Noite nunca foi publicado em português, mas esse fantástico romance está em Campanha de Pré-Venda, sendo traduzido pela Editora Clock Tower - responsável por vários outros trabalhos de qualidade com obras e autores consagrados do gênero horror e fantasia.

[Para conhecer outros trabalhos da Clock Tower, resenhados aqui no blog, acesse os seguintes links:] 


O livro virá com diversos extras, como "biografia ilustrada do autor", "introdução", "índice remissivo", "ilustrações exclusivas", "nome dos compradores impresso no livro", "exemplares numerados", e outros detalhes exclusivos.

Para saber mais, procure o Site Lovecraft onde está ocorrendo a campanha e a página oficial da 
Editora Clock Tower. Mas seja rápido, a venda vai até o final de Novembro!

Veja aqui o Trailer:



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Terrores Profanos - Os contos de Horror do Mestre Arthur Machen


Um experimento sinistro nas montanhas do País de Gales.

Uma criança nascida de uma comunhão profana!

Um jovem aterrorizado por testemunhar algo incompreensível numa clareira da floresta.

Perturbadores desenhos no caderno de um artista.

Um herdeiro levado à miséria após ser enganado por sua misteriosa esposa.

Uma sucessão de inexplicáveis suicídios na alta sociedade.

"Un succés fou! Un succés fou!" declarou ninguém menos que Oscar Wilde após ter acesso à obra – um sucesso insano. No ano de 1893, a icônica novela de horror fantástico "O Grande Deus Pã" (The Great God Pan) chocou e escandalizou a pudica cena literária britânica, que se sentiu ultrajada e fascinada na mesma medida. 

O Jornal "The Manchester Guardian" chamou a estória de "o mais agudo e intencionalmente desagradável livro escrito no idioma inglês".

Continuou a seguir:

"Nós poderíamos falar mais a respeito, mas qualquer comentário a respeito seria dar publicidade a esse trabalho."

E essass foram algumas das críticas mais leves, claro, houve comentários ainda mais contundentes: "The Lady’s Pictorial", um semanário dedicado a literatura chamou a novela de "inumana", enquanto o "Glasgow Herald" recomendou que "após ler tal coisa, melhor seria desanuviar a mente e limpar os pensamentos com algo mais leve afim de esquecer a experiência". O Literary News, um periódico londrino julgou o livro "doentio demais para ter vindo de uma mente saudável!"

O Grande Deus Pã realmente causou sensação na Sociedade Victoriana!

Sacudiu as estruturas do romance gótico de horror de uma maneira que nem mesmo obras consagradas como Drácula, de Bram Stoker conseguiu. O livro se tornou maldito, várias editoras o recusaram por achar a narrativa absurda e demasiadamente extravagante. Os editores temiam que os leitores pedissem seu dinheiro de volta. Que ficassem enfurecidos. Que queimassem o livro causando assim uma publicidade negativa.


O autor de "O Grande Deus Pã" era um jovem de 30 anos, nascido na parte mais escura do País de Gales, uma terra selvagem e inóspita coberta de florestas ermas que ele conhecida e temia como poucos. Seu nome era Arthur Machen (Fala-se Má-Ken).

Ao longo dos sete anos seguintes, ele iria produzir mais alguns trabalhos, e estes, nas palavras de H.P. Lovecraft estariam um degrau acima de tudo que foi escrito no gênero durante o período, superando tudo o que vinha antes. "Algo que marcou um diferencial na história da literatura".

Lovecraft sabia do que estava falando. Em seu ensaio Horror Sobrenatural na Literatura, ele rende elogios rasgados a obra de Machen e o coloca entre os maiores autores do gênero. Não é à toa que muito do Horror Cósmico, termo cunhado por Lovecraft, bebeu da fonte de Machen que dedicou várias de suas estórias a noção de Deuses Alienígenas, entidades extraterrestres e raças inumanas desaparecidas que habitaram o passado longínquo.

Há algo na obra inteira de Machen que soa estranho, bizarro, perturbador... "The Three Impostors", "The Inmost Light", "The Red Hand", "The Shining Pyramid", "The White People", e é claro, "The Great God Pan" representam uma visão muito particular do que seria o Mal Sobrenatural. Os horrores de Machen são os precursores do estilo lovecraftiano, em intensidade e forma são bastante semelhantes. As criações de Machen reverberam e continuam influenciando a literatura de horror, permanecem atuais e apavorantes mesmo hoje. Stephen King sempre rendeu homenagem a Machen, dizendo que o Grande Deus Pã ainda o aterroriza, passados tantas décadas desde a primeira vez que o leu.


E na boa, quem sou eu para contrariar alguns desses luminares do horror? Na minha opinião, Mache é simpelsmente genial. Um dos autores mais viscerais em sua narrativa e perversos em seus temas. A maneira como as estórias de Machen são construídas vão aumentando um suspense e uma aura de estranheza perceptível. 

Muitos críticos, entretanto, encaram a obra de Machen como um tanto superficial, um resultado da decadência do fim do século XIX que lançou uma sombra pessimista sobre o século que estava prestes a se iniciar. Machen foi um dos pioneiros a introduzir sugestões claras de sexo e luxúria nas páginas de livros que seriam folheados pelas senhoras britânicas em busca de sustos e emoções fortes. Não por acaso, mais de uma senhorita teve de recorrer aos seus sais depois de ler as obras de Machen.

O autor foi um dos expoentes no movimento dos doentios "Livros Amarelos" cujo conteúdo chocava e incomodava os conservadores. Mas se a maioria dos autores dessa vertente se dedicavam a decadência do submundo das metrópoles como Paris e Londres, com láudano e absinto enebriando os sentidos, Machen buscava nas regiões remotas de seu País de Gales as raízes para os medos primitivos, com cheiro de mato e madeira apodrecida. Nas florestas ermas, nas charnecas cujas árvores jamais viram um machado, descritas em suas narrativas em detalhes, habitam os horrores ancestrais e que ao cruzar o caminho dos homens, desencadeiam horrores incomparáveis.

Machen foi acima de tudo um poeta, mas também um estudioso do mundo oculto e espiritual. Ingressou na Ordem Hermética da Golden Dawn, ao lado de outros luminares ocultistas do período por indicação de A.E. Waite. Participava de reuniões e rituais de onde extraía inspiração para suas estórias de horror sobrenatural. Alguns colegas torciam o nariz para suas estórias, achavam que ele estava falando demais, compartilhando seus segredos místicos.

Nascido na região de Gwent, ele tinha medo das florestas verdejantes e dos vales profundos que repousam na sombra das montanhas. Afirmava que nenhum lugar era mais aterrorizante do que sua terra natal. Aos 19 anos, com certo alívio, mudou-se para Londres, mas jamais esqueceu das paisagens rústicas que lhe causavam falta de ar e pesadelos. Forçado a escrever para aliviar a pobreza crônica em que vivia, começou a rascunhar suas primeiras estórias antes de completar 20 anos.


Os editores o achavam estranho e evitavam publicá-lo. Vivia, portanto, em estado de quase penúria. Alimentava-se de pão e chá verde, fumava tabaco barato e por vezes conseguia surrupiar um biscoito de algum vizinho ou amigo. Era, no entanto, muito solitário. Habitava um quarto pequeno no qual se trancava para escrever suas estórias. Passava dias sem ser visto. Atiçava a lareira de seu lar com um único cômodo até que as chamas ficassem quase fora de controle, o quarto fervia com o calor do fogo feroz. Enquanto escrevia, o suor se misturava à tinta que escorria da pena para o papel. 

"O Grande Deus Pã" a obra prima pela qual ganharia fama, foi escrito para aliviar suas aflições. Um colega o aconselhou a colocar no papel as lembranças de sua juventude, vivendo em um lugar que conforme ele descreveu causava "uma sensação permanente de perturbação, mistério e terror". Talvez assim, seus pesadelos pudessem ser exorcizados. Vivendo sua infância no vilarejo medieval de Carleon, um assentamento fundado pelos romanos sob o nome de Isca, Machen acreditava em espíritos da natureza, fadas e seres elementais. Era um entusiasta da história antiga e medievalismo.

Machen desconfiava da beleza, reputava a ela uma qualidade indecifrável e dizia que tudo que era belo em seu íntimo era também perigoso. Boa parte da visão de mal definida por Machen, passa pela noção de que a beleza oculta uma feiura indescritível. Em suas descrições da luxuriante natureza do interior de Gales, é possível enxergar beleza perene, mas há por detrás dela, uma perversidade palpável, bem escondida.

Em outra de suas novelas mais celebradas, a "The Dark Seal", o protagonista se rende a exuberância do interior de Gales e baixa sua guarda diante da armadilha que é o lugar. As cenas pastorais nas quais a natureza parece oferecer o que tem de melhor, sempre contrastam com um medo ancestral, forças quase esquecidas que o homem moderno é incapaz de compreender e enfrentar. As criaturas ancestrais que vivem nas florestas isoladas agem através de suas crianças: o assustador povo pequeno, as nada inocentes fadas silvestres e outros seres que habitam as sombras de sua ficção. São horrores rústicos que o mero vislumbre ocasiona loucura e desespero, bem no estilo dos Mithos de Cthulhu.


A aura de beleza sinistra derivada do interior não está limitada às paisagens, mas integra a própria mecânica do horror criado por Machen. A bela aparência Helen Vaugn, personagem central em "O Grande Deus Pã", evoca "os mais vívidos sentimentos de perversidade". Em determinado momento, um dos personagens se refere a ela como "a mulher mais bela e repulsiva que ele conheceu". Assim como em estórias de vampiros, o mal nas estórias de Machen é extremamente sedutor, oferecendo inúmeros prazeres e descobertas para quem aceitar abraçá-lo.

Os rituais de fertilidade realizados em honra ao Deus Pã se referem a comunhão sexual entre Deuses e Mulheres. Seres chifrudos e beldades de aparência inocente. Algo que deveria ser belo, mas que se mostra aniquilador para a sanidade. Tudo está implícito na obra de Machen, em "The Hills of Dreams" por exemplo, o mal se esconde na beleza onírica, todo um mundo de sonhos que é na verdade um portal para os pesadelos mais vívidos.

Os heróis de Machen são indivíduos inocentes, vivendo existências solitárias, seus vínculos afetivos se resumem a amizade, eles são ludibriados pela beleza e se deixam enganar pela aparência angelical de belas mulheres. Só despertam para o perigo quando é tarde demais e enlouquecem pouco antes de terem suas mentes cooptadas pelo horror.

Na obra de Machen, o universo conspira contra a humanidade, e não há uma força benevolente regendo tudo. Não há um Deus, apenas forças antigas dotadas de desejos que pretendem saciar sua vontade às custas da pobre humanidade. Nesse processo, muitos dos heróis de Machen são reduzidos a testemunhas impotentes, fadadas a um destino tenebroso, o que nos leva a mais um elemento célebre na obra de Lovecraft, a impotência e o fatalismo diante de um universo indiferente.

Anos mais tarde, já gozando de fama, Machen escreveu que seu maior erro como escritor foi constantemente retratar o desconhecido como algo tenebroso e maligno. Hoje parece justamente o inverso, esse não era seu maior erro, sem dúvida foi seu maior acerto. Machen era um mestre em sugerir o horror e raramente mostrá-lo. Além disso, seu horror tinha um status universal, ao invés de ser apenas folclore localizado ou mera superstição.  


O Grande Deus Pan serviu para consolidar a carreira de Machen. Apesar, ou talvez por conta, das críticas em várias revistas literárias, a novela chamou a atenção do público. Muitos compravam o livro justamente por conta do teor sexual e das insinuações de profanidade. O livro chegou a uma segunda edição, algo incomum para autores de fantasia gótica. Com sua carreira deslanchando ele se casou e mudou para uma casa maior.

Na virada do século a morte da esposa, após uma longa luta contra o câncer fez com que ele repensasse vários aspectos de sua vida. Por pouco não abandonou de vez a literatura.

Machen se envolveu com movimentos espiritualistas muito em voga no período e se tornou uma autoridade em Religiões Célticas e Cristianismo Primitivo. Ele escreveu várias dissertações sobre o Santo Graal e a respeito de Lendas Arthurianas. Em 1910, Machen decidiu se dedicar ao jornalismo e se tornou um correspondente internacional para o Evenning News. Em 1914, no início da Grande Guerra, ele viajou para a França e começou a fazer a cobertura dos acontecimentos no front.

Nesse período escreveu importantes obras que foram usadas para promover o patriotismo: "The Bowman" e "Angels of Mons" são seus contos mais importantes do período, mas ele também escreveu a novela "The Terror" e "The Great Return", todos marcados pela fantasia e horror. Nos anos 1920 Machen experimentou o reconhecimento de críticos e fãs, publicou biografias, trabalhos importantes e teve seu nome enaltecido como um dos grandes autores britânicos do período. Ele morreu em 1947 em situação financeira confortável e com grande aceitação popular.


Infelizmente, Arthur Machen é pouco conhecido em terras brasileiras. Poucas de suas obras foram traduzidas para o português e mesmo clássicos de suma importância como "Hill of Dreams" e "The Three Impostors", estão indisponíveis em nosso idioma, contudo o lançamento da Editora Clock Tower (ver release) que acertou na mosca com essa publicação, promete corrigir essa grave falha. A Antologia irá reunir o que Machen tem de melhor.

As estórias de horror e fantasia escritas por Arthur Machen podem ser lidas em noites de tempestade em um quarto silencioso e à meia luz, como manda o figurino para estórias do gênero. Contudo, mesmo durante o dia, em um banco de praça ou num parque, será possível apreciar sua narrativa na qual o horror se apresenta no mundo natural. E se a qualquer momento, você sentir um arrepio ao perceber o formato inusitado de uma nuvem, uma fila de formigas ou o piar de algum pássaro, será por que ele já conseguiu mexer com você.