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quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

O Saque de Constantinopla - A Cruzada que destruiu a capital do Império Bizantino


Apesar dos fracassos na Segunda e Terceira Cruzadas, a Europa ainda não havia se dado por satisfeita e tão logo o conflito terminou, uma nova Incursão começou a ser planejada.

O movimento, contudo, carecia de liderança, precisava de comandantes e principalmente dependia de dinheiro. Estava claro para todos que um empreendimento do porte das cruzadas era algo caro e arriscado, não apenas do ponto de vista militar, mas principalmente econômico. Não era possível deslocar grandes contingentes de pessoas, pagar pelo esforço delas, abastecer e suprir as fileiras de soldados apenas com promessas de redenção. Os homens precisavam de mais do que sustento espiritual, careciam de ouro tilintando em suas bolsas.

Ninguém fingia surpresa diante do fato que as Cruzadas eram um empreendimento tanto econômico quanto religioso, contudo, na Quarta Cruzada tal coisa ficou escancarada. A recompensa material era tão almejada, talvez até mais desejada pelos homens, que a espiritual.

Não por acaso, a Quarta Cruzada é considerada uma das mais absurdas e vergonhosas empreitadas da História Medieval. Não apenas seus resultados foram medíocres do ponto de vista militar, mas resultaram em um agravamento na conturbada relação entre a Santa Sé de Roma e a Igreja Ortodoxa. Resultou também na destruição de uma das maiores e mais modernas cidades da antiguidade, um orgulhoso marco da civilização que remontava ao Império Romano. Devastado pela sanha de riqueza de aproveitadores e ignorantes. O mundo antigo e a Idade Média nunca mais seriam os mesmos após essa trágica Cruzada.


A motivação principal dos cruzados uma vez mais focava na reconquista da Terra Santa supostamente pertencente à Cristandade. Mas diferente das demais, essa incursão concentrava seus interesses na Conquista do Egito, poderoso Reino muçulmano que uma vez submetido serviria como ponta de lança para outras vitórias no Oriente Médio e com o tempo Jerusalém. A obliteração do Sultanato Ayubita que governava o Cairo, era visto como uma meta essencial para o sucesso da empreitada. Sem essa vanguarda de valorosos guerreiros para conter uma invasão, a Terra Santa poderia ser tomada de assalto.

Aliados aos venezianos, os Cruzados francos e germânicos, tencionavam usar a poderosa Marinha da Cidade Italiana em sua jornada. O Doge de Veneza, Enrico Dandolo ofereceu uma frota para auxiliar no transporte dos 35 mil homens que compunham a cruzada, um feito notável. Mas o Doge manipulou os comandantes, oferecendo vantagens se eles realizassem ações que lhe fossem vantajosas.

Desde o início a Cruzada foi marcada por erros de gerenciamento e a falta crônica de recursos. Os Cruzados desejavam chegar ao Egito, mas não tinham dinheiro em seus cofres para suprir suas necessidades mais básicas. De fato, os cavaleiros cruzados estavam tão quebrados que não disfarçavam que tudo seria custeado através de pilhagens. Teriam de roubar para custear sua viagem e pagar aos homens o seu soldo. O Doge veneziano viu nisso uma oportunidade de ouro.


Enrico Dandolo convenceu os líderes da Cruzada a atacar a cidade de Zara, na costa da Dalmacia na atual Hungria. Zara era uma cidade rica, governada por rivais mercantis dos venezianos. Em troca de navios para o transporte de homens, os Cruzados agiriam como mercenários, contratados para tomar a cidade e obter recursos com a pilhagem. Havia, no entanto, um problema: Zara era uma cidade cristã e o Papa Inocêncio III havia advertido os cruzados que não seria tolerada qualquer ação temerária contra reinos da cristandade.

Apesar do dilema moral, os comandantes aceitaram realizar o ataque acreditando que "os fins justificariam os meios". Concluída a negociação, o exército cruzado foi conduzido em navios de guerra até a costa da Dalmácia, deixados a poucos quilômetros de Zara. O desembarque anfíbio dos milhares de soldados foi um dos primeiros dessa natureza. Os homens realizaram um ataque direto brutal, mas como as defesas resistiram bravamente, decidiram adotar um cerco. Após duas semanas tentando romper o acesso à cidade, os cruzados não haviam conseguido qualquer sucesso. A situação só mudou quando os venezianos trouxeram armas de cerco para reforçar a força de ataque. Guarnecidos com catapultas, trebuchets e aríetes, a investida ganhou ímpeto. Os valorosos defensores não tinham como resistir e acabaram se rendendo oferecendo um acordo que pudesse salvar os habitantes.

Apesar das promessas de que os cidadãos seriam preservados, a entrada do exército foi violenta com casas destruídas, igrejas saqueadas e um autêntico massacre. Os invasores francos e venezianos divergiam sobre a divisão do saque o que ocasionou ainda mais disputas. Zara foi pilhada até que não restasse nada de valor na cidade, os navios apreendidos pelos venezianos e as tropas dispersas. A noticia da pilhagem de Zara chocou a Europa e fez com que o Papa excomungasse todos os envolvidos.

Mas o pior ainda estava por vir!


Após esse incidente, os Cruzados aceitaram se aliar a Aleixo Angellus filho do Monarca deposto de Constantinopla. Aleixo se aproximou deles prometendo recursos suficientes para seguir com a tropa para o Egito, se o Exército Cruzado lhe ajudasse a retomar o trono do seu pai Isaac II Angelos. Com isso, eles contariam com um aliado poderoso em Bizâncio que ajudaria a cumprir seus objetivos originais - Conquistar Jerusalém.

O Exército então se dividiu, com um contingente seguindo para Acre, no Oriente Médio, e uma tropa muito maior rumando para os portões da capital do Império Bizantino. Esta tropa cercou a cidade por alguns dias enquanto um acordo emergencial era costurado entre o Imperador e seus rivais. O Imperador permitiu a entrada dos cruzados nos limites da cidade acreditando que eles não ousariam erguer suas armas contra um reino cristão.

Os historiadores divergem até os dias de hoje sobre as motivações dos cruzados. Alguns acreditam que eles planejavam tão somente devolver a Isaac II o trono, contudo outros defendem que as maquinações do Doge Dandolo foram cruciais para mudar os planos e influenciar o que aconteceu em seguida. Veneza era rival comercial e lucraria enormemente com a remoção permanente da Capital Bizantina do cenário mercantil. Seja lá quais fossem os planos, por pressão dos cruzados, Aleixo Angelos foi nomeado co-Imperador. Contudo ele permaneceu no trono por pouco tempo, sendo deposto e assassinado logo em seguida em uma revolta arquitetada pelos seus oponentes.

Privados de seu aliado e acreditando que estavam sendo ludibriados, os comandantes cristãos exigiram que os acordos firmados com o falecido Aleixo fossem cumpridos. Quando o Imperador bizantino se negou a atendê-los, decidiram conquistar Constantinopla e fazer valer sua vontade.


Os Cruzados conseguiram adentrar os muros da cidade imperial com relativa facilidade e uma guarnição de 70 homens abriu os portões para a entrada dos demais. Nos limites ao norte, os venezianos escalaram os muros usando cordas e escadas improvidas enquanto outros tiveram sucesso arrebentando as muralhas e invadindo em massa. Um incêndio de grandes proporções se iniciou quando os cruzados tentaram romper o portão principal. Este se espalhou, mas foi contido. Um segundo incêndio, ainda maior se alastrou pela cidade queimando tudo que encontrava pela frente. Em meio ao caos e terror, a população tentava se refugiar em palácios e templos acreditando que seriam poupados. As casas menores e propriedades queimavam, famílias eram massacradas pela horda feroz que não admitia qualquer resistência. Por fim, temendo o pior, a cidade capitulou, mas isso não impediu o Saque que veio em seguida.

Os cruzados saquearam Constantinopla pelos três dias que se seguiram. 

Durante esse período muitas obras de arte greco-romanas antigas e medievais foram roubadas ou arruinadas. Bibliotecas, palácios e museus arderam. Templos foram pilhados, altares virados e cofres de instituições bancárias roubados. Inebriados pela riqueza os cruzados se entregaram ao roubo sem pudores. Apesar da ameaça de excomunhão, eles destruíram, devastaram e saquearam os tesouros de igrejas e mosteiros da cidade. Acredita-se que o valor total saqueado de Constantinopla foi de cerca de 900.000 marcos de prata. Os venezianos receberam 150.000 marcos de prata que lhes eram devidos, enquanto os cruzados receberam 50.000 marcos de prata. Outros 100.000 marcos de prata foram divididos igualmente entre os cruzados e os venezianos. Os 500.000 marcos de prata restantes foram retidos por cavaleiros e soldados que levavam tudo que conseguiam carregar em suas mãos ávidas.  

Grande parte da população civil da cidade foi morta e suas propriedades saqueadas. Mulheres foram estupradas e crianças executadas em um frenesi sanguinário que contagiou os invasores. Os cruzados não se importavam com quem eram suas vítimas - num primeiro momento judeus e muçulmanos que viviam na cidade sofreram, mas logo qualquer habitante local podia ser morto. Os assassinatos se multiplicaram em todo o canto. Nas praças, as fontes vertiam sangue, velhos eram obrigados a pular das muralhas e religiosos foram executados à sangue frio quando tentava conter os ladrões. Nada os detinha, nenhum argumento, nenhuma justificativa. Cegos pelo brilho fugaz do ouro e pela promessa de riqueza, eles se permitiam qualquer ato, não importando o quão reprovável. 


Quando o Papa recebeu notícias sobre o ocorrido se encheu de vergonha e raiva, mas nada mais podia ser feito. A cidade ardeu por dias sem que houvesse quem apagasse as chamas que devoravam tudo. Muitos prédios antigos foram consumidos até não restar nada senão escombros calcinados. Mesmo o Palácio real foi saqueado pela turba que deixou um rastro de destruição após a sua passagem. 

Os venezianos encheram seus navios com tesouros roubados, estátuas e obras de arte valiosas que abarrotaram os porões de suas embarcações. Prometeram que voltariam tão logo levassem os espólios para sua terra natal, mas jamais retornaram. Saciados pela riqueza conquistada, os venezianos decidiram que a cruzada já não valia mais a pena ser lutada. Da mesma forma, os soldados, agora ricos, desertavam aos montes e desguarneciam as fileiras do exército cristão. Alguns poucos decidiram se manter fiéis a proposta original e zarparam para Acre com o intuito de se juntar aos outros que lá os aguardavam. Mas a maior parte simplesmente decidiu que não queria mais tomar parte no empreendimento religioso, não agora que estavam ricos. Grupos se juntaram para fretar navios que os levassem de volta para a Europa deixando para traz as ruínas fumegantes da cidade que um dia foi a jóia maior da Cristandade.

Constantinopla já existia há 874 anos antes da época da Quarta Cruzada e era uma das maiores e mais sofisticadas cidades do mundo antigo. Talvez fosse o único lugar no Mundo Cristão que conseguia se equiparar às maravilhas das cidades islâmicas. Quase sozinha entre os principais centros urbanos medievais, manteve em funcionamento as estruturas cívicas, os banhos públicos, os fóruns, os monumentos e os aquedutos da Roma clássica. Era um triunfo arquitetônico de beleza e requinte inigualável com uma população culta e civilizada.

No seu auge, a cidade abrigou uma população estimada em cerca de meio milhão de pessoas protegidas por 20 quilômetros de muralhas com paredes triplas. Era inexpugnável e riquíssima. A sua localização fez de Constantinopla não apenas a capital da parte oriental sobrevivente do Império Romano, mas também um centro comercial que dominava as rotas comerciais do Mediterrâneo ao Mar Negro, seus mercadores visitavam terras distantes como China, Índia e Pérsia. Delas transbordavam riquezas e cultura inestimável.


Mas em 1203 ela quase deixou de existir  no rastro da Quarta e mais vergonhosa cruzada. 

A cidade, capital do Império Bizantino mudaria de mãos e seria absorvida nos séculos que se seguiram pelas tribos muçulmanas que a dominariam, substituindo a cruz no alto das torres pela lua crescente no topo dos minaretes. Em tempo, se tornaria a Capital da Turquia e doravante seria parte do Mundo Islâmico.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

"Deus quer!" - A Primeira Cruzada para Conquistar a Terra Santa


Guerra em nome de Deus.

As grandes religiões do mundo uniformemente pregam a paz e piedade, contudo a História, especialmente a história da Idade Média mostra que religião e violência andavam juntas e não estavam em contradição uma com a outra.

A crença em Deus por vezes está ligada a noção de lutar em nome de Deus e de ser recompensado no Paraíso. aqueles que morrem em nome da Guerra Santa se tornam mártires e tem benefícios garantidos pelas suas crenças. A palavra Islã significa Paz e Cristo ensina que amar nossos inimigos é necessário, mas em nome dessas crenças, o mundo se lançou em um sangrento movimento conhecido como a Cruzada.

Nessa série de artigos do Mundo Tentacular, vamos cobrir um dos momentos mais importantes da História Medieval e de como acontecimentos tão distantes, aparentemente perdidos no tempo, ainda reverberam através da História e afetam os dias atuais. Falaremos também de ficção e de como as cruzadas podem ser usadas como um componente real de terror em crônicas onde resplandece o Horror Cósmico. Afinal, poucas coisas podem ser mais assustadoras do que uma guerra movida pelo fanatismo cego.

A Cristandade por volta do ano 1100 era marcada por um profundo senso de fé e pelo desejo pessoal de se atingir uma vida santificada. Foram esses sentimentos que levaram tantas pessoas a empreender uma guerra de 200 anos distribuída em sete longas campanhas de morte e conquista em nome do Príncipe da Paz. Para compreender o que foram as Cruzadas é preciso entender que a Idade Média foi uma época de grande violência e brutalidade e mesmo a religião estava impregnada por tais elementos. Demonstrar atitude diante do que muitos acreditavam ser uma agressão direta contra a fé cristã, era uma forma de encontrar o caminho da virtude. 

A Igreja também incentivou uma estranha mistura de fé e serviço militar que lançou uma multidão num furor de fanatismo e zelo. Milhares deixaram suas vidas e seguiram para o Oriente Médio, abandonaram o cotidiano e suas famílias seguindo um desejo de ver o mundo, conhecer a Terra Santa e libertá-la do jugo de inimigos da fé - os infiéis. Entre sucessos e fracassos eles mudaram o panorama da Idade Média para sempre.


Foi o Império Bizantino que indiretamente deu início às Cruzadas quando pediu ajuda à Roma para auxiliar os peregrinos que viajavam para a Terra Santa. Muitos tinham o desejo de conhecer os lugares descritos na Bíblia e trilhar as estradas onde Cristo e seus discípulos andaram. Na época, o Islamismo era uma religião em crescimento e o fortalecimento das nações muçulmanas ameaçava Bizâncio. Ao seu redor, os países que louvavam o profeta se tornavam cada vez mais poderosos. Eventualmente eles passaram a controlar as rotas de comércio e a maior parte da Terra Santa, inclusive a cidade de Jerusalém.

Começaram a surgir então rumores alarmantes sobre peregrinos sendo atacados por bandidos muçulmanos. O Patriarca de Bizâncio, Alexios I pediu auxílio ao Papa Urbano II para que ele intercedesse. O Papa viu nisso uma forma de estreitar os laços com a Igreja Católica Oriental que havia se separado em um Grande Cisma. Entretanto, os boatos eram enormemente exagerados: Muçulmanos estariam profanando a Terra Santa, peregrinos estariam sendo assassinados e mosteiros sendo destruídos. Pior ainda, os rumores davam conta de que os lugares santos estavam sendo controlados por infiéis que não respeitavam a importância do berço da cristandade. Essas narrativas se espalharam rapidamente e no ano de 1095, durante o Concílio de Clairmont, o Papa Urbano II fez um discurso emocionado que mudaria o curso da história.

Ele conclamou todas as pessoas da Cristandade a se manifestar imediatamente e fazer a sua parte no que ele chamava de Missão Divina. Era dever de todo cristão ajudar a libertar Jerusalém da presença dos infiéis e escorraçar os muçulmanos que controlavam o acesso a Terra Santa. O discurso do Papa inflamou os presentes e gritos começaram a ser ouvidos: "Deus Vult! Deus Vult!" (Deus Quer! Deus Quer!). As pessoas se comprometiam então a abraçar a Cruzada que devolveria a Terra Santa aos seus "donos de direito".

Embora o pedido do Papa tenha chegado a muitas pessoas e se espalhado por todos os cantos da Europa, à princípio houve pouca movimentação de nobres. Entretanto, em 1096, sob o comando de um monge chamado Pedro, o Eremita, uma multidão de 30 mil entusiasmados camponeses foi persuadida a abraçar a causa. Estas eram pessoas simples, ignorantes e sem qualquer perspectiva, que acreditavam estar sendo convocadas para a mais sagrada das missões. Acreditavam que Deus iria prover os recursos para sua viagem e que ao chegarem ao Mar Vermelho, as águas iriam se abrir e permitir a sua passagem. Amparados pela crença em milagres e profecias, eles deixaram campos e glebas e começaram a seguir para o leste.


No mesmo ano, mensageiros papais e religiosos de toda sorte começaram a visitar os reinos da Europa em busca de apoio para a causa religiosa. Alguns Reis e senhores de terras viram nessa aventura inusitada uma forma de expandir seus poderes e ganhar algum benefício junto da Igreja. Era bem sabido que os povos árabes eram ricos, pois tinham um comércio difundido em todo Mediterrâneo. Mercadores árabes contavam histórias sobre enormes cidades e riqueza sem igual. Além disso, a Igreja Católica disseminou a notícia de que aqueles que abraçassem a Cruz (ou seja, se tornassem cruzados) teriam liberdade total para agir conforme desejassem, pois seus pecados estariam perdoados aos olhos de Deus - visto que realizavam um trabalho divino.

Essa carta branca para agir livremente, sem temer o perigo da Danação Eterna, dava aos Cruzados que se juntassem ao movimento, o direito de roubar, pilhar e matar. Nada seria considerado pecado, já que eles estavam agindo em nome do Senhor. A oportunidade de enriquecer e saquear as cidades no caminho, era uma perspectiva boa demais para ser deixada de lado e esse foi o catalizador para a Cruzada ganhar mais e mais adeptos.  

A Primeira Cruzada foi um empreendimento tipicamente europeu. Da França, Normandia, Flandres e Lorena começaram a surgir cavalheiros dispostos a empreender a longa jornada até a Palestina. Eles ainda não tinham organização, mas já começavam a surgir as bases para o que ficaria conhecido como Ordens de Cavalaria - as Sociedades Medievais que se tornaram notórias no período. Os Cavaleiros viam a si próprios como libertadores virtuosos, agentes divinos com a força da civilização. Nem podiam imaginar que os muçulmanos, que eles chamavam de bárbaros e infiéis, eram consideravelmente mais avançados que eles, tendo inúmeras conquistas nos campos da ciência, medicina e conhecimento. O choque cultural entre esses povos foi marcado por estranheza, admiração e desconfiança. Quando os europeus retornaram de sua aventura trouxeram histórias sobre maravilhas e riquezas, sobre um mundo muito mais evoluído e avançado.  

Levaria três longos anos e incontáveis percalços até os cavaleiros chegarem a Jerusalém. A estrada seria pavimentada por guerra, pilhagem e morte. Por onde passavam, os cruzados deixavam um rastro de sangue e destruição que marcou o período com horríveis incidentes. Mas mesmo estes iriam empalidecer diante do que estava por vir. 


Enquanto isso, a Cruzada popular do monge Pedro, o Eremita chegou ao Mar Vermelho em 1099, depois de vagar pelo Leste Europeu como um bando de maltrapilhos. A tropa havia crescido, ganhando adeptos em cada reino que adentrava. Eles acreditavam poder atacar vilarejos, roubar o que precisavam e matar quem resistisse. Havia uma força superior que os absolvia, ou ao menos era o que dizia seu eloquente líder. Ao se aproximar do Mar Vermelho, acreditavam que poderiam cruzar facilmente, mas quando as águas não se abriram conforme esperado, tiveram de negociar com marinheiros e piratas. Muitos deles acabaram sendo enganados e terminaram seus dias escravizados em galés. Outros, que conseguiram cruzar para a margem oriental seguiram em frente como uma horda miserável e suja. Foram alvo fácil dos turcos seljúcidas, que haviam se estabelecido na região e que viram aquela multidão como uma força de invasão. Sua aventura terminou sem que conseguisse chegar a Jerusalém e pouco mais de 3 mil voltaram para casa.
  
A tropa mais bem preparada, composta por nobres cavaleiros e soldados profissionais convergiu de forma mais ordenada, ainda que tenham havido momentos de caos e saques. Eles atingiram os portões de Constantinopla, mas na Capital Imperial, os governantes ficaram tão chocados com a presença inesperada daquele exército que se negaram a recebê-los. Temiam com razão uma possível pilhagem se permitissem a eles entrar na sua bela cidade. Para agradá-los, cederam soldados, serviram comida e bebida à multidão e lhes indicaram o caminho que levava até Jerusalém.

Alguns meses depois, a tropa finalmente chegou ao seu destino na Cidade Santa. Os Cruzados mal podiam acreditar no que viam, assim como os habitantes da cidade que viviam em relativa paz e tranquilidade, respeitando as crenças uns dos outros. Era uma tropa considerável, formada por milhares de homens que haviam empreendido três anos de suas vidas nas árduas estradas da Idade Média. É preciso lembrar que viagens eram incrivelmente perigosas e que aquelas pessoas haviam passado por agruras durante sua jornada. Além disso, eles acreditavam estar adentrando uma nação inimiga.


O grosso do exército acampou nas colinas que cercam a cidade histórica e ficaram debatendo sobre como proceder em seguida. Depois que seu acesso foi negado os comandantes estavam divididos sobre o que fazer em seguida. Alguns temiam realizar um ataque direto a Jerusalém e danificar os lugares santos. Sua indecisão durou pouco! Um grupo de Cruzados liderados por sacerdotes realizou uma romaria em torno da cidade, gritando e rezando. Carregavam cruzes e queimavam incenso. O grupo atraiu a atenção de guardas que imaginavam se tratar de uma investida contra os muros. Uma das portas laterais se abriu e cavaleiros avançaram sobre o grupo causando um massacre. Era o pretexto necessário para a violência explodir.

Os Cruzados investiram de todos os lados, disparando flechas e pedras sobre os portões. Escadas e cordas foram lançadas para transpor as muralhas, enquanto de dentro os defensores disparavam contra a horda. As tentativas de romper as barreiras falharam já que a cidade demonstrava uma resistência ferrenha. 

Mas após cinco semanas de cerco, as defesas de Jerusalém começaram a fraquejar à medida que os recursos no interior da cidade se tornavam mais escassos. Um acordo permitiu que os Cruzados entrassem com a condição de respeitar a população local, mas de nada adiantou. Quando a tropa cristã adentrou os portões da Cidade Santa seguiu-se uma chacina vergonhosa com saques, incêndio, estupro e assassinato. Estima-se que algo em torno de 65.000 habitantes, em sua maioria mulheres e crianças de crença judia e muçulmana, tenham sido massacrados em um frenesi sanguinário. Templos e sinagogas arderam por dias, casas foram roubadas e tudo que podia ser transformado em saque mudou de mãos. 


Foi uma vitória terrível, sangrenta e desesperada, mas a Terra Santa enfim pertencia uma vez mais aos aos Cristãos.

Contudo, essa seria apenas a primeira experiência dos Cruzados no Oriente Médio e o domínio da Terra Santa mudaria de mãos várias outras vezes, como veremos na continuação dessa série.