Mostrando postagens com marcador Editora Darkside. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Editora Darkside. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Invocação da Bruxa - Resenha do romance clássico de Fritz Leiber pela Darkside


Uma das melhores coisas sobre escrever resenhas é ter a chance de conhecer mais a fundo a obra de escritores consagrados. 

Tudo bem, Fritz Leiber não é lá muito conhecido no Brasil e muitos provavelmente dirão nunca ter ouvido falar dele, mas ele produziu material de primeira. Nos anos 30 e 40 suas histórias de horror sobrenatural estavam nas principais Pulp Magazines do período. Leiber também transitou por algum tempo no universo dos Mythos, explorando com maestria o horror de deuses ancestrais, cultos fanáticos e horrores inomináveis. Nas histórias de Fritz Leiber não faltavam castelos góticos, tumbas sobrenaturais e heróis destemidos que enfrentavam monstros tentaculares. Sua obra mais famosa no entanto foi a série Lankmar, agraciada com o Hugo Awards. Na sua ambientação a dupla de aventureiros Fafhrd e Grey Mouser exploravam o submundo de uma cidade fantástica enfrentando feiticeiros e ladrões rivais. Lankmar ajudou a definir a Fantasia e sedimentou o subgênero Espada e Feitiçaria

Eu sempre gostei do estilo de Leiber e por isso fiquei muito interessado na notícia de que um dos seus livros mais famosos, Invocação da Bruxa (Conjuring Wife) seria publicado no Brasil. A edição caprichada sai pela Editora Darkside corrigindo o grande absurdo que era esse romance jamais ter sido traduzido por aqui. 

Invocação da Bruxa é um clássico do terror que foi adaptado nada menos do que três vezes para o cinema (em 1954, 1962 e 1980). É também um conto sobre a linha nebulosa que conecta o mundo real com os reinos misteriosos do oculto. Eu fiquei interessado, sobretudo porque "Burn Witch! Burn" a versão dos anos 60, é um excelente filme que foi inspirado nesse romance. O autor alterna com familiaridade o universo do sobrenatural, misturando-o com o cotidiano suburbano dos Estados Unidos dos anos 1950.


Na trama, Norman Saylor é um racional professor universitário que tem uma vida bastante comum ao lado de sua bela esposa Tansy, ao menos até ele fazer uma descoberta inusitada. Norman descobre estranhos objetos que eram mantidos em segredo na penteadeira da esposa: são potes com terra de cemitério, ingredientes exóticos, talismãs mágicos e relíquias bizarras guardadas em gavetas trancadas. Tansy pega o marido curioso em flagrante, e a discussão sobre o que são aquelas coisas a faz admitir algo inesperado. Ela não apenas é uma praticante de feitiçaria, como sempre foi uma Bruxa. Mais do que isso, ela usou magia negra para proteger o marido de maldições intentadas por outras bruxas. 

Sem acreditar na explicação de Tansy, ele convence a esposa a queimar os objetos e se livrar daquela coleção de tranqueiras supersticiosas. Mas será que a racionalidade de Norman conseguirá explicar as coisas estranhas que começam a acontecer dali em diante? Sua vida e carreira parecem ser afetadas por incidentes inexplicáveis. Isso sem falar de uma cabala maligna que parece planejar sua morte. Ele estará disposto a aceitar que os talentos de Tansy são a única que pode salvá-lo dessa ameaça sobrenatural?  

Invocação da Bruxa é um romance de terror interessante pelo fato de não parecer um romance de terror. O livro parece se concentrar mais no impacto psicológico e social do ocultismo do que nas forças sobrenaturais em si. Norman é um professor de sociologia, um típico homem de ciência que não crê no paranormal. Ele mantém uma convicção inabalável de que a magia reside apenas na mente fraca e supersticiosa dos tolos.


Ao longo do romance, Norman tenta racionalizar cada incidente perturbador sem dar o braço à torcer. A cena que melhor exemplifica seu ceticismo se passa na sala de estar da casa dos Saylor. Tansy fica cada vez mais angustiada com a ideia de que feiticeiras estão usando magia negra contra seu marido desprotegido pela remoção de seus feitiços de proteção. Ela então recorre a um intrincado ritual para salvá-lo de uma entidade aterrorizante que o persegue com intento assassino. 

A teimosa do protagonista em reconhecer os poderes agindo nas sombras poderia ser irritante, mas é ela que nos conecta a um dos temas centrais da trama: a suspensão de descrença. Se fôssemos colocados em uma situação parecida, será que seríamos capazes de acreditar no inexplicável? Ou assim como Norman buscaríamos, quaisquer explicações mais razoáveis? 

O romance aborda outra noção interessante. No mundo de Invocação da Bruxa, muitas mulheres possuem sensibilidade para o mundo oculto e aprendem como manipular essas forças passando o conhecimento de mãe para filha. Elas aprendem a defender suas famílias de ataques mágicos de rivais e a proteger seus maridos do mal que incide sobre eles. Ao mesmo tempo há feiticeiras inescrupulosas que usam os poderes para o mal. Há todo um mundo invisível e perigoso que os homens sequer podem imaginar. Eventualmente, Norman e Tansy terão de aceitar o ponto de vista um do outro, respeitar suas crenças e se comprometer a trabalhar juntos se quiserem escapar da ameaça que os cerca.


Leiber conta a história em alguns momentos como se fosse um romance de relacionamento, mas o suspense e a estranheza estão sempre à espreita abaixo da superfície de aparente normalidade. Os verdadeiros horrores são mais insinuados do que mostrados abertamente. A cabala é ardilosa, agindo de forma astuta se aproveitando da incredulidade de Norman para fazer dele um alvo. O leitor da mesma maneira é levado a duvidar se as ameaças são reais ou se não passam de simples superstições.

Fritz Leiber escreve bem, mas seu estilo detalhista pode soar excessivamente rebuscado para alguns leitores. Eu francamente não me importo, ele narra a trama com maestria. Os personagens são interessantes e você se importa com eles e as situações compelem o leitor a ler sem parar querendo saber o que vai acontecer em seguida.  

Invocação da Bruxa não é uma história aterrorizante de Horror, não se trata de um Folk Horror ou algo do gênero, como nos habituamos a encontrar em histórias centradas em magia negra. Mesmo assim, a trama é decididamente atraente e vale a pena ler.

FICHA TÉCNICA:

Invocação da Bruxa (Conjuring Wife), 1953
Editora DarkSide
Tradução de Eduardo Castro
Ano de Lançamento: 2025
190 páginas

Página oficial da Darkside: 



quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O Massacre - Resenha do Livro de Luciano Lamberti

Um Banquete de Horror.

É isso o que a contracapa de "O Massacre" premiado romance do escritor argentino Luciano Lamberti promete. E é exatamente o que ele entrega.

Publicado em seu país natal em 2019 o livro é um mergulho profundo em uma desgraça quase inconcebível. Ele trata da tragédia do título, o tal Massacre, sob diferentes pontos de vista analisando de forma documental os detalhes sobre o incidente. Os capítulos cobrem entrevistas com as testemunhas, interrogatório dos sobreviventes, o ponto de vista de bombeiros que trabalharam no resgate, de policiais que investigaram o caso, de parentes, amigos e conhecidos dos indivíduos envolvidos. Tudo é exposto de maneira quase documental. Cada ponto de vista oferece um vislumbre diferente e tenta explicar o ocorrido chegando a conclusão de que não há uma explicação razoável. 

O inexplicável por vezes é apenas isso: algo que as pessoas estão fadadas a jamais entender.

Na trama o leitor é apresentado a idílica cidadezinha de Kruger e seus habitantes que vivem aos pés de uma montanha nevada no interior da Argentina. O clima frio e a paisagem deslumbrante, remetem aos alpes suíços. Os moradores, quase todos de origem germânica parecem levar uma existência tranquila e despreocupada tocando seus pequenos negócios, cuidando da famílias, criando seus filhos e vendo os dias passar pacificamente. Uma vez por ano Kruger celebra o Festival da Neve que marca a chegada do Inverno. É uma oportunidade para festejar, comer carneiro assado, beber cerveja artesanal, cantar e dançar. Turistas vem de longe para participar da festa e não é exagero dizer que é uma das únicas datas relevantes para o vilarejo.

Nossa pequena história de terror se inicia no inverno de 1987, quando os habitantes de Kruger estão se preparando para o tal Festival. É quando cada residente começa a manifestar um comportamento peculiar. São pequenos episódios de distração, de irritação ou de comportamento atípico. À princípio parece algo inofensivo, mas as pessoas começam a agir de maneira cada vez mais bizarra até que tudo explode numa névoa rubra de violência indescritível. É como uma bola de neve que se acumula, cresce e quando está grande o bastante, assume vida própria rolando sobre todos. Ela coloca vizinho contra vizinho, pais contra filhos, crianças contra velhos, amantes, casais... o resultado é um verdadeiro banho de sangue!

A forma de narrativa escolhida por Lamberti não é linear, ela descreve os dias que antecedem o Massacre e dá saltos cronológicos para frente e para trás meses ou mesmo anos antes do incidente. Isso não confunde o leitor, ajuda a envolvê-lo cada vez mais na trama e vai apresentando alguns sinais de estranheza. Logo no início você sabe quais as dimensões da tragédia, mas aos poucos vai entendendo como tudo chegou até aquilo.

Há ecos de pessimismo e um senso de profundo niilismo em "O Massacre", já que a história é contada de forma minuciosa, cultivando o interesse do leitor. Eu li esse livro de uma vez só, virando páginas de forma frenética, avançando na trama com uma curiosidade crescente para saber o que viria em seguida. Não espere explicações mirabolantes ou culpados, embora haja indícios do que causou o surto, o autor acerta optando por preservar o mistério e sugerindo diferentes possibilidades. É uma leitura rápida já que o livro não passa das 200 páginas, mas é muito bem construído. Lamberti consegue preservar o interesse do início ao fim e sem exagero, foi um dos melhores títulos que caiu nas minhas mãos esse ano.

Lançado aqui no Brasil pela Editora Darkside, sob o selo Crime Scene o livro tem um belo acabamento e tradução primorosa de Diogo Cardoso. Como sempre a Darkside se esmera em oferecer um requinte visual em suas edições. É notável o alto nível dos autores argentinos dedicados ao Horror e Ficção, Luciano Lamberti surge como um expoente no gênero e é bom acompanhá-lo daqui em diante.



quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Resenha "Nas Montanhas da Loucura" vol 2 - Gelo, loucura e morte num clássico de H.P. Lovecraft com arte de François Baranger


Quando se fala na obra de H.P. Lovecraft, sua novela mais famosa "Nas Montanhas da Loucura" (At the Mountains of Madness) sempre se destaca.

Escrita em 1931, Montanhas é um épico de suspense, ficção e terror. Lovecraft utilizou de expedientes que na época eram novidade: utilizar lugares e fatos do mundo real, buscar fontes jornalísticas para emoldurar sua trama e principalmente, se valer da ciência e tecnologia para embasar sua história. O resultado é uma narrativa repleta de dados tão fieis que tudo soa incrivelmente fidedigno. Da maneira como foi escrito, Montanhas soa como um relato real escrito por um cientista ou explorador, dando conta de acontecimentos ocorridos durante uma dramática expedição a um dos lugares mais inóspitos e perigosos do planeta - o Continente gelado da Antártida.

Para quem não está familiarizado com a literatura lovecraftiana e caiu de paraquedas nessa resenha, cabe falar um pouco do sujeito. 

H.P. Lovecraft é um dos maiores (para alguns o maior) expoente da literatura de Horror nos EUA no século XX. Seus textos macabros englobam diferentes gêneros do horror clássico, do terror gótico passando para o folk horror, transitando pela ficção científica, sempre com enorme competência e um estilo inconfundível. O Horror Cósmico é sua criação mais significativa e contribuição marcante ao terror. O gênero se refere a um horror tão profundo e desconhecido, absurdamente alienígena para a humanidade que a exposição prolongada a ele causa a loucura. No cânon de Lovecraft, entidades ancestrais vindas das estrelas distantes se principiaram sobre a Terra no inícios dos tempos e se tornaram Deuses que influenciaram cultos e seitas macabras. Estas aguardam ansiosas pelo dia em que estes deuses despertarão. Lovecraft explora o pessimismo nihilista ao máximo, apresentando uma visão perturbadora de um mundo à beira da devastação e de uma humanidade esmagada por forças que ela é incapaz de compreender.



O valor da obra de Lovecraft só foi reconhecido muito depois de sua morte, graças ao resgate de seus escritos por amigos e admiradores que foram os primeiros a perceber a genialidade do seu trabalho. Desse momento em diante, a redescoberta de Lovecraft foi radical. Ele não apenas se tornou famoso na literatura, mas sua obra inspirou filmes, séries, jogos de computador, games, cards, RPG e muito, muito mais.

Na literatura, os contos de Lovecraft foram reunidos em antologias que reúnem suas histórias mais famosas. De edições simples a volumes de luxo que mais parecem tomos como o célebre Necronomicon, é possível achar Lovecraft em diversos formatos.

Isso nos leva ao artigo e resenha que você está lendo nesse momento.

Seria a combinação de texto e imagem a melhor forma de apreciar os contos de Lovecraft?

Ao folhear o segundo volume de "Nas Montanhas da Loucura" belissimamente ilustrado pelo talentoso artista francês François Baranger, é difícil não dizer que sim.

Lovecraft é, em grande parte, um escritor que aproveita as paisagens que está descrevendo, sejam elas físicas ou emocionais. Suas visões são viscerais exatamente porque seu vocabulário é avançado e cheio de detalhes intrincados. As imagens imponentes no livro permitem que o leitor se concentre e não se distraia com uma palavra com a qual não esteja intimamente familiarizado. E isso é algo que percebi lendo o primeiro volume da novela. Talvez esta tenha sido minha experiência mais agradável ao ler Montanhas da Loucura, que alguns consideram demasiado rebuscado. O texto flui mais fácil, em comunhão com as imagens. A grandiosidade das descrições se encaixa perfeitamente com o visual geral. Os desenhos têm espaço para respirar acompanhando a prosa do texto.

A Darkside oferece esse pôster incrível como brinde para quem comprar na loja online

A arte de Baranger é tão complexa e elaborada quanto a escrita de Lovecraft. Ela complementa o texto, dando margem a interpretações fantásticas de paisagens ermas e de um ambiente selvagem. A maioria das ilustrações se debruça sobre paisagens impossíveis e a insignificância da presença humana em lugares onde o homem nunca deveria estar. Mas há cenas mais intimistas evocando descobertas que drenam a sanidade, arqueologia e astronomia que nunca deveriam ter existido, silhuetas de criaturas estranhas ao nosso mundo, cenas de ação e muito mais. Cada desenho é diretamente relevante para o texto que é sobreposto acima dele.

O artista equilibra cenas de ação, imagens do passado e imagens propositalmente nebulosas ao longo das página. Baranger tem um olho clínico para extrair da narrativa as cenas mais marcantes, sem jamais, no entanto, ser óbvio. Suas cenas de horror são aterrorizantes bem dentro da proposta do impensável e imponderável. É uma façanha considerável dar forma a coisas que Lovecraft não se furta em dizer que são por demais bizarras para serem descritas adequadamente.

O livro é apresentado em uma versão luxuosa, com capa dura e páginas em papel de altíssima qualidade. Visualmente o livro segue o padrão da primeira parte, o que faz todo sentido. O tamanho das páginas fornece uma tela ampla para o artista, que oferece imagens que poderiam facilmente se tornar pôsteres. Não há molduras ou espaços em branco, o texto é colocado dentro das imagens para total impacto das cenas. A Darkside Books se esmerou em fazer o material o mais fiel possível à edição americana e, de fato, comparando as duas, eu até acho que a edição brasileira tem cores mais vivas que sua contraparte estrangeira.

Para quem adquiriu a primeira parte de Nas Montanhas da Loucura, esse Volume II é praticamente obrigatório. Não apenas por se tratar da conclusão da história (aqui temos os capítulo 6 a 12), mas por ser uma continuação que sustenta a mesma proposta. Com imagens deslumbrantes que acentuam a narração ao máximo, essa é possivelmente a versão definitiva da novela. Dificilmente alguém conseguirá fazer algo melhor e mais evocativo.

Aos fãs do Horror Cósmico e de arte, esse livro é simplesmente imperdível.

Leia aqui a resenha da primeira parte: 

E aqui está o link para a Editora Darkside.


quarta-feira, 1 de maio de 2024

Resenha de "Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft"


Atualmente H.P. Lovecraft pode ser encontrado em todos os cantos.

Suas histórias são constantemente editadas e lançadas em edições tanto simples quanto de luxo, comentadas ou repletas de análises. Lovecraft vende bem, e vende como jamais vendeu... suas antologias de contos e novelas figuram num lugar importante das prateleiras e são cada vez mais populares.

Mas esse fenômeno não está apenas na literatura! Suas criações figuram em inúmeras mídias, seja em filmes, séries de televisão, quadrinhos, jogos de computador e tabuleiro, RPG, música e até bichos de pelúcia! Lovecraft e suas criaturas indescritíveis conquistaram um lugar no imaginário e na cultura pop que o autor jamais poderia imaginar. Se o seu maior sonho era estar ao lado de Edgar Allan Poe, com uma obra enaltecida e admirada, hoje, ele conseguiu mais do que isso.



Não deixa de ser curioso como um autor obscuro como Lovecraft, que em vida vendeu alguns poucos contos e foi recusado várias vezes, jamais conquistando reconhecimento, tenha chegado onde chegou. De fato, considerando sua curta carreira, tudo levava a crer que ele seria esquecido ou lembrado apenas por um inexpressivo grupo de fãs. Mas numa reviravolta notável do destino, ele continua ganhando público e atraindo a atenção dos críticos.

Entretanto não apenas a obra de Lovecraft é muito debatida; sua vida também é alvo de constante escrutínio. Nesse aspecto, biografias são essenciais para lançar uma luz sobre a existência de pessoas tão interessantes. Biografias abordam a origem, como pensavam, qual a postura na época em que viveram, sua contribuição e finalmente o legado deixado para a posteridade.  

Nesse pormenor, "Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft" não é apenas um biografia historicamente bem fundamentada e um exame criterioso da existência do autor, mas uma ponte que permite conectar o legado de Lovecraft às tendências atuais do mundo do entretenimento. O responsável por esse trabalho, W. Scott Poole é historiador e um pesquisador dedicado ao gênero horror e a cultura popular. Com uma habilidade notável ele cumpre seu objetivo reunindo informações e dados sem jamais ser repetitivo ou chato. 



Muita gente pode dizer que não resta muito sobre a vida de Lovecraft que vale a pena ser debatido. Mas se enganam! Poole produz uma obra vibrante que disseca tanto os aspectos mais conhecidos quanto os mais obscuros da vida do Cavalheiro de Providence, mostrando que ainda há muito sobre ele que precisa ser discutido.

Certamente Poole não é o primeiro pesquisador à se debruçar sobre a vida peculiar do Sr. Lovecraft. O diferencial é que sua narrativa se concentra nos fatos, em detrimento dos mitos e dos preconceitos. A maioria dos livros sobre Lovecraft servem a um desses dois propósitos: glorificar seu legado ou fornecer uma crítica ferina quanto a sua mentalidade retrógrada. Autores como S.T. Joshi e August Derleth dedicaram suas vidas (e muitas linhas) para promover o papel de H.P. Lovecraft como expoente do terror e pioneiro no Horror Cósmico, enquanto encobriam suas características menos desejáveis. Na mesma medida que é indiscutível a importância do autor, também é impossível esconder seu preconceito latente e suas crenças raciais.

O mérito de Poole é caminhar na linha tênue entre esses dois campos. Ao longo de Necronomicon, ele mostra consistentemente aspectos positivos e negativos de Lovecraft como pessoa. Ele consegue atingir essa meta devido a precisão histórica. Ele admite que S.T. Joshi provavelmente é o mais dedicado pesquisador de Lovecraft, mas a sua análise é comparativamente mais isenta e rica. De fato, reside nas qualidades e defeito do indivíduo o grande trunfo desse trabalho. O resultado é uma biografia deliciosa de ler.



Na mesma medida que Poole enaltece a criatividade e o estilo do autor, tecendo comentários elogiosos, mantém um distanciamento sadio que permite criticar as partes desagradáveis que permeiam sua obra. Como não poderia deixar de ser, a polêmica do preconceito de Lovecraft é visitada frequentemente em Necronomicon. Poole argumenta contra a teoria de que Lovecraft seria um produto de seu tempo, mostrando que alguns de seus colegas escritores tentavam se dissociar das teorias raciais por ele alardeadas. No entanto, chama atenção para o fato de que Lovecraft tinha amigos muito próximos que sustentavam opiniões contrárias às dele, ou, que até mesmo eram membros desses grupos que ele detestava. Como Lovecraft equilibrava isso, demonstra sua dualidade de ideias. 
   
Poole também detalha o papel marcante das mulheres na vida de Lovecraft, desde sua mãe e tias até sua esposa. Falando de sua esposa, Sonia Greene, vemos um exemplo perfeito da especificidade de suas tendências racistas. Ao mesmo tempo que ele era venenoso contra imigrantes, Lovecraft respeitava enormemente sua mulher. E embora o matrimônio estivesse fadado a não durar, eles mantiveram uma longa amizade e respeito mútuo. O fato dele ter desposado uma mulher de descendência judia também ressalta como seu pensamento era contraditório. O livro também aborda de forma convincente que a mãe de Lovecraft não desempenhou um papel negativo em sua vida, ao contrário do que sustentam muitos biógrafos. Apontando para numerosos eventos documentados, Poole mostra como a mãe de Lovecraft, ao permitir que seu filho satisfizesse todos os seus interesses incomuns, deu-lhe a base perfeita para se tornar um autor revolucionário.

À medida que o livro avança para suas conclusões, Poole mapeia um vasto panorama do legado do autor e de como ele influenciou gerações futuras. Sua análise expõe como a obra do Cavalheiro de Providence conquistou seu espaço adaptando-se aos mais variados meios de entretenimento. Esse capítulo inteiro ajuda a entender a influência de Lovecraft (e por tabela de Cthulhu) na cultura pop atual.   



Necronomicon - Vida e Morte de H.P. Lovecraft foi lançado recentemente pela Editora Darkside em uma edição extremamente caprichada com o Selo Macabra. Para quem conhece a qualidade das publicações da Darkside nem é preciso mencionar o belíssimo acabamento, mas não tem como passar batido sem falar desse livro em especial. Tudo nele, da capa às ilustrações, da diagramação à tradução de Ramon Mapa, está perfeito! É um prazer folhear as páginas e se deixar absorver por um trabalho gráfico simplesmente irretocável.

Necronomicon vem com um excelente Prefácio do próprio Ramon Mapa e conta com alguns acréscimos exclusivos para a edição nacional. Temos notas, uma cronologia dos contos escritos por H.P. Lovecraft, um artigo sobre o fictício Necronomicon (com ilustrações raras de Robert Bloch) e a versão do próprio Lovecraft para a história do tomo profano.

A Darkside já conta com dois volumes de contos de H.P. Lovecraft em seu catálogo e essa biografia é o complemento perfeito para aprofundar o leitor (tanto o neófito quanto o fã já experimentado) nos pormenores da complexa vida desse gênio do Horror moderno.

Eu não poderia recomendar mais um lançamento sobre o autor!

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O Pescador - Resenha do Romance de John Langan


"Já estive à beira de um oceano cujas ondas eram tão negras quanto a tinta que escorre da ponta desta caneta. Eu vi uma mulher com a pele pálida como o luar abrir a boca, e abri-la, e abri-la, em uma caverna com fileiras de dentes serrilhados que estariam em casa na mandíbula de um tubarão."

John Langan - O Pescador

*     *     *

Para os fãs de horror em geral, o nome de John Langan não é estranho, ou ao menos, não deveria ser. Aclamado pela crítica como um escritor com talento excepcional, ele foi publicado em várias coleções, incluindo aquelas que trazem os "melhores contos do ano" como o Ellen Datlow's Fearful Symmetres. Langan se destaca em meio a outros promissores autores de horror e mesmo entre nomes já consagrados. Além disso, suas duas antologias exclusivas - Mr. Gaunt & Other Uneasy Encounters e o aclamado The Wide Carnivorous Sky contém material notável.

E a razão para um repertório tão impressionante de trabalhos publicados é bastante simples: o homem é uma máquina de produzir excelente material. Seu romance mais conhecido, "O Pescador", é apenas uma prova de seu enorme talento, imaginação e capacidade de oferecer uma história atraente que prende o leitor do início ao fim.

Os termos "excelente", "excepcional" e "transcendente" têm sido usados pelos críticos com tanta frequência que se tornam clichês, mas parecem adequadas para descrever esse, que é o segundo romance de John Langan. "O Pescador" é daqueles livros que você começa a ler e que não consegue parar, pois a história é tão bem escrita e narrada de maneira tão interessante que lembra uma conversa entre amigos, no qual um chega na casa do outro e diz "eu tenho uma história para contar" e sem cerimônia dá início a uma narrativa envolvente.

Não que "O Pescador" seja fácil, mas é a maneira como a história é oferecida que chama mais a atenção. Ele é uma história dentro de uma história, mas estou me adiantando demasiadamente.


A história começa prestando uma homenagem a Moby Dick, e de fato, como convém a um livro com esse título, ele é à respeito de água, um rio e tudo que vive abaixo da superfície. Envolve também coisas misteriosas e terríveis que habitam as profundezas e que não deveriam jamais existir em um mundo de razão e coerência - coisas estas que parecem extraídas diretamente de um conto de H.P. Lovecraft

Embora a narrativa tenha um tom descontraído, a história em si é tudo menos alegre. Desde o início, sentimos que algo horrível está para acontecer a uma página de distância, que nosso protagonista está se movendo em direção a um pesadelo medonho enquanto começa a ter experiências estranhas e sonhos aterrorizantes que vão se intensificando à medida que avançamos. Como dito, a história avança como uma prosa entre amigos, o que é esquisito em um livro sobre ficção bizarra, suspense sombrio e Horror Cósmico de primeira grandeza. Um sentimento opressivo permeia as páginas, mesmo nas circunstâncias mais mundanas, há algo que deixa o leitor inquieto. 

A história central acompanha dois viúvos, Abe e Dan, que perderam suas famílias e que ainda estão tentando lidar com as repercussões de sua imensa dor. Devorados por um vazio monumental do qual parece não haver escapatória, os dois encontram um amor em comum na forma de um hobby que preenche o vazio deixado por suas esposas e filhos - a pescaria. Pescar parece ser a única coisa que diminui a dor e sempre que possível os dois se reúnem com esse intuito. Em sua busca incessante por novos rios para lançar o anzol, Dan descobre um lugar obscuro chamado Dutchman's Creek (Riacho do Holandês). Eles partem então esperando um longo dia de pesca e tranquilidade. Contudo o riacho não corre simplesmente pelas montanhas de Catskills, no interior de Nova York, e sim pelo coração do inferno e os terrores que aguardam a dupla são horríveis além da descrição.


Enquanto estão se dirigindo para seu destino, o tal riacho, os dois param em um restaurante de beira de estrada para pedir direções. Lá eles conhecem o amistoso dono do estabelecimento, um homem que já ouviu falar do "Dutchman´s Creek" e que tem uma longa história para contar à respeito dele.

É nesse ponto que a história dentro da história começa a ser contada. 

Os protagonistas cedem lugar para a narrativa, propositalmente similar a uma história de pescador, na qual somos apresentados a uma série de estranhos acontecimentos que tiveram lugar nos arredores das Catskills no início do século XX. A construção de um enorme reservatório de água muda de vez a vida de habitantes da região, em especial a de um homem que recebe um soturno visitante que passa a morar em sua casa e levanta todo tipo de rumor assustador. O que o sujeito misterioso, o tal forasteiro faz na mansão e o que acontece naquele lugar na calada da noite é parte central da história, bem como os eventos que envolvem os operários - quase todos imigrantes, atraídos pela perspectiva de um grande empreendimento. Entre esses trabalhadores está Rainer Schmidt, um imigrante alemão de passado nebuloso que busca melhores oportunidades de vida para sua família e acaba tendo de enfrentar algo aterrorizante.

Essa porção de "O Pescador" é simplesmente brilhante! 

A lenda sombria de "Der Fisher" é uma experiência para Abe e Dan e também para o leitor. Magia negra, visões surrealistas, rituais antigos, tomos com conhecimento arcano e criaturas bizarras que parecem saídas dos piores pesadelos aparecem numa sucessão vertiginosa. Coisas difíceis de compreender como estas encontrariam abrigo fácil no universo Lovecraftiano e se aninhariam confortavelmente entre os tentáculos dos deuses antigos e seus servos. Langan explora esses caminhos tortuosos e escuros como a noite com maestria, conduzindo a trama de forma perfeita. Seus personagens são reais, as situações, mesmo as mais surreais, são descritas com um colorido especial que torna tudo crível e a forma como ele conduz a trama não é menos que sensacional. John Langan habilmente, com grande atenção aos detalhes, cria uma atmosfera de terror e inquietação, enquanto lentamente nos introduz no universo do romance. Mas em determinado momento, o ritmo se quebra, lançando o leitor em uma montanha russa de ação e violência. 


O terço final da trama confronta os protagonistas com uma escolha cruel. Sabendo de todos os detalhes transmitidos, eles seguirão com a sua excursão ao riacho? Irão acreditar na história ou desconsiderar como mera superstição? Ou irão aceitar a vida e o destino que receberam? Eles buscarão uma maneira não-natural de aplacar sua perda? E ao fazê-lo, que horrendas repercussões suas escolhas trarão? O final reserva algumas reviravoltas e uma conclusão agridoce para os protagonistas.  

A versão nacional de "O Pescador" foi lançada pela Editora Darkside com a já conhecida qualidade que marca suas publicações. A edição em capa dura, marcador de página, borda colorida e belo acabamento gráfico é um complemento à altura dessa grande história. Foi um enorme acerto da Darkside trazer John Langan para nosso idioma e apresentá-lo ao público brasileiro através desse trabalho impecável. Fica a dica para que eles sigam adiante com as publicações desse autor. 

"O Pescador" recebeu o Bran Stoker Awards de 2016 na categoria melhor romance, premiação mais do que merecida na minha opinião. A incrível narrativa fluida de Langan, suas visões surreais e a atmosfera perturbadora tornam a leitura desse livro puro prazer. É um deleite para os fãs de literatura de terror e eu não poderia indicá-lo mais.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Texto e Arte - Resenha de "O Chamado de Cthulhu" da Editora Darkside

 "A Coisa mais misericórdia do mundo, penso eu, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo. vivemos numa ilha plácida de ignorância em meio a mares negros de infinitude e não somos destinados a ir muito longe. As ciências, cada uma delas se estendendo em sua própria direção, nos causaram pouco dano até o momento; mas algum dia, a reunião do conhecimento dissociado revelará paisagens tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição nela que ou enlouqueceremos com a revelação ou fugiremos da luz mortífera em direção à paz e segurança de uma nova era das trevas". 

H.P. Lovecraft - O Chamado de Cthulhu

*     *     *

Nota: Para avaliar esse trabalho magistral, resolvi dividir a resenha em três partes: a primeira tratando do Texto de H.P. Lovecraft, a segunda da Arte de François Baranger e finalmente, na terceira tratando da convergência dos dois elementos na forma do livro 'O Chamado de Cthulhu". 

O TEXTO

É com o parágrafo acima, transbordando pessimismo niilista que H.P. Lovecraft abre O Chamado de Cthulhu, um de seus contos mais famosos. Para muitos, Chamado está na lista dos melhores e mais influentes trabalhos do autor. Outros vão além: Chamado de Cthulhu estaria na lista dos melhores e mais influentes contos de horror do século XX, possivelmente da história. E eles não estão exagerando.

É provável que o próprio Lovecraft não soubesse que esse conto seria tão importante na sua bibliografia e que tornaria seu nome permanentemente associado à criatura que ele criou. De certa maneira, Lovecraft e Cthulhu se tornaram quase sinônimos: quando o nome de um é mencionado, quase que imediatamente o outro surge segundos depois. Criador e criatura com o passar do tempo ficaram quase indissociáveis.

Escrito ao longo do ano de 1926, e publicado pela primeira vez em fevereiro de 1928 na Revista Weird Tales, Chamado não conquistou imediatamente seu espaço, embora tenha atraído a atenção de outros autores que viram nele os méritos de uma história complexa e uma evolução nas bases para o que ficaria conhecido como Horror Cósmico. Talvez seja em O Chamado de Cthulhu que Lovecraft define pela primeira vez o que representa o panteão de seres que ele vinha trabalhando, não demônios, mas entidades alienígenas nascidas na vastidão do espaço. Ele também estabelece a importância cósmica dessas criaturas, seu poder esmagador e influência tóxica na história do planeta. Lovecraft trabalha o conceito de como a presença desses seres ancestrais ainda se faz presente, e como as emanações psíquicas desses horrores, no caso Cthulhu, são captadas pela humanidade. O toque de Cthulhu, seu Chamado, motiva a criação de cultos ao redor do mundo, seitas que veneram essa entidade com fanatismo bestial, oferecendo a Ele sacrifícios e pranteando o Seu retorno. O conto consolida a noção de que a proximidade do Mythos ocasiona alucinação, pavor e loucura, outra pedra angular do gênero.

Em resumo, alguns dos principais elementos que delineiam o Horror Cósmico são apresentados nesse conto de modo incrivelmente imaginativo e inovador.

Lovecraft contava que a inspiração para Chamado veio de um sonho que ele teve em 1919. Ele descreveu a experiência em duas cartas enviadas a seu colega de correspondência Rheinhart Kleiner em 21 de maio e 14 de dezembro de 1920. No sonho, Lovecraft via a si mesmo visitando um museu de antiguidades em Providence, tentando convencer um idoso curador a comprar uma estranha estatueta que o próprio Lovecraft havia esculpido. O curador inicialmente zomba dele por tentar vender algo feito recentemente para um museu de objetos antigos. Lovecraft então se lembra de responder ao curador que a peça era muitíssimo antiga e que ela havia sido esculpida à partir de seus próprios sonhos. 


Ao acordar, Lovecraft apanhou um bloco de notas e guardou essa informação, além de ter feito um esboço preliminar de como era a tal estátua: Um Deus com cabeça de polvo, corpo humano e asas de morcego, acocorado num pedestal. Um Kraken, um Dragão, uma abominação. Nascia assim o Grande Cthulhu, a Entidade Alienígena que habita as profundezas oceânicas, "não morto, mas sonhando", aguardando o momento certo de reclamar o planeta que um dia lhe pertenceu.

Lovecraft salvou essa sinopse com uma anotação adicional que dizia: "Adicione um bom desenvolvimento e descreva a natureza do baixo-relevo". Nos anos que se seguiram, ele trabalhou em muitos outros contos, mas nunca esqueceu do sonho e dessa ideia. Ele delineou o conceito de deuses alienígenas que habitaram a Terra muito antes da humanidade, que foram forçados a hibernar em lugares ocultos do mundo, mas que estão destinados um dia a despertar com a ajuda de cultos apocalípticos.

Depois de publicado na Weird Tales, o conto ficou quase esquecido e após a morte de Lovecraft, não fosse a intercessão de seus amigos, provavelmente teria se perdido para sempre. Ele foi salvo do esquecimento e republicado pela editora Arkham House junto com outros contos que estavam fadados a desaparecer. Aos poucos, a obra de H.P. Lovecraft foi sendo resgatada e cada vez mais lida. Ela influenciou e ainda influencia uma legião de autores, leitores, fãs e entusiastas que captaram a genialidade ali contida.

E Chamado talvez seja a semente disso tudo.

ARTE

Uma coisa curiosa é que por mais importante que seja, a obra de Lovecraft raramente foi objeto de imagens grandiosas capazes de evocar as cenas descritas nos textos rebuscados. Os primeiros livros do autor contavam com imagens pouco evocativas fosse na capa ou sobre o título, imagens discretas que entregavam pouco sobre as dimensões do horror ali contido. Talvez os ilustradores tentassem se manter fiéis ao princípio estabelecido pelo próprio Lovecraft de que as suas criaturas eram simplesmente indescritíveis e impossíveis de serem retratadas de forma fiel.

Os deuses, seres e monstros Lovecraftianos são contrários à própria ordem natural. Eles desafiam as convenções do que tratamos como convencional e corriqueiro. Eles são por definição absolutamente alienígenas e é isso que causa a loucura naqueles que vislumbram suas formas grotescas e contornos bizarros.

Não deve ser nada fácil trabalhar com essa premissa.

O artista que se propõe a ilustrar um Horror do Mythos parte do pressuposto que a coisa a ser retratada não é apenas estranha, ela é incompreensível. Algo que não pode ser decifrado pelos nossos sentidos  pois não temos como compara-la a nada que conhecemos.

Poucos artistas seriam capazes de trabalhar o desafio de dar forma ao Caos do Mythos.

Entra em cena o conceituado artista francês François Baranger, conhecido ilustrador que tem no currículo o projeto conceitual de vários filmes e games de sucesso. Baranger é um fã de longa data de Lovecraft e de suas criaturas inomináveis, segundo ele, "fonte de inspirações e horrores de todo tipo". 

Ele aceitou o desafio de invocar para o mundo real imagens dignas de pesadelo das criaturas lovecraftianas e materializá-las para a apreciação de nossos sentidos.  

JUNTANDO TEXTO + ARTE

O que acontece quando juntamos um dos textos mais inspirados de H.P. Lovecraft - o Chamado de Cthulhu, com as belíssimas ilustrações de François Baranger?

O resultado é "O Chamado de Cthulhu", um livro nada menos do que sensacional.


Lançado aqui no Brasil recentemente pela Editora Darkside, a versão nacional é um banquete para os olhos. Ela não fica devendo nada em relação à edição original lançada em 2017 e possui o mesmo projeto gráfico. Nem é preciso dizer como a Darkside se dedica na produção de seus livros e trata cada um deles com um esmero invejável que estabeleceu um elevado padrão de qualidade. Livros da Darkside são lindos! Fato que nenhum colecionador contesta.

Ao longo das 64 páginas, encerradas em um volume luxuoso com capa dura e papel couché, o leitor é agraciado com um dos melhores contos do gênio do horror, complementado por imagens deslumbrantes de um artista incrivelmente talentoso. O formato do livro chama a atenção, com 36 x 27 centímetros, mas seu objetivo é óbvio, permitir ao artista aproveitar as dimensões como se fosse uma tela. E ele aproveita cada espaço para invocar imagens incríveis.

Temos três tipos de ilustrações: as de página inteira, as que servem de background para o texto e enormes imagens de páginas dupla que mais parecem pôsteres. Baranger se sobressai em cada uma com seu estilo elegante e ao mesmo tempo sombrio. Ele não se intimida em reproduzir as cenas mais apocalíticas, como a que mostra os detalhes da clareira macabra usada pelo Culto de Cthulhu no coração do pântano da Louisiana. Imagem de arrepiar! Mas sem dúvida, são as ilustrações que evocam o terror alienígena da Ilha Cadavérica de R'lyeh, que chamam mais a atenção. Baranger oferece um panorama aterrorizante que completa a descrição de Lovecraft com maestria, ruínas ciclópicas de eras ancestrais, arquitetura impossível com ângulos incompreensíveis e grandeza avassaladora. Ele também não se intimida em retratar Cthulhu com uma aura de ameaça titânica. É possível entender como a mera visão dele conduz pessoas à loucura.

Entretanto, o uso mais genial de ilustração se ajustando ao texto é quando Beranger reproduz o trecho sobre uma matéria do Sydney Bulletin como se fosse uma página de jornal. Resultado nada menos que notável.

O conto original é reproduzido na íntegra e para os leitores que não conhecem esse clássico imortal do horror, imagino que esta talvez seja a melhor e mais acessível introdução ao Horror Cósmico. Se você quer apresentar Lovecraft e o Horror a um amigo ou conhecido, dê a ele esse livro de presente. Para aqueles que já foram introduzidos nesse universo, essa edição tem o mérito de ser uma das mais caprichadas e bonitas lançadas até hoje. Acredite, ela é praticamente um livro de centro de mesa.

A tradução do texto sob a responsabilidade de Ramon Mapa é competente, sem censurar ou atenuar o conteúdo original. Como deve ser! Na última página há uma Nota do Editor contextualizando a já exaustivamente debatida questão do racismo presente na obra de Lovecraft. A nota é esclarecedora, sem defender ou condenar, recorrendo a especialistas e estudiosos do autor para oferecer diferentes pontos de vista sobre a questão.

Em conclusão, "O Chamado de Cthulhu" é uma história inesquecível quase essencial para os fãs do Horror. As imagens de Baranger complementam cada linha de Lovecraft e expandem a percepção do leitor para além do que ele capta através das palavras, garantindo uma experiência inovadora mesmo para os que conhecem a história de trás para frente.

Essa edição vale muito à pena! Nos resta agora torcer para a Darkside traga também os dois volumes da novela "At the Mountains of Madness" projeto seguinte da dobradinha entre Lovecraft e Baranger. 

Que venham outros!

"O Chamado de Cthulhu" ilustrado por François Baranger pode ser encontrado na loja online da Editora Darkside no link abaixo:

https://www.darksidebooks.com.br/o-chamado-de-cthulhu--brinde-exclusivo/p


sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Medo Clássico vol 2 - Resenha da Antologia de Lovecraft lançada pela DarkSide


Quando escrevi a resenha para o Primeiro Volume de Lovecraft: Medo Clássico alguns anos atrás eu comecei dizendo que "Houve um tempo que a obra de Lovecraft era quase desconhecida no Brasil e difícil de ser encontrada". Realmente, houve um tempo em que ninguém, a não ser um pequeno grupo de fãs do gênero horror, conhecia Lovecraft e suas histórias não eram mais do que um material obscuro difícil de ser encontrado.

Como isso mudou!

Atualmente uma nova geração de leitores brasileiros foi apresentada a bibliografia de Lovecraft através de diferentes fontes. Temos filmes, séries de televisão, desenhos animados, jogos de tabuleiro, quadrinhos e RPG que colocam as criações (e criaturas) do autor em destaque. Quem poderia imaginar tal coisa? Ninguém supunha que esse estranho autor norte-americano, nascido no final do século XIX e que faleceu na obscuridade em 1939, se tornaria um dia um dos maiores expoentes no gênero e um verdadeiro fenômeno pop. E tudo aconteceu após a sua morte prematura, aos 46 anos, num lamentável estado de penúria e desespero. Até então Howard Phillips Lovecraft havia escrito compulsivamente a respeito de uma mitologia particular, uma complexa colcha de retalhos formada por deuses monstruosos, seres alienígenas e horrores impronunciáveis. Seus contos foram publicados em revistas pulp, como a Weird Tales, publicações baratas tratadas como uma subliteratura pelos críticos. Lovecraft almejava ser reconhecido, desejava que suas histórias se tornassem tão admiradas quanto as de seu ídolo máximo, Edgar Alan Poe, e que isso lhe trouxesse algum reconhecimento. Mas não aconteceu.

Embora fosse elogiado por um pequeno grupo de fãs, Lovecraft jamais atingiu em vida as suas aspirações profissionais. Ele nunca viu uma antologia com o seu nome ser publicada, por exemplo. O ofício de escritor lhe permitia sobreviver à duras penas. De fato, é uma surpresa que após a sua morte ele não tenha caído no anonimato. Isso se deu porque ele semeou boas amizades. Coube a esses colegas mais próximos, um grupo de fiéis seguidores que o tinham como um mentor, a difícil tarefa de cultivar a sua memória. Eles sabiam que valia a pena lutar para salvaguardar os textos de Lovecraft, uma série de contos que daria origem a algo que ficou conhecido como Horror Cósmico.

Levou alguns anos, mas graças a esses amigos, em especial August Derleth, os trabalhos de Lovecraft foram resgatados do limbo em que se encontravam. Ele foi publicado uma, duas, várias vezes e um fenômeno tão curioso quanto inesperado começou a surgir. As histórias de Lovecraft começaram a conquistar seu espaço. Mais que isso, passaram a ser elogiadas, copiadas, respeitadas, estudadas... Aos poucos o tão desejado reconhecimento que ele buscou incessantemente, acabou vindo. Tarde demais para ele, é bem verdade, mas assim, tal qual Cthulhu (sua criação mais conhecida) o legado de Lovecraft não estava morto, apenas aguardava, sonhando.


Nas últimas décadas, Lovecraft deu um salto decisivo para se estabelecer como um dos nomes mais populares dentro da literatura do Horror. Sua importância para o gênero pode ser medida pelo fato de seu nome ter se tornado adjetivo: "lovecraftiano" - que se refere a algo estranho, bizarro e incomum, geralmente horrendo e perturbador além de qualquer descrição.

No Brasil, Lovecraft está mais popular do que nunca. Trinta anos atrás, você mencionava o nome dele e obtinha olhares inquisitivos, hoje, a maioria dos fãs sabem quem ele foi e quais as suas principais histórias. E elas não param de ser publicadas, o que apenas confirma o vigor de sua obra e o interesse que ela desperta num público ávido por explorá-la mais à fundo.

Isso nos leva ao mais recente lançamento da Editora Darkside, o aguardado segundo volume do selo Medo Clássico, dedicado inteiramente a H.P. Lovecraft. Seguindo a premissa do primeiro volume, lançado em 2018, Lovecraft Medo Clássico volume 2 oferece uma seleção de 12 contos essenciais escritos pelo mestre do Horror Cósmico. São histórias que compõem a quintessência do autor, alguns de seus grandes momentos criativos estão presentes aqui, bem como alguns pequenos contos menos citados, mas que valem a pena conhecer.

Vejamos o lista de contos que integra o volume dois:

Medo Clássico abre com "O Horror de Dunwich" um dos contos mais populares de Lovecraft, verdadeiro clássico de construção lenta mas arrepiante. A história é sobre um estranho clã vivendo num pacato lugarejo nos arrabaldes da Nova Inglaterra que planeja a derrocada da humanidade através de um horrível experimento sobrenatural. Para deter esse plano macabro, um grupo de acadêmicos recorre a livros, em especial o tenebroso Necronomicon, para combater a ameaça. Um dos Deuses mais interessantes, Yog-Sothoth, faz uma bela aparição aqui e permeia na trama do início ao fim.


"Celephais" é daqueles contos menores, uma história que integra o chamado Ciclo dos Sonhos e que versa sobre uma realidade onírica fantástica. A Celephais do título é uma cidade criada por um sonhador que usa a Terra dos Sonhos para espelhar seu lugar idílico.

Já em "A Música de Erich Zann" temos um estudante que fica intrigado pela curiosa música executada por um ancião que parece tocar suas melodias para uma plateia incomum. A música do título, nada mais é que uma canção de ninar para titãs e deuses de outra realidade.

Lovecraft atinge o ápice de sua inventividade misturando terror e ficção científica no conto a seguir, "A Cor que Caiu do Espaço" uma de suas obras mais celebradas e elogiadas. Não é para menos! A Cor está facilmente no top 10 de seus contos e é uma história engenhosa e impecável. Um meteorito despenca dos céus trazendo em seu interior uma forma de vida bizarra que altera a natureza e promove um horror inenarrável. A coisa é apenas uma cor, indescritível e bizarra que corrompe tudo aquilo em que toca. Para alguns esse é um dos contos definitivos no gênero Horror Cósmico.

"Os Gatos de Ulthar" é uma pequena joia da bibliografia lovecraftiana, também se passando na Terra dos Sonhos. Ela trata de uma das paixões do autor, os gatos e apresenta uma cidade incomum em que a Lei principal proíbe matar gatas. A história acompanha o que acontece quando alguém vai contra essa norma e ousa ferir um felino nos limites de Ulthar.

A seguir encontramos "Do Além", um conto curto dotado de grande intensidade e empolgação. A trama nos apresenta um cientista que constrói uma máquina - o Ressonador, engenho que lhe permite apreciar o que existe além de nossos sentidos e das limitadas percepções humanas. O único problema é que, aqueles que estão do outro lado também passam a nos perceber.


"O que Assombra as Trevas" foi um dos últimos contos escritos por Lovecraft, lamentavelmente justo quando ele parecia ter amadurecido sua narrativa e refinado seu estilo. A história é sobre a obsessão de um homem à respeito de uma estranha igreja proibida na sua cidade natal, um lugar escuro que abriga um horror ancestral. Atraído por sua curiosidade mórbida ele acaba explorando o lugar e libertando a coisa blasfema que habita nas trevas do campanário.

O conto "Nyarlathotep" lança um espectro sobre uma de suas criações mais celebres o Deus Exterior que dá título à história e um dos horrores favoritos entre os fãs. O conto curtinho contextualiza o caráter sardônico do Caos Rastejante e sua propensão a nos confundir e enganar. É uma espécie de poesia narrada em prosa, difícil de descrever e não por acaso resultado de um sonho febril de Lovecraft à respeito de uma realidade distópica.

Já em "O Modelo de Pickman", o autor volta ao mundo real para contar uma história com ecos de gótico sobre um pintor que recorre a uma musa apavorante para produzir os quadros mais horripilantes. A medida que sua arte vai sendo apresentada, a origem chocante das telas e a forma como elas foram produzidas deixam uma sensação indisfarçável de asco e choque. Pickman é outra obra menor de Lovecraft, mas que se tornou muito querida entre os fãs.

O Cavalheiro de Providence investe novamente no gótico com a história à seguir "O Proscrito". Nela, temos um misterioso morador de um castelo medieval que habita as profundezas de um porão que lhe serve de prisão. Ao buscar a liberdade, o estranho narrador faz uma chocante descoberta sobre si próprio. Fortemente influenciado por Poe e outros mestres góticos, o Proscrito é uma história sobre solidão e revelações perigosas.

Já em "A Danação que acometeu Sarnath", a narrativa tem tons surreais e fantásticos. Conhecemos aqui o trágico destino de uma bela cidadela e de seu povo, vítimas de uma vingança que demora séculos para se concretizar, mas que quando ocorre promove a danação do título. É uma história estranha e com nuances oníricas que obviamente se passa na Terra dos Sonhos.


Finalmente, a lista termina com "A Sombra sobre Innsmouth", outro dos grandes clássicos que compõem o rol de obras que "merecem ser lidas". Insmouth é uma daquelas histórias decididamente macabras em que o autor dá asas a sua imaginação mais profana. Nela temos uma pacata cidadezinha costeira, palco de incidentes muito estranhos e onde a população negocia com horrores que habitam as profundezas marinhas. Lovecraft explora como ninguém a estranheza diante do incomum e do imponderável, além de promover um vislumbre do que viria ser chamado de "Body Horror".

Além da excelente seleção de contos, o volume 2 nos brinda com o ensaio "O Horror Sobrenatural na Literatura" uma espécie de estudo acadêmico, redigido por Lovecraft à respeito do gênero e dos principais expoentes da literatura de terror que o inspiraram e influenciaram. Um trabalho erudito e primoroso.

Como sempre é necessário elogiar a qualidade gráfica e o sensacional trabalho dispensado pela Darkside. O livro é um deleite visual que vai fazer os colecionadores literalmente salivarem com a oportunidade de tê-lo em sua prateleira, ainda mais com a perspectiva futura de outros volumes que completarão essa coleção dedicada a Lovecraft. Diferente da primeira edição em que o verde fosforescente era a cor principal, aqui temos um tom de laranja doentio que casa perfeitamente com o tema das histórias. As ilustrações que abrilhantam algumas páginas são assinadas pelo consagrado artista Virgil Finlay que contribui demais para o clima mórbido e lúgubre. Medo Clássico volume 2 tem um acabamento fantástico e oferece duas opções de capa: a Edição Miskatonic e a Cósmica, ambas incríveis.

Mais um grande acerto da Darkside que oferece entre os mimos para quem adquire pela sua loja própria três cartões postais. Particularmente não gosto de usar a palavra "obrigatório", mas sem dúvida os verdadeiros fãs do terror deveriam conhecer esse gênio do Horror e saber porque ele é tido como um dos expoentes do gênero. E aqueles que já conhecem, vão adorar essa edição.

Para quem quiser ler a resenha do volume 1, aqui está o link:

http://mundotentacular.blogspot.com/2018/01/medo-classico-hp-lovecraft-em-uma.html

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Livros de Sangue - Os Cinco Melhores Contos da Antologia de horror


"Todo Corpo é um Livro e Sangue, 
quando nos abrem, a impressão é vermelha".
- Clive Barker em Livros de Sangue

Clive Barker é um sujeito que faz de tudo um pouco. 

Autor, roteirista de cinema, dramaturgo, diretor, compositor, artista plástico, quadrinista, pintor e nas horas vagas escreve algumas das melhores histórias de horror das últimas décadas. Ele é o cara da famosa citação de Stephen King: "Eu vi o futuro do terror, e o nome dele é Clive Barker", o que não é pouca coisa, considerando que King, o Papa do gênero, praticamente apontou o dedo para seu sucessor de direito.

Não é pra menos.

Frequentemente quando leio alguma obra assinada pelo Barker eu me pego pensando: "O que diabos esse cara tem na cabeça"?

A imaginação dele, a capacidade criativa, a morbidez e a maneira como ele consegue colocar no papel suas ideias chega a ser assustadora. Eu adoro horror e se meu gosto se tornou mais requintado com o tempo, muito desse apuro adquirido se deve a habilidade que Barker demonstra ao contar suas histórias. E que histórias!

Anteriormente eu já elogiei aqui no MUNDO TENTACULAR o talento desse britânico que escreve sobre o que existe de mais escuro da alma humana com uma casualidade beirando o incômodo. Vou tentar não rasgar elogios como costumo fazer quando falo a respeito dele, me limitando a citar um único exemplo da força de seus textos. Clive Barker é um dos únicos autores que me fizeram ficar sem ar e parar para recobrar o fôlego antes de continuar a leitura. Isso aconteceu quando li pela primeira vez seu romance de estreia "O Jogo da Perdição", desde então um dos meus livros de horror favoritos.

Barker é capaz disso e de muito mais. 


As histórias dele vem imbuídas de um senso estético difícil de descrever, elas são doentias, perversas, cruéis, mas você não consegue colocar o livro de lado, mesmo sabendo que os parágrafos abrasivos dele irão te incomodar por um bom tempo. Ele escreve como ninguém a respeito de maldade, de seres fantasticamente cruéis, de mitos esquecidos e da condição humana. Seus personagens compõem um elenco de horríveis pecadores, transgressores inveterados e torturadores compulsivos. Suas histórias possuem reviravoltas e choques que arrancam o leitor de sua zona de conforto e o arremessam para dentro da narrativa, quase coo uma testemunha das suas horrendas revelações.

Ok, eu disse que não ia rasgar elogios, tarde demais.

A razão de ser desse artigo é falar sobre uma das obras mais conhecidas de Clive Barker, uma que marcou época aqui no Brasil, quando foi publicada pela Civilização Brasileira lá pelo início dos anos 1990. Trata-se de uma antologia de contos escritos por Barker quando ele estava no início de sua carreira. Não é exagero dizer que alguns desses contos ajudaram a lançar seu nome e serviram para consolidá-lo como uma promessa entre os mestres do terror contemporâneos. Obviamente, estou me referindo a coleção Livros de Sangue.

Livros de Sangue é uma coleção de 6 volumes (posteriormente lançada em 3 livros) editada originalmente na Inglaterra e Estados Unidos respectivamente em 1984-1985. Quando o primeiro volume chegou às livrarias, Barker se tornou uma sensação instantânea, recebendo uma penca de prêmios e inúmeros elogios. O sucesso ajudou a catapultá-lo para outras mídias, reunindo uma legião de fãs que consumiram seus filmes, telas, quadrinhos, peças teatrais e tudo mais que ele produziu.


Para quem não teve a chance de conhecer a obra, cabe dizer que Livros de Sangue serviu de inspiração para pelo menos meia dúzia de filmes nos anos seguintes. Alguns muito bons como Candyman, outros nem tanto, como Trem da Carne da Meia Noite e Mestre das Ilusões. Contudo, o grande mérito de Livros de Sangue foi apresentar um estilo único de escrita aterrorizante que talvez um dia venha a ser reconhecido como barkeriano.

Agora, quase 30 anos depois de seu lançamento no Brasil, Livros de Sangue está prestes a retornar em pompa e circunstância, trazido pela celebrada Editora Darkside. Os autênticos fãs do Horror e Fantasia, por muitos anos órfãos de bons títulos e material de qualidade, não precisam de apresentações quando o nome Darkside é mencionado. Nos últimos anos a editora se consolidou como referência, trazendo o que existe de melhor no gênero com uma qualidade notável. Não resta dúvida de que Livros de Sangue seguirá essa mesma premissa, com um apresentação luxuosa, tradução primorosa e o acabamento magnífico que já conhecemos.

Enquanto Livros de Sangue não chega, eis aqui um aperitivo para despertar a sede de sangue dos leitores. Selecionei os seis melhores contos da Antologia e dediquei a cada um deles, algumas palavras, sem é claro incorrer em SPOILERS.



Relaxe então e conheça um pouco da fina iguaria que são esses contos e fique atento, pois o primeiro volume está chegando em breve.

1 - Livro de Sangue (Volume 1 e 6)
  
"Os mortos tem suas estradas".

Essa frase que abre o conto Livro de Sangue, o primeiro da antologia, continua me arrepiando sempre que leio essa história particularmente macabra. O Livro de Sangue não é uma história longa, mas ela serve como uma espécie de fio condutor para as demais tramas, introduzindo de forma soberba o ritmo do que está por vir.

A premissa é bastante instigante e envolve Mary Florescu, uma parapsicóloga que acompanha um jovem medium chamado Simon McNeal que incorpora diferentes espíritos. McNeal é um farsante que se aproveita das crenças alheias e simula visões arrebatadoras nas quais tem contato com espíritos que transmitem seu conhecimento e compartilham segredos. Florescu desconfia que há alguma coisa errada, mas está tão desesperada por acreditar no sobrenatural e apaixonada por seu objeto de estudo que releva todas suas suspeitas. As coisas mudam quando os dois visitam uma casa com longa fama de ser assombrada e acabam desafiando as coisas que lá  residem.

Barker descreve de forma magistral o embate das forças sobrenaturais e a ira dos espíritos quando descobrem que o medium não passa de uma fraude. Decidem então usá-lo como as páginas de um diário macabro no qual suas histórias serão reveladas, o que dá início aos demais contos. A mensagem é clara: Não tente se aproveitar dos mortos em causa própria, a vingança deles será terrível. E o autor relata esse horror sobrenatural de uma maneira aterradora.

O Livro de Sangue abre a antologia e também a encerra, como a história de fechamento "Na Rua Jerusalém", na qual descobrimos o destino final dos personagens.  


2 - O Trem da Carne da Meia Noite (Volume 1)

É possível que muitas pessoas conheçam esse conto através do filme lançado em 2008, estrelado por Vinnie Jones e Bradley Cooper. Mas esqueça essa adaptação apenas mediana de um conto muito mais profundo e assustador.

O Trem da Carne da Meia Noite na sua versão original é incrivelmente assustador.

Um assassino sanguinário chamado Mahogany aterroriza Nova York promovendo um verdadeiro banho de sangue, deixando uma trilha de cadáveres que parecem ligá-lo ao sistema subterrâneo de metrô da cidade. Um sujeito retornando para casa do trabalho pega no sono no metrô da meia-noite e acaba acidentalmente cruzando o caminho do assassino e descobrindo os horríveis motivos para seus crimes.

Essa história é uma das melhores na minha opinião, não apenas por ser um suspense arrepiante de perder o fôlego, mas por ter uma ideia muito bem fundamentada. Ela trata dos segredos de grandes cidades e de coisas que a maioria das pessoas não devem saber a respeito do lugar que escolhem para viver. Há algo positivamente Lovecraftiano nas motivações do assassino que no fim das contas age com um propósito que poderia ser encarado como nobre, até essencial para o benefício da população. Ainda assim, as descrições dos assassinatos e horríveis criaturas fazem com que cada página pareça um pesadelo impresso em vermelho.

É Barker em seu ápice de sanguinolência e bizarrice!


3 - Cabeça Descarnada (Volume 3)

Barker explora os Mitos Ancestrais da Inglaterra ao contar a história de um monstro milenar, um gigante humanoide pertencente a um passado remoto que é acidentalmente despertado de seu longo sono e passa a vagar sem destino por um vilarejo o interior matando e espalhando destruição por onde passa.

Além de contar como ninguém uma situação absurda de terror extremo, Barker coloca no centro da narrativa a figura do monstro desperto, o Rei Cabeça Descarnada, vindo de um tempo distante e lançado num mundo que não mais lhe pertence. A confusão da criatura, seu senso de sobrevivência e surpresa diante do mundo moderno contrapõe o terror que ele próprio desencadeia na população.

Cabeça Descarnada ficou marcado para mim por um trecho especialmente medonho e incrivelmente detalhado no qual o monstro faz uma vítima inocente. É daqueles momentos que você ou fecha o livro enojado com o que acabou de ler, ou respira fundo e vai até o final.

Rawhead Rex (o título original) foi um dos primeiros contos de Barker a ser adaptado para o cinema em uma produção irlandesa bastante modesta nos anos 1980. Esqueça essa versão! A força da história se encontra no texto que explora as motivações do monstro como um tipo de Frankenstein ainda mais monstruoso. E ainda tem espaço para rituais bizarros, tradições antigas e artefatos mágicos. Um clássico!  


4 - O Proibido (Volume 5)

Para quem não sabe, Candyman, o espectro de um homem negro com gancho no lugar de mão e corpo coberto de abelhas era originalmente bastante diferente do que conhecemos no filme. De fato, Barker concebeu a entidade não como uma lenda urbana de Chicago, mas como um horror que habitava as vizinhanças decadentes de uma grande metrópole inglesa. Ele não era Candyman, o Homem Doce, atendia pelo nome de O Proibido, e era muito, muito assustador.

Na história original, Helen, uma estudante de lendas urbanas completando uma tese a respeito de arte das ruas, devota suas pesquisas a desenterrar as histórias por trás de um lendário fantasma. Suas pesquisas fazem com que ela comece a relacionar crimes e mutilações recentes com um terror sem igual que assombra o local. Os moradores desses bairros decadentes que constituem a zona de caça da criatura não duvidam nem por um instante da sua existência, sabem que a entidade vaga por ali, impondo seu reinado de horror. Quanto mais perto Helen vai chegando da verdade, mais próxima ela se aproxima da criatura.

O Proibido foi adaptado de maneira sensacional para a realidade americana, inserindo na lenda diferentes aspectos sociais como pobreza e escravidão que contribuíram para torná-la ainda mais densa e apavorante. Mas a versão original, escrita nos anos 1980, mantém seu choque e originalidade. 

Vale a pena conhecer a origem desse personagem, um dos mais assustadores da longa lista de vilões do autor. 


5 - Na Carne (Volume 5)
 
Na Carne é a significativa exploração de Barker ao Horror Corpóreo.

Mudanças aterradoras, transformações bizarras e uma nova configuração do corpo humano são um dos elementos centrais tratados nesse conto de gelar o sangue. Barker disse em uma entrevista que se inspirou nos primeiros filmes de David Cronemberg (sobretudo The Brood e Videodrome) para escrever esse conto e que seria uma honra se essa história também fosse adaptada pelo diretor. Realmente, o que viria dessa combinação é algo a se imaginar.

No roteiro claustrofóbico de "Na Carne", Cleve um detento numa grande penitenciária recebe um novo companheiro de cela, que admite ter cometido seu crime com o objetivo de ser encarcerado naquela prisão em particular. O sujeito acredita que seu avô, um poderoso feiticeiro, foi enterrado na penitenciária após cumprir pena no mesmo lugar anos atrás e que ele teria levado consigo um segredo desejado. Para obter esse segredo ele precisa invocar o espírito de seu antepassado e convencê-lo a partilhar sua sabedoria, o que no fim das contas acaba saindo muito errado e causando horríveis resultados.

Imagine uma história de terror se passando quase que inteiramente em um cubículo de onde não há escapatória e que vai ficando cada vez mais apertado a medida que o horror transborda. "Na Carne" não por acaso deu nome a uma das Antologias, sendo um dos contos mais comentados e elogiados de Barker. Expostos a um horror indescritível, os prisioneiros vão se transformando em um arremedo de seres humanos a medida que a loucura toma conta deles. 


Bônus: 

Livros de Sangue é composto de 28 contos, incluindo os descritos acima. Como toda antologia de contos, existem altos e baixos, histórias melhores e piores, mas de um modo geral, os contos são muito bem escritos e despertam o interesse do leitor.

Além destes cinco, eu destaco Blues do Sangue de Porco (Volume 1), uma horrível história sobre um centro de menores delinquentes e um estranho culto surgido entre os internos, Pavor (Volume 2), onde a obsessão de um homem pelo medo conduz suas vítimas a um passo além da sanidade mental, As Peles dos Pais (Volume 2), no qual abominações querem se apossar de uma criança gerada entre seres humanos, A Morte Viva (Volume 6), no qual uma mulher desenganada adquire o poder da vida e da morte e A Última Ilusão (Volume 6) em que um detetive particular precisa enfrentar magia verdadeira para salvar sua cliente.

Uma antologia para ler, se arrepiar, mas manter sempre perto.