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segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Gênio Imortal - A Misteriosa Morte de Edgar Allan Poe


Sempre existiu uma ligação bem próxima, ao menos no que diz respeito a cultura popular, entre criatividade e estranheza. Recentemente alguns círculos médicos parecem concordar com esse vínculo incomum, de fato, existe. Genialidade caminha de mãos dadas com excentricidade

Associar estranheza a genialidade é algo que ocorre com impressionante frequência. Os mais brilhantes pintores, compositores, musicistas, escultores, poetas, dramaturgos e personalidades em tantos outros campos da arte, não raramente são pessoas complexas, cuja existência é marcada por notáveis desdobramentos e reviravoltas que os colocam em uma categoria de pessoas diferenciadas. 

Na literatura isso é especialmente verdadeiro.

Existem incontáveis figuras na literatura que se encaixam na persona do gênio incompreendido... alguns mais que outros. 


Certos nomes vêm facil à mente: Ernest Hemmingway certamente, William Shakespeare definitivamente era peculiar, assim como Charles Dickens, Leon Tolstoy, George Orwell, Sir Arthur Conan Doyle, H.P. Lovecraft, e muitos, muitos outros. Há no entanto um que se destaca mesmo entre os seus pares: Edgar Allan Poe.

Além de ser um escritor brilhante, Poe foi em vida muitas coisas: um beberrão, um excêntrico e na concepção de muitas pessoas que o conheceram, um indivíduo enigmático.

A morte de Poe trouxe alguns questionamentos e mistérios que contribuíram para realçar sua já bem estabelecida reputação. 

Um dos mais populares mistérios a respeito de Poe, envolve o trágico episodio do Mignonette. Este era o nome de uma embarcação britânica que afundou no Cabo da Boa Esperança perto da África do Sul em 5 de julho de 1884. Quatro de seus tripulantes acabaram em um bote salva-vidas e resistiram por  semanas com pouca comida e água fresca. Quando a situacao se tornou desesperadora, os três marinheiros mais velhos decidiram matar e se alimentar do mais jovem e inexperiente entre eles. Um jovem marujo chamado Richard Parker, foi estragulado, esquartejado e devorado pelos seus companheiros. Uma historia terrível com certeza, uma que resultou em uma lei náutica que isentava homens submetidos a esse tipo de suplício de punição por cometerem o supremo tabu da civilização: o canibalismo.

Mas qual a ligação disso com Poe, você deve estar se perguntando.


O caso descrito é um evento real, mas também é o roteiro de uma obra escrita por Poe 50 anos antes. 

Na novela publicada no ano de 1834 com o título "A Narrativa de Arthur Gordon Pym de Nantucket", Poe conta uma historia ate entao ficcional sobre o marujo Arthur Gordon Pym. As aventuras se desenvolvem em tres diferentes navios onde ocorre um naufrágio, um motim e um ato de canibalismo.

Até aí, nada de mais, afinal coincidencias acontecem. No entanto a coisa é mais estranha do que mera coincidencia. Os detalhes descritos na novela de Poe parecem um roteiro perfeito dos acontecimentos reais meio séculos mais tarde. 

A forma como o navio afunda, os detalhes da jornada, a forma como os homens decidem cometer o canibalismo... tudo é idêntico. Estranho? Bem, não é apenas isso!

O personagem que é morto e devorado é um pobre e inexperiente marinheiro cujo nome é... Richard Parker! Exatamente o mesmo nome do marinheiro que sofreu o mesmo fim. 


Alguns sugerem que as coincidencias nao param por ai... que o nome do navio naufragado, Grampus, em algumas versões era Minouette, um nome muitíssimo parecido com Mignonette. Tanto na ficção quanto na realidade os dois navios eram baleeiros, ambos em uma viagem que partiu de Boston com destino a Hong Kong.

As similaridades são surpreendentes. Outra curiosidade é que quando perguntado por um amigo de onde veio a inspiração para sua história, Poe teria dito: " É o tipo de coisa que homens do mar poderiam enfrentar. De fato, é algo que não me surpreenderia se viesse a acontecer".

Mas este não é o unico mistério envolvendo Poe.

Edgar Allan Poe morreu de causas desconhecidas em 7 de outubro de 1849 trancafiafo em uma instituição médica de segurança. Ele foi colocado lá depois de ser achado em um banco de parque no centro de Baltimore, Maryland. Testemunhas disseram que o autor parecia agir como um lunático a pelo menos quatro dias. Ele foi tratado pelo Dr. Joseph E. Snodgrass, qie descreveu seu estado como desmazelado e delirante. Uma vez em custódia de médicos, Poe ganhou e perdeu consciência mas nunca reczluperou suficientemente a lucidez parar relatar o que estava sentindo.
Ele morreu por volta das 5 da manhã.

Durante sua breve convalescença, Poe gritou e implorou para que os médicos nao permitissem que alguém chamado Reynolds viesse vê-lo. Ele também fez referencias incoerentes sobre uma esposa que viveria em Richmond, apesar de que sua verdadeira esposa, Virginia, tivesse morrido alguns anos antes. Poe teria gritado loucuras e dito que "Reynolds viria aquela noite, para levá-lo ou matá-lo".


Uma das últimas coisas que ele teria dito e que foi registrada por uma enfermeira foi:

"Se Reynolds me alcançar, avise minha esposa em Richmond. Não deixem que me leve... coloquem uma arma na minha cabeca e estourem meus miolos".

É de conhecimento público que Poe foi em vida um alcólatra, ainda que muitos acreditem que a fama era exagerada principalmente pela campanha de um desafeto chamado Rufus Wilmot Griswolt. Muitos acreditam que os momentos finais de Poe foram reflexo de uma bebedeira e que seu estado geral era causado pelo álcool. Mas nem todos biógrafos concordam com isso!

Há teorias surpreendentes sobre esses acontecimentos finais. Embora muitos acreditassem que ele havia bebido excessivamente, outros apontavam para algo mais sinistro: uma tentativa de suicídio ou ate de homicidio por envenenamento.

Poe teria acumulado um número considerável de inimigos que o detestava, isso seme mencionar desafetos e credores que juraram ir a forra com ele. 

Mas poderia haver algo mais... em 3 de outubro, quando Poe foi encontrado ocorreu uma eleição em Baltimore. Alguns acreditam que Poe pode ter sido agredido por expressar críticas a algum candidato. Naquele dia, uma grande confusão irrompeu durante um discurso que resultou em um quebra quebra que se espalhou pela área em que elee foi achado horas mais tarde. Alguns afirmaram que Poe teria sido golpeado por uma garrafa e surrado, o que causou seu estado de confusão mental.


Contudo os médicos que o atenderam não relataram ferimentos em seu corpo que pudessem comprovar essa teoria. 

Outra questão central que poderia explicar os acontecimentos é quem seria o Reynolds que ele parecia temer tanto. E é entao que a história fica ainda mais estranha misturando ficção e realidade de maneira trágica. 

Para alguns amigos e biógrafos, Poe contou estar trabalhando em uma novela ambiciosa que infelizmente ele jamais foi capaz de concluir. Essa novela envolveria personagens diabólicos e uma trama macabra com um personagem detestável chamado... Reynolds. 

Poe teria contado a seu editor e empresario que estava animado com o rumo de sua historia e que esperava concluí-la em breve. Ele revelou que um dos personagens da trama o assustava e assombrava, um vilão chamado Reynolds. 

Teria Poe, num estado debilitado (induzido por álcool, veneno ou ferimento contundente), delirado sobre o personagem de sua trama inédita? Teria ele alucinado em seus momentos finais, sendo levado a acreditar que se encontrava em perigo, ameaçado por um personagem que existia apenas em sua mente criativa?

O misterio de Reynolds, seja ele quem for continua sendo um enigma investigado por biógrafos e estudiosos de Poe. A grande verdade é que ninguem sabe o que aconteceu nos dias finais do genial autor. Poe, um escritor que conseguiu tocar as partes mais escuras da literatura deixou um grande legado com sua obra. Seus contos, novelas e poesia permanecem como uma exploração única da crueldade e depravação humana. 

Seria de se esperar que a morte dele fosse outra coisa além de incomum?

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Invocação da Bruxa - Resenha do romance clássico de Fritz Leiber pela Darkside


Uma das melhores coisas sobre escrever resenhas é ter a chance de conhecer mais a fundo a obra de escritores consagrados. 

Tudo bem, Fritz Leiber não é lá muito conhecido no Brasil e muitos provavelmente dirão nunca ter ouvido falar dele, mas ele produziu material de primeira. Nos anos 30 e 40 suas histórias de horror sobrenatural estavam nas principais Pulp Magazines do período. Leiber também transitou por algum tempo no universo dos Mythos, explorando com maestria o horror de deuses ancestrais, cultos fanáticos e horrores inomináveis. Nas histórias de Fritz Leiber não faltavam castelos góticos, tumbas sobrenaturais e heróis destemidos que enfrentavam monstros tentaculares. Sua obra mais famosa no entanto foi a série Lankmar, agraciada com o Hugo Awards. Na sua ambientação a dupla de aventureiros Fafhrd e Grey Mouser exploravam o submundo de uma cidade fantástica enfrentando feiticeiros e ladrões rivais. Lankmar ajudou a definir a Fantasia e sedimentou o subgênero Espada e Feitiçaria

Eu sempre gostei do estilo de Leiber e por isso fiquei muito interessado na notícia de que um dos seus livros mais famosos, Invocação da Bruxa (Conjuring Wife) seria publicado no Brasil. A edição caprichada sai pela Editora Darkside corrigindo o grande absurdo que era esse romance jamais ter sido traduzido por aqui. 

Invocação da Bruxa é um clássico do terror que foi adaptado nada menos do que três vezes para o cinema (em 1954, 1962 e 1980). É também um conto sobre a linha nebulosa que conecta o mundo real com os reinos misteriosos do oculto. Eu fiquei interessado, sobretudo porque "Burn Witch! Burn" a versão dos anos 60, é um excelente filme que foi inspirado nesse romance. O autor alterna com familiaridade o universo do sobrenatural, misturando-o com o cotidiano suburbano dos Estados Unidos dos anos 1950.


Na trama, Norman Saylor é um racional professor universitário que tem uma vida bastante comum ao lado de sua bela esposa Tansy, ao menos até ele fazer uma descoberta inusitada. Norman descobre estranhos objetos que eram mantidos em segredo na penteadeira da esposa: são potes com terra de cemitério, ingredientes exóticos, talismãs mágicos e relíquias bizarras guardadas em gavetas trancadas. Tansy pega o marido curioso em flagrante, e a discussão sobre o que são aquelas coisas a faz admitir algo inesperado. Ela não apenas é uma praticante de feitiçaria, como sempre foi uma Bruxa. Mais do que isso, ela usou magia negra para proteger o marido de maldições intentadas por outras bruxas. 

Sem acreditar na explicação de Tansy, ele convence a esposa a queimar os objetos e se livrar daquela coleção de tranqueiras supersticiosas. Mas será que a racionalidade de Norman conseguirá explicar as coisas estranhas que começam a acontecer dali em diante? Sua vida e carreira parecem ser afetadas por incidentes inexplicáveis. Isso sem falar de uma cabala maligna que parece planejar sua morte. Ele estará disposto a aceitar que os talentos de Tansy são a única que pode salvá-lo dessa ameaça sobrenatural?  

Invocação da Bruxa é um romance de terror interessante pelo fato de não parecer um romance de terror. O livro parece se concentrar mais no impacto psicológico e social do ocultismo do que nas forças sobrenaturais em si. Norman é um professor de sociologia, um típico homem de ciência que não crê no paranormal. Ele mantém uma convicção inabalável de que a magia reside apenas na mente fraca e supersticiosa dos tolos.


Ao longo do romance, Norman tenta racionalizar cada incidente perturbador sem dar o braço à torcer. A cena que melhor exemplifica seu ceticismo se passa na sala de estar da casa dos Saylor. Tansy fica cada vez mais angustiada com a ideia de que feiticeiras estão usando magia negra contra seu marido desprotegido pela remoção de seus feitiços de proteção. Ela então recorre a um intrincado ritual para salvá-lo de uma entidade aterrorizante que o persegue com intento assassino. 

A teimosa do protagonista em reconhecer os poderes agindo nas sombras poderia ser irritante, mas é ela que nos conecta a um dos temas centrais da trama: a suspensão de descrença. Se fôssemos colocados em uma situação parecida, será que seríamos capazes de acreditar no inexplicável? Ou assim como Norman buscaríamos, quaisquer explicações mais razoáveis? 

O romance aborda outra noção interessante. No mundo de Invocação da Bruxa, muitas mulheres possuem sensibilidade para o mundo oculto e aprendem como manipular essas forças passando o conhecimento de mãe para filha. Elas aprendem a defender suas famílias de ataques mágicos de rivais e a proteger seus maridos do mal que incide sobre eles. Ao mesmo tempo há feiticeiras inescrupulosas que usam os poderes para o mal. Há todo um mundo invisível e perigoso que os homens sequer podem imaginar. Eventualmente, Norman e Tansy terão de aceitar o ponto de vista um do outro, respeitar suas crenças e se comprometer a trabalhar juntos se quiserem escapar da ameaça que os cerca.


Leiber conta a história em alguns momentos como se fosse um romance de relacionamento, mas o suspense e a estranheza estão sempre à espreita abaixo da superfície de aparente normalidade. Os verdadeiros horrores são mais insinuados do que mostrados abertamente. A cabala é ardilosa, agindo de forma astuta se aproveitando da incredulidade de Norman para fazer dele um alvo. O leitor da mesma maneira é levado a duvidar se as ameaças são reais ou se não passam de simples superstições.

Fritz Leiber escreve bem, mas seu estilo detalhista pode soar excessivamente rebuscado para alguns leitores. Eu francamente não me importo, ele narra a trama com maestria. Os personagens são interessantes e você se importa com eles e as situações compelem o leitor a ler sem parar querendo saber o que vai acontecer em seguida.  

Invocação da Bruxa não é uma história aterrorizante de Horror, não se trata de um Folk Horror ou algo do gênero, como nos habituamos a encontrar em histórias centradas em magia negra. Mesmo assim, a trama é decididamente atraente e vale a pena ler.

FICHA TÉCNICA:

Invocação da Bruxa (Conjuring Wife), 1953
Editora DarkSide
Tradução de Eduardo Castro
Ano de Lançamento: 2025
190 páginas

Página oficial da Darkside: 



quarta-feira, 1 de maio de 2024

Resenha de "Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft"


Atualmente H.P. Lovecraft pode ser encontrado em todos os cantos.

Suas histórias são constantemente editadas e lançadas em edições tanto simples quanto de luxo, comentadas ou repletas de análises. Lovecraft vende bem, e vende como jamais vendeu... suas antologias de contos e novelas figuram num lugar importante das prateleiras e são cada vez mais populares.

Mas esse fenômeno não está apenas na literatura! Suas criações figuram em inúmeras mídias, seja em filmes, séries de televisão, quadrinhos, jogos de computador e tabuleiro, RPG, música e até bichos de pelúcia! Lovecraft e suas criaturas indescritíveis conquistaram um lugar no imaginário e na cultura pop que o autor jamais poderia imaginar. Se o seu maior sonho era estar ao lado de Edgar Allan Poe, com uma obra enaltecida e admirada, hoje, ele conseguiu mais do que isso.



Não deixa de ser curioso como um autor obscuro como Lovecraft, que em vida vendeu alguns poucos contos e foi recusado várias vezes, jamais conquistando reconhecimento, tenha chegado onde chegou. De fato, considerando sua curta carreira, tudo levava a crer que ele seria esquecido ou lembrado apenas por um inexpressivo grupo de fãs. Mas numa reviravolta notável do destino, ele continua ganhando público e atraindo a atenção dos críticos.

Entretanto não apenas a obra de Lovecraft é muito debatida; sua vida também é alvo de constante escrutínio. Nesse aspecto, biografias são essenciais para lançar uma luz sobre a existência de pessoas tão interessantes. Biografias abordam a origem, como pensavam, qual a postura na época em que viveram, sua contribuição e finalmente o legado deixado para a posteridade.  

Nesse pormenor, "Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft" não é apenas um biografia historicamente bem fundamentada e um exame criterioso da existência do autor, mas uma ponte que permite conectar o legado de Lovecraft às tendências atuais do mundo do entretenimento. O responsável por esse trabalho, W. Scott Poole é historiador e um pesquisador dedicado ao gênero horror e a cultura popular. Com uma habilidade notável ele cumpre seu objetivo reunindo informações e dados sem jamais ser repetitivo ou chato. 



Muita gente pode dizer que não resta muito sobre a vida de Lovecraft que vale a pena ser debatido. Mas se enganam! Poole produz uma obra vibrante que disseca tanto os aspectos mais conhecidos quanto os mais obscuros da vida do Cavalheiro de Providence, mostrando que ainda há muito sobre ele que precisa ser discutido.

Certamente Poole não é o primeiro pesquisador à se debruçar sobre a vida peculiar do Sr. Lovecraft. O diferencial é que sua narrativa se concentra nos fatos, em detrimento dos mitos e dos preconceitos. A maioria dos livros sobre Lovecraft servem a um desses dois propósitos: glorificar seu legado ou fornecer uma crítica ferina quanto a sua mentalidade retrógrada. Autores como S.T. Joshi e August Derleth dedicaram suas vidas (e muitas linhas) para promover o papel de H.P. Lovecraft como expoente do terror e pioneiro no Horror Cósmico, enquanto encobriam suas características menos desejáveis. Na mesma medida que é indiscutível a importância do autor, também é impossível esconder seu preconceito latente e suas crenças raciais.

O mérito de Poole é caminhar na linha tênue entre esses dois campos. Ao longo de Necronomicon, ele mostra consistentemente aspectos positivos e negativos de Lovecraft como pessoa. Ele consegue atingir essa meta devido a precisão histórica. Ele admite que S.T. Joshi provavelmente é o mais dedicado pesquisador de Lovecraft, mas a sua análise é comparativamente mais isenta e rica. De fato, reside nas qualidades e defeito do indivíduo o grande trunfo desse trabalho. O resultado é uma biografia deliciosa de ler.



Na mesma medida que Poole enaltece a criatividade e o estilo do autor, tecendo comentários elogiosos, mantém um distanciamento sadio que permite criticar as partes desagradáveis que permeiam sua obra. Como não poderia deixar de ser, a polêmica do preconceito de Lovecraft é visitada frequentemente em Necronomicon. Poole argumenta contra a teoria de que Lovecraft seria um produto de seu tempo, mostrando que alguns de seus colegas escritores tentavam se dissociar das teorias raciais por ele alardeadas. No entanto, chama atenção para o fato de que Lovecraft tinha amigos muito próximos que sustentavam opiniões contrárias às dele, ou, que até mesmo eram membros desses grupos que ele detestava. Como Lovecraft equilibrava isso, demonstra sua dualidade de ideias. 
   
Poole também detalha o papel marcante das mulheres na vida de Lovecraft, desde sua mãe e tias até sua esposa. Falando de sua esposa, Sonia Greene, vemos um exemplo perfeito da especificidade de suas tendências racistas. Ao mesmo tempo que ele era venenoso contra imigrantes, Lovecraft respeitava enormemente sua mulher. E embora o matrimônio estivesse fadado a não durar, eles mantiveram uma longa amizade e respeito mútuo. O fato dele ter desposado uma mulher de descendência judia também ressalta como seu pensamento era contraditório. O livro também aborda de forma convincente que a mãe de Lovecraft não desempenhou um papel negativo em sua vida, ao contrário do que sustentam muitos biógrafos. Apontando para numerosos eventos documentados, Poole mostra como a mãe de Lovecraft, ao permitir que seu filho satisfizesse todos os seus interesses incomuns, deu-lhe a base perfeita para se tornar um autor revolucionário.

À medida que o livro avança para suas conclusões, Poole mapeia um vasto panorama do legado do autor e de como ele influenciou gerações futuras. Sua análise expõe como a obra do Cavalheiro de Providence conquistou seu espaço adaptando-se aos mais variados meios de entretenimento. Esse capítulo inteiro ajuda a entender a influência de Lovecraft (e por tabela de Cthulhu) na cultura pop atual.   



Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft foi lançado recentemente pela Editora Darkside em uma edição extremamente caprichada com o Selo Macabra. Para quem conhece a qualidade das publicações da Darkside nem é preciso mencionar o belíssimo acabamento, mas não tem como passar batido sem falar desse livro em especial. Tudo nele, da capa às ilustrações, da diagramação à tradução de Ramon Mapa, está perfeito! É um prazer folhear as páginas e se deixar absorver por um trabalho gráfico simplesmente irretocável.

Necronomicon vem com um excelente Prefácio do próprio Ramon Mapa e conta com alguns acréscimos exclusivos para a edição nacional. Temos notas, uma cronologia dos contos escritos por H.P. Lovecraft, um artigo sobre o fictício Necronomicon (com ilustrações raras de Robert Bloch) e a versão do próprio Lovecraft para a história do tomo profano.

A Darkside já conta com dois volumes de contos de H.P. Lovecraft em seu catálogo e essa biografia é o complemento perfeito para aprofundar o leitor (tanto o neófito quanto o fã já experimentado) nos pormenores da complexa vida desse gênio do Horror moderno.

Eu não poderia recomendar mais um lançamento sobre o autor!

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Falecimento de Brian Lumley - Autor do Mythos e criador de Horrores Modernos


Essa semana soubemos da triste notícia do falecimento de Brian Lumley (1937–2024). 

Brian era um dos mais aclamados escritores fantásticos de sua geração. Ele recebeu o prêmio World Fantasy pelo conjunto de sua obra e o prêmio pelo conjunto de sua obra da Horror Writers Association. Prêmios de grande prestígio concedidos aos mais destacados autores do gênero Fantasia Fantástica.

No início de sua carreira, Brian se dedicou aos Mythos de Cthulhu

Em 1971 ele escreveu "The Caller of the Black", publicado pela Arkham House de August Derleth. A partir dali, passou a escrever peças importantes que ajudaram a expandir a mitologia criada por H.P. Lovecraft, contribuindo para aumentar o repertório de horrores indizíveis. A visão única e inspiradora de Brian a respeito de entidades do Mythos como Azathoth e Nyarlathotep foi desafiadora, inventiva e inspiradora. O ciclo de romances sobre a Terra dos Sonhos (Dreamlands), começando com Hero of Dreams (1986), construiu e expandiu as histórias fundamentais de Lovecraft com entusiasmo adicional e uma pitada de fanfarronice.


As criações de Brian foram rapidamente incorporadas ao RPG Chamado de Cthulhu, notadamente os monstruosos Chthonians, os Grandes Antigos Shudde M'ell e Yibb-Tstll, bem como alguns tomos de conhecimento profano favoritos dos fãs, como Cthaat Aquadingen, G'harne Fragments e Unter Zee Kulten

O conto de Brian, “The Running Man”, também apareceu nas páginas do agora esgotado Green and Pleasant Land, um suplemento britânico de Chamado de Cthulhu produzido sob licença pela Games Workshop em 1987. “The Mirror of Nitocris” de Brian também pode ser encontrado nas páginas da edição 13 da revista Imagine - onde muito conteúdo foi dedicado ao RPG. A base dessa história foi usada em um capítulo da megacampanha Máscaras de Nyarlathotep.

Eventualmente Brian se afastou dos mitos de Lovecraft e criou seus próprios mitos, dedicando-se a um tema que sempre o fascinou: vampirismo. Iniciando com a série Necroscope (1986), ele construiu uma visão única ao tema de mortos-vivos que por sua vez inspirou a criação de um RPG de mesa Necroscope em 1995. As criações de Brian foram fundamentais não apenas em um, mas em dois famosos jogos de RPG.


Além de seus romances, os variados e perspicazes contos e novelas de Brian apareceram em dezenas de antologias e coleções. Um tanto na linha dos heróis de Robert E. Howard, os personagens de Brian tendiam a ser capazes e fortes, e mais propensos a rir diante do perigo em vez de desmaiar ao ver os monstros de Cthulhu.

Infelizmente, Brian Lumley é mais um dos grandes escritores do Fantástico pouco conhecido no Brasil. Quase nada de sua vasta obra chegou a ser publicada por estas bandas e seu nome é quase desconhecido, mesmo entre os fãs do gênero. Para ler as histórias de Lumley é preciso recorrer a livros importados com seu nome ou ter a sorte de encontrar um dos seus contos em alguma antologia. Foi assim que consegui ter meu primeiro contato com esse Mestre do Terror. 

Eu indico "The Burrowers Beneath" romance sobre terríveis monstros subterrâneos como uma de suas obras mais atraentes, mas toda série dedicada ao seu principal herói, Titus Crow, é de primeira grandeza. Burrowers apresenta Titus Crow, Henri de Marginy, a raça Chthoniana, a Fundação Wilmarth e moderniza as criações de H.P. Lovecraft, funcionando para que os recém-chegados entendam todas as referências feitas. É um romance caótico, mas no bom sentido, que trata de grandes questões, conspirações e horrores primordiais. Francamente, poucos autores conseguiram fazer a transição dos conceitos originais de Lovecraft para os dias atuais com a genialidade de Lumley.

Fica a dica para as editoras nacionais que buscam trazer histórias de qualidade e autores consagrados ainda inéditos. Brian Lumley é um mestre inquestionável que vale a pena conhecer.


sexta-feira, 28 de julho de 2023

Revisitando Lovecraft - Relemos o Conto "A Coisa na Soleira da Porta" (1933)


Depois de um longo hiato, estamos de volta com Revisitando Lovecraft, no qual fazemos uma segunda leitura em algum conto clássico do Cavalheiro de Providence em busca de detalhes e curiosidades que nos escaparam.

Hoje vamos nos concentrar em uma de suas últimas histórias, escrita em Agosto de 1933 e publicada apenas em janeiro de 1937, numa edição da Weird Tales. É uma das mais curiosas histórias de Lovecraft já que toca em assuntos delicados, introduz uma vilã quase perfeita e investe pesado em descrições tão evocativas que é impossível evitar um arrepio no final. Estamos falando de "A Coisa na Soleira da Porta" (The Thing on the Doorstep) um conto cheio de maldade, reviravoltas e um final que na época era bem pouco previsível para os leitores.

Sem perda de tempo, vamos começar com a Sinopse, deixando claro que teremos enormes SPOILERS sobre a história e que se você não leu e não quiser ter sua diversão estragada, pare nesse momento (mas volte mais tarde).

Ainda conosco?

Então vamos lá com a...

SINOPSE:

Daniel Upton está prestando um depoimento para a polícia explicando por que ele matou seu melhor amigo. Ele descreve as origens de sua incomum amizade com Edward Derby, quando Derby era uma criança diferente: frágil, brilhante e obcecado pelo macabro.

Anos mais tarde, Derby conhece Asenath Waite quando ele tem 38 anos e ela 23. Ela é da sinistra cidade de Innsmouth e demonstra interesse no misticismo e oculto. Na escola, ela era capaz de encarar as pessoas e dar-lhes uma sensação incômoda e inexplicável. Isso foi geralmente atribuído a uma estranha habilidade hipnótica. Seu pai o velho Ephraim (recentemente falecido) tinha uma reputação desagradável que lhe valeu o apelido de "Mago".

O jovem Edward Derby recém casado

Edward e Asenath se casam rapidamente e se estabelecem em Arkham. Upton vê pouco deles ao longo dos dois anos seguintes. No entanto, ele ouve que Derby começou a agir estranhamente. Por exemplo, embora ele não soubesse dirigir anteriormente, agora é visto frequentemente acelerando um possante automóvel para fora da cidade com um olhar determinado em sua expressão.

Quando Upton o vê novamente, Derby sugere insatisfação com o casamento, a ponto de temer por sua vida. Rumores estranhos abundam. Um amigo vê Asenath espiando de uma janela do andar de cima quando ela supostamente deveria estar fora da cidade. Derby começa a falar mais diretamente sobre os horrores que viu e dá dicas de que o velho Ephraim pode não estar realmente morto. Às vezes ele suspeita que Asenath possa estar usando alguma forma de controle mental para limitar suas comunicações e controlá-lo. 

Certo dia, Derby cambaleia para fora de uma floresta no Maine, delirando sem dizer coisa com coisa, lembrando-se apenas o suficiente para enviar um telegrama para Upton. Upton vai ao seu encontro e ouve os devaneios do amigo sobre os mitos antigos e coisas que fazem pouco sentido. Derby teme Asenath e suspeita que ela pretende roubar seu corpo. Além disso - ele finalmente admite a suspeita de  que a esposa é na verdade o velho Mago Ephraim. Este passou sua mente para o corpo da própria filha e depois envenenou seu antigo corpo com ela habitando sua casca velha e cansada. Upton suspeita que Asenath está usando algum poder mental contra Edward e que ele está enlouquecendo. Ele diz que o ajudará a se separar da mulher. 

Antes porém, algo horrível acontece. A voz de Derby é ouvida, em um estridente grito de horror enquanto ele delira. Um tipo de descarga mental ou onda telepática o atinge em cheio. O rosto de Derby se contorce quase irreconhecível por um momento, enquanto seu corpo passa por tremores - como se todos os ossos, órgãos, músculos, nervos e glândulas estivessem se reajustando a uma postura radicalmente diferente.

Asenath Waite Derby, a noiva

Upton reage com horror diante do ocorrido, sente que seu amigo está em enorme perigo. A figura ao seu lado parece cada vez menos com um amigo de toda a vida e mais com um louco desvairado, alguém tocado por forças cósmicas desconhecidas e malignas. Posteriormente, mais tranquilo, Derby se desculpa por sua súbita explosão, atribui o colapso ao "excesso de trabalho" e promete a Upton que ficará bem depois de algumas semanas de descanso.

Derby de fato desaparece por algumas semanas enquanto Upton hesita ponderando sobre o que aconteceu ao amigo. Até que ele aparece novamente afirmando ter organizado suas próprias defesas psíquicas que baniram a presença que o havia dominado. No entanto, Derby continua sob ataque e seu humor oscila descontroladamente. Por fim, ele tem um colapso o que leva Upton a interná-lo às pressas no Asilo Arkham.

Depois de algumas semanas, o Asilo o contata para dizer que a razão de Derby retornou ao normal, embora sua memória esteja irregular. Ele deverá ser liberado em uma semana. No entanto, quando Upton visita o amigo, reconhece que sua personalidade foi alterada e que há uma "inefável hediondez cósmica" no amigo. Ele volta para casa extremamente preocupado.

Naquela noite, Upton ouve batidas em sua porta - no padrão que Derby sempre usava para se anunciar. Ao abrir a porta se depara com uma "coisa anã, grotesca e malcheirosa" que mal parece viva. A coisa na soleira lhe entrega uma carta escrita na caligrafia de Derby na qual confessa que matou Asenath/Ephraim. Entretanto, mesmo na morte, a mente de Ephraim sobreviveu, e através de um ritual possuiu o corpo de Derby permanentemente - deixando-o habitando aquele cadáver decrépito. Derby implora a Upton para matar a coisa em que ele está preso. Ele pede também que o amigo mate Ephraim que está em seu verdadeiro corpo e que em seguida ele seja cremado.

Upton faz conforme o amigo lhe pediu. Ele encontra Derby, cujo corpo está sendo comandado por Ephaim e desfere contra ele disparos mortais. Mais tarde o cadáver achado na porta de sua casa é identificado como pertencente a Asenath e ele pondera sobre os terrores inacreditáveis do mundo.

Ilustração original no conto

DISSECANDO O CONTO:

O que é Tipicamente Lovecraftiano: 

Lovecraft está em seu ápice descritivo em "A Coisa na Soleira da Porta". Ele usa algumas de suas palavras favoritas, sobretudo enquanto descreve as ruínas nefastas nas profundezas dos bosques do Maine.
 
O que é Degenerado:

O povo de Innsmouth faz uma aparição especial nesse conto. Lovecraft descreve Asenath como "não inteiramente humana", tratando-a mais como uma coisa, resultado de hibridização do que uma pessoa. De fato, ele diz repetidas vezes que Asenath/Ephrain desejavam ser humanos e que não poderiam sê-lo se continuassem habitando o corpo de Asenath. Há insinuações de que ela estaria também envelhecendo, tornando-se velha antes do tempo. Talvez o corpo dela se consumisse em face da presença de Ephraim o habitando, talvez existisse algum tipo de prazo de validade para os corpos reivindicados. A degeneração, nesse caso, é clara e tem grande importância na trama.

Além de Asenath e Ephraim, existem mais três personagens claramente degenerados, todos eles "Gente de Innsmouth", nascida após a barganha blasfema que os habitantes daquela cidade fizeram com os Abissais. Parece bem óbvio, quando Lovecraft cita "os olhos esbugalhados" e o "peculiar cheiro de peixe" que os três criados são híbridos em transformação.

A degeneração de Derby é um tanto diferente. Lovecraft não cita diretamente o que se passa com o protagonista do conto, mas fica claro que ele não é "inteiramente normal". Mais sobre isso, nos comentários.

O que Pertence aos Mythos:

Embora os Mythos não apareçam fisicamente na história, eles são mencionados em vários momentos.

As palavras de Edward Derby, em um devaneio tresloucado sobre o que ele foi forçado a ver e testemunhar dão conta de horrores além do tempo e espaço. Ele cita um lugar perdido nas Florestas inexploradas do Maine, onde uma antiga ruína esconde uma escadaria de 600 degraus, e esta leva até um portal oculto. O nome de Shub-Niggurath é citado, assim como um altar no qual ela se encontra e no qual uma figura encapuzada rende a ela homenagens. Parece claro que estamos diante de um templo e de cultos que lá se reúnem para honrar a Cabra com mil filhos.


E também há Shoggoths! Os Shoggoth estão entre as criaturas mais abomináveis da ficção lovecraftiana e a conexão feita entre eles e Shub-Niggurath nesse conto aponta para um caminho diferente do que havia sido descrito até então sobre sua origem e a quem eles deviam lealdade. É justamente um vislumbre dos shoggoth que causa a loucura que consome Derby e faz com que ele fuja em disparada pela floresta.

No início do conto, Lovecraft descreve um grupo de estudantes boêmios da Miskatonic envolvidos em experimentos sobrenaturais. Esse grupo se dedica a estudar magia negra, feitiçaria e outras vertentes do ocultismo clássico. Lovecraft não esconde um certo desdém a eles, no sentido que eles não passam de iniciantes e curiosos. Ainda assim, esses grupos de estudantes tem uma função importante na trama, já que é através deles que Derby conhece Asenath.

Tomos e Livros Blasfemos:

"A Coisa na Soleira da Porta" permite que Lovecraft abra as portas de uma vasta biblioteca de tomos esotéricos.

Primeiramente, ele introduz o livro de poesias "Azathoth e Outros Horrores", escrito pelo próprio Edward Derby a partir de suas consultas de livros mais potentes na Biblioteca de Miskatonic.

Mas há muitos outros: Lovecraft cita pela primeira vez o "Povo do Monolito" de Justin Geofrey, o Livro de Eibon, o Unaussprechlichen Kulten de von Junzt, e é claro, o célebre Necronomicon de Abdul Al-Hazred (o Árabe Louco). De fato, o segredo de troca das mentes e roubo do corpo é encontrado nas páginas do Necronomicon, ainda que Derby não diga exatamente onde.

Por curiosidade, esse volume, consultado por Ephraim é o mesmo que pertence ao acervo da Miskatonic University. É o mesmíssimo livro que Wilbur Whateley pede acesso em "O Horror de Dunwich" e consulta até que o bibliotecário, o Henry Armitage, proíbe o acesso a ele.   

O que é Insano:

Temos um bom número de cenas em que Edward Derby vai escorregando lenta e gradualmente para a loucura.

Cada vez que ele é tomado por Asenath/Ephraim sua razão se perde e ele tem um choque crescente à medida que sua mente é transportada de um corpo para o outro. Para piorar ainda mais a sua situação, ele é levado para presenciar rituais e testemunhar coisas horrendas que terminam por dilapidar sua razão. Derby nunca foi exatamente um sujeito com força de vontade, mas essa sucessão de traumas acaba lançando-o numa espiral de loucura cada vez maior.

A forma como ele implora no final do conto, para que Upton mate a coisa que habita seu corpo e depois o incinere, demonstra a que ponto chegou a sua desesperança em se ver livre da ameaça que paira sobre ele.

Ah, e temos o Asilo Arkham figurando de forma proeminente na história, quando Upton assina os papéis para a institucionalização de Derby que estava cada vez mais instável. De fato, os psiquiatras do Arkham parecem prestar um bom trabalho ajudando-o a recobrar a sanidade. Ainda assim, eles são incapazes de entender o que realmente se passa e que a personalidade de Derby mudou consideravelmente. 

Comentários:


- Vou ser sincero, quando li pela primeira vez "A Coisa na Soleira da Porta”, concentrei-me em seus horrores mais tradicionais: feitiçaria, shoggoths e cadáveres andantes apodrecendo. Minha última releitura para escrever esse artigo, no entanto, abriu meus olhos para todos os elementos psicossexuais no contexto da trama. Essa é uma das únicas histórias de Lovecraft em que uma personagem feminina tem papel proeminente e justo nela temos nos bastidores da história ansiedade sobre sexo, gênero e identidade em si. A presunção de que os machos são psiquicamente superiores por pura masculinidade é flagrante, superficial e talvez o aspecto menos interessante da trama. Mas há muito mais se contorcendo ao redor.

Com a transferência de mentes no centro da história, a questão da identidade é inevitável. Ephraim Waite, o mago, desejava se perpetuar indefinidamente e quando sentiu que a morte estava cada vez mais próxima arranjou uma maneira alternativa de viver para sempre. Transferir sua mente para o corpo de outra pessoa lhe garantiria a juventude eterna como invasor no corpo alheio. Uma vez que cultistas e feiticeiros não possuem muita ética moral à respeito do mal que desencadeiam, para ele pouco importava quem seria afetado. Mas a nota especialmente medonha é que dada a sua pressa ele precisou recorrer á sua filha Asenath. Então, embora não desejasse, Ephraim acaba saltando de um corpo de homem para o de uma mulher. Isso poderia ter sido um choque para qualquer um, ainda mais para um velho misógino que considerava a mente feminina inferior e incapaz de atingir o ápice de seu desenvolvimento psíquico. Desejando um corpo mais condizente, ele começa a buscar uma vítima em potencial, de preferência alguém de vontade fraca que pudesse ser moldado num receptáculo mais confiável.

O plano de Asenath/Ephraim, no entanto é ao mesmo tempo sinistro e estranho. Ele decide que irá habitar o corpo do fraco Edward Derby, e para garantir que ele ficará ao seu alcance para realizar a transferência, decide se casar com ele. 

Longe de ser um especialista em relacionamentos e erotismo, Lovecraft deixa o sexo fora do palco, o que pode incomodar o leitor imaginativo, mas algumas coisas podemos assumir. Depois que Ephraim rouba o corpo de sua filha, "Asenath" frequenta uma escola para meninas, onde "ela" hipnotiza os alunos e se dedica a "olhares e piscadelas de um tipo inexplicável”. Podemos muito bem compartilhar a ironia obscena nisso tudo” de Asenath/Efraim sobre sua presença lupina entre as ovelhas jovens.


Mas é no casamento que reside o elemento mais estranho e que levanta maiores questionamentos. Edward desposa Asenath, que na verdade hospeda a mente do velho Ephraim. Eles passam a lua de mel na cidade natal de Ephraim, Innsmouth, e Edward retorna um homem diferente. É inevitável tentar imaginar o que transcorreu nessa lua de mel. Teria o casamento sido consumado? E se sim, como se deu a conjunção carnal entre o casal? Teria o velho disfarçado o comportamento de uma noiva em sua noite de núpcias ou teria evitado Edward? Talvez Lovecraft não tenha aludido ao elemento psicosexual simplesmente considerando que a consumação não ocorreu e pronto. Mas vale a pena lembrar que Lovecraft escreveu "A Coisa na Soleira da Porta" depois de seu próprio casamento com Sonia Greene, portanto ele estava perfeitamente familiarizado com os termos de cama e mesa dos nubentes. Seria estranho supor que Lovecraft simplesmente deixou de lado esse tema, mas é possível que o tenha feito propositalmente para não elaborar demais uma problematização passível de censura de seus editores. Afinal, aludir diretamente a sexo entre dois homens (ainda que um deles ocupando um corpo feminino) poderia ser visto como uma ousadia grande demais para a Weird Tales.

Seja como for, após a lua de mel, Lovecraft alude ao fato de que Asenath faz seu marido raspar o bigode, detalhe que parece insignificante à princípio, mas que pode representar a emasculação simbólica de Edward Derby. Asenath/Ephaim sequer dá ao marido o direito de envergar um símbolo masculino, o bigode. Isso representa a subordinação total de Edward diante de Asenath que se torna a  cabeça do casal. Para a mente conservadora de Lovecraft, o Horror Cósmico contido nesse pequeno detalhe é tão, ou até mais, aterrorizante do que os Shoggoth que surgem mais tarde.

- Na série de Quadrinhos Providence, o autor Alan Moore vê a problemática do relacionamento sexual entre Edward e Asenath de uma maneira ainda mais bizarra e perturbadora. 

Moore supõe que a transferência mental não anulou o desejo sexual do velho Ephaim que se lamenta por não ter um órgão masculino já que está ocupando o corpo da própria filha. Contudo, na HQ, o velho resolve isso da maneira mais detestável possível, usando de magia negra para transferir sua mente temporariamente para um corpo masculino e este para estuprar o que ele vinha ocupando. Para obter gratificação, ele apela para feitiçaria e sem demonstrar qualquer arrependimento faz o que bem entende antes de retornar. Nem é preciso dizer que a cena é uma das sequências mais medonhas de Providence, que chegou a levantar polêmica na época em que foi publicada. 

Asenath na versão de Alan Moore para Providence

Numa entrevista, Moore explicou a cena. Segundo ele, Asenath/Ephraim, por se considerar o cabeça da relação jamais se sujeitaria a ocupar o polo passivo de um relacionamento. Um maníaco como Ephraim Waite, que sujeita sua própria filha a uma morte horrível, nunca iria aceitar desempenhar o papel de esposa, pelo contrário, seria o marido e como tal cumpriria esse papel durante o sexo.

É possível que Lovecraft não tenha sequer cogitado tal coisa, ou se cogitou, ele jamais chegaria perto de descrever uma cena sexual em detalhes tão gráficos quanto Moore fez em Providence.  

- Edward é descrito como fraco, mole, infantil, gordinho, dominado pelos pais, dependente, tímido, inerte. Em contraste com o barbudo Ephraim, ele mal consegue crescer um bigode. Lovecraft não o chama de efeminado, mas bem que poderia. Ele não o chama de gay, mas sugere tendências homossexuais no comportamento geral de Edward e em seu envolvimento com um grupo de universitários selvagens cujas atividades "ousadas, boêmias" e "conduta duvidosa" devem ser escondidas dos pais de Derby. A presença de Edward em um “certo caso” é tão chocante que o sujeito aceita pagar a um chantagista para manter o escândalo longe do conhecimento de seus pais. 

Lovecraft menciona também o suposto envolvimento do grupo com magia negra após o "caso", o que me faz pensar que o "caso" era de natureza mundana, embora não convencional.

A Coisa que dá nome ao conto

- Pode ser mais do que a exposição a Innsmouth que deixa Edward triste e sóbrio. As coisas pioram quando Asenath/Ephraim inflige a ele a violação do roubo de corpos. O clímax do repetido estupro de almas vem quando Edward volta ao seu corpo durante uma reunião do coven que Ephraim estava liderando. Edward está diante do “poço profano onde o reino negro começa”. A interpretação freudiana é fácil. Ele vê “um shoggoth – ele mudou de forma”. E mudar de forma – identidade – tornou-se para ele um horror. Em uma “fúria de histeria”, ele grita “Eu não aguento – vou matá-la – vou matar aquela entidade – ela, ele, isso – vou matá-la!”

As incertezas de Edward diante da identidade de sua esposa e de fato, dele próprio, se tornam o fio condutor do horror nesse conto.

Bem é isso...

Opiniões e comentários são obviamente muito bem vindos.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Resenha "Nas Montanhas da Loucura" - A incrível parceria entre H.P. Lovecraft e François Baranger


"Nas Montanhas da Loucura" é conhecida como uma das mais espetaculares histórias do genial H.P. Lovecraft.

Escrita em 1931 e publicada apenas um ano antes de sua morte precoce em 1937, Montanhas pode ser considerada como um dos trabalhos mais complexos do autor. O tema, o embasamento científico, o realismo exacerbado, tudo foi exaustivamente pesquisado para que o resultado fosse uma história que se assemelha a uma jornada verossímil de um grupo de cientistas até o que era, então, a fronteira final do planeta: o Continente gelado da Antártida. A narrativa concebida como um relato feito por um dos sobreviventes está repleta de termos científicos, de descrições técnicas e inúmeras referências usadas na época.

Para muitos especialistas em literatura, Nas Montanhas da Loucura é um dos pontos altos da carreira de Lovecraft que se mostrava perfeitamente à vontade unindo Terror e Ficção Científica - uma mistura que hoje é normal, mas que na época constituía uma grande inovação. Não por acaso ele serviu como base para a franquia Alien e do cultuado O Enigma do Outro Mundo. Os fãs também consideram esse conto (de fato, uma novela dada a sua extensão), um de seus trabalhos mais emblemáticos, servindo de inspiração para outros contos, quadrinhos, jogos de computador, boardgames e frequentemente cotado para se tornar um longa metragem.

Entra em cena o ilustrador francês François Baranger, um dos artistas mais elogiados e admirados da atualidade. Baranger é dono de um notável portfolio artístico que inclui outra visão de um conto clássico de Lovecraft, "O Chamado de Cthulhu" que recebeu uma resenha aqui no blog alguns anos atrás. Na ocasião Baranger já demonstrava seu talento para compor paisagens grandiosas, ilustrar jornadas épicas e dar forma aos horrores titânicos do Universo do Mythos. O resultado foi magistral, mas ouso dizer que aquela era somente o início de uma empreitada muito mais ousada.

Convocado a repetir a parceria com Lovecraft, Baranger esbanja talento e nos convida a explorar a vastidão dos desertos gelados e os recessos mais escuros do Horror Cósmico em "Nas Montanhas da Loucura".


A história tem um lugar mais que merecido entre as maiores obras de terror de todos os tempos e ilustrar essa saga foi um desafio para o artista. Para isso ele usou um princípio muito inteligente: “Tentei entrar na mente do autor para melhor transcrever seu universo. Não tentei modernizar Lovecraft, mas me ater às suas verdadeiras intenções e descrições.”

O resultado é sensacional.

"Nas Montanhas da Loucura" acompanha os eventos e incidentes de uma malfadada expedição à Antártida no início dos anos 1930. O que é relatado ao leitor é uma jornada de descoberta notável seguida de tragédia sem precedente. Uma viagem científica que cobra de seus membros um preço altíssimo e que revela um horror indescritível. A descida rumo a essa espiral de loucura e as descobertas perturbadoras sobre a origem do homem precipitam a ruína da expedição. 

Nas Montanhas da Loucura é contado a partir da visão do Dr. William Dyer, um geólogo da fictícia Universidade Miskatonic, que presenteia o leitor tanto com os detalhes inocentes da expedição, quanto com os eventos mais sinistros mantidos em segredo até então. Com seu relato, Dyer espera impedir que outra expedição cometa o mesmo erro que a dele e garantir que a verdade permaneça oculta sob o gelo glacial.

O ritmo lento da história constrói meticulosamente a tensão e levanta questões que vão sendo respondidas ao longo da trama. O terror não surge repentinamente, ele espreita em cada canto como uma presença agourenta que desce feito uma sombra sobre os exploradores. 

Esse conto consolidou Lovecraft como um mestre da tensão e do mau presságio. O leitor sabe que algo horrível está prestes a acontecer, que os personagens estão em perigo e que o destino deles será medonho. Mas essa certeza só torna a leitura ainda mais instigante. Para alguns, o estilo pode soar cansativo, mas o verdadeiro brilhantismo dessa história está na forma como ela é construída e como ela vai crescendo em intensidade até a explosão final.


Não é segredo para ninguém que histórias de terror se beneficiam muito da arte. O componente visual fornece outra dimensão à história e empurra o leitor para dentro da experiência. É por isso que os filmes de terror fazem tanto sucesso. Os aspectos audiovisuais dessas narrativas - sustos, música tensa, cenas horríveis - aumentam o drama, o suspense e o terror. Aqui temos algo similar.

A escolha de Baranger para ilustrar essa história gera um casamento perfeito entre texto e imagem. Ele consegue dar forma vívida à imaginação de Lovecraft construindo um panorama grandioso das cenas mais marcantes da novela. A visão de Baranger confere uma nova apreciação da história. Ela ganha asas! Se torna misteriosa. Soa estranha. Distante do cotidiano e de qualquer coisa normal. Mais que isso, inspira admiração e causa certo grau de apreensão.

Brancos ofuscantes, marrom quente, cinza escuro e piscinas negras de escuridão abissal recobrem as páginas. Toda essa paleta de cores fortes se mistura e cria imagens viscerais das montanhas e da megalomaníaca incursão humana às proibidas latitudes da loucura. O universo lovecraftiano com seu pessimismo tétrico fica gravado na mente do leitor com essas paisagens colossais esparramadas ao longo das páginas. As imagens quase queimam em nosso subconsciente.

Baranger retrata vividamente o passo a passo da expedição atraindo os olhos do leitor para um banquete visual. Mesmo que você já tenha lido "Nas Montanhas da Loucura" centenas de vezes, ler essa versão será algo especial e diferente. Para quem não conhece Lovecraft ou sua obra, essa é uma oportunidade de ouro para mergulhar de cabeça e se deixar conquistar por esse mestre do horror e da ficção.


Fisicamente, o livro tem 23 x 30 centímetros, um tamanho adequado para tais imagens. Ele remete àqueles Livros de Arte que costumam adornar o centro de mesa. Essas dimensões permitem uma melhor apreciação dos detalhes que Baranger arduamente trabalhou em cada cena (e que vocês podem constatar nas imagens incluídas aqui na resenha). 

A Editora Darkside, que lançou o álbum "O Chamado de Cthulhu" aqui no Brasil, também é a responsável por essa edição. Nem é preciso mencionar o capricho das publicações da Darkside. Quem coleciona livros e gosta de edições luxuosas em sua estante já deve conhecer bem o catálogo da editora. A capa dura, o papel brilhante de alta qualidade e a excelente tradução de Ramon Mapa são perfeitas. 

É importante, entretanto, salientar que esse é o primeiro volume da obra, ou seja, a conclusão de "Nas Montanhas da Loucura" ainda será lançada pela Darkside provavelmente ano que vem. Muitos se perguntam porque ele não foi lançado em uma edição única, mas esse formato é idêntico ao que foi publicado lá fora.

Para os fãs de longa data ou para os que estão conhecendo apenas agora, o primeiro volume de "Nas Montanhas da Loucura" é uma celebração do gênero e um item quase obrigatório para os fãs do Horror Cósmico.   


Este livro e outros podem ser adquiridos diretamente na página da Editora Darkside no link abaixo. Comprando no site da editora ele vem acompanhado de um brinde exclusivo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O Pescador - Resenha do Romance de John Langan


"Já estive à beira de um oceano cujas ondas eram tão negras quanto a tinta que escorre da ponta desta caneta. Eu vi uma mulher com a pele pálida como o luar abrir a boca, e abri-la, e abri-la, em uma caverna com fileiras de dentes serrilhados que estariam em casa na mandíbula de um tubarão."

John Langan - O Pescador

*     *     *

Para os fãs de horror em geral, o nome de John Langan não é estranho, ou ao menos, não deveria ser. Aclamado pela crítica como um escritor com talento excepcional, ele foi publicado em várias coleções, incluindo aquelas que trazem os "melhores contos do ano" como o Ellen Datlow's Fearful Symmetres. Langan se destaca em meio a outros promissores autores de horror e mesmo entre nomes já consagrados. Além disso, suas duas antologias exclusivas - Mr. Gaunt & Other Uneasy Encounters e o aclamado The Wide Carnivorous Sky contém material notável.

E a razão para um repertório tão impressionante de trabalhos publicados é bastante simples: o homem é uma máquina de produzir excelente material. Seu romance mais conhecido, "O Pescador", é apenas uma prova de seu enorme talento, imaginação e capacidade de oferecer uma história atraente que prende o leitor do início ao fim.

Os termos "excelente", "excepcional" e "transcendente" têm sido usados pelos críticos com tanta frequência que se tornam clichês, mas parecem adequadas para descrever esse, que é o segundo romance de John Langan. "O Pescador" é daqueles livros que você começa a ler e que não consegue parar, pois a história é tão bem escrita e narrada de maneira tão interessante que lembra uma conversa entre amigos, no qual um chega na casa do outro e diz "eu tenho uma história para contar" e sem cerimônia dá início a uma narrativa envolvente.

Não que "O Pescador" seja fácil, mas é a maneira como a história é oferecida que chama mais a atenção. Ele é uma história dentro de uma história, mas estou me adiantando demasiadamente.


A história começa prestando uma homenagem a Moby Dick, e de fato, como convém a um livro com esse título, ele é à respeito de água, um rio e tudo que vive abaixo da superfície. Envolve também coisas misteriosas e terríveis que habitam as profundezas e que não deveriam jamais existir em um mundo de razão e coerência - coisas estas que parecem extraídas diretamente de um conto de H.P. Lovecraft

Embora a narrativa tenha um tom descontraído, a história em si é tudo menos alegre. Desde o início, sentimos que algo horrível está para acontecer a uma página de distância, que nosso protagonista está se movendo em direção a um pesadelo medonho enquanto começa a ter experiências estranhas e sonhos aterrorizantes que vão se intensificando à medida que avançamos. Como dito, a história avança como uma prosa entre amigos, o que é esquisito em um livro sobre ficção bizarra, suspense sombrio e Horror Cósmico de primeira grandeza. Um sentimento opressivo permeia as páginas, mesmo nas circunstâncias mais mundanas, há algo que deixa o leitor inquieto. 

A história central acompanha dois viúvos, Abe e Dan, que perderam suas famílias e que ainda estão tentando lidar com as repercussões de sua imensa dor. Devorados por um vazio monumental do qual parece não haver escapatória, os dois encontram um amor em comum na forma de um hobby que preenche o vazio deixado por suas esposas e filhos - a pescaria. Pescar parece ser a única coisa que diminui a dor e sempre que possível os dois se reúnem com esse intuito. Em sua busca incessante por novos rios para lançar o anzol, Dan descobre um lugar obscuro chamado Dutchman's Creek (Riacho do Holandês). Eles partem então esperando um longo dia de pesca e tranquilidade. Contudo o riacho não corre simplesmente pelas montanhas de Catskills, no interior de Nova York, e sim pelo coração do inferno e os terrores que aguardam a dupla são horríveis além da descrição.


Enquanto estão se dirigindo para seu destino, o tal riacho, os dois param em um restaurante de beira de estrada para pedir direções. Lá eles conhecem o amistoso dono do estabelecimento, um homem que já ouviu falar do "Dutchman´s Creek" e que tem uma longa história para contar à respeito dele.

É nesse ponto que a história dentro da história começa a ser contada. 

Os protagonistas cedem lugar para a narrativa, propositalmente similar a uma história de pescador, na qual somos apresentados a uma série de estranhos acontecimentos que tiveram lugar nos arredores das Catskills no início do século XX. A construção de um enorme reservatório de água muda de vez a vida de habitantes da região, em especial a de um homem que recebe um soturno visitante que passa a morar em sua casa e levanta todo tipo de rumor assustador. O que o sujeito misterioso, o tal forasteiro faz na mansão e o que acontece naquele lugar na calada da noite é parte central da história, bem como os eventos que envolvem os operários - quase todos imigrantes, atraídos pela perspectiva de um grande empreendimento. Entre esses trabalhadores está Rainer Schmidt, um imigrante alemão de passado nebuloso que busca melhores oportunidades de vida para sua família e acaba tendo de enfrentar algo aterrorizante.

Essa porção de "O Pescador" é simplesmente brilhante! 

A lenda sombria de "Der Fisher" é uma experiência para Abe e Dan e também para o leitor. Magia negra, visões surrealistas, rituais antigos, tomos com conhecimento arcano e criaturas bizarras que parecem saídas dos piores pesadelos aparecem numa sucessão vertiginosa. Coisas difíceis de compreender como estas encontrariam abrigo fácil no universo Lovecraftiano e se aninhariam confortavelmente entre os tentáculos dos deuses antigos e seus servos. Langan explora esses caminhos tortuosos e escuros como a noite com maestria, conduzindo a trama de forma perfeita. Seus personagens são reais, as situações, mesmo as mais surreais, são descritas com um colorido especial que torna tudo crível e a forma como ele conduz a trama não é menos que sensacional. John Langan habilmente, com grande atenção aos detalhes, cria uma atmosfera de terror e inquietação, enquanto lentamente nos introduz no universo do romance. Mas em determinado momento, o ritmo se quebra, lançando o leitor em uma montanha russa de ação e violência. 


O terço final da trama confronta os protagonistas com uma escolha cruel. Sabendo de todos os detalhes transmitidos, eles seguirão com a sua excursão ao riacho? Irão acreditar na história ou desconsiderar como mera superstição? Ou irão aceitar a vida e o destino que receberam? Eles buscarão uma maneira não-natural de aplacar sua perda? E ao fazê-lo, que horrendas repercussões suas escolhas trarão? O final reserva algumas reviravoltas e uma conclusão agridoce para os protagonistas.  

A versão nacional de "O Pescador" foi lançada pela Editora Darkside com a já conhecida qualidade que marca suas publicações. A edição em capa dura, marcador de página, borda colorida e belo acabamento gráfico é um complemento à altura dessa grande história. Foi um enorme acerto da Darkside trazer John Langan para nosso idioma e apresentá-lo ao público brasileiro através desse trabalho impecável. Fica a dica para que eles sigam adiante com as publicações desse autor. 

"O Pescador" recebeu o Bran Stoker Awards de 2016 na categoria melhor romance, premiação mais do que merecida na minha opinião. A incrível narrativa fluida de Langan, suas visões surreais e a atmosfera perturbadora tornam a leitura desse livro puro prazer. É um deleite para os fãs de literatura de terror e eu não poderia indicá-lo mais.