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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Choque na noite - O Mistério do Incidente na Ilha de Bell


Situada próximo da costa de Newfoundland, no Canadá, encontra-se uma pequena porção de terra instalada nos turbulentos mares cinzentos da Baía da Conceição (Conception Bay). Medindo apenas 9,5 quilômetros de comprimento por 4,8 quilômetros de largura, a Ilha de Bell provavelmente seria apenas mais uma rocha esquecida se não fosse pelas vastas reservas de depósitos de ferro encontrados lá na década de 1890. As reservas naturais eram tão vastas que a ilha se tornaria uma das maiores produtoras de minério na América do Norte, fazendo dela e de seus embarques de minério um alvo para os submarinos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. 

A atividade de extração do minério de ferro era extremamente perigosa para todos os envolvidos. A extração quando realizada nas profundezas apresentava graves riscos e qualquer erro poderia resultar em acidentes fatais. De fato, as perdas humanas e de maquinário só eram compensadas pela enorme fortuna mineral presente, do contrário a atividade sequer seria cogitada. A extração prosperou até a metade da década de 1960, quando os veios se tornaram tão fundos que passaram a ser considerados perigosos demais e muito caros para justificar as operações submarinas de altíssimo risco. 

Com isso, a Ilha de Bell lentamente foi deixando de atrair a atenção, até quase desaparecer na obscuridade. Ela voltou a ser uma simples ilhota despontando no mar gélido do ártico, sujeita a tempestades que fustigavam a rocha com ondas de até 5 metros.

No entanto, em 1978, a pequena ilha esquecida por todos voltaria aos holofotes quando um incidente muito estranho ocorreu aqui, algo que permanece um mistério muito falado até hoje e tão pouco compreendido quanto na noite em que tudo ocorreu.

No dia 2 de abril daquele ano, os poucos residentes da ilha escassamente povoada, foram acordados por um estrondo repentino que varreu o lugar, causando medo e confusão. Algumas pessoas chegaram a reportar desorientação e outras disseram que tiveram os tímpanos estourados pelo som. Era como uma explosão, tão violenta que supostamente foi ouvida a 100 quilômetros de distância. Ela enviou ondas de choque que sacudiu prédios, rachou a fachada de casas e calçadas e, segundo alguns relatos, até derrubou pessoas no chão. O estrondo reverberou por dias e muitos jamais se recuperaram inteiramente do acontecimento.

Um dos principais fenômenos observados foi o efeito marcante nos equipamentos elétricos e eletrônicos da ilha. Aparentemente, toda fiação elétrica foi queimada, as televisões explodiram em chuvas de faíscas, as linhas de energia derreteram e as caixas de fusíveis explodiram sem motivo aparente. A antena de rádio que fornecia serviço de telefone para a ilha foi totalmente inutilizada, como se atingida por uma descarga elétrica devastadora. O incidente afetou os animais que viviam na ilha com o gado simplesmente morrendo nos campos, aparentemente eletrocutados. Cães latiram a noite toda e nas horas seguintes ao incidente começaram a agir de forma arredia até simplesmente morrerem. Pássaros e peixes surgiram aos milhares, amontoados nas praias. 

Danos consideráveis também foram relatados nas estruturas, com celeiros e cabanas de madeira  totalmente rasgados ao meio e casas comprometidas por dano estrutural. Apenas aquelas construídas com material mais resistente suportaram o choque sem grandes danos. Muitas residências tiveram os telhados inteiramente arrancados. Os moradores atônitos não sabiam o que pensar já que a paz e tranquilidade que marcava suas vidas havia sido repentinamente interrompida com um choque na calada da noite.


Enquanto as pessoas se perguntavam o que teria acontecido, encontraram três buracos com 90 centímetros de profundidade na propriedade da família Bicksford, uma fazenda mais afastada que parecia ter sido o epicentro da explosão. Assumiram que aquilo era algum  tipo de cratera de impacto, mas não acharam nela os restos que pudessem ser condizentes com o choque de um meteoro.

E então, quando se achava que o pior havia passado, as coisas realmente estranhas começaram a acontecer.

No rescaldo dessa explosão estrondosa, surgiam relatos de pessoas de todos os cantos da ilha e de lugares próximos, como na Terra Nova, que testemunharam coisas muito esquisitas no céu antes e durante o evento anômalo. Algumas testemunhas alegaram ter visto um raio de luz muito brilhante descendo do céu e que este teria ocasionado a explosão. Outras relataram orbes de fogo flutuando no céu ou globos luminosos pairando no ar nos dias imediatamente anteriores ao incidente. Outras ainda disseram que viram flashes multicoloridos faiscando poucos minutos antes do choque que abalou a ilha. Além de tudo isso, descobriu-se que a explosão havia criado energia suficiente para ser detectada por satélites em órbita, os chamados de Satélites Vela, cuja função era verificar testes nucleares secretos feitos pela União Soviética. Seja lá o que havia ocorrido, o fenômeno era algo marcante e de proporções consideráveis. 

Com toda essa estranheza acontecendo, é claro que houve especulação imediata sobre o que poderia ter havido. As teorias variavam do racional ao conspiratório.

Um detalhe curioso é que nos dias após o evento, militares e pesquisadores do Laboratório Nacional de Los Alamos, no Novo México foram vistos na região coletando evidências, tirando fotos e entrevistando testemunhas. Alguns afirmaram ainda terem sido examinados por médicos do exército e que foram incentivados a assinar documentos de confidencialidade.  

Dois especialistas, John Warren e Robert Freyman, também foram vistos entre os militares que desembarcaram na Ilha de Bell e ocuparam o lugar por semanas. Os dois eram técnicos especializados no desenvolvimento de armamento tático para as forças armadas. O fato deles estarem investigando o local alimentou rumores de que algum tipo de teste de arma secreta havia sido conduzido na ilha, provavelmente algum aparelho que projetou um pulso eletromagnético avançado, considerando a grande quantidade de danos causados à rede de sistemas elétricos. A criação de armas desse tipo sempre foi teorizada, já que o emprego delas poderia conceder uma vantagem no caso de uma guerra, inutilizando o equipamento eletrônico do inimigo rapidamente, deixando-o cego, surdo e mudo.

Nicola Tesla, o gênio do final do século XIX, havia estabelecido o conceito de uma Arma de Raios Elétricos tão poderosa e destrutiva que ele próprio concluiu, poderia representar o fim da humanidade se produzida. O almejado Raio da Morte de Tesla teria capacidade para devastar cidades inteiras com um único disparo e por isso, ele teria abandonado os estudos e a construção de um protótipo. Contudo, o Raio da Morte sempre foi um conceito perseguido pelas nações em sua corrida armamentista, aquele que tivesse uma dessas armas poderia subjugar qualquer inimigo. 

Mas poderia ser o Raio da Morte de Tesla em ação, o que atingiu a Ilha de Bell?


Outras teorias defendidas na época mencionavam que o incidente havia sido causado por um estrondo supersônico ocasionado por uma aeronave experimental do governo. O empuxo teria causado a onda de choque que atingiu Bell. Outros supunham que a aeronave teria se acidentado em algum lugar e que o estrondo ouvido foi resultado de seu motor explodindo. Aqueles que disseram ter visto uma estranha luz iluminando os céus noturnos, defendiam que tal fenômeno não era exatamente incomum sobre a Ilha de Bell. De fato, o local era um tipo de para-raios de bizarros incidentes jamais explicados. 

A outra explicação é que a parte norte da Ilha de Bell havia recebido uma descarga teste fortíssima, com o intuito de testar uma arma em desenvolvimento. Os defensores dessa teoria apontavam para a projeção de um tipo de raio ou pilar de eletricidade que foi visto descendo do céu e atingindo a terra. Tal raio, segundo alguns, teria sido projetado do céu, possivelmente de satélites ou veículos em uma altitude elevada. Como o Projeto Guerra nas Estrelas estava muito em voga na época, alguns acreditavam ter se tratado de um teste de painéis refletindo lasers. O governo norte-americano realmente tencionava levar esse projeto adiante como uma medida preventiva contra os mísseis balísticos intercontinentais (IBM) soviéticos, mas os custos operacionais e a tecnologia necessária estavam muito além do razoável. Ainda assim, poderia ter sido um teste de um projeto preliminar, como afirmavam alguns?  

E finalmente, claro que haviam os que defendiam o fenômeno OVNI como o causador direto do acontecimento. 

A teoria principal e mais provável, no entanto, é que a ilha teria sido atingida por um relâmpago conhecido como "superbolt lightining". Este fenômeno afortunadamente raro, é mais ou menos o que o nome sugere, raios assustadoramente poderosos que duram mais do que os usuais e liberam incríveis quantidades de energia quando são deflagrados por condições favoráveis. 

Não apenas a maioria dos fenômenos relatados foram consistentes com um superbolt, mas descobriram posteriormente que os dois cientistas do Laboratório Nacional de Los Alamos, Warren e Freyman, não esconderam que estavam lá para estudar a incidência de um superbolt que havia sido captado pelos Satélites Vela. Eles chegaram à conclusão de que provavelmente era um desses raríssimos superbolts que havia caído ali e ficaram surpresos por este não ter causado danos ainda maiores, considerando sua gravidade. 

O incidente notável ficou conhecido como "Bell Island Boom" e correspondia ao que se esperaria de um superbolt atingindo uma região delimitada. Um relâmpago superbolt causa um flash de luz que pode ser até mil vezes mais brilhante do que um relâmpago normal, sem falar na duração que pode ser de até 6 segundos. Além disso, a descarga de um único superbolt é equivalente a 100 gigawats, uma descarga elétrica de proporções massivas. Para se ter uma ideia, toda produção elétrica solar e eólica dos Estados Unidos ao longo de um ano equivale a aproximadamente 150 Gigawats. Imagine tudo isso sendo liberado de uma vez só em uma área relativamente pequena.


Apesar de todas explicações convenientemente dadas, muitas pessoas continuam supondo que tudo parece se encaixar bem demais, quase como um acobertamento previamente ensaiado. As suspeitas sobre ações governamentais sigilosas e testes de super armas secretas têm pairado sobre o incidente desde o primeiro dia e, de fato, até hoje.

Então, o que realmente aconteceu naquela ilha remota, naquela noite fatídica? 

Seria algum tipo de teste de arma que foi encoberto, uma histeria coletiva de massa, um relâmpago em forma de bola, um superbolt ou algo ainda mais estranho? No momento, acredita-se mais na teoria do superbolt, mas parece haver certas discordâncias quanto a coisa toda, sobretudo nos últimos anos. Testes suplementares com tecnologia mais recente indicam que apesar de tudo apontar para o super raio, há elementos de dúvida razoável que não foram inteiramente contemplados. Se realmente foi um superbolt que atingiu a Ilha de Bell, e se ele foi tão poderoso quanto o mensurado, como seria possível que ninguém tenha morrido nessa descarga que deveria ser uma das mais poderosas de todos os tempos. Considerando todos os dados coletados, seria impossível tal incidente ter transcorrido e os danos não terem sido muito, muito maiores.

O  Caso do Boom da Ilha de Bell, continua atraindo a atenção das pessoas e dos pesquisadores, um mistério que parece estar longe de ser resolvido. Certamente parece que algo misterioso aconteceu naquela Ilha afastada, mas quanto ao quê, ainda parece depender em grande parte de para quem você pergunta. 

Seja lá o que for, é estranho, e dá margem para muita discussão. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Natureza Bizarra - O Fungo mais estranho da Natureza


Eu recomendo que pessoas sensíveis se privem do "prazer" de ler o artigo a seguir. Sério... a natureza não se cansa de oferecer nuances de uma notável variedade e inesgotável surtimento de choque e horror. 

Em especial, os fungos. É incrível como essas coisas podem ser perturbadoras e bizarras, sugerindo uma origem alienígena e conjurando sentimentos que quase me fazem gritar "queime essa coisa". Francamente o texto embora desagradável é perfeitamente adequado a um blog de terror. Então vamos aos fatos lembrando que quem quiser parar agora o faça.

*     *     *

Em geral, é possível encontrar coisas boas e ruins a respeito de praticamente tudo na Terra. 

É difícil imaginar que a natureza produza algo com total ausência de virtudes capaz de torná-lo por si só detestável, afinal, tudo tem um propósito e uma razão para existir, certo? Bem, talvez nem sempre...

Quando se trata dos fungos da família Phallaceae, também conhecidos como Cogumelos Chifre Fedido (stinkhorn mushrooms), existe apenas um lado: o absolutamente desagradável. Tudo nele, de seu nome, ao seu gosto, passando pela sua aparência e o ciclo de existência, são um testemunho ao horror escatológico.

O stinkhorn geralmente é encontrado aderido a troncos de árvores podres e raízes desterradas, crescendo como uma espécie de tumor esponjoso ou apêndice viscoso de coloração vibrante, sendo vermelho, roxo e laranja suas cores mais frequentes. Ele pode ter diferentes tamanhos, mas alguns agregados podem chegar a 20 ou 30 centímetros de largura e altura, algumas vezes até mais. 

A forma dele também chama a atenção e lhe valeu o nome científico Phallus impudicus, algo como Falo sem Pudor. No século XVI, quando foi catalogado pela primeiras vez pelo botânico John Gerard, ele ganhou o apelido de "fungus virilis penis effigie" (ou seja efigie fungóide de penis viril). Isso tudo porque o fungo se assemelha em forma, tamanho e porque não dizer, aspecto geral, ao membro masculino em posição ereta. Observem as fotos e tirem as suas próprias conclusões a respeito.

Mas não é essa a característica mais estranha a respeito do fungo. Se fosse, isso estaria tudo bem, piadas de quinta série à parte... infelizmente há muito mais a respeito dele e estamos apenas começando.


É fácil presumir a existência dessas estruturas fungoides mesmo à distância em seu habitat natural, as florestas tropicais. Antes mesmo de encontrá-los é possível sentir seu cheiro nauseante que se espalha por uma área bastante ampla. Descrito como uma mistura medonha de esterco, esgoto cru e putrefação, o fedor é tão pronunciado que pessoas sensíveis expostas a ele não raramente são acometidas de uma onda de asco e repulsão, tão forte que acabam vomitando ou perdendo a consciência. Há casos de indivíduos desmaiando e sofrendo uma forte reação alérgica que literalmente afeta seu olfato por semanas - ou seja, as pessoas deixam de registrar odores quando expostas a ele. 

Não por acaso, esse fedor medonho age como uma espécie de ima para insetos, em especial moscas. Ao redor de cogumelos chifre fedido proliferam verdadeiras nuvens de moscas, de todos os tamanhos e tipos, em especial blowflies, as nossas varejeiras. O odor do fungo é tão convidativo que afeta as moscas fazendo com que elas se sintam especialmente interessadas em procriar. E como essas diabinhas se multiplicam! Alguma centenas de moscas se tornam milhares em pouco tempo. O ar, saturado pelas emanações repulsivas do cogumelo acaba sendo tomado por milhares de moscas que prenhes e inchadas, zunem e zumbem sem parar, numa cacofonia interminável. 

O ponto focal de toda essa atividade é o topo do fungo, uma espécie de cabeça viscosa e nodosa, recoberta de uma substância gotejante chamada gleba. Esta é a fonte do cheiro que para os insetos equivale a amor. As moscas povoam essa pequena porção, rodopiando e pousando sobre ela, carregando consigo os esporos que darão origem a novas estruturas fúngicas. Não por acaso, algumas tribos no Equador apelidavam esses fungos de "pênis de homens mortos", não apenas pela forma e fedor, mas pelo fato dos insetos as procurarem.

Bizarra e desagradável como possa ser, o ciclo de vida desse cogumelo é bastante curioso (e por "curioso" eu quero dizer repulsivo).

A coisa piora! Se quiser parar agora de ler eu compreendo...

Não? Então vamos lá.

O momento mais importante da existência do chifre fedido é uma etapa conhecida como frutificação.

Na frutificação o cogumelo aumenta sua massa e se expande para o alto, com o intuito de atrair o maior número possível de insetos como uma antena. A medida que ele cresce, produz ovos que se espalham pelo topo da estrutura que então começa a se desfazer em uma substância verde gelatinosa que goteja em profusão abrindo-se como tentáculos. Essa substância, a gleba, é composta quase exclusivamente de dimetil trisulfido, um componente químico cujo cheiro se assemelha ao da necrose humana. É como o fedor de uma ferida gangrenosa em estágio final e isso é o bastante para atrair uma multidão de moscas.

As moscas comem a substância se beneficiando de suas proteínas ou carregam os esporos consigo nas patas e proboscis a medida que voam. Estes esporos serão disseminados nas fezes, aumentando as chances de novas colônias de fungos se desenvolver.

O fedor, as moscas, o aspecto e tudo mais descrito acima já deveria servir para colocar o chifre fedido na lista das coisas menos apetitosas do planeta, mas acredite, não é bem assim. Há pessoas interessadas em utilizar, preparar e até comer essa coisa nojenta.

Presente na Inglaterra e França, uma variante desse cogumelo medonho ganhou fama na Idade Média pelas suas alegadas faculdades mágicas. Tradicionalmente existe uma vasta associação entre bruxaria e fungos, em especial pelo fato de que feiticeiras supostamente reconhecerem as características químicas de certos fungos e os utilizar para seus malefícios (e claro, ganhar alucinações e ter visões).


O chifre fedido era usado para esse propósito. As bruxas encontravam o fungo e o destilavam com uma série de ingredientes antes de produzir uma espécie de néctar que ingerido causava as reações desejadas. Em primeiro lugar, a substância supostamente aumentava a libido e as possibilidades de fecundidade. Além disso, a substância reduzida a um tipo de cera e absorvido pelas mucosas do corpo, causava um efeito semelhante ao de exultação. Finalmente, haviam ainda as potentes alucinações causadas pelo uso direto do fungo chifre fedido. Na literatura pagã há relatos de bruxas que supostamente arrancavam o cogumelo do chão e o mordiam in natura para absorver dele as propriedades desejadas. É claro, precisa-se desconsiderar muitas dessas narrativas como exagero, ainda que o uso do cogumelo em tradições pagãs seja reconhecido.

Nas selvas da América do Sul, onde o cogumelo também é encontrado, sabe-se de xamãs e feiticeiros tribais que o usavam com propósitos similares de ter a partir de seu consumo visões e presságios. No Peru, se valiam do cogumelo para atingir uma espécie de transe divino. Já na África, o chifre fedido ainda é usado como um tipo de filtro afrodisíaco natural, supostamente capaz de conceder potência sexual aos corajosos (ou desesperados) o bastante para consumi-lo.

Mas nada é ainda mais detestável o uso dele como iguaria culinária. 

Pasme, mas existem pessoas interessadas em comer essa coisa. Não vou descrever todas as variedades que encontrei a respeito do consumo desse fungo, mas vou me limitar a apenas uma receita que vem da Guiné e me chamou a atenção por ser uma das coisas mais repelentes que li (e olha que já li muita coisa esquisita - fucking weird shit). 


Pronto ou não, lá vai...

O cogumelo chifre fedido é usado tão somente como recheio desse prato - literalmente. As tribos preparam a iguaria coletando as moscas varejeiras que voam ao redor do fungo, usando para isso filamentos de cipó embebidos em uma seiva natural. Os insetos ficam grudados nessa seiva como se ela fosse teia de aranha. Em seguida, eles são colocados em um pilão onde são esmagados até virar uma polpa. O cogumelo é cortado e temperado com pimenta e ervas, em seguida colocado no interior da massa de moscas esmagadas e moldado como um bolinho arredondado. Este é frito em óleo quente como os nossos bolinhos de acarajé. A iguaria, rica em proteína é tida como um prato digno de reis e pessoas importantes, oferecido a dignatários. Me lembre de jamais ir para a Guiné.

É notável como a percepção daquilo que é considerado repulsivo ou asqueroso para uma cultura é visto como aceitável e até desejável para outra.

Sexo, morte e piadas de péssimo gosto à parte, o Cogumelo Chifre Fedido se destaca em um campo de refinados prazeres e obscenos gostos.
E para sua alegria, eis aqui a Frutificação em velocidade acelerada: 

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Gustave - O aterrorizante Matador dos Rios da África


Existe um assassino à solta nos rios do Burundi.

Trata-se de um matador implacável, que ataca e desaparece com as suas vítimas ou as mutila e abandona agonizando. O horror que ele tem causado é tamanho que o povo local sussurra seu nome, temendo que a simples menção possa atrair azar ou tragédia. Muitos tem histórias para contar, a respeito de amigos, conhecidos ou mesmo parentes que se foram mortos em meio a um violento turbilhão de sangue e medo.

Chamam-no de várias coisas: O Grande Devorador. O Monstro da Água Negra. A Besta de dentes afiados. O Devorador de Hipopótamos.

Ele é mais conhecido, entretanto, por um nome dado décadas atrás: 

Gustave.

O monstro é um Crocodilo do Nilo, um tipo de réptil de grandes proporções que pode atingir até 8 metros de comprimento e é conhecido pela agressividade. Gustave, no entanto, é muito maior que os demais crocodilos que infestam os rios e lagoas do Burundi, pequeno país centro africano. O animal teria pelo menos 11 metros do focinho até a cauda, ainda que alguns acreditem que ele possa atingir até mais do que 15 metros. 


O Crocodilo do Nilo é um animal impressionante. Ele parece ter sido projetado com o único propósito de nadar, se esconder e devorar suas presas. Mas Gustave é ainda pior. Em sua sanha por sangue, ele age de forma incansável, cumprindo o programa inserido na sua mente de predador.

A história já foi tema de documentários e serviu de base para filmes e programas de televisão. 

A população que vive às margens do Rio Ruzizi, tem um medo mortal dessa fera que os aterroriza há mais de 30 anos. De acordo com os moradores, Gustave já matou mais de 300 pessoas durante as últimas décadas, praticamente 10 vítimas por ano. Isso sem contar aqueles que sobreviveram ao ataque.

Alguns supersticiosos acreditam que Gustave é mais do que um animal selvagem. Seria ele um "demônio" que escolheu encarnar em um animal da selva e usá-lo para causar terror. Isso porque as atrocidades dele vão muito além do que se poderia esperar de uma criatura irracional. Ao contrário da crença comum, crocodilos não costumam agir com intento homicida, exceto quando estão famintos ou acuados. A maioria dessas criaturas ataca para se alimentar ou para proteger seus filhotes ou a si mesmos. Gustave, no entanto, parece matar por esporte e com um prazer que poderia ser descrito como humano.


Outra explicação presente no folclore menciona um feiticeiro que usando magia negra exerceria controle sobre o Crocodilo Gigante, ou ainda, assumiria a forma do gigantesco réptil para matar impiedosamente. No Burundi, magia é algo presente no dia a dia e extremamente temido.

Pesquisadores e biólogos não são capazes de oferecer uma explicação satisfatória para esse comportamento. Essa espécie de predador de grande porte raramente ataca fora de seu ambiente natural, mas Gustave não apenas contraria essa noção, como o faz frequentemente. Embora a maioria de suas vítimas tenham sido mortas enquanto estavam na margem, pegas desprevenidas, ele também ataca fora da água, sem provocação, aproximando-se para o bote fatal.

Dependendo a quem você perguntar, as façanhas da criatura já ganharam status de lendárias.

A lista de vítimas é imensa e grande parte destas não constituía ameaça, e tampouco foi devorada. Acabaram simplesmente dilacerados pelas presas afiadas e deixados para morrer. O que não faz sentido, já que o instinto natural ditaria que fossem carregados para o fundo do rio afim de serem consumidos. Gustave parece ter um prazer que beira o sadismo, por isso alguns supõem que ele seja realmente maligno. Em seus ataques, ele teria decepado membros e produzido ferimentos graves, contudo, nem sempre fatais.


Em um dos casos mais estranhos, ele teria virado uma canoa, derrubando seis pessoas na água pardacenta do Rizizi. Dessas apenas uma teria morrido, mas as outras cinco tiveram braços e pernas arrancados pela fera, que depois meramente os abandonou à própria sorte.

Outro elemento digno de lendas é a habilidade quase sobrenatural do crocodilo em se esquivar de caçadores e superar qualquer tentativa de abate. Por tudo isso, o governo do Burundi decretou que o crocodilo deveria ser morto para assim garantir a segurança da população. Caçadores foram contratados para o serviço, mas falharam em seu intento já que o monstro conseguia "desaparecer" quando necessário. Quando nada parecia resolver, o exército foi convocado para o serviço e enviou três lanchas fortemente armadas para subir e descer o rio em seu encalço.

Os soldados lançaram carcaças de vacas e cabras no rio e aguardaram que ele viesse apanhá-las. Quando enfim o animal surgiu, dispararam nele rajadas de AK-47 e granadas. Gustave simplesmente mergulhou e fugiu. Segundo especialistas as balas provavelmente não conseguiram penetrar em sua pele grossa. Na última vez que ele foi avistado, cientistas perceberam várias cicatrizes de bala deixadas no corpo do crocodilo.


Depois dessa armadilha, Gustave deixou de se aproximar de lanchas e outras emboscadas armadas falharam. O monstro, entretanto continuou matando indiscriminadamente, tanto humanos quando outros crocodilos, gnus e até mesmo os perigosos hipopótamos. A lógica é simples, por ser muito grande, ele precisa caçar presas igualmente grandes. O hipopótamo é conhecido por ser o mais perigoso animal da savana africana. No entanto, Gustave já matou dezenas e suas carcaças foram achadas nas margens do Rizizi.

Aos habitantes da região de rios e alagadiços em Burundi só resta rezar e pedir proteção para que o Devorador não venha para eles e para suas famílias.

Pois se ele vier, há bem pouco que pode ser feito...

Esse seria um parente "menor" de Gustave

segunda-feira, 1 de julho de 2019

A Lei do Contágio - Um fungo capaz de contaminar, controlar e matar


"A natureza é sábia".

Eu não consigo colocar em palavras o quanto essa frase me incomoda. Não por ser uma inverdade, mas por que a natureza é muitas outras coisas antes de sábia, sendo que IMPLACÁVEL me parece ser a mais flagrante.

Nos implacáveis jogos da evolução e sobrevivência, não há espaço para os fracos. Aqueles que não são capazes de se adaptar ou se valer de suas vantagens acabam sendo removidos do tabuleiro evolutivo. Como resultado: morte, extinção e esquecimento.

Em uma notícia especialmente medonha do mundo natural, cientistas descobriram detalhes a respeito de um fungo que afeta cigarras de uma maneira até então desconhecida. Ele compele seus hospedeiros a acasalar muito depois de seus genitais se desfazerem e transforma seus corpos em simulacros para uma doença mortal que se espalha, domina e mata todos que toca.

O fungo em questão é chamado Massopora cicadina, e seus efeitos quando compreendidos na sua extensão são nada menos do que perturbadores. Na pratica, os pobres insetos são dominados e compelidos a procriar desesperadamente, se tornam incapazes de evitar esse impeto e assumem um comportamento simplesmente bizarro. Que os perverte e vai contra sua natureza. 

Uma equipe de pesquisadores norte-americanos que analisaram uma população de cigarras infectadas pelo fungo patogênico, encontraram efeitos similares a anfetaminas e outros compostos químicos psicoativos.


A agressividade e a forma como esse fungo atua sobre seus hospedeiros surpreendeu até mesmo pesquisadores como Norman Keyser, um dos maiores especialistas em fungos no mundo e que já viu praticamente de tudo.

"Esses compostos psicoativos afetam as cigarras como se fossem drogas que causam mudanças comportamentais acentuadas. Imagine a pior viagem induzida por drogas potentes, multiplicada por 1000. Ainda assim não será perto do que elas experimentam.".  

A forma como este patógeno fungal produz moléculas e enzimas pode abrir caminho para a industria farmacêutica desenvolver drogas e substancias únicas. Entretanto, quando analisamos os detalhes a respeito do M. cicada, nossa primeira reação é querer manter distancia dele e de tudo que ele representa.

O fungo parece se desenvolver em lugares onde a população de cigarras se concentra, infectando arvores e o solo onde as larvas se desenvolvem. Muitas vezes, estas acabam nascendo já infectadas, prontas para espalhar a doença para os outros membros de sua especie. As cigarras contaminadas produzem os esporos em seus próprios corpos, liberando-os a medida que voam e se aproximam de outros membros da especie. Um espécime contaminado desenvolve bolsas tumorosas, grandes e repletas de esporos. Estas crescem no corpo inteiro quase dobrando o peso do inseto. Essas bolsas estouram quando próximas de outros espécimes e os esporos são responsáveis pela transmissão. Um  breve contato já é suficiente para dispersar o fungo que em pouco tempo pode afetar toda população.

Para aumentar as chances de contagio, o fungo ainda tem alguns truques na manga.

Um deles é fazer com que os portadores do sexo masculino voem de uma maneira que remete as fêmeas da especie, atraindo assim outros machos em uma dança confundida com a do acasalamento. O fungo também compele os machos a mutilar a si mesmos, produzindo ferimentos com suas mandíbulas para que eles se tornem semelhantes as fêmeas. Basicamente, eles arrancam os próprios órgãos genitais, preenchendo as cavidades abertas com esporos prontos para espalhar a infecção.


As fêmeas da especie são igualmente afetadas nessa guerra biológica. Seu sistema reprodutor se transforma em uma fabrica de esporos que são produzidos ate que seus corpos se tornem grotescos, deformados e inchados. Em seguida, elas voam na direção do solo e morrem. Seus corpos literalmente explodem de dentro para fora, espalhando os esporos no solo onde se encontram as larvas e os ovos, contaminando tudo.

Se isso não fosse o bastante, o fungo age diretamente no comportamento das cigarras infectadas. Elas se transformam em zumbis com um único propósito: acasalar. Mesmo debilitadas pela falta de comida ou feridas pelo contato sexual repetido, as cigarras continuam buscando parceiros, muitas vezes morrendo na ânsia de cumprir a programação estabelecida pelo fungo.

"Adultos infectados mantém uma atividade sexual frenética na qual trocam de parceiros repetidamente. Comparativamente, seria como um humano adulto ter 20 ou 30 relações sexuais em um único dia, incapaz de conter seu impeto. O método hostil de contágio adotado por esse fungo é tão engenhoso quanto aterrorizanteSe tal coisa acontecesse com seres humanos, nossa sobrevivência enquanto especie estaria ameaçada".

Transferindo os elementos dessa infecção fúngica das cigarras para a raça humana, temos o enredo de um filme de horror absurdamente medonho. 


Imagine centenas de homens e mulheres infectados por esse fungo atroz, seus corpos deformados pela infecção de esporos. Eles se sentiriam compelidos a atacar sexualmente outras pessoas, de ambos os sexos, para transmitir sua doença letal. Sem se importar com a moral ou ética, esses portadores simplesmente iriam se atirar sobre as suas presas com o intuito de transmitir a moléstia fervilhando em seus corpos. Fariam sexo dezenas de vezes por dia, para garantir a dispersão dos esporos. Sem se preocupar com necessidades básicas como comer ou dormir, agiriam como zumbis.

Ao mesmo tempo, as fêmeas se tornariam viveiros vivos. Seu organismo se devotaria exclusivamente à produção de esporos. Seu ventre e útero, infestado por patógenos, desenvolveria massas tumorosas de esporos que fariam seus ventres se distender grotescamente. Assim uma quantidade absurda de esporos seriam estocados em seus corpos. E quando estivessem no limite, elas simplesmente explodiriam com uma violenta liberação de gases, espalhando a doença no ar, para infectar novos hospedeiros. 

Terror! 

Terror completo e sem precedente dentro de nossa própria natureza.

Claro, estamos extrapolando os conceitos com objetivo de ser o mais aterrorizante possível em nossas descrições. Não se sabe de fungos na natureza capazes de afetar sistemas nervosos complexos como o do ser humano, mas os fungos estão sempre se adaptando. E é com frequência que descobrimos algo novo (e aterrorizante) a respeito deles.


As cigarras conseguem evitar sua extinção uma vez que também se adaptam ao efeito dos esporos e desenvolvem resistência, mas a cada geração, os fungos também sofrem mudanças para afetar uma nova geração até então, imune. Se um dia uma geração de cigarras não conseguir se adaptar a tempo, é possível que todas acabem sendo infectadas, desaparecendo para sempre. Nesse caso, talvez o fungo busque outro tipo de hospedeiro e quem pode imaginar que especie ele irá escolher.

Dizem que a natureza é sábia.

Eu fico com implacável!

Pergunte às pobres cigarras.

*     *     *

E para quem quer se assustar um pouco mais com a interação de fungos e insetos, recomendo esse artigo AQUI.

E esse outro, a respeito de mais uma demonstração adorável de parasitas agindo na natureza: AQUI AGORA.